À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 6 de 9 · parte 2/3

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À Espera de um Milagre

Parte Quatro .......................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ao princípio correu tudo melhor. O Del passara uma noite tranqüila na sua cela, ocasionalmente a brincar com o Mister Jingles, mas a maior parte do tempo passou-o deitado na tarimba a acariciá-lo. O Wharton tentou arranjar problemas por duas vezes - da primeira, disse ao Del aos berros que iriam comer hambúrgueres de rato depois de o velho Pierre Felizardo já se encontrar a dançar no inferno - mas o pequeno cajun não lhe deu réplica, e o Wharton, aparentemente convencido de que aquela tinha sido a sua melhor tentativa, desistiu.

Às dez e um quarto, o Irmão Schuster apareceu, tendo-nos deliciado ao dizer que rezaria o padre-nosso juntamente com o Del em francês cajun. Aquilo parecia ser um bom presságio. É claro que estávamos redondamente enganados. Por volta das onze, as testemunhas começaram a chegar. Na sua maioria falavam em voz baixa, comentando as condições climatéricas que se avizinhavam e aventando a probabilidade de um corte de energia, que adiaria a eletrocussão. Nenhuma dessas pessoas parecia ter conhecimento de que a Velha Faísca era alimentada por um gerador e, a menos que esse mecanismo fosse diretamente atingido por um raio, o espetáculo haveria de prosseguir. Nessa noite, o Harry fora destacado para o compartimento do quadro elétrico; portanto, era ele, juntamente com o Bill Dodge e o Percy Wetmore, que desempenhavam a tarefa de arrumadores, conduzindo as pessoas aos seus assentos e perguntando a cada uma delas se desejava um copo de água. Encontravam-se presentes duas mulheres: a irmã da rapariga que o Del violara e assassinara e a mãe de uma das vítimas que tinha sido imolada pelo fogo. A última senhora era corpulenta e tinha as faces pálidas, embora se mostrasse determinada. Confidenciou ao Harry Terwilliger que esperava que o homem que tinha vindo ver morrer estivesse com medo, sabendo antecipadamente que as chamas da fornalha o aguardavam. Em seguida, foi acometida por uma crise de choro e ocultou o rosto num lenço de renda que tinha quase o tamanho de uma fronha.

A trovoada, que mal era abafada pelo telhado de zinco, fazia ouvir os seus estrépitos alto e bom som. As pessoas erguiam o olhar até ao teto, demonstrando um certo mal-estar. Os homens, que davam a impressão de não se sentir à vontade com as suas gravatas àquela hora tardia, limpavam o suor das faces coradas. Na sala da arrecadação estava um calor insuportável. E, como é claro, eles olhavam constantemente para a Velha Faísca. É possível que no início da semana tivessem dito algumas piadas quanto àquela tarefa, mas, mais ou menos por volta das onze e meia dessa noite, as piadas já haviam desaparecido. Comecei tudo isto contando-vos que o bom humor abandonava rapidamente as pessoas que eram obrigadas a sentar-se naquela cadeira de carvalho, mas os encarcerados condenados não eram os únicos a perder o sorriso quando a hora se aproximava inexoravelmente. Aquilo era chocante, um objeto atarracado sobre o estrado, com as braçadeiras das pernas parecidas com as coisas que os doentes de poliomielite eram forçados a usar. Não se ouviam muitas conversas e quando os trovões ribombaram de novo, tão presentes e pessoais como uma árvore fendida, a irmã da vítima do Delacroix soltou um pequeno grito. A última pessoa a sentar-se na secção reservada às testemunhas foi o Curtis Anderson, o substituto do diretor Moores.

Às onze e meia, dirigi-me à cela do Delacroix, acompanhado pelo Brutal e pelo Dean, ligeiramente atrás de mim. O Del estava sentado na tarimba, com o Mister Jingles no colo. O rato tinha a cabeça esticada para a frente, na direção do homem condenado à morte. O Del acariciava o topo da cabeça do animal entre as orelhas. Pelas faces do Del corriam lágrimas grandes choradas em silêncio, e eram elas que o Mister Jingles dava a impressão de estar a observar. Ao ouvir o som dos nossos passos, o Del ergueu o olhar. Estava muito pálido. Atrás de mim pressentia presença do John Coffey junto à porta da sua cela, observando tudo aquilo.

O Del retraiu-se ao ouvir as minhas chaves a entrar nas' fechaduras, embora se houvesse mantido calmo, continuando a acariciar a cabeça do rato enquanto eu fazia girar as chaves e corria a porta sobre a calha.

- Olá, chefe Edgecombe - saudou ele. - Olá, rapazes. Diz olá, Mister Jingles. - Mas o animal limitava-se a olhar enlevado para as faces do pequeno homem calvo, como se perguntasse a si mesmo qual a origem daquelas lágrimas. O carretel colorido fora cuidadosamente arrumado no interior da caixa de charutos Corona... arrumado pela última vez, pensei eu, sentindo um aperto no coração.

- Eduard Delacroix, na minha qualidade de funcionário autorizado pelo tribunal...

- Chefe Edgecombe?

Ainda pensei em dar seguimento ao resto do discurso da praxe, mas reconsiderei.

- O que se passa, Del?

- Aqui tem - disse ele, estendendo o rato na minha direção. - Não deixe que aconteça alguma coisa de mal ao Mister Jingles.

- Del, não me parece que ele queira vir para mim. Ele não está...

- Mais oui, ele disse-me que queria. Ele diz que sabe tudo a seu respeito, chefe Edgecombe, e que o senhor vai levá-lo para esse lugar na Florida onde os ratinhos mostram as suas habilidades. Ele disse-me que confia em si. - Estendeu ainda mais o braço e raios me partam se o rato não saiu da palma da mão do Delacroix e passou para o meu ombro. Era tão leve que eu mal conseguia sentir o seu peso através do tecido do casaco do uniforme, mas dei-me conta da sua presença como se fosse uma pequena chama. - E chefe, não deixe que aquele homem mau faça mal ao meu rato.

- Não, Del. Não deixarei. - A questão que se me colocava era o que fazer com o rato naquele preciso momento. Não me parece que pudesse fazer marchar o Delacroix em frente das testemunhas, com um rato empoleirado no meu ombro.

