A arte da política: a história que vivi

Fernando Henrique Cardoso · Capítulo 4 de 9 · parte 1/4

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A arte da política: a história que vivi

gente, porque bancos, exportadores e em presas,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

gente, porque bancos, exportadores e em presas, para se aj ustarem , vão dem itir". Propunha tam bém aj ustar os preços por m eio de um a negociação com as cadeias produtivas, depois que Lula fosse eleito Presidente, com o ela acreditava que aconteceria.28 Note-se que todos os dados posteriores m ostraram dim inuição da proporção das pessoas que viviam abaixo da linha de pobreza. Dem issões aconteceram , m as m uito posteriorm ente, ligadas às crises internacionais e à política cam bial, que em 1994 ainda não fora definida. Com esse tipo de argum entação "técnica", não é de estranhar que os sindicatos, o PT e os políticos que apostavam em outra saída política tivessem feito o que fizeram durante a cam panha eleitoral, m antendo sob intenso fogo de críticas o Plano Real.

De fato, m al a MP que criava a URV aportou na Câm ara, o deputado petista Paulo Paim voltou à carga. Propôs que na data-base de cada categoria profissional houvesse a reposição das "perdas" salariais. Isso, diga-se em louvor do deputado, apesar de ter sido um dos poucos de seu partido a considerar o plano bem intencionado, bem fundam entado. Acreditava que a sociedade aderiria a ele se se fizesse a reposição proposta e não via razão para o m ovim ento sindical convocar um a "greve geral" antes da hora, com o vinha sendo feito. Num a reunião no Ministério da Fazenda para explicar a URV a alguns m em bros da bancada do PT, o deputado Paim disse duas vezes que não estava entendendo:- Então, trata-se do salário m óvel? - indagou.

Era um a velha reivindicação do m ovim ento trabalhista. De certa form a, era isso m esm o. Não adiantava, no entanto, explicar aos líderes sindicais ou aos políticos da oposição: a questão era derrotar o governo e os potenciais adversários na sucessão presidencial.

Lançada a sem ente da reposição das perdas, floresceram as idéias salvadoras. A com issão especial do Congresso que analisaria a MP, presidida pelo senador Odacir Soares (PFL- RO), tendo com o relator o deputado Gonzaga Motta (PMDBCE), dedicou-se a estudar iniciativas para "rem ediar o m al". Logo surgiu a proposta do infalível "gatilho”

salarial, quer dizer, um m ecanism o para corrigir autom aticam ente o valor dos salários toda vez que a inflação atingisse certa percentagem m ensal ou por que pe28 O Estado de S. Paulo, 14/3/1994.

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ríodo fosse. As propostas sobre que percentagem requeria o dispar° ^°gatilho e em que intervalos de tem po variavam ao gosto de cada parlam entar. O que não variava era a convicção de que a inflação voltaria. E nós no pólo oposto, a querer apagar a m em ória inflacionária e, portanto, as m edidas que a reavivavam . Até o PFL propunha m ecanism os de correção salarial.29 Os líderes sindicais am eaçavam com a "greve geral", antiga palavra de ordem que, em bora j am ais se cum prisse na plenitude, assustava m eio m undo. Sindicatos ligados à CUT e à Força Sindical chegaram a prom over greves que, m esm o não sendo gerais, alcançaram proporções significativas. Entretanto, a m aioria da população, trabalhadores inclusive, aguardou os resultados da URV antes de perder a esperança em algum a m elhoria na "carestia", com o a inflação era cham ada popularm ente.

Diante desse quadro, m inha posição foi firm e: "Pela prim eira vez os trabalhadores farão greve para ganhar m enos, porque o plano beneficia os assalariados" disse.30 De fato, com o o valor da URV expresso em cruzeiros reais variava diariam ente e se realizava a conversão aos salários pelo valor da URV no dia do pagam ento, havia um a espécie de correção diária e autom ática dos salários de todo m undo, em pregados em atividade ou aposentados. O argum ento era forte.

No Congresso, entretanto, a desinform ação e a dem agogia tornavam se difíceis de vencer. Optam os por não votar o relatório sobre a URV na com issão especial. O relator se havia com prom etido com setores sindicais a incluir gatilhos, datas-base e quej andos, que alterariam com pletam ente 29 Folha de S. Paulo, 2/3/1994.

30 Ibidem . Ver tam bém O Globo, 5/3/1994, quanto às reações às tentativas do Congresso de im popular. Se poderíam os fazer um 'cruzadinho' que durasse um ano, m as isso nunca passou pela m inha cabeça." Na m esm a reportagem há o relato de um discurso que proferi na Secovi-SP (sindicato do setor im obiliário), que m e pedia o reaj uste dos contratos im obiliários em m enos de um ano. Alegavam que havia um a "cultura do m ercado im obiliário" Repliquei: "É preciso então m udar a cultura do pessoal. Com a URV não vai ser preciso reaj ustar os preços antes de um ano.”

A linguagem era a m esm a para lidar com sindicalistas, congressistas, m inistros, banqueiros ou em presários.

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desvirtuar a URV: "Meu plano é consistente e, em certos pontos, m eu obj etivo fosse eleitoral, com as condições que tem os o program a. O PMDB aj udou o governo, o relator faltou à reunião na qual apresentaria seu parecer, e o PFL, àquela altura j á com prom etido com m inha candidatura, convenceu o presidente da com issão especial a não apreciar a m atéria. Assim passou o m ês de m arço de 1994 e, à m edida que a URV ia sendo percebida por todos, trabalhadores à frente, com o proveitosa, pois não acarretava perdas e, em geral perm itia ganhos, sua aceitação se tornou m ais fácil. Perdidos ficaram os líderes sindicais que se m anifestaram contra o plano. Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente da CUT, e com ele o PT persistiram nas críticas m esm o depois da nova m oeda estar circulando e de os efeitos da inflação terem com eçado a ceder. "Parece pesadelo, m as é real", ele escreveu.31 Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, da Força Sindical, deu m eia-volta e alfinetou o PT: "Só faz cam panha contra o real quem sente o pesadelo de ver m ais um a vez suas chances de virar Presidente irem por água abaixo."32

