Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 16 de 21

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Um parafuso a mais

O frio em mim

 

Sou um homem do sul. Pareço mais cansado quando durmo muito, mais disposto quando não durmo. As olheiras são sonhos que se repetiram.

Minhas lembranças remotas vêm da chaleira fervendo e do mate roncando como um urso na varanda, das duas meias que inchavam os sapatos, da calça de pijama debaixo da calça, dos casacos pesados, que me aparentavam a uma cama andando.

O cheiro de lã tornou-se, por adoção, o cheiro da minha pele.

Acordar na neblina, respirar sem encarar o ar, procurar o sol nas cores adocicadas dos telhados: o inverno fazia a família ouvir o fogo como um oráculo. O inverno respeitava silêncios.

Se minha memória pende ao frio; a memória da família está toda na praia. Tomei por acaso os álbuns antigos e vejo apenas a família reunida no mar. Estou ali, mas é como um estranho semelhante, não eu. Um branquela de alegria tímida e nudez repentina.

Cadê as pilhas de lenha, em que os irmãos se estapeavam para não ter que buscar no porão? Cadê meu poncho, que competia em uso com o uniforme escolar? Cadê o café soprado, entre goles e fumaça? Cadê a coberta imensa que cobria seis pernas no sofá na hora de assistir filmes? Cadê os bolinhos de chuva de sábado e as pipocas de mel? Cadê o cachecol amarelo, que proibiu meu pescoço de participar do rosto? Cadê as nuvens cinzentas que imitavam a chuva, mas eram ventos andando em bando? Cadê as árvores acenando para o ônibus?

Por ser um período de entressafra, resistência e alheamento, o inverno não aparece em minha história. Talvez o inverno seja o fotógrafo da minha vida.

Era no verão que os pais se preocupavam com as fotos. Quem consulta os registros irá concluir que nasci numa cidade marítima. Nenhuma imagem de recolhimento, da fachada de casa, do convívio miúdo na mesa e na sala.

O mar sempre foi mais verídico como fundo. O mar e sua extensão

baldia de areia. O mar e seus unicórnios de espuma. O mar e sua propensão a fazer amigos. O mar e seus amores intempestivos.

Ao ir à praia, entro em outro país. Tanto faz que seja num estado

longínquo ou a 100 km de minha residência. É outro país.

Amo o mar desde que eu não o veja todo dia. Estremeço diante dele. É

muito Deus para abraçar.

O mar não pousa nunca, sempre está voando.

Ele fala e fala e vira as costas quando o respondemos. O mar não permite tristezas, e às vezes estou triste. O mar é inconfessável.

O mar é minha vontade de voltar para casa.