Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 14 de 21

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Um parafuso a mais

Mistério

 

É um enigma como irmãos se distanciam quando adultos. Não são as palavras que separam, mas o que deixamos em seu lugar.

Uma incompreensão que nunca é tirada a limpo e fica como verdade.

As desavenças na maturidade não são maiores do que as da infância.

Brigávamos com igual intensidade. O que mudou é que não moramos juntos para reatar. Se estivéssemos dormindo no mesmo quarto, faríamos as pazes uma hora qualquer e pediríamos desculpas. O medo de perder a companhia de brincadeira superava o orgulho.

Rodrigo, dois anos mais velho do que eu, mora em Porto Alegre. Não

conheci seu apartamento, apesar de um ano de sua mudança. Quem nos reúne é a mãe por tabela. Vou visitá-la e ele passa por lá.

É visível que não temos paciência um com o outro. Partilhamos uma

irritação ansiosa, sem capacidade para formular a frase certa e conciliadora. A frase que poria todas as diferenças de lado. Deve existir uma frase, mas não insistimos. Não cedemos tempo, logo trocamos de assunto e os parentes entram na sala e dispersamos a direção da conversa.

Rodrigo tem gostos muito parecidos, é poeta, compõe e adora dançar

desgovernado, jurando que encontrou o ritmo da música.

Na adolescência, somávamos as mesadas para colecionar LPs. Eu era a

esponja dele: tudo o que ele ouvia tomava como meu. Rodava no recreio da escola como seu Lado B. Durante tardes inteiras, explorávamos bolachões nas lojas debaixo do viaduto da Borges.

Foi ele que me inspirou a ler poesia ao emprestar o livro Uma estadia no

inferno, de Rimbaud. Na manhã seguinte à leitura, desabafei: "não entendi nada". Ele me tranquilizou: "É isso mesmo. Amanhã não vai também entender nada até viver algo do livro, uma única imagem, e ele se abrirá". Foi o que aconteceu. O guri sempre me interpretava.

Participava de uma banda e me carregava aos ensaios e apresentações

noturnas. Segredava nos ouvidos que aquela menina poderia ser interessante. Levava um puta fora. Não me permitia chorar, recapitulava com paciência meus erros e me empurrava para que insistisse. "Ela já sabe que é um chato, portanto seja chato, é o que tu 'faz' melhor".

Filosofia engraçada, que rendia paixões esquisitas.

Às vezes, não sobrevivia. Ele batia nos ombros e consolava: "Não há gafe que não vire uma grande história depois para rir".

Parti para vários acampamentos com seus amigos nas praias de Santa Catarina. As primeiras noites em que dormi longe da família. Virei o caçula da turma. Aprendi a montar barraca, a passar fome para gastar em bebida, a filar cigarro, a pedir carona e confiar na generosidade de estranhos. Tomei porres homéricos e ele me cuidando:

– Vai passar, aguenta firme.

Descobri o quanto detesto escalar morros, que ele adorava. Três horas de caminhada para aproveitar cinco minutos no topo e iniciar o regresso.

Atuava como sindicalista dos irmãos no momento de garantir os nossos direitos. Fazia o papel de segundo pai e se ferrou. De interino terminou como figura masculina permanente, porque o pai realmente saiu de casa. Abafou o divórcio com seu jeito prático de resolver os problemas e assumir os desaforos. Fruta que amadureceu no chão, empurrado para a responsabilidade cedo demais.

Era um enigma como irmãos se distanciam até que vi Rodrigo carregar meu filho Vicente no colo.

O filhote sofria de cócegas nos olhos. Tomaram um livro de dinossauros da estante e Rodrigo foi explicando a evolução, mostrando árvores que viram pedras, ossos que são reconstituídos de um punhado de pó. Eles se confiavam. Confiar é melhor do que compreender.

Eu me lembrei do que fui e do que ele foi. Seu rosto de longa testa. Os exatos quatro vincos antecedendo os cabelos. O menino sábio, colecionador de moedas e estudioso das antigas civilizações. O menino rabugento com alguma injustiça. O menino que não aceitava que os mais velhos zoassem de mim. O menino que andava de mãos dadas comigo para atravessar a praia e a rua. Eu me lembrei de nosso contentamento telepático. Do cheiro de Nescau de nossa merendeira e de nossos uniformes suados.

"Vamos brincar" é a frase certa que largamos no pátio. A frase que

dissiparia dúvidas e rancores e nos encheria de fôlego e expectativa.

Correr era se abraçar. Esquecemos de brincar. Esquecemos a pressa dos

apelidos. Quando ele me chamava de Bito e eu o chamava simplesmente de Igo. Esquecemos que somos crianças atrapalhadas. Antes o mundo era um inimigo comum e reservávamos nossas forças secretas para nos proteger.