À Espera de um Milagre

Stephen King · Capítulo 4 de 9 · parte 2/3

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À Espera de um Milagre

Parte Dois .........................................................................................

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O Brutal contornou a cadeira de forma a que o Pouca Terra o pudesse ver.

- Arlen Bitterbuck, o senhor foi condenado a morrer na cadeira elétrica, tendo a sentença sido lavrada por um júri formado pelos seus pares, e imposta por um juiz deste estado. Deus abençoe as pessoas deste estado. Tem alguma coisa a dizer antes de se dar cumprimento à sentença?

- Sim - replicou o Pouca Terra com os olhos cintilantes e lábios unidos que esboçavam um esgar desdentado pleno de felicidade. - Quero um jantar de galinha frita com molho em cima das batatinhas, quero cagar dentro do teu chapéu e tenho de ter a Mae West sentada em cima da minha cara, porque sou um filho da puta cheio de tesão.

O Brutal tentou manter uma expressão empedernida, mas foi-lhe absolutamente impossível. Lançou a cabeça para trás e desatou a rir às gargalhadas. O Dean, que se encontrava na extremidade da plataforma, perdeu toda a compostura como se houvesse sido atingido por um projétil, com a cabeça baixada entre os joelhos, a uivar como se fosse um coiote e com uma mão a tapar os sobrolhos, dando a impressão de que impedia os miolos de saírem do lugar onde deveriam manter-se. Por seu lado, o Harry batia com a cabeça contra a parede, enquanto proferia ah-ah-ah como se tivesse um naco de comida entalado na garganta. Até mesmo o Jack Van Hay, um homem que não era conhecido pelo seu sentido de humor, não conseguira conter o riso. É claro que a mim também me apeteceu rir, mas a custo consegui refrear essa vontade. Na noite seguinte tudo aquilo seria a sério e, no lugar onde o Pouca Terra estava sentado haveria um homem destinado a morrer.

- Pára com isso, Brutal - disse eu. - Tu também, Dean. Harry. E pouca Terra, o próximo comentário semelhante a esse que saia da tua boca será o último que farás. Ordenarei ao Van Hay que prossiga de fato com a fase dois.

O Pouca Terra mimoseou-me com uma careta risonha, como se me dissesse: “Essa foi muito boa, chefe Edgecombe, mesmo muito boa.” Quando viu que não obtinha qualquer reação da minha parte, lançou-me um olhar intrigado por entre as pálpebras semicerradas.

- O que é que se passa consigo? - perguntou ele. - O que disseste não tem graça nenhuma - retorqui.

É isso que se passa comigo e, se não és suficientemente esperto para compreenderes isso, o melhor é manteres a pia fechada. - Só que era engraçado, à sua maneira muito especial, e suponho que fora isso o que realmente me enfurecera.

Olhei à minha volta e vi que o Brutal olhava fixamente para mim, continuando a sorrir um pouco.

- Merda! - exclamei. - Estou a ficar demasiado velho para este trabalho.

- Não - retorquiu o Brutal. - Estás no teu melhor, Paul.

Mas não estava e ele também não, pelo menos no que respeitava aquelas malditas tarefas, e ambos sabíamos que assim era. Fosse como fosse, o importante era que o ataque de riso tinha passado. O que era bom, visto que a última coisa de que eu precisava era que alguém se recordasse, na noite seguinte, do comentário do chico-esperto do Pouca Terra, o que daria origem a mais risadas. Poder-se-ia dizer que isso seria absolutamente impossível, um guarda que desatasse a rir às gargalhadas na altura em que escoltava um homem condenado, ao passar pela frente das testemunhas enquanto o conduzia à cadeira elétrica; porém, quando os homens se encontram sujeitos a uma grande tensão psicológica, tudo pode acontecer. Caso se verificasse uma coisa dessas, as pessoas iriam falar do assunto durante pelo menos vinte anos.

- Tencionas ficar calado, Pouca Terra? - perguntei. Sim - respondeu ele; a expressão do seu rosto, que mantinha desviado, refletia a da criança mais amuada do mundo.

Fiz sinal ao Brutal, indicando-lhe que deveria prosseguir com o ensaio. Ele retirou o saco negro, que se encontrava pendurado no gancho de bronze nas costas da cadeira, e colocou-o na cabeça do Pouca Terra, ajustando-o bem abaixo do queixo, o que abriu o orifício em cima, na parte mais larga. Em seguida, o Brutal inclinou-se para a frente, agarrou na esponja molhada que retirou do balde, fez pressão com um dedo sobre a esponja e lambeu a ponta do dedo. Concluído aquilo, voltou a colocar a esponja dentro do balde. No dia seguinte, não o faria. No dia seguinte, ajeitá-la-ia dentro do capacete que se encontraria pendurado nas costas da cadeira.

No entanto, naquele dia não procederia assim; não havia necessidade de molhar a cabeça do velho Pouca Terra.

O capacete era de aço e, com aquelas estranhas correias suspensas dos dois lados, tinha a aparência de uma espécie de capacete feito de plasticina. O Brutal colocou-o na cabeça do velho Pouca Terra, ajustando-o por cima do orifício recortado no saco negro.

- Estão a pôr-me o capacete, estão a pôr-me o capacete, estão a pôr-me o capacete - anunciou o Pouca Terra, cuja voz naquele momento soava abafada,. saindo-lhe a custo da garganta. As correias mantinham-lhe os maxilares quase cerrados, e desconfio que o Brutal as havia apertado um tudo-nada em excesso, mais do que aquilo que seria estritamente necessário para um ensaio. Retrocedeu e olhou de frente para as cadeiras desocupadas.

- Arlen Bitterbuck - anunciou ele -, a partir de agora a corrente elétrica atravessará o seu corpo até que o senhor esteja morto, de acordo com a lei deste estado. Que Deus tenha piedade da sua alma.

O Brutal voltou-se para a pequena janela retangular de rede de arame.

- Prossigam com a fase dois.

O velho Pouca Terra, talvez numa tentativa de retomar a anterior genialidade de cômico, começou a estrebuchar e a espernear na cadeira, de uma maneira que quase nunca acontecia com os verdadeiros clientes da Velha Faísca.

- Agora estou a estorricar! - gritou ele. - A estorricar! A estoricaarrr! Aaauuuu! Estou cozinhado como um peru! Reparei que o Dean e o Harry não observavam esta cena. Tinham voltado costas à Velha Faísca e fitavam um ponto para além da sala da arrecadação vazia, nomeadamente a porta que dava acesso ao meu gabinete.

