A arte da política: a história que vivi
ciedade, surgem as "identidades de proj eto"…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
ciedade, surgem as "identidades de proj eto" constituídas pelos que, tam bém atuando em rede, desej am refazer a sociedade civil global e local e as form as de controle público.
Essas identidades de proj eto, acrescento eu, lutam para criar um novo Estado, um a nova ordem dem ocrática m undial. Tal proj eto será construído, segundo Castells, a partir das identidades de resistência e não das identidades da sociedade civil, próprias da era industrial. Das energias geradas pelos m ovim entos am bientalistas, fem inistas e outros do género encontrarem os nosso cam inho de Dam asco.31 Essa "identidade de proj eto”
tem algo a ver com um a releitura do Gram sci de Carias do cárcere?2 com o faz Castells na reedição revista de seu livro fundam ental, em um a espécie de renascim ento da idéia de hegem onia, não m ais baseada no partido-Príncipe, m as na m obilização difusa e participativa, m ais espontânea e, portanto, m enos previsível, dos que acreditam em um m undo m elhor.33 Meus cam inhos para a política
Voltando ao plano pessoal: houve m uito de casualidade, m as fui treinado, sem que esse fosse o propósito, para atuar em um m undo político em transform ação. Construí paulatinam ente as qualidades que a sorte transform ou em atributos para o m ando num a dem ocracia.34
31 A obra pioneira na percepção da im portância desses m ovim entos na sociedade con^ tem porânea deve-se a Alain Touraine, com eçando por La Société postindustrielle; naissance d'une société, Paris, Denoèl, 1969 (Bibliothèque Médiations, 61) e culm inando com Lê Retour de 1'acteur; essai de sociologie, Paris, Fay ard, 1984 (Mouve m ents, 3).
32 António Gram sci, Cartas do cárcere, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005,2 v.
33 Ver Manuel Castells, The Power ofldentity, op. cit., especialm ente o item "The Crisis of the Nation-state, the Network-state and the Theory of the State", no qual, discutindo com David Held, Castells reelabora sua teoria, m ostra com o as redes de poder se conectam com os níveis regionais e locais e retom a a idéia gram sciana de "bloco de poder" para reafirm ar que cada "territorial levei ofthe state expresses the alliance ofspeáfic social interests and values that, together, constitute what Gram sci called the power bloc, underly ing the actual power instítutionalized in the state" (p. 359).
34 Recordo-m e do espanto de Albert Hirschm an, grande intelectual que abriu perspectivas para várias gerações, quando assistiu a um a intervenção m inha em reunião da
Passei boa parte da vida com o professor. Com ecei, aos 20 anos, no Colégio Estadual Fernão Dias, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde lecionei História do Brasil. Aos 21 anos, ainda aluno da Faculdade de Filosofia, m as j á trabalhando com o pesquisador no Instituto de Adm inistração da Faculdade de Econom ia da USP, fui indicado pelo titular da cátedra que dirigia o Instituto, professor Mário Wagner Vieira da Cunha, para ocupar a posição de prim eiro assistente de História Económ ica Geral e do Brasil, cuj a titular era a professora Alice Canabrava. Necessitei de um a autorização especial do reitor, professor Ernesto Lem e, para lecionar, pois não havia term inado a licenciatura. Posteriorm ente, por vontade própria ou razões políticas, passei vários anos ensinando no Chile, na França, nos EUA e na Grã-Bretanha, além de ter m inistrado breves cursos em outros países da Am érica Latina. Não dom inando plenam ente o espanhol e o inglês, não podia desperdiçar tem po m e enredando em floreios e adj etivações em m inhas exposições. Ia direto ao ponto, não por virtude, e sim por falta de m aiores recursos verbais. Na Faculdade de Filosofia, professores franceses nos haviam ensinado a redigir com a clareza possível. Recordo as aulas de ciência política de Charles Morazé, que nos fazia ler j ornalistas de bom texto da época - um deles, cuj os artigos recom endava insistentem ente, era Assis Chateaubriand - para aprenderm os a ser sucintos e claros. Havendo passado pelos liceus da França, nossos professores não esqueciam que um bom trabalho escolar com eça com um a introdução, na qual se enunciam o tem a e as questões principais, desdobrando-se em seguida as questões para tratá-las um a a um a (separando-as, devidam ente, com A, m aiúsculo, seguindo-se a análise do tem a em partes m arcadas a, b, c, d etc., para, na próxim a questão, repetir o procedim ento com B, e assim por diante) e, nas conclusões, voltando-se ao enunciado na introdução, dessa feita esclarecido, enriquecido e sintetizado. Não tenho a pretensão de ter aprendido bem o que m e SBPC, realizada em Brasília, em 1976. No auge do autoritarism o, eu criticava com veem ência e m esm o com contundência os desm andos do regim e. Ao viaj arm os j untos para o interior de Goiás - fom os visitar a antiga cidade de Goiás de m eus ancestrais -, Hirschm an m e disse, um tanto ironicam ente: "Hoj e ouvi o tribuno, coisa que não sabia que você era...”
