À Espera de um Milagre
Parte Dois .........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
- Vou dizer-te o que é que vamos fazer - continuou o Percy. - Se esse velho libertino desdentado te vender a caixa de Coronas por quatro pence, trarei algum algodão da enfermaria para a forrares. Teremos um verdadeiro Hilton para ratos, quando tivermos terminado - O Percy desviou o olhar na minha direção. - Tenho de elaborar um relatório sobre o quadro elétrico na execução do Bitterbuck - continuou ele. - Tens alguma caneta no teu gabinete, Paul?
- Na realidade, tenho - repliquei. - E também tenho impressos. Na gaveta de cima do lado esquerdo.
- Pois bem, isso calha que nem ginjas - disse ele, afastando-se num andar folgazão.
O Harry e eu entreolhamo-nos, admirados.
- Achas que ele está doente? - perguntou o Harry. Talvez o médico lhe tenha dito que só lhe restavam três meses de vida, não?
Respondi-lhe que não fazia a mais pequena idéia do que estava a suceder com o Percy. O que nessa altura era verdade; aquela situação manteve-se durante algum tempo, mas com o passar das semanas vim a descobrir o que motivara a sua mudança de atitude. E, alguns anos mais tarde, travei uma conversa muito interessante com o Hal Moores, à mesa. Nessa altura já podíamos falar com toda a liberdade, uma vez que ele se tinha aposentado e eu trabalhava no Estabelecimento Correcional Juvenil. Foi durante uma dessas refeições onde se bebe um pouco de mais e se come muito pouco, o que permite que as línguas se soltem. O Hal contou-me que o Percy tinha ido ao seu gabinete para apresentar queixa contra mim e contra a vida na Milha Verde, de uma maneira geral. Isso acontecera logo a seguir à chegada do Delacroix ao bloco, e de o Brutal e eu termos impedido o Percy de espancar o prisioneiro quase até à morte. Aquilo que mais havia afetado o Percy fora o fato de eu lhe ter dito que saísse da minha vista. Não lhe parecia que um homem que tinha laços familiares com o governador devesse ser obrigado a suportar aquele tipo afrontoso de conversa.
Pois bem, o Moores empatara o Percy tanto quanto lhe fora possível, e quando se lhe tornou evidente que este estava na disposição de puxar algumas cordinhas para que eu fosse oficialmente repreendido, acabando, no mínimo dos mínimos, por ser transferido para outro serviço da penitenciária, ele, o Moores, levara o Percy ao seu gabinete e dissera-lhe que, se deixasse de fazer ondas, ele próprio lhe garantia que seria colocado na linha da frente quando da execução do Delacroix. o que, na realidade aconteceu. ficou mesmo ao lado da cadeira elétrica. Como sempre, eu seria o responsável por todo o processo mas as testemunhas não teriam conhecimento desse aspecto; da perspectiva destas pareceria que Mr. Percy Wetmore é que era o mestre-de-cerimônias do cotilhão. O Moores não lhe prometera mais do que aquilo que já havíamos discutido, pelo que eu não tencionava apresentar a mínima objeção, embora o Percy não tivesse conhecimento disto. Concordou em desistir das suas ameaças no sentido de que eu fosse transferido o que teve como resultado a melhoria do ambiente no Bloco E. Chegara mesmo ao ponto de concordar com que o Delacroix pudesse ficar com o seu antigo nemesis como seu animal de estimação. É espantosa a forma como alguns homens são capazes de se modificar, depois de se lhes ter proporcionado o incentivo adequado; no caso do Percy, tudo o que o diretor Moores teve de lhe oferecer foi a oportunidade de tirar a vida a um pequeno francês calvo.
9
O Pouca Terra achou que quatro pence eram uma quantia irrisória por uma bela caixa de charutos Corona, no que provavelmente teria toda a razão - no interior da prisão, as caixas de charutos eram artigos deveras valiosos. Nelas poderia ser guardado um milhar de pequenos objetos diversos, o seu cheiro era agradável, e havia ainda algo nelas que recordava aos nossos clientes o que era serem homens livres. Imagino que isto acontecesse porque, embora os cigarros fossem permitidos na prisão, o mesmo não acontecia aos charutos.
O Dean Stanton, que entretanto já regressara ao bloco, depositou um cêntimo no boião, exemplo que eu próprio segui. Dado que o Pouca Terra continuava a mostrar-se relutante, o Brutal decidiu trabalhá-lo um pouco, começando por lhe dizer que deveria sentir-se envergonhado com o seu comportamento, por ser assim tão sovina, e prometendo-lhe que ele mesmo, Brutus Howell, haveria de entregar, pessoalmente, ao Pouca Terra a caixa que contivera Coronas logo no dia seguinte ao da execução do Delacroix.
- É possível que pudéssemos discutir se seis cêntimos são ou não suficientes se estivéssemos a falar de vender essa caixa de charutos - acrescentou o Brutal -, mas tens de admitir que é um preço ótimo pelo seu aluguer. O Delacroix vai percorrer a Milha dentro de um mês, no máximo dos máximos, seis semanas. Repara bem, essa caixa estará de volta ao estrado inferior do teu carrinho quase antes mesmo de teres dado pela sua falta.