- Macacos me mordam! - exclamou o Harry. - Uma das testemunhas chegou com um dia de antecedência. Sentado na ombreira com a cauda cuidadosamente enrolada em redor das patas, observando tudo com os seus olhos negros e brilhantes como contas, encontrava-se o rato.

 

5

A execução correu bem - se existia qualquer coisa naquele processo que pudesse ser considerada “boa” (uma proposição de que eu duvido veemente-mente) então a execução do Arlen Bitterbuck, ancião dos Cherokees de Washita, fora-o. As suas tranças não tinham ficado bem feitas - as mãos haviam-lhe tremido tanto que não conseguira entrançar o cabelo como deve ser - e a filha mais velha, uma mulher de trinta e poucos anos, tivera autorização para as entrançar como devia ser. Ela queria entrelaçá-las com penas nas extremidades, as penas novas de um falcão, o pássaro do pai, mas eu não pude permitir isso. Havia a possibilidade de pegarem fogo, começando a arder. É claro que eu não lhe disse isso, limitei-me a dizer-lhe que era contra os regulamentos. Ela não levantou qualquer objeção, tendo apenas inclinado a cabeça e levado as mãos à fronte, como mostra do seu desgosto e da sua reprovação. A mulher conduziu-se sempre com uma dignidade extraordinária, e, ao manter aquela compostura, praticamente garantiu que o pai procederia da mesma maneira.

O Chefe deixou a sua cela sem qualquer objeção, sem tentar protelar a situação quando chegou o momento. Por vezes éramos obrigados a soltar os dedos dos homens que se agarravam às grades da cela - nos meus tempos, cheguei mesmo a quebrar um ou dois; nunca consegui esquecer-me do estalar abafado dos ossos quando isso acontecia; todavia, o Chefe não era um desses, graças a Deus. Caminhou determinantemente pela Milha Verde até ao meu gabinete, onde se deixou cair de joelhos para rezar com o Irmão Schuster, que tinha vindo da Igreja Batista Luz Celestial no seu velho calhambeque. Schuster leu ao Chefe alguns salmos, e ele começou a chorar quando o reverendo chegou àquele que falava em deitar-se ao lado das águas tranqüilas. Não obstante isso, as coisas correram mais ou menos, não tendo havido histeria nem nada do gênero. Eu tinha a impressão de que ele estaria a pensar em águas tranqüilas, tão frias e tão puras que nos davam a sensação de cortar a boca de cada vez que as bebíamos.

Na verdade, eu gosto de os ver chorar um pouco. Quando eles não choram é que eu fico preocupado.

Muitos deles não são capazes de se levantar sem ajuda depois de se terem ajoelhado; todavia o Chefe portou-se bem nesse departamento. De início, vacilou um pouco, como se não soubesse o que estava a fazer, e o Dean estendeu-lhe uma mão, embora o Bitterbuck já tivesse sido capaz de se recompor sem auxílio, o que nos permitiu dar seguimento à sessão.

Quase todas as cadeiras se encontravam ocupadas por pessoas que falavam entre si numa voz sussurrada, tal como se costuma fazer quando se aguarda o início de um casamento ou de um funeral. Essa foi a única ocasião em que o Bitterbuck se deixou ir um pouco abaixo. Não sei se foi por ter estado presente alguém que o tenha perturbado em especial, ou o conjunto de toda aquela assistência, mas o certo é que comecei a ouvir um gemer ensurdecido que começava a sair-lhe da garganta, e, de repente, o braço em que eu segurava adquiriu uma tensão muscular que não tivera antes. Pelo canto do olho, vi que o Harry Terwilliger se aproximava, a fim de cortar qualquer tentativa de recuo do Chefe, se de súbito este decidisse dificultar as coisas.

Apertei com mais força a mão que mantinha presa no cotovelo do Bitterbuck, tendo-lhe tocado com um dedo na região interior do braço.

- Calma, Chefe - disse-lhe eu pelo canto da boca sem mexer os lábios. - A única coisa que ficará gravada na memória da maior parte desta gente é a forma como saíres desta vida, portanto, dá-lhes algo de bom... mostra-lhes como é que um washita se comporta.

Ele lançou-me um olhar de revés e acenou com a cabeça. Em seguida, agarrou numa das tranças que a filha havia entrançado e deu-lhe um beijo. Olhei para o Brutal, que se mantinha na posição militar de descanso por detrás de uma cadeira, todo aprumado no seu melhor uniforme azul, com os botões do casaco bem polidos e a brilhar, e o chapéu de pala perfeitamente posicionado na sua cabeça avantajada. Fiz-lhe um ligeiro acenar de cabeça, que ele retribuiu de imediato, avançando para ajudar o Bitterbuck a subir para a plataforma, caso a sua ajuda viesse a ser necessária. Não foi.

Decorreu menos de um minuto desde o momento em que o Bitterbuck se sentou na cadeira, até que o Brutal gritou “Prosseguir com a fase dois!”, numa voz suave, falando por cima do ombro. As luzes voltaram a enfraquecer, embora por pouco tempo; nem se teria reparado nisso, caso não se esperasse que tal viesse a acontecer. O que significava que o Van Hay acionara o interruptor, que um engraçadinho qualquer tinha etiquetado como “o SECADOR DE CABELO DA MABEL. Ouviu-se um zunir abafado vindo do capacete, e o Bitterbuck inclinou-se para a frente com um estremecimento, contra as fivelas e a correia estendida a toda a largura do seu peito. Junto à parede, o médico da prisão observava sem deixar adivinhar qualquer expressão, mantendo os lábios tão cerrados que a sua boca se assemelhava a uma linha esbranquiçada. Não houve qualquer estrebuchar nem tão-pouco espernear, tal como o velho Pouca Terra fizera durante o ensaio, só aquele forte estremecimento para a frente, das ancas para cima, como se sob o efeito de um poderoso orgasmo. A camisa azul do Chefe esticou-se toda junto dos botões, criando pequenos vincos que se assemelhavam a sorrisos de carne entre eles.

E foi então que surgiu o cheiro. Em si mesmo não era muito mau, embora se tornasse desagradável devido ao que nele se encontrava implícito. Nunca fui capaz de descer até á cave da casa da minha neta, quando me levam até lá, embora seja aí que o seu filho, ainda pequeno, tem montada a linha do comboio que muito gostaria de partilhar com o avô. Os comboios não me incomodam, tal como certamente terão adivinhado - é o transformador que não sou capaz de suportar. A maneira como zune e o cheiro que deita depois de ter aquecido. Até mesmo depois de terem passado todos estes anos, aquele cheiro traz-me sempre à memória a imagem de Cold Mountain.

