A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 9 de 9 · parte 1/4

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A arte da política: a história que vivi

Institutos do Milénio, foram iniciativas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

oportunidades de um

internacional e buscar form as de em conta os valores e requisitos

Na política externa, por conseqüência, a atitude progressista requer ações que quebrem as barreiras e im pedim entos internacionais acaso existentes, para favorecer o desenvolvim ento econôm ico-social e a dem ocratização de cada país. No cam po dos valores, a visão progressista leva à defesa dos direitos hum anos e ao com prom isso com form as de desenvolvim ento sustentáveis social e ecologicam ente. Tudo isso sob a égide da preservação da paz e da dem ocracia valores universais e na busca

internacional. Nessa, os obj etivos

constante do aperfeiçoam ento da ordem

principais são os de assegurar m aior institucionalização, m aior transparência nas decisões e dem ocratização crescente dos processos deliberativos nos órgãos internacionais.

Para tornar-nos m ais aptos a enfrentar essas lutas, com o chanceler, m inistro da Fazenda e Presidente da República, procurei substituir as práticas e visões do Brasil pré-globalização por perspectivas m ais dinâm icas, que perm itissem à econom ia se aj ustar às realidades globais sem perder graus de autonom ia, dentro do possível, em bora tentando o im possível. Em sum a, busquei m anter um a atitude que qualifico de progressista e sustentei políticas com patíveis com essa visão da sociedade e do m undo, que vê um entrelaçam ento entre o externo e o interno,

cultura de cada país nem , m uito m enos, sem desfazer o que é próprio da

desatender aos interesses nacionais.1 Nos dias de hoj e, graças às facilidades de com unicação e de deslocam ento de pessoas, a diplom acia dos países inclui um a dim ensão presidencial. Por m ais que a "diplom acia presidencial", com as conseqüentes e seguidas viagens internacionais do Presidente, sej a criticada por quem não conhece com o se form am as teias decisórias contem porâneas, ela é indispensável. O núm ero de reuniões de cúpula é grande, nelas a presença presidencial é obrigatória e os interesses do país levam a reuniões bilaterais freqüentes. Só os ilusos acreditam no disparate de que algum a form a de lazer estej a entre as razões dessas viagens ou que elas se lim item a buscar a expansão do com ércio. Esta eventualm ente pode decorrer de algum 1 Em artigos em publicações especializadas m as tam bém na im prensa, Celso Lafer tem tratado com propriedade desse entrelaçam ento, obj eto tam bém de reflexões em seu livro A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira: passado, presente e futuro, 2a ed., São Paulo, Perspectiva, 2004. ^

acordo assinado entre presidentes. Com m ais freqüência, entretanto, o fluxo de com ércio depende de condições econôm icas obj etivas, da atividade em presarial e da ação contínua dos Ministérios do Exterior e do Com ércio. O interesse da diplom acia presidencial é, sobretudo, político. Sucede que as boas relações políticas facilitam os laços económ icos. No discurso de posse, ao assum ir o Ministério das Relações Exteriores, a 5 de outubro de 1992, sublinhei que o Brasil m antinha elos com o m undo em m uitas direções. Nossos interesses com erciais abrangem vários continentes. Da Ásia longínqua, com o Japão e a China, até nossos vizinhos m ais próxim os do Mercosul, passando pelo México, pelo Chile e pelos países andinos. Encontram os nos m ercados m aduros da União Européia e dos EUA parceiros essenciais. O Oriente Médio tam bém é relevante.

Durante m inha gestão com o chanceler, ainda im portávam os m uito petróleo da região, e o peso da im igração árabe em nossa população é conhecido. A África, m esm o sem ser com ercialm ente prioritária, pulsa em nosso sangue e vibra em nossa cultura. Assim , nossa vocação universalista é indiscutível. Não apenas porque som os global traders m as tam bém porque nosso tam anho físico e populacional dá-nos papel de relevo na região onde estam os inseridos. O aspecto m ultirracial e de cultura sincrética de nosso povo, da espiritual à m aterial, predispõem -nos aos contatos com o m undo, sem esquecer a tradição de paz e de busca de soluções diplom áticas e negociadas que é um dos m aiores patrim ónios da história diplom ática brasileira, nem sem pre devidam ente valorizado. A vocação de autarquia, tão presente na visão do desenvolvim ento económ ico "autónom o", se chocava, de certa form a, com essa evolução histórica. Outra não foi, no com eço do século, a percepção do Barão do Rio Branco, o grande m inistro de Relações Exteriores da República Velha, um dos poucos e verdadeiros "heróis" brasileiros. Sentindo o desafio da época, com a em ergência dos EUA com o potência m undial, Rio Branco se lançou a consolidar as fronteiras e a olhar com carinho os vizinhos do Prata, nossos adversários, às vezes ferrenhos, em alguns períodos do Im pério.

Estendeu suas preocupações ao Chile e, decididam ente, optou pela cartada am ericana. Abriu dessa form a um guarda-chuva protetor às eventuais ingerências européias. Com um a ressalva fundam ental: pan-am ericanism o, sim , m as com visão universalista e não de dom ínio da nação m ais poderosa. Daí por diante, nossa diplom acia sem pre preferiu os fóruns m ui

tinacionais aos bilaterais. Desde o período da construção da ONU até sua fundação, em outubro de 1945 (colhendo a experiência de nossa presença na Liga das Nações e no Tribunal da Haia), até hoj e esta tem sido a conduta brasileira na política externa.

