A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 2 de 9 · parte 2/3

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A arte da política: a história que vivi

ciedade, surgem as "identidades de proj eto"…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

sede paulistana do MDB, Flávio

se elegera vereador. Bierrenbach

o alcance da de recurso punição que

em recurso, Intelectuais de prestígio com o Sérgio Buarque de Holanda, Mário Pedrosa, Florestan Fernandes e António Cândido, entre outros, aderiram à cam panha. E a ela deram brilho artistas com o Elis Regina, Lim a Duarte, Regina Duarte, Ruth Escobar, Gianfrancesco Guarnieri, Bruna Lom bardi, Carlos Alberto Riccelli e Fúlvio Stefanini, para citar só alguns nom es. Um dia recebi um recado do principal dirigente m etalúrgico de São : Lei n" 6.683, de 28/8/1979.

Bernardo, por interm édio de Francisco de Oliveira, m anifestando o desej o de apoiar a candidatura. Eu conhecera Luiz Inácio Lula da Silva no Cebrap, em 1973, trazido pelo presidente do sindicato, Paulo Vidal, quando Francisco Weffort e Régis de Andrade, cientistas políticos, realizavam entrevistas sobre o m ovim ento sindical. Não o vira desde essa ocasião e as grandes greves ainda não haviam ocorrido. Fui até São Bernardo e m e espantei com o porte, a m ovim entação e a m áquina do sindicato. Os m ilitares haviam escorraçado as antigas lideranças, geralm ente ligadas ao PCB e ao velho PTB extinto pelo regim e m ilitar, que eram influentes nos setores vinculados ao Estado: ferrovias, portos, usinas siderúrgicas e funcionalism o público. Durante os anos do "m ilagre", a onda industrializadora perm itira o crescim ento do operariado urbano e dera m argem à presença de lideranças não ligadas às antigas forças • políticas. Os governos autoritários não extinguiram as fontes de renda dos sindicatos. Apenas contavam com sua despolitização e, portanto acreditavam que sequer "pelegos" seriam os líderes, m as som ente, com o se diria hoj e, "sindicalistas de resultados". Ledo engano. Alguns sindicatos com eçaram a nuclear dirigentes com bativos, apoiados por eficientes advogados trabalhistas, e a m over ações j udiciais em defesa dos direitos dos trabalhadores. Além disso, o sindicato oferecia assistência m édica, dentária e j urídica e outros benefícios, e era um ponto de convivência. Os dirigentes dos partidos institucionais sim plesm ente desconheciam essa realidade. Encontrei Lula em um a pequena sala, cercado com o Dj alm a Bom e José Cicote, com o vereadores, deputados ou dirigentes partidários. Tivem os conversa direta. Lula disse que se dispunha a m e apoiar, que poderia fazer pouca coisa, m as que eu iria contar com a aj uda do advogado do sindicato, Alm ir Pazzianotto, deputado estadual pelo MDB, que votaria em m im na convenção do partido (para ser candidato por um a sublegenda eu precisaria obter 20% dos votos dos delegados à convenção, e os candidatos tradicionais se opunham a m e dar

um a vaga).

A reunião foi sim pática, m as um tanto chocante. Estávam os am ontoados na salinha de Lula, fum avam m uito, e as palavras, por exem plo, para pedir um copo de água ou para passar um cinzeiro eram quase ríspidas, por com panheiros, m uitos dos quais, viriam a se destacar, anos depois,

na percepção de um professor universitário educado dentro de form alidades tradicionais. Perguntei a Lula por que resolvera m e apoiar. A resposta foi elucidativa:

- Porque você não faz com o os outros que vivem dando lições aos trabalhadores, dizendo o que eles devem fazer, nem se diz senador dos trabalhadores. Tratava-se de indireta pouco sutil. Montoro, com intensa atividade parlam entar em favor dos trabalhadores - propôs e viu aprovado, entre m uitas m edidas, o saláriofam ília- e iniciativas com o a distribuição de cartilhas em defesa dos direitos trabalhistas, era a quem Lula se referia. O j ovem sindicalista j á aspirava, talvez sem ter plena consciência, a um a posição "autónom a" e ao direito de ser o líder dos trabalhadores.

Não que Lula tivesse um a visão politizada. Diferentes episódios reforçam m inha interpretação de com o "o novo" nascia, sem o saber, m uito m isturado com práticas e visões tradicionais. Menciono apenas duas passagens para esclarecer esse ponto. A prim eira se deu em 1979, quando Alm ino Affonso, Plínio de Arruda Sam paio, José Serra e eu, entre outros, estávam os organizando com Lula o Encontro de São Bernardo, destinado aj untar setores "autênticos"-m ais aguerridos - do MDB, m ilitantes de esquerda de várias organizações, sindicalistas, setores da Igrej a e intelectuais para decidir passos conj untos, fosse no sentido de fortalecer o MDB fosse, eventualm ente, no de tentar fundar um novo partido. Alm ino Affonso e eu fom os um a m anhã à casa de Lula, m odesta casa de vila suburbana. Lá o encontram os com o sindicalista Enilson Sim ões, o "Alem ão" um a espécie de seu secretário - pertencia ao Movim ento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), agrupam ento político àquela altura tido com o ligado a Cuba, o que Lula parecia ignorar. Queríam os convencer nossa principal contraparte sindicalista da conveniência de levar para o encontro, que antecipava a reform ulação partidária, dirigentes da "oposição sindical", alguns m uito próxim os à Igrej a Católica, com o António Flores, outros independentes, ativistas de organizações esquerdistas. Lula se opunha, pois achava que esses "politiqueiros", com o dizia, nada tinham a ver com os verdadeiros sindicalistas, ou sej a, com os que atuavam dentro dos sindicatos oficiais existentes. Finalm ente, acabaram todos convidados. Segundo episódio, este útil para m ostrar que a evolução política alcançou m uita gente. Tem pos depois, houve um encontro de Lula com Uly s

