À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 6 de 9 · parte 3/3

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À Espera de um Milagre

Parte Quatro .......................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Tu és invisível, Percy - repliquei. - Eh, não podes...

Controlei muito a custo a vontade que sentia de o esmurrar. A água continuava a gotejar, com um som cavo, das paredes de tijolo do túnel; as nossas sombras gigantescas e distorcidas pareciam dançar sobre a sua superfície, como se fossem as sombras daquele conto do Poe sobre o gigantesco gorila da Rua da Morgue. Os trovões continuavam a fazer-se ouvir; contudo, ali em baixo, o seu ribombar era mais abafado.

- Só quero ouvir uma coisa da tua boca, Percy; a promessa de que amanhã entregarás o teu pedido de transferência para o Briar Ridge.

- Não te preocupes com isso - respondeu-me ele com uma expressão de amuo. Olhou para a figura coberta em cima da maca, afastou o olhar fitou-me por breves momentos e voltou a desviar o olhar.

- Isso será o melhor - atalhou o Harry. - Caso contrário, é possível que venhas a conhecer melhor o Bill “Selvagem” Wharton, muito melhor do que aquilo que desejas. - Uma ligeira pausa. - Nós podemos garantir que isso aconteça.

O Percy tinha medo de nós e, provavelmente, daquilo que pudéssemos fazer se ele ainda lá estivesse quando descobríssemos o que ele conversara com o Jack Van Hay sobre a esponja e por que motivo tínhamos sempre o cuidado de a mergulhar em salmoura; porém, a referência do Harry ao Wharton despelhou nos seus olhos um verdadeiro terror. Percebi que estava a recordar-se da maneira como o Wharton o agarrara despenteara, assim como das suas palavras.

- Não te atreverias - disse ele num murmúrio.

- Ah, isso é que me atreveria - replicou o Harry com toda a calma. - E queres saber que mais? Ninguém viria a saber. Porque já demonstraste que não tens cuidado nenhum quando lidas com os prisioneiros. E que também és incompetente.

Os punhos do Percy cerraram-se e as suas faces adquiriram uma tonalidade rosada.

- Eu não sou...

- Claro que és - atalhou o Dean, juntando-se a nós. Formamos uma espécie de semicírculo em redor do Percy ao' fundo das escadas, e até a saída pela parte da frente do túnel se encontrava bloqueada; a maca estava atrás dele com o seu' amontoado de carne fumegante oculto debaixo de um velho lençol. - Acabaste de queimar o Delacroix vivo. Se isso não é uma demonstração de incompetência, o que é que será?

A expressão que se refletia no olhar do Percy era pouco'' segura. Planeara proteger-se, invocando ignorância, e naquele momento verificava que o feitiço se virara contra o feiticeiro

Nunca cheguei a saber o que é que ele teria alegado em seguida, porque, nesse momento, o Curtis Anderson apareceu vindo das escadas. Apercebemo-nos de que era ele e afastamo-nos um pouco do Percy, de forma a não darmos uma imagem tão ameaçadora.

- Que porra é que foi aquilo? - perguntou o Anderson num rugido. - Jesus, o chão lá em cima é só vomitado por todo o lado! E o cheiro! Eu já disse ao Magnusson e ao velho

Pouca Terra que abrissem as duas portas, mas aquele cheiro não há de sair durante pelo menos cinco anos, aposto tudo o que quiserem. E o monte de merda do Wharton está a cantar, acerca do assunto! Estou a ouvi-lo!

- E ele tem boa voz, Curt? - perguntou o Brutal. Sabem como é que se pode fazer com que o gás de iluminação entre em combustão apenas com uma centelha sem que daí nos advenha qualquer dano físico, se o fizermos antes de a concentração ser excessiva? Foi o que aconteceu naquela situação. Ficamos uns instantes a olhar de boca aberta para ele gratos e desatamos a rir histericamente. As nossas gargalhadas cheias de histerismo ecoavam por aquele túnel lúgubre como o adejar de asas de morcegos. As nossas sombras disformes oscilavam sobre as paredes. Já no fim do nosso ataque de riso, até o Percy fez coro conosco. Por fim acalmamo-nos e, no rescaldo, todos nos sentimos melhor. Possuíamos de novo alguma sanidade mental.

- Muito bem, rapazes - atalhou o Anderson, limpando os olhos lacrime-jantes com um lenço, continuando a soltar um soluço ocasional de riso -, o que raio se passou lá em cima?

- Uma execução - respondeu o Brutal. Estou em crer que o seu tom de voz neutro desarmou o Anderson, mas a mim não me surpreendeu, pelo menos não muito; o Brutal sempre tinha sido bom em tirar o maior partido de uma ocasião propícia. Bem sucedida.

- Como é que podes dizer uma coisa dessas? Algumas testemunhas serão incapazes de dormir durante um mês! Raios, aquela gaja gorda é capaz de não pregar olho durante um ano!

O Brutal apontou para a maca, para o corpo por baixo do lençol.

- Ele está morto, não é verdade? Quanto às tuas testemunhas, a maior parte delas dirá amanhã à noite aos amigos que se tratou de um ato de justiça perfeita... O Del queimou uma data de pessoas vivas, portanto, nós invertemos as coisas e queimamo-lo, a ele, vivo. Com a diferença de que não dirão que fomos nós. Dirão que foi a vontade de Deus que se manifestou através de nós. Talvez até haja alguma verdade nisso. E queres saber o melhor de tudo? A ironia suprema? A maior parte dos amigos das testemunhas vai desejar ter podido estar aqui, para ver com os seus próprios olhos. - Lançou um olhar ao Percy, que tanto tinha de sardônico como de escarninho.

- E se ficaram um tudo-nada abalados, o que é que isso tem de mais? - perguntou o Harry. - Eles ofereceram-se para o raio desta missão, ninguém os recrutou.

- Eu não sabia que a esponja tinha de estar molhada - interveio o Percy numa voz mecanizada. - Durante os ensaios nunca é costume molhá-la.

O Dean olhou para ele com o mais profundo dos desprezos.

- Durante quantos anos mijaste na tampa da privada até; alguém te ter dito que a levantasses antes de urinar? - perguntou ele num timbre de voz que mais parecia um ladrar.

