Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 10 de 21

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Um parafuso a mais

Segredos e sussurros

Segredos

 

e sussurros

 

Surgia uma ninhada no pátio e já roubava leite na geladeira e servia num

pires. Arrumava uma casinha em caixa de papelão, juntava trapos, cobertas de meus olhos e fazia travesseiros de toalhas antigas. Acendia a pressa de orfanato em todas as lâmpadas da garagem.

Não me interessava perguntar como os filhotes chegaram em casa. Do

terreno baldio? Do telhado?

Era impelido a atendê-los. Peludos, fofos, mirrados, miados febris. O

gato é um passarinho que engoliu as asas, por isso salta tão alto.

Oferecer o pratinho de leite me deslumbrava de gentileza. Se fui pai na

infância deve ter sido equilibrando a pesada garrafa de vidro.

Minha paternidade durava uma tarde, escurecia, a mãe descobria o

esconderijo pela movimentação secreta e nervosa, por mais que sufocasse os sussurros com os irmãos. Ela ralhava que não poderia adotá-lo. Que não cuidava nem de mim. A despedida doía no osso. Eu já tinha dado até nome. Acenava ao chão, sem coragem de erguer o pulso.

Abandonei muitos felinos antes da maioridade. Na semana passada, vi um gato entrando na residência de minha mãe. Gerou raiva. Agora ela decidiu cuidar de um. E unicamente para ela, no

momento em que mora sozinha.

Desencadeou um matagal de ciúme. Cocei a barba para podar o

desconforto.

Um gato preto com listras brancas. Passeando pelo pátio, correndo pela

sala, fugindo de mim. Brilhoso, gordo. Ela deve alimentá-lo com requinte e fartura. Sacana!

Não juntei coragem para questioná-la, alisar o complexo, arrancar

desculpas de sua horta. Encabulei, regressando aos meus nove anos.

Acompanhei a expedição do bichano pelos aposentos. Sentava no sofá e logo pulava para a varanda. Apresentava uma intimidade com as frestas que não alcancei quando pequeno. Dono de patas arteiras e voos repentinos.

Telefonei para o meu irmão Rodrigo pronto a desabafar. Ele me dissuadiu da mudança de hábitos, respondeu que a mãe não possuía gato de maneira nenhuma. Não seria possível. Não correspondia ao seu feitio.

Mesmo?

Na manhã seguinte, repeti a visita. E nada do gato pelos corredores. Nenhum pelo, pegada, alma de arrancada. Nem comida no armário.

Atravessei o portão convicto das alucinações. A carência da infância produzia seus efeitos colaterais.

Ao virar o corpo em direção à rua, enxerguei uma sombra matutando a grama. Era ele!

Manhoso, entrou pela janela emperrada do porão. Aquela janela que não tem como lacrar.

Entendi que a mãe tem um gato, mas ela não sabe.

Não deixa de ser uma deliciosa represália do destino.