- Eu fico com ele, chefe - troou uma voz atrás de mim. Era a voz do John Coffey e, tendo surgido nessa altura, provocou-me uma sensação fantasmagórica, como se tivesse adivinhado os meus pensamentos. - Só por agora. Se o Del não se importar.

Com uma expressão de alívio, o Delacroix acenou afirmativamente.

- Sim, fica com ele, John, até que este disparate esteja terminado... bien! E depois... - O seu olhar centrou-se no Brutal e depois em mim. - O senhor vai levá-lo para a Florida. Para esse lugar, a Vila dos Ratos.

- Sim, o mais provável é o Paul e eu irmos juntos - replicou o Brutal, observando com um olhar perturbado e inquieto o Mister Jingles abandonar o meu ombro, indo para a enorme palma da mão que o Coffey estendera. O rato fez isso sem hesitar ou tentar fugir; na realidade, saltou com tanta prontidão para o braço do Coffey como havia passado para cima do meu ombro. - Tiramos alguns dias de férias. Não é verdade, Paul? - acrescentou o Brutal.

Acenei que sim. O Delacroix também manifestou a sua concordância, com os olhos cintilantes e o esboço de um sorriso nos lábios.

- Cada pessoa vai pagar dez cêntimos para poder vê-lo. Dois cêntimos para os miúdos. Não é verdade, chefe Howell? - É isso mesmo, Del.

- O senhor é um homem bom, Howell - continuou o Delacroix. - O senhor também, chefe Edgecombe. Às vezes grita comigo, oui, mas só quando é necessário fazê-lo. Todos vocês são bons, tirando esse Percy. Quem me dera poder ter-vos conhecido noutro lugar qualquer. Mauvais temps, mauvaise chance.

- Preciso de dizer uma coisa, Del - proferi eu. - São apenas as palavras que tenho de dizer a toda a gente antes de começarmos a andar. Nada de especial, mas faz parte do meu trabalho. De acordo?

- Oui, monsieur - anuiu ele, olhando para o Mister Jingles, pela derradeira vez, empoleirado no ombro largo do John Coffey. - Au revoir, mon ami. Até à vista, meu amigo - acrescentou ele, começando a chorar com mais intensidade. - Je t'aime, mon petit. - Soprou um beijo na direção do rato. Deveria ter sido engraçado, aquele beijo soprado, ou talvez simplesmente grotesco, mas não era. Por uns breves momentos, o meu olhar cruzou-se com o do Dean, mas fui forçado a afastá-lo. O Dean pôs-se a olhar pelo corredor na direção da sala do isolamento, esboçando um sorriso estranho. Estou em crer que ele se encontrava à beira das lágrimas. Quanto a mim, disse o que tinha a dizer, recomeçando na parte em que me referia a ser um funcionário judicial e, quando terminei, o Delacroix saiu da sua cela pela última vez.

- Espera uns segundos, homem - pediu o Brutal, inspecionando a coroa do cabelo do Del onde o capacete teria' de assentar. Acenou-me, indicando-me que estava tudo em ordem e deu uma palmada no ombro do Delacroix. - Tudo a postos, estamos prontos para seguir. A caminho.

E foi assim que o Eduard Delacroix iniciou a sua última caminhada pela Milha Verde. Nas suas faces misturavam-se as gotas de suor e as lágrimas, enquanto no firmamento acima de nós rolavam os trovões em sucessão. O Brutal caminhava à esquerda do condenado, eu à direita e o Dean à retaguarda.

O Schuster aguardava no meu gabinete, com os guardas Ringgold e Battle, que se mantinham de vigilância, colocados no canto. O Schuster olhou para o Del, sorriu e começou a falar com ele no francês cajun. A mim, aquilo pareceu ser empolado, mas o certo é que resultou às mil maravilhas. O Delacroix retribuiu o sorriso e aproximou-se do Schuster, colocou-lhe os braços à volta do torso e abraçou-o. O Ringgold e o Battle adquiriram uma postura tensa, mas eu fiz-lhes um gesto com as mãos, ao mesmo tempo que abanava a cabeça.

O Schuster ouviu atentamente a torrente de palavras embargadas pelas lágrimas que o Del proferia no seu francês atabalhoado, acenando com a cabeça como se o compreendesse na perfeição, enquanto lhe dava umas pancadinhas calorosas nas costas. Olhou para mim por cima do ombro do pequeno homem, antes de começar a falar.

- Eu mal consigo compreender um quarto do que ele está a dizer-me.

- Acho que isso não interessa - resmungou o Brutal. - Também eu não, meu filho - retorquiu o Schuster com uma careta risonha. Ele era o melhor deles todos e agora apercebo-me de que não faço a mínima idéia do que foi feito dele. Só espero que tenha mantido a sua fé, independentemente de tudo o mais que o possa ter abandonado.

Incitou o Del para que se ajoelhasse e uniu as mãos. O Delacroix seguiu-lhe o exemplo.

- Vot' Père, qui ëtes aux cieux - começou o Schuster a rezar e o Delacroix juntou a sua voz à dele. Ambos proferiram o padre-nosso naquele francês cajun, até chegarem a “mais dehverez-vous du mal, ainsi soit-il”. Nessa altura, as lágrimas do Del já haviam cessado e ele mostrava uma aparência calma. Seguiram-se alguns versículos da Bíblia (em inglês), sem que tivesse sido negligenciado o velho arrimo acerca das águas mansas. Depois de concluída aquela parte, o Schuster começou a erguer-se, mas o Del agarrou-o pela manga da camisa, dizendo-lhe algo no seu francês. O Schuster ouviu-o com toda a atenção, franzindo o cenho. Respondeu-lhe. O Del acrescentou mais qualquer coisa e ergueu o olhar até ao seu rosto, aguardando com uma expressão esperançosa.

- Ele tem algo mais a dizer, Mister Edgecombe - anunciou o Schuster, dirigindo-se a mim. - Uma oração em que eu não posso ajudá-lo, devido à minha fé. Vê algum inconveniente nisso?

Olhei para o relógio na parede e vi que faltavam dezessete minutos para a meia-noite.

- De acordo - acedi -, mas terá de ser rápido. Como sabe, temos um horário a cumprir.

- Sim, eu sei - retorquiu o Schuster. Voltou-se para o Delacroix e com um acenar de cabeça, indicou-lhe que prosseguisse.