O Percy ainda abriu a boca para responder, mas eu disse -lhe que se calasse. E, surpresa das surpresas, ele obedeceu Voltei-me para o Anderson.

- O Percy lixou tudo, Curtis... Foi isso o que sucedeu muito pura e simplesmente. - Virei-me para o Percy, desafiando-o a contradizer-me. Ele não ousou fazê-lo ao ler a expressão nos meus olhos: “É preferível que o Anderson julgue que foi um erro estúpido do que algo propositado.” Além do' mais, fosse o que fosse que se dissesse ali no túnel não tinha qualquer significado. Aquilo que interessava, o que interessa sempre aos Percy Wetmore deste mundo, é o que fica registrado ou o que chega aos ouvidos dos manda-chuvas... da pessoas que interessam. O que tem relevância para os Percies, Wetmore deste mundo é o que é publicado nos jornais.

O Anderson olhou para nós, parecendo um pouco inseguro. Chegou mesmo ao ponto de olhar para o Delacroix, mas este não se encontrava em estado de falar.

- Imagino que poderia ter sido pior - comentou.

- Isso é verdade - concordei. - Ele ainda podia estar vivo.

O Curtis pestanejou confuso: aquela probabilidade parecia não lhe ter ocorrido.

- Amanhã quero ver em cima da minha secretária um relatório pormenorizado sobre este assunto - instruiu ele.

E nenhum de vocês falará disto ao diretor Moores até eu ter tido a oportunidade de conversar com ele. Estamos de acordo? Acenamos veementemente com a cabeça. Se o Curtis Anderson pretendia pôr o diretor ao corrente do sucedido; por' nós não havia qualquer inconveniente.

- Isto é, se nenhum desses caras-de-cu dos repórteres referir o assunto nos seus jornais...

- Não o farão - repliquei. - Ainda que o tentassem, os editores impediriam que o assunto viesse a lume. É demasiado macabro para um público constituído majoritariamente por famílias. Mas eles nem sequer tentarão. Os que se encontravam presentes esta noite são todos veteranos. Às vezes coisas dão para o torto, mais nada. Eles sabem disso tão bem como nós.

O Anderson pensou por mais uns instantes, e pouco depois assentiu. Olhou para o Percy; no seu rosto, habitualmente bastante afável, refletia-se uma expressão desdenhosa.

- És um verdadeiro idiota - declarou -, e não gosto de ti nem um bocadinho. - Assentiu com a cabeça perante o olhar estupidificado de surpresa do Percy. - E se contares a algum dos teus amigos de cu rosado que eu te disse isto, podes estar certo que o negarei até que as galinhas venham a ter dentes... e estes homens hão-de confirmar o que eu disser. Como vês, estás com um pequeno problema, meu filho.

Com aquelas palavras, voltou-se e começou a subir as escadas. Deixei-o percorrer quatro degraus antes de o chamar. - Curtis? - O interpelado deu meia volta, franziu o sobrolho e não disse nada. - Não vale a pena preocupares-te muito com o Percy - acrescentei. - Ele vai ser transferido para o Briar Ridge. Esperam-no coisas maiores e melhores. Não é verdade, Percy?

- Assim que a transferência seja aprovada - prosseguiu o Brutal.

- E até que tal aconteça, ele vai passar a dar parte de doente todas as noites - acrescentou o Dean.

Aquilo enfureceu o Percy; ainda não trabalhava na prisão há tempo suficiente para poder ter acumulado dias de dispensa por doença remunerados. Fitou o Dean com grande desdém.

- Isso querias tu - disse ele.

 

6

 

Regressamos ao bloco mais ou menos por volta da uma e um quarto da manhã (com exceção do Percy, que ficou a limpar a arrecadação muito mal-humorado) e eu ainda tinha de escrever um relatório. Decidi elaborá-lo na mesa do guarda de serviço; se eu me sentasse na cadeira do meu gabinete, que era mais confortável do que aquela, acabaria por passar pelas brasas. Muito provavelmente, isto poderá parecer-vos um pouco peculiar, em vista do que tinha acontecido há cerca de uma hora mas a realidade é que eu tinha a sensação de haver vivido três vidas desde as onze horas da noite anterior sem conseguir conciliar o sono.

O John Coffey encontrava-se junto das barras da porta da cela, com as lágrimas a brotarem dos seus olhos estranhos e de expressão distanciada - era como se estivéssemos a observar o sangue a escorrer de uma ferida que se recusava a sarar, mas que não provocava dores. Mais perto da secretária, no corredor, o Wharton estava sentado na sua tarimba, embalando-se em movimentos laterais, enquanto entoava uma canção da sua lavra que não era despropositada de todo. Tanto quanto me consigo recordar, a letra dizia qualquer coisa como isto:

“Chu...rras...co! Tu e eu!

Fedorento, rosadinho, mas que pivete!

Não foi o Billy nem o Philadelphia Philly, Não foi o Jackie nem o Roy!

Era um rapazinho, pequeno e pimpão, Que dava pelo nome de Delacroix.”

- Cala a boca, idiota! - disse-lhe eu.

Wharton mimoseou-me com um esgar sorridente que pôs à mostra os seus dentes enegrecidos. Ele não estava a morrer, pelo menos ainda não; estava de pé, todo satisfeito, praticamente a executar um sapateado.

- Vem até aqui dentro e obriga-me a calar a boca - desafiou, trocista e todo contente, começando a entoar outro verso da Canção do Churrasco, formando frases que não eram totalmente desprovidas de graça. Revelavam uma inteligência aberrante e nauseabunda, mas que à sua própria maneira raiava o brilhantismo.

Dirigi-me para a cela do John Coffey. Este limpou as lágrimas das faces com a palma da mão. Tinha os olhos vermelhos e inchados, e pareceu-me que também estava exausto.

Não percebia bem porquê, pois ele passava apenas duas horas por dia no pátio de recreio e o resto do tempo sentado ou deitado na tarimba da sua cela; eu não tinha a certeza, mas não duvidei daquilo que estava a ver. Era demasiado evidente. - Pobre Del - comentou ele numa voz baixa e áspera.

Coitado do velho Del.

