À Espera de um Milagre
Parte Cinco ........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, não fui capaz de suportar mais aquela situação e acenei ligeiramente ao Dean. Este dirigiu-se para o meu gabinete, levando consigo uma garrafa de Cola RC que havia comprado ao Pouca Terra, e voltou a sair um ou dois minutos depois. Naquele momento, a bebida encontrava-se no interior de um pequeno púcaro de alumínio, que os prisioneiros não poderiam quebrar e utilizar como arma de ataque.
Agarrei no púcaro e olhei em volta. O Harry, o Dean e Brutal não despregavam os olhos de mim, nem o John Coffey. Todavia, isso não se verificava com o Percy, que entretanto voltara para a arrecadação, onde provavelmente se sentiria mais à vontade naquela noite em especial. Rapidamente, cheirei o conteúdo do púcaro, sem que dele se evolasse qualquer odor, para além do da RC, a qual, nesses tempos, tinha uma fragrância a canela estranhamente agradável.
Levei a bebida até à cela do Wharton. Encontrava-se estendido na sua tarimba. Não estava a masturbar-se - pelo menos, por enquanto - mas já tinha uma tumefação bastante avantajada por baixo das cuecas, e de vez em quando dava um bom apalpão saudável ao membro retesado, como se fosse um mau rabequista a tocar uns acordes suplementares nas cordas tensas.
- Kid - chamei.
- Não me incomode - replicou ele.
- De acordo - concordei. - Como esta noite te tens comportado como um ser humano, o que é quase um recorde, trouxe-te um refrigerante, mas, como não queres ser incomodado, vou bebê-lo eu.
Fiz menção de fazer o que acabara de dizer erguendo o púcaro de alumínio (todo amolgado por terem batido com ele contra as barras das celas) até aos lábios. Como se fosse um relâmpago, o Wharton levantou-se da tarimba, o que não me surpreendeu. Não fora um bluff de grande risco; quase todos os condenados mais perigosos - ladrões, violadores e os homens marcados para a Velha Faísca - era uns gananciosos pelas suas guloseimas, e aquele não constituía exceção.
- Dê cá isso, seu palerma - disse o Wharton. Expressou-se como se fosse ele o capataz, não passando eu de um lacaio dos mais desprezíveis. - Dê isso ao Kid.
Mantive o púcaro do lado de fora das barras, deixando que fosse ele a estender o braço para lhe pegar. Fazê-lo de outra forma é a receita certa para a ocorrência de um desastre, tal como qualquer guarda de prisão com muitos anos de experiência nos dirá. Lembravamo-nos disso, sem sequer nos darmos conta de que o fazíamos - da mesma maneira que sabíamos que não devíamos permitir aos prisioneiros que nos tratassem pelos nossos nomes próprios e que o som de chaves que se entrechocavam com rapidez significava a ocorrência de problemas no bloco uma vez que esse era o ruído provocado por um guarda a correr, e estes nunca corriam, a menos que se verificassem complicações. Isso era o gênero de coisa que o Percy Wetmore nunca seria capaz de aprender.
No entanto, naquela noite, o Wharton não estava interessado em agarrar ou asfixiar ninguém. Arrancou-me da mão púcaro de alumínio, bebeu o refrigerante em três grandes goladas e soltou um estrondoso arroto.
- Excelente! - exclamou.
- O púcaro - disse eu, estendendo a mão.
O Wharton deixou-se ficar com ele por alguns momento exibindo um olhar trocista.
- Suponha que eu quero ficar com ele?
- Nesse caso, entraremos na cela para to tirar - respondi com um encolher de ombros. - Em seguida, vais para a cela pequena e terás bebido a tua última RC. Isto é, a menos que costumem servi-las nas profundezas do inferno.
- Eu não gosto de piadas sobre o inferno, cabeça de parafuso - retorquiu ele com o sorriso a apagar-se-lhe dos lábios. Estendeu-me o púcaro através das barras. - Aqui está. Pode levá-lo.
Agarrei no púcaro. Atrás de mim ouviu-se a voz do Percy, - Em nome de Deus, porque é que ofereceste a um mentecapto como esse um refrigerante?
Porque o refrigerante tinha soporíferos da enfermaria em quantidade suficiente para o deixar de costas durante quarenta e oito horas, e ele não dera por nada, pensei para comigo.
- No que diz respeito ao Paul - interveio o Brutal -, a misericórdia nunca é restrita; tomba dos céus como uma chuva suave.
- Hem?! - perguntou o Percy com o sobrolho franzido. - Significa que ele tem um coração bondoso. Sempre teve e sempre terá. Queres jogar à bisca, Percy?
- Com a exceção do burro, esse é o jogo de cartas mais idiota que alguma vez existiu - respondeu o Percy com uma expressão desdenhosa.
- Foi por isso que me ocorreu que talvez gostasses de o jogar - replicou o Brutal com um sorriso cheio de doçura. - Hoje estão todos muito espertalhões - observou o Percy, tendo ido todo amuado para o meu gabinete. Não lhe agradava muito o fato de o pequeno lorpa instalar o traseud por detrás da minha secretária, mas mantive a boca fechada Os ponteiros do relógio continuavam a arrastar-se. Meia-noite e vinte; meia-noite e meia. À meia-noite e quarenta,
John Coffey ergueu-se da sua tarimba e colocou-se junto da porta da cela; as suas mãos agarravam as barras da maneta solta. O Brutal e eu dirigimo-nos para a cela do Wharton e olhamos para o interior. Estava deitado sobre a tarimba, a sorrir para o teto. Mantinha os olhos abertos, mas estes assemelhavam-se a bolas de vidro. Tinha uma mão em cima do peito, enquanto a outra pendia flacidamente de um dos lados da tarimba, com o nó dos dedos a roçar pelo chão.
- Meu Deus - disse o Brutal -, passou de Billy the Kid a Alie, o Choramingas em menos de uma hora. Pergunto a mim mesmo quantos comprimidos de morfina é que o Dean terá posto na bebida.
- O suficiente - repliquei. A minha voz tremia ligeiramente. Não sei se o Brutal se apercebeu desse pormenor, mas a mim não me passou despercebido. - Mãos a obra. Ponhamos em prática o que planeamos.
- Não queres esperar que ali o lindinho perca a consciência?
- Ele já a perdeu, Brute. Está é muito pedrado para fechar os olhos.
- Tu é que és o chefe. - Olhou em redor à procura do Harry, mas este já se encontrava presente. O Dean sentava-se muito direito à mesa do guarda de serviço, baralhando as cartas com tanta rapidez e violência que era um milagre elas não pegarem fogo, e de vez em quando olhava de relance para a esquerda, na direção do meu gabinete. Estava de olho no Percy.
- Já está na hora? - perguntou o Harry. O seu rosto alongado, com traços cavalares, mostrava-se muito empalidecido acima da camisa azul do uniforme; no entanto, a sua fisionomia denotava determinação.