sés Guim arães no apartam ento onde eu então residia, à alam eda Joaquim Eugênio de Lim a, em São Paulo. Airton Soares convencera Lula a com parecer. Tanto o deputado com o eu im aginávam os possível levá-lo para o MDB. No dia aprazado eu deixei m inha chácara, em Ibiúna, e voltei a São Paulo de carro. Chovia m uito, um pneu furou e, dada m inha pouca habilidade m anual, não consegui trocá-lo. Pedi carona e cheguei quando os convidados j á se encontravam em m inha casa. Lula ouviu, falou bastante, m anifestou-se sim pático às nossas teses gerais. Não m encionam os nada de concreto. Depois de sua partida discutim os a hipótese de form ar um departam ento sindical no MDB. Uly sses Guim arães, àquela altura líder indiscutível do partido e m esm o das oposições, não se sensibilizou com a possibilidade. Estávam os ainda em um a época em que, para Uly sses, partido era um a coisa, sindicato outra m uito diferente e não deveria haver m istura de estações... Apenas para ressaltar a visão "despolitizada", quer dizer, distante não som ente dos partidos, m as de práticas institucionais, relato outro episódio. No desenrolar da greve de 1979 em São Bernardo houve um m om ento no qual coube recurso ao Tribunal Regional reclam ados pelos advogando a causa do sindicato, m e convidou para assistir com ele ao j ulgam ento, pois acreditava que haveria um a decisão histórica, com a vitória dos trabalhadores, pela prim eira vez no regim e m ilitar. Fornos ao j ulgam ento e houve a vitória: o TRT acolheu algum as reivindicações sem declarar a greve, em princípio, ilegal. Do TRT, que ficava nos arredores da avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, seguim os para São Bernardo estádio de futebol assem bléia. Entrando pelos fundos, atravessam os a m assa de operários até chegar do Trabalho (TRT) de São Paulo para j ulgar os direitos trabalhadores e a legitim idade da greve. Alm ir Pazzíanotto,

no carro de Alm ir para com unicar o sucesso. Chegam os ao de Vila Euclides, onde os trabalhadores se reuniam em ao pequeno palanque onde estava Lula. Com unicam os o resultado e Lula se dirigiu aos com panheiros para encam inhar o fim da greve. A m assa protestou, pois continuava altam ente m obilizada e desej ava alcançar ainda m ais resultados do que os acordados pelo TRT, sem perceber que o sim ples fato de um a decisão considerar a greve legal era histórica. Lula, habilm ente, para não perder a confiança dos liderados, propôs a continuação da greve, logo aprovada entusiasticam ente.

Term inada a assem bléia, tom am os o m esm o carro de volta com Lula e outro dirigente sindical. Lula, que acabara de propor a continuação do m ovim ento, nos disse:

- Precisam os term inar essa greve. Ao que Alm ir perguntou:- Mas, com o? Vocês agora saíram da lei.

Com efeito, a partir daquele m om ento a continuidade da greve representava um desafio à decisão do TRT. Na noite seguinte, eu j antava com Lula e com o j ornalista e deputado estadual Fernando Morais em um boteco próxim o ao sindicato quando o rádio inform ou que Lula tivera os direitos sindicais suspensos pelo m inistro do Trabalho. Levei-o em m eu carro ao sindicato, e ele m e disse:- Pois é, não dá m esm o para fazer no Brasil um sindicalism o com o eles têm lá na Argentina.

Conto esses episódios para m ostrar, prim eiro, que o distanciam ento "dos políticos" caracterizava quase toda a oposição ao regim e, com exceção dos que m ilitavam no MDB e no PCB. Buscava-se um a ação política "fora da política", longe do m odo com o esta se dava nos partidos e no Parlam ento. Segundo, que nenhum de nós tinha m uita clareza sobre a m elhor form a partidária ou sobre qual seria a relação correta entre política e sociedade. Lula, em discursos publicados, disse que ele só se deu conta da necessidade de ultrapassar os m uros das fábricas e dos sindicatos após as grandes greves, a m ais m arcante das quais foi possivelm ente a de 1979. Um testem unho sobre os prim órdios do PT A form ação do PT, posterior aos fatos que narrei, deu-se quando havia com petição pela liderança do m ovim ento sindical entre Lula e Benedito Marcílio, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André (SP) que se elegeu deputado federal. Marcílio m antinha relações com a Convergência Socialista, um a facção ligada ao m ovim ento trotskista internacional. Aproveitou um congresso dos m etalúrgicos realizado em Lins, a 430 quilóm etros de São Paulo, em j aneiro de 1979, para lançar a idéia de um partido dos trabalhadores. Lula só encam pou a proposta posteriorm ente, em bora alguns sindicalistas de São Bernardo tenham colaborado com os autores do m anifesto em prol de tal partido. Anteriorm ente a isso,

