À Espera de um Milagre
Parte Um ...........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- O doutor Haverstrom quer que ela seja internada no hospital em Indianola - continuou Moores. - Para ser submetida a alguns exames. Está a referir-se é a radiografias à cabeça. Quem sabe o que mais. Ela anda assustada de morte - acrescentou ele, fazendo uma pausa. Verdade seja dita, também eu tenho medo.
- Sim, mas tens de te certificar que ela faz o que o médico the disse - repliquei. - Não deves esperar. Se for alguma coisa que eles possam detectar através das radiografias, é possível que se trate de algo que possam vir a curar.
- Sim - concordou ele e em seguida, apenas por breves instantes, os únicos durante aquela parte da nossa conversa, tanto quanto me é dado recordar, o nosso olhar cruzou-se e manteve-se assim. Verificou-se aquela espécie de compreensão perfeita, nua e crua, entre nós dois, que não carece de quaisquer palavras. Sim, poderia ser um enfarte. Também poderia tratar-se de um cancro a desenvolver-se no seu cérebro, e, caso fosse isso, as hipóteses de os médicos em Indianola poderem fazer alguma coisa eram bastante escassas, se não mesmo nulas. Não se esqueçam de que estávamos em 1932, quando uma doença relativamente simples como uma infecção do trato urinário ou era tratada com sulfamidas, até uma pessoa estar prestes a morrer de náuseas, ou deixava-se o doente sofrer esperando que o mal acabasse por desaparecer.
- Estou te muito agradecido pelo teu cuidado, Paul. Mas agora falemos sobre o Percy Wetmore.
Gemi e cobri os olhos.
- Esta manhã recebi um telefonema da capital do estado - começou o diretor da prisão numa voz neutra. - Tratou-se de uma conversa bastante irritada, tal como tenho a certeza que serás capaz de imaginar. Paul, o governador está tão casado que quase não está lá, se é que estás a compreender. E a mulher tem um irmão, que por sua vez tem um filho Esse filho é o Percy Wetmore. Ontem à noite, o Percy telefonou ao paizinho, o qual por seu turno ligou para a tia do Percy. Terei de continuar a explicar-te o resto desta situação: - Não - respondi. - O Percy bufou. Tal como o mariquinhas da turma que conta à professora que viu dois colegas a apalparem-se no bengaleiro.
- Sim - aquiesceu Moores -, a situação é mais ou menos essa.
- Por acaso sabes o que é que aconteceu entre o Percy o Delacroix quando este chegou à prisão? - perguntei.
O Percy e o seu maldito bastão de nogueira de estimação? - Sim, mas...
- E sabes que por vezes ele tem o hábito de o fazer correr pelas barras das celas, sem que haja qualquer justificação: É um homem mau, além de ser estúpido, e não sei durante quanto mais tempo conseguirei agüentar a sua presença. Essa é que é a verdade.
Havia cinco anos que nos conhecíamos. Isso poderá ser bastante tempo para dois homens que se dão bem, especialmente quando parte das nossas funções é substituir a vida pela morte. O que estou a dizer é que o Moores compreendia bastante bem o que eu tentava dizer-lhe. Não que eu estivesse pronto para me demitir; isso não aconteceria com a Grande Depressão ao virar da esquina, do lado de fora dos muros da penitenciária, qual criminoso perigoso, um criminoso que não poderia ser encarcerado, tal como acontecia aos homens que se encontravam sob a nossa responsabilidade. Havia homens mais capazes do que eu que eram obrigados a calcorrear as estradas, forçados a valerem-se de tudo o que lhes aparecia pela frente. Eu fora bafejado pela sorte e encontrava-me bem ciente desse fato - com os filhos já crescidos e a hipoteca, da casa (que me parecera ser um bloco de mármore de cem quilos) fora do meu peito havia já dois anos. Contudo, um homem tem de comer, o mesmo acontecendo à sua mulher. Além de que tínhamos o costume de enviar à nossa filha, e ao nosso genro, vinte dólares sempre que podíamos dar-nos a esse luxo (o que por vezes acontecia até mesmo quando não tínhamos meios para isso, sempre que as cartas da Jane deixavam adivinhar uma situação particularmente desesperada).
O marido era professor do ensino secundário, mas estava desempregado. Em conseqüência de tudo isto, não se desprezava um emprego certo como o meu... Sobretudo a sangue-frio, para ser mais concreto. Mas acontece que, nesse Outono, eu não sentia o sangue frio. A temperatura no exterior era anormalmente elevada para a estação do ano, para além de que a infecção, que alastrava no interior do meu corpo, fazia subir ainda mais o termostato. E quando um homem se vê metido numa situação daquelas, ora bem, por vezes acontece que o seu punho age sem que esteja em consonância com o seu raciocínio. E, no caso de se atingir, uma vez que seja, um homem que tem tão bons conhecimentos como o Percy Wetmore, é possível que continuemos a atacá-lo insistentemente, uma vez que não existirá retrocesso possível.
- Vê se consegues agüentar-te - continuou o Moores numa voz tranqüila. - Foi para te dizer isto que te chamei ao meu gabinete. Fui informado de boa fonte, de fato pela mesma pessoa que me telefonou esta manhã, que o Percy anda a ver se consegue arranjar um emprego no Briar, e tudo indica que o seu pedido de transferência será aceite.
- O Briar! - exclamei. Moores estava a referir-se ao Briar Ridge, um dos dois hospitais administrados pelo estado. - O que é que esse rapazinho anda a fazer? Uma digressão pelas instituições estatais?
- Trata-se de um trabalho de caráter administrativo. O salário é melhor e só terá de despachar papéis, em vez de empurrar camas de hospital com o calor que faz. - O Moores brindou-me com um sorriso de esguelha. - Sabes, Paul, o mais certo era já te teres livrado dele se não o tivesses colocado no compartimento do quadro elétrico com o Van Hay, quando o Chefe foi desta para melhor.