- Sim - anuí. - Coitado do velho Del. John, tu estás' bem?

- Já deixou tudo isto - continuou o Coffey sem me responder. - O Del já está fora disto. Não é verdade, chefe?

Sim. Mas responde ao que te perguntei, John. Estás bem? O Del deixou tudo isto, ele é que tem sorte. Não interessa a forma como aconteceu, ele é que tem sorte. Pensei que o Delacroix era muito capaz de contradizer aquela observação, mas decidi guardar aquele pensamento para mim próprio. Lancei um olhar pela cela do John Coffey. - Onde é que está o Mister Jingles?

- Foi a correr até ali ao fundo. - Apontou através das barras, indicando o fundo do corredor, onde se situava a cela do isolamento.

- Bem, ele há de regressar - disse eu com um acenar de cabeça.

Mas a verdade é que não regressou; os dias do Mister Jingles na Milha Verde tinham chegado ao fim. O único vestígio que encontramos da sua presença foi o que o Brutal descobriu nesse Inverno: umas quantas lascas de madeira coloridas e o cheiro a rebuçados de hortelã-pimenta, que emanava de um orifício na trave do teto.

Tinha intenções de me ir embora nessa altura, mas não o fiz. Olhei para o John Coffey, e ele retribuiu-me o olhar, como se adivinhasse todos os meus pensamentos. Disse a mim mesmo para me pôr a mexer dali para fora, dar a noite por terminada e depois elaborar o relatório que tencionava escrever sentado à mesa do guarda de serviço. Em vez disso, ouvi-me a proferir o seu nome.

- John Coffey.

- Sim, chefe - retorquiu ele de imediato.

Por vezes, um homem sente a necessidade de saber uma determinada coisa, e era exatamente isso o que se passava comigo naquele momento. Baixei-me sobre um joelho e comecei a descalçar um dos meus sapatos.

7

Quando cheguei a casa a chuva já parara de cair. Acima da cordilheira a norte surgira no firmamento a Lua tardia. O sono que eu sentira antes dava a impressão de ter desaparecido com as nuvens. Estava completamente desperto e sentia em mim o cheiro do Delacroix. Pensei que talvez conseguisse cheirá-lo na minha pele - churrasco, tu e eu, fedorento, rosadinho, mas que pivete - ainda durante muito tempo.

A Janice estava de pé à minha espera, como fazia sempre nas noites em que havia execuções. Tinha intenção de não lhe contar a história, uma vez que não vi qualquer finalidade em perturbá-la com aquilo; contudo, ela lançou um olhar ao meu rosto quando transpus a porta da cozinha e exigiu que eu lhe contasse. Assim, sentei-me, agarrei nas suas mãos quentes, envolvi-as com as minhas, que estavam frias (o sistema de aquecimento do meu velho Ford funcionava mal, e desde o desencadear da tempestade que a temperatura tinha executado um ângulo de cento e oitenta graus), e comecei a narrar-lhe aquilo que ela pensava desejar ouvir. A meio da história fui-me abaixo e comecei a chorar, não tinha contado com aquilo. Senti-me um pouco envergonhado, mas não muito; bem vêem, era ela, a Janice; que nunca me chamava a atenção para as ocasiões em que eu me desviava do comportamento que estava convencionado para um homem... pelo menos, do comportamento que eu julgava dever ser o meu. Um homem casado com uma boa mulher é a criatura de Deus que mais sorte tem, ao passo que um que não possua essa dádiva deve encontrar-se entre os mais desgraçados, creio eu, sendo única bênção das suas vidas o fato de não se aperceberem de quanto isso lhes faz falta. Chorei e ela encostou a minha cabeça junto dos seus seios; quando a minha própria tempestade se dissipou, senti-me melhor... pelo menos, um tudo-nada melhor. Estou convencido de que foi nessa altura que tive a primeira percepção consciente da minha idéia. Não foi o sapato; não é a isso que estou a referir-me. O sapato estava relacionado, mas de forma diferente. No entanto, a minha verdadeira idéia consistia, naquele momento, apenas numa percepção estranha: que o John Coffey e a Melinda Moores, tão diferenciados quanto podiam ser em tamanho, sexo, e cor da pele, possuíam exatamente os mesmos olhos: tristes, pesarosos e distantes. Olhos moribundos.

- Vem para a cama - disse por fim a minha mulher. Vem para a cama comigo, Paul.

Acedi; fizemos amor e, quando terminamos, a Janice adormeceu. Enquanto eu estava deitado a olhar para a face da Lua, ouvindo o ranger ocasional das paredes - finalmente, tinham começado a retrair-se, mudando do Verão para o Outono - pensei no John Coffey a dizer que tinha evitado o mal. Eu consegui evitar o mal no rato do Del. Eu consegui evitar o mal no Mister Jingles. Ele é um rato do circo. Com certeza. E talvez, pensei eu, todos nós fôssemos ratos de circo, a correr de um lado para o outro, tendo apenas uma noção vaga de que Deus e toda a Sua hoste no paraíso, nos observavam nas nossas pequenas casas de baquelite, através das janelas de folha de mica.

Quando o dia começou a clarear dormi um pouco - calculo que umas duas horas, talvez mesmo três; dormi da mesma maneira que costumo dormir hoje em dia, aqui, em Georgia Pines o que muito raramente me acontecia nessa época, um sono sobressaltado. Adormecia pensar nas igrejas da minha juventude. As tendências religiosas alteravam-se de acordo com os caprichos da minha mãe e das suas irmãs, mas na realidade eram todas o mesmo, resumiam-se à Primeira Igreja da Região Remota de Louvado Seja Jesus, o Senhor É Todo-Poderoso. À sombra daqueles campanários quadrados, o conceito de expiação surgia com a mesma regularidade do dobrar dos sinos que chamavam os fiéis à oração. Só Deus podia perdoar os pecados, podia e fazia-o, lavando-os no sangue do Seu Filho crucificado, mas esse fato não alterava a responsabilidade dos Seus filhos, que teriam de expiar esses pecados (e até mesmo os seus simples erros de discernimento) sempre que possível. A expiação era um instrumento poderoso; era a tranca na porta que se fecha a fim de encerrarmos o passado.