O Del cerrou os olhos como se preparado para começar a rezar, mas durante um momento não disse nada. Enrugou a testa, e eu tive a impressão que ele procurava algo bem no fundo da sua mente, como um homem poderia procurar no seu pequeno sótão um objeto que não houvesse sido usado (ou sido necessário) durante muito, muito tempo. Uma vez mais, olhei para o relógio e estive prestes a falar - e tê-lo-ia feito se o Brutal não me tivesse tocado na manga da camisa, abanando a cabeça.

Então, o Delacroix começou a falar suave mas rapidamente naquele seu dialeto cajun, numa toada tão arredondada e sensual como os seios de uma mulher jovem.

- Marie! Je vous salue, Marie, oui, pleine de grâce; le Seigneur est avec vous; vous ëtes bénie entre toutes les femmes, et mon cher Jésus, le fruit de vos entrailles, est béni.

Delacroix recomeçara a chorar, mas não parecia que se tivesse dado conta disso. - Sainte Marfe, Ô ma mère, Mèrt de Dieu, priez pour moi, priez pour nous, pauv' pécheurs, á maint'ant et à l'heure... 1'heure de nôtre mort. L'heure de mon mort. - Respirou fundo, um som estremecido. - Ainsi' soit-il.

Quando o Delacroix se pôs de pé, através da janela entrou o breve clarão azul-esbranquiçado de um relâmpago. Todos, os presentes se retraíram sobressaltados, com exceção do próprio Del; ele parecia continuar embrenhado na antiga oração. Estendeu uma mão sem ver para onde a dirigia. O Brutal agarrou-a e deu-lhe um breve aperto. O Delacroix olhou para ele, esboçando um pequeno sorriso.

- Nous voyons... - começou ele a dizer, mas deteve-se. Com um esforço consciente, começou a falar em inglês. - Agora já podemos ir, chefe Howell, chefe Edgecombe. - Estou de bem com Deus.

- Isso é ótimo - declarei eu, perguntando a mim mesmo até que ponto o Del se sentiria bem com Deus dali a vinte minutos, quando se encontrasse no outro extremo da corrente elétrica. Eu só esperava que a sua última oração tivesse sido ouvida, e que a Mãe Maria rezasse por ele com toda a sua alma e coração, porque o Eduard Delacroix, assassino e violador, carecia naquele momento de todas as orações a que pudesse deitar mão. Lá fora, os trovões fizeram-se ouvir uma vez mais, atravessando os céus. - Vamos lá, Del. Já não falta muito.

- De acordo, chefe, vamos lá. Porque eu já não tenho medo. - Foi o que ele afirmou, mas eu vi nos seus olhos que... com padre-nosso ou sem padre-nosso, ave-maria ou não ave-maria, ele estava a mentir. Quando chega a altura de percorrerem a última parte do tapete verde e de se dobrarem para poder transpor a entrada baixa, quase todos eles se mostravam atemorizados.

- Quando chegares ao fim pára, Del - disse-lhe eu em voz baixa enquanto ele transpunha a ombreira, mas era uma advertência que eu não necessitava de ter feito. Ele deteve-se ao fundo dos degraus, sem qualquer hesitação, completamente imóvel ao ver o Percy Wetmore ali no estrado com o balde da esponja junto de um dos pés e o telefone, que se encontrava diretamente ligado ao governador, mal se vendo por detrás da sua anca direita.

- Non - proferiu Del numa voz baixa e horrorizada. - Non, non, ele, não!

- Segue em frente - disse o Brutal. - Mantém os olhos em mim e no Paul. Esquece que ele está ali.

- Mas...

As pessoas tinham-se virado, olhando para nós, mas, ao deslocar-me um pouco, ainda pude agarrar no Delacroix pelo cotovelo esquerdo, sem ser visto pela assistência.

- Acalma-te - incitei eu num tom de voz que só o Delacroix, e talvez o Brutal, conseguiam ouvir. - A única coisa de que estas pessoas se recordarão é da maneira como te portas; portanto, proporciona-lhes algo de bom que lhes fique gravado na memória.

Entretanto, ouviu-se o ribombar do trovão mais forte que se fizera ouvir até então; a intensidade foi tal que o telhado de zinco da arrecadação vibrou. O Percy deu um salto como se alguém se tivesse aproximado por trás sem ele se aperceber e o Del soltou uma pequena gargalhada escarninha.

- Se os trovões forem muito mais fortes do que este, ele vai mijar de novo nas calças - disse, endireitando os ombros... não que tivesse muito para endireitar. - Vamos lá. Acabamos com isto de uma vez.

Encaminhamo-nos para a plataforma. Com um olhar nervoso, o Delacroix percorreu as testemunhas - desta feita, encontravam-se presentes vinte e cinco - quando passamos por elas. O Brutal, eu e o Dean tínhamos os olhos fixos na cadeira. Parecia-me que estava tudo em ordem. Ergui um polegar e um sobro-lho interrogador na direção do Percy, que me brindou com um esgar, como se dissesse: O que é que queres saber, se está tudo em ordem? É claro que está!

Eu só esperava que ele não estivesse enganado. Automaticamente, o Brutal e eu agarramos no Delacroix pelos cotovelos, enquanto ele subia para o estrado. Este fica acima do solo apenas uns escassos vinte centímetros, mas vocês ficariam surpreendidos se soubessem quantos deles, mesmo os tipos mais endurecidos, necessitam de ajuda para subir esse último degrau das suas vidas.

No entanto, o Del portou-se bem. Durante um momento Permaneceu em frente da cadeira elétrica (firmemente resolvido a não olhar para o Percy) e falou para ela, quer acreditem quer não, como se estivesse a apresentar-se.

- C'est moi - disse o Delacroix. O Percy estendeu-lhe a mão, mas ele voltou-se sozinho e sentou-se. Ajoelhei-me junto do que naquele momento era o seu lado esquerdo e o Brutal no lado direito. Protegi as virilhas e a garganta da maneira que já descrevi, e, em seguida, posicionei a braçadeira de forma a que a parte que se abria circundasse a carne emagrecida; e branca, exatamente acima do tornozelo do cajun. A trovoada ribombou de novo, sobressaltando-me. Senti o suor a escorrer-me para os olhos, que começaram a arder. Por qualquer razão que desconheço, pensava continuamente na Vila dos' Ratos. A Vila dos Ratos e o bilhete de ingresso que custava dez cêntimos. Dois cêntimos para as crianças, que poderiam ver o Mister Jingles através das janelas de folha de mica.