- Sim - confirmei. - Está na hora. Vamos pôr o nosso plano em ação.
O Harry benzeu-se e beijou a ponta do polegar. Em seguida encaminhou-se para a cela do isolamento, abriu a porta e regressou com a camisa-de-força. Entregou-o ao Brutal. Começamos a percorrer a Milha Verde, os três. O Coffey continuava junto à porta da sua cela, observando todos os nossos movimentos sem proferir uma única palavra. Quando chegamos à secretária no corredor o Brutal colocou a camisa-de-força atrás das costas as quais eram suficientemente espadaúdas para o ocultar com facilidade.
- Sorte - disse o Dean. Tinha as faces tão pálidas como as do Harry, embora se mostrasse tão determinado quanto este.
O Percy encontrava-se por detrás da minha mesa, tal como esperávamos, sentado na minha cadeira e franzindo a testa enquanto lia o livro que durante as últimas noites o tinha acompanhado para todo o lado - não era a Argozy ne Stag, mas sim Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospícios. Ter-se-ia pensado, a fazer fé no olhar de culpa e de consternação que ele nos lançou quando entramos, que se tratava de Os Últimos Dias de Sodoma e Gomorra.
- O que foi? - perguntou ele, fechando o livro com toda a rapidez. - O que é que querem?
- Falar contigo, Percy - disse eu -, mais nada. Contudo, ele leu muito mais nas nossas expressões do que o mero desejo de conversar, e levantou-se da cadeira que nem uma flecha, apressando-se - sem no entanto ter começado a correr, embora não houvesse faltado muito - na direção da porta aberta que dava para a arrecadação. Convenceu-se de que tínhamos ido à sua procura para lhe darmos uma boa ensinadela, no mínimo dos mínimos e, muito provavelmente, uma boa sova.
O Harry aproximou-se por detrás dele, cortando-lhe a retirada pela porta e cruzando os braços à frente do peito.
- Mas que diabo! - exclamou o Percy, voltando-se para mim, alarmado, apesar de se esforçar por não o mostrar. - O que é isto?
- Não perguntes, Percy - repliquei-lhe. Eu tinha pensado que ele ficaria bem... pelo menos, que iria regressar ao normal depois de termos dado início a todo aquele assunto tresloucado, mas o certo é que as coisas não estavam a desenrolar-se como eu supusera. Era-me difícil acreditar no que estava a fazer. Era como se tudo aquilo não passasse de um sonho mau. Esperava constantemente que a minha mulher me sacudisse até eu acordar, para me dizer que estivera a gemer durante o sono. - Será mais fácil se te limitares a vogar no sentido da maré.
- O que é que o Howell tem escondido atrás das costas? perguntou o Percy numa voz enrouquecida, dando meia volta para poder observar melhor o que o Brutal estava a fazer.
- Nada - respondeu este. - Bem... suponho que isto.
Estendeu a mão com que segurava na camisa-de-força sacudindo-o contra uma das ancas, como se fosse um toureiro a lançar a capa perante um touro que investia.
Os olhos do Percy arregalaram-se e ele arremessou-se para a frente. Tinha a intenção de desatar a correr, mas o Harry agarrou-o pelos braços.
Larga-me imediatamente! - gritou o Percy, tentando soltar-se do Harry. Não teria possibilidades de se escapar. Harry pesava, pelo menos, mais cinqüenta quilos que ele e tinha os músculos de um homem que passava a maior parte do tempo dele a lavrar a terra e a cortar madeira; todavia, o Percy ainda conseguiu fazer valer alguns dos seus esforços, arrastando o Harry até meio do gabinete, deslocando a horrível carpete verde que eu dizia a mim mesmo que teria de substituir, sem nunca o fazer. Por breves instantes, pensei que ele iria conseguir libertar um braço; o pânico pode ser um motivador muito forte.
- Acalma-te, Percy - aconselhei. - Será mais fácil se... - Não te atrevas a dizer-me para me acalmar, meu grandessíssimo ignorante! - berrou o Percy, dando safanões com os ombros, tentando libertar-se dos braços do Harry. - Só quero é que se afastem de mim. Todos vocês! Eu tenho os meus conhecimentos. Gente importante! Se não pararem já com isto, terão de ir a pé até à Carolina do Sul só para conseguir uma refeição na sopa dos pobres!
Investiu uma vez mais para a frente, batendo com as coxas contra a minha secretária. O livro que ele estivera a ler, Os Cuidados a Prestar aos Doentes Mentais em Hospícios, sofreu um safanão, enquanto o mais pequeno, do tamanho de um pequeno livro de bolso e que estivera escondido dentro do outro, saiu do seu lugar. Não admirava que o Percy tivesse exibido uma expressão de culpa quando entramos no gabinete. Não eram Os Últimos Dias de Sodoma e Gomorra, mas era o que por vezes costumávamos dar aos prisioneiros com uma fusa mais forte e que por se terem comportado suficientemente bem mereciam uma atenção. Tenho a impressão de que já falei disto - o pequeno livro aos quadradinhos em que a
Olívia Palito fornica com toda a gente, exceto com o Sweet Pea, o miúdo.
Achei lamentável que o Percy tivesse ido para o meu gabinete entreter-se com aquele gênero de pornografia tão frouxa e o Harry - aquilo que eu conseguia ver dele por cima do ombro do Percy, que continuava a tentar libertar-se - ficou com uma expressão ligeiramente nauseada, mas o Brutal desatou às gargalhadas o que despojou o Percy da sua vontade de se debater, pelo menos, momentaneamente.
- Oh, Percizinho - disse ele. - O que é que a tua mãe diria? Já agora, o que é que o governador diria? As faces do Percy adquiriram uma tonalidade vermelha-escura.
- Cala-te e deixa a minha mãe fora do assunto.
O Brutal lançou-me a camisa-de-força, colocando o rosto mesmo em frente do do Percy.
- Com certeza, desde que estendas os braços como um bom rapazinho.
Os lábios do Percy tremelicavam e os olhos estavam demasiado brilhantes. Compreendi que se encontrava à beira das lágrimas.
- Não quero - disse ele numa voz trêmula de criança -, e vocês não podem obrigar-me. - Em seguida, elevou' a voz e começou a gritar por ajuda. O Harry retraiu-se todo, o mesmo sucedendo a mim próprio. Se alguma vez estivemos' prestes a pôr fim a tudo aquilo, foi precisamente naquela altura. E era o que teríamos feito, não fora a presença do Brutal. Este não hesitou nem um segundo. Colocou-se por detrás do Percy, tendo ficado ombro a ombro com o Harry, o qual continuava a manter as mãos do Percy imobilizadas atrás das costas deste. O Brutal avançou e agarrou no Percy pelas orelhas.