Durante alguns momentos, o que ele acabara de dizer pareceu-me tão peculiar que eu não fazia a mínima idéia de onde.é que pretendia chegar. Talvez eu não desejasse fazer a mais pequena idéia.
- Em que outro lugar é que eu poderia tê-lo posto? perguntei. - Jesus Cristo, ele mal sabe o que é que anda a fazer no bloco! Integrá-lo na equipa que trata das execuções... - Não acabei o meu pensamento. Era impossível. O potencial para a existência de complicações parecia não ter fim.
- Apesar de tudo, seria uma atitude arriscada da tua parte colocá-lo na linha da frente da execução do Delacroix. Isto é, no caso de desejares ver-te livre dele.
Fiquei a olhar para o Moores com o queixo descaído. Finalmente, consegui erguê-lo até à posição onde pertencia, de molde a poder continuar a falar.
- O que é que estás para aí a dizer? Que ele quer ter uma nova experiência de forma a poder cheirar bem os tomates estorricados do fulano?
O Moores encolheu os ombros. Os seus olhos, que tinham mostrado uma expressão tão suave enquanto falara da mulher, exibiam agora uma expressão empedernida.
- Os tomates do Delacroix vão ser eletrocutados, quer o Wetmore faça parte da equipa de execução ou não - acrescentou ele. - Certo?
- Sim, mas ele poderá lixar as coisas. De fato, Hal, o mais certo é ele vir a lixar as coisas. E em frente de trinta e tal testemunhas... entre elas, os repórteres que vêm da Luisiana...
- Tu e o Brutus Howell certificar-se-ão de que ele não arranja qualquer complicação - acrescentou o Moores. - Mas se ainda assim isso vier a acontecer, ficará registrado na sua folha de serviço, onde permanecerá até muito depois de os seus conhecimentos a nível governamental terem desaparecido. Estás a compreender-me?
Eu compreendia. Aquele aspecto nauseava-me e assustava-me, mas o certo era que percebia até muito bem.
- É possível que ele queira ficar por aqui até à execução do Coffey, mas se tivermos um pouco de sorte, o Percy satisfará todas as suas necessidades mórbidas com o Delacroix. Assegura-te apenas de que o colocarás na linha da frente dessa execução.
Eu já planeara recambiar, uma vez mais, o Percy para o compartimento do quadro elétrico, que na altura se situava no túnel, após o que ele seguiria ao lado da maca que levasse o Delacroix para a ambulância estacionada do outro lado da prisão. No entanto, naquela altura pus todos os planos para trás das costas, sem sequer pensar duas vezes. Indiquei ao Moores o meu acordo com um acenar de cabeça. Tive a percepção de que aquilo se tratava de um risco que eu estava a assumir, mas isso não me incomodou. Se pudesse livrar-me da presença do Percy Wetmore, estaria até disposto a fazer cócegas no nariz do próprio diabo. Ele poderia fazer parte da equipa que trataria da execução, poderia até ser ele a prender o capacete e olhar através da pequena janela de rede para dizer ao Van Hay que acionasse a alavanca para a fase dois; por mim, poderia muito bem observar o pequeno francês a seguir no relâmpago que ele, Percy Wetmore, faria sair da lâmpada mágica. Enfim, permitir que ele sentisse a sua pequena empolgação macabra, se para ele isso se traduzisse no assassínio cometido com o beneplácito do estado. Que fosse trabalhar para o Briar Ridge, onde poderia ter o seu próprio gabinete com uma ventoinha que o arrefecesse. E se o tio por afinidade deixasse de exercer o cargo público para que fora investido durante as próximas eleições, e ele fosse obrigado a descobrir o que era trabalhar a sério neste velho mundo cheio de dificuldades que assava sob o sol escaldante, onde nem todos os tipos de maus (gados eram encarcerados atrás das grades, e onde por vezes levávamos na cabeça, tanto melhor.
- Muito bem - proferi eu por fim, levantando-me da cadeira. - Pô-lo-ei na linha da frente quando da execução do Delacroix. E entretanto, esforçar-me-ei por manter a paz.
- Ótimo - replicou o Moores, que também se pôs de pé. - A propósito, como é que está o teu problema? - perguntou ele, apontando delicadamente para a região das minhas virilhas.
- Dá-me a impressão de que está um pouco melhor - respondi.
- Pois bem, isso é excelente. - O Moores acompanhou-me até à porta. - E a respeito do Coffey, há alguma coisa de novo? Parece-te que ele venha a provocar algum problema?
- Não - redargui. - Até agora ele tem-se mantido tão calado como um galo morto. É um homem estranho... tem uns olhos esquisitos, mas é calado. Contudo, tencionamos manter-nos atentos ao seu comportamento. Não te preocupes com esse assunto.
- É claro que estás bem a par do que ele fez. - Com certeza - assenti.
O Moores tinha-me acompanhado até ao gabinete que antecedia o seu onde a velha Miss Hannah matraqueava na sua máquina de escrever Underwood, como sempre havia feito desde que a última Idade do Gelo tinha chegado ao fim, ou pelo menos era o que dava a impressão. Sentia-me satisfeito por poder sair dali. Tudo resumido e concluído, senti que me tinha safado com muita facilidade daquela situação delicada. E era bastante agradável saber que, ao fim e ao cabo, existia uma hipótese de conseguir sobreviver ao Percy.
- Diz à Melinda que lhe envio uma cesta cheia de carinho - disse eu. - E não te prepares para arranjar problemas. O mais provável é chegar-se à conclusão de que tudo não passa de meras enxaquecas.
- Aposto que sim - retrucou o Moores e, sob os olhos adoentados, os seus lábios esboçaram um sorriso. Aquela combinação fisionômica encontrava-se diabolicamente próxima do fantasmagórico.
