Um Corpo na Biblioteca

Agatha Christie · Capítulo 2 de 18

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Um Corpo na Biblioteca

Capítulo 2

 

ERA UMA IDÉIA que estava sendo discutida naquele m om ento pelo Coronel Melchett e o Coronel Bantry.

O Chefe de Polícia, depois de exam inar o corpo e m andar seus subordinados executarem as tarefas de rotina, tinha-se dirigido com o proprietário para o escritório, na outra ala da casa.

O Coronel Melchett era um tipo de aspecto irascível, que tinha o hábito de puxar os fios do bigode curto e ruivo. Era o que estava fazendo no m om ento, lançando indagativos olhares de esguelha para o outro Coronel. Finalm ente, perguntou com rudeza:

— Olhe aqui, Bantry. Tenho um a dúvida e gostaria de m e livrar dela. Você, realm ente, não sabe quem é aquela m oça?

A resposta do Coronel Bantry ia ser explosiva, m as o policial o interrom peu.

— Eu sei, eu sei, m eu caro, m as olhe bem . O negócio poderia ser um bocado incôm odo para você. Um hom em casado, que am a sua m ulher e tudo m ais. Mas, aqui entre nós, se tem qualquer ligação com a vítim a, é m elhor dizer agora. É m uito natural querer esconder o fato. Eu faria o m esm o. Mas não convém . Trata-se de um crim e. Os fatos acabam vindo à luz. Não estou sugerindo que você tenha estrangulado a j ovem ... não o creio capaz disso. Suponham os que ela tenha entrado aqui e o estivesse esperando e um suj eito ou outro a tivesse acom panhado e m atado aqui dentro. É possível, sabe. Com preende o que eu quero dizer?

— Ora essa, Melchett, eu lhe asseguro que nunca vi aquela m oça na m inha vida! Eu não sou hom em dessa espécie.

— Está bem , então. Não o queria ofender, cham ando-o de m undano. Mas a questão continua de pé: o que estaria ela fazendo aqui? O certo é que não é daqui deste lugar.

— Até parece um pesadelo — disse o dono da casa tom ado de raiva.

— Aí está a questão, m eu caro. O que estaria fazendo na sua biblioteca?

— Com o posso saber? Eu não a cham ei aqui.

— Não, não. Mas, sej a lá com o for, ela veio. Parece que queria vê-lo. O senhor não recebeu nenhum a carta estranha ou coisa que valha?

— Não, não recebi nada.

O Coronel Melchett perguntou delicadam ente:

— O que esteve fazendo na noite passada?

— Estive num a reunião na Associação Conservadora. Às nove horas, em Much Benham .

— E quando voltou para casa?

— Saí de Much Benham um pouco depois das dez. Ocorreu, porém , um bocado de contratem pos no cam inho e tive de trocar um pneu. Quando cheguei a casa faltavam quinze para m eia-noite.

— Esteve na biblioteca?

— Não.

— Foi pena.

— Estava cansado. Fui direto para a cam a.

— Ninguém o esperava?

— Não. Eu sem pre levo as chaves. Lorrim er recolhe-se às onze horas, a não ser que lhe dê ordens em contrário.

— Quem fecha a biblioteca?

— Lorrim er. Geralm ente às sete e m eia nesta época do ano.

— Teria ele estado lá durante a noite?

— Durante m inha ausência, não. Ele deixou a bandej a com uísque e copos no salão.

— Está bem . E sua senhora?

— Não sei. Ela estava deitada quando cheguei, e adorm eci logo. Pode ter estado na biblioteca ontem à noite, ou na sala de estar. Esqueci de lhe perguntar.

— Está bem . Saberem os logo todos os detalhes. É claro que algum criado pode estar envolvido, não acha?

O Coronel Bantry m eneou a cabeça.

— Não o creio. São todos m uito corretos. Estão conosco há anos.

Melchett concordou.

— É, não parece provável que estej am m etidos nisso. Tudo indica que a m oça veio da cidade, talvez com algum j ovem . Mas por que teriam entrado nesta casa...

Bantry o interrom peu.

— De Londres. É o m ais provável. Não tem os dessas ocorrências por aqui, pelo m enos...

