A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 6 de 9 · parte 1/4

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A arte da política: a história que vivi

saudosos de um m odelo "nacional1996, indicara…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

saudosos de um m odelo "nacional1996, indicara que alterações razoáveis nas taxas de câm bio e de j uros teriam efeito praticam ente neutro para acelerar o crescim ento da econom ia. Prevalecia a opinião de que seria m ais seguro um crescim ento m oderado (com o estava ocorrendo) sem riscos inflacionários. Havia sido um êxito controlar a inflação e com eçar a m udar o regim e fiscal sem recessão, tão tem ida por todos e tão apregoada pela oposição. No fim de m arço de 1996, em discussão na Câm ara de Política Económ ica, Serra insistiu que os j uros elevados para garantir o fluxo de dólares sem alterações m aiores nas taxas de câm bio pesavam m ais sobre as contas públicas do que a falta de m aior aperto fiscal. O docum ento apresentado na m esm a ocasião por José Roberto Mendonça de Barros fincava pé, com anuência geral, em dois aspectos diferentes: a crise bancária e o com portam ento fiscal. Este causava preocupação por causa de um acúm ulo de novas despesas: os aum entos salariais do funcionalism o federal no fim do governo Itam ar Franco; as novas despesas da Previdência, em bora m oderadas, que o m inistro Reinhold Stephanes propunha, com um aum ento de 18% para os aposentados e pensionistas; a aj uda a idosos carentes que passaria a ser paga com a entrada em vigor da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas).

9 O Ipea considera pobres as fam ílias cuj a renda é inferior a m eio salário m ínim o per capita, e indigentes as fam ílias de renda inferior a um quarto do salário m ínim o por com ponente.

Àquela altura as exportações cresciam , dim inuindo a pressão por correções cam biais, e os j uros caíam . Ainda assim , Serra e Sérgio Motta, am bos m inistros e am igos próxim os, continuavam criticando Gustavo Franco. No dia 17 de m aio de 1996, disse-lhes que se eu acolhesse a sugestão de substituí-lo, rolaria tam bém a cabeça de Malan, dada a relação de afinidade e de lealdade no trabalho que ligava os dois.

Tirar Gustavo é tirar Malan - disse-lhes.

Procurei conversar com um tertius, no caso, Edm ar Bacha, em cuj as opiniões sem pre confiei e que, exercendo atividades na iniciativa privada, não queria nada para si no governo, para m e aj udar a ver as coisas com m aior clareza. Tivem os um encontro no dia 21 de m aio de 1996, em m eu apartam ento em São Paulo, que reforçou rneu sentim ento.

Dem os voltas à im aginação para ver quem eventualm ente poderia substituir Malan. Apesar de existirem bons candidatos, com o José Roberto Mendonça de Barros, nenhum nos parecia superar, internacionais, respeitabilidade trabalho de Malan.

Em m aio, Serra, instado por Mário Covas e tam bém descontente com a política económ ica, com eçou a cogitar de candidatar-se a prefeito de São Paulo nas eleições daquele ano. O novo m inistro do Planej am ento, António Kandir, que assum iu em j unho, em penharia seus esforços m ais na elaboração do program a Brasil em Ação e na reform a das práticas orçam entárias do que na crítica da política do BC. Porém , os fatores obj etivos que deram m argem às críticas do m inistro anterior perm aneciam . Sem contar que o aj uste fiscal dos estados era recebido com apreensão, até por governadores aliados e com petentes. Não apenas Covas protestou de início. Tam bém os governadores de Minas, Eduardo Azeredo, e do Rio Grande do Sul, António Britto (este tem eroso das conseqüências políticas da privatização do Banco Meridional), para não falar de governadores filiados a partidos na m édia, a som a de contatos e experiência pública, correção, dedicação e capacidade de oposicionistas, com o José Orcírio da Silva, o Zeca do PT, de Mato Grosso do Sul, ou a partidos de relação instável com o governo, com o o do Piauí, Francisco de Assis de Moraes Souza, o "Mão Santa", do PMDB. Seria, porém , inj usto restringir só a esses as reticências ao aj uste, pois quase todos penavam com a falta de recursos para cum prir as respectivas obrigações. Na verdade, todos pagam os alto preço eleitoral em outubro de 1996.

A crise bancária continuou pelo ano afora. O BB parecia ter um "furo” assustador de duas dezenas de bilhões de reais, que depois se revelou próxim o a 8 bilhões. Ainda assim , um rom bo colossal, que exigia a capitalização do banco pelo Tesouro. Indaguei com o fora possível chegar a tal descalabro. A resposta: sem o floating inflacionário, veio à tona a cara m edonha dos desatinos de adm inistrações anteriores. A situação do BB reforçou em m im a convicção de que era necessário privatizar os bancos estaduais e gerir o grande banco de em presa e de m ercado, para evitar que o povo de adm inistradores perdulários do dinheiro público, com o tão freqüentem ente acontecera no passado. Quando estávam os a braços com problem as desse tipo, alguns senadores propuseram um a CPI do Sistem a Financeiro. Só que, tal com o aprovada em com issão do Senado, a CPI seria para verificar os problem as financeiros ocorridos a partir de 1995 - ou sej a, de m eu governo, única e exclusivam ente, com o j á disse antes. A m á-fé política era evidente: queriam levantar suspeitas sobre o Banco Nacional e os dem ais, com o se se tratasse de responsabilidade m inha ou de m eu governo, quando essas instituições vinham capengando há anos. Por trás dessa atitude, um episódio m enor: um a reportagem crítica de Vej a sobre aposentadorias de políticos, m exendo com o presidente do Senado, José Sarney, e fam iliares, provocara retaliação, a partir da suposição infundada de que fora inspirada "pelo Planalto" O episódio Económ ico perm anecia gotej ando o tem po todo. Buscavam -se "culpados", no caso Gustavo Loy ola e sua equipe, o que os levava a pensarem continuam ente em dem issão, para m e deixar com as m ãos livres para os acordos políticos (que eu não pensava em fazer). Ainda o câm bio, o caso Lam arca e a polém ica entrevista de Sérgio Motta No início de agosto daquele 1996, Gustavo Franco voltou à carga contra a política fiscal. O balanço das transações correntes, quer dizer, a diferença entre os recursos em dólar que o país envia para o exterior e tudo o que recebe de lá, era razoável (déficit de 3 bilhões de dólares); não fazia sentido olhar apenas o déficit da balança com ercial, que era crescente. Precisávam os cortar gastos orçam entários. Mas com o?