Quanto a mim, regressei ao Bloco E a fim de dar início a outro dia de trabalho. Havia uma data de papelada que devia' ser lida e redigida. Chão que precisava de ser lavado, refeições que teriam de ser servidas, uma escala de trabalho a ser elaborada para a semana seguinte, enfim, uma centena de pormenores que necessitavam da minha atenção. Mas acima de tudo havia espera - na prisão há sempre muito disso. Espera que o Eduard Delacroix começasse a percorrer a Milha; Verde, espera que o William Wharton chegasse com o seu lábio contorcido, fazendo-se acompanhar da tatuagem de Billy the Kid, e, acima de tudo o mais, espera que o Percy Wetmore desaparecesse da minha vida de uma vez por todas.
7
O rato do Delacroix era um dos mistérios de Deus. Eu nunca tinha visto uma criatura daquelas no Bloco E antes daquele Verão, e nunca mais voltei a avistar outra depois daquele Outono, altura em que o Delacroix deixou a nossa companhia, numa noite abafada e de trovoada em Outubro deixou-a de uma forma tão inqualificável, que mal consigo forçar-me a recordar essa ocasião. O Delacroix afirmara que havia domesticado aquele rato, que iniciou a sua vida entre nós com o nome de Steamboat Willy, mas eu estou realmente convencido de que as coisas se processaram na ordem inversa. O Dean Stanton era da mesma opinião, bem como o Brutal. Tanto um como o outro se encontravam presentes na noite em que o rato fez a sua primeira aparição.
- A criatura já está meio domesticada e é duas vezes mais esperta do que esse cajun que pensava ser o seu dono - dissera Brutal então.
O Dean e eu estávamos no meu gabinete, examinando a caixa com as fichas do ano transato, a prepararmo-nos para escrever cartas de acompanhamento da situação às testemunhas de cinco execuções, e outras cartas de acompanhamento das de acompanhamento enviadas anteriormente, relativas a outras seis execuções que recuavam até 1929. Basicamente, pretendíamos saber apenas uma coisa: sentiam-se essas pessoas satisfeitas com os nossos serviços? Eu sei que isso pode parecer grotesco, mas de fato tratava-se de um assunto bastante importante. Na sua qualidade de contribuintes, aquelas pessoas eram os nossos clientes, embora tivessem características muito especiais. Um homem ou uma mulher que apareça na prisão à meia-noite para poder assistir à morte de um ser humano tem de ter uma razão premente e muito especial para ali ir, uma necessidade bastante peculiar, e, se a execução é um castigo adequado, nesse caso essa necessidade terá de ser satisfeita. Eles tiveram um pesadelo. A finalidade das execuções é mostrar-lhes que esse pesadelo chegou ao fim. Talvez as coisas funcionem realmente dessa maneira. Por vezes.
- Ei! - chamou o Brutal do lado de fora da porta, onde se encontrava na secretária do guarda de serviço situada ao fundo do corredor. - Ei, vocês dois! Venham até aqui fora!
O Dean e eu trocamos um olhar de alarme, pensando que deveria ter acontecido alguma coisa ao índio de Oklahoma (o nome dele era Arlen Bitterbuck, mas costumávamos chamar-lhe Chefe... ou, no caso do Harry Terwilliger, Chefe Queijo de Cabra, porque era a isso que o Harry afirmava que o Bitterbuck cheirava), ou ao tipo que apelidávamos de Presidente. Mas foi então que o Brutal começou a rir-se; corremos a saber o que estava a passar-se. Os risos no Bloco E eram quase tão profanos como os risos no interior de uma igreja.
O velho Pouca Terra, o prisioneiro de confiança que nesse tempo costumava empurrar o carrinho da comida, encontrava-se presente com o seu arsenal, e o Brutal já se tinha abastecido para a longa noite que teria pela frente - três sanduíches, dois refrigerantes e uns dois bolos. Também uma porção de salada de batata que o Pouca Terra devia ter fanado das cozinhas da prisão, instalações que, supostamente, deveriam estar fora do seu alcance. O Brutal mantinha o livro de registros aberto à sua frente e, caso para grande admiração, ainda não derramara nada em cima das folhas. Como é evidente, tinha acabado de começar o seu turno.
- O que é que se passa? - perguntou Dean. - O que é que foi?
- Ao fim e ao cabo, o corpo legislativo do estado deve ter aberto suficientemente os cordões à bolsa para este ano poder contratar outro guarda - acrescentou o Brutal com uma gargalhada. - Olhem bem para ali.
Apontou e nós avistamos o rato. Também comecei a rir-me, e o Dean juntou-se a nós. Era impossível evitar que nos ríssemos, uma vez que qualquer guarda que estivesse a fazer os seus quartos de ronda teria tido o mesmo aspecto daquele rato; um guarda peludo e ínfimo que se assegurava de que! ninguém tentava fugir ou suicidar-se. Dava uma pequena corrida ao longo da Milha Verde na nossa direção, após o que rodava a cabeça de um lado para o outro, como se passasse revista ao interior das celas. Em seguida, encetava outra corrida em frente. O fato de podermos ouvir o ressonar dos dois reclusos que na altura ocupavam aquele bloco, apesar dos gritos e os risos, tornava a situação ainda mais caricata e divertida.
Tratava-se de um rato de pêlo castanho perfeitamente vulgar, exceto quanto à forma como parecia estar a investigar o interior das celas. Chegou mesmo ao ponto de entrar numa ou duas, esgueirando-se habilmente por entre as barras inferiores, de uma maneira que faria inveja a muitos dos nossos prisioneiros, passados e presentes. Com a exceção de que, como era evidente, seria para fora que os reclusos haveriam sempre de querer fugir.
O rato não entrou em nenhuma das celas que estavam ocupadas, tendo ido apenas às vazias. Finalmente, encontrava-se prestes a chegar ao sítio onde nos encontrávamos. Fiquei sempre à espera que retrocedesse, mas não o fez. Não mostrava sentir qualquer receio da nossa presença.