Em bora sej a im portante para a diplom acia a preservação de um a linha de conduta coerente, é essencial que a política externa sinta os ventos do m undo. Não para curvar-se a eles, m as para utilizá-los na direção do interesse nacional e poder assim proj etá-lo com algum im pacto num m undo em acelerada m udança. Precisa, portanto, ser flexível para perm itir aj ustes que deixem o peso da tradição trabalhar em favor dos interesses contem porâneos. País com interesses m últiplos com o o nosso é avesso a interesses excludentes, com o foi Rio Branco.2 Tentei seguir esse padrão de política externa. Para sintetizar, lanço m ão de expressão cunhada pelo em baixador Gelson Fonseca, que foi m eu assessor direto, segundo a qual a política externa que persegui desde m inha curta passagem pelo Itam araty (de outubro de 1992 a m aio de 1993) buscou "a autonom ia pela participação" num a realidade internacional cam biante, em contraposição à "autonom ia pela distância" da ordem m undial vigente, que em m om entos anteriores m arcou governos autoritários. De fato, a tendência à autonom ia pela distância ficou clara, no decorrer do tem po, ao longo da m aioria dos governos m ilitares. O Itam araty, geralm ente entregue a diplom atas de carreira naqueles anos de tendência tecnocrática, acabou por desenhar um a política de defesa de nossos interesses que j ogava com o terceirom undism o. Sem disporm os de poder m ilitar e sufocados pelo pouco espaço de m anobra deixado pela bipolaridade ideológica, soviética, procuram os nos defender apoiando cham ado G-77, por um a nova ordem m undial "m ais j usta". O país participou da discussão sobre a

política e estratégica am ericanono plano econôm ico o grupo, 1 Para quem quiser aprofundar-se sobre a im portância do legado de Rio Branco, sugiro a leitura de duas obras: Carlos Henrique Cardim e João Alm ino (orgs.), Rio Branco, a Am érica do Sul e a m odernização do Brasil, Rio de Janeiro, EMC, 2002, lançada por ocasião do centenário da posse do Barão no Itam araty e para a qual tive o prazer de escrever o prefácio; e Rubens Ricupero, José Maria da Silva Paranhos, Barão do Rio Branco: biografia fotográfica 1845-1995, organização, iconografia e legendas de João Herm es Pereira de Araúj o, Brasília, Funag, 1995. 604

redistribuição de poder no plano económ ico e aj udou a inserir o tem a Norte/Sul no confronto Movim ento desse grupo de países, com ressalvas do Itam araty quanto a seu neutralism o político devido a nossa inexorável dim ensão ocidental. Mas o Brasil fazia a crítica ao m onopólio do poder e negou- se, por exem plo, a subscrever o Tratado de NãoProliferação de Arm as Nucleares (TNP), de 1968. Desenvolvem os um a política m ais ativa na África e no Oriente Médio, a qual, se produziu conseqüências negativas (por exem plo, dívidas não pagas referentes a produtos e serviços exportados e, principalm ente, com prom issos político-m ilitares com ditaduras árabes), tam bém teve aspectos positivos, com o o apoio às nações africanas que se tornavam independentes e a condenação do regim e racista do apartheid na África do Sul. No entanto, é preciso não esquecer que a m esm a política externa que, com um a m ão, se apresentava com o defensora de princípios e ideais de j ustiça no m undo, com a outra fugia com o o vam piro da luz de tudo que passasse perto do reconhecim ento de um a responsabilidade internacional pelos direitos hum anos e que pudesse pôr em risco a com placência tradicional com abusos praticados por países nãoalinhados ou antiam ericanos. Basta lem brar o apoio a virada de nossa política em Angola, o caso equiparando sionism o a racism o e nossa om issão diante da invasão do Tim or Leste pela Indonésia.

Meu governo procurou suprir nosso dever m oral para com esse rincão de cultura aparentada à nossa, ocupado brutalm ente pela ditadura m ilitar da Indonésia de 1975 a 1999, e depois adm inistrado pela ONU até sua independência, em 2002. Visitei o Tim or Leste em j aneiro de 2001, quando m antive longas conversas com o grande líder da independência do país, Xanana Gusm ão, que seria eleito Presidente no ano seguinte.

Apoiam os Sérgio Vieira de Mello, o alto funcionário da ONU que cum priu de form a exem plar sua m issão de governar o território em frangalhos e que, lam entavelm ente, seria m orto em atentado no Iraque, em 2003, e seus esforços de reconstrução e preparo da independência do país. Autorizam os o envio de um pequeno contingente para integrar a Força Internacional da ONU e respaldam os vários proj etos de cooperação, que incluíram alfabetização, form ação profissional e a área da saúde, entre outros. eos

Leste/Oeste. No plano político, houve algum a aproxim ação com o Não-Alinhado, em bora o Brasil nunca tenha sido m ais que observador ao colonialism o português, até do voto brasileiro na ONU

O contraste entre o que pudem os fazer por Tim or e o silêncio do governo m ilitar diante do m assacre ali prom ovido pela Indonésia está entre as razões de m eu pasm o quando setores de esquerda se referem à política externa daquela época com o "progressista" ou de defesa da soberania nacional, provavelm ente só por haver exacerbado um antiam ericanism o presente em setores da sociedade brasileira. A política externa do regim e m ilitar tinha a legitim idade do governo que a criara. Após a queda do m uro de Berlim , em 1989, e com a aceleração dos processos económ icos vinculados à globalização, nos anos 1980 e 1990, havia que rever seus obj etivos centrais.

As prim eiras reações vieram ainda no governo José Sarney, que am pliou o quadro de nossas relações diplom áticas, reconhecendo Cuba, dando m aior ênfase à China e, principalm ente, fincando colunas m ais sólidas na Am érica Latina, em especial na Argentina e no Uruguai, recém -reingressados na vida dem ocrática. Os governos posteriores deram continuidade ao que os Presidentes Raul Alfonsín e Sarney haviam iniciado, selando a participação do Brasil no Mercosul, por m eio do Tratado de Assunção, de 1991. O governo Fernando Collor tentou im prim ir um m atiz prim eiro-m undista a nossos contatos externos. Abriu a econom ia, sofrendo reparos por não haver obtido contrapartidas de m aior acesso aos m ercados externos, e passou a criticar as deform ações das políticas de substituição de im portações. Num a referência fam osa, um tanto quanto forçada, em bora não totalm ente desprovida de verdade, Collor cham ou de "carroças" os autom óveis brasileiros de então. O Presidente Itam ar Franco encam inhou-se para o lado oposto: inspirou a volta da fabricação dos "fusquinhas" e criou regras favoráveis à produção de carros populares. No plano externo, retom ou a linha sul-am ericanista ao assinar em dezem bro de 2004 o Acordo de Ouro Preto, que definiu regras m uito liberais para o Mercosul, e deu passos im portantes na aproxim ação com a Venezuela, que, sob o com ando de Rafael Caldera, pela prim eira vez olhou para o sul.

