À Espera de um Milagre
Parte Um ...........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Às primeiras horas da manhã, Klaus já estava a pé para ordenhar as vacas. O alpendre era num dos lados da casa, afastado da vacaria, não tendo sequer passado pela cabeça de Klaus ir ver como é que estavam as meninas. O fato de Bowser não o ter acompanhado não era motivo para alarme. O cão considerava que as galinhas e as. vacas eram seres desprezíveis, pelo que habitualmente se escondia na sua casinha, por detrás do celeiro, quando essas tarefas da quinta eram levadas a cabo, a menos que o chamassem... e só se isso fosse feito com toda a energia.
Mais ou menos cinco minutos depois de o marido ter calçado as botas na barraca que servia de arrecadação e de se ter dirigido num passo determinado para a vacaria, Marjorie desceu até ao andar térreo. Começou a preparar o café e pôs o toucinho defumado a frigir. A combinação daqueles aromas trouxe Howie do seu quarto, situado logo abaixo do beiral, mas continuava a não haver sinais da presença das raparigas que haviam dormido no alpendre. Marjorie disse ao filho que fosse chamá-las, enquanto quebrava os ovos para dentro da gordura do toucinho. Klaus haveria de querer que as filhas fossem buscar os ovos acabados de pôr, assim que houvessem terminado o pequeno-almoço. Só que o pequeno-almoço não teve lugar em casa dos Detterick nessa manhã. Howie regressou do alpendre com as faces lívidas e com os olhos, que até então tinham estado inchados devido à sonolência, completamente arregalados.
- Elas desapareceram - anunciou o rapaz.
Marjorie dirigiu-se para o alpendre, mostrando-se inicialmente mais irritada do que preocupada. Mais tarde disse que tinha suposto, isto é, se é que na altura supusera alguma coisa, que as filhas haviam decidido dar um passeio, a fim de colher flores à primeira luz do alvorecer. Ou isso ou qualquer outro disparate característico das garotas daquela idade. Após um rápido olhar compreendeu logo por que motivo é que o filho ficara tão pálido.
Gritou por Klaus - berrou por ele - e Klaus veio a correr com as botas esbranquiçadas por ter derramado em cima delas metade de um balde cheio de leite. Aquilo com que se deparou no alpendre teria transformado em borracha os joelhos de qualquer pai, ainda que este fosse muito corajoso. Os cobertores em que as raparigas se haviam enrolado, quando a noite começara a arrefecer, tinham sido arremessados para um canto. A porta de rede fora arrancada violentamente da dobradiça superior e pendia suspensa da ombreira. Nas tábuas tanto do soalho do alpendre como dos degraus, para lá da porta de rede danificada, viam-se várias manchas de sangue.
Marjorie implorou ao marido que não fosse procurar as filhas sozinho, e que não levasse o filho caso se sentisse forçado a procurá-las, mas poderia muito bem ter poupado o fôlego.
O homem foi buscar a carabina que se encontrava pendurada no barracão que servia de arrecadação, bem fora do alcance de mãos pequenas, e entregou a Howie a de calibre 22, que tinha andado a guardar para lhe oferecer no seu aniversário, o qual teria lugar em Julho. Em seguida, pai e filho puseram-se a caminho, sem prestar a mais pequena atenção aos gritos e ao choro da mulher, que queria saber o que ambos tencionavam fazer, no caso de depararem com um bando de maltrapilhos vadios, ou com um grupo de negros de maus ligados fugidos da quinta de Laduc. Neste aspecto, quero dizer-vos que me parece que os homens procederam acertadamente. O sangue já perdera a sua fluidez, embora ainda estivesse bastante viscoso, muito próximo da vermelhidão que lhe era característica, em vez de ter adquirido a tonalidade acastanhada que costumava ter quando já se encontrava bem seco. O rapto das garotas não acontecera há muito tempo. Klaus deveria ter raciocinado que ainda seria possível salvar as suas filhas e não tinha a mínima intenção de deixar escapar essa oportunidade.
Nenhum deles conseguiu avistar qualquer rasto das garotas - ambos eram recoletores, não caçadores, homens que costumavam ir para os bosques, atrás de guaxinins e veados na época própria, não porque o desejassem com muita veemência, mas sim porque se tratava de uma coisa que se esperava deles. O terreno que circundava a casa estava numa confusão de terra espezinhada, cheio de trilhos confusos que não permitiam discernir fosse o que fosse. Deram a volta ao celeiro, tendo visto imediatamente por que motivo Bowser, um animal que mordia mal mas que ladrava bem, não dera o alarme. O seu corpo encontrava-se meio dentro e meio fora da casinha, a qual fora construída com os restos das tábuas utilizadas na construção do celeiro (havia uma tabuleta onde estava escrita a palavra Bowser traçada com grande perfeição sobre o arco da entrada na parte da frente - vi uma fotografia publicada num dos jornais), com a cabeça quase toda torcida num ângulo de cento e oitenta graus. Teria sido necessário um homem com uma força extraordinária para poder fazer aquilo a um animal de tão grande porte, dissera o promotor de justiça, ao júri do julgamento de John Coffey... para em seguida fitar alongada e significativa-mente a figura portentosa do arguido, sentado por detrás da mesa do advogado de defesa, mantendo o olhar baixo e envergando um fato-macaco novinho em folha que o estado lhe havia oferecido e que por si só já era o prenúncio da danação: Além do cão, Klaus e Howie haviam encontrado um bocado de salsicha cozinhada. De acordo com a teoria prevalecente - que não duvido ter tido bases sólidas - Coffey tinha atraído o cão por meio daquele petisco e depois, à medida que Bowser consumia a iguaria, lançara-lhe as mãos à volta do pescoço, que quebrara com um gesto violento dos seus pulsos cheios de força.
Por detrás do celeiro ficava a pastagem norte de Detterick, onde naquele dia nenhuma das vacas iria pastar. O solo encontrava-se todo empapado com o orvalho da madrugada, e era atravessado na diagonal em direção a noroeste pelas pegadas de um homem, tão nítidas como a luz do dia.