- Não é normal que um rato se abeire das pessoas desta forma - comentou o Dean com um certo nervosismo. - Talvez ele esteja raivoso.
- Oh, meu bom Jesus! - retorquiu o Brutal com a boca cheia de pão com carne de conserva. - Temos aqui o grande perito em ratos. O Homem dos Ratos. Estás a vê-lo a espumar aos cantos da boca, Homem dos Ratos?
- Nem sequer sou capaz de ver a boca do bicho - retorquiu o Dean, provocando outra vaga de hilaridade. Eu também não conseguia vislumbrar a boca da criatura, embora distinguisse as duas pequenas contas negras e cintilantes que eram os seus olhos, não me dando a impressão de estarem raivosos ou tresloucados. Pelo contrário, exibiam uma expressão interessada e inteligente. Eu já tivera oportunidade de conduzir homens até à morte - homens que, supostamente, possuíam uma alma imortal - que haviam exibido uma expressão mais estúpida do que a daquele rato.
Recomeçou a percorrer velozmente a Milha Verde até um ponto apenas a cerca de noventa centímetros da mesa do guarda de serviço... a qual não tinha nada de rebuscado, como poderão imaginar, sendo apenas o gênero de secretária a que os professores costumavam sentar-se na escola secundária. Chegado a esse ponto, a criatura deteve a sua corrida, enrolando a cauda à volta das patas, numa atitude tão composta como a de uma velha senhora a ajeitar as saias.
De repente, passou-me a vontade de rir, sentindo eu, inesperadamente, o meu corpo a ser percorrido até aos ossos por um calafrio gélido. Gostaria de poder dizer que não sabia por que motivo é que tivera aquela sensação - ninguém gosta de dar mostras de algo que nos pode ridicularizar aos olhos dos outros - mas é claro que sabia e, se é que posso dizer a verdade a respeito do resto, creio que também possa dizer a verdade sobre isto. Por breves instantes, imaginei como seria estar na pele daquele rato, deixando de ser um guarda prisional, mas apenas um outro criminoso que se encontrasse ali, na Milha Verde, acusado e condenado, mas ainda capaz de erguer o olhar corajosamente para aquela mesa, que deveria parecer ter uma altura de vários quilômetros (tal como o assento em que se encontra Deus no dia do juízo sem dúvida parecerá um dia a todos nós), fitando também os gigantes de casacos azuis e vozes profundas que se sentavam por detrás dela. Gigantes que disparavam contra os da sua própria espécie, ou que os vergastavam com o cabo de vassouras, ou que lhes montavam armadilhas, armadilhas que partiam o dorso a qualquer um que rastejasse cautelosamente por cima da palavra VENCEDOR a fim de poder mordiscar o queijo sobre o pequeno prato de cobre.
Junto da mesa do guarda de serviço não se via qualquer vassoura, mas havia um balde com um esfregão, estando esta dentro da parte com orifícios onde era torcida; eu já tinha cumprido a minha quota-parte de lavar o linóleo verde do corredor e das seis selas pouco antes de me sentar com o Dean na companhia da caixa dos arquivos. Reparei que o Dean tinha intenção de agarrar no esfregão, cumprindo aquela parte da sua tarefa. Toquei-lhe no pulso quando os seus dedos se dirigiram para o cabo fino de madeira.
- Deixa estar - disse eu.
Ele encolheu os ombros e retirou a mão do esfregão. Sentia que ele tinha tanta vontade de lavar o chão quanto eu próprio tivera.
O Brutal separou um bocado do canto da sua sanduíche de carne em conserva e manteve-o suspenso acima da parte da frente da mesa, delicadamente seguro entre dois dedos;
O rato dava a impressão de erguer o olhar com um interesse ainda mais vivaz, como se soubesse exatamente o que era aquilo. Provavelmente sabia; eu avistava os seus bigodes a fremirem enquanto ele torcia o focinho.
- Ei, Brutal, não! - exclamou o Dean, olhando para mim. - Não o deixes fazer isso, Paul! Se começarmos a dar de comer a tipos desses é o mesmo que estendermos o tapete de boas-vindas para qualquer coisa que ande sobre quatro patas. - Eu só quero ver o que é que ele faz - disse o Brutal à guisa de justificação. Como se fosse no interesse da ciência. Olhou para mim, eu era o chefe, até mesmo no que dizia respeito aos pequenos desvios da rotina, como aquele. Pensei no assunto e encolhi os ombros, como se não tivesse qualquer importância. Mas a verdade era que eu também sentia curiosidade em ver o que é que o rato faria.
Pois bem, como é evidente, comeu o que lhe deram. Ao fim e ao cabo, não devíamos esquecer-nos de que nos encontrávamos no meio da Grande Depressão. Mas a forma como ele comeu fascinou-nos a todos. Aproximou-se do bocado de sanduíche, começou a farejá-lo descrevendo um círculo em seu redor, sentou-se à sua frente como se fosse um cão a fazer uma habilidade, foi-se a ele, e afastou o pão para poder chegar à carne. Procedia com tanta deliberação e conhecimento como se fosse um homem a atacar um bom rosbife no seu restaurante preferido. Eu nunca tinha visto um animal comer daquela maneira, nem sequer um cão bem ensinado. E durante todo o tempo em que esteve a comer, os seus olhos nunca se desprenderam de nós.
- Das duas uma: ou se trata de um rato muito esperto ou está com uma fome dos diabos - comentou uma nova voz. Era o Bitterbuck. Tinha despertado entretanto e naquele momento encontrava-se junto às barras da sua cela, todo nu à exceção de uns calções largos no traseiro que lhe davam pelo meio da coxa. Entre os nós do indicador e do dedo médio da mão direita tinha um cigarro que enrolara numa mortalha; os seus cabelos de um grisalho cor do ferro pendiam-lhe por cima dos ombros, outrora talvez musculosos, mas que agora começavam a ficar flácidos, presos num par de tranças.