- Pára de berrar - ordenou-lhe o Brutal. - A menos que desejes ficar com as orelhas mais singulares que existem em todo o mundo.
Ao ouvir aquilo, o Percy parou de gritar por ajuda, limitando-se a ficar ali a tremer, baixando o olhar para a capa daquele livro ordinário aos quadradinhos, no qual se viam o Popey e e a Olívia a terem relações sexuais numa posição deveras criativa, de que eu já ouvira falar mas que nunca tinha experimentado. “Oohhh, Popeye!”, lia-se na legenda acima da cabeça da Olívia. “Âque... âque... âque... âque!”, lia-se na que se encontrava por cima de Popeye. Ele continuava a fumar o seu cachimbo.
- Estende os braços - disse o Brutal -, e vamos acabar com todos estes disparates. Despacha-te.
- Não quero - replicou o Percy. - Recuso-me a fazê-lo e tu não podes obrigar-me. - Não sei se sabes, mas estás redondamente enganado, a esse respeito - continuou o Brutal, agarrando firmemente nas orelhas do Percy, enquanto as fazia girar como quem gira os botões de um fogão. Isto é, um fogão que não tivesse a intensidade de calor desejável para se poder cozinhar. O Percy soltou um guincho de dor e de surpresa; eu teria dado bastante para não ter ouvido aquilo. Bem vêem, não se tratava somente de dor e surpresa também era de compreensão. Pela primeira vez em toda a sua vida, o Percy tinha a percepção de que as coisas horríveis não aconteciam apenas às outras pessoas, àqueles que não eram suficientemente afortunados para serem familiares do governador. Eu só desejava dizer ao Brutal que parasse com aquilo, mas como é evidente não o podia fazer. As coisas já haviam ido longe de mais para que eu procedesse dessa forma. Tudo o que podia fazer para acalmar a minha consciência era recordar a mim mesmo o que o Percy tinha feito ao Delacroix, fazendo-o passar por sabia Deus que agonias, só porque este tinha ousado rir-se dele. No entanto, aquela recordação não contribuiu em muito para me tranqüilizar. É possível que isso tivesse acontecido se a minha maneira de ser estivesse mais em consonância com a do Percy.
- Estende-me esses braços para a frente, querido - disse o Brutal -, ou eu dou-te outra dose.
O Harry já tinha soltado os braços do jovem Mr. Wetmore. Este desatou a chorar convulsivamente como uma criança, com as lágrimas, que até então lhe haviam marejado os olhos, a correrem-lhe livremente pelas faces abaixo, após o que, num gesto brusco, estendeu as mãos, qual sonâmbulo num filme de comédia. Em três segundos, enfiei-lhe as mangas da camisa-de-força pelos braços abaixo. Mal as tinha puxado até aos ombros, já o Brutal largara as orelhas do Percy, para poder agarrar nas correias que pendiam dos punhos do colete. Puxou as mãos do Percy em redor dos flancos, de forma a que os braços ficassem apertadamente cruzados à frente do peito. Entretanto o Harry tratou da parte de trás, prendendo bem as tiras de lona que se entrecruzavam. Depois de o Percy ter desistido e estendido os braços todo aquele processo ficou concluído em menos de dez segundos.
- Muito bem, fofos - acrescentou o Brutal. - Em frente; vamos a marchar!
Ele, porém, recusava-se a andar. Fitou o Brutal para logo a seguir me olhar com uma expressão aterrorizada. Naquele momento, o Percy não fazia a mínima alusão aos seus conhecimentos, nem tão-pouco à maneira como seríamos forçados a ir para a Carolina do Sul apenas para podermos comer uma refeição graças à generosidade de alguém; o Percy encontrava-se muito para lá desse tipo de argumentos.
- Por favor - murmurou ele numa voz áspera e permeada de lágrimas. - Não me leves para junto dele, Paul. Foi então que compreendi o motivo por que ele estava em pânico e se debatera com tanta violência; estava convencido de que o íamos colocar junto do Bill “Selvagem” Wharton; que o seu castigo por causa da esponja seca seria um tratamento especial ministrado pelo nosso psicopata interno. Ao invés de sentir qualquer simpatia pelo Percy, por ter compreendido a razão do seu medo, senti apenas desdém e uma maior determinação. Ao fim e ao cabo, o homem estava a julgar-nos pela sua bitola, caso as nossas posições tivessem sido invertidas.
- Não é para junto do Wharton que vais - disse-lhe eu. - É sim para a cela do isolamento, Percy. Vais passar três ou quatro horas lá dentro, sozinho na escuridão, a pensar naquilo que fizeste ao Delacroix. Muito provavelmente já é tarde de mais para poderes aprender novas lições quanto à forma como te deves comportar... pelo menos, é essa a opinião do Brutal, mas eu continuo a ser otimista. Agora, mexe-te.
Ele obedeceu, resmungando entre dentes que haveríamos de lamentar aquilo, lamentar e muito, que esperássemos para ver, mas, de uma maneira geral, dava a impressão de se sentir aliviado e não demasiado preocupado.
Quando o conduzimos para o corredor, o Dean lançou-nos um olhar arregalado de surpresa e de uma inocência tão cheia de candura que eu teria desatado a rir se o assunto não se revestisse de tanta seriedade.
- Diz-me uma coisa: não te parece que a brincadeira já foi longe de mais? - perguntou o Dean.
- Cala-me mas é essa boca, se sabes o que é bom para ti - vociferou o Brutal. Havíamos ensaiado aquelas frases à hora do almoço; por isso, tudo aquilo me parecia ser uma encenação, apenas umas linhas mal alinhavadas, mas, se servissem para assustar e confundir o Percy, tanto melhor, uma vez que ainda poderiam vir a salvar o emprego do Dean Stanton, caso as coisas chegassem a esses extremos. Por mim não pensava que isso fosse viável; no entanto, tudo era possível. Desde então, sempre que duvido disso, limito-me a pensar no John Coffey e no rato do Delacroix.
Obrigamos o Percy a percorrer a Milha Verde aos tropeções, enquanto ele nos pedia ofegante que abrandássemos o passo, dizendo que cairia de cara no chão se não fôssemos mais devagar. O Wharton continuava deitado na sua tarimba, mas passamos pela cela dele demasiado depressa para conseguir ver se ainda dormia ou se estava acordado. O John Coffey continuava junto à porta da cela, observando tudo o que se passava no bloco.
. Tu és um homem mau e mereces ir para aquele lugar escuro - disse ele, mas não me parece que o Percy o tenha ouvido.
Entramos na cela do isolamento. As faces avermelhadas do Percy estavam molhadas de lágrimas, enquanto os olhos lhe rebolavam nas órbitas; os seus cabelos ondulados, a que ele prestava tantos cuidados, caíam-lhe pela testa todos despenteados. Com uma mão, o Harry retirou-lhe o revólver do coldre e com a outra agarrou no bastão de nogueira que tão querido lhe era.