O Van Hay deu-lhe trinta segundos e cortou a corrente. O médico avançou, afastando-se do seu lugar para auscultar o coração com o estetoscópio. Naquele momento não se ouvia qualquer conversa entre as testemunhas. O médico endireitou-se e olhou através do pequeno retângulo de malha de rede. - Desorganizado - anunciou ele, fazendo um gesto giratório com um dedo, como se desse à manivela. Tinha ouvido algumas pulsações esporádicas no peito do Bitterbuck, provavelmente tão desprovidas de significado como as convulsões finais de uma galinha a quem tivessem cortado a cabeça, mas era preferível não correr o mínimo risco. Ninguém queria que ele, inesperadamente, se sentasse na maca quando fosse a meio caminho do túnel, começando a gritar que se sentia a arder.

O Van Hay prosseguiu com a fase três e, uma vez mais, i o corpo do Chefe foi percorrido por um estremecimento que o impulsionou para a frente, agitando-se um pouco de um lado para o outro sob os efeitos da corrente elétrica. Desta feita, quando o médico o auscultou de novo acenou com a cabeça Estava tudo terminado. Uma vez mais tínhamos alcançado êxito em destruir aquilo que não podíamos criar. Algumas das pessoas entre a assistência recomeçaram a conversar no mesmo tom de voz sussurrada; contudo, a maior parte dos presentes mantinha-se de cabeça baixa e com os olhos presos no chão, como se estivessem atordoados. Ou mesmo envergonhados.

O Harry e o Dean surgiram com a padiola. Na realidade, era tarefa do Percy colocar-se numa das extremidades, mas ele não sabia disso e ninguém se tinha dado ao trabalho de o informar O Chefe, que continuava a ter a cabeça coberta pelo saco de seda negra, foi colocado sobre a padiola por mim e pelo Brutal, e conduzimo-lo através da porta que dava acesso ao túnel o mais depressa possível, sem que desatássemos a correr. O fumo - demasiado fumo - começara a evolar-se do orifício no topo do saco, provocando um fedor insuportável.

- Ó pá! - gritou o Percy numa voz vacilante. - Que cheiro é esse?

- Sai do meu caminho e mantém-te bem afastado - ripostou o Brutal, empurrando-o ao passar por ele para poder chegar à parede, onde estava montado um extintor. Era um dos antigos, que continha um produto químico e que era necessário bombear. Entretanto, o Dean havia retirado a espécie de capuz. Não era tão mau como poderia ter sido; a trança esquerda do Bitterbuck estava a fumegar, como se fosse um amontoado de folhas umedecidas.

- Deixa essa coisa sossegada - disse eu ao Brutal. Não desejava ter de limpar do rosto do velho um monte de substâncias químicas viscosas antes de o colocar na parte de trás da ambulância. Comecei a bater na cabeça do Chefe (durante todo o tempo, o Percy olhava para mim com os olhos esbugalhados) até que o fumo se extinguiu.

Em seguida, conduzimos o corpo pelos doze degraus de madeira que iam dar ao túnel. Aquele lugar era tão frio e úmido como uma masmorra, ouvindo-se o som cavo de água a gotejar. Do teto estavam suspensas lâmpadas protegidas por quebra-luzes toscos de zinco - estes haviam sido feitos na oficina da prisão - as quais deixavam ver uma conduta de tijolo que passava a cerca de nove metros abaixo da auto-estrada. O teto molhado tinha uma forma curva. De todas as vezes que eu era obrigado a passar por ali, sentia-me sempre como se fosse uma das personagens de uma das histórias de Edgar Allan Poe. Havia uma maca à nossa espera. Colocamos o corpo do Bitterbuck em cima dela e eu procedia uma última verificação, certificando-me de que o cabelo deixara de arder. Aquela trança ficara bastante estorricada; lamentei ver que a pequena laçada, que fora dada de maneira tão astuta naquela região da cabeça, não passava agora de um amontoado enegrecido.

O Percy esbofeteou uma das faces do homem morto O estrépito provocado pelas pancadas da sua mão sobressaltou-nos a todos. O Percy olhou em redor, fitando-nos a todos com um sorriso matreiro nos lábios e olhos que cintilavam, Voltou a olhar para o Bitterbuck.

- Adiós, Chefe - disse ele. - Espero que o inferno seja suficientemente quente para ti.

- Não faças isso - atalhou o Brutal numa voz que soava cava e declamatória, no túnel onde a água continuava a gotejar. - Ele já pagou a sua dívida para com a sociedade. Voltou a ter as suas contas em dia. Mantém as mãos afastadas do seu corpo.

- Ei, acaba com isso - retorquiu o Ferey, embora houvesse recuado, mostrando um certo mal-estar quando o Brutal começou a encaminhar-se na sua direção, com a sombra que se erguia atrás de si como se fosse a sombra de um gorila na história que fala da Rua Morgue. Mas em vez de agarrar no Percy, o Brutal agarrou na maca e começou a empurrar o Arlen Bitterbuck com lentidão, em direção ao fundo do túnel, onde a sua última boleia o aguardava estacionada no acostamento macia da auto-estrada. As rodas de borracha dura da maca gemiam sobre as tábuas do soalho; a sua sombra, de contornos pouco nítidos, alongava-se contra a parede de tijolos. O Dean e o Harry agarraram no lençol que estava ao fundo da maca e cobriram o rosto do Chefe, que começara já a adquirir a máscara cerácea e descaracterizada comum às faces mortas, tanto dos inocentes como dos culpados.