Lula com parecera, e eu tam bém , a um encontro de dirigentes sindicais, sobretudo petroleiros, em Cam açari, na Bahia, em 1978, com , entre outros, Jacó Bittar, da região de Cam pinas, Henos Am orina, de Osasco, Paulo Skrom ov, do Sindicato dos Coureiros de São Paulo, Hugo Peres, dos eletricitários de São Paulo, José Cicote, dos m etalúrgicos de São Bernardo, e Arnaldo Gonçalves, dos m etalúrgicos da Baixada Santista (SP), ligado ao PCB. Na reunião m encionou-se a possibilidade da form ação de um partido de trabalhadores.3 A idéia de um novo partido estava, portanto, no ar, alim entada pela expectativa do fim do bipartidarism o. Entretanto, transcorreria um ano, com m uita discussão e m uitos episódios, até que viesse a alteração efetiva na legislação para perm itir a form ação de partidos, em dezem bro de 1979, antes de o PT ser lançado form alm ente, o que ocorreu em reunião no dia 10 de fevereiro de 1980 no tradicional Colégio Sion, na avenida Higienópolis, em São Paulo. A partir daí, o tom do partido passou a ser dado pela presença não só de sindicalistas "puros" com o de dirigentes sindicais vindos de

e principalm ente de m ilitantes

outros setores que não o m etalúrgico, católicos, oriundos das experiências

das com unidades eclesiais de base, além de intelectuais independentes e quadros de várias organizações de esquerda, alguns ligados a grupos que no passado apoiaram a luta arm ada. E o tom do PT, nos tem pos iniciais, era de distanciam ento da política institucional.

O debate que m arcou a separação de m uitos de nós, participantes das discussões prévias sobre o novo partido, da form ação do PT teve relação direta com esse distanciam ento. Eu não acreditava no cam inho de um partido que im itasse a tradição da esquerda europeia. Preferia, com o escrevi na época, um partido dos assalariados em vez de um partido dos trabalhadores, com a conotação de partido proletário. Tam pouco acreditava em política sem alianças. Defendia, portanto, o pluripartidarism o e o policlassism o. No m ovim ento sindical houve discrepância sem elhante: os sindicatos sob influência do PCB e do MDB form aram a "unidade sindical", de inspiração partidária, e os dem ais se agruparam no "sindicalism o autênti

1 E Margareth Keck, PT: a lógica da diferença, o Partido dos Trabalhadores na construção da dem ocracia brasileira, São Paulo, Ática, 1991, e Rachel Meneguelo, PT: a form ação de um partido, 1979-1982, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.

co" que se pretendia desligado dos partidos. Posteriorm ente ocorreram novas cisões na organização das centrais, dando lugar à Central Única dos Trabalhadores (CUT), à Central Geral dos Trabalhadores (CGT), à Força Sindical e outras m enores. Em bora não houvesse relação direta entre os sindicatos e os partidos, o espírito dos debates e as dúvidas reinantes guardavam relação com a discussão sobre a natureza dos partidos, a relação entre as classes, um a visão de revolução à antiga ou não, e a autonom ia do m ovim ento sindical diante das agrem iações partidárias. Minha iniciação na política partidária Com o eu decidira perm anecer no MDB, a partir de 1979 transform ado em PMDB, dediquei-m e, com Mário Covas, Alm ino Affonso e Alberto Goldm an, a reorganizar o partido no estado de São Paulo. Não só cum prim os essa tarefa com o fom os adaptando o program a partidário na direção das idéias apresentadas pelo grupo do Cebrap em 1974. Tornei-m e, após as eleições de 1978, vice-presidente do PMDB. Quando Covas se afastou da direção em 1982 para se candidatar a deputado federal, na cam panha que levou Montoro ao governo de São Paulo, assum i a presidência da seção paulista, a principal do partido no país. Nessa posição, participei da m obilização pelas eleições diretas. A m ilitância no MDB e no PMDB m e ensinou m uito a respeito do funcionam ento e do j ogo político dos partidos. Substituindo Montoro, entrei no Senado em 1983, ainda na vigência do regim e autoritário, m as em seus m om entos de agonia. Ainda assim , o Congresso espelhava im potência: corredores vazios, o m onopólio absoluto da pauta exercido pela m aioria, e esta subm etida ao controle estrito do Planalto. Mesm o as relações pessoais entre governistas e oposicionistas eram escassas e subm etidas ao "patrulham ento" Recordo-m e de que o senador Virgílio Távora (CE), vicelíder do governo e seu porta-voz para questões económ icas, um dia m e convidou para alm oçar. Nossas fam ílias tinham relações históricas desde as revoluções dos tenentes de 1922 e 1924, das quais participaram tanto m em bros da fam ília Távora com o m eu avô, m eu pai e vários outros parentes. Conversei com Uly sses sobre o convite.

Uly sses m e aconselhou cautela. Decidi aceitá-lo, m as, para evitar intrigas, m arquei o alm oço em

lugar visível e terreno costum eiro da oposição em Brasília: o restaurante Tarantella (depois Piantella).