- Não te preocupes, porque te serão devolvidos - prometeu-lhe o Harry. A sua voz deixava adivinhar um certo constrangimento.
- Quem me dera poder dizer o mesmo quanto ao teu emprego - replicou o Percy. - Aos empregos de todos vocês. Não podem fazer-me uma coisa destas. Não podem!
Era óbvio que ele se encontrava na disposição de continuar com aquele tema, mas nós não tínhamos tempo para ouvir a sua ladainha. Eu enfiara num dos meus bolsos um rolo de fita de fricção, o antepassado dos anos 30 da fita de embalagem que se usa hoje em dia. Quando o Percy avistou o rolo, começou a recuar. O Brutal aproximou-se dele por trás e agarrou-o, manietando-lhe os braços até eu ter colocado a fita a tapar-lhe a boca desenrolando o rolo em redor da cabeça até à nuca para maior segurança. Quando a fita fosse retirada, o Percy iria ficar com umas quantas madeixas de cabelo a menos e uns lábios severamente irritados para compor o ramalhete, mas eu deixara de me preocupar muito com as conseqüências. Estava positivamente pelos cabelos com o Percy Wetmore.
Retrocedemos e afastamo-nos dele. Ficou no meio da cela, por baixo da lâmpada, imobilizado pela camisa-de-força, a respirar por narinas frementes, e soltando sons abafados por detrás da fita que lhe tapava a boca. No cômputo geral, o seu era o mesmo de qualquer prisioneiro.
- Quanto mais sossegado te mantiveres, mais depressa sairás daqui - disse-lhe eu. - Tenta não te esqueceres disso Percy. - E se te sentires sozinho, pensa na Olívia Palito aconselhou o Harry com mordacidade. - “Âque.., tique... âque... âque!”
Em seguida, saímos dali. Fechei a porta e o Brutal trancou-a à chave. O Dean encontrava-se um pouco afastado na Milha, mesmo do lado de fora da cela do Coffey. Já tinha inserido a chave-mestra na fechadura de cima. Entreolhamo-nos sem que nenhum de nós dissesse fosse o que fosse. Não havia necessidade de quaisquer palavras. Havíamos posto o mecanismo em movimento; naquele momento, tudo o que poderíamos esperar era que as coisas corressem de acordo com os planos que havíamos delineado, em vez de saltarem para fora dos carris algures ao longo do caminho.
- Continuas a querer dar um passeio, John? - perguntou o Brutal.
- Sim, senhor - respondeu o Coffey. - Acho que sim, - Excelente - atalhou o Dean. Girou a chave na primeira fechadura, tirou-a e inseriu-a na segunda.
- Vamos ter de te acorrentar, John? - perguntei.
O Coffey deu a impressão de ter ficado a pensar naquilo. - Se quiserem, podem - respondeu ele por fim. - Mas não há necessidade.
Acenei ao Brutal, ele abriu a porta da cela, e eu virei-me para o Harry que, mais ou menos, apontava o revólver do Percy na direção do Coffey, enquanto este saía da cela. - Entrega isso ao Dean - disse-lhe eu.
O Harry pestanejou como se tivesse estado completamente ausente, reparando que a arma e o bastão do Percy continuavam nas suas mãos, e entregou as duas coisas ao Dean.
Entretanto, o Coffey, com a sua figura corpulenta, entrou no corredor onde a cabeça calva quase tocava nas lâmpadas Vendo-o ali com as mãos estendidas à sua frente e os ombros inclinados para o seu peito entroncado pensei a mesma coisa que pensara a primeira vez que o vira: um urso enorme que tinha sido capturado.
- Fecha à chave os brinquedos do Percy na mesa do corredor até regressarmos - disse eu.
- Se regressarmos - acrescentou o Harry.
- De acordo - respondeu-me o Dean sem prestar atenção ao que o Harry dissera.
E se alguém aparecer por aqui... o mais provável é ninguém vir até cá, mas se por acaso aparecer alguém, o que é que tu lhe dizes?
- Que o Coffey ficou perturbado por volta da meia-noite -
replicou o Dean. A sua expressão era tão aplicada como a de um estudante a fazer um exame importante. Tivemos de o meter na camisa-de-força e fechá-lo na cela do isolamento. Caso se ouça algum barulho, quem quer que o ouça deduzirá que é ele. - Ergueu o queixo na direção de John Coffey.
- E quanto a nós? - inquiriu o Brutal por sua vez. - O Paul foi à administração buscar o processo do Del para se inteirar do nome das testemunhas - continuou o Déan. - O que desta vez é um assunto muito importante, dado que a execução dele correu de forma tão atabalhoada. Disse que o mais certo seria ter de ficar por lá durante o resto do turno. Tu, o Harry e o Percy foram à lavanderia pôr a vossa roupa a lavar.
Pois bem, isso era o que se costumava dizer. Havia noites em que tinha lugar um fogo de dados na arrecadação da lavanderia, enquanto nas outras era pôquer, cartas ou qualquer outro jogo. Os guardas que participavam neles costumavam dizer que iam pôr a roupa a lavar. Naquelas reuniões, bebia-se normalmente uísque destilado em casa e, de vez em quando, um charro passava de mão em mão até completar o círculo. Suponho que isto acontece em todas as penitenciárias desde que estas foram inventadas. Quando se passa toda a vida a vigiar homens de maus princípios, é impossível evitarmos suar-nos um pouco. Em qualquer dos casos, era pouco provável que alguém aparecesse no bloco. “A lavagem das roupas” era um assunto tratado com extrema discrição em Cold Mountain.
- Tudo bem com o “Senhor a Postos” - disse eu, dando meia volta ao Coffey para o pôr em movimento. - E se tudo for por água abaixo, Dean, não sabes nada de nada. - Isso é muito fácil de dizer, mas...
Naquele preciso momento, um braço magricela saiu disparado por entre as barras da cela do Wharton, agarrando no músculo do braço do Coffey. Todos ficamos sem fôlego. Em Princípio Wharton deveria estar morto para o mundo, quase que em coma. Contudo ali se encontrava ele de pé, com o corpo a oscilar de um lado para o outro, qual pugilista violentamente esmurrado exibindo um esgar sorridente e um olhar toldado.