A braçadeira era volumosa e não queria fechar-se. Ouvia o Del a respirar em grandes arrancos secos, enchendo os pulmões de ar, pulmões que ficariam reduzidos a sacos carbonizados em menos de quatro minutos, esforçando-se por poder acompanhar o seu coração desenfreado que pulsava ao ritmo do medo. O fato de ter morto meia dúzia de pessoas dava naquela altura a impressão de ser a coisa menos importante acerca da sua pessoa. Não estou a tentar estabelecer agora aquilo que é correto e o que não é; limito-me a descrever a situação como ela se me apresentava.

- O que se passa, Paul? - perguntou-me o Dean num sussurro ajoelhado junto de mim.

- Não sou capaz... - comecei a dizer, mas nessa altura a braçadeira fechou-se com um estalar bem audível. Também deve ter arrepanhado a pele do Delacroix, porque ele se retraiu, emitindo um pequeno som sibilado. - Desculpa - disse eu.

- Não tem importância, chefe - retorquiu Del. - Só vai doer por um minuto.

A braçadeira do lado do Brutal, a que tinha o eletrodo acoplado e que levava sempre mais tempo a fechar, também se fechou. Pusemo-nos de pé, os três, quase exatamente ao mesmo tempo. O Dean agarrou na braçadeira do pulso do lado esquerdo do Del, e o Percy na do lado direito. Eu encontrava-me preparado para avançar, no caso de o Percy vir a necessitar de auxílio, mas ele saiu-se melhor com a braçadeira do pulso do que eu com a do tornozelo. Naquele momento, reparei que o Del tremia todo, como se o seu corpo tivesse começado a ser percorrido por uma corrente de fraca intensidade. Também me chegava às narinas o cheiro da sua transpiração Era forte e acre, trazendo-me à recordação um cheiro fraco a picles.

O Dean acenou com a cabeça na direção do Percy. Este voltou-se, começando a falar por cima do ombro. Eu conseguia avistar uma zona abaixo do seu queixo, onde ele se tinha cortado nessa manhã ao fazer a barba.

- Prosseguir com a fase um! - disse ele em voz baixa, embora firme.

Ouviu-se um zunido, do gênero .do que o motor de um velho frigorífico faz quando começa a funcionar; as luzes do teto da arrecadação adquiriram uma luminosidade mais intensa. Ouviram-se alguns arquejos e murmúrios vindos da assistência. Na cadeira, o corpo do Del foi percorrido por um safanão, enquanto as suas mãos se agarravam aos extremos dos braços de carvalho da cadeira com força suficiente para que os nós dos dedos tivessem ficado brancos. Os seus olhos deslocaram-se rapidamente de um lado para o outro nas órbitas e a sua respiração seca acelerou-se ainda mais. Naquele momento ele estava quase a arquejar.

- Mantém-te firme - incentivou-o o Brutal num murmúrio. - Calma, Del, vais ver que não custa muito. Agüenta-te, estás a portar-te muito bem.

Ei, rapazes!, pensei. Venham ver o que o Mister Jingles é capaz de fazer! - Acima das nossas cabeças, a trovoada fez-se ouvir de novo.

Todo emproado, o Percy contornou a cadeira elétrica. Aquele era o seu grande momento: ocupava o lugar central do palco, todos os olhares pousados na sua pessoa. Todos, com exceção do de uma pessoa. O Delacroix apercebeu-se da sua presença e baixou os olhos para o colo. Eu teria apostado fosse o que fosse em como o Percy iria atamancar o que tinha a dizer quando chegasse o momento de se dirigir à audiência, mas a realidade é que ele se expressou sem hesitação, numa voz calma e soturna.

- Eduard Delacroix, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elétrica tendo a sentença sido lavrada por um júri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado, Deus abençoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento à sentença?

O Del tentou falar mas não lhe saiu qualquer som da garganta para além de um sussurro aterrorizado cheio de ar e de vogais. A sombra de um sorriso desdenhoso assomou aos lábios do Percy; seria com toda a satisfação que eu o teria abatido ali, naquele momento. Então, o Del lambeu os lábios e fez outra tentativa.

- Lamento muito tudo o que fiz - disse ele num tom contrito. - Daria fosse o que fosse para poder fazer recuar o tempo, mas ninguém tem poderes para uma coisa dessas. Por isso, agora... - Acima de nós, os trovões explodiram como fogo de morteiro. O Del deu um salto tão grande quanto as braçadeiras lhe permitiam, parecendo que os olhos lhe queriam saltar do rosto. - Por isso, agora tenho de pagar o preço. Que Deus me perdoe. - Uma vez mais, passou a língua pelos lábios e olhou para o Brutal. - Não se esqueça da promessa que me fez quanto ao Mister Jingles - acrescentou ele numa voz baixa que se destinava apenas aos nossos ouvidos.

- Não esqueceremos, não te preocupes - assegurei-lhe, tocando-lhe numa mão fria que nem mármore. - Ele irá para a Vila dos Ratos...

- Uma ova é que vai - atalhou o Percy, falando pelo canto da boca, assemelhando-se a um dos prisioneiros espertalhões no pátio, enquanto prendia a correia à largura do peito de Delacroix. - Isso não existe. Não passa de uma história da carochinha que estes tipos inventaram para te manterem calmo. Achei que devias ter conhecimento disto, meu maricas.

O brilho fulminante que encheu os olhos do Del disse-me que parte dele tinha sabido... mas que estava determinado a manter esse conhecimento afastado do resto da sua pessoa, se tal lhe fosse permitido. Olhei para o Percy, sentindo-me furioso e aparvalhado com a sua atitude; ele limitou-se a olhar bem de frente para mim, como se me perguntasse o que tencionava eu fazer a respeito daquilo. É evidente que ele me tinha na mão. Não havia nada que eu pudesse fazer naquela situação, sobretudo em frente das testemunhas, com o Delacroix sentado no extremo da sua vida. Não havia rigorosamente nada que se pudesse fazer de momento, a não ser prosseguir com aquilo, terminar de uma vez por todas.