Até mesmo no seu estado de semi-histeria, Klaus Detterick hesitou inicialmente em seguir aquele rastro. Não era com medo do homem ou dos homens que haviam levado as suas filhas; era, isso sim, o receio de seguir o caminho que o raptor tomara até sua casa... de haver possibilidade de se encaminhar exatamente na direção errada, numa altura em que todos os segundos poderiam ser de grande importância.
Howie resolveu esse dilema ao retirar um bocado de tecido de algodão amarelo de um arbusto situado precisamente no perímetro da área que circundava a casa. Quando se sentou no banco das testemunhas, alguém mostrou a Klaus aquele mesmo bocado de tecido, e ele começou a chorar ao identificá-lo como um pedaço dos calções com que a filha Kathe dormira. Cerca de vinte metros mais à frente desse lugar, pendurado no ramo saliente de um zimbro, fora encontrado um bocado de um tecido de um verde desbotado, que condizia com a camisa de noite que Cora usava quando dera um beijo de boas-noites à mãe e ao pai.
Os Detterick, pai e filho, prosseguiram num passo quase de corrida, levando as armas empunhadas à frente, à maneira dos soldados quando atravessam um campo de batalha sob uma barragem de metralha cerrada. Se alguma coisa nesse dia me espanta é o fato de o rapaz, que corria desesperadamente atrás do pai (muitas vezes quase sendo deixado para trás), nunca ter caído, e disparado, inadvertidamente, uma bala contra as costas do pai.
A quinta encontrava-se ligada à rede telefônica local - outro indicador para os vizinhos de que os Detterick eram uma família próspera, pelo menos de uma forma moderada, numa época considerada economicamente desastrosa - pelo que Marjorie utilizou a central telefônica para ligar ao máximo número possível de vizinhos que estivessem abrangidos pelo mesmo sistema, informando-os da tragédia que se abatera sobre a sua família como um relâmpago que houvesse cruzado um céu desanuviado, sabendo de antemão que cada um dos telefonemas produziria uma reação em cadeia, como seixos arremessados numa sucessão rápida sobre um charco de águas mansas. Por fim, ergueu o auscultador uma última vez, proferindo as palavras que eram quase uma marca registrada nos primórdios da era das redes telefônicas da altura, pelo menos na região sul do mundo rural: “Alô, central, está alguém em linha?”
A central encontrava-se em linha, mas por breves instantes não disse coisa alguma; aquela mulher de mérito estava absolutamente aparvalhada. Por fim, lá conseguiu articular alguma coisa.
- Sim, minha senhora, Mistress Detterick, com certeza que estou em linha. Oh, meu bom e doce Jesus, neste momento estou a rezar para que as suas pequenitas se encontrem bem...
- Sim, estou-lhe muito agradecida - interrompeu Marjorie. - Mas diga ao Senhor que espere o tempo suficiente para que me possa ligar ao xerife em Tefton, de acordo?
O xerife do município de Trapingus era um velho matreiro com o nariz de quem abusava do uísque, com uma pança que mais parecia uma selha de roupa e cabelos brancos tão esparsos que se assemelhavam a cerdas para limpar cachimbos. Eu conhecia-o bastante bem; o homem fora várias vezes a Cold Mountain visitar aqueles a quem chamava “os seus rapazes”, quando estes se preparavam para entrar no grande além. As testemunhas que assistiam às execuções costumavam sentar-se nas mesmas cadeiras desdobráveis em que todos provavelmente já se sentaram numa ou duas ocasiões, durante funerais ou ceias na igreja, ou ainda durante as sessões de bingo nas granjas (de fato, nesses tempos, tínhamos o costume de pedir emprestadas as que utilizávamos à Granja Ligação Mística Número 44) e, de cada vez que o xerife Homer Cribus se sentava numa delas, eu estava sempre à espera de ouvir aquele estalar seco que anunciaria o colapso. Temia esse dia e ansiava simultaneamente por ele, mas foi um dia que nunca veio. Não muito tempo depois - não poderia ser mais do que um Verão após as garotas Detterick terem sido seqüestradas - ele teve um ataque do coração no seu gabinete, aparentemente enquanto fornicava com uma rapariga de raça negra de dezessete anos, de nome Daphne Shurtleff. Houve muito falatório por causa dessa ocorrência, uma vez que ele tinha por hábito exibir-se sempre de forma proeminente na companhia da mulher e dos seus seis filhos por altura das eleições - esses eram os tempos em que, quando alguém pretendia candidatar-se a fosse o que fosse, costumava dizer-se: “Sê batista ou desaparece.” Mas as pessoas adoram um hipócrita - reconhecem sempre os da sua raça e sabe sempre bem quando alguém é apanhado com as calças na mão e de pau feito e esse alguém não somos nós.
Para além de ser um rematado hipócrita, ele era um incompetente, o tipo de fulano que se deixava fotografar enquanto fazia festas ao gato de alguma senhora, quando fora outra pessoa - o seu ajudante Rob McGee, por exemplo - quem na realidade quase partira uma clavícula ao subir à árvore para onde a bichana trepara e ao trazê-la para baixo.
McGee ouviu o arrazoado de Marjorie durante talvez dois minutos, depois interrompeu-a com quatro ou cinco perguntas - rápidas e incisivas, como se fosse um pugilista com experiência a desferir pequenos golpes sobre as faces do adversário, o gênero de ataques que são tão pequenos, mas tão violentos, que o sangue começa a jorrar quase antes do impacte. Depois de ter obtido as respostas às suas perguntas, ele acrescentou:
- Vou telefonar ao Bobo Marcham. Ele tem uns cães. A senhora deixe-se ficar sossegadinha onde está, Mistress Detterick. Se o seu homem e o seu rapaz regressarem, diga-lhes que se deixem estar também sossegados. Pelo menos, tente que eles façam isso.