Só se fosse no físico, ano

estatal com critérios

pagasse pelos atos

tei eu: dispensa de pessoal, coisa que a Constituição vedava - excetuados os ocupantes de cargos de livre provim ento, de significação m ínim a em m eu governo, e pessoal necessário ao andam ento da m áquina do Estado > cortar serviços públicos etc., em circunstâncias nas quais o déficit m aior provinha dos estados e m unicípios. Um a verdadeira cam isa-de-força. André Lara Resende, na ocasião integrando o Banco Matrix, com quem conversei no dia 20 de agosto de 1996, três dias depois da apresentação de Gustavo, expôs duras críticas ao governo. Repliquei que a perda de tem po inicial nas reform as da Previdência e adm inistrativa se deveu à falta de propostas de m ais sim ples entendim ento. André se sensibilizou e se dispôs a colaborar na reform a da Previdência.

Nesse m eio-tem po, vários com plicadores, entre eles, a discussão sobre a reeleição, com o vim os no capítulo anterior. Tam bém problem as provocados pela delicada questão dos m ortos e desaparecidos durante o regim e m ilitar. O general Osvaldo Gom es, representante do Exército na com issão especial que criei no Ministério da Justiça sobre o assunto - que j ulgava os pedidos de reparação às vítim as da ditadura -, am eaçava renunciar se se concedesse indenização à fam ília do exguerrilheiro Carlos Lam arca. Alegava que o ex- capitão m orrera de arm as na m ão, e não em prisões sob responsabilidade do Estado. Além do que, argum entava, a fam ília de Lam arca j á recebia pensão m ensal do Exército. O general era um hom em digno. Eu o conhecera anos antes, quando exercia a função de assessor parlam entar do Exército na Constituinte. Ele m e procurou no Alvorada, seguido pela im prensa. Lem brou que vinha trabalhando com correção e lealdade na com issão. Contou-m e inclusive que, estando na reserva, não som ente votara em m im nas eleições de 1994 com o criara um com ité de apoio a m inha candidatura em sua cidade, Juiz de Fora. Acreditava, pois, em m eu governo. Mas queixou-se:

- Presidente, todas as m inhas propostas são derrotadas na com issão. Não há um a que passe, não há hipótese. Minha situação está ficando difícil, e agora vem esse caso Lam arca.

Disse ao general ser discutidos, porém recom endação da com issão oficial. E acrescentei:

- O senhor naturalm ente tem o direito de se dem itir, m as vai m e criar um grande em baraço.

que respeitava seus argum entos, que eles m ereciam que eu não poderia de form a algum a deixar de seguir um a

Ao sair do Alvorada, o general Gom es inform ou à im prensa que não deixaria a com issão.

Vaivéns constantes, com algum progresso, nas reform as e na aprovação do FEF e da CPMF. Na área política, com a proxim idade do fim do ano os partidos com eçaram a se m over para controlar as Mesas da Câm ara e do Senado, cuj as eleições se realizam no com eço do ano seguinte. Malan m e propôs, no dia 14 de setem bro, substituir Loy ola, sem pre dem issionário da presidência do BC, por Gustavo Franco. Anteriorm ente, Bacha m e apresentara a m esm a sugestão, argum entando que o m ercado tem ia Gustavo Franco - que j ogava duro nas apostas e tinha um a atitude de com bate franco diante de tentativas de especulação - e que esse sentim ento constituía um trunfo para evitar sobressaltos. Com a preocupação de m inim izar perdas e de som ar em lugar de dim inuir o núm ero j á tão pequeno de pessoas capazes e dispostas a se sacrificar para reconstruir o país, tratei sem pre de afastar soluções potencialm ente sangrentas. Não substituí Loy ola. No m eio de novem bro, logo após o feriado do dia 15, Luiz Carlos Bresser-Pereira, outro crítico perm anente da política cam bial, disse com preender as dificuldades do m om ento, m as sugeriu que eu prom ovesse as m odificações necessárias entre m arço e abril do ano seguinte, 1997. Certam ente pensava que seria m ais fácil depois de resolvida a questão da reeleição. No m eu registro da conversa com Bresser, digo que, de fato, estávam os hesitando em acelerar o deslizam ento do câm bio e que o déficit na balança com ercial não nos deixava tranqüilos. Tem íam os, contudo, as perdas de reservas e o descontrole da inflação. Em balanço no dia 18 de setem bro com Clóvis e os irm ãos Mendonça de Barros (antes críticos do que entusiastas da política do BC), verificam os que a inflação do m ês se aproxim ava de zero; a balança com ercial não era um a m aravilha, m as parecia razoável; havíam os resolvido os principais "pepinos" da agricultura - renegociação da dívida passada, redução e fixação das taxas de j uros etc, - e o investim ento crescera bastante em toda a econom ia. Neste contexto, anotei: "Não sou favorável a nenhum a m ovida no câm bio que possa pôr em risco as reservas. (...) Porque receio algum as oscilações no m ercado internacional que nos afetem . (...) O fato de term os um colchão de divisas com o reserva aj uda, o custo não é tão alto com o se diz." Manifestei-m e favoravelm ente a um a dim inuição m ais rápida do valor do real,

com cuidado, porém , para não provocar um a fuga de capitais. E acrescentei: "Mas a taxa de j uros vai ter que cair tam bém ." O quadro geral era, portanto, de certa calm a e detectavam -se sinais nítidos de fortalecim ento da econom ia, dando m argem a oscilações na apreciação sobre a traj etória futura de variáveis críticas com o as taxas de j uros e o câm bio. Estaria o copo m eio cheio ou m eio vazio?