Na m esm a época, recebi convite para um j antar no Itam araty em hom enagem ao Presidente do México, Miguel de Ia Madrid, que visitava o Brasil. Era norm al, m esm o durante o regim e m ilitar, que poucos representantes da oposição estivessem presentes a esse tipo de encontros form ais. Quando ia tom ar lugar à m esa, um aj udante-de-ordens do Presidente Figueiredo se aproxim ou dizendo que ele queria m e conhecer. Em solenidades com o aquela, antes de entrar no salão principal do m agnífico edifício do Itam araty, os presidentes perm anecem em um am plo hall, o Salão Portinari, com o se cham a, devido aos grandes painéis do pintor que exibe. Para lá m e dirigi e, em pé, troquei frases protocolares com o Presidente. Conversam os durante dez m inutos, no m áxim o. Figueiredo foi sim pático e gentil. Ele perguntou sobre m eu pai, àquela altura j á falecido, e com entam os a relação que o uniu a seu pai, Eucly des Figueiredo, am bos m ilitares e envolvidos nas revoluções das décadas de 1920 e 1930, am bos tendo vivido situações de exílio - m eu pai, confinado na Am azônia; o general Eucly des, asilado na Argentina -, em épocas diferentes. Contei ao Presidente que tinha m orado em um a rua do bairro paulistano do Morum bi que levava o nom e de seu pai. Com o a Prefeitura não havia colocado a placa indicativa, eu próprio m andara fazer um a e a afixara. Aproveitei para, sutilm ente, cutucá-lo sobre as eleições diretas para a Presidência - o país fervia com a questão, e não havia declaração pública do Presidente contra ou a favor. Figueiredo procurou não ser taxativo, m as m e deixou a im pressão de que não se oporia a um a eventual decisão do Congresso nessa direção. No final, abraçoum e cortesm ente. Foi a única vez em que falei pessoalm ente com o general Figueiredo. Nos dias seguintes, notinhas nos j ornais e até um a crónica na revista Manchete sobre tão inusitado encontro. Que classe de conchavos teríam os feito?... Depois de derrotado nas eleições de 1974, o regim e se prevenira para não perder o controle do processo político. O "pacote de abril" de 1977 m odificou a Constituição para criar os senadores biônicos (um em cada três senadores nos estados não era eleito, m as escolhido pelas assem bléias legislativas), aum entar desproporcionalm ente aos dem ais a representação dos pequenos estados na Câm ara e adiar, de 1978 para 1982, as eleições diretas para governador. No intervalo de tem po entre esses fatos e m inha

ida para o Senado, entretanto, m uita coisa m udara, principalm ente, tinha havido um afrouxam ento da censura aos m eios de com unicação. A Em enda Constitucional n° 11, de 13/10/1978, pôs fim ao AI-5 e ao bipartidarism o. A Lei de Anistia, em 1979, reabilitou para a política lideranças cassadas. A nova legislação partidária, no m esm o ano, perm itiu a form ação dos novos partidos; além do Partido Dem ocrático Social (PDS), partido que apoiava o governo e substituíra a Arena, do PT e do PMDB, criou-se o Partido Popular (o PP, liderado por Tancredo Neves, que acabaria se fundindo ao PMDB em 1982), e Leonel Brizola organizou o PDT após perder a legenda do velho PTB de Getúlio para a deputada Ivete Vargas, de São Paulo, por ingerência do chefe da Casa Civil de Figueiredo e principal estrategista do governo, o general Golbery do Couto e Silva. Tudo isso propiciou um novo clim a político. Talvez a prim eira rachadura a abalar o bloco governista no Congresso haj a sido a rej eição de um a lei salarial, na verdade um decreto-lei de 1983 - parte integrante do acordo com o FMI -, que a oposição considerava arrocho salarial. Acabou sendo derrubado no dia 6 de j unho. Derrotados, os parlam entares governistas levantaram um a série de dúvidas sobre o processo de votação e tentaram im pugná-lo. O presidente do Congresso, senador Nilo Coelho (PDS-PE), tinha que tom ar um a decisão sobre se a votação fora válida ou não. O governo pressionava intensam ente, porque a lei salarial seria um dos pilares da política económ ica de então. Houve um a tensão im ensa m adrugada adentro, com a oposição insistindo na validação -principalm ente o senador Saturnino Braga (PMDB-RJ) e eu, que tínham os respeito e estim a pelo senador Nilo. Com coragem , Nilo validou a votação, proclam ou o resultado, e vencem os. Mesm o assim , as pressões e críticas do governo contra Nilo continuaram , só cessando com a prom ulgação da decisão, publicada no Diário do Congresso Nacional a 13 de agosto. O episódio, a m eu ver, deixou m arcas no senador, subm etido a um brutal estresse. Em novem bro, Nilo Coelho sofreu um enfarte e faleceu.

A convergência da oposição institucional com a opinião de pessoas ligadas ao governo, m as que se opunham às m edidas m ais arbitrárias, som ada ao vento forte das ruas e ao barulho da m ídia - na época ainda um sussurro -, precipitavam a crise do regim e. O quadro internacional igualm ente m udara. Além da crise da dívida externa, a onda dem ocratizadora desencadeada na Europa, especialm ente na Península Ibérica, com 91