Entretanto, o homem e o rapaz de Marjorie haviam continuado a seguir o trilho do seqüestrador ao longo de quatro quilômetros e meio para noroeste; todavia, quando a pista saiu de terreno aberto, entrando no arvoredo cheio de pinhais, acabaram por perdê-la. Ambos eram lavradores e não caçadores, tal como já disse, e nessa altura já se tinham apercebido de que se encontravam na pegada de um animal. Ao longo do caminho haviam encontrado o top que condizia com os calções amarelos de Kathe, assim como um outro pedaço da camisa de dormir de Cora. Ambos os artigos se encontravam empapados de sangue, e naquele momento nem Klaus nem Howie estavam com tanta pressa como no início; nas suas esperanças já devia ter principiado a infiltrar-se uma certeza cheia de frialdade, começando a descer tal como a água fria o faz, afundando-se por ser mais pesada.
Entraram no bosque à procura de vestígios, não encontraram nada, entraram numa segunda área e tiveram um resultado idêntico, e depois numa terceira zona. Desta feita depararam com um leque de sangue derramado por cima de um amontoado de agulhas de pinheiro. Seguiram na direção que lhes parecia indicada durante algum tempo, depois recomeçaram a procurar ao acaso. Nessa altura já eram nove horas da manhã; ambos começaram a ouvir atrás de si os gritos de homens e o latir de cães presos por trelas. Rob McGee conseguira organizar um corpo de guardas civis no mesmo espaço de tempo que teria levado ao xerife Cribus terminar o seu primeiro café adoçado com brande; passados quinze minutos já tinham alcançado Klaus e Howie Detterick, os dois caminhando num passo desesperadamente cambaleante em redor do perímetro do bosque. Pouco depois, os homens puseram-se de novo em movimento, com os cães de Bobo à frente. McGee permitiu que Klaus e Howie os acompanhassem - ainda que lhes tivesse dado ordem contrária, ambos teriam recusado voltar atrás, independentemente do quanto temessem o desfecho daquela perseguição, o que McGee teria compreendido; no entanto, forçou-os a descarregarem as armas. Os outros haviam feito o mesmo, argumentara McGee; assim era mais seguro. O que não lhes disse (no que foi imitado por todos os outros) foi que os Detterick eram os únicos a quem havia sido pedido que retirassem as munições das espingardas, entregando-as ao ajudante do xerife. Sem se aperceberem bem da situação e desejando apenas prosseguir até ao fim daquele pesadelo, pai e filho fizeram o que lhes foi dito. Quando Rob McGee conseguiu convencer os Detterick a descarregarem as armas e a entregarem as munições, salvara provavelmente a desgraçada vida de John Coffey.
Não parando de ganir, os cães presos pelas trelas arrastaram os homens durante três quilômetros pelo solo coberto de pinhas, seguindo sempre pelo trilho em direção a noroeste. Em seguida, detiveram-se na margem do rio Trapingus, cujo leito é largo e de águas lentas naquele ponto, correndo para sudeste através de colinas baixas e arborizadas, onde famílias de nome Cray, Robinette e Duplissey continuavam a manufaturar os seus próprios mandolins e freqüentemente cuspiam os seus próprios dentes apodrecidos, enquanto lavravam a terra; eram regiões rurais bem para o interior, onde os homens conseguiam apanhar serpentes aos domingos de manhã e deitar-se à noite em amplexos carnais com as próprias filhas. Eu conhecia as suas famílias; a maior parte deles contribuía de tempos a tempos com uma refeição para a Velha Faísca. No extremo mais afastado do rio, os homens do corpo de voluntários podiam ver aquele sol de Junho refletido nos carris de aço do ramal ferroviário do Sul. Mais ou menos a quilômetro e meio para a direita, rio abaixo, havia um viaduto que atravessava o caminho em direção às minas de carvão de West Green.
Foi ali que encontraram um trilho largo com o solo bastante revolvido entre as ervas e os arbustos baixos, um rasto tão ensangüentado que muitos dos homens foram forçados a correr para o arvoredo, aliviando-se dos pequenos-almoços que haviam ingerido. Também encontraram o resto da camisa de noite de Cora, que estava caída naquele caminho coberto de sangue derramado, e Howie, que até então se tinha agüentado de forma admirável, retrocedeu para junto do pai, prestes a desfalecer.
E foi naquele lugar que os cães de Bobo Marcham tiveram o seu primeiro e único desacordo do dia. Ao todo eram seis animais dois perdigueiros, dois malhados de negro e um par de terriers cruzados de aspecto feroz. Os dois últimos queriam continuar em direção a noroeste, seguindo pelo Trapingus acima; os demais pretendiam seguir rumo a sudeste. Os seis enredaram-se nas suas próprias trelas e, embora os jornais não tivessem feito qualquer menção a esse acontecimento, eu era capaz de imaginar o praguejar horrível que deve ter saído da boca de Bobo, destinado aos animais, enquanto se servia das mãos - certamente a parte mais bem-educada do seu corpo - para desenredar as trelas que os prendiam. Nos meus tempos tive oportunidade de conhecer alguns donos de cães de caça, e diz-me a experiência que, como classe, são todos muito parecidos.
Bobo manteve-os com a trela curta, numa matilha ordeira, depois passou a camisa de dormir de Cora feita em farrapos por baixo do nariz dos animais, como se os estivesse a recordar do motivo que os havia levado àquele lugar, num dia em que a temperatura atingiria certamente os trinta e dois graus por volta do meio-dia, e os insetos, em enxames, já descreviam círculos à volta das cabeças dos membros da milícia. Os cães de caça farejaram mais uma vez, decidiram votar todos no mesmo número e lá foram em direção ao rio, seguindo para jusante a toda a velocidade.