Adormeci a pensar em expiações que tinham lugar em pinhais frondosos, no Eduard Delacroix, envolto em chamas montado no relâmpago, na Melinda Moores e no vadio com os seus olhos infinitamente lacrimosos. Estes pensa-mentos conseguiram formar um sonho. Nele, o John Coffey encontrava-se sentado na margem de um rio, balbuciando o seu pesar desarticulado em direção ao firmamento de início do Verão, enquanto na outra margem se via um comboio de mercadorias que avançava veloz e incessantemente em direção a um viaduto ferrugento que atravessava o Trapingus. Em cada braço, o homem de raça negra tinha o corpo de uma menininha nua de cabelos louros. Os seus punhos, enormes rochedos castanhos nas extremidades desses braços, mantinham-se firmemente cerrados. Em seu redor os grilos cantavam e os insetos esvoaçavam; o calor do dia parecia zunir. No meu sonho dirigi-me a ele ajoelhando-me à sua frente e tomando as suas mãos nas minhas. Os seus punhos relaxaram-se, revelando os seus segredos. Numa delas encontrava-se um carretel pintado de verde, vermelho e amarelo. Na outra estava o sapato de um guarda prisional.

- Não consegui evitar o mal - dizia John Coffey, , Tentei desfazer o que estava feito, mas era demasiado tarde; E desta feita, no meu sonho, compreendi finalmente o homem.

 

8

Às nove horas da manhã seguinte, enquanto bebia a minha terceira caneca de café na cozinha (a minha mulher não fez qualquer comentário, mas vi a reprovação escrita no seu rosto quando me deu o café), o telefone começou a tocar. Dirigi-me para a sala a fim de o atender; a telefonista da Central disse a alguém que já tinha em linha a pessoa pretendida, em seguida desejou-me um dia muito feliz e abandonou a linha, presumivelmente. Com a Central nunca se podia ter a certeza.

A voz do Hal Moores chocou-me muito. Soava enrouquecida e vacilante, dando-me a impressão de que pertencia a um octogenário. Ocorreu-me então que tinha sido bom que as coisas tivessem corrido da melhor maneira com o Curtis Anderson, na noite anterior, quando estivéramos todos no túnel; era ótimo que ele pensasse mais ou menos o mesmo que nós em relação ao Percy, porque o homem com quem eu estava a falar provavelmente jamais voltaria a trabalhar em Cold Mountain.

- Paul, pelo que percebi, ontem à noite houve um pequeno problema. Também percebi que o nosso amigo, Mister Wetmore, esteve envolvido no assunto.

- Foi apenas uma ligeira complicação - admiti, colocando o auscultador bem junto ao ouvido e inclinando-me sobre o bocal -, mas o trabalho ficou concluído. E isso é o mais importante.

- Sim. Claro que sim.

- Posso perguntar quem é que te contou? - “Para poder atar-lhe uma lata à cauda”, pensei.

- Podes perguntar, mas, como não é assunto onde devas meter o bedelho, vou ficar de boca fechada. Quando liguei para o meu gabinete, a fim de saber se havia algum recado ou qualquer assunto urgente, fui informado de uma coisa bastante interessante.

- Oh!

- Sim - retorquiu Moores. - Parece que um pedido de transferência foi aterrar na minha secretária. O Percy Wetmore quer ser transferido para o Briar Ridge logo que possível. Deve ter preenchido o papel antes mesmo do fim do turno da noite passada, não achas?

- Ao que tudo indica, parece que sim - concordei. - Em circunstâncias normais, eu deixaria que fosse o Curtis Anderson a tratar deste assunto, mas levando em consideração a... a atmosfera que tem reinado no Bloco E nestes últimos tempos, pedi à Hannah que me trouxesse pessoalmente esse pedido na sua hora de almoço. Gentilmente, ela acedeu. Vou aprovar a transferência e certificar-me de que é enviada para a capital do estado ainda esta tarde. Calculo que possas ver o Percy Wetmore pelas costas em menos de um mês. Talvez até menos.

O Moores esperava que eu ficasse satisfeito com aquela novidade, e tinha todo o direito a esperar. Interrompera a assistência à mulher para poder dispor do tempo necessário para dar andamento àquele assunto, o qual, não fora isso, poderia ter levado mais de seis meses a ser tratado, até mesmo através dos tão alardeados conhecimentos do Percy. No entanto, senti o coração cair-me aos pés. Um mês! Mas talvez isso não tivesse muita importância. Eliminava um desejo perfeitamente natural de aguardar e adiar um empreendimento arriscado, e o assunto que me preenchia a mente de momento seria efetivamente muito arriscado. Em certas ocasiões, quando é assim, é preferível dar o salto antes de perder a coragem. Se íamos ser obrigados a tratar do Percy (sempre partindo do pressuposto de que eu seria capaz de convencer os outros a apoiarem-me na minha loucura - por outras palavras, partindo do princípio de que existiria um “nós”), mais valia que fosse naquela mesma noite.

- Paul? Continuas em linha? - O Moores baixou um pouco a voz, como se pensasse que estava a falar consigo próprio. - Raios partam isto, está a parecer-me que a ligação foi cortada.

- Não. Continuo aqui, Hal. Deste-me uma bela novidade. - Sim - concordou ele; uma vez mais, senti-me espantado ao verificar o quanto a sua voz havia envelhecido. De uma forma estranha, parecia tão fina como papel. - Oh, eu sei bem em que é que estás a pensar.

“Não, não sabes, senhor diretor”, pensei para comigo.

“Nem daqui a um milhão de anos conseguirias adivinhar em que é que estou a pensar.”

- Estás a pensar que o nosso jovem amigo ainda andará pelo bloco quando da execução do Coffey. O que provavelmente será verdade... O Coffey marchará antes do Dia de ação de Graças, de acordo com as minhas previsões, mas poderás muito bem recambiá-lo de novo para o compartimento do quadro elétrico. Ninguém levantará a mínima objeção.! Incluindo ele próprio, calculo.

- É exatamente o que farei - repliquei. - Hal, como é que a Melinda tem passado?