ensinaram , em bora a preocupação com a lógica expositiva tenha ficado subconscientem ente em m im e o esforço para m elhorá-la tam bém . Um professor que se preze é avesso à dem agogia, pelo m enos à m ais fácil. Tendo pertencido à escola de Florestan Fernandes, aprendi que tam pouco é adm issível a confusão entre ensinar e pregar ideologias ou m esm o convicções políticas em aula. Com essa form ação, m eus prim eiros passos na política eleitoral seriam penosos. Não sabia com o m e com portar nos palanques e tinha algum a dificuldade com os abraços interm ináveis, m otivo de ironia de m uitos de m eus críticos. Custei a com preender que a política requer um a troca física de energias: ela sim boliza o com panheirism o, o estar j unto, necessários para desenvolver relações de solidariedade. Nem em tudo, entretanto, m eu treinam ento com o professor seria desvantaj oso na passagem para a política. Com o predom ínio crescente da TV e do rádio, ele aj udou no desem penho. Candidato em 1978 a senador por São Paulo, participei com Cláudio Lem bo, o candidato da Arena, de um dos prim eiros debates eleitorais na TV ocorridos no período autoritário. A reação de m eus com panheiros de partido com m aior experiência política, com o Alm ino Affonso e Plínio de Arruda Sam paio, am bos ex-deputados cassados, recém -vindos do exílio, foi de decepção: faltara-m e o ânim o m ais acalorado, um desem penho m ais espetacular. Estavam enganados. O defeito que freqüentem ente m e atribuíram no decorrer da vida, o de ser "professoral", quando tem perado pelo hábito de falar com recursos verbais destinados a públicos distintos, pode preencher algum as das expectativas contem porâneas. A TV, um "m eio frio", com o é inj ustam ente acoim ada, e m esm o o rádio, em que os locutores são explicadores da vida cotidiana, requerem m ais a argum entação não floreada do que os arroubos dos com ícios. Falei em m uitíssim os com ícios. Alguns j untando centenas de m ilhares de pessoas, com o os da cam panha pelas eleições diretas. Confesso que não ficava à vontade nessas ocasiões. Para m inha sorte, porém , a política contem porânea se pratica crescentem ente pela TV e pelo rádio, ou então em pequenos círculos e em conferências, em que m e sinto com o em um a sala de aula.
O que conta efetivam ente para o êxito dos que desem penham os papéis principais na política atual é a capacidade de transm itir um a m ensagem . A política lida com conteúdos sim bólicos e os líderes buscam exer
cer a form a m oderna do que Gram sci cham ava, com outra conotação, de hegem onia cultural. Isso requer qualidades de "ator", que não se dissociam da experiência prévia de cada um . Há os que, com o Lula - e Teotônio Vilela tam bém era assim -, conversam com o público, m esm o nos com ícios; "arengam ", com o se diria antigam ente. Há os que ainda m antêm a postura literalm ente espetacular de um Jânio Quadros e, com a im agética rica, a gesticulação e a linguagem corporal, "dizem algo" aos espectadores. Há várias m aneiras de atuar, m as para exercer a liderança é indispensável ter m ensagens e ser capaz de transm iti-las. Quando o sentido da com unicação é substituído pela dem agogia escancarada, surge, de im ediato, o vazio da m ensagem . É o que se passa freqüentem ente com políticos tradicionais. Por esm erados que sej am na sintaxe e na prosódia, dificilm ente convencem e são logo descartados da cena principal, se não usam artifícios adicionais.
Boa parte da construção dos "m arqueteiros", dos publicitários que trabalham para partidos e políticos, consiste em criar um a atm osfera, com im agens e slogans, para substituir o ator principal, quando este é m au no desem penho, ou para reforçar as m ensagens daqueles que as têm e sabem com o transm iti-las. Em qualquer caso, os políticos contem porâneos, pelo m enos os m ais significativos, tornaram -se m ais "atores" do que nunca. Devem sim bolizar um a m ensagem e, ao m esm o tem po, precisam despertar confiança e, chegando ao poder, realizar algo que atenda às expectativas despertadas.
Nesse j ogo entre sim bolism o e realizações práticas, o político precisa ser capaz, pela intuição ou pelo conhecim ento, de elaborar e transm itir um a "visão" dos problem as que enfrenta, um a visão da sociedade e do país. Quando se trata de políticos de expressão nacional, dados os condicionantes da globalização, devem possuir algum tipo de "sentim ento do m undo".
Aqui cabe novam ente a ressalva: os cam inhos são m uitos. No m eu caso, com o "sociólogo de cam po" e com o alguém que, por circunstâncias, participa de um a cultura cosm opolita, sem pre que pude, "dei aulas" no exercício da Presidência e liguei o particular, o fato do dia, a questão em pauta, ao m ais geral, ao condicionam ento do m undo globalizado.