- Conheces algum provérbio índio sobre ratos, Chefe? - perguntou o Brutal, observando o rato que continuava a comer. Todos nos sentíamos encantados com a maneira como ele segurava num pedaço de carne de conserva, com as patas dianteiras, voltando-a de vez em quando para a examinar bem, como se admirasse e apreciasse o naco de alimento.
- Não - respondeu o Bitterbuck - Em tempos conheci um bravo que possuía um par de luvas daquilo que clamava ser de pele de rato, mas nunca acreditei nisso. - Em seguida, o homem soltou uma gargalhada, como se tudo aquilo fosse uma piada, e afastou-se das barras de ferro. Ouvimos a tarimba a ranger; voltara a deitar-se.
Para o rato, aquilo pareceu ser o sinal de que estava na hora de se ir embora. Terminou o bocado de carne que segurava nas patas, farejou o que tinha ficado (na sua maior parte o pão amarelado ensopado com mostarda) e olhou para trás, fitando-nos, como se não desejasse esquecer-se dos nossos rostos, caso voltássemos a encontrar-nos. Em seguida, deu meia volta e começou a correr pelo mesmo caminho por onde viera; desta feita, não se deteve para inspecionar qualquer das celas. A pressa com que ele se deslocava trouxe-me ao pensamento o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, o que me fez sorrir. Não parou junto da porta da cela do isolamento, tendo desaparecido por baixo desta. Aquela sala tinha paredes almofadadas e destinava-se às pessoas cujos cérebros haviam enfraquecido. Era ali que costumávamos guardar os materiais de limpeza, sempre que não necessitávamos de utilizar aquele espaço para a finalidade a que se destinava, assim como alguns livros (na sua maioria da autoria de Clarance Mulford e sobre o velho Oeste, mas havia um - que só era emprestado em ocasiões especiais - que contava uma história profusamente ilustrada, na qual Popeye, Pluto e até mesmo Wimpy, os fanáticos dos hambúrgueres, tiravam à vez fornicar com a Olívia Palito). Também havia vários materiais de desenho incluindo os lápis de cera a que, posteriormente, o Delacroix deu boa utilização. Não que ele já houvesse começado a ser o nosso problema; não se esqueçam de que isto se passou numa data anterior. Na cela do isolamento também havia uma camisa-de-força que ninguém queria usar - branco, feito de lona reforçada e pespontada, que tinha todos o botões, fechos e fivelas na parte de trás. Todos nós sabíamos como manietar uma criança problemática, restringindo-a naquele colete à velocidade de um golpe súbito. Não era muito freqüente os reclusos tornarem-se violentos, mas, sempre que tal acontecia, meu amigo, não ficávamos à espera que a situação viesse a melhorar por si própria.
O Brutal abriu a gaveta da secretária por cima do espaço para as pernas, de onde retirou o livro volumoso encadernado a pele, em cuja capa estava escrita a palavra VISITANTES a letras folheadas a ouro. Habitualmente, aquele livro permanecia no interior da gaveta de um mês para o outro. Sempre que um prisioneiro recebia visitas - amenos que se tratasse de um advogado ou de um reverendo - costumava dirigir-se à sala adjacente ao refeitório, que era especialmente reservada para esse efeito. Costumávamos chamar-lhe “a Arcada”. Não sei bem por que motivo.
- O que raio pensas que estás a fazer? - perguntou Dean Stanton, espreitando por cima das lentes dos óculos enquanto o Brutal abria o livro, folheando, numa atitude de grande formalidade, as páginas referentes aos anos anteriores onde estavam inscritos os nomes dos visitantes dos homens que naquele momento já tinham morrido.
- Estou a obedecer ao Regulamento Número Dezenove --+. replicou o Brutal, chegando à página atual. Agarrou no lápis e lambeu a ponta, um hábito bastante desagradável que ele não conseguia perder, e preparou-se para começar a escrever.' O Regulamento 19 dizia muito simplesmente: “Todas as visitas que venham ao Bloco E têm de mostrar um passe amarelo, emitido pela administração, devendo o seu nome ser registrado sem falta nenhuma.”
- Passou-se do juízo - comentou o Dean, dirigindo-se a mim.
- O rato não nos mostrou o passe, mas desta vez estou disposto a deixar passar essa lacuna - acrescentou o Brutal.; Deu outra lambidela extra à ponta do lápis para lhe trazer sorte, e começou a escrever 9h 49m por baixo da coluna intitulada HORA DE CHEGADA AO BLOCO.
- Com certeza, e porque não? Provavelmente os manda-chuvas fazem exceções em relação aos ratos - adiantei eu. - Claro que fazem - concordou o Brutal.
Virou-se para ver as horas no relógio de parede que se encontrava por detrás da mesa e registrou 10h 01m na coluna encimada pelo título HORA DE SAIDA Do BLOCO. O espaço mais alongado entre estas duas colunas tinha por título NOME DO VISITANTE. Depois de ter pensado com uma expressão bastante concentrada durante uns momentos - plausivelmente para avaliar as suas limitadas capacidades de soletrar, uma vez que tenho a certeza de que a idéia já se havia formado na sua cabeça - o Brutus Howell escreveu com todo o cuidado Steamboatlly, nome que a maior parte das pessoas dessa época costumava chamar ao Rato Mickey. Isso era por causa daquele primeiro desenho animado falado, onde ele revirava os olhos, batendo com as ancas em todo o lado, enquanto puxava pela corda do apito na cabina do timoneiro do barco a vapor.
- Aqui está - disse o Brutal, fechando o livro com estrondo e voltando a colocá-lo no interior da gaveta -, tudo concluído e encerrado.
Ri-me, mas o Dean, que não conseguia evitar uma expressão de seriedade em relação a tudo, ainda que soubesse que uma determinada coisa era uma Simples brincadeira, franzia o sobrolho irritado enquanto limpava furiosamente as lentes dos óculos.
