À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 7 de 9 · parte 3/3

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À Espera de um Milagre

Parte Cinco ........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Este era o meu estado de espírito quando saímos da estrada Principal e entramos na secundária, a número 5, e desta na Chimney Ridge. Mais ou menos quinze minutos depois avistei o recorte de um telhado que se erguia para as estrelas' e soube que tínhamos chegado ao nosso destino. O Harry desengatou a segunda, metendo a primeira (acho que ele engatou a quarta apenas uma vez durante toda aquela estranha viagem). Laboriosamente, o motor abrandou e toda a camioneta foi abalada por um estremecimento, como se também temesse aquilo que se encontrava à nossa frente.

O Harry entrou no caminho de gravilha que dava acesso à casa do Moores e estacionou a pequena camioneta recalcitrante atrás do prático Buick preto do diretor da penitenciária. À nossa frente, e ligeiramente à direita, encontrava-se uma casa muito bem cuidada e construída num estilo que estou em crer chamar-se Cape Cod. Aquele gênero de residência talvez devesse dar a impressão de não se enquadrar na nossa região montanhosa, mas tal não acontecia. A Lua já brilhava no firmamento; naquela madrugada o seu sorriso era um pouco mais cheio do que o habitual; sob a sua luz observei que o jardim, que sempre se mantivera tão maravilhosamente cuidado, apresentava agora um aspecto de desleixo. Em grande parte, aquela incúria devia-se apenas a folhas secas e mortas por apanhar. Em circunstâncias normais, aquela tarefa teria cabido à Melly, mas acontece que, naquele Outono, a Melly não estivera em condições de limpar o jardim das folhas e nunca mais voltaria a ver as folhas a caírem das árvores. Esse é que era o cerne da questão, e eu fora suficientemente louco para pensar que aquele idiota, de olhar vazio, poderia alterar esse estado de coisas.

Apesar de tudo, talvez ainda não fosse tarde de mais para nos salvarmos. Fiz menção de me levantar, deixando tombar dos ombros a manta em que estivera enrolado. Inclinar-me-ia para a frente, bateria na janela do lado do motorista, dizendo ao Harry que se pusesse a andar dali para fora, antes de... O John Coffey agarrou-me pelo antebraço com um pino enorme, obrigando-me a sentar-me com tão pouco esforço como o que eu poderia ter usado com uma criança que tivesse começado a dar os seus primeiros passos.

- Ouça, chefe - disse ele, apontando para a casa. - Há alguém a pé. Segui a direção do seu dedo e senti um baque, não só nas entranhas mas também no coração. Através de uma das janelas das traseiras filtrava-se um feixe de luz. Muito provavelmente, a sala onde a Melinda passava os seus dias. Estaria tão capaz de poder subir as escadas, como de um ancinho para remover do jardim as folhas que haviam tombado das árvores durante o vendaval que ocorrera recentemente.

É claro que eles tinham dado pela chegada da camioneta - a maldita Farmall do Harry Terwilliger, com o seu ruidoso motor desembocando num tubo de escape que não era estorvado por algo tão frívolo como uma panela de escape. Mas que diabo, o mais certo era os Moores não terem andado a dormir muito bem naquelas últimas noites.

Entretanto, alguém acendeu uma luz mais próxima da frente da casa (na cozinha), e em seguida foi a vez da do teto da sala de estar, a do vestíbulo da frente e a do alpendre. Observei esta sucessão de luzes a serem ligadas, sentindo o mesmo que um homem encostado a uma parede de cimento, enquanto fumava o seu último cigarro, podendo observar a marcha de um pelotão de fuzilamento que se aproximava. E, contudo, não reconheci inteiramente perante mim próprio, até mesmo naquele instante, que já era demasiado tarde quando o ruído incerto do motor da Farmall esmoreceu e se silenciou. Ouviu-se o ranger das portas do veículo a abrirem-se, e o Harry e o Brutal pisaram sonoramente a gravilha.

O John já se pusera de pé, arrastando-me consigo. Naquela semiobscuridade, a expressão do seu rosto era viva e ansiosa. E porque não?, recordo-me de ter pensado. Porque não haveria ele de se mostrar ansioso? O Coffey era um pobre de espírito.

O Harry e o Brutal mantinham-se ombro a ombro imobilizados ao fundo da camioneta como crianças numa tempestade, não me passando despercebido que ambos pareciam tão receosos como aquelas estariam e tão pouco à vontade como eu próprio me sentia. Aquilo fez com que o meu mal-estar aumentasse ainda mais.

O John desceu. Para ele aquele ato era mais um passo do que um salto. Fui atrás dele acabrunhado e sentindo as pernas entorpecidas. Ter-me-ia esparramado em cima da gravilha gelada, não fora ele agarrar-me pelo braço.

- Isto é um erro - disse o Brutal numa voz sibilada quase num murmúrio. Os seus olhos desmesuradamente abertos espelhavam temor. - Deus do céu, Paul! Em que é que nós estávamos a pensar?

- Agora já é tarde de mais - repliquei. Dei um empurrão numa das ancas do Coffey, o qual se colocou bastante obedientemente ao lado do Harry. Em seguida, agarrei no braço do Brutal como se aquilo fosse um encontro amoroso e começamos a caminhar em direção aos degraus do alpendre, que naquele momento estavam iluminados. – Deixa-me ser eu a conduzir a conversa. Estás a compreender?

- De acordo - respondeu o Brutal. - Nesta altura, parece-me que é a única coisa que sou capaz de compreender. - Harry, fica com ele junto da camioneta, até eu te chamar - disse-lhe eu por cima do ombro. - Não quero que o Moores o veja até eu estar preparado. - Mas eu nunca iria estar preparado. Agora apercebo-me disso.

O Brutal e eu estávamos quase no primeiro degrau do alpendre quando a porta da frente se abriu de rompante, com tanta força que a aldraba de latão bateu contra a chapa. Ali estava o Hal Moores, vestindo as calças do seu pijama azul e uma camisola interior sem mangas, com os cabelos grisalhos, de um tom ferroso, despenteados e espetados. Era um homem que fizera um milhar de inimigos no decurso da sua carreira, estando bem ciente desse fato. Firmemente empunhada na sua mão direita, com um cano invulgarmente longo que não apontava exatamente para o chão, encontrava-se a pistola que costumava estar pendurada acima da cornija da lareira. Era o tipo de arma que tinha um dispositivo de apoio para a outra mão quando se disparava, conhecida pelo nome de Ned Buntline Especial, e que pertencera ao seu avô; naquela ocasião (observei isto sentindo uma outra reviravolta nas entranhas) encontrava-se totalmente engatilhada.