Num últim o lance da negociação para conseguir a aprovação da MP da URV antes do lançam ento do real, Edm ar Bacha, estim ulado por m im , form ulou um a regra que assegurava a reposição autom ática da inflação na nova m oeda desde 1°de j ulho de 1994 na prim eira data-base de cada categoria de trabalhadores. A novidade, em bora tenha am aciado o cam inho para a aprovação do plano, criou um resíduo de indexação legal que viria a dificultar a m udança da política cam bial em 1995. A lei resultante da conversão da MP da URV foi finalm ente sancionada no dia 27 de m aio de 1994.33

O triunfo do real e o papel de Ricupero

Com a votação da URV ainda inconclusa, exonerei-m e no dia 2 de abril do Ministério da Fazenda para ser candidato à Presidência da República. Era o últim o dia do prazo previsto na Constituição para o afastam ento dos ocupantes de determ inados cargos públicos que quisessem ser candidatos às eleições de 3 de outubro. Voltei ao Senado e continuei apoiando 31 Folha de S. Paulo, 1/7/1994,

32 "É preciso um a política salarial", Folha de S. Paulo, 14/7/1994. 33 O Congresso converteu a MP da URV na Lei n°8.880, de 27/5/1994. 201

as lutas do governo Itam ar para consolidar o plano. Dias antes, a bancada do PSDB e sua Executiva, com Pim enta da Veiga e Tasso Jereissati à frente, conform e j á narrei, m e haviam procurado no Ministério para que eu declarasse form alm ente aceitar a candidatura.

Em seguida, a im prensa queria saber quem m e sucederia na Fazenda. Respondi, naturalm ente, que essa questão com petia ao Presidente. Diante da insistência sobre nom es de eventuais sucessores, disse:

- Há diversos m odelos possíveis para o Presidente se fixar em um nom e. Se prevalecer a escolha de um técnico, tem os vários - e arrolei os nom es de m eus principais colaboradores.

Se um político, sugeri Tasso ou Serra. Se um a figura de indiscutível autoridade m oral e intelectual, indiquei Clóvis Carvalho ou Rubens Ricupero, diplom ata com excelentes conhecim entos de econom ia, que fora em baixador nos EUA em 1991 e 1992 e àquela altura estava à frente do Ministério do Meio Am biente. O Presidente Itam ar Franco, por decisão própria, previam ente tom ada pelo que entendi, escolheu o em baixador Ricupero para m e suceder.Tendo a seu lado José de Castro,34 Itam ar m e inform ou da decisão e das razões para a escolha. Ele acreditava, e com m uito acerto, que o em baixador Ricupero dispunha de estatura intelectual e m oral para dialogar com o país. Ricupero m anteve toda a equipe econôm ica e se transform ou em um apóstolo do real. Mostrou-se m ais didático do que eu poderia ter sido, ganhou a confiança da sociedade e teve papel decisivo na im plantação do program a. Até que um a arm adilha do acaso o im pediu de continuar. Co

34 José de Castro foi consultor-geral da República (função que seria absorvida pela Advocacia-Geral da União) e advogado-geral da União do governo Itam ar. Pertencia ao cham ado "grupo íntim o" do Presidente. Sem pre colaborou para fortalecer m inha posição e m inhas propostas económ icas. Entreguei, por exem plo, ao Presidente a m inuta da MP da URV num a sexta-feira (anterior àquela da discussão no Palácio) j unto com algum as propostas de reform as constitucionais que com plem entariam o plano. Na segunda-feira seguinte o Presidente m e cham ou e, tendo ao lado José de Castro, na sala íntim a (saleta entre o gabinete presidencial papéis superficialm ente, em endas constitucionais, serlhe incóm odas. Certam ente, se o Presidente disse que as leu superficialm ente foi porque José de Castro, pessoa de sua estrita confiança, as havia exam inado atentam ente e com elas concordara. 202

e um salão de recepções), disse-m e que lera os m as confiava

algum as das

em m im . Assinaria tam bém as quais, eu o advertira, poderiam

Ihido pela fadiga e na inform alidade de um a conversa privada com o j ornalista Carlos Monforte, que o entrevistaria em seguida para a TV Globo na sede da sucursal de Brasília da em issora, ele expressou com palavras pouco felizes o grau de em penho que tinha para aj udar o Plano Real e m inha eleição. Sem que nenhum dos dois se desse conta, a fala do m inistro foi captada pelo sistem a da em issora e transm itida a m ilhares de lares servidos por antenas parabólicas. Surpreendido pela divulgação espalhafato* sã dessa conversa, teve que

antes das eleições presidenciais. O Brasil deve a se exonerar duas sem anas

Rubens Ricupero o ter dado continuidade a um a política de difícil aceitação, para cuj o êxito contribuíram em grande grau sua seriedade, seu em penho e sua capacidade de convencim ento. Até que essa vitória fosse m ais perceptível, escaram uças continuaram . Quando deixei o Ministério, a hesitava sobre o m elhor m om ento para transform ar a URV em real. Mesm o fora do governo, várias vezes m e vi obrigado a interferir j unto ao Presidente para que se m arcasse a data definitiva. Eu achava m ais oportuno efetuar a troca das m oedas no dia 1°de j unho. A cada trinta dias, conform e a Constituição perm itia na época, havia que reeditar as MPs ainda não aprovadas pelo Congresso. Term inam os com um a solução de com prom isso. A MP do dia 1°de j unho m arcaria a data de 1°de j ulho de 1994 para a troca das m oedas.