O Percy retirou o saco negro do gancho e enfiou-o pela cabeça do Del, cobrindo-lhe o rosto e apertando-o bem por baixo do pescoço do pequeno homem, a fim de esticar o orifício do topo. Retirar a esponja que se encontrava dentro do balde e colocá-la dentro do capacete era o passo seguinte; foi aqui que o Percy se afastou da rotina pela primeira vez: em lugar de se debruçar para retirar a esponja do balde, agarrou no capacete de aço que se encontrava pendurado nas costas da cadeira e inclinou-se com ele na mão. Por outras palavras, em vez de levar a esponja ao capacete - o que teria sido a maneira lógica de proceder - levou o capacete à esponja. Nessa altura, eu devia ter compreendido que alguma coisa não estava bem, mas a realidade é que me sentia bastante perturbado. Aquela foi a única execução em que participei onde me senti inteiramente à margem dos acontecimentos. Quanto ao Brutal, nem sequer chegou a lançar um olhar ao Percy, pelo menos quando este se debruçou sobre o balde (de forma a bloquear o nosso ângulo de visão, impedindo-nos de ver o que estava a fazer), nem tão-pouco quando ele se endireitou e se voltou para o Delacroix, com o capacete nas mãos e o círculo de esponja castanha já no seu interior. Entretanto, o Brutal olhava para o bocado de tecido que ocultava as feições do Del, observando a forma como a seda negra fazia uma concavidade onde se delineava o formato da boca do condenado, para logo em seguida se enfolar com a sua respiração. A testa do Brutal estava perlada de gordas gotas de suor, o mesmo acontecendo às fontes logo abaixo da linha do cabelo. Nunca o vira a transpirar durante uma execução. Atrás dele, o Dean dava a impressão de estar distraído, demonstrando um certo mal-estar, como se lutasse para não perder o jantar. Agora compreendo que todos nós começávamos a perceber que qualquer coisa não estava a correr bem. Só que não conseguíamos apontar concretamente a falha. Ninguém sabia - nessa altura - que espécie de perguntas o Percy tinha feito ao Jack Van Hay. Haviam sido muitas, mas eu desconfio que a maior parte se destinava apenas a servir de camuflagem. Aquilo que o Percy queria saber - estou em crer que era a única coisa que lhe interessava - dizia respeito à esponja. A sua finalidade. O motivo por que era mergulhada em salmoura.., e o que é que aconteceria se não fosse mergulhada em salmoura.

O que aconteceria se a esponja estivesse seca.

O Percy enfiou o capacete na cabeça de Delacroix. O pequeno homem saltou de novo e soltou um gemido, desta vez mais audível. Algumas das testemunhas agitaram-se nas cadeiras desdobráveis, constrangidas. O Dean deu meio passo em frente com a intenção de ajudar a apertar a correia do pescoço; todavia, o Percy indicou-lhe que se afastasse num gesto breve. O Dean assim fez, vergando os ombros e retraindo-se quando o estrondo de outro trovão fez estremecer a arrecadação. Desta vez, seguiram-se-lhe as primeiras gotas de chuva que tombaram sobre o telhado. O som era parecido com um punhado de berlindes a ser lançado sobre uma superfície metálica.

Já todos ouvimos pessoas a dizer: “Senti o sangue enregelado”, não é verdade? Certamente que sim. Já todos ouvimos essa expressão, mas a única vez em todos os meus anos de vida em que senti que isso estava realmente a acontecer comigo foi nessa madrugada de Outubro de 1932, diferente de todas as outras, em que a trovoada se fazia ouvir em toda a sua intensidade, cerca de dez segundos após a meia-noite. Não foi a expressão de triunfo venenoso no rosto do Percy; Wetmore, enquanto ele se afastava da figura encapuzada, presa por correias e com o capacete na cabeça, sentada na Velha Faísca; foi sim aquilo que eu deveria ter visto mas que não vi. Não se via água a escorrer pelas faces do Delacroix por baixo do capuz. Foi nessa altura que abarquei toda a situação.

- Eduard Delacroix - dizia o Percy -, a partir de agora, a corrente elétrica atravessará o seu corpo até que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado.

Olhei para o Brutal, sentindo uma agonia tão grande que fazia com que a minha infecção urinária não tivesse passado de um dedo dorido. A esponja está seca!, disse-lhe eu formando as palavras com os lábios, mas ele abanou a cabeça, indicando-me que não compreendera, e voltou a concentrar a sua atenção no saco negro que ocultava as feições do francês, dentro do qual os últimos fôlegos do homem recolhiam e enfolavam a seda negra.

Toquei no cotovelo do Percy mas ele afastou-se, fitando-me com um olhar inexpressivo. Foi apenas um olhar momentâneo, mas que me disse tudo. Mais tarde, ele iria apresentar as suas mentiras e meias verdades, e as pessoas que possuíam alguma influência acreditaram na maior parte, embora eu soubesse que a história era bem diferente. Sempre que fazia algo que o interessava, o Percy era um aluno aplicado, como descobríramos durante os ensaios; ouvira com a máxima atenção o Jack Van Hay explicar-lhe como é que a esponja mergulhada em salmoura era um bom método de transmissão da corrente elétrica, canalizando-a e transformando a carga numa espécie de bala elétrica que atingia o cérebro. Oh, sim, o Percy sabia perfeitamente o que estava a fazer. Acho que posteriormente, quando me disse que desconhecia até que ponto aquilo iria, acreditei nele, mas esse aspecto nem sequer conta na coluna das boas intenções, pois não? Não me parece. E para além de desatar a gritar em frente do assistente do diretor da prisão e de todas as testemunhas para que o Jack Van Hay não acionasse a alavanca, eu não podia fazer mais nada. Se tivesse podido dispor de mais cinco segundos, estou em crer que teria gritado isso mesmo; no entanto, o Percy não me concedeu aqueles cinco segundos suplementares.

- Que Deus tenha piedade da sua alma - disse ele à figura.aterrorizada e arquejante sentada na cadeira elétrica, depois, olhou para lá do condenado, em direção à janela de malha de rede por detrás da qual o Harry e o Jack se encontravam; o Jack tinha a mão sobre a alavanca etiquetada com as palavras SECADOR DE CABELO DA MABEL. O médico encontrava-se à direita dessa janela, com os olhos presos na maleta negra entre os seus pés, tão silencioso e discreto como era seu costume. - Prosseguir com a fase dois!