o fim das ditaduras de corte fascista em Portugal, em 1974, e na Espanha, em 1975, alcançava a Am érica Latina. A derrota contra o Reino Unido na Guerra das Malvinas, em 1982, acelerou a desagregação do autoritarism o na Argentina. No Brasil seria um a questão de tem po. Restava saber com o se daria o desenlace. A partir de 1982, com a vitória do PMDB nas eleições diretas para governador em dez estados, notadam ente em São Paulo, com Montoro, e em Minas Gerais, com Tancredo Neves, sem esquecer de Leonel Brizola (PDT) no Rio de Janeiro, dava a im pressão de que um sopro seria capaz de fazer o regim e desabar. Este sopro viria a ser a cam panha pelas eleições diretas para a Presidência, as "Diretas Já". A derrota das Diretas Já e a opção por Tancredo A arrancada da cam panha das Diretas Já foi fruto do descortino e da persistência de um hom em , André Franco Montoro. Às vésperas do m em orável com ício da Praça da Sé, em 25 de j aneiro de 1984, todos nós, da Executiva do PMDB paulista, achávam os que o governador Montoro arriscara m uito convocando o povo às ruas em pleno regim e autoritário para clam ar por eleições. Inform ei o governador das resistências no partido. Ele procurou os outros partidos. O m esm o desânim o, apesar de j á ter havido um com ício em Curitiba com razoável apoio popular. O PT, com o sem pre, queria m archar só. Com pareci ao com ício em favor das eleições diretas convocado pelos petistas em frente ao Estádio do Pacaem bu, em São Paulo, em novem bro de 1983. Nenhum outro líder não-petista apareceu; tem iam as vaias dos "com panheiros". Só não m e vaiaram porque coube a m im o dever de transm itir a triste notícia da m orte do senador Teotônio Vilela (PMDB-AL), que àquela altura, pregando em favor da anistia e das liberdades públicas por todo o Brasil, a despeito do câncer incurável que o consum ia, tornara-se um a espécie de unanim idade nacional. Novam ente, a clivagem que se m anifestara nas discussões sobre a form ação dos novos partidos m arcou o início da cam panha das Diretas. O PT tentou levar adiante sozinho a m obilização popular. Passaram -se vinte anos para que o partido aprendesse a construir alianças para alcançar os obj etivos desej ados, em bora nem sem pre faça as m elhores com posições, com o se pôde verificar no governo Lula. Na época das Diretas Já, som ente

quando a força da m assa m ostrou nas ruas que a questão não era a de saber "quem " convocava as m anifestações, m as em nom e do que (da dem ocracia) e contra quem (o regim e autoritário), tornou-se possível a j unção das forças dem ocráticas.

Tam bém m e recordo de um a reunião, naquele m esm o j aneiro de 1984, na chácara de Ibiúna, com vários dirigentes do PMDB, inclusive Uly sses Guim arães. Lá, à noite, vim os pela TV o general Figueiredo dizendo que Diretas Já era "subversão". Nossas dúvidas cresceram ; diante das am eaças será que o povo irá m esm o às ruas? Pois bem , foi Montoro quem desafiou os poderosos. Ele tinha o sentim ento das ruas. Soube antes o que nós vim os depois: não éram os nós àquela altura que estávam os sozinhos, m as sim o governo, o regim e. A tal ponto que as TVs, apesar da pressão que sofriam do governo e da virtual autocensura que praticavam , passaram a registrar a sagrada ira pela dem ocracia, porque era im possível não fazê-lo. Mesm o a Rede Globo, que procurou dim inuir a im portância do fenóm eno que tom ava conta do país, acabou tendo que se render à opinião pública.

Nunca m e esquecerei do dia do grande com ício da Praça da Sé, no coração de São Paulo. Participava, com Montoro, de solenidade com em orativa do aniversário da USP quando José Gregori m e cham ou ao telefone com urgência. Gregori, deputado estadual pelo PMDB, estava na Sé nos esperando e, para surpresa de todos, era de tal porte a m ultidão que o som dos alto-falantes não chegava aos m ais distantes do palanque. Nem m esm o o entusiasm o de Osm ar Santos, o locutor das Diretas Já, acalm aria a m assa, que esperava as palavras de ordem dos líderes políticos. Em penham o-nos a fundo na cam panha. No final, em bora tivéssem os obtido a m aioria dos votos da Câm ara na m adrugada de 26 de abril de 1984 - 298, contra 65 e 113 ausências -, não conseguim os atingir 320 votos, a m aioria qualificada necessária na época para alterar a Constituição. Com o líder no Senado, pronunciei o discurso a favor da em enda pelas Diretas, apresentada pelo deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT). A defesa do ponto de vista contrário, dificílim a, coube ao líder do governo, deputado Nelson Marchesan (PDS-RS), em um discurso coraj oso, vibrante. Mas, claro, não foi por isso que perdem os: nessas horas ninguém vota em função de belas palavras. Os parlam entares entravam no plenário com