A reação do Coffey foi absolutamente notável. Não afastou, mas ficou também a arquejar, inspirando o ar por cima dos dentes inferiores, como alguém que houvesse tocado inadvertidamente em algo frio e desagradável. Os seus olhos arredondaram-se e, por breves momentos, pareceu nunca ter visto o mentecapto, quanto mais levantar-se à mesma hora que ele todas as manhãs e deitar-se na mesma altura todas as noites. Mostrara-se bastante alerta - presente - quando quis que eu entrasse na sua cela, de maneira a poder tocar-me. Conseguir evitar o mal, em linguagem do Coffey. Quando tinha estendido as mãos para o rato, mostrara exatamente a mesma atitude. Agora, e pela terceira vez, a sua fisionomia iluminara-se, como se um foco de luz houvesse sido, subitamente, ligado no interior do seu cérebro. Só que desta vez era diferente. Desta vez era mais frio, e perguntei a mim mesmo o que é que sucederia se o John Coffey, de súbito, decidisse entrar em fúria. Estávamos munidos das nossas armas, pelo que poderíamos alvejá-lo; contudo, subjugá-lo poderia vir a provar ser uma tarefa bastante árdua.
Nas feições do Brutal li pensamentos similares; todavia, o Wharton continuava a exibir o seu sorriso de imbecil pedrado, com os lábios descaídos.
- Onde é que pensas que vais? - perguntou ele. As suas palavras saíram-lhe da boca numa toada arrastada.
O Coffey mantinha-se imóvel, fitando primeiro o Wharton, depois a sua mão, para logo voltar a olhar para o seu rosto. Eu não conseguia ler aquela expressão. Quer dizer, detectava a inteligência no seu semblante, mas era incapaz de o ler. Quanto ao Wharton, não me sentia minimamente preocupado com ele. Mais tarde, não se recordaria de nada daquilo; seria como um bêbedo a caminhar por uma zona completamente às escuras.
- Tu és um homem mau - sussurrou o Coffey e eu não consegui destrinçar o que lhe ouvia na voz: sofrimento, cólera ou temor. Talvez uma amálgama dos três sentimentos. O Coffey baixou o olhar uma vez mais na direção da mão que continuava no seu braço, da mesma forma que olharia para um inseto que o pudesse picar de maneira bastante desagradável, caso estivesse decidido a isso.
- É verdade, negro - retorquiu o Wharton com um sorriso matreiro e sinistro. - Tão mau quanto possas imaginar subitamente, tive a certeza absoluta de que estava prestes a acontecer algo, horrível, algo que iria alterar o curso planeado daquele início de madrugada, da mesma forma que um terremoto de proporções catastróficas pode alterar o leito de um rio. Iria suceder algo e nada que eu ou qualquer de nós pudesse então o impediria.
Foi então que o Brutal estendeu a mão e retirou a do Wharton do braço do John Coffey, pondo termo àquele meu pressentimento de inevitabilidade. Era como se um circuito potencialmente perigoso tivesse sido interrompido. Eu já vos disse que durante todo o tempo em que trabalhei no Bloco E a linha direta para o governador nunca tocou. O que era verdade, mas imagino que, se isso tivesse acontecido alguma vez, teria sentido o mesmo alívio que me invadiu quando o Brutal retirou a mão do Wharton do braço daquele homem gigantesco que se elevava ao meu lado. Uma vez mais, os olhos de Coffey adquiriram uma expressão ausente; era como se o foco de luz até então existente no seu cérebro houvesse sido desligado.
- Deita-te, Billy - disse o Brutal. - Descansa um pouco. - Aquela era habitualmente a minha frase para os acalmar, mas, dadas as circunstâncias, não me incomodei por ele a ter utilizado.
- Talvez faça isso mesmo - concordou o Wharton. Num passo cambaleante começou a retroceder e quase caiu, mas recuperou o equilíbrio no último instante. - Oohhh, paizinho! A cela está a girar. Parece que estou bêbedo.
Recuou até à tarimba, mantendo o olhar atordoado no Coffey enquanto seguia recuando.
- Os negros deviam ter a sua própria cadeira elétrica - disse ele. Então, a parte de trás dos seus joelhos bateu na tarimba, e ele deixou-se tombar. Antes de a cabeça ter tocado na almofada da prisão, já começara a ressonar; os seus olhos mostravam umas olheiras azuladas e profundas, enquanto a ponta da língua pendia da boca.
- Como é que ele foi capaz de se levantar com tanta droga no bucho? - perguntou o Dean num murmúrio.
- Isso não interessa agora já perdeu a consciência - respondi. - Se ele voltar a querer despertar, dá-lhe outro comprimido dissolvido num copo de água. Não lhe dês mais do que um. Tem cuidado. Não queremos matá-lo.
- Fala por ti - atalhou o Brutal num resmungo, lançando ao Wharton um olhar de desprezo. - Seja como for, é impossível matar um gorila como ele só com drogas. Eles desabrocham sob o seu efeito.
- Ele é um homem mau - repetiu o Coffey, desta feita num tom mais baixo, como se não estivesse bem certo daquilo que estava a dizer, nem do seu significado.
- Tens toda a razão - corroborou o Brutal. - Terrivelmente mau! Mas isso agora não interessa, uma vez que não vamos ter de dançar o tango com ele. - Retomamos a nossa caminhada; o Coffey seguia ladeado pelos quatro, como se fôssemos idólatras em redor de um ídolo que tivesse assumido uma qualquer semivida pouco definida. - Diz-me uma coisa, John... sabes para onde é que vamos levar-te? - inquiriu o Brutus.
- Para conseguir evitar o mal - respondeu ele. - penso que é uma senhora? - Olhou para o Brutal com uma expressão de ansiedade esperançada.
- É isso mesmo - retorquiu o Brutal com um acenar afirmativo de cabeça. - Mas como é que soubeste isso? Como é que sabes?
O John Coffey ficou a avaliar aquela pergunta com todo o cuidado, após o que abanou a cabeça.
- Não sei - disse ele ao Brutal. - Para lhe dizer a verdade, chefe, eu não sei muito de nada. Nunca soube. Tivemos de contentar-nos com aquela explicação vaga.
6
Eu sabia que a pequena porta existente entre o meu gabinete e os degraus que davam para a sala da arrecadação não fora construída levando em consideração as pessoas da estatura do Coffey, mas nunca me apercebera de até que ponto aquela disparidade existia até ele se ter colocado em frente da entrada para onde olhava com um ar meditativo.
O Harry riu-se, mas o próprio Coffey pareceu não achar qualquer graça ao fato de um homem corpulento se encontrar em frente daquela porta tão pequena. Claro que não teria achado graça àquilo; ainda que a sua inteligência tivesse sido um pouco mais alargada do que efetivamente era, continua' ria a ser da mesma opinião. Durante a maior parte da vida, Coffey fora um homem gigantesco, e aquela porta era um tudo-nada mais pequena do que a maioria.