- Se alguém ler isso acabarás por ter problemas. - Hesitou um pouco, acrescentando: - Se esse alguém for pessoa errada... - Vacilou uma vez mais, olhando em seu redor da forma característica dos curtos de vista, como se esperasse ver que as paredes tinham adquirido orelhas, antes de terminar a sua linha de raciocínio: - Alguém como, por exemplo o Percy “Lambe-me-o-olho-do-cu-e-vai-para-o-paraíso” Wetmore.
- Hum... - resmungou o Brutal. - No dia em que o Percy Wetmore sentar o seu traseiro escanzelado aqui em baixo, a esta mesa será o dia em que me demito.
- Não terás necessidade de chegar a esse ponto - atalhou o Dean. - Antes que isso aconteça, serás despedido por escreveres palermices no livro dos visitantes, no caso de o Percy segredar ao ouvido certo as palavras adequadas. O que ele pode muito bem fazer. Sabes que é assim.
O Brutal mostrou um semblante enfurecido, mas não proferiu qualquer palavra. Mais tarde, nessa mesma noite, cheguei à conclusão de que ele tencionava apagar o que tinha escrito. Caso não o fizesse eu próprio trataria desse assunto.
Na noite seguinte, depois de ter primeiro levado o Bitterbuck e depois o Presidente até ao Bloco D, onde o nosso grupo tomava ducha após os prisioneiros comuns já estarem fechados para a noite, o Brutal perguntou-me se não deveríamos procurar o Steamboatlly na cela do isolamento.
- Acho que sim - respondi. Ainda nos tínhamos divertido à custa do rato na noite anterior; todavia, eu sabia que se o Brutal e eu o descobríssemos na cela do isolamento, muito em particular se verificássemos que começara a fazer um ninho, esburacando uma das paredes almofadadas, seríamos forçados a matá-lo. Era preferível eliminar o batedor, independentemente do quão divertido ele pudesse ser, do que ser-se obrigado a viver com os colonizadores. E, como calculam,; nenhum de nós sentia grande relutância em levar a cabo uma pequena matança de ratos. Ao fim e ao cabo, o estado pagava-nos para matarmos homens que não eram melhores do que ratazanas.
No entanto, não descobrimos o paradeiro do Steamboa, o qual mais tarde viria a ser conhecido pelo nome de Mister Jingles - nessa noite; não se encontrava aninhado em, nenhuma das paredes acolchoadas, nem atrás de qualquer dos tarecos que levamos para o corredor. De fato, havia uma grande quantidade de tralha, mais do que eu esperara encontrar, uma vez que já há muito tempo não éramos obrigados a usar a cela do isolamento. Essa situação viria a alterar-se com o surgimento do William Wharton, mas, como é evidente, naquela altura não sabíamos que assim seria. Que sorte a nossa!
- Para onde é que ele terá ido? - perguntou o Brutal por fim, limpando o suor que se lhe tinha acumulado na nuca' com um grande lenço azul. - Não existem buracos nem fendas... como se pode ver, mas... - Apontou para um ralo no chão. Por baixo da grade, através da qual o rato poderia ter escapado, havia uma rede apertada de aço, por onde nem sequer uma mosca conseguiria passar. - Como é que ele teria entrado? E como é que conseguiu sair?
- Não sei - repliquei.
- Ele entrou para aqui, não é verdade? Quer dizer, nós; os três vimos que assim foi.
- Sim, através da fresta inferior da porta. Teve de se espremer um bocado, mas o certo é que conseguiu passar. - Meu Deus! - exclamou o Brutal... As palavras soavam de forma estranha vindas de um homem tão corpulento.
É uma grande sorte para nós que os prisioneiros não tenham poderes para ficar assim tão pequenos, não achas?
- Podes apostar que sim - redargui, percorrendo com o olhar as paredes de lona, o que fiz uma última vez à procura de um orifício qualquer ou uma fenda, enfim, qualquer coisa. Não avistei nada do gênero. - Vamos embora, já vimos tudo.
O Steamboat Willy brindou-nos de novo com a sua presença três noites mais tarde, numa altura em que o Harry Terwilliger se encontrava de serviço na mesa do corredor. O Percy também estava de serviço, e perseguiu o rato que fugia pela Milha Verde, servindo-se da mesmo esfregão que o Dean pensara em utilizar. O roedor esquivou-se do Percy com toda a facilidade, escapando-se pela fresta por baixo da porta da cela do isolamento; o animal saiu vencedor sem a mínima dificuldade. Praguejando em altos berros, o Percy abriu a porta fechada à chave, tendo removido de novo do interior toda a cangalhada que lá se encontrava. A sua atitude era simultaneamente divertida e assustadora, de acordo com as palavras do Harry. O Percy jurava que haveria de encontrar o maldito do rato, após o que lhe arrancaria impiedosamente a pequena cabeça, mas, como é óbvio, não teve oportunidade de o fazer. Todo transpirado e desalinhado, com a fralda da camisa da farda fora das calças nas costas, regressou à secretária trinta minutos mais tarde, afastando o cabelo dos olhos e dizendo ao Harry (o qual, durante a maior parte daquele rebuliço, se tinha mantido calmamente sentado a ler) que estava decidido a colocar fita isoladora na parte inferior da porta; isso acabaria por resolver o problema do verme, declarou ele enfaticamente.
- Aquilo que achares melhor, Percy - dissera o Harry, virando uma página do romance de cordel que estava a ler. Calculava que o Percy acabaria por se esquecer de tapar a fresta da porta, no que não se enganou.
8
Mais tarde nesse mesmo Inverno, muito depois de se terem passado todas estas coisas, o Brutal veio falar comigo numa bela noite em que só nós dois estávamos presentes, dado que o Bloco E se encontrava temporariamente vazio, pois os outros guardas haviam sido destacados para outras funções, com caráter temporário. Entretanto, o Percy já tinha ido para o Briar Ridge.