Fez-se uma longa pausa - tão longa que eu poderia ter pensado que ele saíra da linha, não fora o som da sua respiração. Quando o Moores voltou a falar, o fez muito mais baixo

- Ela está a apagar-se - disse ele. - A apagar-se. Aquela expressão tão aterradora que os antigos costumavam usar, não para dizerem que uma pessoa estava a morrer, mas sim que tinha começado a desligar-se do mundo dos vivos.

- As dores de cabeça parecem ter abrandado um pouco... pelo menos por agora... mas não consegue caminhar sem ajuda, não consegue agarrar nas coisas, enquanto está a dormir

não é capaz de controlar a bexiga... - Fez-se outra pausa, e então, num tom de voz ainda mais baixo o Hal acrescentou; qualquer coisa que me deu a impressão de ser: “Ela adeja”.

- Adeja? O que é que queres dizer, Hal? - perguntei,, franzindo a testa. Entretanto a minha mulher tinha chegado à entrada da sala de estar e ficou ali a olhar para mim, a limpar as mãos a um pano da louça.

- Não - replicou o Moores numa voz que dava a impressão de vacilar entre a cólera e as lágrimas. - Ela pragueja.

- Oh! - exclamei, continuando sem saber o que é que ele pretendia dizer, embora não tivesse intenção de perguntar. Não foi necessário; ele encarregou-se de me explicar.

- Ela está muito bem, perfeitamente normal, a conversar acerca dos canteiros de flores ou de um vestido que viu no catálogo, ou a dizer que ouviu o Roosevelt no rádio, comentando que ele falou maravilhosamente, e então, sem mais nem menos, começa a dizer as coisas mais horrorosas que se possa conceber, coisas monstruosas... palavras. Não eleva a tom de voz. Na minha opinião, quase seria preferível se ela o fizesse... porque nesse caso... bem vês, então...

- Não se pareceria tanto consigo própria - adiantei. - É isso mesmo - aquiesceu o Moores numa voz agradecida. - Mas ouvi-la proferir aquelas coisas horríveis, linguagem reles, na sua doce voz... Desculpa-me Paul. - A sua voz enfraqueceu, e ouvi-o a aclarar ruidosamente a garganta.

Pouco depois, o Moores retomou a palavra, num tom um pouco mais forte mas tão entristecido como antes. - A Melinda quer que o pastor Donaldson venha cá a casa e eu sei que ele é um grande conforto para ela, mas como é que eu posso pedir-lhe que venha? Supõe que. ele está sentado na sala, lendo as Escrituras com ela e ela lhe chama um nome obsceno? A Melinda é muito capaz de o fazer; ontem á noite chamou-me nomes. Ela disse-me: “Chega-me essa revista, a Liberty, meu caralho de merda, se fizeres o favor.” Oh, Paul, onde é que ela terá ouvido linguagem desta espécie? Como é que ela pode ter conhecimento deste gênero de palavras? - Não sei. Hal, tencionas ficar em casa esta noite?

Quando estava de posse de todas as suas faculdades, sem se sentir perturbado pelas preocupações e desgostos, o Hal Moores tinha uma faceta ríspida e sarcástica; acho que os seus subordinados receavam mais essa faceta do que a sua cólera ou desprezo. O seu sarcasmo, que habitualmente se revestia de impaciência e brusquidão, era capaz de nos aguilhoar como ácido. Naquele momento, senti um pouco desse sarcasmo. Foi bastante inesperado, mas, tudo considerado, fiquei satisfeito por detectar aquilo. Ao fim e ao cabo, parecia que nem todo o espírito de luta o abandonara.

- Não - respondeu-me o Hal -, tenciono levar a Melinda ao baile no celeiro. Tencionamos fartar-nos de dançar e depois dizer ao rabequista que é um filho da puta.

Tapeia boca com a mão para não me rir. Felizmente, a vontade de rir desapareceu com rapidez.

- Desculpa - acrescentou ele. - Ultimamente, não tenho andado a dormir muito. O que me torna rabugento. É claro que vamos estar em casa. Porque é que perguntas?

- Não interessa - retorqui.

- Não estás a pensar em passar por cá, pois não? Porque se estiveste de serviço ontem à noite, isso significa que hoje também trabalharás no turno da noite. A menos que tenhas trocado com alguém, não?

- Não, não troquei - confirmei. - Esta noite também estou de serviço.

- Em qualquer dos casos, a tua visita não seria muito boa idéia. Da forma como ela se sente neste momento.., - Talvez tenhas razão. Obrigado pelas notícias que me deste.

- Não tens de quê. Reza pela minha Melinda, Paul. Eu prometi-lhe que assim faria, pensando que talvez viesse a fazer um pouco mais do que rezar. Tal como eles costumam dizer na Igreja do Louvado Seja Jesus, o Senhor É Todo-Poderoso, Deus ajuda os que se ajudam a si próprios. Desliguei o telefone e olhei para a Janice.

- Como é que está a Melly? - perguntou-me ela.

- Não muito bem. - Contei-lhe o que o Hal me dissera, incluindo a parte respeitante à linguagem obscena, embora não tenha incluído a parte do caralho e do filho da puta. Concluí o meu relato, utilizando a expressão do Hal, “a apagar-se”; a Jan abanou a cabeça com uma expressão de tristeza. Em seguida, observou-me com mais atenção.

- Em que é que estás a pensar? Andas a matutar em qualquer coisa, provavelmente, nada de bom. Está escrito no teu rosto.

Mentir encontrava-se inteiramente fora de questão; essa não era a nossa maneira de ser. Limitei-me a dizer-lhe que seria preferível que ela não se inteirasse do assunto, pelo menos de momento.

- Trata-se de... Pode vir a causar-te algum problema? -perguntou ela, apesar de não parecer estar particularmente alarmada perante aquela hipótese, antes interessada, o que é um dos aspectos de que eu sempre gostei no seu caráter. - Talvez - respondi lacônico.

- É uma coisa boa?

- Talvez - repeti. Continuava no mesmo lugar enquanto com um dedo girava distraidamente a manivela do telefone. - Preferes que eu te deixe sozinho enquanto fazes o teu telefonema? - perguntou a Janice. - Que seja uma boa mulherzinha e não me meta onde não sou chamada? Que vá lavar a louça? Tricotar umas botinhas de lã?

Assenti.