- Quem diabo é que anda por aí às duas e meia da madrugada? - perguntou ele. Não detectei o mínimo receio na sua voz. E, pelo menos de momento, os seus tremores tinham cessado. A mão que empunhava a arma mantinha-se firme que nem uma rocha. - Respondam-me ou... - O cano da pistola começou a erguer-se.

- Pare, diretor! - gritou o Brutal, erguendo as mãos com as palmas para cima na direção do homem que empunhava a arma. Eu nunca tinha ouvido a sua voz com o timbro que possuía naquela ocasião; era como se os tremores houvessem saído das mãos do Moores e, de uma maneira estranha, tivessem conseguido entrar na garganta do Brutos Hawell. - Somos nós! O Paul e eu, e... somos nós!

Ele deu o primeiro passo, de forma a que a luz do teto do alpendre lhe incidisse diretamente sobre o rosto. Aproximei-me. O olhar do Hal Moores ia de um para o outro; A determinação encolerizada deu lugar a uma enorme perplexidade - que é que estão a fazer aqui? - perguntou. - Não só estamos nas primeiras horas da madrugada, como também vocês deveriam estar de serviço. Eu sei que estão a trabalhar no turno da noite, tenho a escala dos turnos pendurada em cima da minha bancada na garagem. Portanto,” o que é que, em nome de... oh, meu bom Jesus! Não me digam que se trata do confinamento dos presos por medidas de segurança? Ou de algum motim? - Olhou para nós; o seu olhar perscrutou mais atentamente. - Quem mais é que está junto daquela camioneta?

Deixa-me ser eu a conduzir a conversa. Isso fora o que eu dissera ao Brutal, mas agora, que tinha chegado a altura de começar a falar, nem sequer era capaz de abrir a boca. Nessa tarde, quando ia a caminho do trabalho, planeara cuidadosamente tudo o que tencionava dizer quando chegássemos ali, e pensara que nada daquilo dava a impressão de ser demasiado disparatado. Não era normal - nada naquela situação poderia ser apelidado de normal - mas talvez suficientemente próximo do que era normal, permitindo-nos transpor a porta e dando-nos uma oportunidade. Dar ao John uma só oportunidade. Mas, agora, todas as minhas palavras, tão cuidadosamente ensaiadas, se perdiam numa confusão incomensurável. Pensamentos e imagens - o Del a assar, o rato a morrer, o Pouca Terra a sacolejar no colo da Velha Faísca, enquanto gritava que era um peru assado - revolteavam dentro da minha cabeça como areia apanhada num turbilhão de restolho seco. Acredito que no mundo exista o bem, toda essa força a fluir onipresente de um Deus generoso. Mas também estou em crer que existe uma outra força, uma força tão presente como o Deus a quem tenho rezado ao longo de toda a minha vida que trabalha consciente-mente com a finalidade de não arrasar todos os nossos impulsos mais decentes. o Diabo, não estou a referir-me ao Diabo (embora acredite firmemente que ele também existe), mas sim uma espécie de ser demoníaco da discórdia uma coisa estúpida e aberrantemente brincalhona, que se ri cheia de gáudio quando um velhote se vê envolto em chamas ao chegar lume ao seu cachimbo ou quando uma criança muito amada coloca na boca o seu primeiro brinquedo do Natal e morre asfixiada. Tive muitos anos para pensar neste assunto, desde os tempos de Cold Mountain até à época de Georgia Pines, e estou em crer que essa força se encontrava a trabalhar ativamente entre nós nessa madrugada, a revoltear por todo o lado como se fosse um manto de nevoeiro, tentando manter o John Coffey afastado da Melinda Moores.

- Diretor... Hal... eu... - Nada do que eu tentasse dizer tinha o mínimo de coerência.

Uma vez mais, ele começou a erguer a pistola, apontando-a para o espaço entre o Brutal e eu, sem ouvir fosse o que fosse. Os seus olhos raiados de vermelho tinham-se arregalado. E ali vinha o Harry Terwilliger mais ou menos empurrado pelo nosso vadio, o qual exibia o seu rasgado sorriso atoleimado e encantador.

- O Coffey! - exclamou o Moores entre dentes. - O John Coffey. - Susteve a respiração e gritou numa voz um tanto esganiçada mas portentosa. - Pára! Pára imediatamente, senão disparo!

Vinda de algures por detrás dele, ouviu-se uma voz feminina enfraquecida e trêmula.

- Hal - chamou ela. - O que é que estás a fazer aí fora? Com quem é que estás a falar, meu caralho?

O Hal voltou-se na direção da voz por breves momentos, mostrando uma expressão confusa e desesperada. Por breves momentos, tal como eu disse, mas que teriam sido o suficiente para eu poder apoderar-me da arma de cano comprido que ele empunhava. Só que fui incapaz de erguer as mãos. Tinha a impressão de que alguém as amarrara a pesos. A minha cabeça parecia estar cheia de estática, qual estação de rádio que tentasse efetuar as suas transmissões durante uma tempestade elétrica. As únicas emoções que me recordo de ter sentido foram o medo e uma espécie de constrangimento por causa do Hal.

Entretanto, o Harry e o John chegaram ao fundo dos degraus. O Moores desviou a atenção do som da voz da mulher, erguendo a arma de novo. Mais tarde confirmou que sim, que tivera intenção de alvejar o Coffey; suspeitara que todos nós éramos seus prisioneiros, e que o cérebro por detrás do que estava a acontecer se encontrava oculto na camioneta, emboscado a coberto da noite. Não compreendia por que motivo é que havíamos sido levados a sua casa, embora a vingança lhe parecesse ser a probabilidade mais plausível.

Antes de ele poder disparar, o Harry Terwilliger avançou alguns passos, colocando-se em frente do Coffey, escudando-se quase completamente com o seu corpo.

- Não, diretor Moores! - disse ele. - Está tudo bem! Ninguém veio armado, ninguém vai ficar ferido, estamos aqui para ajudar! - Os espessos sobrolhos eriçados do Moores uniram-se. Os seus olhos coruscavam de fúria. Eu não conseguia afastar o olhar do revólver que ele continuava a manter engatilhado. - Ajudar o quê? Ajudar quem?”

Em resposta àquela pergunta, a voz da mulher de idade fez-se ouvir de novo, quezilenta, determinada e profundamente perdida.

- Vem já para dentro ver se a minha rata continua no lugar, meu filho da puta! Traz também os caras-de-cu dos teus amigos. Eles que façam fila!

Olhei para o Brutal, sentindo-me abalado até à alma. Eu já sabia que ela começara a dizer palavrões - que o tumor a fazia utilizar uma linguagem obscena - mas aquilo era mais do que isso. Muito mais.