 

6

 

Quando eu tinha dezoito anos, o meu tio Paul - o homem que me dera o nome - morreu de um ataque cardíaco. Os meus pais levaram-me a Chicago para o funeral, aproveitando para visitar familiares do lado da família do meu pai, a maioria dos quais eu nunca tinha visto. Ficamos nessa cidade durante quase um mês. Sob certos aspectos, foi uma viagem agradável, uma jornada necessária e empolgante, mas que de certa forma também se tornou horrível. Bem vêem, eu estava profundamente apaixonado pela jovem mulher que mais tarde haveria de ser a minha noiva duas semanas depois de ter completado dezenove anos. Uma noite em que as saudades que sentia dela eram como chamas queimando-me descontroladamente o coração e a cabeça (oh sim, de acordo, e também os tomates), escrevi-lhe uma carta que parecia não ter fim - nela esvaziei todo meu coração, sem nunca voltar atrás para rever o que tinha escrito, porque receava que a cobardia me impedisse a mão de continuar. Não parei de escrever, e quando uma voz no interior da minha cabeça bradou que seria uma loucura enviar uma carta daquelas, uma vez que eu estava a pôr a nu o meu coração perante ela, que o poderia agarrar com a sua mão, ignorei-a com a mesma atitude de desinteresse de uma criança pelas conseqüências dos seus atos. Perguntei-me freqüentemente se a Janice teria guardado essa carta, apesar de nunca ter sido capaz de reunir coragem suficiente para lhe fazer essa pergunta. O que eu sei com toda a certeza é que não a encontrei, quando examinei as suas coisas depois do seu funeral, o que, como é claro, por si só não tem qualquer significado. Suponho que nunca lhe cheguei a perguntar, porque receava descobrir que aquela epístola, cheia de ardor, tivera menos significado para ela do que para mim próprio.

Era composta por quatro páginas e eu estava convencido de que jamais voltaria a escrever uma missiva tão alongada como aquela, em toda a minha vida, e agora olhem bem para isto. Toda esta escrita e o fim ainda não se encontra à vista. Se eu soubesse que esta narrativa se alongaria desta forma, possivelmente nunca a teria começado. Nunca me tinha apercebido da quantidade de portas que o ato de escrever abre, como se a antiga caneta de tinta permanente do meu pai não fosse realmente uma caneta mas sim uma estranha variedade de chave-mestra. Muito provavelmente, o rato constitui o melhor exemplo daquilo que estou a tentar ilustrar. Steamboat Willy, Mister Jingles, o rato da Milha. Até ter começado a escrever, nunca tinha compreendido até que ponto é que ele (sim, ele) fora importante. Por exemplo, a forma como parecia procurar o Delacroix antes de este ter chegado à prisão - não me parece que esse aspecto me tenha ocorrido alguma vez, pelo menos de forma consciente, até ter começado a escrever e a relembrar as coisas.

Calculo que aquilo que pretendo dizer é que não me apercebi do quanto teria de recuar no tempo para vos falar do John Coffey, ou durante quanto tempo é que teria de o deixar na sua cela, um homem tão gigantesco que os seus pés não se limitavam a sair pelo fundo da tarimba; pendiam até ao chão. Não quero que se esqueçam dele, de acordo? Quero que o imaginem ali, erguendo o olhar até ao teto da sua cela, vertendo as suas lágrimas em silêncio ou colocando os braços . sobre as faces. Quero que o ouçam, os seus suspiros trêmulos como um choro, os seus gemidos ocasionais trespassados de lágrimas. Não eram sons de agonia e de lamento, como os , que por vezes ouvíamos no Bloco E, gritos agudos com lascas de remorso; tal como os seus olhos lacrimosos, distanciavam-se da dor com que estávamos habituados a lidar. De certa forma - eu sei que isto pode parecer um disparate, claro que sei, mas não faz o mínimo sentido escrever uma coisa tão extensa como esta se não pudermos expressar aquilo que temos no nosso coração - de certa forma era como se aquilo que ele sentia fosse pena de todo o mundo, algo demasiado, imenso para poder ser minimamente atenuado. Por vezes, eu sentava-me e conversava com ele, tal como costumava fazer com todos os outros - conversar era a nossa maior tarefa e a mais importante, como estou em crer que já vos disse - tentando confortá-lo. Não me parece que alguma vez tenha conseguido fazê-lo, e parte do meu coração sentia-se satisfeito por ele sofrer. Sabem, eu sentia que ele merecia sofrer. Por vezes chegava mesmo a pensar em telefonar ao governador (ou dizer ao Percy que lhe telefonasse - que diabo, ele era o raio do tio do Percy e não meu), a fim de lhe pedir que adiasse a execução. Não deveríamos pôr-lhe fim agora, diria eu. , Ele continua a sentir-se demasiado magoado, o seu ato ainda lhe morde em demasia, contorcendo-lhe as entranhas como um aguilhão de ponta aguçada. Peço a Vossa Excelências que lhe conceda outros noventa dias. Deixai que ele inflija a si próprio aquilo que nós não temos meios de lhe infligir.

É este John Coffey que eu tenho de manter num recanto da vossa mente, enquanto me ponho em dia até ao ponto onde comecei - este John Coffey deitado em cima da sua tarimba, este John Coffey que tinha medo do escuro, o que talvez se devesse a uma boa razão, porque ao abrigo da escuridão não se encontrariam duas figuras de cabelos anelados e louros - que haviam deixado de ser menininhas para se transformarem em harpias vingadoras - que estariam à sua espera. Este John Coffey de cujos olhos brotavam constantemente lágrimas, como sangue que nunca cessa de jorrar de uma chaga que jamais sara.

 

7

E assim o Chefe foi eletrocutado e o Presidente caminhou - pelo menos, até ao Bloco C, que era o lar da maioria dos cento e cinqüenta condenados a prisão perpétua de Cold Mountain. Para o Presidente, a prisão perpétua resumiu-se a doze anos. Ele acabou por morrer afogado na lavanderia da prisão, em 1944. Não na lavanderia da penitenciária de Cold Mountain. Esta encerrou os seus portões em 1933. Não me parece que isso fosse de grande interesse para os encarcerados - paredes são paredes, tal como os reclusos costumam dizer, e a Velha Faísca era tão mortífera na sua pequena câmara de morte de pedra como sempre o fora na sala de arrecadação de Cold Mountain.

Quanto ao Presidente, alguém lhe enfiou a cabeça dentro de uma cuba cheia de fluidos de limpeza a seco, tendo-o mantido naquela posição. Quando os guardas o retiraram, o seu rosto tinha desaparecido quase por completo. Foram forçados a identificá-lo através das impressões digitais. Levando tudo em consideração, ele talvez tivesse ficado a ganhar com a Velha Faísca... mas nesse caso não teria gozado esses doze anos a mais, não é verdade? Todavia, duvido muito que ele tivesse levado isso em grande consideração durante mais ou menos o último minuto da sua vida, quando os seus pulmões tentaram aprender a respirar Hexlite e lixívia.

Nunca chegaram a apanhar quem lhe fez aquilo. Nessa altura já eu me tinha afastado do sistema prisional, mas o Harry Terwilliger escreveu a contar-me. “Ele teve a pena comutada, em grande parte por ser branco”, escreveu ele, “mas no fim acabou por ter o que merecia. Penso no assunto como se fosse uma execução bastante adiada, cujo prazo finalmente expirou.”