Ao princípio, o processo foi o mesmo de sempre: o zunido surdo que pouco mais elevado era do que um ciclo habitual de corrente elétrica, o impulso involuntário que o corpo do Del deu para a frente e os espasmos que lhe percorreram os músculos.

E foi então que as coisas começaram a correr mal.

O zunido da eletricidade perdeu a estabilidade e começou a fraquejar. Foi acompanhado por um estalar seco, como papel celofane a ser machucado. Comecei a sentir um cheiro horroroso, que na altura não percebi que era o de cabelos queimados e esponja orgânica, até ter começado a ver pequenas espirais de fumo a evolar-se da base do capacete. Entretanto, começara a sair mais fumo do orifício recortado no cimo do saco, por onde entrava o cabo; assemelhava-se ao fumo que costumava sair do orifício superior das tendas dos índios.

O Delacroix começou a contorcer-se; o seu corpo foi atravessado por espasmos, enquanto a cabeça oculta pela seda negra, se agitava de um lado para o outro, no arremedo de um veemente gesto de recusa. As suas pernas começaram a erguer-se para cima e para baixo descontroladamente, em golpes curtos restringidos pelas braçadeiras que lhe prendiam os artelhos. A trovoada continuava a ribombar acima de nós e a chuva começou a cair com mais força.

Olhei para o Dean Stanton; ele olhou para mim completamente desnorteado. Ouviu-se um som abafado vindo de debaixo do capacete, como se fosse uma pinha a explodir num fogo que ardesse bem. Naquela altura, eu também via o fumo que saía do interior do saco negro, evolando-se em pequenas colunas sinuosas.

Lancei-me para o retângulo de rede de arame existente entre nós e o compartimento do quadro elétrico, mas, antes de poder ter aberto a boca, o “Brutal” Howell agarrou-me pelo cotovelo. A força com que me segurava era suficiente para eu sentir picadas nos nervos daquela região. As suas faces estavam tão lívidas como uma vela de sebo, embora não mostrassem sinais de pânico - não se via nenhuma reação que se aproximasse disso.

- Não digas ao Jack que pare - aconselhou-me ele em voz baixa. - Faças o que fizeres, não lhe digas para parar. Já é demasiado tarde para isso.

De início, quando o Del começou a gritar, as testemunhas não o ouviram. A chuva que se abatia sobre o telhado de zinco transformara-se num som ensurdecedor, e os trovões faziam-se ouvir uns atrás dos outros, numa seqüência contínua. Mas nós, em cima do estrado, conseguíamos ouvi-lo na perfeição - uivos de dor estrangulados que saíam do saco negro, de onde o fumo continuava a evolar-se, sons que um animal encurralado poderia ter emitido.

O zunido que na altura vinha do capacete não era uniforme, mas sim errático, interrompido por ruídos parecidos com os da eletricidade estática. O Delacroix começou a agitar-se violentamente em cima da cadeira, para a frente e para trás, como se fosse uma criança a fazer birra. A plataforma estremecia; o corpo do Del investiu contra a correia que lhe prendia o peito, com força suficiente para quase a rebentar. A corrente elétrica também o fazia contorcer-se de um lado para o outro; ouvi um estalar violento, como algo a esmigalhar-se, quando o seu ombro direito se quebrou ou deslocou. Provocou um som semelhante ao que ouviríamos se alguém tivesse atingido um caixote de madeira com um martelo de forja. A zona das calças entre as pernas que não se distinguia com nitidez devido ao movimento das mesmas, semelhante ao dos pistões, escureceu. Em seguida, ele começou a guinchar, emitindo uns sons apavorantes, extremamente agudos, como os guinchos das ratazanas, que ecoavam mesmo acima do ruído das bátegas de chuva.

- Mas que raio está a acontecer? - ouviu-se alguém perguntar.

- Será que aquelas braçadeiras vão conseguir agüentar. . Céus, o cheiro! Que fedor!

- Isto é normal? - perguntou uma das duas mulheres presentes.

O corpo do Delacroix sofreu um violento impulso para a frente, caiu para trás e voltou a ser impulsionado para a frente para logo voltar atrás. O Percy olhava-o fixamente, mantendo o queixo descaído numa expressão de horror. Sem dúvida que ele havia esperado que alguma coisa acontecesse, mas nunca com aquela dimensão.

O saco de seda negra por cima do rosto do Delacroix ficou envolto em chamas. Ao cheiro a cabelo queimado e a esponja juntava-se agora o de carne estorricada. O Brutal agarrou no balde onde estivera a esponja - como é evidente, nesta altura estava vazio - e como se fosse uma carga de cavalaria dirigiu-se ao lavatório, para uso do pessoal da limpeza, que se encontrava a um canto.

- Não achas que eu devia cortar a corrente, Paul? - perguntou o Van Hay aos gritos do outro lado da janela. A sua voz indicava que se sentia atordoado. - Não achas que devia...

- Não! - respondi-lhe num grito. O Brutal fora o primeiro a inteirar-se da situação, mas eu não lhe fiquei muito atrás: tínhamos de pôr cobro àquela situação macabra. O que quer que viéssemos a fazer ao longo do resto da nossa vida passara para segundo plano: naquele momento tínhamos de acabar com o Delacroix. - Continua, por amor de Deus continua! Continua, continua, continua!

Voltei-me para o Brutal, mal me apercebendo das pessoas que naquele momento conversavam atrás de nós; algumas delas já se tinham posto de pé, e um casal gritava.

- Pára com isso! - berrei, dirigindo-me ao Brutal. - Nada de água! Nada de água! Estás doido?

Ao ouvir-me, o Brutal voltou-se; no seu rosto refletia-se uma espécie de compreensão entorpecida. Lançar água para cima de um homem que estava a ser eletrocutado. Oh, sim! Isso é que seria uma grande esperteza. Olhou em redor, avistou o extintor pendurado na parede, e optou por ir buscá-lo. Lindo menino.

