Um parafuso a mais
Os sapos
Sonhava que acordaríamos com as paredes soterradas pelas dunas. Como nos postais da neve. Nunca aconteceu.
Rodrigo era o chefe dos escoteiros, se fôssemos escoteiros. Eu e Miguel, soldados rasos de suas molecagens. Executores das tarefas.
O Meu pai zelava o costume de deitar na rede depois da sesta. Tomava um livro, seu caderno de anotações e um lápis severo de carpintaria. Dormia uma hora em meio à serenata da leitura.
Não é que o Rodrigo descobriu que o nosso pai detestava rãs e sapos. Explicou pela metade, com a pressa da maldade. Ele não suportava o salto desgovernado da pele anfíbia. E as córneas de pedra que poderiam cegar ao jorrar um líquido venenoso de cobra, que não entendia direito como funcionava.
Subestimei a crença:
– Não, o pai não tem medo de nada.
Rodrigo nos guiou a um banhado vizinho e colhemos três sapos num chapéu de palha.
Despejamos os barulhentos animaizinhos na rede. Esperamos o teatro no pátio.
Quando o pai deitou, com o peso solene da quietude, ele gritou:
– Sapos, sapos, sapos… Filhos, tirem os sapos, os sapos!
Ele dançava, girava, jogou os livros ao chão, o rosto assustado e crédulo, correndo a um lugar seguro para sair das repetições de sua voz.
Não consegui ampará-lo, deitei para rir melhor, o riso é egoísta, eu me acariciava de risadas, eu me esfregava para controlar a coceira do coração, que aumentava com a lembrança. Fechei os olhos para não soltar a memória. Os irmãos também se denunciaram com as gargalhadas.
O pai nos colocou de castigo, é evidente. Mas não reclamamos. Ele tinha medo de alguma coisa. Nunca esteve tão próximo de mim. Tão pai. Tão carente.