Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 15 de 21

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Um parafuso a mais

O que ele me dizia ontem

O que ele me

 

dizia ontem

Palavras de Rodrigo

 

– Meu irmão, você é orgulhoso, é da família, eu sou orgulhoso, nós não poderíamos ser diferentes. Era o orgulho ou a dor. Escolhemos o orgulho para superar a dor. O orgulho não cura a dor, mas faz esquecê-la. O orgulho entretém o ferimento. Ele nos isola. Não seríamos nada, nem chegaríamos onde estamos se não fosse o orgulho. O orgulho uniu a família após a saída do pai, o orgulho nos manteve coesos, convictos, um amparando o outro. Não seria promotor sem orgulho, Miguel não seria juiz sem orgulho, Carla não seria promotora sem orgulho, você não seria escritor sem orgulho. Estudamos por orgulho. O orgulho é nosso cobertor de trauma. Nosso esconderijo de árvore. Nossa crueldade para proteger a verdade. Não tivemos tempo para recalques, terapeutas, psicólogos. Lavava-se a ferida e seguia adiante. A água foi nosso curativo. Orgulho de vingar as raízes, de contrariar a expectativa de vida. A alta taxa de mortalidade de nossas palavras com o divórcio. Orgulho, mano. Orgulho de não permitir que pisem na gente, de não pisar, de levantar os livros com os pés. Somos sobreviventes porque nos agarramos ao orgulho. Não pedimos favor à decadência, à falência. Não aceitamos a falta de chance. Não justificamos derrotas. Cada um tinha uma tarefa, um jeito de sufocar a asma, a tosse, a fraqueza. Obrigados a deixar o corpo quieto, de algum jeito, para não nos atrapalhar, para não nos denunciar. O mundo não devia nos ouvir, nos localizar. Tanto trabalhamos pelo orgulho que estamos longe. Não havia chance para consultar horóscopo, avisar dos planos. Não desistimos por orgulho. Orgulho, mano, de não olhar para trás – cairíamos sem volta na própria voz. Orgulho sem portas, orgulho com pontas, orgulho com as facas que o orgulho afia nos dentes. Vendamos a vista com os cabelos. Cavamos o orgulho das paredes. Somos uma família de pedras. Pedras orgulhosas, pontiagudas, pedras batendo em pedras. Levantamos a mãe com o nosso orgulho. Juntamos as mesadas das mãos para arrematar um começo. Todo começo era um final, lembra? Todo almoço era uma despedida, lembra? Orgulho, mano, o orgulho nos ajudou. O orgulho de mandar notícias unicamente quando as coisas estavam bem. Orgulho de sonegar as tristezas porque havia uma tristeza maior para combater. O orgulho nos resgatou, esse sentimento mesquinho que a maioria pede para colocar fora. Quando tudo está fora, somente o orgulho salva. Orgulho, mano, o orgulho foi bom até hoje, não precisamos mais dele. Teremos que pedir ajuda.