O saco de seda negra tinha-se descascado do rosto do Delacroix o suficiente para pôr a descoberto as suas feições mais; enegrecidas do que as do John Coffey. Naquele momento, os; seus olhos, que não passavam de globos brancos mutilados, uma massa gelatinosa e translúcida, haviam sido projetados; das órbitas e ficado colados às bochechas. As pestanas tinham desaparecido por completo e, enquanto eu o observava, as próprias pálpebras começaram a arder envoltas em chamas. Continuava a ouvir-se insistentemente o zunido da corrente elétrica, invadindo-me e vibrando na minha cabeça. Imagino , que deve ser o mesmo som que as pessoas loucas devem ouvir, isso ou algo parecido.

O Dean começou a avançar, pensando, atordoado, que conseguiria extinguir com as próprias mãos as chamas da camisa do Del; puxei-o com tanta força que estive prestes a levantá-lo do chão. Se tivesse tocado no Delacroix naquela fase, teria sido eletrocutado.

Continuei sem me voltar para trás para ver o que estava a acontecer entre as testemunhas; contudo, os sons que me chegavam eram indicadores de um pandemônio; as cadeiras tombavam e as pessoas berravam.

- Parem com isso, parem com isso, oh, não vêem que ele já sofreu o suficiente? - vociferava uma mulher com toda a força dos seus pulmões.

Entretanto, o Curtis Anderson agarrou-me num ombro, perguntando-me o que é que se estava a passar, por amor de Deus, e por que motivo é que eu não mandava o Jack interromper a corrente?

- Porque não posso - respondi-lhe. - Já fomos longe de mais para poder retroceder, não vês? Em qualquer dos casos, dentro de alguns segundos estará tudo terminado.

No entanto, decorreram pelo menos dois minutos antes que a execução estivesse concluída; os dois minutos mais longos de toda a minha vida, e, durante todo aquele tempo, estou em crer que o Delacroix permaneceu consciente. Gritava, sacolejava, agitando o corpo de um lado para o outro. O fumo saía-lhe das narinas, assim como de uma boca que havia adquirido a tonalidade da púrpura-enegrecida das ameixas maduras. O fumo soltava-se da sua língua da mesma maneira que costuma sair da chapa de um fogão. Todos os botões da sua camisa ou tinham rebentado ou derretido. A sua camisola interior não chegou a pegar fogo, mas estava toda negra, e o fumo filtrava-se através do algodão, de onde saía o cheiro dos pêlos queimados do peito. Por trás de nós, as pessoas dirigiam-se para a porta como se fossem gado à desfilada. Como não conseguiam transpô-la - ao fim e ao cabo, encontravamo-nos no interior de uma penitenciária - amontoavam-se junto dela enquanto o Delacroix era frito (Agora estou a estorricar, dissera o velho Pouca Terra quando ensaiamos a execução do Arlen Bitterbuck, estou cozinhado como um peru); a trovoada continuava a ribombar acima de nós e a chuva caía numa fítria perfeita.

A certa altura pensei no médico -e olhei em volta a ver se o avistava. Continuava ali, todo amarfanhado no chão, junto à sua maleta negra. Tinha desmaiado.

O Brutal aproximou-se e ficou ao meu lado com o extintor nas mãos.

- Ainda não - disse eu. - Eu sei.

Olhamos em redor, procurando o Percy, e vimo-lo atrás da Velha Faísca, imobilizado e de olhos esbugalhados, com o nó de um dedo enfiado na boca.

Por fim, o Delacroix caiu contra as costas da cadeira, com a cabeça tumefacta e disforme tombada sobre um ombro. O seu corpo continuava a ser sacolejado, mas já havíamos visto isso antes: eram os efeitos da corrente elétrica que continuava a atravessá-lo. O capacete deslocara-se na cabeça e estava inclinado, mas, quando o retiramos um pouco mais tarde, a maior parte do couro cabeludo e o que restava dos poucos cabelos vieram agarrados, presos ao metal como se estivessem colados com uma cola muito resistente.

- Corta a corrente! - gritei ao Jack depois de terem passado trinta segundos sem haver qualquer reação, para além dos espasmos provocados pela corrente elétrica, no corpo daquele ser amarfanhado que tinha a figura de um homem, enegrecido e fumacento, e se balançava na cadeira elétrica. O zunido parou imediatamente e eu acenei ao Brutal.

Este voltou-se e colocou o extintor nos braços do Percy com tanta força que ele cambaleou para trás, quase caindo sobre a plataforma.

- Tu é que vais fazer isso - disse-lhe o Brutal. - Ao fim e ao cabo, a festa é tua, não é verdade?

O Percy lançou-lhe um olhar que tanto tinha de mórbido como de assassino, soltou o mecanismo de segurança do extintor, acionou o êmbolo, ajustou a boca e projetou um lona go jato de espuma branca por cima do homem na cadeira. Reparei que os pés do Delacroix se contorceram uma vez; quando o jato de espuma lhe atingiu o rosto e pensei: Oh,, não, talvez tenhamos de repetir tudo, mas só houve aquele único espasmo.

O Anderson tinha feito meia volta, e gritava às testemunhas em pânico, garantindo que tudo estava bem, que toda aquela situação se encontrava sob controlo, que tinha sido apenas uma interferência na corrente elétrica provocada pela tempestade, nada que pudesse causar a mínima preocupação. Só faltava dizer que aquilo que haviam cheirado - uma mistura demoníaca de cabelos queimados, carne assada e merda acabada de sair dos intestinos - era Chanel Número Cinco:

- Vai buscar o estetoscópio - disse eu ao Dean quando' o extintor ficou vazio. Naquele momento, o Delacroix estava coberto por uma camada branca e o pior do cheiro nauseabundo era camuflado por um cheiro acre a produtos químicos.; - O médico... achas que devo...

- Não ligues ao médico, vai só buscar o estetoscópio insisti. - Vamos lá a terminar com isto... para podermos levá-lo daqui para fora.

O Dean acenou que sim. Terminar e dali para fora eram dois conceitos que lhe agradavam muito naquele preciso momento. Na realidade, agradavam a nós dois. Ele aproximou-se, da maleta do médico e começou a remexer no seu interior. Entretanto, o médico começara a dar sinais de vida, o que indicava que, pelo menos, não tinha sofrido um ataque do coração ou uma trombose devido à tempestade. O que era bom. Todavia, a maneira como o Brutal olhava para o Percy não augurava nada de bom.