Ainda mal tinham passado dez minutos quando os homens detiveram a sua caminhada, dando-se conta de que ouviam algo mais além dos latidos dos cães. Na realidade, era mais um uivar do que um ladrar ou rosnar, um som que cão algum jamais havia emitido, nem sequer nas vascas da morte. Era um som que nenhum dos homens alguma vez ouvira ser articulado fosse pelo que fosse, embora todos eles soubessem, sem qualquer margem para dúvida, que saíra da boca de um homem. Foi o que eles disseram na altura, e eu acreditei piamente. Tenho a impressão de que também o teria reconhecido. Já tive oportunidade de ouvir homens a gritarem daquela mesma maneira, quando iam a caminho da cadeira elétrica. Não muitos - quase todos os condenados se fecham em si mesmos e vão ora calados ora dizendo piadas, como se fossem ao piquenique da sua turma - mas uns quantos. Geralmente, aqueles que acreditam na existência do inferno, sabendo de antemão que ele os aguarda no final da Milha Verde.
Uma vez mais, Bobo manteve os seus cães com as trelas curtas. Os animais eram valiosos e ele não tinha a mínima intenção de vir a perder qualquer deles por causa do psicopata que uivava e proferia um arrazoado sem nexo mais abaixo na margem do rio. Os homens carregaram as suas carabinas e começaram a fazer pontaria. Aquele uivar provocara-lhes calafrios de gelar as almas, fazendo com que a transpiração lhes corresse pelas costas abaixo e se acumulasse nos sovacos, como se fosse água gelada. Quando as pessoas se encontram numa situação apavorante como aquela necessitam de um dirigente, a fim de poder prosseguir; coube ao ajudante de xerife, McGee, chefiá-los. Tomou a dianteira do grupo e começou a caminhar num passo vigoroso (não obstante aquela aparente determinação, aposto que ele naquela altura não se sentiu lá muito vigoroso), até chegar a um maciço de amieiros que saíam do bosque à sua direita, com o resto dos companheiros a seguir a cerca de cinco passos atrás de si, num andar que denotava um certo nervosismo. McGee parou uma só vez, para indicar por gestos ao homem de maior porte entre eles - Sam Hollis - que se mantivesse perto de Klaus Detterick.
Do outro lado dos amieiros havia mais terreno aberto, que se estendia até ao início do bosque à direita, enquanto à esquerda se avistava uma longa encosta suavemente ondulada, junto à margem do rio. Todos eles pararam onde se encontravam, como se houvessem sido fulminados por um raio. Estou convencido de que estariam dispostos a dar muito do que possuíam para poder apagar o que tinham à frente dos olhos, e que nenhum deles jamais conseguiria esquecer... Era o gênero de pesadelo que paira para lá dos fatores e dos elementos que formam as vidas boas e comuns - as ceias na igreja, os passeios pelas veredas dos campos, o trabalho honesto, beijos de amor trocados na cama. Existe uma caveira em todos os homens, e deixem-me que vos diga que existe uma caveira na vida de todos os homens. Nesse dia, aqueles homens viram-na - viram aquilo que por vezes esboça um esgar sinistro por detrás de um sorriso.
Sentado na margem, envergando um fato-macaco desbotado e manchado de sangue, encontrava-se o homem mais corpulento que muitos deles alguma vez tiveram ocasião de ver - John Coffey. Os seus pés enormes de dedos achatados e largos estavam descalços. À volta da testa usava uma faixa de um vermelho desbotado, da mesma maneira que qualquer mulher do campo usaria um lenço para ir à igreja. Os mosquitos que o rodeavam formavam uma nuvem escura. Aninhado em cada um dos seus braços estava o corpo de uma menina nua. Os cabelos louros das garotas, anelados e de uma tonalidade clara, como se fossem a penugem de algodão do campo, estavam colados às cabeças, empastados de sangue. O homem que as mantinha presas nos braços vociferava contra o firmamento, como se fosse um vitelo aluado, com faces de tez castanha erguidas e cheias de lágrimas; as suas feições surgiam contorcidas num esgar monstruoso de desgosto. A sua respiração era entrecortada, fazendo com que a caixa torácica se soerguesse, até se ver a tensão exercida nas fivelas das alças do fato-macaco; o homem sustinha a respiração, soltando-a juntamente com um daqueles uivos alongados que os outros haviam ouvido. Era muito freqüente ler-se no jornal que “o assassino não mostrou qualquer remorso”; todavia, esse não era o caso naquela situação. John Coffey sentia-se despedaçado pela ação que cometera... mas haveria de continuar a viver. Para as raparigas isso seria totalmente impossível. Haviam sido esventradas.
Ninguém pareceu lembrar-se do período de tempo que ali permaneceram, observando o homem que continuava a uivar, o qual, por seu turno, fitava um comboio que passava na outra margem do rio de vastas águas calmas e que se dirigia velozmente através dos carris na direção do viaduto que atravessava o rio. Tinham a sensação de que haviam estado a observar durante uma hora, ou talvez para todo o sempre, embora o comboio desse a impressão de não avançar, parecendo deter-se, bruscamente imobilizado, qual criança com uma birra; tão-pouco o Sol se ocultou por detrás de uma nuvem, permitindo que aquela visão se apagasse dos seus olhos. Encontrava-se ali, perante eles, tão verdadeira como a dentada de um cão. O homem negro embalava-se para a frente e para trás. Kathe e Cora eram embaladas ao mesmo ritmo do seu corpo, como se fossem meras bonecas de trapos nos braços de um gigante. Os músculos manchados de sangue dos gigantescos braços desnudados do homem, flexionados e distendidos, flexionados e distendidos, flexionados e distendidos.
Foi Klaus Detterick quem quebrou aquele silêncio sinistro. Soltando gritos de dor, arremessou-se contra o monstro que violara e assassinara as filhas. Sam Hollis sabia bem como cumprir a tarefa que lhe fora reservada, a tentou levá-la a cabo, embora não tivesse sido capaz. Era cerca de quinze centímetros mais alto do que Klaus, e o seu peso excedia o do outro em pelo menos trinta e cinco quilos, mas Klaus dava a impressão de quase ter a força suficiente para se libertar dos seus braços, que o rodeavam. Klaus lançou-se através daquele terreno aberto, desferindo um violento pontapé contra a cabeça do Coffey. A sua bota de lavoura, manchada com o leite seco que havia derramado e que já azedara por força do calor, atingiu em cheio a fronte esquerda do Coffey, mas este pareceu não ter sentido o violento impacte. Limitou-se a permanecer sentado, enquanto chorava e se balançava, olhando fixamente para a outra margem do rio; imagino que poderia muito bem ter feito parte da imagem de um sermão do dia de Pentecostes, o fiel seguidor da cruz, a olhar contemplativamente para a terra prometida... isto é, não fora a presença dos dois cadáveres.