- Anda cá - disse-me o Brutal com uma voz estranha constrangida que fez com que eu olhasse atentamente à sua volta. Eu acabara de sair de uma noite fria com granizo, e estava a sacudir os ombros do meu sobretudo antes de o pendurar no bengaleiro.
- Passa-se alguma coisa de anormal? - perguntei, surpreendido.
- Não - respondeu ele -, mas já descobri onde é que o Mister Jingles estava instalado. Quero dizer, quando ele apareceu pela primeira vez, antes de o Delacroix ter começado a tratar dele. Estás interessado em ver?
Claro que estava. Seguiu-o pela Milha Verde até à cela do isolamento. Toda a tralha que costumávamos guardar ali fora arrastada para o corredor; aparentemente, o Brutal tinha
aproveitado a ausência de tráfego de clientes para proceder a algumas arrumações. A porta mantinha-se aberta, o que me permitiu avistar no interior da cela o nosso balde com o esfregão. O chão, revestido com aquele mesmo linóleo de um esverdeado doentio, à semelhança da própria Milha Verde, ainda não secara por completo. No meio da cela fora armada uma escada de mão, aquela que habitualmente era guardada na sala da arrecadação, e que, por acaso, também era a que servia como ponto de paragem dos condenados pelo estado. Da parte de trás da escadinha saía uma espécie de prateleira, junto ao topo, o tipo de superfície que um trabalhador utilizaria para colocar a sua caixa de ferramentas, ou onde um” pintor poria as suas latas de tinta. Sobre ela via-se uma lanterna de bolso. O Brutal entregou-ma:
- Sobe até ali. Tu és mais baixo do que eu, por isso vais ter de subir quase até ao cimo, mas eu seguro-te pelas pernas. - Tenho cócegas aí em baixo - disse eu, começando a , subir a escada de mão. - Especialmente na região dos joelhos.
- Eu tenho cuidado com isso.
- Ótimo - repliquei -, porque uma bacia quebrada é um preço demasiado elevado para descobrir as origens de um só rato.
- Hem?
Não faças caso. - Nessa altura, a minha cabeça já se encontrava ao mesmo nível da lâmpada dentro de uma armadura no centro do teto e eu sentia que a escadinha estremecia um pouco sob o peso do meu corpo. Vindos do lado de fora, ouvia os gemidos do vento. - Presta atenção e segura-me bem.
- Tenho-te bem seguro, não te preocupes. - O Brutal mantinha as minhas coxas firmemente agarradas e subi mais um dos degraus; agora, o cimo da minha cabeça encontrava-se a menos de tenta centímetros do teto, sendo-me possível avistar as teias das aranhas mais empreendedoras nas funções das vigas do teto. Fiz incidir o feixe de luz em redor, sem descortinar nada que valesse o risco que a minha pessoa corria naquele lugar.
- Não - disse o Brutal. - Estás a olhar para muito longe, Paul. Olha para a tua esquerda, para o ponto onde essas duas vigas se juntam. Estás a vê-las? Uma delas está um bocado descolorida.
- Estou a ver - afirmei.
- Faz incidir a luz sobre a junção.
Fiz como ele me dizia e deparei quase de imediato com o que o Brutal queria que eu visse. As duas vigas haviam sido unidas com cavilhas, meia dúzia delas, tendo desaparecido uma que deixara um orifício circular e escurecido, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Olhei para aquilo e afivelei uma expressão de dúvida, fitando o Brutal por cima do ombro.
- De fato, era um rato pequeno - disse eu -, mas assim tão pequeno? Ó pá, não me parece.
- Mas foi aí que ele se escondeu - afirmou o Brutal, convicto. - Aposto o que quiseres.
- Não estou a ver como é que podes ter assim tanta certeza.
- Inclina-te mais... não te preocupes, estou a segurar-te as pernas, e sopra.
Fiz como ele me dizia, agarrando-me a uma das outras traves com a mão esquerda, sentindo-me um pouco mais equilibrado depois de me ter firmado bem. O vento que continuava a soprar lá fora fez-se ouvir de novo; sentia no rosto o ar a sair daquele orifício. Conseguia cheirar a lufada agreste de uma noite de Inverno na linha limítrofe do Sul... juntamente com algo mais.
O cheiro a hortelã-pimenta.
Não permitam que aconteça alguma coisa ao Mister Jingles, ouvia eu a voz do Delacroix a dizer-me num timbre que se recusava a manter-se firme. Ouvia aquelas palavras ao mesmo tempo que sentia o calor do corpo do Mister Jingles, quando o francês mo passou para as mãos, somente um mero rato, sem dúvida que mais esperto do que os da maioria da espécie, mas que não deixava de ser um simples rato, independentemente de tudo o mais. Não deixem que esse tipo malvado faça mal ao meu rato, dissera ele, e eu prometera-lho, tal como acabo sempre por lhes prometer tudo quando o fim se aproxima, na ocasião em que percorrer a Milha Verde{ deixara de ser um mito, ou uma mera probabilidade, passando a ser algo a que eles não podiam fugir. “Ponha esta carta no correio para o meu irmão que já não vejo há vinte anos.” Eu prometia. “Diga quinze ave-marias pela minha alma.” Eu prometia. “Deixe-me morrer com o meu nome espiritual e certifique-se de que fica escrito na minha lápide.” Eu prometia. Era a maneira de fazermos com que eles fossem sem criar grandes complicações, a maneira de os vermos sentados na cadeira situada ao fundo da Milha Verde, mantendo intacta a sua sanidade mental. Era-me impossível cumprir todas aquelas promessas, como é evidente, mas mantive a que tinha feito ao Delacroix. Quanto ao próprio francês, tinham surgido graves complicações. O sujeito malvado tinha feito mal ao Delacroix, tinha-o magoado e muito. Oh, eu sei bem o que ele fez, sem dúvida, contudo, ninguém merecia aquilo que aconteceu ao Eduard Delacroix quando ele foi enlaçado pelo abraço mortífero da Velha Faísca.
