Um parafuso a mais

Fabrício Carpinejar · Capítulo 5 de 21

Páginas do PDF

Um parafuso a mais

Tempero

 

Não me recordo precisamente de minha infância até os cinco anos. Não por algum trauma. Esquecer é próprio da alegria, de quem sorveu a lembrança até o fim.

Meus irmãos brincaram comigo, brigaram comigo. Fui meus irmãos quando estava enjoado de mim. Sem Carla, Rodrigo e Miguel, seria bem menos Fabrício. Eles não me deixavam em paz.

Eles me provocaram a nascer. Nasci de uma provocação de um deles, talvez todos ao mesmo tempo. O beliche me permitiu tocar o céu já prematuro. Não tive medo de dormir no escuro, os meus irmãos conversavam comigo sem parar. O alvoroço deles foi meu abajur.

A casa de meus avós em Guaporé, cidade a 200 km de Porto Alegre, onde vivi as primeiras férias, é o centro de minha imaginação. O interior é o centro da minha imaginação. As estrelas sofriam de catapora: multiplicavam-se. Baixas, tão acessíveis, tão concretas, poderiam ser apanhadas como um chapéu no cabide. A morada ficava colada à calçada. Como o rio Taquari que ladeava as pedras. Os vidros do lado de fora, as venezianas do lado de dentro. A neblina dava aula ao sol. Embaçava as vidraças, que pareciam um quadro-negro; o sol chegava e escrevia. Eu lia sua caligrafia emendada, morrendo de rir quando a luz errava uma palavra.

Minha avó descobria quem chegava pelo tipo de sapato, pelo fragor da pisada. O padre usava botina, a costureira caminhava de sapatilha, o irmão magro e ruivo vinha de galocha, as crianças saltavam de sandálias, o avô italiano arrastava chinelos.

Eu descansava em cima das figueiras com o rádio ligado das cigarras, dos vaga-lumes, do mugido dos bois, da alternância dos galos. Eu me fingia príncipe. Costurava mantos com cipós.

De manhãzinha, recolhia morangos, ovos, uvas. Os dias nunca terminavam – eles se emendavam. A infância é um único dia. Mania de adulto fracionar as semanas. O que acontecia não se esgotava de acontecer. Poderia voltar no verão seguinte que continuava o verão anterior, como se não houvesse um ano entre eles. É o que sinto quando reencontro um amigo – a intimidade é imediatamente reatada ainda que com a separação de décadas. Amar é continuar.

Ajudava no almoço: galinha recheada, queijo derretido. Puxava os

temperos dos potes coloridos; o alto dos armários com cortinas vermelhas. Num banquinho de circo, misturava meus olhos castanhos com os olhos cinza da minha avó. Desde lá, meu estômago está nos olhos.

Quando chorava por alguma queda, ela apanhava a lágrima com uma

colher e colocava na comida.

– Meu neto, era o sal que faltava!

O forno a lenha afugentava a lareira. Secava as roupas no inverno,

amolecidas nas cadeiras. Uma procissão linda aquela de camisas e cuecas compridas no meio da cozinha.

Adorava quando recebia uma advertência: “guri, não te encosta na

chapa!”. Fui carvão, lenha verde dos cuidados dos mais velhos.

Era um menino com remendos de couro nas calças, que falava coisas

estranhas. Óbvio: coisas estranhas. Coisas estranhas que ouvia do fogo. Quem não ouve o fogo não será labareda.

A residência de madeira funcionava como autódromo para as meias.

Escorregava pelos corredores. Melhor uma criança suja do que uma criança limpa. Encardido, tomava banho de chaleira, aos pulos.

Talvez tenha perdido a lógica naquele tempo. Ou encontrado uma lógica

mágica, que me mantém de pé nos momentos difíceis.

Minha avó transbordava sabedoria. Como a cesta de vime transbordava

laranjas.

Ela que não cursou o ensino médio, ela com sua escolaridade de Bíblia.

Plantava flores e hortaliças no mesmo espaço. Não fazia distinção entre jardim e horta. Não era para menos que se chamava Elisa Margarida. As ervas vinham perfumadas.

Há eternamente uma folha de rosto numa obra ou em nossa vida que

vem em branco. Vem em branco, pois tudo já está escrito nela. Como minha memória até os cinco anos.