Foi necessária a força de quatro homens para conseguir arrastar o lavrador histérico para longe de John Coffey, apesar de ele ter conseguido atingir este último não sei bem quantas vezes antes de os esforços dos outros serem bem sucedidos. Nada do que estava a acontecer parecia despertar o mínimo interesse em Coffey, fosse de que maneira fosse; o homem limitava-se a observar ensimesmado a outra margem do rio, dando largas à mágoa que o dominava. Quanto a Detterick, todo o espírito de luta o abandonou quando por fim o afastaram do assassino - como se uma estranha corrente galvanizadora atravessasse o corpo do gigantesco homem negro (eu continuo a ter uma certa propensão para pensar em metáforas ligadas à eletricidade; vão ter de me desculpar esta minha faceta peculiar); quando o contato que Detterick mantivera com essa fonte de energia foi finalmente interrompido, o seu corpo ficou flácido, como um homem que houvesse sido arremessado de um cabo elétrico descarnado. Ajoelhou-se com as pernas abertas na margem do rio, mantendo as faces ocultas pelas mãos enquanto chorava convulsivamente. Howie juntou-se ao pai e ambos se abraçaram testa contra testa.
Dois dos homens mantinham-nos sob uma vigilância apertada, ao mesmo tempo que o resto do grupo, de carabinas em punho, formava um círculo em redor do homem negro que não parava de se embalar e de gemer. Dava a impressão de ainda não se ter apercebido da presença dos homens. McGee deu alguns passos em frente, apoiando o peso do corpo ora sobre um pé ora sobre o outro durante algum tempo, até que se agachou.
- Mister - disse ele numa voz tranqüila que teve o condão de calar Coffey imediatamente. McGee olhou para uns olhos congestionados devido ao choro que parecia não querer interromper-se, como se alguém tivesse deixado uma torneira aberta dentro do homem. Aqueles olhos choravam, no entanto pareciam intocados... distantes e serenos. Foram os olhos mais estranhos que tive oportunidade de ver em toda a minha vida. McGee também chegou a uma conclusão bastante aproximada. “Como se fossem os olhos de um animal que nunca tivessem visto um homem”, disse ele a um repórter de nome Hammersmith pouco antes do julgamento.
- Mister, está a ouvir-me? - perguntou McGee. Devagar, Coffey acenou afirmativamente. Continuava a rodear com os braços as suas bonecas macabras, as quais mantinham o queixo sobre o peito, de forma a que os rostos não podiam ser vistos com clareza, um dos poucos atos de misericórdia que Deus achou por bem conceder naquele dia fatídico.
- Tem algum nome? - acrescentou McGee.
- John Coffey - respondeu o homem numa voz empastada e embargada pelas lágrimas. - Coffey como a bebida, com a diferença que não se escreve da mesma maneira.
McGee acenou com a cabeça e em seguida apontou com o polegar na direção do bolso no peito do fato-macaco de Coffey, que exibia uma forma saliente. McGee pensou que talvez contivesse uma arma - embora um homem do tamanho de Coffey não necessitasse de recorrer a uma arma para provocar danos consideráveis, caso estivesse decidido a isso.
- O que é que tens aí dentro, John Coffey? Talvez uma bola? Uma pistola?
- Não, senhor - respondeu Coffey na sua voz entaramelada e com aqueles seus olhos estranhos, marejados de lágrimas e que refletiam uma expressão agonizante, embora bem no fundo se mostrassem aberrantemente serenos, como se o verdadeiro John Coffey se encontrasse algures que não ali, fitando uma outra paisagem qualquer, onde as garotinhas assassinadas não fossem motivo de grande preocupação, olhos que nunca se desprenderam do ajudante de xerife, McGee. - É somente uma pequena merenda que trouxe comigo.
- Oh, com que então temos uma pequena merenda, não é verdade? - replicou McGee, ao que Coffey acenou que sim, dizendo “sim senhor” com os seus olhos arrasados de lágrimas, enquanto o ranho lhe escorria pelas narinas. - E onde é que um homem da tua igualha foi arranjar uma merenda, John Coffey? - acrescentou McGee, forçando-se a manter a calma, embora já lhe tivesse chegado ao nariz o cheiro a cadáver das duas garotas e pudesse ver as zonas ensangüentadas dos corpos a serem sobrevoadas e saboreadas pelas moscas. Afirmou mais tarde que a região dos cadáveres que mais o impressionara tinha sido os cabelos... e não se tratou apenas de uma declaração destinada aos jornais; era uma história demasiado macabra para ser lida por famílias. Não, eu obtive essa informação através do repórter que relatou o acontecimento, Mr. Hammersmith. Posteriormente falei com ele, porque, tempos mais tarde, o John Coffey transformou-se numa espécie de obsessão para mim. McGee disse a este Hammersmith que os cabelos louros das duas tinham deixado de ser louros. Haviam adquirido uma tonalidade castanho-avermelhada. O sangue escorrera-lhes da cabeça pelas faces abaixo, qual trabalho de cabeleireira mal executado; não era preciso ser-se médico para compreender que os seus frágeis crânios haviam sido esmagados um contra o outro, com a força daqueles braços tão poderosos. Possivelmente, as duas menininhas teriam chorado. Provavelmente, ele teria tentado fazer com que elas se calassem. Com um pouco de sorte, aquilo teria acontecido antes dos estupros.
Ao olhar para tal quadro, qualquer homem teria dificuldade em pensar com clareza, até mesmo um homem tão determinado em levar a bom termo o seu trabalho como o ajudante de xerife, McGee. Um raciocínio pouco claro poderia dar origem a erros, talvez mesmo a mais derramamento de sangue. McGee respirou fundo e acalmou-se. Ou pelo menos tentou.