Um cheiro a hortelã-pimenta.
E outra coisa mais. Algo que se encontrava bem no interior do orifício.
Retirei uma caneta do bolso da minha camisa, servindo-me da mão direita e continuando a manter-me bem agarrado à viga com a esquerda; tinha deixado de me preocupar com a possibilidade de o Brutal, inadvertidamente, me fazer cócegas nos joelhos que tão sensíveis eram. Com uma só mão desenrosquei a tampa da caneta, e com a ponta arrastei qualquer coisa para fora do buraco. Era uma lasca ínfima de madeira que havia sido tingida de um amarelo rutilante; comecei a ouvir a voz do Delacroix uma vez mais, desta feita com tanta clareza que o seu fantasma deve ter pairado naquela cela junto de nós - aquela onde o William Wharton passava tanto do seu tempo.
Eh, vocês aí!, disse a voz desta vez - a voz espantada e risonha de um homem que se esqueceu, pelo menos durante algum tempo, do lugar onde se encontra e daquilo que o aguarda.
Venham ver o que é que o mister Jingles consegue fazer!
Meu Deus! - sussurrei. Senti-me como se alguém me houvesse cortado a respiração.
- Descobriste outro, não é verdade? - perguntou o Brutal. - Eu descobri três ou quatro - acrescentou ele. Desci pela escada de mão e fiz incidir a luz da lanterna sobre a palma da sua grande mão, que ele mantinha aberta. Sobre ela viam-se espalhadas várias lascas de madeira, como se fossem um jogo de pauzinhos de elfos. Duas delas eram amarelas, iguais à que eu tinha encontrado. Também havia outra verde e uma vermelha. Não haviam sido pintadas, mas sim coloridas, com os lápis de cera Crayola.
- E esta, hem! - exclamei numa voz baixa e estremecida. - Não querem lá ver! São bocados de carretel, não é verdade? Mas porquê? Porquê aqui em cima? - perguntei.
- Quando eu era mais novo, não era tão grande como sou agora - disse o Brutal. - A maior parte do meu crescimento ocorreu entre os quinze e os dezessete anos. Até essa idade, era quase um anão. Quando fui para a escola da primeira vez, senti-me tão pequeno como se fosse... ora bem, tão pequeno como um rato, calculo que se possa estabelecer essa comparação. Sentia-me quase a morrer de medo. Assim, sabes o que é que eu fiz?
Abanei a cabeça. Lá fora, ouviram-se de novo as rajadas de vento. Nos ângulos formados pelos barrotes, as teias de aranha estremeceram, fazendo oscilar os seus delicados fios, como se fossem renda esfarrapada. Eu jamais tinha estado num lugar que me provocasse uma sensação de assombração tão intensa, e foi precisamente nesse momento, enquanto nós dois olhávamos para os restos lascados do carretel que tantas complicações havia causado, que a minha cabeça começou a ter a percepção daquilo que o meu coração compreendera, desde que o John Coffey percorrera a Milha Verde: eu não poderia continuar a exercer aquelas funções durante muito mais tempo. Com ou sem Grande Depressão, não seria capaz de observar muitos mais homens a entrar no meu gabinete, como se este fosse a antecâmara da morte. Até mesmo só mais um poderia vir a ser demasiado.
- Pedi à minha mãe que me desse um dos seus lenços de assoar - continuou o Brutal. - Por conseguinte, quando sentia que estava prestes a choramingar, sentindo-me muito pequeno, podia tirá-lo da algibeira e cheirar o seu perfume, o que tinha o efeito de fazer com que eu não me sentisse tão mal.
- Estás a pensar... em quê? Que o rato roeu um bocado desse carretel colorido, com o fim de se recordar do Delacroix? Que um rato...
O Brutal soergueu o olhar. Por uns momentos fugazes pareceu-me ter visto lágrimas nos seus olhos, mas calculo que me deveria ter enganado quanto a isso.
- Eu não estou a afirmar nada, Paul. Mas o certo é que as encontrei ali em cima e cheirou-me a hortelã-pimenta, tal como a ti... Sabes que isso é verdade. E não sou capaz de continuar a fazer isto. Recuso-me a continuar a fazer isto. O fato de ser obrigado a ver outro homem sentado naquela cadeira será o suficiente para dar cabo de mim. Na segunda-feira tenciono apresentar um pedido de transferência para o Estabelecimento Correcional Juvenil. Se conseguir ser transferido antes da próxima execução seria ótimo. Se tal não se verificar, demito-me e regresso à lavoura.
- O que é que tu alguma vez amanhaste, para além de pedras?
- Isso não interessa para o caso - respondeu o Brutal: - Eu sei que não - redargui. - Parece-me que vou fazer a mesma coisa que tu.
Olhou-me atentamente, assegurando-se de que eu não es tava a brincar com ele, e acenou com a cabeça como se aquele assunto fosse uma coisa mais que decidida. Uma vez mais ouviram-se rajadas de vento suficientemente violentas para fazer ranger as traves do teto; ambos olhamos para as paredes almofadadas, sentindo um certo mal-estar. Parece-me que por momentos conseguimos ouvir o William Wharton - e não o Billy the Kid, esse não, para nós sempre fora o Bill Selvagem desde o primeiro dia em que aparecera no bloco a gritar e a rir-se, dizendo-nos que iríamos sentir-nos diabolicamente satisfeitos quando nos livrássemos dele, mas que nunca conseguiríamos esquecê-lo! Ele tivera toda a razão.
Quanto àquilo em que o Brutal e eu tínhamos concordado naquela noite, na cela do isolamento, as coisas vieram a desenrolar-se dessa forma. Era quase como se houvéssemos proferido um juramento sagrado sobre aqueles pequenos pedaços de madeira colorida. Nenhum de nós voltou a participar numa execução. O John Coffey foi o último.