- O que é que vocês vieram fazer aqui? - perguntou-nos o Moores de novo. A determinação que ele mostrara anteriormente tinha abandonado a sua voz.... os gritos trêmulos da mulher eram os responsáveis por isso. - Não estou a compreender. Isto é uma fuga...

O John afastou o Harry para o lado - limitou-se a içá-lo do chão e a colocá-lo noutro lugar - e começou a subir os degraus do alpendre. Posicionou-se entre o Brutal e eu, tão gigantesco que quase nos empurrou para os lados, fazendo-nos ir contra as sebes de arbustos que eram sagradas para a Melly. O Moores soergueu os olhos para lhe seguir os movimentos, da mesma maneira que uma pessoa faria ao tentar ver a copa de uma árvore de grande porte. E subitamente, na minha mente o mundo ajustou-se com tudo no seu lugar. Aquele espírito de discórdia, que tinha perturbado os meus pensamentos como dedos poderosos a remexerem areia ou grãos de arroz desaparecera. Também pensei que compreendia por que motivo o Harry fora capaz de tomar a iniciativa, enquanto eu e o Brutal nos limitáramos a ficar ali, impotentes e indecisos em frente do nosso chefe. O Harry estivera junto do Coffey” e qualquer que fosse esse espírito que se opõe ao outro ao demoníaco, naquela noite esteve ao lado do John Coffey. E quando este avançou para enfrentar o diretor Moores, foi esse outro espírito - qualquer coisa branca, é a imagem que eu guardei disso, qualquer coisa branca que se assenhoreou da situação, passando a dominá-la por completo. A outra coisa não se retirou, mas eu pude vê-la a retroceder como uma sombra envolta numa súbita luz cheia de intensidade.

- Eu quero ajudar - declarou o John Coffey. O Moores ficou a olhar para ele, olhar fascinado, a boca aberta. Quando o Coffey retirou da sua mão o revólver de cano comprido e mo entregou, não me parece que o Hal se tenha dado conta de que já não o empunhava. Cuidadosamente, desengatilhei a arma. Mais tarde, quando examinei o carregador verifiquei que estivera sempre vazio. Às vezes pergunto a mim mesmo se o Hal teria estado ciente disso. Entretanto, o John continuava a murmurar: - Vim para a ajudar. Apenas para ajudar. É só o que eu quero.

- Hal! - gritou a Melinda da sala das traseiras. Naquele momento, a sua voz soava um pouco mais forte, como se a coisa que tanto nos havia confundido e desarmado se houvesse retirado para o interior do corpo dela. - Manda-os embora, quem quer que seja! Não precisamos de vendedores a meio da noite! Nada de Electrolux! Nada de Hoover! Nada de cuequinhas francesas! Corre com eles! Diz-lhes que se vão foder para... - Ouviu-se o som de algo a partir. Talvez um copo com água, e depois ela começou a chorar convulsivamente.

- Apenas para ajudar - repetiu o John Coffey num tom de voz que pouco mais era que um sussurro. Ignorou igualmente tanto o choro como a linguagem obscena da mulher. - Só para ajudar, chefe, mais nada.

- Não podes - replicou o Moores. - Ninguém pode ajudá-la. - Eu já ouvira anteriormente aquela voz e, momentos depois, compreendi que era igual à minha quando entrei na cela do Coffey, na noite em que ele curou a minha infecção urinária. Como que hipnotizado. Preocupa-te com os teus assuntos, que eu preocupo-me com os meus, fora o que eu dissera ao Delacroix... Só que tinha sido o Coffey quem se preocupara com os meus assuntos, tal como naquela altura se preocupava com os do Hal Moores.

- Nós pensamos que pode - interveio o Brutal. - E não arriscamos os nossos empregos... Só para virmos até cá e darmos meia volta, Sem sequer termos tentado.

O que nós não lhe dissemos foi que tanto ele como eu próprio estivéramos prontos a fazer isso mesmo, três minutos antes.

Entretanto, o John Coffe apoderara-se do espetáculo retirando-o das nossas mãos. Avançou até à entrada num passo determinado, passando pelo Moores, que ergueu uma mão flácida a fim de tentar detê-lo (roçou pela anca do Coffey e ficou descaída; tenho a certeza que aquele homem corpulento nem sequer sentiu o seu toque), e avançou pelo corredor em direção à sala de estar e da cozinha, que se situava atrás desta, seguindo para o quarto das traseiras mais ao fundo, onde aquela voz esganiçada e irreconhecível se elevou de novo.

- Põe-te já daqui para fora! Quem quer que sejas, sai daqui para fora! Não estou vestida e tenho as tetas de fora e a minha rata está a apanhar ar!

O John não lhe prestou a mínima atenção, avançando imperturbável e de cabeça baixa para não quebrar qualquer das luzes do teto; a pele do seu crânio castanho e de formas arredondadas brilhava, enquanto as mãos oscilavam ao longo do corpo. Após alguns momentos de hesitação, fomos atrás dele; eu seguia à frente, o Brutal atrás de mim e ao lado do Hal, e o Harry em último. Uma coisa eu compreendia perfeitamente: a partir daquela altura, a situação deixara de estar nas nossas mãos e passara para as do John.

 

8

A mulher no quarto das traseiras, recostada contra a cabeceira da cama fitando de olhos esbugalhados o gigante que surgira no seu campo de visão pouco nítido, tinha poucas semelhanças com a Melly Moores que eu conhecia há vinte anos; nem com a Melly Moores que a Janice e eu havíamos visitado pouco antes da execução de Delacroix. A mulher que se encontrava sentada naquela cama parecia uma criança doente mascarada de bruxa. A sua pele lívida transformara-se numa massa pastosa e flácida cheia de rugas; tinha um tique na parte superior do olho direito, como se tentasse piscá-lo, enquanto esse mesmo lado da sua boca se mantinha descaído. Por cima do lábio inferior de uma tonalidade cirrosa havia um dente amarelado. Os seus cabelos eram uma nuvem desordenada e pouco espessa à volta do crânio. O quarto estava empestado com o fedor das matérias de que o nosso corpo se descarta com decoro quando as coisas correm bem. O penico, que se encontrava ao lado da cama, estava meio cheio de uma substância amarelada e pastosa de aspecto nauseabundo. Havíamos chegado demasiado tarde, pensei eu, horrorizado. Tinham decorrido apenas alguns dias desde a altura em que ela ainda era uma mulher reconhecível - enferma, mas sem ter perdido a sua identidade. Desde essa altura, a coisa no interior da sua cabeça deveria ter começado a disseminar-se a uma velocidade inacreditável, a fim de consolidar firmemente a sua posição. Não me parecia que o John Coffey tivesse poderes para a ajudar naquela situação.