Houve um período de tempo tranqüilo para nós no Bloco depois de o Presidente ter sido transferido. O Harry e o Dean foram temporariamente destacados para outro serviço, pelo que só ficamos durante algum tempo, eu, o Brutal e o Percy na Milha Verde. Na realidade era só o Brutal e eu, uma vez que o Percy era muito metido consigo mesmo. Deixem-me que vos diga que esse jovem era um autêntico gênio em descobrir as coisas que não seria obrigado a fazer. E de vez em quando (mas só quando o Percy não se encontrava presente), os outros tipos costumavam aparecer, para aquilo a que o Harry gostava de chamar “uma bela conversa fiada”. Em muitas destas ocasiões, o rato também nos brindava com a sua presença. Nós alimentávamo-lo e ele sentava-se ali a' comer, tão solene como Salomão, olhando-nos com os seus pequenos olhos negros que se assemelhavam a contas cintilantes.

Aquelas foram algumas semanas boas, calmas e sem complicações de maior, não obstante as lamentações mais do que ocasionais do Percy, mas o certo é que todas as coisas boas têm um fim, e numa segunda-feira chuvosa em fins de Julho - já vos disse como o tempo se mantinha abafado e chuvoso nesse Verão? - dei comigo sentado na tarimba de uma cela aberta à espera do Eduard Delacroix.

Surgiu inesperadamente. A porta que dava para o pátio do recreio abriu-se com estrondo, deixando entrar um jorro de luz, acompanhada por um entrechocar confuso de correntes, uma voz balbuciada e assustada que se exprimia em inglês e no francês dos Cajuns (um patuá que os prisioneiros de Cold Mountain costumavam chamar da bayou) e os gritos do Brutal.

- Ei! Pára com isso! Por amor de Deus! Pára com isso, Percy.

Eu tinha estado meio adormecido no que passaria a ser a tarimba de Delacroix, o que não me impediu de me levantar de supetão, com o coração quase a querer saltar para fora do peito. Era muito raro acontecer um tumulto daquelas dimensões no Bloco E, isto é, até ao aparecimento do Percy; ele trouxe-os consigo, qual cheiro nauseabundo.

- Anda para a frente, meu francês maricas de merda! - gritava o Percy, ignorando por completo os protestos do Brutal. E ali estava ele a arrastar por um braço um sujeito que não era muito mais alto do que um pino de bowling. Com a outra mão, o Percy empunhava o bastão. Tinha os lábios arreganhados, revelando os dentes num esgar de tensão; as suas faces estavam congestionadas, de um vermelho intenso. E, contudo, a sua aparência não denotava uma grande untação. O Delacroix esforçava-se por acompanhar o seu passo, mas como estava acorrentado com grilhetas, e independentemente da rapidez com que arrastasse os pés, o Percy continuava a puxá-lo mais depressa. De um salto saí da cela a tempo de o apanhar quando se encontrava prestes a cair; e foi assim que o Del e eu ficamos a conhecer-nos.

O Percy mantinha-se ameaçadoramente junto dele com o bastão empunhado; agarrei-o por um braço. O Brutal aproximou-se de nós a deitar os bofes pela boca, mostrando-se tão chocado e estupefato com aquela cena como eu próprio.

- Não deixe que ele me bata mais, monsieur - tartamudeou Delacroix. - S'il vous plait, s'il vous plait!

- Deixa-me ir a ele, deixa-me ir a ele! - gritou o Percy, lançando-se para a frente. Com o bastão, começou a espancar os ombros do Delacroix. Este ergueu os braços, enquanto berrava desalmadamente, e o bastão zurziu-o de novo contra as mangas da camisa azul da prisão. Nessa noite vi-o sem a camisa e verifiquei que aquele rapaz tinha o corpo cheio de nódoas negras. Ao ver aquilo senti-me encolerizado. Ele era um assassino, não uma pessoa por quem se nutrisse grande amizade, mas aquela não era a maneira como costumávamos proceder no Bloco E. Pelo menos, nunca o fizemos até o Percy ter aparecido.

- Alto aí! - vociferei. - Pára já com isso! Mas o que é que se passa aqui? - Entretanto, tentava colocar-me entre o Percy e o Delacroix, mas os meus esforços não estavam a ter grandes resultados. O Percy continuava a fustigar com o bastão, ora por um dos meus lados, ora pelo outro. Mais cedo ou mais tarde, era inevitável que ele me atingisse a mim, ao que se seguiria uma rixa, ali, no corredor, independentemente de quem eram os seus familiares. Eu seria incapaz de me conter e o mais certo seria o Brutal juntar-se a mim. Sabem, levando em consideração certos aspectos, quem me dera que o tivéssemos feito. Era possível que viessem a ser alteradas muitas das coisas que sucederam mais tarde.

- Maricas de merda! Eu ensino-te a manter as mãos afastadas de mim meu vadio asqueroso!

Palavras que foram seguidas de mais pancadaria por parte do Percy. Naquele momento, o Delacroix já sangrava de uma orelha e não parava de berrar. Desisti de tentar protegê-lo e agarrei-o por um ombro empurrando-o para o interior da cela, onde caiu esparramado em cima da tarimba. O Percy contornou-me tendo-o açoitado uma última vez no traseiro - poder-se-ia dizer que aquela agressão era para o caminho. Mas o Brutal agarrou-o - estou a referir-me ao Percy - pelos ombros e empurrou-o pelo corredor fora.

Fiz deslizar a porta da cela sobre a calha até se ter fechado. Voltei-me para o Percy, o meu choque e estupefação misturados com uma fúria enorme. Naquela altura, já havia vários meses que o Percy trabalhava ali, e era tempo suficiente para que já tivéssemos chegado à conclusão de que o afeto que nutríamos por ele não era muito, mas aquela foi a primeira vez que compreendi até que ponto ele estava descontrolado.

O Percy observava-me sem conseguir ocultar um certo receio - bem fundo do seu coração, o homem era um cobarde, disso eu nunca tivera dúvida - embora confiasse que os seus' conhecimentos iriam protegê-lo. E estava certo. Desconfio que existem pessoas que não conseguem compreender por que razão as coisas se passavam assim, mesmo depois de tudo o que eu já disse; contudo, são pessoas que só conhecem a expressão Grande Depressão dos livros de história. Caso tivessem vivido nessa época, verificariam que essa fase foi muito mais do que um mero termo num livro, e, no caso de ter um emprego certo, meu irmão, qualquer homem estaria disposto a fazer quase tudo para poder manter esse emprego.