- Não era bem nisso que eu estava a pensar, mas... - Vamos ter convidados para o almoço, Paul?

- Espero que sim - repliquei.

 

9

Contatei com o Dean e o Brutal sem mais demoras, uma vez que ambos se encontravam ligados à rede telefônica. Não era o caso do Harry, pelo menos nessa época, mas eu tinha o número de telefone do seu vizinho mais próximo. Cerca de vinte minutos mais tarde, o Harry retribuiu o meu telefonema, extremamente embaraçado por a chamada ter de ser paga no destino, mas prometendo “pagar o seu quinhão” quando nos fosse enviada a próxima fatura. Eu repliquei-lhe que “tudo vem a seu tempo e os nabos no Advento”; entrementes, poderia ele vir almoçar a minha casa? O Brutal e o Dean já tinham aceite o convite, e a Janice prometera servir a sua famosa salada de repolho cru... para já não falar na sua ainda mais famosa torta de maçã.

- Almoço sem ser por qualquer motivo especial? - perguntou o Harry com cepticismo.

Acabei por admitir que queria discutir com eles um certo assunto, mas não desejava entrar nessa questão ao telefone. O Harry concordou em ir almoçar a minha casa. Pousei o auscultador, dirigi-me para a janela e olhei para fora, pensativo. Embora houvéssemos trabalhado no turno da noite, eu não acordara o Brutal nem o Dean, e o Harry também não parecera ter acabado de sair de vale de lençóis. Tudo indicava que eu não era o único a estar incomodado com o que se passara na noite anterior, e tendo em conta a loucura que eu tencionava levar a cabo, isso não era mau.

O Brutal, que era o que vivia mais próximo de mim, chegou às onze e um quarto. O Dean apareceu quinze minutos mais tarde e o Harry - já vestido para o trabalho - outros quinze minutos depois deste último. A Jan serviu-nos o almoço na cozinha: sanduíches de carne assada, salada de repolho e chá gelado. Tivesse aquela refeição tido lugar no dia anterior e teríamos comido no alpendre, ao ar livre, satisfeitos por sentir a brisa todavia a temperatura havia descido uns bons catorze graus desde a tempestade da noite anterior, e das cumeeiras soprava um vento bastante agreste.

- Podes sentar-te à mesa conosco - disse eu à minha mulher.

- Acho que não quero saber o que andas a tramar - disse-me ela com um abanar de cabeça -, e fico menos preocupada se não souber. Eu como qualquer coisa na sala de estar. Esta semana tenho encontro marcado com Miss Jane Austen, a qual, devo dizer, é uma companhia excelente.

- Quem é a Jane Austen? - perguntou o Harry depois de a Janice ter saído da cozinha. - Da tua família ou da tua mulher, Paul? É alguma prima? É bonita?

- É uma escritora, idiota - esclareceu o Brutal. - Já morreu há uma eternidade.

- Oh! - exclamou o Harry, constrangido. - Eu não sou grande leitor. Na maior parte, manuais de rádio.

- O que é que andas a magicar, Paul? - perguntou o Dean sem rodeios.

- Para começar, temos o Mister Jingles e o John Coffey. Os três mostraram-se surpreendidos, tal como eu esperara..;, Tinham julgado que eu queria falar do Delacroix ou do Percy. Talvez mesmo de ambos. Fitei o Dean e o Harry. - Aquilo com o Mister Jingles... o que o Coffey fez... aconteceu com bastante rapidez. Eu não sei se chegaste a tempo de ver até que ponto é que o rato ficou ferido.

- Não, mas ainda vi o sangue espalhado no chão - replicou ele com um abanar de cabeça.

Voltei-me para o Brutal.

- O filho da puta do Percy esmagou-o - disse ele simplesmente. - Deveria ter morrido, mas tal não aconteceu: O Coffey fez-lhe qualquer coisa. Não sei como, mas o certo é que sarou. Eu sei que isto parece ser impossível, mas eu vi com os meus próprios olhos.

- Ele também me curou e eu não me limitei a ver, senti isso na pele - atalhei eu. Contei-lhes o que se passara com a minha infecção urinária, a forma como esta ressurgira, o sofrimento por que tinha passado (apontei através da janela da cozinha para a pilha de madeira a que fora obrigado a agarrar-me, na manhã em que as dores me prostraram de joelhos), e a forma como havia desaparecido completamente depois de o Coffey me ter tocado. E nunca mais voltara.

Não foi necessário muito tempo para esta narrativa. Depois de eu ter terminado, os três ficaram em silêncio por algum tempo, mastigando as suas sanduíches. O Dean foi o primeiro a retomar a conversa.

- Da boca dele saem coisas pretas. Parecidas com insetos. - É verdade - corroborou o Harry. - Pelo menos, de início eram pretas. Mas em seguida ficaram brancas e sumiram-se. - Olhou à sua volta com uma expressão pensativa. - Já me tinha esquecido do raio dessa coisa toda, Paul. Não acham que é engraçado?

Não há nada de engraçado nem de estranho a respeito disso - interveio o Brutal. - Na minha opinião, é assim que a maior parte das pessoas procede em relação às coisas que não é capaz de compreender... Limitam-se a esquecê-las. Não faz muito bem à cabeça de uma pessoa recordar-se de coisas que não têm explicação. O que é que tens a dizer quanto a isso, Paul? Também apareceram insetos quando ele te curou da infecção?

- Sim. Na minha opinião, eles é que são a doença... as dores... o sofrimento. Absorvem os males e depois libertam-nos de novo em pleno ar.

- Onde acabam por vir a morrer - acrescentou o Harry. Encolhi os ombros. Por mim, não sabia se morriam ou não, tão-pouco tinha a certeza se isso interessaria para o caso. - Ele sugou isso de ti? - perguntou o Brutal. - O Coffey deu-me a impressão de estar a sugar qualquer coisa diretamente do rato. O sofrimento. O... vocês sabem o que quero dizer. A morte.

- Não - redargui. - Ele limitou-se a tocar-me. E eu senti o seu toque. Foi uma espécie de safanão, como um choque elétrico, com a diferença de que não me provocou qualquer dor. Mas eu não estava a morrer, só sentia dores.