Questões políticas dom inaram o final de 1996 e o início de 1997: dificuldades com o PMDB, debate sobre a reeleição e eleição das Mesas do Congresso. Em fevereiro, de novo, um problem a à vista no sistem a financeiro: a situação do Bam erindus parecia agravar-se. E nova pressão de Malan: a questão é fiscal e não cam bial; quer dizer, o governo continuava a gastar m uito, acum ulando déficits, e era isto que elevava a taxa de j uros, não apenas nem principalm ente a alta taxa de câm bio que m antínham os; devem os nom ear logo Gustavo Franco para o BC. Isso em um m om ento no qual se discutia a volta de Serra ao governo e falava-se num Ministério do Com ércio Exterior. O Itam araty e a Fazenda sem pre se opuseram à criação de um Ministério para cuidar de áreas que eram "deles" principalm ente se tocasse a Serra com andar a nova pasta. A equipe económ ica tem ia novas tensões internas. Mas a criação desse Ministério não estava, então, de m odo algum em m inhas cogitações. Depois da vitória na Câm ara da tese da reeleição, no fim de j aneiro de 1997, insisti para que o Senado votasse logo a reform a da Previdência. Instigado por notas inform ais de José Roberto Mendonça de Barros, que m e chegaram às m ãos por interm édio de Clóvis Carvalho, não sem que antes o autor as tivesse m ostrado a Malan, instruí o chefe da Casa Civil a reunir a equipe económ ica para colocar em pauta a idéia de acelerar a correção da taxa de câm bio. José Roberto assinalava a conveniência de fortalecer o aj uste fiscal e flexibilizar a política cam bial. Pressentia problem as no horizonte do sistem a financeiro internacional e pedia que nos preparássem os antecipadam ente. Clóvis, que norm alm ente coordenava as reuniões da Câm ara de Política Económ ica, convocou reuniões à parte, m ais restritas, para a discussão do tem a câm bio. Pelas inform ações que eu recebia, cam inhava-se ali a duras penas na direção de um consenso em torno da adoção de um a banda m ais larga de flutuação do câm bio que se abriria progressivam ente segundo um a regra preestabelecida, à sem elhan

ça do que, em linhas gerais, defendera Pérsio em m arço de 1995.0 consenso, no entanto, era fugidio. Dentro e fora do governo. Em m eados de m arço, prom ovem os um a reunião com gente de fora do governo em quem eu confiava intelectualm ente, organizada pelo sociólogo Luciano Martins, m eu assessor especial. Participaram António Barros de Castro, econom ista, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), m eu am igo e ex-colega na Cepal e ex-presidente do BNDES na gestão Itam ar; Gilberto Dupas, econom ista e exsecretário de Agricultura do governo Montoro em São Paulo; Edward Am adeo, econom ista próxim o ao PT, funcionário de carreira da área econôm ica e que acabaria se tornando m ais tarde m eu m inistro do Trabalho; e Dionísio Dias Carneiro, da PUC do Rio de Janeiro, considerado um dos m aiores econom istas brasileiros.

Nessa reunião, a situação da Argentina serviu para um a discussão interessante: criticaram -se os efeitos do câm bio fixo sobre a indústria do país, m as Dionísio voltou ao argum ento de Gustavo Franco: a Argentina j á se desindustrializara antes de ter sua m oeda equiparada ao dólar. Estaria errado visualizar os problem as som ente do ângulo do déficit da balança com ercial. Sem ser econom ista e vendo a diversidade de opiniões dos técnicos, anotei: "Enfim , há algum as nuvens no horizonte. Não digo isso de público, m as acho que há. Não sei se a equipe económ ica tem condições de dar um a reviravolta sem se estilhaçar." Minha preocupação, com o sem pre, era adm inistrar as tensões e conflitos dentro da equipe na expectativa de que, desse soluções, evitando rom pim entos que política económ ica, além de acarretar a perda de auxiliares de inquestionável valor e capacidade técnica.

Pouco depois, no dia 25 do m esm o m ês de m arço, voltei a ouvir opiniões de econom istas de fora do governo, presentes tam bém Malan, Loy ola e José Roberto Mendonça de Barros. As m esm as questões foram colocadas, o desequilíbrio da balança com ercial, sobretudo. Mesm as dúvidas, com um a sugestão concreta de um dos participantes: deixar o câm bio flutuar; provavelm ente ele encontraria um ponto de equilíbrio próxim o ao de então, m as term inaria a desconfiança de que ele seria forçado. Tal opinião j á havia sido exposta publicam ente por Ibrahim Eris, ex-presidente do BC na gestão Collor, que, tendo nascido na Turquia e falando com

processo,

poderiam resultassem as m elhores abalar a credibilidade da

acento característico, em itia idéias com grande clareza, sem tropeçar em qualquer sotaque. Na prática, o governo estava em outra posição: não m exer no câm bio e conter im portações.

Daquele encontro em diante as coisas se com plicaram . Em abril, houve intervenção no Bam erindus e a em enda da reform a da adm inistração pública passou raspando no Congresso em um a votação delicada que nos obrigou a ceder em relação ao teto salarial de parlam entares e m em bros do Judiciário. Desdobrei-m e em conversas durante o m ês. Jantei com o grupo do ledi, inquieto com os j uros e a taxa cam bial. Encontrei-m e com João Say ad, a quem sem pre gostei de ouvir por sua independência de espírito e im aginação. Say ad achava que seria preciso um aperto fiscal e um a pequena recessão antes de alterar a política cam bial, o que só seria possível passadas as eleições de 1998. No fim do m ês Loy ola voltou à carga na questão de sua dem issão. Propôs André Lara Resende para substituí-lo, o que era um m odo de dizer que não queria Gustavo Franco.

Eu disse a Loy ola que concordava com a análise de Ibrahim Eris de deixar o câm bio flutuar:

- Acho que não dá para esperar, esperar, esperar. Não estou preocupado com a opinião pública ou com a questão da eleição. Por m im , tom o a m edida j á. A partir de m aio de 1997 a situação política piora. Surge a denúncia da "com pra de votos" para aprovar a em enda da reeleição. As reform as se arrastam lentam ente no Congresso que, a despeito de tudo, aprova algo im portantíssim o, que produziria um a revolução no setor: a Lei Geral de Telecom unicações.10 Nada disso dim inui a pressão no BC: as m esm as indefinições e divisões internas. Em j unho Malan volta a propor a nom eação de Gustavo Franco e eu postergo, ainda preocupado em m anter Chico Lopes e não perder Beto Mendonça. A partir de j ulho, a despeito de clarividentes notas deste últim o sobre as conseqüências que poderiam resultar de crises nos países do sul da Ásia (desde abril, m as sobretudo num m em orando de j ulho, depois do colapso cam bial da Tailândia e da Indonésia), não há convergência de pontos de vista na equipe, e m esm o Chico Lopes parece pouco propenso a prom over alterações no câm bio. Lei n°9.472, de 16/7/1997.

