Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 7 de 21

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Um parafuso a mais

Quando comecei a andar

Quando comecei

 

a andar

 

Meu avô materno Leonida me fez andar.

Foi ele, já na velhice, com as costas curvadas, quase não caminhando devido ao enfisema pulmonar.

Eu tinha um ano e pouco. Ele me alçava com seus braços finos, quebradiços, e me colocava escorado na cabeceira de sua cama.

Sustentava as costas dos meus joelhos com seus pulsos. O esteio das unhas.

– Assim, bambino, olhe para o horizonte.

Minhas pernas tremiam. E apertava sua voz e a madeira fria, buscando mais tecido para o calcanhar. Os dedos estalavam a concha do sangue. Menino embrulhado de fralda, receoso de abandonos.

– Fique aí.

Ele sumia com sua bengala, não lembro o que eu pensava, talvez não pensasse.

Minha mãe veio correndo, ouriçada, e batia palmas diante da firmeza inesperada.

– Ele está andando! Fabrício está andando!

Devia rir soluçado, como um bebê que ainda não controla a risada.

O avô grudava a testa na minha e dizia:

– Somos um, somos um.

Na manhã seguinte, consegui me pendurar de parede a parede. Caía e levantava, mas já tropegava sozinho. Meu corpo, meu cavalo. Achei o quarto escuro de meu avô. A porta entreaberta, a maçaneta redonda.

Sua cama vazia era um continente, ele poderia estar deitado me esperando. Fui devagar, como me ensinou, de tábua a tábua. Alisava os cobertores de lã, a lembrança de seu suor. Longe, fui longe.

Contornei, contornei e não cheguei a ele.

- Vô, estou andando, vô? Venha ver, vô?

Minha mãe me recolheu aos prantos. Deitado em cima de seus chinelos.

Os chinelos verdes, usados, o cheiro de sua estrada. Os chinelos como travesseiros incertos. Os chinelos alinhados, par de lápides na beirada do mundo.

O avô havia morrido naquela noite. Não puxei meu pai, não puxei minha

mãe. Ele se escondeu em meu rosto.

Seu rosto está de pé em meu rosto.

Não diminuo mulher que tem fobia de baratas ou de ratos ou de

morcegos. É bom guardar um medo para pedir vida emprestada. Dividir o susto.

Meu pai não tinha medo de nada. Isso me deixava triste. Não havia

como protegê-lo. Intocável. Com sua barba árabe a espantar os traumas.

Passamos as férias de inverno de 1977 em Xangri-lá, no litoral gaúcho.

Casas vazias, ruas com mais espaço ao chilrear das carroças e das aves.

Um deserto florescendo, a grama alta, o meio-fio descascado: o mato é

que pastava os cavalos.

Com atenção, ouviríamos os gemidos das baleias mais platinas. O ranger

subterrâneo do oceano.

A família buscava um sossego longe do ritmo da cidade apertada. De

noite, meu pai nos aliviava dos uivos dos ventos nas frestas da porta e das janelas. Acalmava dizendo que não era ladrão.