Não obstante, as dúvidas sobre o lançam ento do real continuaram . Algum as delas tinham fundam ento operacional, outras, nem tanto. Prosseguia, dentro do governo, o em bate entre os que acreditavam no program a estabilizador e os que queriam "um outro m odelo" para a econom ia. Na véspera do dia em que o Presidente deveria assinar a MP estabelecendo a troca das m oedas, e depois de um a estafante discussão entre os m em bros de sua equipe e o m inistro da Justiça, Alexandre Dupey rat - este com o representante da ala m ais atrasada do governo, que se pensava "de esquerda" -, o m inistro Ricupero procurou o Presidente Itam ar para reclam ar das im pertinências e cobranças descabidas para m odificar o texto da m edida. Graças à postura firm e do m inistro da Fazenda, o Presidente entendeu que entretanto, as

equipe económ ica era inaceitável a interferência de últim a hora por pessoas despreparadas para com preender as decisões daquele m om ento. Pérsio Árida e André Lara, entre outros econom istas, preferiam por m otivos operacionais que houvesse um a "fase longa" de transição entre a 203

URV e o real. Seria m elhor, ao ver deles, dar m ais tem po para que os contratos fossem progressiva e livrem ente reescritos na nova m oeda, perm itindo m ais fôlego à sociedade para a repactuação. O casulo poderia am adurecer um pouco m ais antes de virar borboleta. Não se tratava de opinião isolada da dupla. Chico Lopes, por exem plo, tam bém pensava dessa m aneira. Eu não achava necessário m uito m ais tem po, pois a velocidade com que as pessoas aderiram à URV foi m aior do que esperávam os. Além de tudo, havia indiscutivelm ente a questão eleitoral. Nas prim eiras sondagens de opinião após ter deixado o governo (e ainda em fins de m aio) eu não ultrapassava m uito os 15% das preferências, e Lula alcançava 40%. Sem que os efeitos práticos do fim da inflação fossem sentidos no bolso dos assalariados e sem o efeito sim bólico da nova m oeda, tornar-se-ia verdadeira a lengalenga de que o real era um "estelionato eleitoral" (com o dizia, entre outros, o deputado Delfim Netto, sem pre pronto a disparar um a frase de efeito para encobrir os m alabarism os de seu raciocínio ou as inverdades que quer passar adiante com o válidas). No m eio tem po, m ais problem as: o Presidente desej ava dar continuidade à decisão constitucional de incluir todos os funcionários em um estatuto j urídico único. E o faria em term os tais que os servidores previam ente contratados pelas norm as do setor privado, subm etidos à CLT (cham ados por isso "celetistas"), passariam a gozar de todas as vantagens do funcionalism o, inclusive aposentadoria integral. Da m esm a m aneira, o Presidente gostaria de ver m elhorados os salários de todos, unificandoos e dando-lhes aum entos. Essa discussão perpassou o período inteiro da gestão Itam ar, m esm o quando Ciro Gom es, deixando o governo do Ceará, por quatro m eses - até o final do m andato de Itam ar - substituiu o m inistro Ricupero. Muitas vezes tive que m ediar entre a pressão dos técnicos, tem erosos das conseqüências dos increm entos salariais sobre a situação fiscal (com o de fato ocorreu), e a vontade presidencial de atender os funcionários.

Estranhos curtos-circuitos

Apesar de tudo, im plantam os o real e venci as eleições, no prim eiro turno, com 54% dos votos - 35,9 m ilhões de votos, entre 67,6 m ilhões de votos válidos. Com o foi possível isso, em circunstâncias tão desfavoráveis? 204

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Os candidatos dos dem ais partidos opuseram -se ao Plano Real durante todo o tem po, desde a discussão no Congresso até a cam panha eleitoral, apregoando que ele traria conseqüências nefastas ao país. A recessão era inevitável, diziam , e a volta da inflação tam bém , além das catastróficas perdas salariais. Os candidatos, inclusive o principal oponente, Lula, guiados por seus econom istas, batiam com insistência nessa tecla, que se chocava crescentem ente com a percepção popular. A opinião técnica se dividia, em bora àquela altura - durante a cam panha eleitoral- a m aioria j á se alinhasse a favor do plano, Roberto Cam pos, que fora relutante em aceitá-lo, tem ia que um a derrota nossa no Congresso desencadeasse um a reação heterodoxa. "Se o Fernando Henrique sair, haverá choque. Só não tivem os neste governo por causa dele."35 E passou a apoiar o program a. Assim , só o contexto explica com o foi possível estabilizar a econom ia. Paradoxalm ente, porque "faltavam condições políticas", um pequeno grupo de pessoas com visão política, a partir do Presidente, som ado a outro pequeno grupo de técnicos, em penhados e convictos da necessidade de produzir um a m udança significativa nos rum os do país, teve a chance de levar adiante a transform ação que, ao contrário do que diziam as pitonisas do fracasso, perdurou. A desorganização das forças políticas tradicionais, desde o im peachm ent do CPI dos Anões do Orçam ento, facilitou a ação exército Brancaleone e o Plano Real passou no Congresso. Fossem norm ais as condições, os beneficiários da inflação ter-se-iam oposto às transform ações com m aior energia, defendendo seus interesses.

Contou tam bém para o êxito o apoio do PSDB e o faro político de outros partidos para se darem conta de que havia algo de novo no ar. E, sobretudo, contou o cansaço da sociedade, do povo, com a "carestia". Isso levou à busca de um cam inho de esperança. O apoio popular m antinha a expectativa otim ista de que seria possível m elhorar o país, em bora sem m uita clareza sobre os cam inhos para tanto. Este sentim ento difuso tornou-se apoio m ais concreto pela ação da m ídia e do em presariado, que j ogaram papel im portante na aceitação do program a. Quase por saturação, a velha ordem de coisas deu passagem a um a situação nova.

35 O Globo, 5/2/1994.

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Presidente Collor até a decidida do nosso

A verdade é que o clim a na m ídia virara e a opinião pública tornara-se favorável. Não quero cansar o leitor com detalhes adicionais. A lista de editoriais e de articulistas que sustentaram teses a favor do novo program a econôm ico é grande. Bem com o seria valiosa, ao lado do apoio político, a colaboração de líderes em presariais e decisiva, em textos na im prensa, a solidariedade de políticos de peso do PSDB.36

Assim operam os m ecanism os de m udança nas sociedades contem porâneas. Nelas a luta entre interesses de classe e de grupos contrapostos perm anece com o pano de fundo. Mas tais grupos são extrem am ente fragm entados e constituem coalizões eventuais e m utáveis, com pouca clareza quanto a obj etivos globais, num caleidoscópio que se rearranj a na m edida em que m udam as percepções sobre os interesses gerais e os cam inhos para servi-los. O passado conta e pesa, m as a visão de futuro é essencial para m over a sociedade, desprendendo-a, ainda que parcialm ente, do passado. E cada vez m ais esta visão de futuro requer um "program a". Progra

