Um Corpo na Biblioteca

Agatha Christie · Capítulo 15 de 18

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Um Corpo na Biblioteca

Capítulo 15

 

MISS MARPLE PASSOU pela porta envidraçada de sua sala de estar, atravessou com passos leves e curtos seu j ardim bem tratado, saiu pelo portão, entrou pelo portão do j ardim da casa paroquial, atravessou o gram ado e se aproxim ou da j anela da sala de estar, onde bateu de leve na alm ofada.

O pastor estava ocupado em seu gabinete, preparando o serm ão de dom ingo, m as sua esposa, um a m ulher j ovem e sim pática, adm irava o progresso de seu filho engatinhando no tapete.

— Posso entrar, Griselda?

— Com o não, Miss Marple. Olha David. Ele fica zangado porque só pode engatinhar no sentido contrário. Quer apanhar algum a coisa e quanto m ais ele tenta, m ais se distancia.

— Não está m uito m agro, Griselda?

— Mas não está doente, não é? — disse a j ovem m ãe, esforçando-se para assum ir um a atitude de indiferença. — É claro que não m e incomodo m uito com ele. Todos os livros dizem que se deve deixar um a criança o m ais à vontade possível.

— Muito sábio, querida — disse Miss Marple. — Bem , vim saber se você está angariando donativos para algum a finalidade especial neste m om ento.

A esposa do pastor olhou-a espantada.

— Oh, um bocado de coisas — disse alegrem ente. — Há sem pre.

Com eçou a contá-las nos dedos.

— Para a restauração da nave, para a Missão de St, Giles, para nosso leilão na próxim a quarta-feira, para as Mães Solteiras, para um a excursão de escoteiros, para a Associação das Costureiras, para a Cam panha do Bispo para os pescadores de alto m ar.

— Qualquer um a delas serve — disse Miss Marple. — Achei que poderia aj udá-la um pouco... com um livro, sabe, se m e autorizar a fazê-lo.

— A senhora está tram ando algum a coisa? Creio que está. Mas é claro que a autorizo. Faça pela exposição; seria tão bom conseguir dinheiro de verdade em vez dessas horríveis cam isolas infantis e espanadores, tudo feito para se parecer com bonecas. Será que a senhora — continuou Griselda, acom panhando-a à porta — não gostaria de m e dizer de que se trata?

— Mais tarde, querida. Mais tarde — disse Miss Marple apressando-se.

Com um suspiro a j ovem m ãe voltou ao tapete e, com o para se desfazer de seus princípios de ostensiva despreocupação, deu três m arradas no estôm ago do filho, de m odo que pudesse agarrar seu cabelo e puxasse com gritos de alegria. Em seguida rolaram num a luta selvagem , até que a porta se abriu e a em pregada da casa paroquial anunciou o fiel m ais influente da paróquia (que não gostava de criança).

— A dona da casa está.

Ao ouvir isso, Grisela levantou-se e procurou um a postura m ais digna de esposa de um pastor.

* * *

Miss Marple, segurando um caderno preto com anotações feitas a lápis, cam inhava rapidam ente pela rua da aldeia até que chegou ao cruzam ento. Ali voltou-se para a esquerda, passou pelo Blue Boar e parou diante da “casa nova do Sr. Booker”.

Entrou pelo portão, subiu as escadinhas que conduziam a porta principal, onde bateu com pancadinhas rápidas.

A porta foi aberta pela j ovem loura que se cham ava Dinah Lee. Estava m enos m aquiada do que de costum e e, na realidade, parecia um pouco suj a. Usava calças cinza e um a blusa cor de esm eralda.

— Bom dia — disse Miss Marple num tom rápido e alegre. — Posso entrar por alguns instantes?

Ela avançava enquanto falava, de m odo que Dinah Lee, espantada com a visita, não teve tem po de tom ar um a resolução.

— Muito obrigada — disse Miss Marple, m ostrando-se am ável e assentando-se cuidadosam ente num a cadeira de bam bu m uito na m oda.

— Quente dem ais para esta época do ano, não acha? — continuou Miss Marple, desfazendo-se em am abilidades.

— Sem dúvida, faz m uito calor — concordou a Srta. Lee.

Sem saber com o tratar com a situação, abriu um a caixa de cigarros e ofereceu a Miss Marple.

— Aceita um cigarro?