Insisti em repensar os tem as, sobretudo os referentes à definição das políticas
para atender ao interesse nacional em um m undo novo. Por isso tam bém , sendo chefe de partido (e freqüentem ente de partidos), nunca deixei que o j ogo político partidário, necessário e cansativo, esgotasse o âm bito da política. Por "indigesto" que fosse o Movim ento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exem plo, procurei tratá-lo com o um dos novos m ovim entos da sociedade. Tentei dialogar com seus dirigentes, nos lim ites da lei, m esm o quando, por exem plo, m ilitantes invadiram a fazenda que pertencia à m inha fam ília em Buritis, no noroeste de Minas Gerais. Confesso, entretanto, que por m ais que os recebesse e m e esforçasse para apoiar o program a de reform a agrária, o diálogo revelou-se im possível. Lem bro-m e de que, na prim eira reunião que tive com dirigentes do MST no Planalto, eles deixaram logo claro que pretendiam antes provocar um fato na m ídia do que dialogar. Era um pequeno grupo, e logo no início do encontro um deles, que portava a bandeira verde, branca e verm elha do m ovim ento, perguntou:
- Podem os abrir a bandeira? Respondi:
- Não! Bandeira, aqui, só a do Brasil. Não pode, não. De outra feita, o grupo, em atitude típica, entrou em m inha sala sem tirar os bonés com o logotipo do m ovim ento, atitude distante da que se espera de quem tem um a audiência no gabinete presidencial, sej a quem for o Presidente. Estavam os principais dirigentes, entre os quais João Pedro Stédile e José Rainha Júnior. Logo no com eço, um integrante do grupo dirigiu-se a m im de m aneira desrespeitosa, cham ando-m e de "Fernando" Olhei para ele e disse, cortando o tom inadequado:
- O senhor está falando com quem ?
Com o revelarei em outro capítulo, porém , tive contatos sem i-sigilosos com o m ovim ento. O MST pertence a um nicho de resistência à m odernidade e é portador de um a utopia regressiva, com o qualifico sua ideologia, que olha pelo retrovisor. Entretanto, a despeito de sua vontade e propósitos, é sinalizador de um problem a real: os sem -terra existem e a pobreza rural é um fato. Por essa razão, a despeito das críticas dos que consideram um desperdício aplicar recursos nos assentam entos rurais, bem com o dos que afirm am que nada se realizou em m eu governo pela reform a agrária, desapropriei cerca de 20 m ilhões de hectares de terra, m ais do dobro do
realizado até então. Recebi os líderes do MST no Planalto em m ais de um a ocasião e, com m ais freqüência, os dirigentes da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).
O sim bolism o de quem exerce o poder está contido em cada gesto, em cada m odo de com portam ento. Republicanos e dem ocráticos com o são m eus valores -e nisso fui estim ulado e acom panhado por m inha fam ília -, procurei não transform ar o cotidiano da Presidência (afora as solenidades protocolares) em algo distinto da vida de um professor universitário. Procurei ouvir os que tiveram acesso a m im , o que com freqüência era entendido com o se eu estivesse sem pre de acordo com o interlocutor, quando apenas não o queria inibir com a "autoridade form al" do Presidente.35 Jam ais perm iti que o tom da voz ou a rispidez no trato tolhessem as opiniões do interlocutor. E sem pre achei graça dos que, saudosos do autoritarism o, vez por outra cobravam do Presidente um m urro na m esa... Se caísse nessa tentação, em itiria sinais contrários aos de m inha pregação de tolerância dem ocrática. De form a m enos pessoal e m ais ligada práticas dem ocráticas m odernas, favoreci necessariam ente distante e sem pre arriscando a m anipulação, de explicar em discursos e entrevistas as razões das políticas, com o tam bém a de criar espaços m ais efetivos para dar ouvidos à sociedade. Tornaram -se rotineiras as audiências públicas para elaboração de proj etos de lei e respectivas regulam entações, m uito freqüentem ente lançando-se m ão da Internet para auscultar a reação das pessoas e entidades e para criar um espaço de interação no processo deliberativo. Nunca antes, com o nos dois m andatos que exerci, houve tanto em penho em fazer avançar o cham ado e-govem m ent, quer dizer, o colocar serviços governam entais e propostas de leis e regulam entos, antes de form alizá-los, ao alcance do público pela Internet. 35 O Presidente francês Charles de Gaulle pronunciou frase, dirigindo-se aos com patriotas na Argélia, que ficou fam osa: "Je vous ai com pra", que não im plicava concordância, conhecido por im pressão de haver concordado, para desilusão dos que assim o interpretavam . Ver Roy Jenkins, Roosevelt, Rio de Janeiro, Record, 2005, cap. 4, "As sugestivas am bigüidades do prim eiro m andato". à institucionalização das
não só a relação
O grande Presidente am ericano Franklin Delano Roosevelt era evitar a confrontação com os interlocutores. Sorria, dando a