Em síntese, os o fortalecim ento da horizonte novo, ao processos de integração, diluindo as fronteiras entre o externo e o interno. Os atores envolvidos nas relações internacionais provieram não apenas do Estado, com seus diplom atas e funcionários, m as tam bém da

avanços da globalização económ ica com binados com dem ocracia nos diferentes países da região desenhavam um m esm o tem po em que suscitavam e tornavam possíveis

sociedade civil. Novos tem as, com o os referentes à paz, aos direitos hum anos, ao m eio am biente e à dem ocracia, entraram na agenda das relações internacionais. Em conj unto isso contribuiu para redefinir a noção de soberania nacional, sem , naturalm ente, diluí-la, m as dando-lhe novas dim ensões e com prom issos. Menem fala num Mercosul só com Brasil e Argentina A decisão de conferir m aior ênfase à nossa região não era nova e vinha se consolidando. Relato dois episódios para ilustrar essa evolução, m uitas vezes feita de vaivéns, e para m ostrar com o, tam bém na diplom acia, os im previstos contam , pois avançávam os m esm o sem ter clareza sobre os no vos rum os.

Um deles m encionei anteriorm ente de passagem neste livro. Eu ainda era chanceler, portanto sem obrigações específicas na área económ ica, quando recebi a visita do presidente da Petrobras, Joel Rennó, estando presente o em presário paulista Jacques Eluf. Perguntei-lhe quanto im portávam os de petróleo de dois grandes produtores latino-am ericanos, Argentina e Venezuela. A resposta decepcionante: quase nada. Expus as razões políticas e estratégicas para um com ércio m ais ativo na região e, a partir daí, a política de com pras da Petrobras com eçou a m udar. Em vez de im portarm os do Oriente Médio quase todas as nossas necessidades em m atéria de petróleo, herança das alianças preferenciais dos governos m ilitares, passam os a com prar de nossos vizinhos. Em m eados de m eu segundo m andato, as im portações alcançaram som as expressivas em dólares: quase m eio bilhão da Venezuela e quase l bilhão da Argentina.

Este últim o valor correspondeu ao déficit no com ércio bilateral com os argentinos, perm itindo ativar as trocas com erciais sem prej uízo real para nós: se não im portássem os petróleo da Argentina o faríam os do Oriente Médio, sem contrapartida de exportações. Conseqüência das m udanças no m undo: a prim eira guerra do Golfo, em 1991, e o subseqüente em bargo ao Iraque decretado pela ONU, bem com o a desconfiança crescente do m undo ocidental em relação ao regim e teocrático do Irã, haviam bloqueado boa parte de nossas vendas à região. Sem contar, naturalm ente, a extrem a instabilidade em torno do golfo Pérsico, fonte perm anente de preocupação para quem depende do petróleo proveniente dali.

O segundo episódio se deu tam bém durante m eu período com o chanceler, durante as negociações para a construção do gasoduto Brasil-Bolívia, e m ostra com o são m uitos, e às vezes um tanto aleatórios, os fatores que podem perturbar um a efetiva integração do espaço sul-am ericano. O acordo para a construção do gasoduto, antiga aspiração nacional desde o Tratado de Roboré - assinado entre os dois países em 1938 e atualizado em 1958 -, estava quase concluído. O m inistro Paulino Cícero, de Minas e Energia, apoiado na resistiu bastante à utilização do gás as negociações prelim inares com o governo de La Paz. Negociações difíceis e m ultifacetadas, que im plicavam a definição do preço do gás e cuj os desdobram entos se arrastariam por boa parte de m eu prim eiro m andato.

Construir um gasoduto de m ais de 3 m il quilóm etros, passando pelo Pantanal, com respeito absoluto às regras am bientais, tendo de convencer o BID a conceder um financiam ento para um a em presa estatal, e, finalm ente, decidir a que partes e regiões do Brasil o gasoduto deveria chegar não eram questões triviais. Num a m anhã, o m inistro Paulino Cícero telefonou solicitando m inha presença no Palácio do Planalto. A viagem para Cochabam ba, cidade em que se firm aria o acordo, m arcada para o dia seguinte, estava am eaçada. Em m ais de um a ocasião socorri Paulino o Presidente Itam ar sobre a necessidade dos com bustíveis, m edidas nada sem pre encontram resistências no m ais recorreu a m im .

Cheguei ao gabinete do Presidente para tratar do assunto. Itam ar logo afirm ou:- Eu não irei m ais à Bolívia, avise a eles. Indaguei:- Por que isso, Presidente? Resposta:

- Porque o Aureliano [Chaves, ex-Vice-Presidente da República e exm inistro de Minas e Energia, entendedor da m atéria] leu o dossiê e m e disse que está errado. Parece que nem gás existe na quantidade que estão nos oferecendo. x 608 Petrobras (que antes e m esm o depois com o fonte energética), term inara

Cícero, aj udando-o a convencer de eventuais aum entos de preço populares, m as necessárias, e que Planalto. Por isso o m inistro um a vez

Neste m eio-tem po, chega o próprio Aureliano Chaves. Repetem -se os argum entos. O m inistro Paulino Cícero contra-ataca, dizendo que a Petrobras havia revisado tudo e concordava. Pedi que Aureliano exam inasse um a vez m ais os docum entos. Ele se dirigiu ao saguão contíguo à sala presidencial com o papelório nas m ãos, enquanto Itam ar, Paulino e eu continuam os conversando. De volta da nova leitura, Aureliano concluiu que, a seu ver, não se deveria m esm o assinar o acordo. Sugeri que se cham asse o presidente da Petrobras para, j untos, reavaliarm os a questão. O Presidente aceitou a sugestão, m as, à saída, pediu- m e que avisasse o governo boliviano sobre a suspensão da viagem . Voltei para o Itam araty e liguei para o em baixador Jório Salgado, que estava em Cochabam ba preparando a visita presidencial. Adverti-o da possibilidade de cancelam ento. Jório m ostrou desalento, pois tudo estava preparado para receber com j úbilo o Presidente do Brasil: ruas engalanadas com bandeiras dos dois países, estudantes m obilizados, presentes dois ex-presidentes da Bolívia que iniciaram tratativas sobre o gasoduto havia m uitos anos. Pouco depois m e cham a pelo telefone o chanceler boliviano, Ronald MacLean, apreensivo com a possibilidade de cancelam ento da viagem . Resolvi por conta própria dizer- lhe que eram boatos. Volto ao Palácio e m e dou conta do porquê da aflição dos bolivianos: o próprio Presidente Itam ar, antes de ir para o alm oço no Alvorada, dera a entender à im prensa que não iria m ais a Cochabam ba. Tive nova conversa com o Presidente para m ostrar a dificuldade diplom ática que poderia causar a suspensão, à últim a hora, de tudo que se negociara árdua e longam ente. Contei-lhe que não havia inform ado à Bolívia sobre o cancelam ento. Sem m uito entusiasm o, em barcam os para a Bolívia no dia seguinte, tendo o Presidente se feito acom panhar por m im , pelo m inistro Paulino Cícero e pelo m inistro da Justiça, Maurício Corrêa. Paulino e eu tratam os de encoraj ar o Presidente, até que, ao chegar, ele desfilou em carro aberto e constatou a alegria dos m ilhares de bolivianos que acorreram às ruas. Perspicaz com o é, recobrou ânim o, assinou com confiança o acordo que preparáram os, j unto com o Presidente Jaim e Paz Zam ora, e nunca m ais se falou da falta de gás nas j azidas do país vizinho.