36 Por exem plo, O Estado de S. Paulo, bem com o o Jornal da Tarde, apoiaram os esforços estabilizadores desde o início. Ver o editorial "Program a para o futuro", 8/12/1993, do Estado, e "Instinto de conservação", do Jornal da Tarde, 8/12/1993. Ver ainda, Jornal do Brasil, "Dilem a fatal", de 8/12/1993, e O Globo, com o j á citado. Tam bém as revistas Vej a e Exam e, sobretudo esta últim a, eram favoráveis ao program a. Os editoriais de Mário Henrique Sim onsen em Exam e e as m atérias da revista, inclusive de capa, deram suporte contínuo ao Plano FHC e, depois, ao Real. A colunista Míriam Leitão viu desde o início perspectivas m elhores para o país. Ver, por exem plo, a coluna "Panoram a Econôm ico" de O Globo, 23/5/1993. Na área política os principais dirigentes do PSDB escreveram artigos de apoio. Ver José Serra, "Mitos e problem as", Folha de S. Paulo, 14/12/1993; Mário Covas, "Sem m agias e com transparência", Folha de S. Paulo, 11/12/1993; Tasso Jereissati, "O plano que pode unir", O Globo, 12/12/1993; António Kandir, "Estabilização passo a passo", Folha de S. Paulo, 1/3/1994.

Em presários e suas associações, da m esm a m aneira, m anifestaram se favoravelm ente ao Plano Real.

Alguns articulistas tam bém apoiaram o program a desde o início. Outros m udaram de opinião à m edida que viam os resultados. Ver, a título de exem plo, Luiz Weis, "O pacote-que-não-é", O Estado de S. Paulo, 9/12/1993, e Carlos Alberto Sardenberg, "O êxito do plano depende da candidatura FHC", Folha de S. Paulo, 12/12/1993. Outros, m esm o sendo críticos de alguns aspectos, m antiveram posição equilibrada. Ver António Barros de Castro, "Arm adilhas da estabilização", e Luiz Gonzaga Belluzo, "Câm bio fixo e superávit fiscal", am bos na Folha de S. Paulo, 30/4/1994. 306

m a que se fundam enta em valores, com o a dem ocracia, e por isso m esm o não deve levar os que dirigem o país a afastar-se da m issão republicana de busca do equilíbrio entre os interesses setoriais em choque para tornálos com patíveis com os do povo e do país. Cada vez m ais, porém , os dirigentes precisam apresentar um cam inho prático, com base técnica, sem o qual a sociedade não se m obiliza ou, quando se m obiliza e não encontra os resultados esperados, dá m eia-volta, com o aconteceu com o Plano Collor. Nada disso ocorre sem a form ação de um a opinião pública que, nos dias de hoj e, é inseparável da opinião publicada, isto é, dos m eios de com unicação de m assa.

Em 1986, m uito antes de ser Presidente, ao passar a presidência da Associação Internacional de Sociologia, em Nova Delhi, na índia, proferi um a conferência sobre as teorias de m udança social. Inspirado no que vira em 1968 em Nanterre, na França, quando da cham ada Revolução de Maio, disse que as m udanças em sociedades com plexas podem dar-se pelo que cham ei de "curtos-circuitos". Um gesto, um a greve, um choque em ocional, um a proposta galvanizadora são capazes de despertar reações em cadeia que levam a transform ações m uito m ais profundas do que havia sido inicialm ente im aginado ou desej ado. Dependendo, naturalm ente, da história das reivindicações, dos conflitos de classe, dos choques ideológicos, das frustrações preexistentes etc.

Foi o que ocorreu com o Plano Real. A sociedade brasileira, cansada da inflação e de seus efeitos nefastos, viu nele um a saída. Aderiu a ele contra a opinião de m uitas pessoas e contra m uitos interesses. Em certos m om entos, contra a m aioria dos "bem -pensantes" e dos pretensos donos das m assas populares. O "pragm atism o responsável", no entanto, não explica a m udança. Sem um a liderança capaz de apresentar um cam inho aceito com o válido pela m aioria não acontecem transform ações significativas em um a sociedade dem ocrática. E essa aceitação não se dá às cegas. Sem um a haj a o convencim ento, quer dizer, o esforço tradicional prevalece sobre os ím petos m odernizadores e m udancistas. Tudo fica m ais fácil quando há sím bolos que aj udam a visualizar a m udança. O real, com o m oeda física e com o expressão de um valor, de um cam inho para o Brasil, teve um a im portância enorm e. Darcy Ribeiro, na pedagogia dem ocrática, sem que para "vencer j untos", a ordem

época senador (PDT-RJ), com seu instinto de antropólogo, percebeu a força sim bólica da m oeda. Ressaltou que a m oeda, j unto com o idiom a e a bandeira, tem um a função aglutinadora fundam ental. Daí por que a dolarização, ainda que pudesse funcionar com o âncora para a estabilização, im plicaria perda sim bólica de soberania, além das lim itações efetivas que acarretaria na gestão das políticas econôm icas.

No dia 11 de j ulho de 1994, candidato, eu participava de um com ício em Santa Maria da Vitória, no sertão da Bahia. Naquele dia percebi que ganharia as eleições. Na praça, o povo, com notas de l real nas m ãos, pedia que eu as autografasse. Alguns gritavam , entusiasm ados, sem prever as conseqüências disso, que o real valia m ais do que o dólar, m oeda na qual nunca haviam tocado. Naquele instante, o senhor político da Bahia, que estava a m eu lado, era m enor do que eu, um professor paulista três m eses antes praticam ente desconhecido naqueles sertões. O real resgatava a esperança e a confiança, não só na m oeda e na estabilização econôm ica, m as no país. Meu adversário eleitoral, Lula, era um sím bolo em si. Um líder operário, m igrante e pobre de origem , reivindicando o m ando suprem o no Brasil. Não precisava de sím bolos. Eu, sem que o tivesse feito para isso, criei um sím bolo e venci. E tive com o desafio m anter viva a esperança.