Em outros term os, agi com a preocupação de valorizar o que o cientista político norte-am ericano Joseph Ny e, pensando no Estado e não em lideranças individuais, cham a de soft power?6 que é outra m aneira de colocar a questão da legitim idade do m ando dem ocrático. O líder dem ocrático, em um m undo de m ensagens intercom unicadas e de participação crescente, em bora consciente dos conflitos e das diferenças de classe, deve propor valores que possam ser com partilhados pela parcela m aj oritária da sociedade. Caso contrário, perde força. Com o sua relação com os liderados não é estática, ele tentará convencê-los o tem po todo, arriscando-se, ora a ganhar, ora a perder. Ao ganhar, buscará atrair um núm ero cada vez m aior de pessoas, grupos, m ovim entos e instituições para seu lado. Ao perder terá de ver no que se equivocou e, dentro de suas convicções, refazer, hum ildem ente, o circuito do convencim ento que pode levar à vitória. Não sendo um líder m oral, ao ganhar, o "chefe", quando não é líder e quer m udar algo, apenas exerce a força. Nesta hipótese, um a relação propriam ente política
parafraseando Rousseau,37 não estabelece
com os liderados. Ou, para parafrasear a referência de Marx aos cam poneses no 18 Brum ário, governará j ogando uns contra os outros com o batatas num saco. Acaba por ser a expressão das forças sociais que se im põem por seu interm édio, e não exerce liderança genuína. Assim com o Marx escreveu que os hom ens fazem a História em condições dadas, ou com o Montesquieu se referiu à variação das leis confor
36 Joseph S. Ny e, Jr., Soft Power, the Means to Success in World Politics, Nova York, Public Affairs, 2004. Em bora o autor discuta o poder no plano internacional, suas idéias se aplicam a qualquer situação. Sem desconhecer, nas palavras dele, que o poder inteligente com bina soft com hard power (neste caso, o uso da força), ele ressalta que no m undo contem porâneo o sim bolism o, atratividade (cultural e pessoal), valores, que sej am vistos com o legítim os ou que tenham autoridade m oral: "Se o líder representa valores que as outras pessoas desej am seguir, custa m enos com andar" (p. 6). Para Ny e, soft power não equivale a influência, pois esta pode ser obtida pelo dinheiro ou por am eaças de uso do hard power, enquanto o soft power im plica a habilidade de atrair, e a atração leva freqüentem ente à aquiescência, com o a índole do poder dem ocrático requer. 37 "Convenham os, pois, que força não faz direito, e que não se é obrigado a obedecer senão às autoridades legítim as." Jean-Jacques Rousseau, Du contraí social, edição original de 1762, em fac-sím ile, com entada por Voltaire, Paris, Lê Serpent à Plum es, 1998, p. 12. convencim ento requer instituições e políticas
m e a natureza dos regim es políticos, não custa repetir que o "proj eto", o "program a" ou o "cam inho", o rum o, ou que nom e se dê aos propósitos e aos valores sustentados pelos que governam , estão lim itados pelo condicionam ento m aterial e institucional da sociedade, por suas bases produtivas. Os condutores de m udanças não devem im aginar que sua vontade (ou a de seu partido, grupo ou m ovim ento) opera no vazio da História. Tentarão exercer influência para m udar o curso das coisas, m as pagarão alto preço se não forem capazes de identificar os lim ites que, com sua liderança, estão procurando alargar.38 A liderança genuinam ente dem ocrática está índissociavelm ente ligada à capacidade de sim bolizar e transm itir m ensagens e, portanto, o que no fundo é a m esm a coisa, à virtude de enxergar e propor à sociedade um cam inho que sej a aceito pelos liderados, ainda que de form a m om entânea. Em um a sociedade interativa, esse "proj eto" não pode ser concebido com o um ato de razão ou de vontade, m as com o um a construção coletiva em que uns - os líderes
- expressam m elhor e sim bolizam em dado m om ento o m ovim ento da sociedade, o qual necessariam ente está condicionado por valores, por m odelos culturais, com os quais e sobre os quais se age. Ou o líder (digo m etaforicam ente, com o Gram sci falava do Príncipe, e não à m oda de Maquiavel) aponta e abre cam inhos ou perde poder.
B em nom e da validade intrínseca dos valores propostos e do cam inho arquitetado que o poder renova no dia-a-dia sua legitim idade, m esm o quando esta, em um a dem ocracia, tenha no voto e na Constituição sua base fundam ental. 38 Já o grande Tocqueville m ostrara os condicionantes gerais da ação dos hom ens em seus painéis sobre A dem ocracia na Am érica e em O antigo regim e e a Revolução. Mas j am ais se esqueceu de que se bem "o acaso só produz o que estava preparado anteriorm ente (".)", pois "os fatos precedentes, a natureza das instituições, o feitio dos espíritos, o estado dos costum es, são os m ateriais com os quais ele produz essas viradas que nos surpreendem e nos atem orizam ", nada disso se dá sem a interferência da vontade hum ana. E nas suas m em órias disse detestar os sistem as intelectuais que fazem tudo depender das grandes causas prim eiras, suprim indo os hom ens da história clareza Evaldo Cabral de Mello 34,2000, de onde tirei as citações acim a.
CAPITULO 2
Aprendendo na política
Nossos partidos e um equívoco: as referências européias Os atuais partidos políticos brasileiros nasceram da desagregação do regim e autoritário form ado a partir do golpe de 1964. Não é necessário descrever passo a passo a História recente, que perm anece fresca na m em ória. Mencionarei som ente algum as características da form ação partidária atual, que aj udam a com preender o j ogo político e seu significado na vida nacional. Com as exceções de praxe, o papel que os partidos e o Congresso Nacional desem penham tem sido avaliado de m odo superficial pela literatura especializada e pela im prensa. Isso para não falar das pesquisas de opinião, que invariavelm ente situam am bas as instituições entre as de m enor prestígio, quando não de m enor serventia.