Com o Presidente eleito, visitei Buenos Aires. Depois de surpreendente conversa que tive (presenciada pelo em baixador do Brasil na Argentina, 609

Marcos Azam buj a, m eu assessor) com o e Dom ingo Cavallo, Perguntaram -m e sobre o Mercosul e sobre a cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Respondi que o Brasil, por sua traj etória e suas peculiaridades de país com um a cultura de paz e tolerância cultural, estaria sem pre à disposição das dem ais nações, principalm ente das vizinhas, para ser útil nos fóruns internacionais, especialm ente no Conselho de Segurança. Mas, e o m as conta, entre um a cadeira no Conselho e a am izade com a Argentina e com nossos vizinhos, ficaríam os com a segunda. Eu via com o m elhor cam inho para nosso país ingressarm os no clube dos desenvolvidos, na época o G-7, graças ao nosso trabalho e à integração com os vizinhos, em vez de lutarm os por um a posição política, de prestígio, para a qual talvez não tivéssem os o apoio deles, tão im portante para o crescim ento de nossa econom ia e para a consolidação de nossa experiência integradora.

Ficara claro para os argentinos que j ogaríam os a carta da região. A surpreendente conversa com Menem a que m e referi tem a ver com isso. De repente, o Presidente disse achar m uito "apenas Argentina acom panhavam . Estávam os a pouco tem po do encontro que iria realizar-se em Ouro Preto para form ar o Mercosul com o união aduaneira, incluindo naturalm ente o Uruguai e o Paraguai e, pensava eu, Menem não estava inteiram ente a par dos fatos. A surpresa aum entou quando Cavallo interveio apoiando a declaração de e pelo em baixador Júlio César Gom es dos Santos, Presidente Menem e os m inistros Guido di Telia, do Exterior,

da Econom ia, concedi um a entrevista à im prensa.

bom que tivéssem os decidido que o Mercosul abrangesse e Brasil". Olhei, surpreso, para os em baixadores que m e Menem . Ao regressar à Telia, m anifestando nossa Brasil, visitou-m e naquela alguns auxiliares. Desculpou-se, renovou as expressões de am izade e de confiança no Brasil e disse que, no dia seguinte, o próprio Cavallo - àquela altura o m inistro m ais im portante do governo Menem - iria tom ar cafédam anhã com igo para esclarecer que tudo fora um equívoco. E assim foi feito. O fato, porém , é que, até o últim o m om ento, houve dúvida quanto à abrangência do Mercosul, em bora o Brasil nunca tenha hesitado: a integração deveria incluir o Uruguai e o Paraguai. (O episódio m e preocupou 610

em baixada, Azam buj a telefonou para Guido di perplexidade. Guido, antigo am igo m eu e do m esm a tarde na em baixada, acom panhado de

a ponto de, em seguida, visitar o Presidente Luís Alberto Lacalle na estância Anchorena, residência oficial de verão dos presidentes do Uruguai às m argens do rio da Prata, próxim o a Colónia dei Sacram ento, para expressar-lhe ao vivo a disposição do Brasil quanto a seu país.

Tam bém tranqüilizei o governo paraguaio.) Mais ainda, durante todo o m eu governo, esforçam o-nos para estender a integração a toda a Am érica do Sul. Este foi um dos pilares de m inha política externa: consolidar nossa presença na Am érica do Sul, sem deixar de reconhecer a im portância do México com o parte da Am érica Latina e sua natural e poderosa influência na Am érica Central. Quanto m ais fortalecêssem os nossos vínculos latinoam ericanos, m ais poderíam os negociar vantaj osam ente com os EUA e o Canadá na Alça. Ao se aproxim ar o final do m andato do Presidente Itam ar, eu j á eleito Presidente, em dezem bro de 1994, no m esm o m ês da reunião de Ouro Preto em que se consolidou o Mercosul, os norte-am ericanos convocaram um a reunião dos chefes de governo do Hem isfério, em Miam i. O Presidente Itam ar, sem pre generoso com igo, pediu-m e para que tam bém eu estivesse presente. Em bora fosse um tanto exótico o Brasil se apresentar com dois presidentes à m esa, tanto o governo am ericano com o o brasileiro assim quiseram . E foi o que ocorreu. Lá chegando, tive um a surpresa com a apresentação do protocolo, em seguida aprovado, de criação da Alça. Ele fora negociado pelo Itam araty e dele tom ei conhecim ento naquele instante. Pareceu-m e que tam pouco o Presidente Itam ar estivesse m uito bem inform ado do tem a. Fora um a iniciativa sugerida pelo VicePresidente norte- am ericano Al Gore em visita ao México e encam pada por Bill Clinton. No Brasil o tratam ento da questão fora burocrático. Recordo que pronunciei, em Miam i, pequeno discurso de im proviso ponderando que a data fixada para a conclusão das negociações da Alça, 2005, parecia irrealista. Precisaríam os de m ais tem po para aj ustar os interesses de nossa produção às regras da com petição livre.

Não obstante, estavam claros os sinais dos novos tem pos. Não haveria com o escapar da grande questão: teríam os de nos integrar à econom ia global. Restava saber de que m odo, até que ponto e com quais parceiros. O chanceler da segunda fase do governo Itam ar, que no governo Lula passaria um a vez m ais a dirigir nossa diplom acia, Celso Am orim , iniciara pressão para o Brasil obter um a cadeira no Conselho de Segurança. 611

As uvas na ocasião ainda não tinham am adurecido por com pleto quando eu concluía este livro. A questão central, contudo, se pusera: qual será o grau de influência do Brasil no plano global? Serem os reconhecidos com o "potência regional"? Que im plicações isso acarreta? Que responsabilidades estam os dispostos a assum ir e com que m eios contam os para fazer frente a nossas eventuais am bições no plano internacional?