As condições políticas levaram -m e a m udar o Ministério para incluir representantes do grupo m aj oritário do PMDB. Queria assim aplainar o cam inho das reform as, bem com o m e prevenir contra a agressividade das oposições. Elas j ogavam pesado com as am eaças e realidades das CPIs, inclusive a fam osa sobre os precatórios, que alcançava a Prefeitura de São Paulo e alguns governos estaduais. Buscavam algum pretexto, com o a alegada com pra de votos, para com plicar a vida do governo. Sem falar na crise em polícias estaduais, que m e levou a autorizar o uso de tropa federal para m anter a ordem pública. Em j ulho, na discussão sobre estabilidade do funcionalism o, apesar de gigantesco esforço, ganham os apertado no Congresso a aprovação da possibilidade de dem issão em casos de insuficiência de desem penho: obtivem os tão-som ente os 308 votos indispensáveis.

A nom eação de Gustavo Franco era obj etada por quase todos, e insistentem ente defendida por Malan. Eu buscava abrandar as resistências, ao m esm o tem po em que enfrentava dificuldades com o Congresso. No fim de j ulho, dentro de características pessoais que com entei no capítulo anterior, Sérgio Motta concedeu um a entrevista a Vej a11 sobre m udanças no Ministério, opinando desabridam ente sobre políticos de quem não gostava e sobre decisões que tom am os. Classificou de "incestuosas" relações que o governo precisava m anter com setores do Congresso, tachou com o "decepcionante" a aliança com o PMDB e o ingresso de dois m inistros do partido no governo, ironizou o PFL, nosso firm e aliado, vergonha" um a nom eação que fizéram os para um a área Transportes e chegou a insinuar om issão do m inistro da Fazenda, Pedro Malan, durante um a votação im portante no Congresso. No horizonte, a crise da Bolsa de Hong Kong, que provocou queda passageira em nossas bolsas. Luiz Carlos Mendonça de Barros, dirigindo àquela altura o BNDES, com a experiência de m ercado que tinha, m e alertou:

- Eles (os especuladores) voltarão.

Finalm ente decidi, nas circunstâncias e pela dedicação e com petência de Gustavo Franco, nom eá-lo para a presidência do BC. Chico Lopes, que poderia aspirar à posição, teve um a reação positiva, para não falar de Beto Mendonça que, ainda quando discordando, sem pre foi construtivo. 11 Edição de 23/7/1997.

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considerou "um a

do Ministério dos

A crise asiática e nós, vítim as do próprio êxito

Vínham os nessa toada quando surgiram os prim eiros sinais de que um a crise financeira com epicentro na Ásia, detectados j á em abril por Beto Mendonça, poderia espalhar-se pelo m undo. Entrávam os no segundo sem estre de 1997. Em bora dúvidas e receios nos atorm entassem , particularm ente a m im , até aquele m om ento acreditávam os que a estratégia de aj uste fiscal gradual (sem aperto drástico do Orçam ento no curto prazo) e correção tam bém gradual da valorização do câm bio (ocorrida no início do Plano) surtiria efeito. Asseguraríam os, assim , sem recessão e sem traum as, a consolidação da estabilidade e a do aparelho produtivo, bases para o desenvolvim ento. A cenário internacional nos obrigaria, entretanto, a m udar radicalm ente de estratégia. Já em j ulho houve significativa troca de docum entos entre os m em bros da área económ ica sobre a crise que parecia aproxim ar-se, incluindo o paper m ais consistente antecipando o que ocorreria no Sudeste Asiático e suas repercussões no Brasil, elaborado por Beto Mendonça, intitulado Aj uste na questão externa. Cabe, portanto, renovar a pergunta: por que não se tom aram as m edidas cabíveis? Pedi a Gustavo que discutisse com igo e com Beto que pensava tom ar. Em m eados de agosto, consta que, depois de longa reunião com os principais condutores da política econôm ica e com Clóvis Carvalho, chegou-se à conclusão de que, diante do quadro internacional, qualquer m udança m ais drástica ou de surpresa seria arriscada. Passou-se assim o m ês de setem bro até que, em fins de outubro, a tem pestade recom eçou intensa. Com eçávam os a descobrir o que era o "contágio" entre as bolsas de valores dos países cham ados em ergentes. Por causa da crise em Hong Kong, a Bolsa de São Paulo num só dia, 27 de outubro de 1997, caiu 14%! Naquele dia recebi o j ornalista Roberto Pom peu de Toledo, a quem vinha concedendo um a série de entrevistas das quais resultou o livro O presidente segundo o sociólogo.12 Ele descreveu o am biente do Palácio da Alvorada em plena crise com o sendo de calm a. Olhando o parque em 12 Fernando Henrique Cardoso entrevistado por Roberto Pom peu de Toledo, O presidente segundo o sociólogo, Com panhia das Letras, São Paulo, 1998, m odernização m udança no

Mendonça as m edidas nas m inhas anotações

volta do palácio, que dá para o lago de Brasília, as em as, com seus passos longos e elegantes, com punham a paisagem quase bucólica que se divisava da biblioteca. O cerrado brasiliense tem um a beleza tím ida, com o de um a adolescente que ainda não se sabe bonita. O am biente, talvez, m as eu não estava tão calm o com o parecia. Nas m inhas gravações anotei: "Essa questão do sistem a internacional, desde a m inha prim eira fala na Cepal, quando fui eleito Presidente, até hoj e, continua m e atorm entando. O sistem a está de cabeça para baixo e esse capital especulativo, [com os] cham ados derivativos, com anda o processo económ ico produtivo real. Isso é um a inversão forte, (...) não tenho form ação económ ica suficiente para fazer análise m ais profunda, m as acredito que isso é gerador de um a possível crise m undial de conseqüências im previsíveis. Tom ara sej a só um pressentim ento, m as quero deixar registrado.” No dia seguinte anotei que m eus pressentim entos não estavam equivocados. Antes de dorm ir vi pela CNN o que acontecia em Hong Kong e adj acências. Resultado: naquele dia perdem os 9 bilhões de reais, pouco m enos em dólares, para defender o valor da m oeda nacional. O m ontante dessas perdas é sem pre relativo. Na verdade o BC troca dólares por reais. Se os especuladores ganham e a m oeda se desvaloriza, ter-se-á perdido o equivalente ao percentual da desvalorização. Se o BC consegue dobrar os especuladores, recupera-se o "perdido" ou até se ganha, dependendo do valor da m oeda no m om ento da venda do dólar, com parado com seu valor no m om ento em que se decida com prar dólares para recom por as reservas. Nos dias seguintes, entretanto, os operadores de m ercado calculariam a seu m odo as perdas e desencadeariam novos ataques. Contraatacam os: m ais reform as e m edidas fiscais. António Carlos Magalhães - e nessas horas ele sem pre surpreendeu favoravelm ente - disse que as apoiaria; m ais tarde houve um só ponto, relativo ao aum ento do IR das pessoas físicas, a que o senador se opôs m om entaneam ente. Apesar disso, e de a Bolsa haver subido 6%, em reunião no fim da tarde de 29 de outubro constatam os que os "locais", bancos e sobretudo fundos de investim ento, j ogaram pesado contra o real. A crise se m anifestou m ais profunda do que parecia, m as Gustavo Franco se saiu m uito bem com o um operador frio e com petente, contornando a tem pestade.