— O que quer dizer com isso?

— Palavra de honra! — explodiu o Coronel Bantry. — Basil Blake!

— Quem é ele?

— Um j ovem ligado à indústria cinem atográfica. Um suj eito grosseiro e pernicioso. Minha m ulher o defende porque foi colega de sua m ãe na escola. Mas não passa de um m equetrefe dessa j uventude inútil e decadente! Precisa de um pontapé na traseira! Mora naquele bangalô na Lansham Road, sabe, nesse estilo de construção horrivelm ente m oderno. Dá festas ali, com grupos barulhentos e estridentes, e recebe m oças nos fins de sem ana.

— Moças?

— Sim , na sem ana passada tinha um a. Um a dessas louras platinadas...

O Coronel deixou cair o queixo.

— Um a loura platinada, hein? — disse Melchett pensativo.

— Exato. Você não acha, Melchett...

O policial interrom peu-o incontinenti.

— É um a possibilidade. Explica um a j ovem desse tipo em St. Mary Mead. Acho que preciso ter um a conversa com esse j ovem ... Braid... Blake... com o é m esm o seu nom e?

— Blake. Basil Blake.

— Estaria em casa agora?

— Vam os ver. Que dia é hoj e? Sábado? Em geral não sai daqui nas m anhãs de sábado.

— Vam os ver — disse Melchett som briam ente.

* * *

A casa de Basil Blake, que reunia todas as com odidades m odernas encerradas num a horrível concha de estrutura aparente e pretenso estilo Tudor, era conhecida pelos funcionários dos correios e pelo construtor William Booker com o Chatsworth (Casa de Tordos); por Basil e seus am igos com o A Peça da Época, e para a aldeia de St. Mary Mead, em geral, com o “a casa nova do Sr. Booker”.

A casa estava a pouco m ais de quatrocentos m etros da aldeia, situada num a nova área de construção que tinha sido com prada pelo em preendedor Sr. Booker, pouco adiante do Blue Boar, de frente para o que tinha sido um a vereda particularm ente intacta. Gossington Hall estava a m ais ou m enos um quilôm etro e m eio, ao longo da m esm a estrada.

St. Mary Mead foi tom ada de vivo interesse, quando correu a notícia de que “a casa nova do Sr. Booker” tinha sido com prada por um astro de cinem a. Todos estavam ansiosos para presenciar o prim eiro aparecim ento da im portante personalidade na aldeia. E pode-se dizer, que no tocante às aparências, Basil Blake era tudo que poderia ser im aginado. Pouco a pouco, entretanto, a realidade dos fatos com eçou a transpirar. Basil Blake não era astro de cinem a, nem tam pouco trabalhava em film es. Era ainda m uito j ovem e se com prazia com o título de ser m ais ou m enos o décim o quinto da lista dos responsáveis por Decorações de Am biente nos Estúdios Lenville, sede da British New Era Film s. As m ulheres da aldeia perderam o interesse e a classe dirigente de solteironas reprovadoras criticava o sistem a de vida de Basil Blake. Só o proprietário do Blue Boar continuava entusiasm ado com Basil e seus am igos. As rendas do Blue Boar tinham aum entado desde a chegada do j ovem ao lugar.

O carro da Polícia parou do lado de fora do portão rústico e retorcido, nascido da fantasia do Sr. Booker, e o Coronel Melchett, com um a expressão de aborrecim ento pelo excesso de estrutura aparente da casa, dirigiu-se à porta de entrada e bateu energicam ente com a aldrava.

A porta abriu-se m uito m ais rapidam ente do que esperava.

Apareceu um j ovem de cabelos pretos, lisos, um pouco com pridos, usando calças de belbutina cor de laranj a e um a cam isa azul-escuro.

— O que é que o senhor desej a?

— O senhor é o Sr. Blake?

— Sou eu m esm o.

— Gostaria de conversar um pouco com o senhor.

— Com quem falo?

— Sou o Coronel Melchett, Chefe de Polícia do m unicípio.

— Oh, não diga. Que interessante! — disse o Sr. Blake insolentem ente.

E o Coronel Melchett, entrando atrás dele, com preendeu as reações do Coronel Bantry. Estava com eçando a se irritar.