Naquela altura, a cor do rosto do Percy tinha começado a esmaecer um pouco, embora as suas faces ainda estivessem bastante coradas; os seus cabelos, luzidios de brilhantina e habitualmente penteados para trás, tinham-lhe descaído para a testa.

- Em nome de Cristo, o que é que foi todo este rebuliço? - perguntei. - Eu nunca... mas, nunca tive um prisioneiro espancado no meu bloco!

- O maricas insignificante tentou agarrar-me pelos tomates quando o tirei do carrinho - explicou o Percy. - Mereceu a tarefa que lhe dei e devo acrescentar que voltaria a fazê-lo de novo, nas mesmas circunstâncias.

Olhei para ele, demasiado embasbacado para poder dizer fosse o que fosse. Era incapaz de imaginar o homossexual mais rapace, ao de cima da terra verdejante de Deus, a proceder da forma como o Percy acabara de descrever. Por via de regra, nem o mais aberrante dos prisioneiros se sentia com disposição para quaisquer atividades sexuais, quando estava prestes a mudar-se para um apartamento de barras de ferro na Milha Verde.

Olhei para o Delacroix todo encolhido na sua tarimba, ainda de braços erguidos para proteger o rosto. Tinha algemas nos pulsos e grilhetas nos tornozelos. Voltei a concentrar a minha atenção no Percy.

- Põe-te a andar daqui para fora - disse-lhe eu. - Mais tarde quero falar contigo.

- Isto vai constar do teu relatório? - perguntou ele num tom de voz truculento. - Porque, se for esse o caso, não sei se sabes que eu também posso apresentar um relatório.

Eu não queria elaborar relatório nenhum; só desejava que ele desaparecesse da minha vista. O que não hesitei em lhe dizer.

- O assunto está encerrado - concluí. Reparei que o Brutal olhava para mim com uma expressão de reprovação, mas ignorei-o. - Põe-te a mexer. Sai daqui para fora. Vai para os serviços administrativos e diz-lhes que tens de ler cartas e ajudar na sala de expedição.

- Com certeza - retorquiu ele; voltara a recuperar a sua compostura, ou melhor, aquela arrogância de tarado que passava por compostura.

Correu os dedos pelo cabelo, afastando-o da testa - mãos pequenas brancas e macias, como as de uma rapariga na adolescência, pensar-se-ia - e aproximou-se da cela. Delacroix avistou-o, tendo-se encolhido ainda mais para trás na tarimba, a tartamudear numa mistura de inglês e francês desaguisado.

- Ainda não acabei o assunto contigo, Pierre - anunciou ele, dando um salto ao sentir uma das enormes mãos do Brutal em cima do ombro.

- Já acabaste, sim - declarou o Brutal. - Agora põe-te a caminho. Toca a andar daqui para fora.

- Não sei se sabes, mas não me assustas - redarguiu o Percy, desafiador. - Nem um bocadinho. - Os seus olhos fitaram-me. - O mesmo se aplica a ti. - Mas isso não era verdade. Esse receio refletia-se nos seus olhos, com tanta clareza como a luz do dia o que o tornava ainda mais perigoso. Um tipo como o Percy nem sequer sabe o que tenciona fazer de um minuto para o outro, e de segundo para segundo.

O que ele fez de imediato foi afastar-se de nós, começando a percorrer o corredor num passo alongado e arrogante. Acabara de mostrar ao mundo o que acontecia quando um pequeno francês meio calvo e escanzelado tentava agarrar-lhe os tomates, por Deus, e preparava-se para abandonar o campo com uma atitude vitoriosa.

Comecei a debitar o discurso de ocasião previamente preparado, mencionando a Delacroix a existência dos programas de rádio Make Believe Ballroom e Our Gal Sunday, e ainda que o trataríamos como deve ser, caso ele fizesse o mesmo em relação a nós. Aquela pequena homilia não foi exatamente um dos meus maiores triunfos. Ele chorou durante todo o tempo em que apresentei a minha dissertação, sentado, todo encolhido, ao fundo da tarimba, mantendo-se tão afastado de mim quanto possível sem acabar por se sumir no canto. De todas as vezes que eu me deslocava, o Delacroix retraía-se ainda mais; não me parece que ele tenha ouvido uma palavra em seis. O que provavelmente talvez tenha sido preferível. Em qualquer dos casos, tenho a impressão de que aquele pequeno discurso não fazia muito sentido.

Quinze minutos mais tarde, encontrava-me já de regresso à secretária do guarda de serviço, atrás da qual estava sentado um Brutal Howell de aspecto perturbado, enquanto lambia a ponta do lápis que estava preso ao livro das visitas.

- Por amor de Deus! Queres parar com isso antes que te envenenes? - perguntei.

- Jesus Cristo Todo-Poderoso - replicou ele, largando o lápis. - Nunca mais quero assistir a outro rebuliço destes quando um prisioneiro der entrada neste bloco.

- O meu pai costumava dizer que as coisas aconteciam numa seqüência de três - repliquei.

- Pois bem, só espero que o teu pai estivesse errado a respeito do assunto - disse ele, mas é claro que o meu pai estava certo. Houvera um distúrbio quando da chegada do John Coffey, e, na altura em que o Bill Selvagem se juntou a nós, verificou-se um autêntico tumulto - é engraçado, mas de fato as coisas parece que efetivamente surgem em seqüências de três. A história da nossa apresentação ao Bill Selvagem, tudo o que rodeou a sua chegada à Milha, altura em que tentou cometer um assassínio, é algo que abordarei dentro em breve.

- Que história é essa de o Delacroix ter tentado agarrar-lhe os tomates? - perguntei.

- O homem tinha grilhetas nos artelhos - começou o Brutal a explicar com uma expressão escarninha -, e o velho Percy começou a puxá-lo com demasiada força, nada reais. O Delacroix tropeçou e esteve quase a cair quando saiu do carrinho. Estendeu as mãos para a frente, como qualquer outra pessoa teria feito ao sentir que estava prestes a cair, e uma delas roçou pela parte da frente das calças do Percy. Tudo isso não passou de um simples acidente.

- Achas que o Percy se apercebeu disso? - perguntei. - Ou talvez ele estivesse a servir-se disso como desculpa, porque lhe apetecia malhar um pouco no Delacroix? Para lhe mostrar quem é que manda aqui?