Enrique Iglesias, presidente do BID, m e telefonou, com o freqüentem ente ocorria nas horas difíceis, sugerindo que Malan entrasse em conta

to com o FMI. Desde o lançam ento do Plano Real não tínham os program a algum com aquela instituição, apesar dos brados constantes de "Fora FMI" da CUT e das oposições. O próprio Stanley Fischer, núm ero dois do Fundo, deu declarações dizendo que o Brasil tinha um a situação m uito diferente da que prevalecia na Ásia, e isso depois de certos arrufos entre nosso pessoal e ele, em reunião havida em Cingapura. Mesm o assim , anotei: "Não estou convencido (...) de que as coisas j á estej am superadas.”

Pareci adivinhar: o dia 30 de outubro foi um inferno. Telefonem as sem fim . No final do dia, o resultado, m ais ou m enos óbvio: vencida a especulação inicial, elevação drástica dos j uros, para segurar o sistem a financeiro. Dobram os a taxa Selic, que passou de 22% para 44% ao ano. Anotei: "Espero que sej a provisório. Perdas grandes de toda m aneira, perda para a velocidade de crescim ento do Brasil." Vale a pena, apesar de um a ou outra incorreção na m inha percepção sobre o que estava acontecendo, reproduzir um pouco m ais de m inhas anotações no calor da hora: "Muitos bancos brasileiros, bancos de investim ento, entraram na corrida especulativa e na verdade foram bancados por bancos am ericanos. As agências desses bancos lá fora estão m uito endividadas e os bancos am ericanos estão querendo ganhar na m argem (isto é, na dívida contraída para garantir as apostas, os 'derivativos', no m ercado de futuros). Querem que os bancos brasileiros vendam seus portfólios, suas ações Telebrás, Petrobras, a preço de banana (para pagar os em préstim os) e por isso parecem estar fazendo circular rum ores de que o Brasil é a bola da vez." Anoto tam bém que nada j ustificava os rum ores, nem sequer o endividam ento público que, àquela altura, não era tão grande assim .

As apreensões não term inaram aí. A despeito da perícia do BC em enfrentar a especulação, os ares agitados do m undo não se acalm aram . Dias depois, nova m anifestação do m esm o vírus contagiante. Eu estava em Cartagena de índias, em visita oficial à Colôm bia, para conversações com o Presidente Ernesto Sam per, então m uito pressionado pelos am ericanos sobre a questão do tráfico de drogas. Nunca m e esquecerei quando, visitando com Sam per um a bela igrej a colonial, recebi um a ligação telefónica de Pedro Malan. Para não cham ar atenção, m e encam inhei para trás de um altar e com ecei a absorver notícias inquietantes. Novam ente, o real sob ataque. Dúvidas: vou para a ilha Margarita, na Venezuela, onde haveria

reunião da VII Cúpula Ibero-Am ericana, ou volto ao Brasil? Se vou, podem j ulgar-m e indiferente às tragédias nacionais; se volto, dou sinais de nervosism o ao m ercado. Ah, o m ercado, esse terrível senhor, sem cara e sem coração, tão irracionalm ente racional ou vice- versa, capaz de arrasar em poucos dias o trabalho de tantos anos. E ainda há quem o idolatre... Decidi ir à ilha Margarita. Lá, no m esm o dia, preocupado, conversei com Enrique Iglesias. Tudo de novo. Tento dizer que não há nenhum problem a insuperável com a econom ia brasileira. Ele sabe. Mas, que fazer? Os dois sabíam os tam bém que não é isso o que conta, são as "percepções", voláteis e tão cruéis (e, sej am os francos, da m esm a form a contavam nossas vulnerabilidades, que vínham os buscando corrigir gradualm ente). Entráram os no radar que vigiava a Rússia e a Coréia do Sul. Iglesias conversou por telefone com Cam dessus, o diretor-gerente do FMI, e com Stanley Fischer. Este, conhecedor da situação brasileira, m ostrava-se m ais anim ado, teve um a reação positiva. Tam bém eu falei pelo telefone com eles. Cam dessus estava em Paris. Renovou os votos de confiança, com o quando nos encontram os em 1993 para a renegociação da dívida com os bancos. Disse, tal qual dissera Fischer, que se dispunham a fornecer um a barragem de dólares (com o se procedera antes com o México e com a Indonésia) e que seria preciso que Malan entrasse em contato com eles.

Transm iti o recado ao m inistro e regressei apressadam ente ao Brasil, passando apenas um a noite e um dia na ilha. Não sem antes trocar experiências e pontos de vista com o Prim eiro- Ministro espanhol, José Maria Aznar, o Presidente de Portugal, Jorge Sam paio, e seu Prim eiro-Ministro, António Guterres, e os Presidentes do México, Ernesto Zedillo, e da Argentina, Carlos Menem . Voltei sábado, 8 de novem bro, chegando à m eia-noite. Im ediatam ente m e inform ei pelo telefone, com o faria na m anhã seguinte, sobre as diversas visões da crise. André Lara Resende, que j á m e dirigira a m esm a pergunta um a sem ana antes, colocou no ar a dúvida inquietante: não será m elhor desvalorizar o real? Parou logo de raciocinar em voz alta e todos calaram . Naquele m om ento a m edida provocaria um desastre. Gustavo preferia controlar a especulação agindo com os instrum entos do BC, com o logo contarei, Chico Lopes, que sem pre tem eu a flutuação do câm bio por ser difícil avaliar o ponto de equilíbrio, expôs suas dúvidas sobre nossa capacidade de enfrentar a especulação no m ercado. Gustavo reafirm ou

que poderíam os enfrentá-la, tam bém .