Um a única resposta não cabia: a de continuarm os ensim esm ados, olhando com desconfiança um m undo em que outros países disputavam com todo ím peto espaço, m ercados e poder.

De novo, sem exclusivism os, devem os olhar o entorno, m anter boas relações com o Norte das Am éricas e visar um a presença global. Portanto, tam bém são im portantes nossas relações com a Europa Ocidental e a Ásia, sobretudo a China, se possível reavivando os laços históricos com o Japão visando novos investim entos. E precisam os de m ais com ércio, abrindo novas frentes com a índia, a Malásia e a Indonésia e reforçando laços com o cone sul da África Angola, Moçam bique, Nam íbia e África do Sul. Com o os recursos são escassos, é preciso realizar escolhas e dar prioridade às ações diplom áticas, tendo em vista os obj etivos e variando de parceiros conform e o tem a e as circunstâncias. Assim , o Oriente Médio, que fora im portante nos governos m ilitares, perdia relevância, dado o grau de conflito que se estabeleceu na região e nossa falta de m eios para intervir construtivam ente. A China ganhava prim azia, m esm o em com paração com o Japão, e o eixo ocidental continuava sendo nossa natural casa de acolhida. Queiram os ou não, som os parte do Ocidente, m esm o que na condição de "Extrem o Ocidente", com as vantagens e desvantagens que isso acarreta.

O roteiro de m inhas viagens internacionais e os convites para que dignitários de outros países nos visitassem seguiram as prioridades assinaladas. Da renúncia às arm as nucleares ao Protocolo de Ky oto A visão de "autonom ia pela tem as conflituosos da Ainda com o chanceler,

época da eu aj udara Brasil respeitar os direitos de propriedade intelectual internacionalm enté^aceiparticipação" estendeu-se tam bém aos guerra fria, que

a aprovar no

nos isolavam do m undo. Congresso regras para o

tos, no cham ado acordo TRIPS, de 1994.3 Tem a controverso, pois havia quem achasse que m elhor seria não haver tais regras, porque sem elas poderíam os copiar livrem ente patentes, em especial no caso de m edicam entos e softwares. O fato, porém , é que o Brasil j á tinha condições de produzir know-how, quem produzisse teria vantagens e interesse em patenteá- los, e, acim a de tudo, nada j ustificaria ficarm os, com o no passado, à m argem das regras e da respeitabilidade internacionais. Mais ainda, pela pelo Congresso, não nos subm etem os

produtores m ultinacionais queriam im por. Tanto é lei de patentes aprovada às restrições que os

que, anos m ais tarde, na reunião que lançou um a nova rodada de negociações com erciais na OMC em Doha, no em irado de Qatar, pudem os salvaguardar o princípio de que a saúde do povo vale m ais que o lucro das farm acêuticas m ultinacionais e as am eaçam os com a quebra de patentes, obrigando-as a reduzirem drasticam ente o preço dos m edicam entos para o com bate à aids.

Durante todo m eu governo levam os adiante a postura de aggiornam ento de nossa posição na dinâm ica dos acordos m ultinacionais, contando sem pre com a com petência dos chanceleres Luiz Felipe Lam preia e Celso Lafer e com a dedicação dos diplom atas brasileiros. É de destacar o papel positivo de m eus assessores diplom áticos no Palácio do Planalto e dos que colaboravam com eles. Já m e referi ao em baixador Gelson Fonseca.

Sucedendo-o, contei com a firm eza do em baixador Eduardo Santos, bem com o dos auxiliares diretos de am bos, que m encionei no Capítulo 4. Quantas vezes, com o por exem plo no apoio que prestaram ao m inistro Lafer durante a tentativa de derrubada do Presidente venezuelano Hugo Chávez, em abril de 2002, foram a habilidade, a com petência e a coragem de Eduardo Santos e de seus colaboradores que perm itiram expressar m elhor m eus pontos de vista, m esm o quando as cautelas burocráticas pendiam para outro lado. O caso paradigm ático de m udança de linha em relação aos acordos internacionais terá sido, sem dúvida, o adesão do Brasil ao TNP. Trinta anos após sua assinatura, o governo brasileiro, por interm édio do chanceler Lam preia, aderiu a suas norm as e o Congresso, tem pos depois, ratifi 3 Iniciais em inglês do Acordo sobre Aspectos Relacionados ao Com ércio dos Direitos de Propriedade Intelectual

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cou-o. Desde o governo Sarney havíam os posto fim às pretensões, felizm ente nunca m aterializadas, de fabricar a bom ba atôm ica. A Constituição de 1988 veda expressam ente qualquer ação nesse sentido. Não obstante, não assinávam os o TNP sob a alegação histórica, que tem seu fundam ento, de que ele é inj usto: em bora vede a posse de arm as atóm icas aos signatários, alude apenas à futura redução do arsenal nuclear dos países que dele dispõem , sem fixar prazos. Fica assim estabelecida um a assim etria entre os que podem e os que não podem dispor de artefatos nucleares. Não abrim os m ão de continuar com batendo essa assim etria, m as não havia m ais por que, em um m undo pós-guerra fria e no qual não tem os inim igos m ilitares, ficarm os suj eitos a toda sorte de restrições da com unidade internacional e, além do m ais, serm os incoerentes com a Constituição. Mais ainda, com a assinatura desse tratado, em itíam os um sinal claro de que reforçaríam os nossa presença no m undo pelo aprim oram ento continuado de nossas credenciais tecnológicas, econôm icas e sociais, e não perseguindo a posse de um arsenal nuclear. O Brasil j á havia concluído com a Argentina um acordo de inspeção recíproca das instalações atóm icas, que fora reconhecido pela Agência Internacional de Energia Atôm ica (AIEA) e teve início no período em que estive à frente do Itam araty. Graças a ele pudem os m anter nossas instalações nucleares tanto em Iperó (SP), onde desenvolvem os tecnologia própria de enriquecim ento de urânio, com o em Resende, onde esta tecnologia nos perm ite produzir m aterial para o abastecim ento das duas usinas de produção de energia elétrica de Angra dos Reis (RJ), sem suspeitas de violação do banim ento de arm as atóm icas na Am érica Latina previsto no Tratado de Tlatelolco, de 1967, de que som os parte. Não havia por que pagar o alto preço da desconfiança internacional pela negativa de firm ar o TNP, sem qualquer benefício que não fosse a defesa retórica de princípios. Outra não foi nossa conduta no caso do dom ínio da tecnologia de foguetes, tecnologia dita "dual", ou de duplo uso, pois os foguetes tanto podem transportar satélites, com o fazem os em cooperação com a China, com o carregar arm am entos.