A expressão da Melinda quando o Coffey entrou no quarto traduzia medo e horror - como se algo no seu íntimo houvesse reconhecido um médico que podia chegar-lhe e arrancá-la... polvilhá-la com sal, da mesma forma que se faz a a uma sanguessuga para que esta solte a sua presa. Prestem bastante atenção ao que vos digo: eu não estou a afirmar que a Melly Moores estivesse possessa, e apercebo-me de que, perturbado como estava nessa noite, todas as minhas percepções devem parecer um tanto ou quanto suspeitas. Mas nunca pus inteiramente de parte a probabilidade da existência de uma possessão demoníaca. Havia algo nos seus olhos, deixem-me que vos diga, algo que se assemelhava ao medo. Quanto a isso, penso que vocês podem confiar em mim; é uma emoção com que estou por de mais familiarizado para poder enganar-me.

Fosse o que fosse, desapareceu num ápice, tendo sido substituído por uma expressão de interesse vivaz e irracional. Aquela boca hedionda estremeceu no que poderia ter sido considerado o arremedo de um sorriso.

- Oh, tão grande! - gritou ela. O som da sua voz era u de uma garota com uma infecção grave na garganta. Retirou as mãos, cuja pele era de um branco tão esponjoso como a do seu rosto, de debaixo da coberta da cama e começou a bater palmas. - Puxa as calças para baixo! Durante toda a minha vida ouvi falar do caralho dos negros, mas nunca vi um.

Atrás de mim, o Moores emitiu um gemido abafado de desespero.

John Coffey não prestava a mínima atenção ao que se passava em seu redor. Depois de se ter imobilizado por breves instantes, como se pretendesse observá-la de uma certa distância, aproximou-se da cama que se encontrava iluminada por um único candeeiro em cima da mesa-de-cabeceira. Projetava um círculo de luz bastante intensa sobre a colcha branca que estava puxada até à renda do decote da camisa de noite da Melinda. Reparei na otomana que pertencia à sala de estar, e que se encontrava oculta pela sombra atrás da cama. Sobre esta havia um agasalho que a Melly havia tricotado com as suas próprias mãos, em dias mais felizes, meio descaído até ao chão. Era ali que o Hal tinha estado a dormir - pelo menos a passar pelas brasas - quando chegamos a sua casa.

À medida que o John se aproximava, a expressão da Melinda sofreu uma terceira transformação. Bruscamente, vi a Melly, cuja bondade tanto significado tivera para mim ao longo dos anos, e ainda mais para a Janice quando as crianças haviam abandonado o ninho e ela se sentira tão sozinha, triste e inútil. A Melly continuava interessada, mas agora o seu interesse parecia saudável e alerta.

- Quem és tu? - perguntou numa voz clara e coerente. - E porque é que tens tantas cicatrizes nas mãos e nos braços? Quem é que te fez tanto mal?

- Já nem me lembro como é que elas foram feitas, minha senhora - respondeu o John Coffey numa voz cheia de humildade, sentando-se junto dela à beira da cama.

A Melinda sorriu tão bem quanto lhe era possível - o canto arreganhado do lado direito da boca estremeceu, recusando-se no entanto a erguer-se. Pouco depois, tocou numa cicatriz esbranquiçada de formato curvo semelhante a uma cimitarra, que o Coffey tinha nas costas da mão esquerda.

- Mas que bênção isso é. Compreendes porquê? - perguntou ela.

- Acho que quando não sabemos quem nos fez mal, ou qual o cão que nos abocanhou, não ficamos acordados à noite - replicou o John Coffey no seu sotaque quase à maneira do Sul.

Ela riu-se ao ouvir aquilo, emitindo um som tão puro como um fio de prata naquele quarto de doente de onde exalava um fedor tão intenso. O Hal estava ao meu lado; a sua respiração processava-se com alguma dificuldade mas ele não fazia qualquer menção de intervir. Quando a Melly se riu, a respiração acelerada do Moores susteve-se por breves instantes, respirou fundo e uma das suas mãos enormes fincou-se no meu ombro. Apertou-o com a força suficiente para deixar uma nódoa negra - dei por ela no dia seguinte - mas naquele momento mal senti o seu aperto.

- Como é que te chamas? - inquiriu ela. - John Coffey, minha senhora.

- Coffey, como a bebida.

- Sim, minha senhora, só que se escreve de maneira diferente.

Ela recostou-se contra as almofadas, o corpo semierguido e sem despregar os olhos do Coffey. Este continuava sentado à sua beira, retribuindo-lhe o olhar; a luz projetada pelo candeeiro incidia sobre ambos, formando um círculo, como se eles fossem atores no palco de um teatro - o corpulento homem de raça negra, com o fato-macaco da prisão, e a mulher de estatura pequena às portas da morte. Esta fitava os olhos do John com um enorme fascínio.

- Minha senhora?

- Sim, John Coffey? - Aquelas palavras mal haviam sido articuladas, chegando-nos aos ouvidos a muito custo na atmosfera nauseante. Senti os músculos a contraírem-se nos meus braços, pernas e costas. Algures, a uma grande distância, senti o diretor da prisão a apertar-me o braço e, pelo canto do olho, vi que o Harry e o Brutal tinham os braços à volta um do outro, quais crianças perdidas nas trevas da noite. Algo estava prestes a acontecer. Qualquer coisa grandiosa. Cada um de nós sentia aquilo à sua própria maneira.

O John Coffey debruçou-se mais para ela. As molas do colchão rangeram, a roupa da cama fez ruge-ruge e a Lua fria e sorridente filtrou os seus raios através da vidraça superior da janela do quarto. Os olhos congestionados do Coffey observavam a face desfigurada que a Melinda soerguera. - Eu estou a vê-lo - disse ele. Não se dirigia a ela... pelo menos não me parece que o fizesse, falando consigo mesmo. - Estou a vê-lo, e sou capaz de impedir o mal. Esteja quieta... esteja muito quieta...

Debruçou-se ainda mais para a Melinda, cada vez mais próximo dela. Por um momento, o seu rosto deteve-se a menos de cinco centímetros do dela. Ergueu uma mão para o lado, com os dedos abertos, como se dissesse a algo que aguardasse... que esperasse... e depois baixou de novo o rosto.

Os seus lábios macios e carnudos fizeram pressão sobre os dela, forçando-os a entreabrirem-se. Por breves instantes, consegui ver um dos olhos da Melinda, fitando um ponto para lá do John Coffey, pleno de uma expressão do que me parecia ser surpresa. Em seguida, a cabeça lisa e calva do Coffey deslocou-se, impedindo-me a visão daquela cena.