- O toque e a respiração - proferiu o Brutal com um acenar de cabeça. - Tal como se costuma ouvir desses apregoadores da palavra divina.

- Jesus seja Louvado, o Senhor é Todo-Poderoso - atalhei.

- Cá por mim, não sei se Jesus tem alguma coisa a ver com isto - acrescentou o Brutal -, mas o certo é que me parece que o John Coffey é um homem muito poderoso.

- Muito bem - interveio o Dean. - Uma vez que tu afirmas que tudo isso aconteceu, acho que sou obrigado a acreditar. Deus manifesta-se de maneiras misteriosas. Mas o que é que isso tem a ver conosco?

Bem, aquela é que era a grande questão, não era? Respirei fundo e disse-lhes aquilo que tencionava fazer. Aparvalhados, os três ouviram o que eu tinha a dizer. Até o Brutal, que gostava de ler aquelas revistas que traziam histórias sobre homenzinhos verdes vindos do espaço, apresentava uma expressão estupidificada. Desta vez, quando terminei, fez-se u silêncio ainda maior e as sanduíches pareciam ter sido esquecidas.

Por fim, numa voz suave cheia de sensatez, o Brutus Howell retomou a palavra.

- Se fôssemos apanhados, perderíamos o emprego, e já seria uma sorte se fosse só isso. O mais provável era acabarmos por ir parar ao Bloco A como convidados do estado, a! fabricar carteiras e a tomar ducha aos pares.

- Sim - admiti. - Isso poderia muito bem vir a acontecer.

- Até certo ponto, sou capaz de compreender o que sentes - continuou ele. - Conheces o Moores muito melhor do que qualquer de nós e, para além de ele ser o chefe, também é teu amigo e sei que pensas muito no estado de saúde da mulher dele...

- A Melinda é a pessoa mais meiga do mundo - afirmei -, e para ele nada mais existe.

- Mas nós não a conhecemos da mesma forma que tu e a Janice - disse o Brutal. - Não é verdade, Paul?

- Se a conhecessem, também sentiriam afeto por ela retorqui. - Pelo menos teriam sentido se a tivessem conhecido antes de esta coisa se ter apoderado dela com as suas garras impiedosas. Ela costumava fazer muitas coisas em prol da comunidade, e é uma boa amiga e uma pessoa religiosa. Mas ainda mais é uma pessoa espirituosa. Enfim, costumava ser. A Melinda era capaz de nos contar coisas que nos faziam rir até às lágrimas. Mas não é por isso que quero ajudá-la a salvar a vida, isto é, caso possa vir a ser salva. O que está a acontecer com ela constitui uma ofensa, raios, uma verdadeira ofensa. Para os olhos, para os ouvidos e para o coração.

- Essa tua atitude é muito nobre, mas duvido muito que seja isso que está a incomodar-te - interpôs o Brutal. - Estou convencido de que a tua atitude se deve mais ao que aconteceu ao Del. De uma maneira qualquer, pretendes restabelecer o equilíbrio das coisas.

E ele tinha toda a razão. Claro que tinha. Eu conhecia a Melinda Moores melhor do que eles; porém, depois de tudo analisado, isso não bastava para lhes pedir que arriscassem os seus empregos por ela... e possivelmente também a sua liberdade. E já agora, o mesmo se aplicava ao meu emprego e à minha liberdade. Ao fim e ao cabo, eu tinha dois filhos, e a última coisa que desejava que viesse a suceder neste mundo de Deus era que a minha mulher fosse obrigada a escrever aos filhos para lhes comunicar que o pai ia ser julgado por... bem, porque é que seria? Não sabia. Por ajudar a instigar uma tentativa de fuga, parecia-me ser a razão mais plausível.

No entanto, a morte do Eduard Delacroix tinha sido o ac mais hediondo e ultrajante que eu presenciara ao longo de toda a minha vida - e não estou a referir-me apenas à minha vida profissional, mas sim à totalidade da minha existência - e eu tomara parte nele. Todos nós havíamos tomado uma vez que permitíramos que o Percy Wetmor tivesse continuado com as mesmas funções depois de sabermos que ele não possuía o mínimo de capacidades para trabalhar num lugar como o Bloco E. Sem objeções entráramos naquele jogo. Até o diretor Moores tinha a sua quota-parte de responsabilidade. “Os tomates dele vão ser estorricados quer o Wetmore faça parte do grupo ou não”, dissera ele na altura; talvez isso não devesse causar-nos grandes apreensões, em virtude dos atos que o pequeno francês cometera, mas, no fim, o Percy tinha feito muito mais do que estorricar os tomates do Del; fizera explodir os globos oculares para fora das órbitas e pegara-lhe fogo à cara. E porquê? Porque o Delacroix cometera seis assassínios? Não. Porque o Percy havia mijado nas calças e o pequeno cajun tivera a ousadia de se rir dele. Nós havíamos tomado parte num ato monstruoso e o Percy sair-se-ia daquilo com toda a impunidade. Ia ser transferido para o Briar Ridge, tão feliz como um gato ao sol num dia de Inverno, e ali teria um hospício cheio de lunáticos, sobre quem poderia exercer todas as suas sádicas crueldades. Não havia nada que pudéssemos fazer para impedir isso, mas talvez não fosse demasiado tarde para lavarmos alguma da sujidade que nos conspurcava as mãos.

- Na minha igreja classificam isto de expiação em vez de restabelecimento do equilíbrio - disse eu -, mas acho que no fim vem tudo a dar no mesmo.

- Acreditas realmente que o Coffey poderia salvá-la? - perguntou o Dean numa voz suave e perplexa... - Fazendo apenas.., o quê?... Sugando-lhe o tumor cerebral que lhe mina a cabeça? Como se fosse o... o caroço de um pêssego?

- Acho que seria capaz. Como é evidente, não é certo, mas depois do que ele fez comigo... e com o Mister Jingles... Não há duvida de que o rato estava bastante esborrachado - disse o Brutal.

- Mas estaria ele disposto a fazê-lo? - perguntou Harry ensimesmado. - Estaria?

- Se estiver ao seu alcance, sem dúvida que sim - repliquei.

- Porquê? O Coffey nem sequer a conhece!

- Porque essa é a sua missão. Foi com essa finalidade que Deus o criou.