- Talvez ele apanhe um juiz bonzinho que lhe conceda uma suspensão - retorquiu o Pouca Terra embora ele soubesse que isso não aconteceria e o Brutal soubesse que ele sabia.
O velho Pouca Terra andava a empurrar o raio daquele carrinho cheio de citações da Bíblia por toda a Cold Mountain desde os primeiros dias dos serviços postais da Pony Express, e tinha muitas fontes a que recorrer... melhores do que as nossas, pensava eu na altura. Ele sabia bem que o Delacroix não tinha qualquer hipótese de apanhar um juiz de bom coração. Tudo o que lhe restava era o governador, o qual, regra geral, não tinha o hábito de mostrar clemência para com os fulanos que haviam assado meia dúzia de membros do seu círculo eleitoral.
- Mesmo que ele não consiga uma suspensão, o rato há de cagar-lhe a caixa toda até Outubro, talvez mesmo até ao Dia de Ação de Graças - argumentou o Pouca Terra, mas o Brutal apercebeu-se de que ele começara,a vacilar. - Quem é que vai querer comprar uma caixa de charutos que um rato qualquer usou como privada?
- Que raio de argumento o teu! - ripostou o Brutal. - Essa é a coisa mais disparatada que alguma vez te ouvi dizer, Pouca Terra. Bate tudo o mais. Em primeiro lugar, o Delacroix haverá de manter a caixa suficientemente limpa, para se poder comer dela... Da maneira como ele adora esse rato, se fosse necessário até a lamberia para que se mantivesse sempre limpa.
- Calma lá com esse tipo de conversa - disse o Pouca Terra, nauseado, franzindo o nariz.
- E em segundo lugar - continuou o Brutal -, a merda dos ratos não é uma coisa por aí além. São apenas uns cocozinhos duros, parece chumbo de atirar aos pardais. Sacode-se e sai tudo. Não tem nada de especial.
O velho Pouca Terra sabia que não lhe serviria de nada continuar com os protestos; já vivia na penitenciária há tempo suficiente para saber quando é que poderia seguir ao sabor da brisa, e quando é que era preferível vergar-se perante o vendaval. Aquela situação não era propriamente um vendaval, mas nós, os de uniforme azul, gostávamos do rato e agradava-nos o fato de o Delacroix poder ficar com o animal, o que no mínimo tornava aquela situação semelhante a borrasca. Por conseguinte, o Delacroix conseguiu a sua caixa e o Percy cumpriu a sua palavra - dois dias mais tarde, o fundo da caixa estava coberto por uma camada macia de algodão que ele trouxera da enfermaria. Foi o próprio Percy quem o entregou na cela; detectei o medo que se refletiu nos olhos do Delacroix quando estendeu a mão por entre as barras para o aceitar. Receava que o Percy lhe agarrasse a mão e lhe quebrasse os dedos. Eu também temia um pouco que isso pudesse acontecer, mas tal não se verificou. Aquela ocasião foi o mais próximo que alguma vez estive de gostar do Percy, mas. até mesmo naquelas circunstâncias foi difícil ser-se enganado pela expressão de satisfação calculista que os seus olhos não ocultavam. O Delacroix tinha um animal de estimação; o Percy também conseguira um. O Delacroix manteria o seu, acariciando-o e mostrando amor por ele durante tanto tempo quanto lhe fosse possível; por seu lado, o Percy aguardaria pacientemente (com tanta paciência quanta um homem como ele poderia reunir), após o que queimaria o seu animal, ainda vivo.
- O Hilton dos ratos abriu as suas atividades - comentou o Harry, trocista. - A única questão que se põe é esta: será que o sacaninha o utilizará?
Essa pergunta foi logo respondida assim que o Delacroix apanhou o Mister Jingles, baixando-o com suavidade até ao interior da caixa. O rato aninhou-se no algodão branco, como se fosse o cachecol da tia Bea. A caixa passou a ser a sua casa desde então até... bem, a seu tempo regressarei ao final da história do Mister Jingles.
As preocupações do velho Pouca Terra, de que a caixa de charutos ficasse cheia de merda de rato, vieram a provar não ter qualquer fundamento. Eu nunca lá vi um único cocozinho, e o Delacroix também afiançava que isso era verdade... e que nunca encontrara quaisquer dejetos na sua cela. Bastante tempo depois, por volta da altura em que o Brutal me mostrou o orifício na trave, e ambos descobrimos as lascas de madeira colorida, afastei uma cadeira que se encontrava no canto virado a leste da cela do isolamento, tendo deparado com um pequeno amontoado de cocozinhos de rato nesse lugar. Aquilo provava que o animal tinha ido sempre ao mesmo lugar para tratar daquele assunto, tão afastado de nós quanto podia. E ainda outra coisa: nunca o vi a fazer xixi e, habitualmente, os ratos não conseguem manter a torneira fechada por mais de dois minutos seguidos, muito em especial quando estão a comer. Eu já vos disse, o raio daquela criatura era um dos mistérios de Deus.