A cam panha eleitoral: epopéia e aprendizado

Para enfrentar esse desafio de m anter viva a esperança, tão logo se form alizou a aliança com o PFL e com o PTB, m ergulhei de corpo e alm a na cam panha eleitoral um trabalho física e psicologicam ente estafante além do im aginável por quem não conhece a política de perto. O candidato se desdobra, envolvendo-se em dois planos. O prim eiro é o da relação com o público, o que inclui os com ícios, as cam inhadas, as carreatas, os debates, as entrevistas e os program as de rádio e TV do horário eleitoral. Outro é o da articulação política com seu partido, com os dem ais da aliança e, no m eu caso em 1994, com o governo. A relação com o público envolve

representam os

o aspecto especificam ente cênico, e não raro épico, que com ícios gigantes, os deslocam entos de com itivas, a enorm e

infraestrutura necessária para m over a m áquina da candidatura. l

Meu procedim ento, desde o com eço, foi o de m e entregar por inteiro à cam panha propriam ente dita e à busca do apoio político, do convencim ento e do voto do eleitorado. Em bora participasse em algum grau dos bastidores de tudo, e fosse inform ado a respeito, não m e envolvi nem m e preocupei diretam ente com m ais nada que não a cam panha - nem com o com itê financeiro, nem em discutir a program ação a ser cum prida, m uito m enos com detalhes com o o esquem a de transporte e hospedagem . Sequer da roupa que usava eu cuidava. Periodicam ente o com ando ou com itê da cam panha se reunia com o candidato, estabeleciam -se as prem issas e prioridades básicas, e depois cada área tocava o seu barco. Se não for assim , o candidato se perde - e perde a eleição. (No nosso caso, tínham os um com itê com posto por Sérgio Motta, coordenador-geral, Pim enta da Veiga, com o presidente do PSDB, o deputado Saulo Queiroz, MT, secretário-geral do PFL, e Andrade Vieira, com o presidente do PTB.) Torna-se vital concentrar-se no que é im portante. Preparar o program a eleitoral na TV é im portante, m ais que isso, decisivo. Estar descansado para ir a um com ício é im portante. As articulações perdendo espaço para o trato dificuldades políticas.

O candidato precisa ter m uito cuidado ao lidar com a m ídia. Tem que bater o m artelo final sobre os com ícios, porque, aqui e ali, há o risco de um deles ser um fracasso, e em tal caso a prudência indica o cancelam ento com o a m elhor solução. Toda vão sendo crescentem ente m enos im portantes,

com o público, que por sua vez abranda as atenção à distribuição do tem po é pouca. E, com o todo m undo dá palpite o tem po inteiro, o candidato precisa saber resistir, filtrar, até esquecer. Se for atrás dos palpites, tam bém se perde. Selecionei ao m áxim o os conselheiros. Sobre TV, ponto-chave de tudo, e rádio, seguia as recom endações dos publicitários Nizan Guanaes e Geraldo Walter, o "Geraldão" - que infelizm ente viria a falecer em 1998 -, e de alguns de seus colaboradores. Boas dicas recebia tam bém do j ornalista Gilnei Ram pazzo, sócio da produtora encarregada dos program as. Sobre o conteúdo do que ia ao ar, eram fundam entais os não-m arqueteiros: Sérgio Motta, sem pre m uito próxim o a m im , e Paulo Renato, Vilm ar Faria e Eduardo Graeff, que haviam elaborado o tuturo program a de governo. No m eio do torvelinho da cam panha, as reuniões com esse tim e se tornavam interregnos agradáveis e divertidos, sem pre em torno de um a

m esa farta, m ontada na própria sede da produtora, no bairro paulistano da Bela Vista. Sérgio, Geraldão e Nizan eram com ilões extraordinários, que eu procurava, com algum a cautela, acom panhar. Participava tam bém Paulo César Bernardes, o "PC", autor de com erciais e j ingles de prim eira qualidade, por sinal um excelente im itador de Lula.

Com o sem pre, ouvia Ana Tavares. Além das qualidades j á referidas, sua espontaneidade e franqueza às vezes brutais lhe perm itiam dizer a certas pessoas aquilo que eu não poderia. E tam bém dava ouvidos à publicitária By a Aidar, encarregada da com plexa arm ação dos shows da cam panha, que abrangia desde itens com o a escolha de m úsicos e cantores, da trilha sonora, do som e da ilum inação até a form a segura de o candidato chegar ao palanque e, depois, sair dele.

A dedicação à TV, com o disse, é crucial. A TV tem um a linguagem própria, e cabe ao candidato o cuidado de não deixar que o pessoal de m arketing político o transform e em algo que ele não é. Na TV, há um a série de detalhes a serem levados em conta. Por exem plo: o teleprom pter, instrum ento im portante que, após algum treino, perm ite ao candidato falar com naturalidade a partir de um texto escrito, pode tam bém ser um com plicador. Quem escreve os textos não é o candidato, por absoluta falta de tem po. As palavras utilizadas não são necessariam ente as dele, a respiração que elas im põem não é a dele, nem as pausas e o corte das frases. Às vezes o candidato tem algum a dificuldade de pronunciar um a ou outra palavra e, portanto, evita utilizá-las - só que de repente, na hora da gravação, lá estão elas. É necessário, pois, dedicar algum tem po a rever, pessoalm ente, os textos antes de gravá-los. E isso requer que o candidato estej a m inim am ente descansado. Com o sou calm o e brincalhão, m e dava bem com todos da equipe e a feitura dos program as de TV, com o os de rádio, acabava não apenas não pesando, m as m e dando prazer. Num a cam panha, porém , o inesperado sem pre está à espreita, e o candidato deve preparar seu espírito para isso.

Um bom exem plo é o que ocorreu com igo no Rio Grande do Sul. No estado, o deputado e àquela altura ex-m inistro da Previdência António Britto encarava um problem a delicado. Ele finalm ente saíra candidato ao governo gaúcho pelo PMDB, cuj o aspirante à Presidência era nunca aceitou Quércia, sem pre articulação, seu apoio público a

o ex-governador paulista Orestes Quércia. Britto esteve com igo e" depois de um a com plexa m im iria se m aterializar no dia 4 de setem bro, com a inauguração de um com ité conj unto dos dois candidatos em Porto Alegre. Não poderia m e esquecer da ocasião porque coincidiu com a crise que levou à saída do governo do m inistro Rubens Ricupero.