Sentou-se, transpondo-a, e voltou a erguer-se, tendo descido as escadas até onde o Brutal o aguardava. Chegado ali, deteve-se, olhando para o outro lado da pequena sala, na direção do estrado onde se encontrava a Velha Faísca, tão silenciosa - e tão lúgubre - como um trono no castelo de um rei morto. O capacete continuava pendurado, com um garbo falso, num dos ganchos das costas, parecendo menos a coroa de um rei do que o barrete de um bobo da corte, mas sendo algo que qualquer idiota usaria ou agitaria para fazer com que o seu público, todo emproado, risse ainda mais das suas macaquices. A sombra que a cadeira projetava, alongada e tenebrosa, subia ameaçadoramente por uma parede. E sim, pensei que ainda conseguia cheirar a carne queimada no ar. Embora fosse bastante vago, eu estava convencido de que aquilo era mais do que apenas o fruto da minha imaginação.
O Harry baixou a cabeça para poder passar pela porta, e em seguida foi a minha vez. Não me agradou nada a forma como o John Coffey olhava mesmerizado para a Velha Faísca. Gostei ainda menos daquilo que vi nos seus braços quando me aproximei mais dele: a pele toda arrepiada.
- Vamos lá, vadio - disse eu, tentando encorajá-lo. Agarrei-o pelo pulso, tentando levá-lo na direção da porta que dava acesso ao túnel mais abaixo. De início não se mexeu, e eu tive a sensação de que tentava arrastar um penedo do solo apenas com as minhas mãos.
- Vamos lá, John, temos de continuar, a menos que queiras que a carruagem se transforme numa abóbora - disse o Harry, soltando de novo uma gargalhada nervosa. Agarrou no outro braço do John e começou a puxar, mas este continuava imobilizado. Foi então que ele proferiu algo numa voz baixa e sonhadora. Não era a mim que ele se dirigia, não falava para nenhum de nós em particular, mas jamais me esqueci do que ele disse então.
- Eles continuam ali. Bocados dos seus corpos ainda ali estão. Consigo ouvi-los gritar.
As risadas nervosas do Harry cessaram de imediato, deixando-lhe nos lábios um sorriso que parecia ter ficado pendurado na boca, qual persiana desconjuntada numa casa abandonada. O Brutal lançou-me um olhar que se aproximava muito de terror, e afastou-se do John Coffey. Pela segunda vez em menos de cinco minutos, tive o pressentimento de que todo aquele empreendimento se encontrava à beira de ir por água abaixo. Desta feita fui eu quem interveio; quando a iminência do desastre nos ameaçou uma terceira vez, o que aconteceu um pouco mais tarde, foi a vez de o Harry interferir. Acreditem que, naquela noite, todos tivemos a nossa oportunidade de intervir no desenrolar dos acontecimentos.
Interpus-me entre o John Coffey e a visão da cadeira, pondo-me em bicos dos pés para ter a certeza de que bloqueava inteiramente toda a sua linha de visão. Em seguida, fiz estalar os meus dedos em frente dos olhos do Coffey, por duas vezes e com todo o vigor.
- Vamos lá! - urgi eu. - Caminha! Foste tu que disseste que não precisavas de ser acorrentado, agora prova isso! Começa a andar, vadio! Caminha, John Coffey! Naquela direção! Para aquela porta!
- Sim, chefe - aquiesceu ele, parecendo ter despertado. E, Deus seja louvado, começou realmente a andar.
- Olha para a porta, John Coffey. Mantém os olhos na porta sem olhares para mais nada.
- Sim, chefe. - Obedientemente, o John prendeu o olhar na porta.
- Brutal - acrescentei, apontando.
Este tomou apressadamente a dianteira, sacudindo o seu molho de chaves, à procura da que abria a porta. O John mantinha o olhar fixo na porta que dava para o túnel, enquanto eu não despregava os meus olhos dele, embora pelo canto do olho pudesse ver o Harry lançar olhares cheios de nervosismo para a cadeira, como se nunca a tivesse visto.
Continuam ali bocados dos seus corpos... Consigo ouvi-los gritar.
Se isso era de fato verdade, o Eduard Delacroix só podia estar a gritar mais alto e durante mais tempo do que todos os outros condenados; senti-me satisfeito por não ser capaz de ouvir o que o John Coffey ouvia.
O Brutal abriu a porta. Começamos a descer os degraus com o Coffey na dianteira. Chegado ao fundo, ele começou olhar para o túnel com uma expressão taciturna, fitando o teto baixo de tijolos. Inevitavelmente, iria ficar com dores nas costas quando chegasse ao outro extremo, a menos que Puxei a maca para junto de mim. O lençol sobre o qual deitáramos o Del já havia sido retirado (e provavelmente incinerado), pelo que o almofadado negro da maca se encontrava à vista.
- Deita-te aqui - ordenei eu ao John. Ele ficou a olhar para mim com uma expressão duvidosa; acenei-lhe num gesto de encorajamento. - Será mais fácil para ti e não nos dificultará a passagem pelo túnel.
- De acordo, chefe Edgecombe. - Sentou-se e depois deitou-se ao comprido, fitando-nos com os seus olhos castanhos que traíam preocupação. Os seus pés, calçados com as pantufas baratas da prisão, ficavam de fora, suspensos quase até roçarem no chão. O Brutal colocou-se entre eles e começou a empurrar o John Coffey pelo corredor úmido, à semelhança do que tinha feito a muitos outros. A única diferença era que o atual passageiro da maca continuava a respirar. A mais ou menos meio caminho - por baixo da auto-estrada, de acordo com a minha estimativa, e conseguindo ouvir o som abafado das viaturas que sobre ela passassem, caso houvesse alguma aquela hora da noite - o John começou a sorrir.
- Isto é muito divertido - comentou ele. Todavia, não pensaria da mesma forma da próxima vez que fosse empurrado em cima da maca; esse foi o pensamento que atravessou a minha mente. Na realidade, da próxima vez que fosse levado na maca, não pensaria nem sentiria o que quer que fosse. Ou seria isso possível? Bocados dos corpos deles continuavam ali, dissera ele; conseguia ouvi-los gritar.
Caminhando atrás dos outros e sem que estes me vissem, senti-me estremecer.
- Espero que não te tenhas esquecido da Aladino, chefe Edgecombe - disse o Brutal quando chegamos ao extremo do túnel.
- Não te preocupes - repliquei. A Aladino não parecia apresentar qualquer diferença que a distinguisse das outras chaves que eu costumava trazer sempre comigo nesses tempos... e eu tinha um molho que deveria pesar dois quilos. Mas aquela era a chave-mestra de todas as chaves-mestras, a que abria todas as fechaduras. Nessa época, para cada um dos cinco blocos havia uma Aladino, sendo cada uma delas da responsabilidade do superintendente do respectivo bloco. Os outros guardas podiam utilizá-las, mas só o manda-chuva dos bardas é que não era obrigado a registrar que a levara.
