Um parafuso a mais
O amor é uma térmica
O amor é
uma térmica
O amor é uma térmica. Desde o jardim de infância, a térmica é quase como meu boneco, meu vizinho, meu confidente. Minha primeira térmica era branca, centrada na merendeira, e conduzia o leite achocolatado. Abrir sua tampa no recreio produzia o melhor som da escola. Melhor do que a sineta. Ela gritava no terceiro giro e lavava meu rosto com seus vapores.
Para quem tinha asma, o jato não deixava de ser uma nebulização. A térmica resumia o ponto alto do lanche. Um cofre que dependia do conhecimento antecipado do seu dono, de mãos que precisavam antever as voltas para não sofrer queimaduras. Uma valise de criança, uma outra boca miúda. Significava meu documento de menino, pessoal como o uniforme com meu nome bordado.
Uma térmica é como o amor, aquece o que ficou guardado, não deixa esmorecer a espuma, aviva o gosto do que passou. Seus movimentos de abrir revelam temperamentos. O preguiçoso tentará esvaziar o líquido com uma desenroscada, e terá que repetir. O esperançoso vai testar uma ou duas vezes antes de encontrar o fluxo ideal. O rançoso molhará toda a mesa.
Uma térmica é como o amor, feita para distribuir porções generosas ao dia. Não traz a ração de uma xícara, mas a bandeja inteira. Além de tudo, é fiel como o mel no pão. Fica impregnada do cheiro por dentro.
Na mesma semana, não recebe café, água quente e leite. É um ou outro, escolhe, cuidadosa, o seu par, casa por toda a vida com seu conteúdo. A térmica dança coladinha ao corpo do líquido. Dança levantando o pescoço.
A térmica é como o amor. Assobia na hora de falar, beija aos goles. Tinge a língua com guache. Escolta nossa sede e gula até o fim sem esmolar moedas. Pode ser até pior do que um café expresso, mas acumula doçura e presságios. Acumula a infância.
Não desejo ser cremado. Guarde-me na térmica. Guarde meu amor na
térmica.