Nada m ais equivocado, entretanto, do que subestim ar o papel político do Congresso e dos partidos. Os chavões sobre estes oscilam . Ora os consideram incoerentes, sem ideologias, m eras m áquinas eleitorais. Ora confundem legendas com partidos e vêem nas votações do Congresso coerência partidária, quando na m aior parte das vezes trata-se apenas de apoio ao governo ou oposição a ele. Pior ainda, m uitas vezes, nos dois casos, os parlam entares agem por m otivos que nada têm a ver com as ideologias proclam adas nos program as partidários. Na verdade há um pouco de tudo isso em cada um dos partidos - coerência, apoio em troca de vantagens de todo o tipo, visões ideológicas -, dependendo das regiões e da força dos chefes políticos, bem com o do m om ento, da form ação dos dirigentes partidários e de suas traj etórias de vida. Mesm o alguns acadêm icos têm contribuído para um a leitura incom pleta sobre os partidos e sobre o Congresso.1 Talvez porque partam da ### 1 À exceção dos trabalhos de Bolívar Lam ounier, de Maria do Carm o Cam pello de Souza e de poucos autores m ais. Ver notadam ente, de Lam ounier, Da Independência a Lula: dois séculos de política brasileira, São Paulo, Augurium , 2005, e de Cam pello de Souza, Estado e partidos políticos no Brasil, São Paulo, Alfa-Om ega, 1976. Ver tam bém Sim on Swartzm an, Bases do autoritarism o brasileiro, Rio de Janeiro, Cam pus, 1982. ###
do género hum ano, com o m ostra com síntese e em Um im enso Portugal, São Paulo, Editora
referência à História política européia. Na Europa, os partidos, na acepção m oderna, nasceram com o expressão da luta de classes, em sociedades rigidam ente hierarquizadas, quando o Terceiro Estado, no caso da França, ou os burgueses da Revolução Gloriosa, no caso da Inglaterra, se opuseram à dom inação estam ental da aristocracia. À m edida que o capitalism o industrial se desenvolveu, as diferenciações internas da societas civilis foram se tornando m ais significativas, ao m esm o tem po em que "os de baixo" passaram a tom ar consciência da diversidade de seus interesses e buscaram form as próprias de organização política. Na França, os partidos socialistas, da classe operária, foram as prim eiras organizações que, de m odo estrito, poderiam ser cham adas de "partidos de m assa". Nestes, as m áquinas partidárias se tornaram m ais com plexas e burocratizadas, para dar conta da participação am pliada de afiliados. As definições doutrinárias, por sua vez, continham crescentem ente um a visão global da sociedade e do lugar que os trabalhadores deveriam ocupar nela. Estas definições passaram a ser critério para a adesão ao partido. De form a m enos nítida, ocorreu algo sem elhante tam bém na Inglaterra, com o Labour Party. De fins do século XIX em diante, ser trabalhista ou conservador tinha sim ultaneam ente um significado social e um significado político, um relacionado ao outro.
Ou sej a, os partidos polarizavam interesses e visões "de classe". Os antigos clubes das classes dom inantes viram -se desafiados pela presença de organizações políticas com grande núm ero de aderentes. Elas, adem ais, se estruturavam , criavam um a burocracia partidária e sustentavam um a visão alternativa sobre o que seria a "boa sociedade". Moviam -se ancoradas em valores que incitavam à reorganização da produção, do consum o e da distribuição dos bens para se tornarem m ais acordes com os interesses de classe de seus afiliados e votantes. Esse m odelo, por assim dizer "clássico" de organização partidária, em bora haj a influenciado decisivam ente a noção corrente de partido, está longe de ter sido a única form a de organização política no m undo contem porâneo e nem sequer a m ais difundida. Houve m últiplos m odelos de vida partidária que não se orientaram por ideologias de classe. Os partidos de tipo nazista, fascista, franquista ou salazarista aspiraram a ser a expressão do sentim ento de "todo o povo" e deram ênfase à vontade nacional, antes do que à das classes. xxx Essa tendência não se lim itou aos desdobram entos autoritários europeus. Os partidos "de libertação nacional", tão presentes nas lutas anticolonialistas do Terceiro Mundo, após a independência tornaram -se m uitas vezes partidos únicos, m antendo o apelo poderoso à "união nacional" contra o estrangeiro, contra os ricos ou contra o que fosse, diluindo e am algam ando na m esm a organização política diversos setores de classe, clãs e etnias. Mesm o partidos originariam ente classistas e nascidos em sistem as políticos m ais pluralistas, com o os com unistas da Europa Oriental, se transform aram em partidos únicos quando chegaram ao poder, em bora continuassem a se proclam ar "da classe operária" e até perm itissem em certos casos, só para constar, a existência de outras pequenas agrem iações.