Ouviu-se um sibilar suave quando ele inspirou o ar que estava no fundo dos pulmões dela. Isso foi tudo o que sucedeu durante um ou dois segundos, e em seguida o soalho deslocou-se abaixo de nós, enquanto toda a casa se agitava à nossa volta. Aquilo não fora fruto da minha imaginação; todos os outros sentiram a mesma coisa, como me disseram posteriormente. Era uma espécie de ruído abafado semelhante ao marulhar das águas. Depois, ouviu-se um estrondo quando tombou qualquer coisa pesada na sala de estar - mais tarde chegou-se à conclusão de que tinha sido o relógio de pêndulo. O Hal Moores tentou mandá-lo reparar, mas nunca mais voltou a dar horas por mais de quinze minutos de cada vez.

Mais próximo, ouviu-se um estalar seguido de um tinir, quando a vidraça da janela por onde tinham entrado os raios de luar se quebrou. Um dos quadros na parede - um navio de cruzeiro que atravessava um dos sete mares - caiu, tendo-se partido no chão; o vidro da moldura estilhaçou-se em mil fragmentos.

Chegou-me o cheiro de algo quente e vi fumo a evolar-se do fundo da coberta branca da cama que cobria a Melinda. Uma porção desta tinha enegrecido na saliência formada pelo seu pé direito. Sentindo-me como um homem no meio de um sonho, desprendi-me da mão do Moores e aproximei-me da mesa-de-cabeceira. Sobre esta havia um copo cheio de água, rodeado por três ou quatro frascos de comprimidos, os quais tinham tombado durante o estremeção que a casa sofrera. Agarrei no copo de água e despejei-a em cima do lugar de onde saía fumo. Ouviu-se um silvar.

O John Coffey continuava a beijá-la de uma forma envolvente e cheia de intimidade inspirando e voltando a inspirar, uma mão erguida para o lado, a outra sobre a cama, suportando todo o peso do seu corpo. Os dedos continuavam abertos; aquela mão fazia-me lembrar uma estrela-do-mar castanha.

Bruscamente as costas da Melinda arquearam-se. Uma das suas mãos agitou-se no ar com os dedos enclavinhados, os quais se abriam e fechavam numa série de espasmos. Os seus pés batiam contra a cama. Então algo soltou um grito. Uma vez mais, não fui o único a ouvir aquilo; os outros homens presentes também ouviram. Ao Brutal pareceu ser um lobo ou um coiote cuja pata tivesse ficado presa numa armadilha. A mim, deu-me a sensação de ser o grito de uma águia, - forma como nessa época elas por vezes se faziam ouvir nas manhãs remansosas, a voar por entre as brumas dos cumes com as asas rigidamente abertas.

Lá fora, o vento fazia ouvir as suas rajadas com força suficiente para agitar de novo a casa, o que, devo dizer-vos, era bastante estranho, uma vez que até então não se fizera sentir a mínima brisa.

O John Coffey afastou-se da Melinda e vi que as feições dela se tinham suavizado. O lado direito do seu rosto já não estava descaído. Os olhos haviam readquirido o seu formato natural; parecia ter rejuvenescido dez anos. Durante um ou dois momentos, o Coffey olhou-a com enlevo e depois começou a tossir. Virou a cabeça de forma a não tossir mesmo em frente do rosto da Melinda, perdeu o equilíbrio (o que não foi difícil; para começar, corpulento como ele era, tinha estado sentado durante o tempo todo com o traseiro meio fora da cama) e caiu no chão. O seu peso foi o suficiente para fazer estremecer a casa uma terceira vez. Caiu sobre os joelhos e deixou descair a cabeça sobre o peito, acometido por um ataque de tosse como se fosse um homem na última fase de uma tuberculose terminal.

Pensei: Agora é a vez dos insetos. Ele vai expeli-los da boca e desta feita terão de ser bastantes.

Apesar da minha expectativa, o Coffey não os deitou fora. Continuou a tossir em grandes arrancos, mal tendo tempo de conseguir respirar. A sua tez escura, da cor do chocolate, começara a adquirir uma tonalidade acinzentada. Alarmado com aquilo, o Brutal dirigiu-se para junto do Coffey, deixando-se cair sobre um joelho ao seu lado e colocando um braço em redor das suas costas robustas atravessadas por espasmos.

Como se os movimentos do Brutal houvessem quebrado um encanta-mento, o Moores aproximou-se da cama da mulher, sentando-se no mesmo lugar onde o Coffey estivera sentado. Parecia não dar pela presença daquele gigante que continuava a tossir, meio sufocado. Embora o Coffey se encontrasse ajoelhado mesmo aos seus pés, o Moores só tinha olhos para a mulher e mais ninguém; esta fitava-o com uma expressão de perplexidade. Olhar para ela era o mesmo que olhar para um espelho que houvesse sido limpo.

- John! - gritou o Brutal. - Vomita isso! Vomita isso como fizeste das outras vezes!

O John continuou com aqueles arrancos de tosse que quase o sufocavam. Tinha os olhos lacrimosos, não devido às lágrimas, mas sim ao esforço. Da boca começou a sair-lhe cuspo num jato fino, apesar de não ter expelido mais nada.

O Brutal assentou-lhe duas palmadas nas costas e olhou para mim.

- Ele está a sufocar! Seja o que for que ele sugou dela, está a asfixiá-lo!

Avancei mas, antes de ter dado dois passos, o John afastou-se de mim, ajoelhado, e dirigiu-se para um canto do quarto, continuando a tossir violenta-mente e sentindo grandes dificuldades em respirar. Encostou a testa contra o papel de parede - rosas bravas vermelhas que pendiam do muro de um jardim - emitindo um som cavo horripilante, como se pretendesse vomitar o tecido que revestia o interior da sua própria garganta. “Se há alguma coisa que expulse os insetos, só poderá ser isto”, recordo-me eu de ter pensado na altura, mas continuou a não haver quaisquer vestígios destes. Mesmo assim, aquele ataque de tosse deu a impressão de estar a abrandar um pouco.

- Eu estou bem, chefe - disse o John, continuando com a cabeça apoiada contra as rosas bravas. Tinha os olhos cerrados. Não sei bem como é que ele percebeu que eu me encontrava junto de si, mas não há dúvida que sabia. - A sério que estou. Vá ver se a senhora precisa de alguma coisa.

Com uma expressão duvidosa olhei para ele e virei-me para a cama. O Hal acariciava a testa da Melly, e acima dela avistei algo deveras surpreendente; alguns dos seus cabelos - não uma grande quantidade, mas somente uns quantos - tinham ficado negros.