- Sim - confirmou o Brutal com um lento acenar de cabeça. - Acho que provavelmente foi isso que se passou. - Nesse caso, temos de nos manter de olho nele - acrescentei, passando os dedos pelo cabelo. Como se o nosso trabalho já não fosse suficientemente difícil. - Meu Deus, como eu odeio isto. Como eu o odeio a ele.

- Também eu. E queres saber que mais, Paul? Não consigo compreendê-lo. O homem está bem relacionado, sou capaz de compreender isso, mas por que motivo é que se serviria dos seus conhecimentos para arranjar um emprego na merda da Milha Verde? Já agora, em qualquer outra das prisões do estado? Porque não como paquete no senado do estado, ou para o lugar do tipo que trata das marcações de agenda do vice-governador? Com certeza que a sua gente teria podido arranjar-lhe qualquer coisa melhor, se ele lhes tivesse pedido; portanto, porquê aqui?

Sacudi a cabeça. Não sabia. Nessa época havia muita coisa de que eu não tinha conhecimento. Suponho que ainda era muito ingênuo.

 

8

Depois disto, as coisas regressaram ao normal... pelo menos, durante algum tempo. No tribunal do município, o estado preparava-se para levar o John Coffey a julgamento. O xerife do município, Homer Cribus, andava borrado de medo com receio de que se formasse uma turba para linchar o homem, o que o levou a apressar um pouco os trâmites da justiça. Nada disso tinha o mínimo interesse para nós; no Bloco E ninguém prestava muita atenção às notícias. A vida na Milha Verde era, de uma certa forma uma existência passada numa sala à prova de som. De tempos a tempos, ouviam-se alguns ruídos abafados que, muito provavelmente, seriam explosões no mundo que nos rodeava, mas isso era tudo. Eles não se apressaram em relação ao John Coffey; haviam de querer certificar-se bem de tudo o que se relacionasse com os seus atos.

Houve duas ocasiões em que o Percy decidiu implicar com o Delacroix. Da última vez chamei-o à parte e disse-lhe que fosse ao meu gabinete. Não foi a minha primeira reunião com o Percy em que abordamos o tema do seu comportamento, tal como não seria a última, mas esta teve origem naquilo que, provavelmente, seria a mais clara compreensão da maneira de ser do homem. Possuía o coração de um rapaz cruel, como alguém que vai ao Jardim Zoológico, não para poder observar os animais, mas sim para atirar-lhes pedras para as jaulas.

- Mantém-te afastado dele, estás a ouvir? - ordenei eu. - Amenos que eu te dê uma ordem específica, quero que te mantenhas afastado dele.

Com os dedos, o Percy penteou o cabelo para trás e acamou-o com as suas pequenas mãos cheias de doçura. O rapaz adorava tocar nos seus próprios cabelos.

- Eu não estava a fazer-lhe nada - redarguiu ele. - Limitei-me a perguntar-lhe qual era a sensação de saber que se tinham queimado uns quantos bebês, mais nada. - O Percy olhou-me com uns olhos arredondados de espanto e cheios de candura.

- Ou paras com isso ou terei de elaborar um relatório quanto a esta situação - ameacei-o.

- Faz todos os relatórios que muito bem te apetecer - replicou o Percy com uma gargalhada. - Em seguida, serei eu quem fará os meus. Tal como te disse que faria quando ele veio para cá. Veremos qual de nós é que se sai melhor.

Inclinei-me para a frente com os dedos entrelaçados em cima da secretária, tendo começado a falar num tom de voz que esperava soasse como a de um amigo que se abria em confidências.

- O Brutus Howell não gosta muito de ti - disse.

E quando o Brutal não gosta de uma pessoa, sabe-se que costuma apresentar os seus próprios relatórios. Ele não é grande coisa com a caneta e parece não ser capaz de parar de lamber a ponta daquele lápis, pelo que tem uma grande propensão para elaborar os seus relatórios com os punhos. Não sei se estás a entender o significado das minhas palavras.

O sorriso de complacência do Percy esmoreceu. .- O que é que estás a tentar dizer-me?

- Eu não estou a tentar dizer coisa nenhuma. Acabei de o dizer, e no caso de contares a algum dos teus... amigos... esta conversa, direi que é tudo fruto da tua imaginação. - Olhei para ele de olhos bem abertos onde creio que se refletia uma grande sinceridade. - Além do mais, estou a tentar ser teu amigo, Percy. Costuma-se dizer que quem te avisa teu amigo é. E para começar, por que motivo é que havias de te meter com o Delacroix? Ele nem sequer merece isso.

Durante algum tempo, aquela táctica resultou. A paz reinava no bloco. Em duas ocasiões consegui mesmo enviar o Percy juntamente com o Dean ou o Harry, quando chegou a vez de o Delacroix tomar um ducha. Nessa noite, tínhamos ligado o rádio; o Delacroix já começara a descontrair-se um pouco, tendo entrado na rotina restrita que vigorava no Bloco E, e o sossego instalou-se entre nós.

Então, houve uma noite em que o ouvi rir-se.

O Harry Terwilliger era o guarda de serviço e ao fim de pouco tempo ouvi-o também a rir-se. Levantei-me da cadeira e dirigi-me para a cela do Delacroix, a fim de descobrir que motivo é que ele teria para tanto riso.

- Olhe, capitão - disse ele quando me avistou. - Acabei de domesticar um rato.

Era o Steamboat Willy. O rato encontrava-se dentro da cela do Delacroix. Mais ainda, estava sentado em cima do seu ombro, olhando para nós com toda a serenidade através das barras, com os seus pequenos olhos que se assemelhavam a contas negras cintilantes. Tinha a cauda enrolada à volta das patas, mostrando-se completamente à vontade. Quanto ao Delacroix... Meus amigos, jamais se poderia adivinhar que era o mesmo homem que se sentara todo encolhido e a tremer ao fundo da sua tarimba ainda não havia uma semana. Apresentava o mesmo aspecto da minha filha numa manhã de Natal, quando descia as escadas e deparava com os presentes.

- Veja isto! - disse o Delacroix. O rato encontrava-se sentado no seu ombro direito e ele estendeu o braço esquerdo. O animal trepou até ao topo da sua cabeça, servindo-se do cabelo do homem (que era, pelo menos, suficientemente basto na nuca) para poder trepar. Em seguida, desceu aos saltos pelo outro lado com o Delacroix a tentar conter o riso, uma vez que a cauda lhe fazia cócegas na região lateral do pescoço. O rato percorreu toda a extensão do braço até ao pulso, em seguida virou-se, e, a correr, regressou ao ombro esquerdo do Delacroix, onde, uma vez mais, enrolou a cauda em redor das patas.

