Um parafuso a mais
Um parafuso a mais
Um parafuso
a mais
Encarnei o tipo de criança problemática, bem torta, dicção desviada,
trôpega, cabeção de pólvora e um palito no resto do corpo.
Nem reparava: eu me achava um coroinha.
O lindo coroinha da mamãe. Paramentado de hortelã. Vivia a seguindo
quando pequeno, servindo água e ajudando na cozinha. A mesa de jantar de toalha vermelha resumia meu altar. O cálice de vinho paterno, o pão de 1/4 quentinho e a geleia preparada de nosso quintal. As panelas de ferro ficavam penduradas, prontas para o uso. Não contávamos com quadros, telas de artistas, mas nossa fome funda de metal, exposta pelos corredores.
A colher de pau foi nosso relógio de parede.
Meu irmão Rodrigo, dois anos mais velho, arcava minhas penas. Sofria
com o vexame que não via. Tentava me remediar. Como se o erro estivesse em mim, não nas pessoas que caçoavam do guri franzino que não morreu de tuberculose muito menos de pneumonia e que um dia seria poeta para desespero do teste vocacional.
Os tios, os parentes longínquos e os conhecidos reclamavam que tinha
um parafuso a menos, de tanto cair e me espatifar nas escadas. Na verdade, tinha botas ortopédicas pesadas, que me apressavam os tombos. Um bom ortopedista e seria salvo.
Sem cura a curto prazo, Rodrigo analisava minha cabeça para verificar
se encontrava o parafuso que faltava. Seus dedos giravam como um microscópio. A única vez em que me examinaram com severidade semelhante havia sido no surto de piolho na escola (E a mãe encheu meus cabelos de Neocid numa longa sessão de bruços).
Ele não achou nenhum buraco, fresta, fissura, onde tivesse caído a peça
e prejudicado meu andamento.
- Onde está?
- O quê, Rodrigo?
- O parafuso que todo mundo está falando.
Gargalhava da brincadeira, a chave de fenda provocava cócegas em suas expedições pelo pescoço. O mano alertava para a situação gravíssima: o forte cheiro de fumaça de meus braços. Algo deveria queimar em minha alma.
Numa tarde, Rodrigo se achegou resoluto do conserto.
Retirou um parafuso do seu caminhão azul gigante, que prendia a caçamba e me deu numa colher. Como um xarope de gripe. Colocou açúcar por cima e um pouco de azeite para distrair a secura.
- Como não achei, toma meu parafuso!
- O que faço?
- Come, ora bolas. É por dentro, por isso não encontrei.
Eu não compreendo como engoli. Mas engoli. Inteiro. Num gole de vento.
Meus pais levaram um tremendo susto e correram ao pronto-socorro. Não importa o que aconteceu depois.
Funciono perfeitamente desde os quatro anos.