— Obrigada, não fum o. Só vim aqui, sabe, para pedir seu auxilio para nosso leilão de prendas, na próxim a sem ana.

— Leilão de prendas? — disse Dinah Lee, com o quem repete um a frase num a língua estrangeira.

— Na paróquia — disse Miss Marple. — Na próxim a quarta-feira.

— Oh! — a Srta. Lee ficou de boca aberta. — Sinto m uito, m as não posso...

— Nem m esm o um a pequena subscrição... talvez um a m eia coroa?

Miss Marple lhe apresentou o livrete.

— Oh, sim , m as não sei se tenho algum trocado aqui.

A m oça parecia aliviada e se voltou para rem exer na bolsa.

O olhar astuto de Miss Marple percorria toda a sala.

— Estou vendo que a senhora não tem tapete diante da lareira — observou.

Dinah Lee virou-se e a encarou. Não tinha a m enor dúvida de que a velha senhora a estivesse passando por um escrutínio, m as não teve outro sentim ento que não fosse de tédio. Miss Marple o percebeu.

— É perigoso, sabe. As fagulhas podem saltar e cham uscar o tapete.

Gata bisbilhoteira, pensava Dinah, m as lhe respondeu de m odo afável, em bora um tanto vago.

— Havia um aqui. Não sei onde foi parar.

— Acho que era de um tecido m acio e lanoso não era?

— De pele de ovelha — disse Dinah. — Era com que se parecia.

Ela agora se divertia. Que velha excêntrica era aquela? Ofereceu-lhe m eia coroa.

— Está aqui — disse ela.

— Oh, m uito obrigada, querida.

Miss Marple a recebeu e abriu o livrete.

— Que nom e devo escrever aqui?

O olhar de Dinah tornou-se de repente duro e desdenhoso.

Velha nojenta, pensava Lee, foi para isso que ela veio... para espalhar o escândalo.

Respondeu claram ente e com prazer m alicioso.

— Srta. Lee.

Miss Marple olhou para ela firm em ente.

— Não é a casa do Sr. Basil Blake?

— Sim , e eu sou a Srta. Dinah Lee!

Sua voz assum iu o tom de desafio, j ogou a cabeça para trás e seus olhos azuis faiscaram .

Miss Marple continuava a fixá-la.

— A senhorita m e perm itiria dar-lhe um conselho, m uito em bora possa parecer im pertinente? — perguntou.

— Eu o considerarei im pertinente. É m elhor a senhora não dizer nada.

— Não obstante, vou dizer. Quero aconselhá-la, veem entem ente, a não continuar a usar seu nom e de solteira na aldeia.

Dinah olhou para ela.

— O que a senhora quer dizer com isso?

Miss Marple respondeu num tom grave e solene:

— Brevem ente a senhora poderá precisar de toda sim patia e boa vontade que puder encontrar. Seria im portante para seu m arido tam bém que se pense bem dele. Há no interior m uito preconceito com relação a pessoas que vivem j untas sem serem casadas. Estou certa de que isso os divertia m uito, se é o que procuravam . Manter o povo a distância, de m odo que não fossem incom odados pelo que os senhores devem cham ar de “m atronas”. No entanto, as m atronas tam bém têm suas utilidades.

— Com o foi que a senhora ficou sabendo que éram os casados? — perguntou Dinah.

Miss Marple esboçou um sorriso suplicante.

— Oh, querida! — disse ela.

Dinah insistiu.

— Mas com o foi que a senhora soube? A senhora não foi... não foi à Som erset House?

Os olhos de Miss Marple cintilaram m om entaneam ente.

— Som erset House? Oh, não. Mas era m uito fácil de se imaginar. Tudo corre pela aldeia, sabe. A espécie de brigas que vocês têm ... típicas dos prim eiros dias do casam ento. Muito... m uito diferente das relações ilícitas. Já se disse, a senhora sabe, (e eu acho que é um a verdade), que um casal só pode brigar de verdade quando é realm ente casado. Quando não há nenhum vínculo legal, as pessoas são m uito m ais cuidadosas, têm que se convencer de que tudo é feliz e sereno. Elas têm , sabe, de se justificar. Não ousam discutir. As pessoas casadas, j á notei, gostam m uito de brigar e tam bém das reconciliações.

Fez um a pausa, piscando os olhos benignam ente.

— Bem , eu... — Dinah parou e deu um a risada. Assentou-se e acendeu um cigarro. — A senhora é m aravilhosa.