Nos prim eiros m eses de m eu prim eiro m andato, o brigadeiro Mauro Gandra, m inistro da Aeronáutica, m e inform ou que as pesquisas desenvolvidas no âm bito da FAB tinham levado o país a dom inar a tecnologia do lançam ento de foguetes, incluindo os com plexos sistem as de ^ori

cão dos veículos. Naturalm ente, m anifestei agrado pelo feito. Meu governo, porém , estava firm e em sua política de incorporação do Brasil às m elhores práticas internacionais. Disse ao brigadeiro que, diante do feito, deveríam os anunciar nossa adesão ao m ecanism o internacional regulador do uso dessa tecnologia para fins exclusivam ente pacíficos, o Missile Technology Control Regim e (MTCR). Caso contrário, o país sofreria discrim inações e restrições em diferentes fóruns. Além de tudo, tratava-se de um a questão delicada por causa parceiros argentinos. A Argentina havia desm antelado pesquisa sobre m ísseis, em decorrência da distensão de parte a parte iniciada nos governos Alfonsín e Sarney na área nuclear. O Brasil dispor de tal tecnologia sem aderir aos controles internacionais desequilibraria a balança e certam ente provocaria reações desfavoráveis no governo de Buenos Aires.

Tem pos depois, a 18 de agosto de 1995, aproveitei para fazer o anúncio oficial de que o Brasil dispunha dessa tecnologia, em discurso pronunciado na solenidade de lançam ento do avião EMB-145, na sede da Em braer, em São José dos Cam pos. Anunciei, no m esm o ato, nossa adesão ao MTCR. Curiosam ente, a im prensa brasileira não deu atenção a isso, só despertando para o fato depois que ele repercutiu na m ídia am ericana.

Com algum a freqüência, nós, brasileiros, som os desatentos a essas questões estratégicas. Nosso dom ínio em tal área tecnológica, porém , ainda é relativo: o Veículo Lançador de Satélites (VLS), principal parte do program a, sofreu vários fracassos, um deles resultando em trágico acidente em 2003. Do m esm o m odo com o aderim os progressivam ente aos aspectos da ordem internacional que visam assegurar a paz m undial, atuam os e cobram os das grandes potências que assum am suas responsabilidades em m atérias que afetem o bem -estar coletivo dos povos. Foi assim em Ky oto, no Japão, e, posteriorm ente, do m ecanism o de

Haia, na Holanda, quando foi

desenvolvim ento lim po para lim itar

proposto o Protocolo

a em issão de gases que provocam o aquecim ento do planeta, que m encionei no Capítulo 8.0 Protocolo de Ky oto teve participação decisiva do Brasil desde a proposição inicial até os aj ustes finais. As ações do Itam araty e do Ministério do Meio Am biente, som adas à contribuição de técnicos, com o Gilvan Meira - ex-presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), na época secretário de Tecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia -, e à ação pessoal dos m inistros de Israel Vargas,

dos nossos vizinhos e

seu Proj eto Condor, de

Ciência e Tecnologia, José

nas negociações de Ky oto, e Ronaldo Sardenberg, em Am sterdã,

foram fundam entais. Em penhei-m e de perto para o êxito dessas tratativas, seguindo o curso das negociações j unto aos m inistros e interagindo pelo telefone com o Presidente Bill Clinton.

O Brasil não se em penhou em respeitar a regulação internacional apenas em aspectos do núcleo duro do j ogo de poder. Tam bém apoiam os ativam ente os esforços para a definição e consecução das cham adas "Metas do Milénio", que prescrevem obj etivos sociais a serem cum pridos pelos países-m em bros da ONU e definem indicadores de desem penho e m etodologias para avaliá-los, conform e o descrito no Capítulo 8. Em m ovim ento paralelo, prestigiam os as organizações da sociedade civil que têm dado sustentação aos esforços da ONU na revalorização de tem as essenciais, com o a luta contra o racism o, a defesa do m eio am biente, a igualdade de género ou o direito à m oradia. Pela prim eira vez o Itam araty, m odificando a posição tradicional de isolar-se das ONGs internacionais por considerá-las críticas "do país", quando na verdade exprim iam críticas às inj ustiças existentes entre nós, passou a contar com a colaboração de relatórios apresentados por estas organizações para sustentar o ponto de vista brasileiro. Foi assim desde o Congresso do Cairo, sobre população e desenvolvim ento, e continuou da m esm a form a nos encontros m undiais sobre racism o em Durban e m eio am biente em Johanesburgo (am bos na África do Sul), questões ligadas à m ulher em Pequim (China), habitação e tem as correlates em Istam bul (Turquia) e outros m ais. Durante m eu período com o chanceler introduzi a prática de o Ministério das Relações Exteriores ouvir segm entos da sociedade civil.

O Ministério convidou as centrais sindicais a participar de discussões na Fundação Alexandre de Gusm ão, ligada ao Itam araty, e em presários form aram parte de um conselho consultivo para a discussão da política com ercial. Apoiam os firm em ente, com o em penho do m inistro José Gregori, a form ação do Tribunal Penal Internacional de Rom a, de j urisdição supranacional e extraordinário significado, que j ulga infrações para punir os culpados por violações sistem áticas dos direitos hum anos e crim es contra a hum anidade depois de esgotados os recursos dom ésticos.

Esses poucos exem plos m ostram que sacudim os a poeira de um a predisposição arcaica à não-participação e à não-subm issão às regras da convivência internacional, estratégia que havia sido elaborada com requintes 616

de sofisticação intelectual nos governos do período autoritário para nos defenderm os dos efeitos da guerra fria e que perm aneceu insepulta por alguns anos m ais. Já era m ais do que tem po de o governo brasileiro abrirse ao m undo, seguindo, de resto, os passos de sua população, que passou a ver no exterior m ais oportunidades do que riscos.