- O que é que aconteceu? - perguntou ela ao marido. Enquanto eu a observava, as cores começaram a regressar-lhe às faces. Era como se houvesse roubado um par de rosas ao Papel de parede. - Como é que eu vim parar aqui? Nós íamos a caminho do hospital em Indianola, não é verdade? Há um médico de lá que vai tirar radiografias à minha cabeça,

Para fotografar o meu cérebro.

- Chhüuuu - fez o Hal. - Chhüuuu, minha querida, nada disso interessa neste momento.

- Mas eu não estou a compreender! - redarguiu e quase num gemido. - Nós paramos numa banca à beira da estrada... tu compraste-me um ramo de flores que custou cêntimos... e depois... aqui estou eu. Já está escuro! Já jantaste, Hal. Porque é que eu estou deitada no quarto de hóspedes? Já me fizeram as radiografias? - Os olhos dela pousaram no Harry quase sem darem pela sua presença... imagino que aquilo se devesse ao choque... e depois fixaram-se em mim. - Paul? Já me fizeram a radiografia.

- Sim - disse-lhe eu. - Não encontraram nada anormal.

- Não descobriram um tumor?

- Não - repliquei. - Os médicos disseram que o mais provável é as dores de cabeça começarem a desaparecer. Ao lado da mulher, o Hal explodiu num ataque de choro. A Melinda inclinou-se para a frente e beijou-lhe a fronte: Em seguida, o seu olhar focou-se no canto.

- Quem é aquele homem negro? Por que motivo é que ele está ali ao canto?

Voltei-me para trás e vi o John Coffey a tentar pôr-se de pé. O Brutal ajudou-o; com um último impulso do corpo para a frente, o John conseguiu erguer-se do chão. No entanto, deixou-se ficar de rosto virado para a parede como se fosse um rapazinho que se tivesse portado mal. Continuava a tossir em espasmos, embora estes parecessem querer abrandar.

- John - chamei. - Vira-te para nós, vadio, e olha para esta senhora.

Lentamente, ele começou a virar-se. O seu rosto continuava da cor de cinza, aparentando ter envelhecido dez anos, como se fosse um homem que em tempos estivera cheio de forças e que por fim perdera uma longa batalha contra a doença que acabara por consumi-lo. Os seus olhos baixos olhavam para as pantufas da prisão. A sua atitude era a de alguém que desejava desaparecer por artes mágicas.

- Quem és tu? - perguntou-lhe a Melinda de novo. - Como é que te chamas?

- John Coffey, minha senhora - respondeu ele, ao que ela respondeu imediatamente:

- Mas que não se escreve como a bebida.

O Hal, que continuava ao lado da mulher, ficou estupefato. A Melinda sentiu a reação do marido e bateu-lhe na mão num gesto tranqüilizador, sem despregar o olhar do homem de raça negra.

- Sonhei contigo - continuou ela numa voz suave e sonhadora. - Sonhei que andavas perdido na escuridão, tal como eu. Encontramo-nos.

O John Coffey continuou calado.

- Encontramo-nos no meio da trevas - acrescentou a Melinda. - Levanta-te, Hal, estás a tolher-me os movimentos. O marido levantou-se, olhando com um olhar descrente enquanto ela afastava para trás a coberta da cama.

- Melly, tu não podes...

- Não digas disparates - retorquiu ela, descrevendo um movimento circular com as pernas por cima da cama. - Claro que posso. - Alisou a camisa de dormir, espreguiçou-se e levantou-se da cama.

- Meu Deus - murmurou o Hal. - Meu bom Deus que estais no céu, olhem bem para ela!

A Melinda dirigiu-se para o John Coffey. O Brutal manteve-se afastado dela, exibindo no rosto uma expressão de perplexidade. Ela vacilou um pouco ao dar o primeiro passo, um pouco menos ao dar o segundo e, em seguida, até essa hesitação desapareceu do seu andar. Naquele momento, ocorreu-me a imagem do Brutal a entregar o carretel colorido ao Delacroix dizendo: “Lança-o... quero ver como é que ele corre.” O Mister Jingles tinha coxeado um pouco nessa altura, mas na noite seguinte, na noite em que o Del percorrera a Milha, o rato já estava ótimo.

A Melly colocou os seus braços em redor do John, abraçando-o. Este deixou-se ficar imobilizado por um momento, permitindo que o abraçassem e, pouco depois, ergueu uma mão, acariciando o topo da cabeça da Melinda. E o fez com uma suavidade infinita. A tez do seu rosto continuava acinzentada. Achei que ele tinha um aspecto terrivelmente adoentado.

Ela afastou-se mantendo o rosto erguido na direção do dele.

- Muito obrigada.

- Não tem de quê, minha senhora.

A Melinda voltou-se para o Hal, regressando para junto dele. Este colocou-lhe um braço por cima dos ombros.

- Paul... - era a voz do Harry. Estendia o pulso direito na minha direção, batendo no mostrador do relógio. Eram quase três da manhã. Por volta das quatro e meia a luz do dia começaria a despontar. Se pretendíamos que o Coffey regressasse a Cold Mountain antes do nascer do dia, teríamos de partir dentro em pouco. E eu queria que ele regressasse. Em parte porque, quanto mais aquela situação se prolongasse, menores seriam as hipóteses de conseguirmos que não dessem pela nossa falta, como era evidente. Mas para além disso, também queria que o John estivesse num lugar onde eu poderia, com toda a legitimidade, chamar um médico que o observasse, se necessário. Olhando para ele, achei muito provável que isso viesse a acontecer.

O casal Moores encontrava-se sentado na beira da cama com os braços à volta um do outro. Ainda pensei em pedir ao Hal que fôssemos até à sala de estar, para poder dar-lhe uma palavrinha em particular, mas apercebi-me de que poderia esperar até as galinhas terem dentes e que naquele momento ele não se mexeria de onde estava. Talvez conseguisse afastar os olhos da Melinda - no mínimo, durante alguns segundos - quando o Sol começasse a despontar, mas não naquela altura. - Hal, temos de nos ir embora.

Ele acenou com a cabeça sem olhar para mim. Observava a cor nas faces da mulher, a curva natural e descontraída que os seus lábios formavam, os seus novos cabelos negros.

Bati-lhe no ombro com a força suficiente para lhe despertar a atenção, ainda que só por uns escassos momentos.

- Hal, nós nunca estivemos em tua casa.

- O quê?...

- Nunca viemos aqui - continuei. - Mais tarde havemos de conversar, mas por agora é só o que necessitas de saber. Nunca viemos a tua casa.

- Sim, de acordo... - Fez um esforço para se concentrar em mim por alguns instantes, o que, nitidamente, foi bastante difícil. - Tiraste-o de lá, achas que conseguirás voltar a metê-lo lá dentro?