- Pois bem, senhor, não me lembro bem... Macacos me mordam se me lembro - disse Coffey na sua voz embargada pelas lágrimas. - Mas o certo é que é uma pequena merenda... pouca coisa, parece-me que uma sandes e um pepino doce em picles.
- Sou bem capaz de ver com os meus próprios olhos, se não vires inconveniente - retorquiu McGee. - Agora não te mexas, John Coffey. Não te atrevas, rapaz, porque como podes ver estás sob a mira de armas suficientes para fazerem com que desapareças da cintura para cima, caso decidas mexer nem que seja um só dedo.
Coffey continuou a fitar o outro lado do rio, sem fazer qualquer movimento, enquanto McGee, suavemente, levou a mão ao interior da algibeira do peito do fato-macaco, de onde retirou qualquer coisa embrulhada em papel de jornal e atada com um cordel. McGee desfez o nó e abriu o papel, embora tivesse quase a certeza que encontraria aquilo que Coffey dissera, uma pequena merenda. Era composta por uma sanduíche de toucinho fumado com rodelas de tomate e um doce com gelatina. Também havia picles embrulhados numa página com uma história aos quadradinhos, que John Coffey jamais seria capaz de compreender. Não se viam quaisquer salsichas. Bowser tinha comido todas as salsichas da pequena merenda com que John Coffey viera prevenido.
McGee entregou a comida por cima do ombro a um dos homens que o tinham acompanhado, sem nunca despregar os olhos de Coffey. Agachado como se encontrava, não se poderia dar ao luxo de qualquer distração, nem que fosse por um segundo. A merenda, que entretanto fora de novo embrulhada e atada para maior segurança, acabou por ir parar às mãos de Bobo Marcham, o qual a colocou dentro da mochila onde costumava guardar os petiscos para os seus cães (e não me espantaria muito se também lá guardasse algum isco para a pesca). Durante o julgamento, aquilo não foi apresentado como prova incriminatória - a justiça naquela parte do mundo costumava ser célere, embora não o fosse ao ponto de permitir que uma sanduíche, de toucinho fumado e tomate, estivesse em boas condições até essa data - o que não impediu que fossem apresentadas fotografias da mesma.
- O que é que aconteceu por aqui, John Coffey? - perguntou McGee na sua voz veemente e sussurrante. - Queres contar-me o que é que se passou?
Coffey começou a dizer-lhe, assim como aos outros homens presentes, quase exatamente a mesma coisa que me disse a mim; aquelas palavras também foram as últimas que o promotor de justiça dirigiu ao júri, durante o julgamento de Coffey.
- Não consegui evitar o mal - afirmou John Coffey, enquanto continuava a manter nos braços os corpos nus das garotas violadas e assassinadas. Uma vez mais, as lágrimas começaram a jorrar-lhe pelas faces abaixo. - Tentei desfazer o que estava feito, mas já era demasiado tarde - acrescentou ele. - Rapaz, estás preso pelo crime de homicídio - anunciou McGee, após o que escarrou para o rosto de Coffey. O júri retirou-se para deliberar durante quarenta e cinco minutos. Precisamente o espaço de tempo suficiente para comerem a sua própria pequena merenda. Pergunto a mim mesmo como é que puderam ter estômago para comer.
5
Acho que vocês sabem que não vim a tomar conhecimento de tudo isto numa tarde quente de Outubro, num espaço que estava prestes a tornar-se a defunta biblioteca da prisão, graças à leitura de uns quantos jornais antigos empilhados sobre um par de caixotes de laranjas Pomona; no entanto, fiquei a saber o suficiente para não conseguir conciliar o sono nessa noite. Quando a minha mulher se levantou da cama às duas da manhã e deu comigo sentado à mesa da cozinha, a beber leitelho e a fumar cigarros Bugler enrolados em mortalhas por mim mesmo, perguntou-me o que é que me preocupava e eu respondi-lhe com uma das poucas mentiras que lhe disse durante o nosso já longo casamento. Disse-lhe que tinha tido outra discussão com o Percy Wetmore. Claro que isso correspondia à verdade, mas não era a razão que me levava a estar acordado àquela hora já avançada. Por via de regra, conseguia deixar sempre a imagem do Percy no escritório.
- Pois bem, esquece essa ovelha ranhosa e vem para a cama - aconselhou ela. - Tenho uma coisa que te ajudará a dormir e podes servir-te dela à tua vontade.
- Isso parece ser boa idéia, mas acho preferível não o fazermos - retorqui. - Tenho um pequeno problema com a minha canalização urinária e não desejo pegar-to.
- Com que então, a canalização? - comentou ela, erguendo o sobrolho. - Calculo que te tenhas metido com a rapariga de esquina menos adequada da última vez que estiveste em Baton Rouge. - Eu nunca tinha ido a Baton Rouge nem nunca tocara sequer numa rapariga da rua, e ambos o sabíamos.
- Não passa de uma vulgar infecção urinária - acrescentei. - A minha mãe costumava dizer que os rapazes costumam apanhar isto quando vertem águas numa altura em que o vento sopra do Norte.
- A tua mãe também costumava fechar-se em casa todo o dia quando entornava sal - comentou a minha mulher. =O doutor Sadler...
- Não, senhora - atalhei erguendo uma mão. - Ele vai querer que eu tome sulfamidas, o que fará com que eu vomite por todos'os cantos do meu gabinete lá para o fim da semana. Temos de dar à infecção o tempo necessário para que passe por si própria, mas, entretanto, calculo que o melhor será mantermo-nos afastados das brincadeiras.
Ela beijou-me a testa mesmo acima da sobrancelha esquerda, o que tem o condão de me provocar sempre arrepios... tal como a Janice muito bem sabe.