Havia um portão de barras de aço na extremidade do túnel. Nunca falhava em me trazer à memória as imagens que eu vira de castelos antigos; vocês sabem, dos tempos do antigamente em que abundavam os cavaleiros destemidos de cavalheirescos. Com a diferença de que Cold Mountain ficava a;, uma grande distância de Camelot. Para lá dos portões, havia um lanço de escadas que dava para um portão maciço e discreto que era acionado na horizontal, com dísticos onde se lia: “É PROIBIDA A ENTRADA, PROPRIEDADE DO ESTADO e VEDAÇÃO ELECTRIFICADA” no lado exterior.
Abri os portões e o Harry afastou-os para trás. Subimos os degraus; uma vez mais, era o John Coffey quem tomava a dianteira, mantendo os ombros inclinados para a frente e a cabeça vergada. Já no cimo, o Harry conseguiu passar à sua volta (não sem experimentar algumas dificuldades, embora fosse o mais pequeno de nós três), e abriu o portão maciço que deslizava na horizontal. Era pesado. Conseguia deslocá-lo, mas não era capaz de o içar.
- Deixe, chefe - disse o John. Avançou mais, empurrando o Harry contra a parede com a anca ao avançar, erguendo o portão só com uma mão. Poder-se-ia ter pensado que era feito de cartão pintado em vez de chapa de aço. O ar da noite era frio devido ao vento que soprava vindo do cume das montanhas, e iríamos senti-lo até Março ou Abril, açoitando as nossas faces. Com as rajadas de vento veio um turbilhão de folhas mortas; o John Coffey apanhou uma delas com a sua mão livre. Jamais me esquecerei da maneira como ele olhou para ela, ou a forma como a machucou por debaixo do seu nariz largo e de linhas bonitas, de molde a que libertasse a sua fragrância.
- Vamos lá - urgiu o Brutal. - Em frente, toca a andar!
Saímos da prisão, o John desceu o portão e o Brutal fechou-o à chave - aquele não precisava da chave Aladino, embora esta fosse necessária para abrir os portões da gaiola de arame e postes que circundavam o portão levadiço.
- Mantém as mãos junto ao corpo, vadio, enquanto es tiveres a passar - advertiu o Harry num sussurro. - Não taques no arame, se não quiseres sofrer uma queimadura grave.
Naquela altura já nos encontrávamos do lado de fora, junto do acostamento da estrada, formando um pequeno maciço (deveríamos ter a aparência de três pequenas colinas em redor de uma montanha, era o que eu imaginava), olhando para lá dos luzes e guaritas da penitenciária de Cold Mountain. Na realidade, eu até conseguia distinguir a forma pouco definida do guarda no interior de uma dessas torres, o qual soprava o bafo quente para as mãos, embora apenas por breves instantes; as pequenas janelas, das guaritas que davam para a estrada eram ínfimas e pouco importantes para nós. No entanto, tínhamos de nos manter muito, muitíssimo calados. E se um automóvel passasse por acaso poderíamos estar metidos em grandes complicações.
- Vamos a despachar - murmurei. - Indica tu o caminho, Harry.
Sorrateiramente, dirigimo-nos para norte ao longo da estrada, formando uma pequena fila indiana; o Harry seguia à frente, depois o John Coffey, o Brutal, e eu à retaguarda. Subimos a primeira elevação de terreno e, do outro lado, tudo o que avistávamos da penitenciária era o clarão das luzes intensas acima das copas das árvores. O Harry continuava a conduzir-nos em frente.
- Onde é que a deixaste estacionada? - perguntou o Brutal numa voz sussurrada, com a condensação da respiração a sair-lhe da boca sob a forma de uma nuvem branca. - Em Baltimore?
- Está ali, um pouco mais à frente - retorquiu o Harry, irritadiço e nervoso. - Agüenta os cavalos, Brutus.
O Coffey, porém, pelo que eu tinha visto dele, ter-se-ia sentido satisfeito por poder continuar a caminhar até ao nascer do Sol, talvez mesmo até este se pôr de novo. Olhava para tudo em seu redor a começar - não com medo mas deliciado, tenho a certeza - por um mocho que começou a piar. Foi então que me ocorreu que, embora ele pudesse ter receio da escuridão entre paredes, ali fora não sentia medo. O John dava a impressão de acariciar a noite, roçando os sentidos por ela através do caminho da mesma maneira que um homem poderia roçar o rosto pelas saliências e concavidades dos seios de uma mulher.
- Temos de virar aqui - indicou o Harry num resmungo. Deparamos com um pequeno trecho de caminho - estreito e por pavimentar, com ervas que cresciam a meio - que se desviava para a direita. Viramos naquele lugar e caminhamos mais uns quatrocentos metros. O Brutal já começara a resmungar de novo, quando o Harry se deteve, dirigindo-se à acostamento esquerda daquele trilho, e começou a remover ramagens quebradas de pinheiros. O John e o Brutal ajudaram-no, e, antes que eu pudesse ter metido mãos à obra, eles já haviam posto a descoberto a parte da frente amolgada de uma velha camioneta Farmall, como os faróis presos por aromes a olharem para nós como olhos esbugalhados.
- Não sei se compreendes, mas eu quis ter muito cuidado - justificou-se o Harry, dirigindo-se ao Brutal num tom de repreensão. - Para ti isto é capaz de ser uma grande brincadeira, Brutus Howell, mas acontece que eu venho de uma família muito religiosa, tenho primos tão religiosos que fazem com que os cristãos se assemelhem aos leões, e se eu fosse apanhado a fazer uma coisa destas!...
- Não tem importância - respondeu-lhe o Brutal, Estou só um bocado nervoso, mais nada.
- Eu também - acrescentou o Harry numa voz comida. - Agora só precisamos que este maldito calhambeque pegue...
Contornamos a parte da frente da pequena camioneta de caixa aberta, e, continuando a resmungar, o Brutal piscou-me o olho. No que dizia respeito ao Coffey, nós tínhamos deixado de existir. Mantinha a cabeça inclinada para trás, absorvendo por todos os poros a visão das estrelas que pontilhavam o firmamento.
- Se quiseres, eu vou com ele na parte de trás - ofereceu-se o Brutal. Atrás de nós, o motor de arranque da Farmall começou a dar breves sinais de vida, parecendo mais um velho cão, tentando encontrar os seus pés numa manhã fria de Inverno, até finalmente ter começado a funcionar em pleno. O Harry acelerou-o uma vez e deixou-o ficar a trabalhar em ponto morto. - Não há necessidade de irmos os dois.
- Senta-te tu à frente - disse-lhe eu. - Na viagem de regresso podes vir com ele. Isto é, se não acabarmos por fazer esse percurso encarcerados na parte de trás da nossa própria diligência.
- Não digas essas coisas - redarguiu ele, genuinamente preocupado. Era como se compreendesse pela primeira vez até que ponto aquela situação seria grave para nós, caso fossemos apanhados. - Caramba, Paul!
- Vamos, despacha-te - ordenei-lhe eu. - Senta-te na cabina.