- Vai lá para baixo, para o túnel, e espera junto da maca - disse eu.

- Paul, ouve. Eu não sabia que... - começou o Percy a dizer depois de ter engolido em seco.

- Cala a boca. Vai para o túnel e espera junto da maca. Imediatamente.

Voltou a engolir em seco. Fez um esgar como se sentisse dores e dirigiu-se para a porta que dava acesso às escadas do túnel. Levava nos braços o extintor vazio, como se fosse um bebê. O Dean passou por ele quando se dirigia a mim, trazendo o estetoscópio. Tirei-o das suas mãos e coloquei as extremidades nos ouvidos. Já tinha feito aquilo na tropa e era como andar de bicicleta - nunca se esquece como é que se faz. Afastei a camada de espuma do peito do Delacroix e tive de conter os vômitos que me assomaram à garganta quando uma grande porção da sua pele ainda quente se destacou muito simplesmente da carne que cobrira até então, da mesma forma que a pele deslizaria de um... bem, vocês sabem. “Sou um peru assado.”

- Oh meu Deus! - exclamou uma voz que não reconheci à beira das lágrimas, vinda de trás de mim. - As execuções são sempre assim? Porque é que ninguém me avisou? Nunca teria vindo!

Agora é demasiado tarde, meu amigo, pensei.

- Levem este homem daqui para fora - disse eu, dirigindo-me ao Dean ou ao Brutal, ou a quem quer que estivesse a ouvir-me... o que fiz quando tive a certeza de que não desataria a vomitar em cima das coxas fumegantes do Delacroix. - Levem-nos todos para a porta das traseiras.

Couracei-me tanto quanto possível e coloquei o disco do estetoscópio sobre a região em carne viva que pusera a descoberto no peito do Del. Comecei a escutar enquanto rezava para não ouvir nada, e foi exatamente isso que aconteceu. - Ele está morto - disse eu ao Brutal.

Graças a Deus.

- Sim. Graças a Deus. Tu e o Dean vão buscar a padiola. Vamos desamarrá-lo e levá-lo daqui para fora o mais depressa possível.

 

5

Levamos o corpo sobre a maca pelos doze degraus abaixo, sem problemas de maior. O meu pesadelo era que a sua carne cozinhada começasse a desprender-se dos ossos enquanto o transportávamos - a frase do velho Pouca Terra, relativa ao peru assado, continuava gravada na minha mente - mas, como é evidente isso não veio a acontecer:

O Curtis Anderson estava no andar de cima a tranqüilizar os espectadores - pelo menos a tentar - o que deu jeito ao Brutal, uma vez que o Anderson não se encontrava presente para ver quando ele deu um passo na direção da frente da maca e encolheu o braço, pronto a desferir um murro no Percy, que continuava com uma expressão aparvalhada. Detive o seu braço a tempo, e ainda bem para ambos. Foi bom para o Percy, porque o Brutal tencionava assentar-lhe um murro com a violência daqueles que quase decapitavam, e foi bom para o Brutal porque ele teria perdido o emprego se o murro acertasse, e possivelmente, ido parar à cadeia.

- Não - disse eu.

- O que é que queres dizer com esse não? - perguntou-me o Brutal, enfurecido. - Como é que podes dizer não? Bem viste o que ele fez! O que é que estás a tentar dizer-me? Que vais continuar a permitir que os seus conhecimentos protejam? Depois do que ele fez?

- Sim. - O Brutal ficou a olhar para mim de boca aberta e com uns olhos tão furibundos que lacrimejavam. - Ouve bem o que te digo, Brutus... tu dás-lhe um soco e o mais certo é todos nós sermos despedidos. Tu, eu, o Harry, o Dean e talvez até mesmo o Jack Van Hay. Todos os outros sobem um ou dois degraus na escada, a começar pelo Bill Dodge, e a Comissão Prisional contrata três ou quatro zés-ninguéns daqueles que fazem fila para a sopa dos pobres para preencher os lugares mais inferiores da escala. Talvez tu possas viver com isso, mas... - Dobrei o polegar na direção de Dean, que olhava para nós do outro extremo do túnel de tijolos, que gotejavam. Tinha os óculos numa das mãos, olhando para o Percy como se quase não o visse. - Mas... e a respeito do Dean? Ele tem dois filhos, um na escola secundária e outro prestes a entrar para lá.

- Por conseguinte, a que é que tudo isto se resume? - perguntou-se o Brutal. - Vamos permitir que ele se safe desta? - Eu não sabia que a esponja devia estar molhada - interveio o Percy numa voz mecânica que mal se ouvia. Aquela era a história que ele havia ensaiado, como é evidente, quando esperava uma brincadeira dolorosa, em vez do autêntico cataclismo a que tínhamos assistido. - Sempre que ensaiávamos ela nunca era molhada.

- Ah, meu grande estupor.... - começou o Brutal a dizer, fazendo menção de se atirar ao Percy. Voltei a agarrá-lo, obrigando-o a retroceder. Entretanto, começou a ouvir-se o som de passos que desciam as escadas. Ergui o olhar, sentindo-me desesperadamente receoso de avistar o Curtis Anderson, mas era apenas o Harry Terwilliger. As suas faces estavam brancas como uma folha de papel e os lábios tinham uma tonalidade púrpura, como se tivesse acabado de comer uma torta de amoras pretas.

Voltei a dedicar a minha atenção ao Brutal.

- Por amor de Deus, Brutus, o Delacroix está morto, nada pode alterar esse fato, e o Percy não merece o que estarás a arriscar. - Começaria eu já a perceber o plano ou a sua fase inicial? Deixem que vos diga que desde então tenho vindo a interrogar-me sobre o assunto, sem contudo ter conseguido encontrar uma resposta satisfatória. Mas suponho que isso não tenha grande importância. Há muitas coisas que não importam, mas tenho reparado que isso não impede um homem de se questionar.

- Vocês estão para aí a falar de mim como se eu fosse invisível - comentou o Percy. Continuava a parecer entorpecido e atordoado, como se alguém lhe tivesse assentado um bom murro na barriga, mas podíamos ver que conseguira recobrar um pouco de ânimo.

Continuar: parte 3 de 3