- Pobre querido. Como se esse horroroso do Percy Wetmare não fosse suficiente. Não te demores em vir para a cama,; Assim fiz, mas não sem que antes tivesse saído para o alpendre das traseiras, a fim de aliviar a bexiga (depois de ter verificado a direção do vento com um polegar molhado, antes de urinar - aquilo que os nossos pais costumam dizer-nos quando ainda somos pequenos só muito raramente é' ignorado, independentemente do quão disparatado possa parecer). Urinar ao ar livre é uma das alegrias de viver no campo que nunca foi devidamente abordada pelos poetas, embora nessa noite não tenha sido alegria nenhuma para mim; as águas que eu vertia queimavam-me como se fossem um fio de querosene em combustão. No entanto, tive a sensação de, que nessa tarde fora um pouco pior e tive a certeza de que fora pior dois ou três dias antes. Albergava algumas esperanças de que talvez me encontrasse em vias de melhorar. Nunca uma esperança foi tão mal fundamentada. Ninguém me tinha informado de que por vezes um micróbio que se aloja nessa região do nosso organismo, quente e úmida, poderá levar um dia ou dois a descansar antes de investir de novo com toda a virulência. Tivesse eu estado a par desse aspecto e ter-me-ia sentido deveras surpreendido. Mas teria ficado ainda mais surpreendido se soubesse que dentro de outros quinze ou vinte anos existiriam uns comprimidos que eliminariam dos nosso organismo, num tempo recorde, essa espécie de infecções... e, embora esse medicamento pudesse incomodar-nos um pouco o estômago, ou soltar os nossos intestinos, era muito raro que nos fizesse vomitar da forma como os comprimidos de sulfamidas do Dr. Sadler faziam. Em 1932, pouco mais se podia fazer para além de aguardar pacientemente e tentar ignorar aquela sensação de que alguém derramara querosene no interior da nossa canalização e lhe chegara um fósforo.
Acabei de urinar e regressei ao quarto, tendo finalmente conseguido adormecer. Sonhei com menininhas de sorrisos tímidos que tinham os cabelos empapados de sangue.
6
Na manhã seguinte, deparei com um memorando escrito em papel amarelado em cima da minha secretária, onde me era pedido que passasse pelo gabinete do diretor logo que tal me fosse possível. Sabia do que tratava aquela mensagem - naquele jogo existiam alguns regulamentos por escrever que nem por isso deixavam de ser muito importantes, e na véspera, durante algum tempo, eu não tinha jogado de acordo com eles, por conseguinte, adiei aquele assunto durante tanto tempo quanto me foi possível. Era como se tivesse de ir ao médico por causa do problema com a minha canalização, supunha eu. Sempre estive convencido de que este negócio do “pôr cobro ao assunto o mais depressa possível” se encontrava supervalorizado.
Seja como for, não me apressei em comparecer no gabinete do diretor Moores; em vez disso, despi o casaco do meu uniforme de lã, pendurei-o nas costas da minha cadeira e liguei a ventoinha que se encontrava a um canto do gabinete - estava outro dia de calor. Em seguida, sentei-me e comecei a ler o relatório elaborado pelo Brutus Howell sobre os acontecimentos da noite anterior. Nele não havia nada que fosse causa para alarme. Depois de se ter deitado, o Delacroix tinha chorado durante algum tempo - o que ele fazia na maior parte das noites, mais por autocomiseração do que por lamentar as pessoas que havia assado em vida, tenho a certeza - e depois retirara Mister Jingles, o rato, da caixa de charutos onde o animal costumava dormir. Isso tinha acalmado Del, que dormira como um bebê durante o resto da noite. O mais certo era Mister Jingles ter passado a noite sobre o estômago dele, com a cauda enroscada por cima das suas manápulas e os olhos sem pestanejarem. Era como se Deus houvesse decidido que o Delacroix tinha necessidade de um anjo-da-guarda, tendo decretado em toda a Sua sabedoria, que só um rato serviria para uma ratazana como o nosso amigo da Luisiana com tendências homicidas. Nem tudo aquilo constava do relatório do Brutal, como é evidente, mas eu próprio tinha feito suficientes turnos de noite para poder preencher as lacunas existentes entre as entrelinhas. Havia um pequeno apontamento que dizia respeito ao Coffey: “Ficou deitado acordado, de uma maneira geral sossegado, é possível que tenha chorado um pouco. Tentei encetar uma conversa com ele, mas, de. pois de ter recebido algumas respostas resmungadas, decidi desistir. Talvez o Paul ou o Harry tenham melhor sorte do' que eu.”
“Encetar uma conversa” era efetivamente um dos pontos'; mais fulcrais da nossa missão. Nessa altura eu não o sabia, mas olhando para trás, graças à perspectiva vantajosa desta estranha idade avançada (acho que todas as pessoas de idade devem parecer um tanto estranhas aos olhos das pessoas que' são obrigadas a viver com elas), sei que assim era e conheço o motivo por que na altura não o compreendia - era demasiado grande, uma parte tão fundamental para o nosso trabalho como a respiração para as nossas vidas. Não era importante que os temporários “encetassem uma conversa”, embora isso fosse um fator vital tanto para mim como para o Harry, o Brutal e o Dean... razão por que o Percy Wetmore era um' desastre de tal dimensão. Os prisioneiros odiavam-no, os guardas detestavam-no... presumivelmente, toda a gente sentia aversão pelo homem, exceção feita aos seus amigos políticos, ao próprio Percy, e talvez (mas apenas talvez) à sua mãe. Ele era como uma dose de arsênico branco que se polvilhasse por cima de um bolo de casamento, e estou convicto, que desde o início ele soube que a sua presença significava desastre. O homem era um acidente à espera de se concretizar. Quanto a nós, teríamos escarnecido da idéia de que agíamos de forma mais útil não como guardas de homens condenados à morte, mas sim como seus psiquiatras - hoje em dia, parte de mim continua a sentir vontade de escarnecer dessa idéia; no entanto, sabíamos bem como é que haveríamos de encetar esse gênero de conversa... e sem essa conversa os homens que teriam de se apresentar perante a Velha Faísca tinham o péssimo hábito de enlouquecerem.