a "cabeça feita". Derrubada, a em enda Dante de Oliveira na Câm ara term inou sendo arquivada, sem ser apreciada pelos senadores presentes à reunião do Congresso. Não faltou quem m aldosam ente dissesse que alguns, com o Tancredo Neves e eu próprio, preferíam os perder. Políticos do PT - a com eçar pelo próprio Lula-anteviam a possibilidade de a oposição vencer no Colégio Eleitoral e achavam que um grupo, com Tancredo à frente, vinha arquitetando a própria vitória desde a cam panha das Diretas Já. Não se j ulgavam fatos, e sim supostas intenções. Era a "política da infâm ia", de acusarnos de "traições", sendo eles os "puros". Da m inha parte asseguro: é falso. O que eu não quis, após a derrota, foi transform á-la em cataclism o ainda m aior, com a vitória no Colégio Eleitoral do ex-governador biônico de São Paulo, Paulo Maluf, ou do coronel Mário Andreazza, m inistro dos Transportes e candidato do Presidente Figueiredo, que disputavam a indicação do PDS, vencida por Maluf. Este j á àquela altura sim bolizava tudo o que não desej ávam os, desde a conivência, e m esm o o protagonism o, com práticas inaceitáveis que m esclavam o público com o privado, até a arrogância cúm plice com o regim e autoritário. Nos dias seguintes à decisão, derrotados que fom os no Congresso, outra vez as águas oposicionistas se separaram . Propus em discurso no Senado o lem a "Mudança j á", em vez de "Diretas Já", defendendo que participássem os do Colégio Eleitoral, para aproveitar o clim a de insatisfação crescente e derrotar o candidato do governo. Ganham os paulatinam ente o apoio da m aioria do partido, principalm ente depois que Montoro, à Presidência (títulos articulado em Brasília, São Paulo e Minas - a candidatura de Tancredo Neves. Uly sses Guim arães resistia a essa m anobra (para não falar no PT, que a "denunciara"), apoiado dentro do PMDB por um grupo purista, integrado entre outros por Flávio deputado federal Churrascaria do Lago, presentes Uly sses, Pacheco e Chaves, Pedro Sim on e eu (talvez outros m ais), defendi nossa ida ao Colégio Eleitoral apoiando um candidato de oposição. Disse Uly sses: - A responsabilidade é de quem for. Eu não irei. abrindo m ão de qualquer pretensão de ser candidato para isso possuía), subscreveu algo que vinha sendo Bierrenbach, a essa altura deputado federal, e pelo tam bém Pim enta da Veiga (MG). Durante um j antar em Brasília, na

Retruquei que dos ali presentes eu pagara o preço m ais alto pela ditadura: vivi no exílio, perdi a cátedra, tinha ido parar no DOI-Codi. Tam bém por isso, queria logo m udar as condições políticas, com eleições diretas ou indiretas.

A articulação pró-Tancredo, enquanto isso, seguia firm e, tendo com o principais protagonistas o deputado Fernando Ly ra (PMDB-PE), o senador Affonso Cam argo (PMDB-PR), oriundo do ex-PP de Tancredo e m uito próxim o ao governador m ineiro, vários políticos de Minas e o pessoal de São Paulo ligado a Montoro. O governador de Minas, porém , m antinha-se discreto, quieto. Lem bro-m e de um j antar com ele e Affonso Cam argo no apartam ento de Fernando Ly ra em Brasília. À m esa, discutiu-se a conveniência de sua candidatura, pela óbvia circunstância de ser o nom e m ais capaz de atrair apoios no Colégio Eleitoral. Matreiro, Tancredo relutou, dizendo:

- Eu, de j eito nenhum . Não posso deixar de servir a Minas. À saída, m e pegou pelo braço e disse:

- Vá se preparando, é a sua vez.

Percebi de im ediato que seria ele o hom em , pois, dentre tantos nom es de peso no PMDB, eu, senador verde de prim eiro m andato, e ainda m ais tendo chegado à cadeira na condição de suplente, não poderia de form a algum a ser candidato. Apesar de sua relutância em ir ao Colégio Eleitoral, e, j á depois de ter concordado com a idéia, Uly sses não som ente foi, com o com andou a vitória de Tancredo a despeito da legítim a am bição que ele próprio alim entava de ser o candidato das oposições à Presidência pelo voto direto. Jatobá frondoso, Uly sses sabia resistir aos ventos. Mas sabia, tam bém , que alguns galhos se perdem . Com portou-se de m odo adm irável. Roberto Gusm ão, chefe da Casa Civil do governo Montoro, dera um a entrevista à revista Vej a um m ês após a derrota da em enda das Diretas4 dizendo que "São Paulo" (isto é, Montoro) apoiava a candidatura de Tancredo. Uly sses, com o fazia habitualm ente, foi m e ver na sede do PMDB paulista, na rua Pio XII, no bairro da Bela Vista. Reproduzo de m em ória a conversa que tivem os, de pé, olhando os j ardins pela j anela, na sala de m inha secretária, Lola Berlinck: "Páginas am arelas", edição de 24/5/1984.

- Que história é essa do Gusm ão? É o Montóro? - perguntou-m e com seu j eito de carregar a paroxítona no nom e do governador. Respondi:

- Sim , Dr. Uly sses [era com o todos o cham avam ].

E ele:

- E você, o que pensa?

Dei um a das respostas m ais sofridas da m inha vida:- O senhor sabe com o eu o estim o, Dr. Uly sses. Mas, para ganhar no Colégio Eleitoral, só o Tancredo, de quem não sou tão próxim o. Ele conta com m ais apoio. Ele perguntou:

- No m eu lugar, o que você faria?

- Iria a Minas, para apoiar Tancredo, e chefiaria a cam panha dele. Uly sses m e olhou com a m irada de j acaré que sabia ter, gélido, polido e firm e:- É, m as quero ouvir isso do Montóro.