- Acho que sim. Talvez. Mas agora temos de nos pôr a andar.

- Como é que soubeste que ele podia fazer isto? - Então, abanou a cabeça, como se compreendesse que aquela não era a altura mais oportuna para uma conversa daquele teor. Paul... muito obrigado.

- Não é a mim que tens de agradecer - repliquei. Agradece ao John.

O Hal olhou para o John Coffey e estendeu-lhe a mão, tal como eu tinha feito no dia em que o Harry e o Percy o escoltaram até ao bloco.

- Obrigado. Muitíssimo obrigado - agradeceu o Moores. O John ficou a olhar para aquela mão. O Brutal acotovelou-lhe o flanco de uma maneira pouco despercebida. O John mostrou-se sobressaltado e depois agarrou na mão, dando-lhe um aperto. Para cima, para baixo, de regresso ao centro e soltar.

- Não tem de quê -.disse o John ao homem que, no decorrer normal dos acontecimentos, agarraria numa caneta com aquela mesma mão, a fim de assinar a ordem de execução do John Coffey.

O Harry bateu uma vez mais no mostrador do seu relógio de pulso, desta feita com um gesto de maior urgência.

- Brute? - chamei. - Estás pronto?

- Olá, Brutus - saudou a Melinda numa voz cheia de jovialidade, como se houvesse reparado na sua presença pela primeira vez. - É um prazer ver-te. Os cavalheiros gostavam de tomar uma chávena de chá? E tu, Hal? Eu posso prepará-lo. - Levantou-se outra vez. - Tenho andado um pouco adoentada, mas agora estou a sentir-me lindamente. Muito melhor do que há muitos anos a esta parte.

- Muito agradecido, Mistress Moores, mas temos de nos ir embora - retorquiu o Brutal. - Já passa da hora de o John ir para a cama. - Sorriu a indicar que se tratava de uma brincadeira, mas o olhar que lançou ao John expressava tanta ansiedade como a que eu próprio sentia.

- Bem... se têm a certeza...

- Sim, minha senhora. Vamos embora, Coffey. - Deu um pequeno empurrão no braço do John para que ele começasse a andar, o que este fez obedientemente.

- Esperem só um minuto! - exclamou a Melinda, soltando-se da mão do Hal correndo num passo ligeiro como o de uma menininha em direção ao John. Colocou os seus braços à volta dele e deu-lhe outro abraço. Em seguida, levou a mão à nuca e desapertou um fio fino que retirou do interior do corpete. Na extremidade havia um medalhão de prata. Estendeu-o ao John, que olhou para a jóia com uma expressão de incompreensão.

- É a imagem de São Cristóvão - informou ela. - Quero que fiques com ela Coffey, e que a uses ao pescoço. Manter-te-á em segurança. Por favor, coloca-a ao pescoço, fá-lo por mim.

Visivelmente perturbado, o John olhou para mim; por minha vez, olhei para o Hal, que primeiro abriu as mãos num gesto de impotência e depois assentiu com a cabeça.

- Aceita, John - disse eu. - É um presente para ti. O John aceitou o fio, enfiou-o pelo pescoço forte que nem o de um touro e colocou a medalha de São Cristóvão no interior da sua camisa. Naquele momento já tinha parado completamente de tossir, mas fiquei com a impressão de que parecia mais doente, com a pele mais lívida, do que em qualquer outra altura.

- Muito obrigado, minha senhora - agradeceu ele. - Não - replicou Melinda -, eu é que tenho de te agradecer. Muito obrigada, John Coffey.

 

9

No caminho de regresso, fui sentado na cabina da camioneta, enquanto Harry ia atrás; sentia-me muito satisfeito por ir ali. O sistema de aquecimento estava avariado, mas pelo menos não nos encontrávamos em terrenos descampados. Já havíamos percorrido pouco mais de quinze quilômetros quando o Harry avistou um pequeno desvio, por onde entramos.

- O que é que se passa? - perguntei. - É algum rolamento? - Na minha mente, o problema tanto poderia ser esse como qualquer outro componente do motor da Farmall, uma vez que o som que vinha da transmissão indicava que esta se encontrava à beira de ficar irremediavelmente avariada.

- Não - respondeu o Harry num tom de voz de quem se desculpava. - Só preciso de verter águas, mais nada. Tenho a bexiga quase a rebentar.

Acabamos todos por lhe seguir o exemplo, com a exceção do John. Quando o Brutal lhe perguntou se não gostaria de descer da camioneta para nos ajudar a regar o matagal, ele limitou-se a sacudir a cabeça sem erguer o olhar para nós. Permanecia encostado à parte de trás da cabina, enrolado num dos cobertores do exército como se este fosse um poncho mexicano. Eu não conseguia deduzir nada pela cara dele; todavia, ouvia a sua respiração - seca e entrecortada, como vento a soprar através de um canudo. Aquilo não me agradou nada.

Caminhei até um maciço de salgueiros, desapertei a braguilha e deixei correr. Ainda não me encontrava suficientemente distanciado da minha infecção urinária para que a amnésia se tivesse assenhoreado inteiramente do meu corpo, e senti-me grato por conseguir apenas urinar sem ter vontade de gritar. Ali fiquei a esvaziar a bexiga enquanto olhava para a Lua; mal me tinha dado conta de que o Brutal se encontrava junto de mim, a fazer a mesma coisa que eu, até que ele começou a falar.

- Ele nunca se sentará na Velha Faísca.

Voltei-me na sua direção, surpreendido e um pouco assustado pela certeza inexorável daquilo que a sua voz me transmitia.

- O que é que queres dizer com isso?

- Quero dizer que ele engoliu aquela coisa em vez de a ter cuspido, tal como das outras vezes, por qualquer razão que desconhecemos. É possível que leve uma semana... ele é muito corpulento e forte, mas aposto que será rápido. Um de nós fará a ronda habitual e lá estará ele, morto que nem uma pedra em cima da sua tarimba.

Pensei que tinha acabado de urinar, mas ao ouvir aquilo senti um arrepio a percorrer-me a espinha e urinei um pouco mais. Enquanto voltava a abotoar a braguilha, pensei que aquilo que o Brutal acabara de dizer era de uma racionalidade perfeita. E esperava, depois de tudo considerado, que ele tivesse razão. O John Coffey não merecia morrer de maneira nenhuma, caso eu estivesse certo nas conclusões a que chegara quanto à morte das garotas Detterick, mas, se ele viesse a morrer, não desejava que fosse pela minha mão. Não tinha a certeza de ser capaz de a erguer para o fazer, caso se chegasse a essa situação.

- Vamos embora - murmurou o Harry da escuridão. - Está a fazer-se tarde. Despachemo-nos com isto.