À tarde desse dom ingo, econôm ica am pliada ao redor da grande m esa da biblioteca do Palácio da Alvorada onde, desde o tem po do Presidente Itam ar, m e reuni tantas vezes e quase sem pre sobre o m esm o tem a, o fam oso "que fazer?" para evitar a débâcle, sej a política, sej a econôm ica. Eram os doze a quinze personagens, da Fazenda, BC, Planej am ento e Casa Civil, que podem tom ar providências nas horas de crise na econom ia. E de não pouca tensão. Realm ente calm os, que m e lem bre, além de m im , só Gustavo Franco e Malan. Gustavo j ogara m uitas fichas para conter a especulação. Descobrira, com o os hom eopatas, que nada m elhor do que usar o m esm o m al para o bom com bate. Em m atéria de m ercados futuros o BC seria im batível. A cada pergunta de quanto das reservas tinha-se perdido (na verdade, esvaíram se delas 14 bilhões de dólares) ou de quanto se precisaria para j ogar nas m argens, Gustavo dava um a resposta evasiva, m as continuava transpirando confiança. Luiz Carlos, com espírito prático, afirm ava que o m ercado só tem m edo de quem tem cacife. Defendeu inclusive a securitização das reservas de petróleo, ou sej a, a em issão de títulos para m as pediu guerra total, quer dizer: aperto fiscal

9 de novem bro, j untei a cham ada equipe obter em préstim os garantidos pelo petróleo j á descoberto m as ainda não explorado e m ostrar nosso poderio financeiro.

A insegurança era grande, m as não perdem os a capacidade de decidir. Passam os em revista e aprovam os as m edidas de aperto fiscal que vinham sendo preparadas pelos técnicos do governo nas sem anas anteriores. Com o "Pacote 51", apelido que lhe deu a im prensa por conter esse m esm o núm ero de m edidas, e com certeza por alusão zom beteira a um a m arca de cachaça, tentam os responder à crise, no olho do furacão, aj udando a política m onetária a deter o ataque especulativo por m eio de cortes em todos os lados no Orçam ento, que para m eu dissabor pessoal atingiram até bolsas de estudos. O "Pacote 51" visava tam bém aum entar a confiança quanto à traj etória futura das contas públicas. Mostrou-se m ais eficaz no cum prim ento do prim eiro do que do segundo obj etivo. O im pacto da elevação abrupta das taxas de j uros, que dem orariam a voltar a cair, colocou a dívida pública em um a traj etória de acelerado crescim ento. As contas externas igualm ente sofreram , com a retração da econom ia m undial e a queda nos preços das nossas com m odities de exportação. Sej a com o for, houve um im enso alívio com o im pressão inicial, depois de algum vaivém derradeiro. Ainda no dia 11 de novem bro, um a terça-feira, ocorreu pressão especulativa, o pregão da Bolsa foi suspenso às 17 horas - m esm o assim as cotações caíram 10% - e a sem ana seria atribulada. O Presidente argentino Carlos Menem estava em visita oficial, e m anifestou com preensão e confiança na econom ia brasileira. A sem ana seguinte transcorreria com m enos agitação. Em m inhas anotações diárias recordei os alertas de Beto Mendonça desde j ulho e as discussões com ele e André na m esm a direção, falando em "m udança de regim e cam bial”

para evitar a m alsinada palavra "desvalorização". O susto da crise nos perm itiu retom ar a iniciativa no Congresso, que aprovou o Fundo Social de Em ergência13 e perm itiu que a reform a adm inistrativa cam inhasse razoavelm ente. Alguns itens m ereceram votação expressiva, 351 a 133 votos, quorum superior ao j á altíssim o de 308 votos exigido em reform as constitucionais. No início de dezem bro de 1997, o Congresso deu sua aprovação às m edidas do "Pacote 51", incluindo a elevação da alíquota do IR da pessoa física, contra a qual ACM se insurgira, recuando depois, dem ovido pelo filho Luís Eduardo, a quem recorri.

Antes da votação, parti para o Reino Unido, em visita de Estado. Na véspera, Pedro Parente, secretário executivo do Ministério da Fazenda, inform ou-m e que Antônio Carlos não colocaria obstáculos à aprovação das m edidas no Congresso. Viaj ei confiante. O prim eiro encontro que tive em Londres foi na Câm ara Britânica de Indústria (CBI), onde recebem quatro chefes de governo ou de Estado por ano. Apresentei um resum o da situação brasileira e assegurei que o Congresso votaria, com o votou, tudo o que pedim os para superar a crise. Os britânicos m e aplaudiram de pé. Ovação a m im ? Não, ao país que vencera a crise. Vencera?

Na volta, as pesquisas de opinião m ostravam que 80% da população estavam a favor das m edidas solicitadas ao Congresso. Em fins de novem bro e dezem bro ainda houve rum ores de m al-estar financeiro no Japão e especulações sobre se poderiam alcançar a Argentina. Não o Brasil, contudo. O Congresso continuou votando as reform as. Lem bro-m e de reuniões que tive com Gustavo Franco e Dem óstenes Madureira de Pinho

13 Em enda Constitucional n°17, de 22/11/1997. Meto, diretor do BC. Os j uros haviam com eçado a baixar devagar, m as tanto

Dem óstenes com o eu queríam os alterar algo no câm bio. Repito o registrado: "Vale m ais a pena m anter a taxa de j uros um pouco apertada e m exer no câm bio, que o câm bio é um problem a" (10/12/1997). Gustavo não concordava que constituísse um problem a para as exportações, m as sustentava que deveríam os alargar a banda de variação por causa do volum e das im portações, que seguia elevado. Rapidam ente as reservas cresceram e a confiança voltou. Talvez tenha sido isso que nos levou a perder oportunidades para rever a questão cam bial no prim eiro quadrim estre de 1998, quando eventualm ente teria sido possível fazê-lo. Entretanto, com a lem brança recente da superação da crise, o ânim o de m udança arrefeceu. Nos m eses seguintes, com eleições à vista, aum entou a resistência à alteração de rum os. Não por causa de "populism o cam bial" para assegurar vitória eleitoral e sim pelo tem or de que o nervosism o político- eleitoral contagiasse os m ercados: m odificar regras cam biais a essa altura poderia provocar disparada de preços. Em um a econom ia ainda parcialm ente indexada e com viva m em ória de décadas de inflação, o tem or de um a recaída no inferno da hiperinflação nos atorm entava. Quedam o-nos vitoriosos e im óveis. O êxito do com bate à especulação tornou-nos vítim as dela. Os episódios antes descritos e os com entários que vou expor adiante sobre a passagem forçada para o regim e de flutuação do câm bio, em j aneiro de 1999, são suficientes para decisões se dão sim plesm ente a escolha teórica do "bom cam inho". Mesm o porque este, com o disse o grande escritor espanhol Antônio Machado em Provérbios y cantares,1* se faz ao cam inhar. 14 Antônio Machado, Provérbios y cantares, in Poesias com pletas, 14” ed., Madri, EspasaCalpe, 1973, p, 158.