E continuou:

— Mas, por que a senhora quer que confessem os a verdade e aceitem os a respeitabilidade?

A expressão de Miss Marple tornou-se som bria.

— Porque, a qualquer m om ento, seu m arido poderá ser preso por assassinato.

* * *

Dinah ficou olhando para ela durante alguns instantes. Em seguida, perguntou incrédula:

— Basil? Assassino? A senhora está pilheriando?

— Não, de m odo algum . Não tem lido os j ornais?

Dinah prendeu a respiração.

— A senhora se refere àquela m oça... do Maj estic Hotel? Acha que suspeitam de Basil com o seu assassino?

— Sim , suspeitam .

— Mas é um contra-senso!

Ouviu-se um ranger de pneus do lado de fora e em seguida a batida de um portão. Basil Blake escancarou a porta e entrou carregando um as garrafas.

— Trouxe o gim e o verm ute. Você...?

Parou e fixou seus olhos incrédulos na visitante em pertigada e ereta.

Dinah explodiu ofegante:

— Ela está louca? Está dizendo que você vai ser preso pelo assassinato daquela m oça, Ruby Keene.

— Meu Deus! — disse Basil Blake. As garrafas caíram de suas m ãos no sofá. Ele se j ogou sobre um a poltrona, afundou-se nela e cobriu o rosto com as m ãos. — Meu Deus! Meu Deus! — repetiu.

Dinah atirou-se sobre ele, sacudindo seus om bros.

— Basil, olhe para m im ! Não é verdade! Eu sei que não é verdade! Nem por um m om ento posso crer nisso!

Basil levantou as m ãos e segurou as de sua esposa.

— Obrigado, querida.

— Mas por que eles iriam suspeitar... Você nem a conhecia, conhecia?

— Oh, sim , eu a conhecia.

— Sim , ele a conhecia — disse Miss Marple.

— Cale a boca, bruxa velha — gritou altivo. — Ouça, Dinah querida, eu quase não a conhecia. Encontrei-a um as duas vezes no Maj estic. É tudo, j uro que é tudo.

— Não com preendo — disse Dinah, perplexa. — Por que, então, iriam suspeitar de você?

Basil gem eu. Cobriu os olhos com as m ãos e se balançava para lá e para cá.

— O que é que o senhor fez do tapete? — perguntou Miss Marple.

— Eu o j oguei na lata de lixo — respondeu autom aticam ente.

— Foi um a tolice, um a tolice. Ninguém j oga fora tapetes bons. Havia ali lantej oulas do vestido dela, não havia?

— Sim , não consegui arrancá-las.

Dinah gritou:

— De que vocês estão falando?

Basil respondeu m al-hum orado:

— Pergunte a esta senhora. Ela parece saber de tudo

— Se quiser, poderei dizer-lhe o que acho que aconteceu — disse Miss Marple. — Queira corrigir-m e, Sr. Blake, se com eter algum erro. Acho que depois de ter um a briga violenta com sua esposa num a festa e depois de ter, talvez, bebido m uito, o senhor apanhou o carro e voltou para casa. Não sei a que horas o senhor chegou...

— Por volta das duas da m adrugada — disse Basil Blake, num tom som brio. — Pensei prim eiro em ir à cidade, m as quando cheguei aos subúrbios m udei de idéia. Achei que Dinah pudesse chegar depois de m im . Por isso voltei para cá. Tudo estava escuro. Abri a porta e acendi a luz e vi... e vi...

Engoliu seco e parou. Miss Marple continuou:

— Viu um a m oça estendida no tapete... um a m oça vestindo um toalete branco... e estrangulada. Não sei se a reconheceu logo...

Basil Blake sacudiu a cabeça violentam ente.

— Não pude reconhecê-la à prim eira vista. Seu rosto estava azulado... inchado. Tinha sido m orta havia algum tem po e estava aqui... na minha sala.

Ele estrem eceu.

— É claro que o senhor não estava em si — disse Miss Marple com preensiva. — Estava bêbado e seus nervos não estão bons. Deve ter sido tom ado de pânico. O senhor não sabia o que fazer...