E assim se fez. Jantam os no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, o governador Montóro, Uly sses, Gusm ão e eu. Conversa de "cerca-lourenço", até que Uly sses nos intim ou:

- Quero saber a opinião de cada um de vocês sobre o Colégio Eleitoral. Dem os, novam ente constrangidos, nossas opiniões. Grande Uly sses. Voou para Belo Horizonte, selando seu apoio ao governador de Minas num j antar no Palácio das Mangabeiras, a 20 de j unho de 1984, chefiou a cam panha, aj udou a definir o Ministério de Tancredo. E coube ao VicePresidente José Sarney, efetivado no cargo, haver-se com ele depois da trágica m orte de Tancredo, a 21 de abril de 1985. O PT j ulgou um erro disputar no Colégio Eleitoral, pois teríam os poucas chances de vitória. Considerou, sobretudo, que era um a m anobra para coonestar o regim e. Não faltaram acusações, com o disse, de que durante a cam panha das Diretas o que alguns de nós queríam os m esm o eram eleições pelo Colégio Eleitoral... Sem o apoio do PT - exceto pelos deputados Airton Soares (SP), Bete Mendes (SP) e José Eudes (RJ), que em decorrência foram expulsos do partido -, Tancredo Neves ganhou por 480 votos a 180 na histórica eleição de 15 de j aneiro de 1985 e, depois de sua m orte, José Sarney se tornou Presidente da República.

O pacto com os dem ónios beatificados

Outra vez, a circunstância incrível de term os elegido com o Vice-Presidente um político "do regim e", que fora presidente do partido sucessor da Arena, o PDS, e que se tornou depois Presidente da República, m ostra a am bigüidade do j ogo político e abre pistas para entender com o ele se dá no Brasil. Aliás, não só aqui: a Espanha é outro exem plo de transição para a dem ocracia na qual os "puros" ou influíram m enos do que gostariam ou tiveram que pactuar com os anj os decaídos, ou m elhor, com os dem ónios beatificados. Na verdade, além das razões políticas que levaram Tancredo a preferilo, Sarney se tornou Vice-Presidente graças a um a tecnicalidade. Aqui, cabe recordar que a eleição de Tancredo só foi possível diante da inconform idade de im portantes setores do PDS com o crescim ento - graças a práticas de aliciam ento que condenavam - da candidatura Maluf dentro do partido. Esse grupo, tendo à frente os senadores Marco Maciel (PDSPE)

e Jorge Bornhausen (PDS-SC) e o Vice-Presidente de Figueiredo, Aureliano Chaves (PDS-MG), afastou-se do partido oficial, agrupou-se na Frente Liberal (que não tardaria a se tornar o PFL) e, em coligação com o PMDB, form ou a Aliança Dem ocrática que derrotaria Maluf. Aureliano chegara a aspirar à Presidência, m as desistira de disputar. Sarney, que se integraria aos dissidentes, havia sido eleito senador pelo Maranhão pela legenda da Arena sete anos antes, em 1978. Outro candidato, que talvez gozasse da preferência do PMDB, Marco Maciel, se elegera senador por Pernam buco j á pelo PDS, um a reform atação da Arena. Segundo as leis partidárias de então, parlam entares eleitos pelos vários partidos criados após a Em enda Constitucional n° 11 perderiam o m andato se concorressem à Presidência trocando de legenda. Essa regra, descobriu-se logo, não alcançava Sarney, que poderia filiar-se sem problem as ao PMDB e disputar pelo partido.

Fosse Sarney ou fosse Marco Maciel, am bos vinham do "antigo regim e" e teriam de ser absorvidos pelos oposicionistas "históricos" e por outros nem tanto, m as que no decorrer do processo político se j untaram no PMDB. A verdade é que tanto Sarney com o Maciel, bem com o Aureliano ou Bornhausen, foram fundam entais para am pliar a cisão dentro do sistem a autoritário. Aos poucos, constituíram um a oposição interna no PDS

e se opuseram ao continuísm o do regim e, que seria obtido com decisão palaciana predefinindo o futuro Presidente, graças ao controle do PDS, com Maluf ou Andreazza. Assim com o ocorrera, bem antes, com Severo Gom es e Teotônio Vilela, voltaram -se contra o regim e autoritário e aj udaram a encerrar seu ciclo. Não tive papel relevante nas articulações entre o PMDB e a dissidência do PDS. Do lado do PMDB, elas estiveram a cargo de Uly sses, Tancredo, Affonso Cam argo e Pedro Sim on, entre outros. Marco Maciel e Bornhausen, aos quais se j untaria depois Aureliano, falavam pela dissidência. Pude participar de alguns episódios das tratativas, com o conversas na casa de Bornhausen, com Sim on, facilitadas pela circunstância de que os três, além de Maciel, m orávam os no m esm o edifício da SQS 309 de Brasília.

Meu principal papel acabaria sendo involuntário e casual, e teve a ver com a divulgação precoce do rom pim ento de Sarney com o PDS. O estreito contato que, j untam ente com Sim on, m antinha com nossos vizinhos de apartam ento Maciel e Bornhausen na época em que am bos se preparavam , j unto com outros com panheiros, para rom per com Figueiredo m e perm itiu saber que Sarney estava se aproxim ando do grupo, que àquela altura j á incluía Aureliano. Sem m e dar conta da inconfidência, a bordo de um avião entre Brasília e Rio, a cam inho de Paris, onde iria proferir na Sorbonne a conferência "Marc Bloch", a convite da École dês Hautes Études en Sciences Sociales, m e encontrei com o j ornalista Ricardo Noblat, do Jornal do Brasil, e adiantei a ele os rum ores. No dia seguinte tudo saiu estam pado no j ornal, precipitando os acontecim entos. Foram dias tensos, aqueles, que não haj a dúvida a respeito. Tem ia-se, por exem plo, um a reação m ilitar a um candidato oposicionista com chances. Pode-se m edir a tem peratura da preocupação com as Forças Arm adas pelo fato de que chegou a haver conversas sobre para onde iria Tancredo na eventualidade de um pronunciam ento m ilitar. Instigado por Roberto Gusm ão, um discreto articulador desse delicado assunto foi o banqueiro e ex-prefeito de São Paulo Olavo Setúbal, ex-com panheiro de Tancredo no extinto PP. Decidiu-se que o destino de Tancredo seria algum a cidade do Sul. O general Leônidas Pires Gonçalves, com andante do então denom inado III Exército, com quartel-general em Porto Alegre e j urisdição sobre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, era m uito próxim o ao governador paranaense, José Richa (PMDB), de quem se tornou am igo após