Isso sem m encionar os partidos "religiosos", de grande influência em algum as regiões, com o na Irlanda do Norte ou, se sairm os do m undo ocidental, em alguns países da África, do Oriente Médio e da Ásia, onde sobretudo o islam ism o m as tam bém o hinduísm o pesam decisivam ente na aglutinação política. No extrem o oposto da tradição clássica européia, os partidos fundadores da dem ocracia am ericana, em bora defendendo valores e interesses distintos, nunca se autoproclam aram classistas, nem o recrutam ento de seus quadros ou de seu corpo de votantes se deu, exclusiva ou m esm o m aj oritariam ente, pelo critério de pertencim ento ou de afinidade com os valores de um a classe social predom inante. A clivagem inicial teve m uito m ais a ver com o espírito autonom ista das províncias (depois estados)
originárias das antigas colónias britânicas, em contraposição à visão federalista, que separou os j effersonianos dos seguidores de Madison, por exem plo. Portanto, não há razões m aiores para desqualificar os partidos brasileiros em função de um m odelo abstrato que restringe a capacidade de ação partidária coerente a organizações políticas cuj a m arca sej a um a ideologia definida em função dos interesses das classes sociais. Até porque, com a fragm entação da sociedade contem porânea, m esm o nos pai
sés europeus onde prevalecem as anteriores form as partidárias o que se vê é a dissolução crescente do m odelo classe/partido/ideologia. Prim eiro, o óbvio: o que abalou o regim e m ilitar de 1964 foi o crescim ento da sociedade urbana e de m assas, acelerado pelo "m ilagre econôm ico" dos anos 1970, e a form a desigual com o ele se deu. Na época, quando se dizia que o Brasil não estava estagnado e que havia a am pliação do proletariado urbano (ainda se cham ava assim ..,) e de um a classe m édia, não-burocrática, ligada à expansão da econom ia industrial e dos serviços, surgia logo a suspeita de que esse tipo de análise, no fundo, j ustificava o
regim e autoritário.
Parte da oposição "de esquerda" via por todo lado retrocesso não só político, m as econôm ico, e só um a saída: a revolucionária; se não com apelo às arm as, pelo m enos com força suficiente para lançar as bases do socialism o. Com este, teríam os de novo dem ocracia e, quem sabe, bem estar social. Coroando a antecipação do paraíso, teríam os um crescim ento econôm ico autônom o a ser incentivado pelo Estado, m as não o Estado servidor das m ultinacionais e, sim , servidor do povo. Não foi esse, entretanto, o rum o principal da política brasileira. Houve quem acreditasse - com o eu - que a desagregação do autoritarism o poderia dar-se por um m ovim ento de pinças que j untaria os participantes do poder que se tornaram seus críticos (por vários m otivos, desde interesses econôm icos contrariados até a vontade de ter m ais "voz") à oposição generalizada dos outsiders. Estes últim os eram os opositores contum azes tanto do autoritarism o quanto dos m alefícios causados pela concentração de riquezas e de privilégios: m ovim entos populares form ados ao redor de vários tipos de reivindicação, grupos religiosos orientados por ideologias popular-progressistas, tipo Teologia da Libertação, intelectuais críticos, o cham ado sindicalism o "autêntico", classe m édia descontente etc.
Novos atores nas greves de São Bernardo
Por outro lado, com eçavam a ganhar força reações que m esclavam a reivindicação operária à luta por liberdade. Essas insatisfações foram aum entando desde a greve dos m etalúrgicos de Osasco e Contagem (MG), no final dos anos 1960, ainda perm eadas pela ação de grupos ditos "subversivos", que proclam avam abertam ente o obj etivo de derrubar o regim e. Nas greves de 1978, 1979 e 1980 em São Bernardo, os m etalúrgicos inovaram pela form a não-violenta que suas lutas assum iram e pela am plitude da m obilização alcançada, abrangendo setores não ligados aos partidos então clandestinos da esquerda tradicional. E não m e refiro com o forças tradicionais de esquerda apenas ao PCB, m as tam bém m aoísta ou fidelista. dos trabalhadores urbanos, independentem ente de sua ligação com esse tipo de m ovim ento organizado. E as m anifestações de apoio de setores das classes m édias, intelectuais, padres e j ornalistas, sem contar estudantes, m ostraram que os sindicalistas não estavam isolados.
aos vários grupos e m ovim entos de inspiração trotskista,
Pouco a pouco, consolidava-se a presença política Já se notava a presença desses "atores sociais" na segunda m etade dos anos 1970, quando se com eçou a falar no papel da "sociedade civil" na política, utilizando-se um a linguagem não usual na época. A linguagem tradicional se referia unicam ente a classes e setores de classe. O que deu força à crítica e à ação dos novos grupos foi a perda de vigor econôm ico do "m ilagre", precipitada pelos choques do petróleo dos anos 1970 e dram atizada pela crise da dívida externa, a partir da m oratória m exicana de 1982. Mesm o antes disso, era clara a m udança no j ogo político nacional. A repressão brutal dos governos anteriores ao do general Ernesto Geisel e a leniência inicial deste com a continuidade da repressão, alcançando agrupam entos políticos não ligados à luta arm ada - que teve com o conseqüência o assassinato em dependências do DOI-Codi, em São Paulo, do j ornalista Vladim ir Herzog no final de 1975 e do operário Manuel Fiel Filho no início de 1976 -, haviam provocado forte reação entre os setores que se opunham em m aior ou m enor grau ao regim e, e nas próprias elites governantes. Talvez a prim eira m anifestação de m assa contra o regim e opressor tenha sido o ato ecum ênico realizado na Catedral paulistana da Sé, no dia 31 de outubro de 1975, em protesto contra o assassinato de Herzog.