O Brutal olhou ostensivamente em redor, recordando-nos que faltava alguém.

- E quanto ao Percy? Pensas que ele vai permitir que isto vá para a frente? - perguntou ele.

Aquela questão levou-me a contar-lhes o que eu planeara em relação ao Percy. Quando terminei, o Harry e o Dean olhavam para mim estupefatos e o Brutal esboçava um sorriso relutante de admiração.

- Bastante audacioso, Irmão Paul! - exclamou ele. Quase consegues cortar-me a respiração!

- Mas seria uma façanha e tanto! - observou o Dean quase num murmúrio, após o que desatou a rir sonoramente,, batendo palmas, como se fosse um garoto. - Quer dizer, vuu.., duu... du... oh... duu e macacos me mordam! - É preciso não esquecer que o Dean tinha um interesse muito especial na parte do plano que envolvia o Percy (ao fim e ao cabo, este teria permitido que o Dean morresse devido à sua inércia quando o Dean fora atacado pelo Wharton).

- Sim, mas... e depois? - perguntou o Harry. Parecia sentir-se acabrunhado, mas os seus olhos atraiçoaram-no; cintilavam, indicando que ele desejava ser convencido. - O que é que acontece depois?

- Costuma-se dizer que homem morto não ganha soldo - resmungou o Brutal. Lancei-lhe um rápido olhar para ter a certeza de que ele estava a brincar.

- Acho que ele vai ficar de bico calado - disse eu. - A sério?! - O Dean parecia céptico. Tirou os óculos do nariz e começou a limpar as lentes. - Convençam-me - Em primeiro lugar, ele nunca saberá o que realmente sucedeu... Vai julgar-nos pela sua bitola, pensando que se tratou apenas de uma partida. Em segundo lugar... e mais importante ainda, ele terá receio de dizer seja o que for. É com isso que eu estou efetivamente a contar. Nós dizemos-lhe que se começar a escrever cartas e a fazer telefonemas também nós começaremos a escrever cartas e a fazer alguns telefonemas a respeito da execução - disse o Harry.

E da forma como ele ficou paralisado quando o Wharton atacou o Dean - interveio o Brutal. - Acho que a possibilidade de as pessoas poderem vir a tomar conhecimento destes assuntos é o que o Percy Wetmore teme mais. - Acenou lentamente com a cabeça, pensativo. - É capaz de resultar. Mas, Paul... não faria mais sentido levar Mistress Moores até junto do Coffey, do que o Coffey a Mistress Moores? Poderíamos tratar do Percy da forma que delineaste, e fazíamo-la passar pelo túnel, em lugar de ser o Coffey a percorrer esse caminho.

- Essa opção nunca poderá vir a ser concretizada - declarei com um sacudir de cabeça descrente. - Nem daqui a um milhão de anos.

- Por causa do diretor Moores?

- Exatamente. Ele é teimoso que nem uma mula. Se levarmos o Coffey a casa dele acho que ficará tão surpreendido que pelo menos não impedirá que ele faça uma tentativa. Caso contrário...

- O que é que estás a pensar em utilizar em termos de veículo? - inquiriu o Brutal.

- O meu primeiro pensamento foi a diligência - respondi -, mas nunca conseguiríamos tirá-la do pátio sem dar nas vistas, além de que toda a gente que habita num raio de trinta quilômetros conhece bem o seu aspecto. Calculo que talvez possamos ir no meu Ford.

- Calcula outra vez - disse o Dean, voltando a colocar os óculos no nariz. - Ainda que o despisses todo e lhe barrasses o corpo com banha, nunca conseguirias meter o John Coffey dentro do teu automóvel, nem com a ajuda de uma calçadeira. Estás tão acostumado a olhar para ele que te esqueceste do seu tamanho.

Não tive resposta para aquilo. Grande parte da minha atenção nessa manhã fora dedicada ao problema que o Percy representava - assim como ao problema menor, mas não menos considerável, que era o Bill “Selvagem” Wharton. Naquele momento começava a compreender que o meio de transporte não iria ser tão simples quanto eu tinha esperado.

O Harry Terwilliger agarrou no que restava da sua segunda sanduíche observou-a durante uns segundos e voltou a pousá-la no prato.

- Se decidíssemos levar a cabo esta coisa de loucos - disse ele -,imagino que poderíamos servir-nos da minha camioneta de caixa aberta. Colocá-lo-íamos na parte de trás. A essa hora da noite não há muita gente na estrada. Estamos a falar de uma hora por volta da meia-noite, não é verdade? - Sim - confirmei.

- Vocês estão a esquecer-se de um pequeno pormenor interveio o Dean. - Eu sei que o Coffey tem andado muito sossegado desde que chegou ao bloco, está sempre deitado na tarimba a choramingar constantemente, mas a realidade é que é um assassino. E também um homem gigantesco. Se por acaso decidisse que desejava fugir pela parte de trás da camioneta do Harry, a única maneira de o impedirmos seria matá-lo. E um tipo como ele exigiria uma grande quantidade de tiros, até mesmo com uma arma de calibre quarenta e cinco. Suponhamos que não éramos capazes de o abater? E que ele tinha oportunidade de matar alguém? Eu não gostava nada de perder o emprego e passar uma temporada na penitenciária... Tenho mulher e filhos que dependem de mim para comer, mas não me parece que odiaria qualquer destas coisas tanto como o ter na consciência o peso de outra garotinha morta.

- Isso não virá a acontecer - declarei.

- Como é que podes estar assim tão certo?

Não dei resposta imediata àquela pergunta. Não sabia bem por onde havia de começar. Eu soubera de antemão que aquela questão acabaria por vir à baila, claro que sim, mas o certo é que continuava sem saber como dizer-lhes o que sabia.; Foi o Brutal quem veio em meu auxílio.

- Não acreditas que ele tenha feito aquilo, pois não, Paul? - perguntou-me ele com uma expressão de incredulidade. - Achas que o idiota gigante está inocente.

- Tenho a certeza absoluta que está inocente - repliquei.

- Como é que podes ter tanta certeza?

- Existem duas coisas - respondi. - Uma delas é o meu sapato. - Debrucei-me sobre a mesa e comecei a falar.