Tomei um apontamento no fundo do relatório do Brutal, a fim de não me esquecer de ter uma conversa com o John Coffey - pelo menos, tentar - e depois passei para a mensagem do Curtis Anderson, o assistente principal do diretor da prisão. Dizia que ele, o Anderson, aguardava uma ordem de DDE relativa ao Edward Delacrois (o Anderson escrevera erradamente o nome do homem, que, na realidade, era Eduard Delacroix) dentro de muito pouco tempo. DDE significava data de execução e, de acordo com aquele apontamento, uma fonte bem informada dissera ao Curtis que o pequeno francês faria essa caminhada perto da Noite das Bruxas - vinte e sete de Outubro era o seu melhor palpite; os palpites do Curtis Anderson eram sempre muito bem informados. Todavia, antes dessa data poderíamos contar com a chegada de um novo residente, o qual dava pelo nome de William Wharton. “Ele é aquilo a que se gosta de chamar uma criança problemática”, escrevera o Curtis na sua escrita inclinada para a esquerda, que até certo ponto era presumida. “Doido varrido e orgulhoso de o ser. Durante o último ano deambulou por todo o estado, tendo finalmente dado o grande passo. Assassinou três pessoas durante um assalto, sendo uma delas uma grávida, e abateu uma quarta vítima durante a fuga. Um polícia de trânsito. Só não acertou numa freira e num cego.” Esbocei um sorriso ao ler aquilo. “O Wharton tem dezenove anos e na parte superior do antebraço tem tatuado Billy the Kid. Posso afiançar que será necessário esbofeteá-lo uma ou duas vezes, mas é preciso ter cuidado quando isso acontecer. Este homem está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer.” A última observação fora sublinhada com dois traços, depois ele terminara: “Também é possível que venha a manter-se por aqui. Tem tentado recorrer da sentença e para além disso, é menor.”
Um miúdo louco, que recorre da sentença, muito capaz de se manter por ali durante algum tempo. Oh, tudo aquilo soava que era uma maravilha. De súbito, tive a impressão de que o dia ficaria mais quente do que anteriormente, e vi que não poderia continuar a adiar a minha visita ao gabinete do diretor Moores.
Durante o tempo em que exerci a profissão de guarda em Cold Mountain, trabalhei para três diretores; o Hal Moores foi o último e o melhor deles todos. Conclusão a que se poderia chegar ao fim de pouco tempo. Era um homem honesto e direto, que nem sequer possuía a esperteza rudimentar do Curtis Anderson, embora estivesse munido da sabedoria política suficiente para lhe permitir manter o emprego durante aquele período difícil... e com integridade suficiente para o impedir de se deixar seduzir por aquele jogo de interesses. Nunca ascenderia a uma posição mais elevada, mas isso parecia não o incomodar por aí além. Nessa altura, deveria andar pelos cinqüenta e oito ou cinqüenta e nove anos e tinha uma cara tão parecida com o focinho de um cão que o Bobo Marcham se teria sentido completamente à vontade com ele. Possuía cabelos brancos, e as suas mãos estavam sempre a tremer devido a uma qualquer ameaça de paralisia, embora ele fosse um homem forte. No ano anterior, quando um dos prisioneiros se acercara agressivamente dele no pátio de recreio, empunhando o cabo de madeira de um pé-de-cabra, Moores mantivera-se firme; agarrara vigorosamente no pulso do rufião e torcera-o com tanta força que o estalar dos ossos a quebrarem-se se assemelhara ao som de galhos secos a arder numa fogueira. O agressor, tendo-se esquecido de todas as suas razões de queixa, vergara-se até ficar ajoelhado no solo enquanto gritava pela mãe.
- Eu não sou ela - dissera Moores na sua maneira culta de falar de homem oriundo do Sul -, mas, se o fosse, levantaria as saias e mijar-te-ia em cima através da região do meu corpo que te viu nascer.
Quando entrei no seu gabinete, ele fez menção de se levantar da cadeira, mas com um gesto indiquei-lhe que permanecesse onde estava. Sentei-me na cadeira em frente dele, do outro lado da secretária e comecei a perguntar pelo estado de' saúde da mulher... só que nestas paragens as coisas não se' processam exatamente dessa maneira.
- Como é que está a tua bonita rapariga? - perguntei,, como se a Melinda tivesse acabado de completar dezessete primaveras, em vez de sessenta e duas ou sessenta e três.
O meu interesse era bastante genuíno - ela era uma mulher que eu próprio poderia ter amado e com quem podia ter casado se as linhas das nossas vidas se tivessem cruzado – e não me incomodava muito desviar-lhe um pouco a atenção do assunto principal que me havia levado ali.
- Ela não tem passado muito bem, Paul - retrucou ele com um profundo suspiro. - Nada bem, mesmo.
- Mais dores de cabeça?
- Esta semana só teve uma, mas foi a pior de todas... Forçou-a a ficar estendida na cama durante a maior parte do dia, anteontem. E agora começou a sentir uma inércia na mão direita... - Ergueu a sua própria mão direita cuja pele tinha manchas hepáticas acastanhadas. Ambos pudemos observar o tremor no membro enodoado durante breves momentos, após o que baixou a mão. Consegui perceber que ele teria dado tudo para não ser forçado a dizer-me o que estava a dizer, e pela minha parte, eu teria procedido exatamente da mesma maneira para não ser forçado a ouvir. As dores de cabeça dá Melinda tinham começado na Primavera e, durante todo aquele Verão, o médico insistira que eram “enxaquecas provocadas pela tensão nervosa”, o que poderia muito bem ter como causa a próxima aposentadoria do Hal. Só que nenhum deles podia esperar que ele se reformasse, e a minha própria mulher tinha-me dito que as enxaquecas não eram um incômodo que costumasse afligir as pessoas de idade, mas sim os mais novos; quando os seus sofredores alcançavam a idade da Melinda Moores, habitualmente sentiam-se melhor e não pior. E agora surgira-lhe aquela fraqueza na mão. Quanto a mim, nenhum daqueles sintomas indicava a existência de tensão nervosa; eram, isso sim, indicadores do raio de um enfarte iminente.