CAPÍTULO 6

Dos obstáculos à herança bendita

Enfrentando a arm adilha dos j uros e do câm bio Com o crescim ento das reservas,1 logo após j aneiro de 1998, e passado o turbilhão político a que m e referi em outro capítulo, em vez de haver pressões para desvalorizar o câm bio m ais depressa (excetuadas, naturalm ente, as provenientes dos críticos contum azes), precipitadam ente. A econom ia patam ares em que gostaríam os: um a m édia de 3,5% ao ano, de 1995 a 1997. Continuávam os perseguidos pelo fantasm a da crise asiática. O Japão e a Coréia do Sul prosseguiam em itindo sinais preocupantes. O tem or de outra trepidação no m om ento de alterar as regras cam biais, som ado a um certo alívio na econom ia, encam inhava nossas energias para prosseguir nas reform as e reorganizar a m áquina pública.

Em m aio, bem depois de controlados os efeitos da crise asiática sobre o Brasil, este era m eu estado de espírito sobre a questão: "Estou preocupado: tivem os em 1994 a crise do México, com a repercussão sobre a m etade de 1995. Em 1997, a crise do Sudeste Asiático, que tem repercussão sobre nós em 1998. As crises estão se seguindo. Receio que a Bolsa de Nova York, lá em cim a, de repente despenque e, aí sim , a coisa venha toda abaixo..." A preocupação não se voltava apenas para a área internacional. No com eço de j ulho, nos reunim os várias vezes para discutir o que fazer. Em seguida a um alm oço com José Roberto Mendonça de Barros e Clóvis

j ustificar o que escrevi na introdução deste capítulo: que as no âm ago de um conj unto m uito m ais com plexo do que

voltam os ao antes devagar-esem pre do que m antinha-se em crescim ento, em bora não nos 1 As reservas do BC em dezem bro de 1995 m antiveram próxim as deste patam ar até setem bro de 1997. Com a crise da Ásia, caíram em outubro para 53 bilhões, m as, superada a crise, foram progressivam ente crescendo até atingir o pico de 74 bilhões em abril de 1998. A partir de agosto do m esm o ano, despencaram , dobrando o ano de 1999 com 44 bilhões, j á com putados os recursos provenientes do FMI. No início de 1999 desceram ao degrau dos 30 bilhões. Com o câm bio flutuando, o nível de reservas não precisou m ais retornar aos altos patam ares anteriores.

passaram de pouco m ais de 50 bilhões de dólares para 60 bilhões em dezem bro de 1996 e se

Carvalho, registrei: "O Beto se preocupa com a área externa. Ele acha que, na área interna, tem os que forçar ainda m ais a queda da taxa de j uros reduzindo drasticam ente o Im posto sobre Operações Financeiras (IOF). Concordo. Vou apertar a área económ ica nesse sentido. Finalm ente parece que todos estão vendo que não se trata só de com bater o déficit, segurando gastos de governo, m as tam bém de um a política m ais agressiva de redução da taxa de j uros.” No transcorrer de agosto de 1998, avolum aram -se os sinais de crise. Perdem os 3 bilhões de dólares das reservas. No dia 23, nova reunião com os responsáveis pela área económ ica. Se bem que não houvesse igual nível de ansiedade em cada um , era clara a preocupação com a defesa da m oeda. Quem sabe não deveríam os transform ar os títulos da dívida de Itaipu em recebíveis do Tesouro, ou sej a, em itir títulos e colocá-los no m ercado para o governo dispor de dinheiro antes do vencim ento e os aplicadores ganharem a redução entre o valor de face dos títulos e o que pagam por eles, além dos j uros? Ou utilizar as reservas em ouro para ir com prando os títulos da dívida? Ou então, prom over a dim inuição do IR para os capitais de renda fixa, ou m esm o alterar os prazos m ínim os para a perm anência de capitais externos no país? Enfim , idéias para enfrentar o terrem oto que parecia avizinhar-se. No fim do m ês, registrei em m inhas gravações: "Houve um a perda m uito grande do valor dos nossos títulos da dívida externa e agora há realm ente o risco de um a nova corrida contra o real. Em bora a questão fundam ental sej a que m udou o quadro do m undo e nós vam os ter de m odificar nossas políticas m acroeconôm icas.” Tudo ficava cada vez m ais difícil. Os bancos alem ães tentavam salvar a Rússia do colapso após m albaratar recursos internacionais obtidos em em préstim os, o governo russo perdeu o controle da econom ia, com inflação explodindo, desordem fiscal, caos no sistem a tributário e total inépcia do Tesouro -, o que poderia estancar a crise antes de atingir m ais fortem ente o Brasil. Alguns de nós queríam os alterar as regras de câm bio e j uros m ais depressa, m as havia pouca convergência de opiniões sobre com o fazê-lo. Busquei apoios para enfrentar a situação e m udar rum os. Conversei com Luiz Carlos Mendonça de Barros, que a essa altura substituíra Sérgio Motta no Ministério das Com unicações. Disse-lhe que pediria a Beto Mendonça, Chico Lopes e André Lara Resende que com eçassem a pensar em alternativas. Sentia que a recessão se aproxim ava, com as bolsas desa