O Brutus fez como lhe diziam. Puxei pelo braço do John Coffey até ter conseguido chamar a sua atenção, fazendo”o regressar à Terra, ainda que só por algum tempo, e conduzi-o para a parte de trás da camioneta, que se encontrava coberta. O Harry tinha estendido a lona por cima da estrutura, o que era vantajoso, no caso de passarmos por outras camionetas ou automóveis que seguissem na direção contrária. No entanto, em relação à entrada das traseiras não pudera fazer coisa nenhuma.
- Cá vamos nós, vadio - disse eu.
- Agora vamos dar o passeio? - perguntou o Coffey. - Exatamente.
- Ótimo - retorquiu ele com um sorriso. Era um sorriso encantador e cheio de doçura, talvez mais ainda porque não era complicado, não possuía um excesso de raciocínio. O Coffey subiu para a traseira da pequena camioneta. Fui atrás dele, tendo-me dirigido para a parte da frente da área de carga e bati no teto da cabina. O Harry engatou a primeira e a camioneta saiu daquele abrigo improvisado, feito com folhagem, a sacolejar e com o motor a vibrar intensamente.
O John Coffey estava em pé de pernas abertas no meio da caixa de carga do veículo, com a cabeça inclinada de forma a poder olhar de novo para as estrelas, exibindo um sorriso rasgado, sem reparar nas ramadas que o zurziam, enquanto o Harry conduzia a camioneta em direção à auto-estrada.
- Olhe, chefe! - disse ele num tom de voz baixo e enlevado, apontando para as sombras da noite. - É a Cassie, a senhora na cadeira de balanço!
Ele tinha razão; eu conseguia avistar o que ele me indicava na faixa de estrelas visível entre o maciço envolto em trevas do arvoredo que nos ladeava. Mas não foi em Cassiopeia que eu pensei quando ele mencionou a senhora na cadeira de balanço; foi sim na Melinda Moores.
- Estou a vê-la John - retorqui, tocando-lhe no braço. - Mas agora tens dete sentar. De acordo?
Sentou-se com as costas contra a cabina, sem nunca afastar os olhos do firmamento noturno. No seu rosto espalhava-se uma expressão de felicidade sublime. A Milha Verde ia ficando cada vez mais para trás de nós a cada volta dada pelos pneus carecas da Farmall, e, pelo menos de momento, o lacrimejar do John Coffey, que parecia nunca ter fim, havia cessado.
7
Eram cerca de quarenta quilômetros até à casa do Hal Moores em Chimney Ridge, e na vagarosa camioneta do Harry Terwilliger, que seguia aos solavancos, aquele percurso levou mais de uma hora. Foi uma viagem bastante estranha, e embora nesta altura eu tenha a impressão de que todos os momentos dessa jornada continuam bem gravados na minha memória - todas as curvas, todas as saliências do piso, todos os buracos, as ocasiões de susto (foram duas), quando passávamos por outras camionetas que seguiam na direção contrária - não me parece que possa sequer descrever de forma adequada aquilo que senti, sentado ali atrás na companhia do John Coffey; ambos estávamos enrolados em mantas como dois índios, mantas essas que o Harry tivera o cuidado de trazer.
Em grande medida, o que eu sentia era perda - o terrível e profundo sentimento que uma criança sente quando se apercebe de que, algures ao longo do caminho, tomou a direção errada; todos os pontos de referência lhe são estranhos, e ela não sabe como atinar com o caminho para casa. Eu encontrava-me fora da penitenciária acompanhado de um prisioneiro - não um prisioneiro qualquer, mas um que fora julgado e condenado pelo homicídio de duas garotinhas e destinado a morrer pelo crime cometido. O fato de eu acreditar que ele estava inocente não serviria de atenuante no caso de sermos apanhados; nós próprios acabaríamos por ir parar à cadeia, e, possivelmente, o Dean Stanton teria o mesmo destino. Eu tinha desbaratado toda uma vida de trabalho, sempre convicto das minhas idéias, por causa de uma execução que correra mal, e porque acreditava que o desajeitado que se encontrava sentado junto de mim, o qual crescera demasiado, poderia ter capacidade para curar o tumor que minava o cérebro de uma mulher que os médicos consideravam inoperável. E todavia, ao observar o John, que continuava a fitar incansavelmente as estrelas, compreendi com grande espanto que já não acreditava nisso, se é que alguma vez havia acreditado realmente; a minha infecção urinária naquele momento já parecia muito distanciada no tempo, e perdera grande parte da sua importância, tal como costuma acontecer sempre a esse gênero de coisas dolorosas e desagradáveis depois de terem passado (se as mulheres guardassem na sua recordação o quanto custa ter o primeiro filho, dissera-me a minha mãe numa ocasião, nunca dariam à luz um segundo). Quanto ao Mister Jingles, não seria possível que nos tivéssemos enganado em relação á gravidade da lesão que o Percy lhe infligira? Ou ainda que o John - o qual na verdade possuía um certo poder hipnótico, pelo menos disso não restavam dúvidas - houvesse sido capaz de nos ludibriar, levando-nos a pensar que tínhamos visto algo que de fato não víramos. Havia ainda a acrescentar a questão do Hal Moores. No dia em que eu o surpreendera no seu gabinete, tinha deparado com um homem de idade, trêmulo e lacrimejante. Mas eu não considerava que aquela fosse a faceta mais verdadeira do diretor Moores. Continuava firme-mente convicto de que o autêntico diretor Moores era o homem que quebrara o pulso de um prisioneiro irado que tentara esfaqueá-lo; o homem que me havia chamado a atenção, com uma precisão cheia de cinismo, para o fato de os tomates do Delacroix irem ser estorricados independentemente do homem que fosse destacado como responsável do grupo de execução. Passar-me-ia pela cabeça que o Hal Moores se poria humildemente de lado, permitindo que levássemos a sua casa um assassino de crianças, que fora condenado à morte, e que este colocasse as mãos sobre a sua própria mulher?
As minhas incertezas aumentavam como uma doença enquanto percorríamos a estrada. Muito simplesmente, estava incapaz de compreender o que me levara a fazer as coisas que fiz, ou por que motivo havia persuadido os outros a alinharem comigo naquela jornada noturna de loucos; não acreditava que tivéssemos a mais pequena hipótese de conseguirmos safar-nos daquela, nem que o diabo tocasse rabeca, como os antigos costumavam dizer. Apesar de todas aquelas reticências, também não tentei cancelar o projeto, o que talvez tivesse conseguido levar a cabo as coisas não iriam sair irrevogavelmente das nossas mãos, até termos chegado a casa do Moores. Alguma coisa - penso que talvez não tivesse sido mais do que as ondas de exaltação que me eram transmitidas pelo gigante sentado ao meu lado - me impediu de bater na janela da cabina, gritando ao Harry que invertesse a marcha e regressasse à prisão enquanto ainda havia tempo.