Enquanto caminhávamos para a camioneta, apercebi-me que tínhamos deixado o John completamente sozinho - uma estupidez bem ao nível do Percy Wetmore. Pensei que talvez ele já houvesse desaparecido; que tivesse cuspido os insetos e, assim que se tivesse dado conta de que ninguém o vigiava, se fizesse aos vastos territórios, qual aventureiro do antigamente. Tudo o que encontraríamos seria o cobertor com que ele se havia agasalhado.

Contudo, ele continuava no mesmo lugar, sentado com as costas apoiadas contra a traseira da cabina e os antebraços pousados sobre os joelhos. Ao som dos nossos passos, o John soergueu o olhar, tentando esboçar um sorriso. Aquele trejeito manteve-se suspenso por breves instantes no seu rosto acabrunhado, para logo depois desaparecer.

- Como é que te sentes, grande John? - perguntou o' Brutal, subindo para a traseira da pequena camioneta e enrolando-se no seu próprio cobertor.

- Estou ótimo, chefe - respondeu o John distraidamente. - Sinto-me muito bem.

- Dentro em pouco estaremos de regresso - acrescentou o Brutal, dando-lhe uma pequena palmada no joelho. - E depois de termos tratado de tudo, sabes que mais? Vou certificar-me de que te arranjo uma grande caneca de café bem quente com natas e açúcar.

“Podes apostar que sim”, pensei para comigo, dando a volta até à porta do lado do passageiro e entrando para a cabina. Isto é, se antes disso nós não formos apanhados e lançados para dentro de uma cela.

No entanto, como desde o momento em que fecháramos o Percy na cela do isolamento aquele pensamento não me largava, tal não me preocupou o suficiente para me manter acordado. Passei pelas brasas e sonhei com o Calvário. Com trovoada a oeste acompanhada de um cheiro que poderia ter sido de bagas de zimbro. O Brutal, o Harry, o Dean e eu próprio vestíamos roupas e chapéus de lata como se participássemos num filme do Cecil B. Demille. Éramos centuriões, imagino eu. Havia três cruzes; o Percy Wetmore e o Eduard Delacroix flanqueavam o John Coffey. Baixei o olhar até à minha mão e verifiquei que segurava num martelo ensangüentado.

Temos de o tirar dali, Paul!, gritava o Brutal. Temos de o tirar dali!

Só que isso não era possível; alguém tinha levado a estada de mão. Comecei a explicar isto mesmo ao Brutal, mas foi então que um sacolejo mais violento da camioneta me despertou. Estávamos a fazer marcha atrás no mesmo lugar onde ó Harry ocultara o veículo algumas horas antes, num dia que me dava a impressão de se ter distanciado até aos primórdios do tempo.

Saímos da cabina e demos a volta até à parte de trás. O Brutal desceu sem qualquer problema, mas os joelhos do John Coffey foram-se abaixo e ele esteve prestes a cair no chão. Foi preciso que nós três o tivéssemos amparado, e, mal se encontrava de novo de pé, foi acometido por outro dos seus ataques de tosse, sendo este o mais grave de todos. Dobrou-se sobre si mesmo, levando a mão à boca e premindo com força, a fim de abafar a tosse.

Quando a tosse lhe passou um pouco, cobrimos uma vez mais a dianteira da Farmall com ramadas de pinheiro, tendo começado a percorrer o caminho por onde viéramos horas antes. A pior parte de toda aquela escapadela surrealista foi constituída - pelo menos para mim - pelos últimos duzentos metros, em que quase corremos em direção a sul, ao longo do acostamento da estrada. Conseguia ver (ou imaginei que via) no céu os primeiros clarões do amanhecer e tive a certeza de que qualquer lavrador mais madrugador, já nas suas terras para colher as abóboras, ou para apanhar as últimas batatas-doces deixadas nos sulcos onde as semeara, nos surgiria pela frente não podendo deixar de dar pela nossa presença. E ainda que isso não viesse a acontecer, iríamos ouvir alguém (na minha imaginação era a voz do Curtis Anderson) a gritar: “Parem imediatamente!” no momento em que eu usava a chave Aladino para abrir o portão da cerca que dava acesso ao túnel. Em seguida, apareceriam duas dúzias de guardas, empunhando carabinas, que entrariam pelo arvoredo, dando a nossa pequena aventura por terminada.

Na altura em que realmente chegamos à vedação, o meu coração pulsava com tal violência que eu conseguia ver pequenos pontos de luz a explodir em frente dos meus olhos, acompanhando cada uma das suas pulsações. Sentia as mãos geladas e entorpecidas, dando-me a sensação de que não me pertenciam, e, durante um período de tempo que me pareceu ser infinito, não fui capaz de inserir a chave na fechadura.

- Oh, Jesus Cristo, luzes de faróis! - exclamou o Harry num gemido.

Ergui o olhar e avistei feixes de luz intensa na estrada. O molho de chaves esteve quase a cair-me das mãos; consegui agarrá-lo no último instante.

- Dá-me as chaves - disse o Brutal. - Eu abro o portão. -Não é necessário, já consegui - retorqui. Finalmente, a chave entrou na ranhura e eu fi-la girar. Momentos depois já nos encontrávamos do lado de dentro. Agachamo-nos por trás do portão levadiço, observando um caminhão de transporte do pão a passar pela penitenciária. Mesmo ao meu lado ouvia a respiração torturada do John Coffey. Soava como fosse um motor que estivesse prestes a acabar-se-lhe o óleo Quando saímos da prisão, ele tinha segurado o portão para nós passarmos, sem ter demonstrado o mínimo esforço, mas daquela vez nem sequer nos passou pela cabeça pedir-lhe que nos ajudasse; isso estava completamente fora de questão, O Brutal e eu conseguimos abrir o portão enquanto o Harry conduzia o John pelas escadas abaixo. O homem corpulento caminhava num passo hesitante, mas ainda assim conseguiu descer os degraus. O Brutal e eu passamos pelo portão depois dele tão rapidamente quanto possível, depois baixamo-lo e fechamo-lo de novo à chave.

- Bolas, tenho a impressão de que vamos... - começou o Brutal a dizer, mas eu interrompi-o com uma violenta cotovelada nas costelas.

- Não te atrevas a dizê-lo - proferi eu. - Nem sequer penses nisso até ele se encontrar em segurança dentro da sua cela.

- E ainda temos de nos preocupar com o Percy - acrescentou o Harry. As nossas vozes ressoavam com uma vibração cava no túnel de tijolos. - A madrugada só terminará depois de termos tratado dele.

Pela forma como os acontecimentos vieram a desenrolar-se, verificamos que a nossa madrugada estava muito longe de ter chegado ao fim.