— Pensei que Dinah chegasse a qualquer m om ento. Haveria de m e encontrar aqui com um cadáver, o cadáver de um a m oça, e iria pensar que eu a tivesse m atado. Então tive um a idéia. No m om ento, não sei por que, m e pareceu um a boa idéia. Pensei: vou colocá-la na biblioteca do velho Bantry. Aquele diabo de velho pom poso, sem pre m e olhando com desprezo, zom bando de m im com o artista e efem inado. Aquele velho m erece isso, pensei. Vai ficar m aluco quando for encontrado no seu tapete o corpo desta loura.

E acrescentou, com um a ansiedade patética de explicar:

— Eu estava um bocado bêbado no m om ento, sabe. Tudo m e parecia divertido. O velho Bantry com um a loura m orta.

— Pois é — disse Miss Marple, — o pequeno Tom m y Bond teve exatam ente a m esm a idéia. Era um garoto m uito sensível, com um com plexo de inferioridade. Dizia que sua professora estava sem pre espicaçando-o. Pôs um a rã no relógio, que saltou em cim a dela.

— O senhor fez a m esm a coisa — continuou Miss Marple. — Só que os cadáveres, naturalm ente, são m ais graves do que rãs.

Basil gem eu de novo.

— Pela m anhã j á estava bom . Foi então que m e dei conta do que tinha feito. Fiquei alarm ado. Depois a Polícia veio aqui. Outro asno pom poso, aquele Chefe de Polícia. Fiquei assustado. E a única m aneira que achei para dissim ular m eu tem or foi tratá-lo com extrem a rudeza. No m eio disso tudo, Dinah chegou.

Dinah olhou pela j anela.

— Está chegando um carro... com alguns hom ens.

— Deve ser a Polícia — disse Miss Marple.

Basil Blake levantou-se. De repente tornou-se calm o e resoluto. Chegou m esm o a sorrir, e disse:

— Então não há outro rem édio, não é? Está bem . Dinah, querida, controle-se. Procure o velho Sim s. É o advogado da fam ília. Vá e conte a m am ãe tudo sobre nosso casam ento. Ela não vai zangar com isso. Não se preocupe. Eu não sou crim inoso. Portanto, tudo se esclarecerá. Está bem , querida?

Bateram à porta.

— Entre — gritou Basil.

O Inspetor Slack entrou com outro policial.

— Sr. Basil Blake? — perguntou.

— Sim — respondeu Basil.

— Trago um m andado de prisão contra o senhor, sob a acusação de ter assassinado Ruby Keene, na noite de 21 de setem bro. Advirto que qualquer coisa que o senhor disser poderá ser usada em seu j ulgam ento. Queira acom panhar-m e. Todas as facilidades lhe serão proporcionadas para entrar em contato com seu advogado.

Basil assentiu com a cabeça.

Olhou para Dinah, m as não a tocou.

— Até logo, Dinah.

Sujeito frio, pensou o Inspetor Slack, que reconheceu a presença de Miss Marple, com um a m eia inclinação e um “bom dia” e pensou para si m esm o: Velha sabida, está sem pre em todas. Foi um bom trabalho term os apanhado aquele tapete. Aquilo e a inform ação do guardador de carro do estúdio de que ele saiu da festa às onze e não à m eia-noite. Não é possível que aqueles seus am igos pretendam com eter perj úrio. Eles estão encalacrados e Blake lhes disse no dia seguinte que saíra à m eia-noite e acreditaram nele. Bem , ele está frito. Deve ser um débil m ental. É caso de hospício e não de forca. Prim eiro, foi a garota Reeves. Provavelm ente a estrangulou, levou-a de carro para a pedreira, voltou a pé para Danem outh, apanhou seu próprio carro em algum a estrada lateral, voltou a Danem outh, trouxe Ruby Keene para aqui, estrangulou-a, colocou-a na biblioteca do velho Bantry ; depois, provavelm ente, foi term inar o trabalho com o carro na pedreira. Foi lá, pôs fogo no carro e voltou. Um louco sequioso de sexo e de sangue. Foi sorte dessa m oça escapar. É isso que se cham a de m ania periódica.

Só com Miss Marple, Dinah Blake voltou-se para ela.

— Não sei quem é a senhora, m as quero que fique sabendo disto: Basil não fez isso!

— Sei que ele não fez — disse Miss Marple. — Eu sei quem foi. Mas não vai ser fácil prová-lo. Tenho a im pressão de que algo que a senhora disse agora m esm o pode servir. Deu-m e um a idéia... a conexão que estava tentando encontrar. Agora, o que era?