- Raios me partam! - exclamou o Harry, estupefato. - Eu treinei-o para que fizesse isto - afirmou o Delacroix, todo orgulhoso. Pensei: Uma ova é que o fizeste, mas mantive a boca fechada. - O nome dele é Mister Jingles.

- Não me parece - retorquiu o Harry afavelmente. - É Steamboat Willy, como nos desenhos animados. Foi o chefe Howell, quem lhe pôs o nome.

- E Mister Jingles - insistiu o Delacroix. A respeito de qualquer outro assunto, ele teria dito que a merda cheirava bem, caso quiséssemos que ele o dissesse, mas no que dizia respeito ao nome do rato, mantinha-se inabalável que nem uma rocha. - Foi ele que o segredou ao meu ouvido. Capitão, pode arranjar-me uma caixa para ele? Pode arranjar-me uma caixa para o meu rato, para ele poder dormir aqui comigo? - A sua voz adquiriu aquela entoação bajuladora que eu já ouvira mil vezes anteriormente. - Posso pô-lo debaixo da minha tarimba e ele nunca incomodará nem um tiquinho, nem um só.

- O teu inglês melhora diabolicamente quando queres alguma coisa - repliquei, tentando ganhar tempo.

- Oh, oh - murmurou Harry, dando-me uma pequena cotovelada. - Os problemas estão a chegar.

O Percy, porém, não me parecia constituir qualquer problema, pelo menos nessa noite. Não passava os dedos pelos cabelos, nem brincava com o seu querido bastão, chegando mesmo a ter o botão do colarinho da camisa do uniforme desabotoado. Foi a primeira vez que o vi com aquele aspecto, e fiquei surpreendido ao verificar a diferença que uma pequena alteração como aquela podia fazer. Mas, acima de tudo, o que me espantou mais foi a expressão do seu rosto. Nele refletia-se uma certa tranqüilidade. Não se tratava de serenidade - duvido muito que o Percy Wetmore tivesse um único osso sereno no seu corpo - era, sim, o aspecto de um homem que tem razões para poder esperar que lhe aconteçam as coisas que deseja. Uma transformação bastante acentuada, vinda do jovem que eu ameaçara com os punhos do Brutus Howell apenas há alguns dias.

No entanto, o Delacroix não reparara nessa alteração; retraiu-se todo contra a parede da sua cela, recolhendo os joelhos até ao peito. Os seus olhos davam a impressão de se arregalarem até terem ocupado metade do seu rosto. O rato correu para a sua careca e ficou aí sentado. Não sei se ele se recordou de que também tinha razões para não confiar no Percy, mas não havia dúvida de que dava a impressão de não se ter esquecido. Provavelmente farejava apenas o medo que emanava do pequeno francês, reagindo de acordo com essa percepção.

- Ora muito bem - disse o Percy. - Parece que encontraste um amigo, Eddie.

O Delacroix tentou responder - uma espécie de tom de desafio quanto ao que aconteceria ao Percy, caso o Percy fizesse mal ao seu novo camarada, foi o que calculei - mas da sua boca não saiu qualquer palavra. O seu lábio inferior tremeu um pouco, mas foi tudo. No cimo da sua cabeça, o Mister Jingles não tremia. Continuava sentado, perfeitamente imobilizado, com as patas traseiras firmemente agarradas aos cabelos do Delacroix, enquanto as dianteiras se apoiavam no crânio calvo, fitando o Percy como se estivesse a avaliá-lo. Com a mesma atitude que uma pessoa teria ao avaliar um velho inimigo.

- Aquele não é o mesmo rato que eu persegui? - perguntou o Percy, olhando para mim. - Aquele que mora na cela do isolamento?

Acenei que sim. Eu tinha a impressão de que o Percy não tinha visto o recentemente batizado Mister Jingles desde a última perseguição, e parecia não desejar persegui-lo naquele momento.

- Sim, é o mesmo - confirmei. - Com a diferença de que ali o Delacroix diz que ele se chama Mister Jingles, e não Steamboat Willy. Afirma que o rato lhe segredou o nome ao ouvido.

- A sério? - retorquiu o Percy. - As surpresas nunca cessam, pois não? - Até certo ponto, eu estava à espera que ele sacasse do bastão e que começasse a bater com ele nas barras da cela para mostrar ao Delacroix quem mandava ali; todavia, limitou-se a ficar no mesmo lugar, com as mãos nas ilhargas enquanto olhava para o interior da cela.

E, Por qualquer razão que não sou capaz de explicar por palavras, acrescentei:

- Ah o Delacroix acabou de me pedir uma caixa, Percy. Está convencido de que o rato dormirá na caixa. Que conseguirá mantê-lo junto de si como um animal de estimação. - Imprimi à minha voz uma entoação cheia de cepticismo, pressentindo, mais do que vendo, o Harry a olhar para mim, deveras surpreendido. - Qual é a tua opinião?

- Acho que numa noite destas, muito provavelmente, o rato cagar-lhe-á em cima do nariz enquanto ele estiver a dormir, e depois desatará a fugir - respondeu o Percy com uma expressão neutra -, mas calculo que ele será o amigo de atalaia do francês. Há umas noites vi no carrinho do Pouca Terra uma bela caixa de charutos. No entanto, não sei se ele estará disposto a dá-la a troco de nada; o mais certo é querer cinco cêntimos por ela, talvez mesmo dez.

Naquela altura arrisquei um olhar na direção do Harry e vi que este estava de boca aberta. Aquela não era exatamente a alteração que o Ebenezer Scrooge sofrera na manhã do dia de Natal, depois de os fantasmas lhe terem aparecido, mas não se encontrava muito longe disso.

O Percy inclinou-se mais na direção do Delacroix, colocando o rosto entre as barras da cela. O pequeno cajun encolheu-se ainda mais para trás. Juro por Deus que ele se teria fundido com aquela parede se tal fosse fisicamente possível. ; - Tens cinco cêntimos ou talvez mesmo dez para pagares essa caixa de charutos, meu grande mentecapto? - perguntou ele.

- Tenho só quatro pence - respondeu o Delacroix. - Estou disposto a dá-los por uma caixa, se for boa, s'il est bon.

Continuar: parte 3 de 3