exercer, anos antes, um com ando em Curitiba. Leônidas se opunha a qualquer ruptura da norm alidade e seria posteriorm ente escolhido por Tancredo para ser m inistro do Exército, cargo que exerceu durante toda a Presidência de Sarney. A propósito de preocupações m ilitares, vale narrar um episódio. Depois de eleito, um dia Tancredo, dem onstrando algum a inquietação, visitou-m e em m eu apartam ento em Brasília. A essa altura, eu, que não pertencia originalm ente a seu círculo íntim o, tornara-m e m uito próxim o do Presidente eleito. Após sentar-se no sofá, perguntou:

- O que você andou fazendo para os m ilitares acharem que você e o Brizola são os m aiores problem as? Precisam os dar um j eito nisso. Eles acham que vocês dois são um perigo.

De m inha parte, o problem a todo era que, na m esm a entrevista à Play boy em 1984 na qual surgira a questão da m aconha, m encionada anteriorm ente, eu abordara a necessidade de se debater novos cam inhos para as funções constitucionais das Forças Arm adas. Eu não tinha em m ente um a plataform a específica, ou algo assim . Os m ilitares, porém , sem pre se m ostraram m uito sensíveis em relação a essa questão, tanto que, m ais tarde, na Constituinte, o debate a respeito seria tenso e difícil. Acredito, e disse a Tancredo naquele dia, que as Forças Arm adas pudessem ver em m ina algum a intenção de vingança ou revanchism o, o que não era próprio de m eu espírito. Quem aj udou a desfazer o m al-estar foi Sarney, bem relacionado entre os m ilitares. Ele teceu a boa intriga de que eu não preparava arm adilha algum a contra as Forças Arm adas. O j ogo político não se desenvolve contando aritm eticam ente os "contra", com o se o fossem para sem pre, e os "a favor", sendo estes os bons e m aus os outros. Pelo contrário: dialeticam ente, trata-se de transform ar "m aus" em "bons". A política im plica um processo de convencim ento, por m otivos e com obj etivos variáveis, que, olhados de form a individual, podem ser m oralm ente aceitáveis ou discutíveis, m as cuj o significado histórico será j ulgado por suas conseqüências. Este não é um tem a banal. É em função dele que se desdobra, com o vim os, a discussão weberiana sobre a ética da responsabilidade. Conform e ele Maquiavel se transform a no sím bolo do horror governabilidade. O fato é que, sem a Frente Liberal, o cam inho para o térm ino do autoritarism o teria sido provavelm ente m uito m ais difícil.

sej a com preendido, tam bém

na política ou na virtude da

Por que Figueiredo não passou a faixa a Sarney Em possado provisoriam ente José Sarney, com Tancredo hospitalizado, o país viveu sem anas de enorm e angústia. E os políticos, dias decisivos. Três dias antes da crise que levou Tancredo ao hospital estive com ele, na Granj a do Riacho Fundo, residência oficial onde m orava desde a eleição pelo Colégio Eleitoral. O PMDB j á estava se acalm ando do susto com a indicação de Sarney com o Vice-Presidente, na convenção do partido, ocorrida em agosto de 1984. Os gritos do MR-8, agrupam ento àquela altura ligado a políticos do partido, de "Ei, ei, ei, Sarney é nosso rei", haviam abafado na convenção os votos dos setores do PMDB que não se conform avam com a escolha.

Eu perdera a disputa para exercer a liderança do PMDB no Senado, pretensão estim ulada por Tancredo em reunião que tivem os na sede da representação da Fundação Getulio Vargas (FGV) em Brasília. Com o característico estilo suave, m alicioso e sim pático, escusando-se, ele m e disse que apoiaria m inha indicação para líder, um a vez que não seria possível designar m ais m inistros paulistas, tantos haviam sido convidados... Eu não am bicionava posição no Ministério porque era im possível: m eu suplente no Senado, Magalhães Teixeira, se elegera prefeito de Cam pinas em 1982; se assum isse a cadeira, com m eu eventual afastam ento, ele perderia o m andato. Se eu rne afastasse sem o substituto legal assum ir haveria novas eleições para o Senado, algo politicam ente inaceitável. Acontece que o senador Hum berto Lucena (PMDB-PB), a quem eu sucederia com o líder, fora derrotado na eleição para presidente do Senado, e por isso, a pedido de Tancredo, abri m ão da indicação, propiciando que Lucena continuasse a exercer a liderança. Montoro, entretanto, m e queria num a posição de destaque na nova situação. Depois da recondução de Lucena à liderança, ele sugeriu a Tancredo m e designar para um a função nova (e difícil), a de líder do governo no Congresso. Um a m anhã, nas antevésperas da posse, Uly sses m e telefonou e perguntou:

Continuar: parte 3 de 3