Desem barquei em Porto Alegre e, j á à noite, Britto e eu fom os visitar em casa o senador Pedro Sim on, que tinha passado por um a cirurgia. Ali nos inteiram os do episódio Ricupero. No dia seguinte de m anhã seria a inauguração do com itê e o anúncio do apoio de Britto. Difícil haver tim ing m ais com plicado. Mas fom os em frente, inauguram os o com itê, e precisei fazer das tripas coração para enfrentar o pesado questionam ento da im prensa, um a vez que Ricupero havia dito, para resum ir em poucas palavras, que ele e o governo fariam qualquer coisa para eu ganhar.

Diante de tal quadro, desde a noite anterior, naturalm ente, m inha cabeça estava em Brasília. Preocupava-m e m uito com a continuidade do Plano Real, tão bem conduzido até ali por Ricupero. Do hotel sim ples em que m e hospedei, troquei inúm eros telefonem as com o Presidente Itam ar. Indiquei nom es para substituir o m inistro, com o os de Bacha e Malan, cuj a com petência ele conhecia. Mas Itam ar j á se decidira por outro: o de Ciro Gom es. Adm irava o Canal do Trabalhador, obra de em ergência com a qual o governador do Ceará, em poucos m eses, pretendia trazer água de grandes açudes do interior para abastecer Fortaleza, e gostava de Ciro. Com um núm ero m aior ou m enor de sobressaltos, com o a súbita queda de Ricupero naquela ocasião, e apesar da im ensa im portância da TV, não há cam panha sem com ício. Quando m e lancei à Presidência, j á m e candidatara três vezes - ao Senado, em 1978, à Prefeitura de São Paulo, em 1985, e novam ente ao Senado, em 1986. Tinha, portanto, certa experiência com com ícios, em bora nunca tivesse m e sentido inteiram ente à vontade neles. O cam inho, então, seria tentar aprender e m e aperfeiçoar. Assim , procurava prestar atenção aos oradores que m e antecediam . Poucos, m uito poucos são aqueles capazes de "segurar" a m assa. A grande m aioria dos oradores políticos é m onocórdia, não captura a atenção da m ultidão, não consegue sintonizar-se com ela. Procurei aprender com os m elhores.

António Carlos Magalhães, por exem plo, era um peixe n'água nos com ícios. Im pressionante: ele fica à vontade com o povo, se eletriza, e com o que m ergulhava, fisicam ente, na m ultidão antes ou depois de subir ao palanque. Aprendi m uito com Tasso Jereissati - prestes a obter seu 211

eundo m andato após ter deixado o governo do Ceará quatro anos antes ^ e sua em patia com o público. Tam bém com Marcelo Alencar, ex nador, ex-prefeito do Rio e que venceria as eleições para governador AO estado naquele ano pelo PSDB. Tinham o que cham o de sentim ento de nvo. Enriqueceu-m e ouvir e ver os políticos com sentim ento de povo, ntando entender com o e por que tinham "liga" com o povo.

Era sem pre interessante observar. O estilo dos oradores de com ício va'a m uito pelo Brasil afora. Uns são m ais discursivos, conversam com a m ultidão, e ela acom panha; alguns se exaltam , chegam a gritar e o povo com panha; outros que fazem a m esm a coisa encaram o silêncio ou o deínteresse do público. Nem sem pre o bom orador de auditório é bom no om ício em praça pública, e vice-versa. Com freqüência, nenhum deles funciona na TV. Um a das dificuldades dos com ícios é que suas im agens erão usadas na TV. Duas linguagens precisam com patibilizar-se: a audiência da TV não com ício enquanto, por sua vez, o público do com ício precisa, j ustam ente, de calor, í com plicado dosar tudo isso. Tive que aprender a trocar constantem ente ig pele porque saía de um com ício, com todo o tom em ocional que ele envolve, para um a entrevista no rádio, onde precisava ser calm o e didático; logo adiante, deixava um a reunião política intrincada e em seguida j á m e via num estúdio de TV para gravar program as para o horário eleitoral, e assim por diante.

Em relação especificam ente aos com ícios, ao longo da cam panha, a experiência, a observação e os conselhos dos com panheiros m e aj udaram , até que passei a m e sentir bem com a rotina de falar a m ultidões distintas entre si a cada m om ento. Lem bro-m e de certo dia em Canudos, na Bahia *~ que, por sinal, nada tinha a ver com a Canudos da m inha im aginação, um a vez que a cidade do Conselheiro acabou inundada por um a represa, j vleio- dia, praça principal lotada. Falaram ao povo Luís Eduardo, Paulo Souto, vice-governador de ACM, ex-secretário estadual e candidato a governador, e o próprio ACM - e eu prestando atenção. Aí chegou m inha vez. Falei à m ultidão. Term inado o com ício, ACM, com sua franqueza sem cerim ónia, m e disse:

- Ah, o senhor está m elhorando....

O candidato aprende tam bém em outros aspectos, à m edida que transcorre a cam panha. Percebe, por exem plo, que um a coisa é um com ício no 212 distintas aí se cruzam , e

gosta da gritaria do

interior de São Paulo, outra, no sertão da Bahia ou, m ais diferente ainda, na Am azónia, Em São Paulo o usual são as carreatas, não raro m ais im portantes que os com ícios - a longa fila de carros em bandeirados, os alto-falantes ribom bando, as pessoas nas ruas aplaudindo, agitando cartazes, saudando o candidato e sendo saudadas por ele. Já no interior da Bahia, da Paraíba ou de Pernam buco, não existe cam panha sem a m assa na praça. E é claro que acontecem equívocos e tropeços, que tam bém nos ensinam . Certa ocasião, com eçam os um a carreata no interior de Santa Catarina tarde dem ais - caía a noite, a tem peratura baixou m uito, não havia quase ninguém nas ruas,

Viver a cam panha, os deslocam entos, as carreatas, os encontros com chefes políticos locais, os com ícios é que m e levou a dizer que cam panha eleitoral, no Brasil, é um a troca de energia física. As pessoas querem pegar no candidato, abraçá-lo, até beij á-lo, e o candidato tem que se deixar abraçar, e abraçar tam bém . As pessoas se com portam desse j eito porque de algum a form a precisam , e esse com portam ento não tem a m ais rem ota e longínqua alusão a erotism o, é outra coisa, é algo profundo. Nosso país é assim . E o público claram ente se frustra se o candidato, por vontade própria ou não, perm anece distante. Um a vez eu estava no interior de Pernam buco, num lugarej o bem próxim o à divisa com Alagoas para um com ício, e um agente da Polícia Federal, parte do esquem a designado para a proteção dos candidatos, m e disse:- Hoj e ninguém chega perto do senhor aqui.