Contendo-se, entretanto, disse, procurando m ostrar-se agradável:

— O senhor é um m adrugador, Sr. Blake.

— O senhor se engana. Eu não m e deitei ainda.

— De fato?

— Mas não creio que o senhor veio aqui para saber a hora em que m e recolho. Se for, será um desperdício de tem po e de dinheiro do m unicípio. O que é que o traz aqui?

O Coronel Melchett lim pou a garganta.

— Ouvi dizer, Sr. Blake, que neste últim o fim de sem ana o senhor recebeu um a visita, ou m elhor, um a loura.

Basil Blake arregalou os olhos, j ogou a cabeça para trás e deu um a gargalhada.

— As gatas velhas do condado foram procurá-lo por causa disso? Por causa de m eus costum es? Ora essa, a m oral não é assunto para a Polícia. O senhor sabe disso.

— Com o o senhor diz — ponderou Melchett secam ente, — não m e interessa sua m oral. Vim procurá-lo por causa do cadáver de um a m oça loura, de aparência, diria, um tanto extravagante, que foi encontrada... assassinada.

— Com o? — Blake o encarou. — Onde?

— Na biblioteca, em Gossington Hall.

— Em Gossington? Na casa do Coronel Bantry ? Aquele ricaço. O velho Bantry ! Aquele velho trapaceiro!

O Coronel Melchett ruborizou-se.

— Por favor, queira controlar sua língua. Vim aqui interrogá-lo na esperança de lançar algum a luz sobre o caso — disse o Coronel, incisivam ente, ao j ovem que se m ostrava de novo sorridente.

— Quer dizer que veio precisam ente para m e perguntar se perdi um a loura? É isso?

Um carro parou à porta rangendo os freios. Um a j ovem , vestindo pij am a preto e branco, saiu dele. Tinha lábios verm elhos, cílios escurecidos e cabelos louros. Encam inhou-se a passos rápidos na direção da porta, abriu-a violentam ente e exclam ou zangada:

— Por que você m e abandonou, seu salafrário?

Basil Blake tinha-se levantado.

— Já vem você! Por que eu a abandonaria? Eu lhe pedi para vir em bora. E você não quis.

— Mas por que diabo eu teria de vir em bora, só porque você queria? Estava-m e divertindo.

— Sim , divertindo-se com o noj ento do Rosem berg. Você sabe com que ele se parece?

— Ah, você está encium ado.

— Não se lisonj eie. Detesto ver m oça, de quem gosto, ficar bêbada sem poder segurar seu copo, e não repelir a pata de um noj ento europeu central.

— Isso é pura m entira. Você é que estava bebendo dem ais e atrás daquela cadela m orena da Espanha.

— Se a convido para um a festa, espero que sej a capaz de se com portar devidam ente.

— O negócio é que não aceito ordens. Você disse que iríam os à festa e voltaríam os para aqui depois. Não vou deixar um a festa antes de estar pronta para partir.

— É claro, e foi por isso que a deixei estendida. Eu estava pronto para sair e não iria ficar à toa, esperando pelos caprichos de qualquer tola.

— Com o é gentil e educado, querido!

— Parece que você m e im ita em tudo!

— Eu quero dizer-lhe o que penso a seu respeito!

— Se acha que m e vai dom inar, engana-se totalm ente.

— E se pensa que m e pode dar ordens, está perdendo seu tem po!

Eles se encararam com olhar feroz.

Foi nesse m om ento que o Coronel Melchett aproveitou a oportunidade e lim pou a garganta fortem ente.

Basil Blake voltou-se.

— Desculpe-m e, esqueci que o senhor estava aqui. Pelo tem po, pensei que j á tivesse ido em bora. Perm ita-m e apresentar-lhe Dinah Lee. O 007 da Polícia local. E agora, Coronel, que o senhor viu que m inha loura está viva e gozando boa saúde, talvez lhe convenha continuar o negócio da piranha do velho Bantry.

— Aconselho-o a usar um a linguagem m ais educada, m eu j ovem , ou acabará tendo dificuldades — disse o Coronel Melchett e saiu bruscam ente, verm elho de raiva.