Tudo isso só se tornou possível porque o regim e, debilitado, com eçava a ser im potente para m anter a dura censura aos m eios de com unicação. O que explodiu com o um foguete im antado na época dos grandes com ícios em favor das eleições diretas, em 1984, contudo, j á se prenunciava nas greves de São Bernardo: não há form a de ação política no m undo contem porâneo que dispense a m ídia ou deixe de se apoiar nela.
Foi a j unção desses fatores que deu os contornos da "nova política". Ela, ao contrário do que m uitos desej avam , correu no m esm o leito da antiga política. É só ver as figuras que apoiaram , por exem plo, as greves de São Bernardo: desde partidários do regim e Teotônio Vilela (AL) "consentida", do velho MDB, com o Uly sses Guim arães, André Franco Montoro e, no caso específico, o prefeito de São Bernardo, Tito Costa. Seria de estranhar m enos a presença constante dos j ovens deputados Eduardo Suplicy, Fernando Morais e Aírton Soares e m esm o a m inha, e de outros intelectuais engaj ados, cuj o ativism o na vida política j á era conseqüência dos novos tem pos.
Depois dessas m anifestações de protesto, o grande m ovim ento que m arcou a redefinição dos partidos foi a luta por eleições diretas, e, previam ente, a fundação do PT. Contarei com certo detalhe alguns episódios, não tanto por am or à m inúcia histórica, m as porque eles aj udam a explicar o atual sistem a partidário. A rede oposicionista: do MDB a Lula No período anterior à form ação do PT, quero registrar o que m e recordo do estado de espírito dos principais líderes do "novo sindicalism o” sobre a política. Em m eados dos anos 1970, m ais precisam ente em 1974, ainda havia m uita resistência, m esm o nos setores não vinculados políticas revolucionárias, a aceitar o j ogo eleitoral contido bipartidarism o im posto; Arena, apoiando o governo autoritário, e MDB, na oposição congressual. A oposição que se pretendia "consequente" vivia distante da vida institucional, não acreditava ser possível m udar algo por m eio das eleições sob as regras do regim e e, de algum a m aneira, considerava os políticos institucionais "farinha do m esm o saco". que passaram a repudiá-lo por seus desm andos, com o e Severo Gom es (SP), até políticos da oposição dita
às organizações nos lim ites do A política m ais "pura" dava-se no âm bito da sociedade civil, com seus m ovim entos reivindicatórios: a SBPC, as pastorais religiosas, as com unidades eclesiais de base, os sindicatos, a OAB, a ABI, as Com issões de Justiça e Paz e o que restava das organizações estudantis. A esses setores j untou-se a "im prensa nanica", ou sej a, pequenos periódicos de oposição, com o Pasquim , Opinião e Movim ento. Form ava-se dessa m aneira um a
rede, m ais do que algum a capacidade de opinião pública", um a controlado autoritariam ente. Talvez o prim eiro encontro entre essa rede e a política institucional se tenha dado nas eleições de 1974, quando Uly sses Guim arães lançou sua anticandidatura à Presidência da República em um pleito previam ente definido pela vitória da Arena. O candidato desta, general Geisel, teria autom aticam ente a m aioria dos votos do Colégio Eleitoral - instância que em tem pos de eleição indireta sacram entava o nom e previam ente escolhido pelos com andos m ilitares - com posto pelos m em bros do Congresso Nacional som ados a delegados indicados pelas assem bléias legislativas. Uly sses, acom panhado por seu braço direito, o deputado João Pacheco e Chaves, de tradicional liderança política paulista (am bos haviam pertencido ao velho Partido Social Dem ocrático, o PSD, com raízes no varguism o e sustentáculo do conservadorism o do regim e dem ocrático pós-varguista), procurou o Cebrap. Haviam lido artigos que alguns de nós publicávam os no sem anário Opinião, notadam ente um texto que escrevi sobre o papel da oposição, no qual defendia a possibilidade de um alargam ento dem ocrático com a utilização dos canais institucionais disponíveis. Nossa surpresa foi grande. A de Uly sses tam bém . Nós éram os cientistas sociais, não ativistas políticos, e receávam os a contam inação no contato com os "políticos". Uly sses pedia que colaborássem os na preparação do program a eleitoral do MDB, j á que em 1974, além da escolha biônica do Presidente, tam bém haveria eleições para o Senado, a Câm ara dos Deputados e as assem bléias legislativas. A colaboração consistia na preparação de um docum ento definindo as propostas partidárias a serem apresentadas ao eleitorado e, eventualm ente, no treinam ento dos candidatos m aj oritários para os debates pela TV, pois só os candidatos ao Senado podiam aparecer nesse tipo de program a do horário eleitoral.