A utilidade dos conselhos de Helm ut Kohl

Foi, todavia, no cam po económ ico e no dos esforços para o aprim oram ento da ordem internacional que j ogam os com m ais força e onde se evidenciaram as m udanças ocasionadas pela política de participação. Com ela, exercem os nossa soberania sem alarde e recuperam os o prestígio internacional do Brasil. No âm bito do Mercosul e da Alça, especialm ente, o em penho foi grande. Para ilustrar, com eço aludindo a um diálogo que tive, logo no início do Chanceler (Prim eiro-Ministro) da Alem anha, Helm ut realizado em seu próprio gabinete -por sinal de proporções m odestas -, em Bonn, na ocasião ainda a capital do país. Com pareceram , além de m im , o chanceler Lam preia, nosso em baixador na Alem anha, Roberto Abdenur, e o em baixador Gelson Fonseca. Dois assessores do Ministério do Exterior ligados à área da Am érica Latina acom panhavam o governante alem ão.

Fom os à Alem anha para reforçar laços econôm icos e com erciais, obj etivo da apresentação que fiz de nossa econom ia na poderosa associação dos industriais. Queríam os tam bém , com o conseguim os, participar j unto com a Alem anha de certos proj etos de defesa do m eio am biente.

Kohl só fala alem ão, m as a conversa fluiu m uito bem porque a intérprete do Chanceler era extrem am ente desenvolta em português. Kohl contou-nos o constrangim ento que passara em sua adolescência quando, vivendo na zona de ocupação francesa, posteriorm ente à derrota da Alem anha na Segunda Guerra Mundial, era obrigado a sair das calçadas para dar passagem caso cruzasse com um m ilitar francês. Disse que um parente próxim o fora m orto na guerra e que ele se m eu m andato, com o

Kohl, durante alm oço educara na resistência, senão no ódio, aos franceses, rivais seculares dos alem ães. Até que com preendeu que, se algo não fosse feito para pôr term o àquele estado de coisas, os dois países term inariam em nova guerra. Pouco a pouco foi sendo conquistado, contou ele, para a idéia do que viria a ser m ais tarde a União Europeia:

- A aliança da Alem anha com a França, vocês sabem , foi fundam ental para criarm os a Europa - com entou o chanceler. - Hoj e estam os unidos. Mas a Alem anha é o país m ais populoso e o econom icam ente m ais forte. Precisou ser tam bém o m ais generoso. Nunca perm itirem os, entretanto, transform ar a Europa em um bastião isolado do m undo, sem livre com ércio.

Aludia, naturalm ente, às restrições francesas às im portações agrícolas. Em dado m om ento olhou para m im e disse:

- Vocês, lá no Brasil, tam bém são m ais poderosos e m ais ricos que seus vizinhos. Têm que se unir à Argentina e devem ser generosos. Não só com ela, estava subentendido, m as com os dem ais parceiros. Cham ou-m e a atenção, no chanceler alem ão, com o o raciocínio político sem pre se sobrepunha ao económ ico. Era genuíno seu interesse sobre o Mercosul, seus m ecanism os, seus progressos, suas possibilidades. Àquela altura, Kohl refletia o interesse dos europeus pela associação entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. E não só, talvez nem principalm ente, pelo aspecto económ ico. Era por tratar-se de um a instituição política extraordinariam ente - e, as duas entidades oferecia com o um contraponto à poderosa influência dos EUA na Am érica Latina. Com base em sua própria experiência, os europeus perceberam im ediatam ente a im portância política do Mercosul, ao passo que nós próprios, aqui na Am érica Latina, abordam os a instituição o tem po todo apenas com o um m ecanism o de com ércio. Não tivem os a visão de grandeza dos europeus, e creio que era para isso que Kohl tentava cham ar m inha atenção. Esse diálogo voltou freqüentem ente ao m eu espírito quando discutia os problem as do Mercosul. Procurei exercer nossa liderança neste âm bito sem querer obter vantagens com erciais na base do "olho-por-olho, dentepor-dente". E sem pre com a perspectiva de construir no Cone Sul um regionalism o aberto que facilitasse a nossa integração na Am érica que dávam os ênfase m ecanism os políticos que possibilitassem ações com uns de seus países-m em bros no cenário internacional, buscam os am pliar os acordos de livre com ércio entre o Mercosul e terceiros países. Dentro da região, assinaram - se os Acordos 618 agrupando vários países, algo que a Europa fizera avançar tam bém , pela oportunidade que um relacionam ento entre do Sul e no m undo. Tanto assim que, ao m esm o tem po em ao Mercosul, inclusive à necessidade de construirm os

com Chile e Bolívia, e m ais tarde deixam os bem encam inhado, graças ao trabalho com petente de Sérgio Am aral à frente do Ministério do Desenvolvim ento, o acordo com o Peru, integrante da Com unidade Andina. O problem a é que, se é verdade que a Alem anha é m ais próspera do que seus vizinhos e que quatro ou cinco deles j untos puderam ser generosos e criar os fundos com pensatórios que Espanha e Portugal, logo posteriorm ente, países em pobrecidos do Leste Europeu), tal não é o caso do Mercosul. Existem assim etrias, de fato, m as evidentem ente não há abundância de recursos que perm ita a transferência de uns para outros. Por este m otivo, apesar das intenções, não conseguim os, até o final de m eu governo e os prim eiros anos da beneficiaram os parceiros m enos ricos (de início,

seguidos pela Grécia, m ais tarde a Irlanda e, gestão de m eu sucessor, ultrapassar os lim ites de acordos com erciais e de propostas de tarifas com uns, quase sem pre suj eitas a "perfurações", isto é, a perm issão para exceções que term inam por desm oralizar todo o processo integrador. Faltou-nos a disposição genuína, dem onstrada pelos europeus, de criar um a com issão supranacional, com m aiores poderes do que cada Estado nacional e com capacidade para resolver controvérsias e estipular regras. Resultado: a cada novo choque de interesses com erciais ou desaj uste de políticas m acroeconôm icas, com o, por exem plo, m udanças súbitas nos regim es cam biais, instaura-se a crise e a diplom acia presidencial volta à tona para colocar esparadrapos e evitar um a ruptura m aior. Faltou tam bém o encoraj am ento da distribuição do processo produtivo no espaço geográfico com um , e não houve a fusão, na escala que queríam os, de capitais de em presários dos diversos países-m em bros do Mercosul. Assim , a despeito dos avanços no intercâm bio com ercial e da inegável relação m ais próxim a entre os m em bros da associação e m esm o da m aior capacidade de entendim ento recíproco entre as populações dos países da região, os progressos políticos do Mercosul foram m odestos, ficando m uito aquém do potencial. Não se deve esquecer, porém - e o lem brete vale com o nota de esperança -, que a integração européia levou 50 anos para consum ar-se. Além disso, cabe ressaltar a im portância da inclusão da "cláusula dem ocrática", que obriga os países-m em bros do Mercosul a m anterem o Estado de direito e as práticas dem ocráticas. A cláusula aj udou em m ais de um a oportunidade a evitar desdobram entos autoritários.