A PF tinha prendido um hom em que am eaçara atirar em m im . Não houve nada de grave no episódio, m as naquele dia os agentes m e cercaram , deixando irritados todos os políticos e m ilitantes locais em cim a e em volta do palanque porque, com o sem pre, eles queriam chegar perto. Quando o candidato acerta o ponto no contato com o público, acaba ele próprio se enchendo de entusiasm o e vitalidade, é aplaudido por onde passa. É porque provocou um a reação, um a im antação - e, se não provocar, a candidatura não decola. Ou o candidato produz eletricidade no ar, ou perde a eleição, Os com ícios, porém , representam tam bém um constante teste de tolerância para o candidato. Em m eu caso, havia sem pre que se levar em conta que o PT e seus aliados constituíam um adversário aguerrido. Podíam os estar certos de que, a certa altura do com ício, haveria provocação.

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E o candidato não pode se abalar com provocação. No com eço, adm ito que não era fácil, sobretudo para um professor universitário, habituado a ser ouvido: volta e m eia, enquanto discursava, grupos gritavam ofensas. Acabei m e acostum ando.

A enorm e diversidade de auditórios é outro desafio. Durante um a visita a Mato Grosso, o governador Jaim e Cam pos (PFL) e seu irm ão, o senador Júlio - um político divertidíssim o -, foram m e pegar no hotel em Cuiabá para o prim eiro com prom isso: visitar um a igrej a pentecostal. Tratava-se de um galpão gigantesco, com vários pastores oficiando um a cerim ónia para duas, três m il pessoas, que a cada m om ento proclam avam "Aleluia!", "Aleluia!" Os pastores deram a palavra para Júlio, e o que vi a partir daquele m om ento foi um a verdadeira pregação. Quando m e tocou falar, um tanto atordoado, acabei inserindo num discurso sobre o Plano Real referências a Deus m as tam bém a Max Weber, o qual, analisando a ética calvinista, m ostra que a acum ulação de riquezas pode ser vista com o um cham ado do Senhor a seus eleitos. Toda a m ídia nacional estava lá representada, e fiquei tem eroso do que seria publicado. À saída da igrej a, com Júlio à frente, e sem pre com os louvores m útuos de "Aleluia!" entre o público e os políticos - acabei tam bém aderindo -, percebia que Júlio se detinha diante de um e outro, com o se abençoasse: "Aleluia, irm ão! Aleluia, irm ão!" Ao entrarm os no carro, expus a Jaim e m inha surpresa:- Eu não sabia que seu irm ão era tão ligado à Igrej a Pentecostal. O governador respondeu:

- Ih, o senhor não viu nada, ainda. Precisava ver o Júlio na um banda, ele é ótim o. São características do Brasil. Político canta em igrej a evangélica, tom a passe em terreiro de um banda e se aj oelha em igrej a católica. Será dem agogia, ou farsa? Muitas vezes, claro que sim . Mas é difícil entender o Brasil quando a pessoa se agarra apenas ao estereótipo. Há ocasiões, e com o tal considero o ocorrido em Cuiabá, em que tais gestos acabam contendo um sinal de respeito. De algum m aneira o político está expressando para aquelas pessoas que tem em patia com elas, que vai respeitá-las. É com o se procurasse entrar no com prim ento de onda delas.

É um gesto, e política tam bém é gesto.

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O aprendizado propiciado pela corrida presidencial abrange ainda aquilo que Sérgio Motta cham ava "fazer cara de paisagem " ante um a série de situações ocorridas nas próprias hostes do candidato, principalm ente devido a pendengas regionais. São seus partidários que brigam entre si para ver quem fala prim eiro e quem fala depois nos com ícios, ou sobre se determ inada figura vai ou não subir no palanque, ou ainda se o candidato visita a casa de um ou de outro, antes ou depois do com ício. Isso é outra dificuldade brasileira: há um candidato à Presidência apoiado por diversos partidos, m as em vários estados estão em curso brigas ferozes entre candidatos locais desses partidos. O candidato à Presidência, diante disso, m anda em issários falarem com um a e outra partes antes da viagem ao estado, efetua acordos, com bina ir ao com ício de um candidato de dia, e ao de outro à noite. Se o com ício diurno é m enos im portante, há que com pensar realizando determ inada visita, ou participando de um j antar na casa de algum líder local. É tudo assim . Às vezes, é m elhor não ir a certos estados onde seus apoiadores, adversários entre si, parecem querer se m atar. O candidato tem sem pre que fingir que não está acontecendo nada, nunca deve se envolver, precisa saber pairar acim a desses arrufos. São problem a dos outros. Outra questão que se dá no interior da cam panha é a perm anente disputa por espaço j unto ao candidato, a cham ada "hierarquia da bicada". As pessoas im aginam que quanto m ais perto estão dele e quanto m ais influentes se tornem na cam panha, m ais garantido será seu futuro. Aí com eçam as cotoveladas, as rusgas sobre quem tem acesso ou não tem acesso, a cium eira. Manter-se à parte é fundam ental, inclusive pelo fato de, se e quando a eleição for ganha, a equipe de cam panha não se tornará a assessoria do Presidente. A transição de um a coisa para a outra, aliás, é um m om ento traum ático: o candidato não pode enganar grande parte das pessoas que tanto o aj udaram , m as precisa despedir-se delas. Nessa fase, ocorre outra transição igualm ente nada sim ples, do inform al (o candidato) para o form al (o Presidente eleito). Requer que o candidato lance m ão de suas reservas de habilidade para agir, sem pre tendo em m ente que continuará a haver a hierarquia da bicada.