O Cebrap funcionava em um a velha e cóm oda casa na rua Bahia, em Higienópolis. As paredes do casarão testem unharam os acirrados debates no que nós cham ávam os de "m esão", m esa ao redor da qual se sentou durante anos a fio boa parte dos intelectuais críticos, que m uito tem po depois, em 2005, estavam espalhados entre o PSDB, o PT, o PMDB e os um partido
m obilização espécie
de oposição. Essa e de influência rede foi ganhando na nascente "nova de espaço dem ocrático num país
sem partido. Colaborar ou não com setores do "regim e", m esm o de oposição, no caso o MDB, era a questão. Alguns toparam : Paul Singer, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Bolívar Lam ounier, Carlos Estevam Martins, Maria Herm ínia Tavares de Alm eida, eu próprio, e talvez alguns outros cuj os nom es m e escapam à m em ória. Fom os os prim eiros. Daí por diante, a cada eleição aum entava o núm ero dos aderentes a um a postura m ais participativa, visando m udar as instituições, por assim dizer, por dentro. O program a para a cam panha do MDB de 1974 se tornaria a m atriz dos program as futuros, e não só do MDB. Nele, falávam os de sindicatos, de salário e distribuição de renda, do direito de greve, das questões das m ulheres, dos negros, dos índios, enfim , desenhávam os um a política "social-dem ocrática" nas condições de então e do Brasil.
Num Brasil que j á foi governado pelo PSDB e sucedido pelo PT, tudo isso perdeu sentido. Naquela época, não. Havia tensão entre os defensores de um a política "pura", longe do solo lam acento do Estado, fincada no sacrossanto terreno da sociedade civil, e os que aceitavam participar das lutas políticas em partidos que atuavam no m arco da ordem vigente.
No m áxim o se aceitava m ilitar de algum a m aneira no PCB, com o se fosse o único depositário das esperanças redentoras da hum anidade, o velho Partidão, com o era conhecido - ou em alguns de seus desdobram entos m ais com bativos. A herança da esquerda revolucionária, m ais na versão do Leste Europeu, da China e de Cuba do que dos socialistas e com unistas dos tem pos prim evos, pairava com o um fantasm a nas m entes e corações de m uitas pessoas de boa vontade, com o até hoj e continua pairando em alguns círculos. Com o desdobram ento dessa m udança de postura por parte de setores anti-regim e, em 1977, quando nos aproxim ávam os das eleições de 1978, novam ente alguns dirigentes do MDB buscaram contato com os grupos da sociedade civil que se haviam m ostrado m ais propensos a um a ação conj unta. Dentro do MDB, atuavam , com significativa presença política, setores do PCB e de outras organizações de esquerda de m enor porte.
Recordo-m e bem de um a reunião na casa de José Gregori, m ais tarde presidente da Com issão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, quando se com eçou a falar na possibilidade de lançam ento de um a candidatura ao Senado para agrupar as oposições à esquerda. A situação política,
m esm o antes da Lei da Anistia, de 1979,2 havia perm itido a volta de líderes que estiveram no exílio, notadam ente, entre os de São Paulo, Alm ino Affonso, Plínio de Arruda Sam paio e José Serra. Pois bem , de todo o num eroso grupo reunido naquela casa um único sabia onde se localizava a Bierrenbach, advogado com o Gregori, que precisou m e indicar o local: no subsolo da sede da Câm ara Municipal, no Viaduto Maria Paula, no centro de São Paulo. Para lá m e dirigi, depois de resolvido que seria eu o candidato, para inscrever-m e no partido. Por que eu? Basicam ente porque os candidatos naturais, os que, por assim dizer, tinham currículo e experiência eleitoral, ainda j aziam sob o tacão do AI-5 que lhes suspendera os direitos políticos. Eu, além de conhecido nos m eios acadêm icos e nos círculos de oposição no âm bito da sociedade civil, havia sido alcançado pelo AI5, que m e aposentara com pulsoriam ente da cátedra de Ciência Política da USP em 1969, m as não fora obj eto de proibição expressa de m e candidatar, pois nunca exercera m andato popular. A interpretação sobre m e im puseram perm itia recursos j urídicos, e acabei registrado com o candidato ao Senado por um a sublegenda do MDB. Diversos artistas, intelectuais, estudantes, líderes operários e uns poucos setores do MDB sustentaram a candidatura. Entre os artistas, Chico Buarque, que um a m anhã m e telefonou cantarolando um refrão para o que seria o j ingle de cam panha. Ele escrevera um a letra que cabia, com passo a com passo, nos prim eiros versos da conhecida canção Acorda Maria Bonita, de António dos Santos: "Acorda Maria Bonita/Acorda, vem fazer café/ Que o dia j á está raiando/ E a polícia j á está de pé.” A letra de Chico dizia: "A gente não quer m ais cacique/ A gente não quer m ais feitor/ A gente agora está no pique/ Fernando Henrique pra senador”