A integração física da Am érica do Sul - e a Alça Tendo em conta essas dificuldades, nossos esforços integradores não se poderiam lim itar a m anter vivo e ativo o Mercosul. A integração física de nosso espaço tornouse um dos obj etivos das propostas de planej am ento que levam os à discussão dos presidentes dos países da Am érica do Sul. Adotam os um novo conceito de planej am ento, defendido pelo em presário Eliezer Batista, experiente conselheiro de governos, que, com o expus no capítulo anterior, substituía a política de fortalecim ento de "pólos" de desenvolvim ento pela criação de "eixos" de desenvolvim ento, m ovidos por um a visão m ais favorável à desconcentração do progresso social e económ ico. Proj etos estratégicos com esse fim foram incluídos nos program as de investim ento em m eus dois m andatos, Deslancharam assim , entre outras iniciativas, o gasoduto Brasil-Bolívia, a integração energética com a Argentina, a rodovia BR-173 entre Manaus e a fronteira com a Venezuela e a linha de transm issão da hidrelétrica venezuelana de Guri, um a das m aiores do m undo, trazendo energia do país vizinho para a região am azônica, iniciada no segundo m andato do Presidente Rafael Caldera (1994- 1999) e concluída sob o governo de seu sucessor, Hugo Chávez.

Em agosto de 2000, convocam os em Brasília a prim eira reunião da História j untando todos os presidentes da Am érica do Sul, a que se seguiu outra, em Guaiaquil, no Equador, em 2001. Naquela ocasião, deu-se início à cham ada Iniciativa para a Integração da Infra- estrutura Regional Sul-Am ericana, conhecida pela sigla URSA. Com o apoio do BID, nos anos seguintes, os governos dos países sul-am ericanos realizaram um am plo estudo das necessidades e possibilidades de integração física da região, selecionado um conj unto de proj etos estratégicos para o desenvolvim ento do continente. Essa com plem entação de esforços para a construção de um "espaço sul-am ericano" tem a ver com a integração regional em m atéria de energia, transportes e telecom unicações. Politicam ente, entretanto, pareceu a alguns países, especialm ente ao México, que a iniciativa poderia significar o isolam ento das nações sul-am ericanas, sob liderança brasileira, do resto da Am érica Latina m ais próxim a aos EUA.

Nunca foi essa a intenção. Da m esm a form a com o o México lançou um program a que se estendia de seu território e abrangia toda aAm érica

Central, cham ado "De Puebla ao Panam á" - porque as ligações de infraestrutura se fazem com os países geograficam ente próxim os --, reuníam os os vizinhos da Am érica do Sul. Nada além disso. Graças a nossa política claram ente nãohegem ônica e a m eu relacionam ento próxim o com os m exicanos (não só com o Presidente Ernesto Zedillo, que governou de 1994 a 2000 e de quem sou am igo, m as tam bém com seu sucessor, Vicente Fox, e com dezenas de personalidades do país), expliquei do que se tratava e convidei o chanceler Jorge Castaneda, cientista social e antigo colega de lides intelectuais, para participar da reunião na qualidade de observador. A sem ente lançada no encontro de Brasília prosperou sem desconfianças.

Ao lado de m arcar sem arrogância a presença brasileira na região, pois parti da convicção de que liderança se exerce sem proclam á-la, procurei, com a aj uda do m inistro Lam preia e seus diplom atas, conduzir a bom term o as negociações da Alça. Em encontro preparatório a que com pareci, realizado em Belo Horizonte, ainda em 1997, reunindo os m inistros de Relações Exteriores e de Com ércio do Hem isfério, presente a em baixadora Charlene Barshefsky, negociadora-chefe de com ércio dos EUA (espécie de m inistra do Com ércio Exterior), asseguram os que o acordo de livre com ércio obedeceria ao princípio do single undertaking, isto é, um único com prom isso abrangente que só seria firm ado se todas as questões pertinentes estivessem negociadas e acertadas previam ente. Não seria possível negociar apenas partes do acordo, com o serviços, ou com ércio ou indústria, nem fatiar as negociações de cada um a dessas partes. De posse desse valioso instrum ento negociador, que evitava a im posição do interesse de um país sobre os outros, com pareci à reunião de cúpula de chefes de Estado do Hem isfério em Quebec, no Canadá, em 2001, preparado para dizer em que condições entraríam os na Alça. No encontro com Bush,sua preocupação era Chávez Antes da reunião de Québec, tive o prim eiro encontro com o novo Presidente dos EUA, George W. Bush. Ele m e havia telefonado antes, dizendose recom endado por seu pai e pelo Presidente Clinton a falar com igo, e se m ostrou aberto a m anter contatos diretos. Eu tivera vários encontros com

o pai, George H. Bush, Presidente dos EUA entre 1989 e 1993.0 prim eiro creio ter sido durante um a reunião da OEA, em Washington, a que com pareci com o senador, e Bush pai era Vice-Presidente de Ronald Reagan (1981-1989). Na m esm a condição, de Vice- Presidente, ele visitara o Brasil e o Congresso, onde novam ente conversam os. Bush pai voltou ao Brasil outras vezes, um a delas quando eu ocupava a Presidência e ele havia deixado a Casa Branca. A 21 de novem bro de 1996, tivem os um alm oço no Alvorada. Bush pai - um hom em sofisticado, agradável e com vasta experiência, pois antes de ser Vice- Presidente e Presidente tinha sido deputado, em baixador em Pequim e diretor da CIA - se fez acom panhar da nora, Colum ba, casada com seu filho Jeb, governador da Flórida. Estiveram tam bém presentes o em baixador am ericano Melvin Levitsky e diplom atas brasileiros. Às vésperas de m e receber na Casa Branca, o Presidente Bush dissera à im prensa que gostaria de olhar-m e "olho no olho", com o é de seu estilo.

Continuar: parte 2 de 4