bando. Com o fizera com André no passado para im aginar o Plano Real, estava na hora de ter um a equipe pensando na saída da arm adilha dos m ercados que caíam , das taxas de j uros elevadas e do câm bio valorizado. Esse era o desafio pelo qual o governo teria que passar. Torm enta e vento esquivo: pensei até em m edidas heterodoxas No últim o dia de agosto de 1998 a im prensa com eçou a noticiar que eu iria substituir Malan e Gustavo Franco. Alguém fora indiscreto e, a partir de m inhas preocupações com as m udanças de política, se precipitou em transform á-las, m uito antes da hora, em troca de pessoas nos cargoschave do governo. Em seguida, vieram rum ores a respeito de desavenças entre o BNDES e o BB, ou sej a, André Lara, com apoio de Luiz Carlos Mendonça de Barros, versus Paulo César Xim enes e o diretor da área internacional, Ricardo Sérgio de Oliveira, sobre o leilão de privatização das em presas de telefonia, ocorrido no m ês anterior, j ulho. Percebi logo, e anotei, que haveria com plicações. O FMI, por sua vez, buscava contatos. Malan, conhecedor daquela casa, relutava em aceitar a visão deles. Acreditava que deveríam os cobrar as responsabilidades do G-7 - o grupo de países m ais ricos do m undo - e do Fundo pela crise m undial, e não assum ir as culpas pela situação. E continuava, obstinado, a m encionar o déficit fiscal, em bora, com o anotei, não descuidasse da "questão central" o câm bio. Novam ente reclam ei da desunião da equipe, pois recebera inform ações de que alguns haviam com entado com j ornalistas m inhas inclinações e a disposição de m udar o rum o das coisas.

Antes que tivéssem os tem po para isso, as raj adas da ventania precursora da crise com eçaram a se fazer sentir. No dia 3 de setem bro a agência de classificação de risco Mood/s rebaixou os títulos da dívida externa da União. Perdem os em um só dia 2 bilhões de dólares de reservas.

Telefonei a Chico Lopes para debater a necessidade de aum entar a taxa de j uros, pois novam ente o "contágio" transm itira a crise russa ao Brasil, a despeito das declarações do FMI e de autoridades m onetárias de que nossa situação era diferente. Os sonhos de aj ustes na política m onetária foram ladeira abaixo. No entretem po, Serra m e enviou interessante palestra sobre as vantagens do câm bio flutuante proferida no Banco Mundial, em abril, pelo econom ista am ericano Jam es Tobin, da Universidade Yale - o m ês

m o que propôs que se taxassem as transações financeiras internacionais com o form a de conter a volatilidade dos m ercados e proteger países vulneráveis. Àquela altura, pensei, flutuarem os todos nós... Anotei: "Quando estávam os em boas condições podíam os ter ousado m ais. Agora não dá para fazer, vam os agüentar firm e." Os diversos m em bros da equipe económ ica continuavam se desentendendo quanto às m edidas concretas. Luiz Carlos e André queriam um a desvalorização do real. Ao ver deles, Gustavo Franco e Dem óstenes Madureira tam bém concordariam com esse ponto de vista. Chico Lopes alegava que ou bem se continuava defendendo o câm bio na trincheira das bandas estreitas ou seria m elhor deixálo flutuar. André, por sua circunstâncias, a flutuação produziria um desastre. Paradoxalm ente, em m eados de setem bro, em as eleições presidenciais do m ês seguinte, eu aparecia com 48% dos votos, contra 25% de Lula. Maioria absoluta de votos válidos, vitória no prim eiro turno. Mau m om ento para vencer eleições... Enquanto isso vivíam os a angústia de cada dia. Era um tal de olhar resultados das bolsas m undo afora, de ver quanto das reservas saíam do país e de repetir declarações quanto possível otim istas, que ninguém agüentava m ais. A Fazenda, j á se preparando para as conversas com o FMI, anunciava planos de cortes orçam entários, buscando repetir o êxito (fugaz) ocorrido no ano anterior. Os m inistros das áreas fundam entais, especialm ente o da Saúde, protestando contra os cortes e am eaçando renunciar. Repliquei que tam pouco m e alegravam os cortes, m as que ninguém m e dera alternativas, m esm o vez, considerava que, nas

pesquisa do Datafolha sobre os que concordavam em linhas gerais com Serra. Lem brava a eles que a flutuação do câm bio resultaria em Indonésia, ou sej a, um a brutal desvalorização da m oeda seguida de grave desorganização da econom ia, e a centralização de câm bio daria em Malásia - isto é, um a econom ia sob m aior controle do Estado e m ais distanciada do m ercado internacional, levando a um recuo de investidores estrangeiros. Estávam os tentando evitar um a repetição do ocorrido com am bos os países asiáticos; com o não m e ofereciam escolha, optei pelo cam inho do aperto fiscal. Na quinta-feira, 10 de setem bro, as bolsas despencaram . De novo, passei em revista a opinião de m uitos colaboradores. Avisei José Roberto que não queria que se tom asse qualquer m edida sem m eu prévio conhecim ento.

Disse a André Lara e a Luiz Carlos que, diante da preocupação de

todos, concordaria até com algo m alvisto pelo m ercado e por organism os com o o FMI: a centralização do câm bio, ou sej a, um conj unto de m edidas que im plicassem um controle sobre a saída de dólares. Os agentes económ icos perderiam a liberdade de rem eter divisas ao exterior e passariam a subm eter-se a critérios discricionários estabelecidos por atos adm inistrativos do BC com vistas à proteção das reservas internacionais. Deixei claro, porém , que não concordaria com a flutuação do real, que levaria o valor do dólar às nuvens e destruiria todo o nosso esforço. À noite recebi a inform ação de que o BC elevara ainda m ais a taxa de j uros. A balbúrdia entre os técnicos era grande. Gustavo Franco, com discreto apoio de Malan, propunha dificultar rem essas de dólares para o exterior. Chico Lopes se dem itiria se fosse tom ada algum a m edida heterodoxa, com o essa. Com o resultado das divergências internas, a elevação dos j uros prom ovida pelo BC levara a taxa para 49,75%. Não m enor era m inha inquietação. A predisposição de aceitar a centralização do câm bio se deu depois de verificar com Gustavo a consistência das soluções "via m ercado" ou sej a, aum entando a taxa de j uros, o que eu não acreditava que resolvesse a crise. Com eçaram então a chegar notícias do Fundo e do Tesouro am ericano, dizendo que dariam sustentação ao m ercado brasileiro e reafirm ando confiança no governo. Os esforços de Malan, que sabia de m inha disposição de aceitar até m esm o m edidas heterodoxas, tiveram êxito.

Continuar: parte 2 de 4