Com esse retrato que procurei traçar, pode-se constatar que a cam panha política é um enorm e gerador de tensão. O candidato se sente um a 215

corda de violino perm anentem ente esticada. Depois de três ou quatro m eses, e a despeito dos cuidados que possa tom ar, está exausto. Portanto, se não se aplicar com convicção e de bom grado àquela tarefa, se achar que tudo é aborrecido, se desanim ar diante das dificuldades, a em preitada se transform a num grande sofrim ento e m uito dificilm ente chegará a bom term o. Entendi isso nos prim eiros dias, em m aio, quando cheguei a esm orecer: os resultados das pesquisas de intenção de votos não m elhoravam , e um j antar com possíveis colaboradores financeiros da cam panha, na casa de Andréa Matarazzo em São Paulo, m e decepcionara, ante a hesitação de em presários que, convidados, cancelaram o com parecim ento. Cheguei a m encionar a Ruth que m e passava pela cabeça a idéia de desistir. Não teria, claro, nenhum cabim ento, e seria um a irresponsabilidade que não faz m eu j eito. Resolvi, em vez disso, encarar as coisas de frente, aceitar plenam ente os encargos e a dureza de ser candidato, e tratei de esquecer tudo o m ais: lia só por alto j ornais e revistas, exam inava as pesquisas eleitorais apenas de vez em quando para não m e atorm entar, e m e entreguei de corpo e alm a ao obj etivo de convencer as pessoas, de ganhar suas m entes e seus corações para nossas idéias e proj etos. Deu certo.

Por tudo o que expus, considero que a cam panha política, além de ser um a epopéia, constitui tam bém um a experiência hum ana extrem am ente enriquecedora e um a espécie de obra de arte. Não é difícil concluir que, apesar dos sobressaltos, do dispêndio de energia, das pressões, do cansaço, gostei im ensam ente da longa j ornada que m e levaria ao Palácio do Planalto.

A vitória, a posse e o peso da História sobre m im Veio, então, o dia da eleição. Pelo calor da cam panha, pelas pesquisas de intenção de voto, pela reação da m ídia - por tudo -, eu sabia, racionalm ente, que ela estava ganha. No íntim o, porém , não tinha certeza da vitória j á no prim eiro turno, em bora os núm eros e o am biente do país a desenhassem com clareza. Ruth e eu votam os em São Paulo e depois decidim os, procurando não perm itir que a inform ação vazasse à im prensa, nos refugiar do enorm e rebuliço a nosso redor num local agradável e tranqüilo: a Fazenda Bela Vista, em Pardinho, a 200 quilóm etros da capital,

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pertencente ao em presário Jovelino Mineiro e a sua m ulher, Maria do Carm o Sodré, antigos am igos nossos. Viaj am os até a cidade próxim a de Botucatu, num dos j atinhos que nos serviram durante a cam panha. Do pequeno aeroporto local nos levaram de carro à fazenda. Nossos filhos, genros, nora e netos foram todos para lá. Paulo Henrique, o m ais velho, à época casado com Ana Lúcia Magalhães Pinto, e as filhas gém eas, Joana e Helena; Luciana, grávida da filha Isabel, m ais o m arido, Getúlio Vaz; e Beatriz, a Bia, com o então seu m arido, David Zy lberztaj n, e os filhos Júlia e Pedro. Apenas nós, e os anfitriões com o filho, Bento, assistim os num grande aparelho de TV aos resultados da apuração. Não tardou para m inha dúvida íntim a se dissipar, e ficou claro que, sim , vencia no prim eiro turno. A partir daí, passam os um curto período agradabilíssim o e alegre, com endo bem , conversando, descansando e desfrutando da com panhia da fam ília. Carm o e Jovelino transform aram a terra vazia num belo em preendim ento, um centro de excelência para a m elhoria genética de touros da raça Brangus. A fazenda faz j us ao nom e: situada num platô, da sede - inclusive da piscina, onde dei alguns m ergulhos - avista-se um grande vale e cinco ou seis cidades, entre elas Botucatu e Pardinho.

Dois dias depois, a Globo descobriu que estávam os lá. Com eçou um a revoada de helicópteros da im prensa, com m uita m ovim entação, e decidim os regressar a São Paulo.

Im ediatam ente iniciei as conversas sobre a form ação do governo, no apartam ento em que então m orava, na rua Maranhão. Na calçada do prédio, postava-se um perm anente plantão de j ornalistas. Veículos da m ídia e toda aquela tralha tecnológica das em issoras de TV atravancavam a rua. Acabara de vez m inha paz. Mas o ritm o da cam panha m e acostum ara a isso, que é parte do j ogo e que o político deve encarar com tolerância e equilíbrio. O PSDB alugou um a casa no Lago Sul, pudesse perm anecer na capital durante esse tam bém seriam freqüentes os contatos com o governo Itam ar. Ruth e eu nos transferim os para lá. O Presidente Itam ar, que estava m orando havia algum tem po no Palácio do Jaburu - residência oficial do Vice-Presidente da República-, cedeu-m e o Alvorada para despachar e realizar encontros. Com ecei a usar a biblioteca do palácio com o local para discutir a 217

em Brasília, para que eu

período, no qual naturalm ente

m ontagem de m inha equipe. Às vezes, alm oçava ali m esm o. Nessas condições, o Presidente eleito dispõe de um a barreira protetora excelente, que lhe perm ite trabalhar sem ser assediado, e escolher com tranqüilidade com quem vai falar e quando. No final de m eu governo, procurei propiciar a Lula um esquem a sem elhante. No m eu caso, em 1994, foi m ais sim ples essa transição, porque eu era m uito próxim o a Itam ar, fora seu m inistro e seu candidato. Existia, naquele período, plena confiança entre nós.

Ruth e eu m udam os para o Alvorada no dia 31 de dezem bro de 1994, véspera da posse. Levam os algum a bagagem , e depois aos poucos nos instalam os por com pleto. No geral, contudo, o que carregam os conosco foram roupas, livros e obj etos pessoais. A m aioria de m eus livros, com o os de Ruth, perm aneceu em São Paulo, da m esm a form a com o nossos quadros. Meus livros e um a grande m assa de docum entos atulhavam , naquela época, um a casa da fam ília na rua dos Ingleses, no bairro da Bela Vista, onde nossa filha Bia havia m orado. Com o ilustração do que é nosso país, registre-se que a casa foi assaltada duas vezes estando eu na Presidência da República...

Continuar: parte 2 de 4