Mais ou menos uma semana depois de o Mister Jingles se ter instalado na sua caixa de charutos, o Delacroix chamou-me a mim e ao Brutal para irmos à sua cela ver uma coisa. Ele fazia aquilo com tanta freqüência que chegava a ser incômodo - se Mister Jingles se rebolasse pelo chão e ficasse deitado de costas com as patas para cima, isso era a coisa mais engraçada ao cimo da Terra, pelo menos para aquele meia-teca cajun - todavia, desta feita a habilidade que ele fazia era bastante interessante.
Após a sua condenação, o Delacroix havia sido relegado pelo mundo para o esquecimento, mas tinha um familiar - uma velha tia solteirona, creio eu - que costumava escrever-lhe uma vez por semana. Também lhe enviara um saco enorme cheio de rebuçados de hortelã-pimenta. Pareciam-se com umas pílulas gigantescas de uma tonalidade amarelada. O Delacroix não teve autorização para ficar com todo o conteúdo do saco de uma só vez, como é natural - pesava dois quilos e meio e certamente que ele os teria devorado todos, até ter ido parar à enfermaria com dores de barriga.
À semelhança de qualquer dos outros assassinos que tivéramos na Milha, o Delacroix não possuía a noção do que era a moderação. Costumávamos dar-lhe os rebuçados aos seis de cada vez, e só se ele se lembrasse de os pedir.
Quando chegamos à cela, o Mister Jingles encontrava-se em cima da tarimba, sentado ao lado do Delacroix, segurando com as patas um dos rebuçados verde-amarelados enquanto o mordiscava, todo satisfeito da vida. O Delacroix sentia-se simplesmente enlevado ao ver aquilo - era o protótipo do pianista clássico, assistindo à prática das primeiras escalas do seu filho de cinco anos. Mas não me interpretem mal; aquilo era mesmo engraçado, de morrer a rir. O rebuçado tinha metade do tamanho do Mister Jingles, e a sua barriga branca já se mostrava distendida por causa da guloseima.
- Tira-lhe o rebuçado, Eddie - disse o Brutal num misto de riso e de horror. - Deus do céu, ele vai comer até rebentar. Mesmo daqui, sinto o cheiro a hortelã-pimenta. Quantos é que o deixaste comer?
- Este é o segundo - respondeu o Delacroix, olhando com um certo nervosismo para a barriga do Mister Jingles. - Acha realmente que ele... sabe o que quero dizer... pode ficar com as entranhas rebentadas?
- É possível que sim - retorquiu o Brutal.
Para o Delacroix aquela era uma fonte de autoridade suficiente. Estendeu a mão para o rebuçado amarelo-esverdeado de menta, já meio comido. Eu estava à espera que o rato lhe desse uma mordidela mas o Mister Jingles cedeu a guloseima - pelo menos o que restava dela - com tanta humildade quanto era possível. Olhei para o Brutal e este abanou ligeiramente a cabeça; ele também não compreendia aquilo. Em seguida, o Mister Jingles instalou-se na sua caixa, deitando-se de lado numa postura exausta, o que fez com que nós os três desatássemos a rir. Depois disso, acostumamo-nos a ver o rato sentado ao lado do Delacroix, segurando um rebuçado que ia mordiscando com tantas maneiras como se fosse uma senhora de idade a tomar o seu chá das cinco; tanto um como o outro se encontravam envoltos no cheiro que mais tarde me chegou às narinas vindo do orifício na trave do teto - um cheiro meio amargo e meio adocicado característico dos rebuçados de hortelã-pimenta.
Existe ainda outra coisa que devo revelar-vos sobre o Mister Jingles antes de passar ao assunto da chegada do William Wharton, quando um autêntico ciclone se abateu realmente sobre o Bloco E. Mais ou menos uma semana depois do incidente dos rebuçados de menta - mais ou menos na altura em que ficamos convencidos de que Delacroix haveria de alimentar o seu animal de estimação até que este rebentasse - o pequeno francês chamou-me à sua cela. Naquele momento, encontrava-me sozinho, pois o Brutal fora ao comissariado tratar de um assunto qualquer, e, de acordo com os regulamentos, eu não devia aproximar-me de um prisioneiro em tais circunstâncias. Contudo, uma vez que, num dos meus dias bons, eu teria podido alvejar o Delacroix com uma só mão à distância de vinte metros, decidi não cumprir o regulamento, indo ver o que é que ele queria.
- Veja isto, chefe Edgecombe - disse ele. - Vai ver o que é que o Mister Jingles consegue fazer. - Levou a mão atrás da caixa de charutos de onde retirou um pequeno carretel de madeira.
- Onde é que arranjaste isso? - perguntei-lhe, embora calculasse que já sabia a resposta. Só havia uma pessoa que lhe poderia ter dado aquilo.
- Foi o velho Pouca Terra - respondeu o Delacroix. - Observe bem isto.
Eu já tinha começado a olhar, observando Mister Jingles na sua caixa, o qual se pusera de pé com as patas dianteiras firmadas no bordo, mantendo os olhinhos negros fixos no carretel que Delacroix segurava entre o polegar e o indicador da mão direita. Senti a espinha percorrida por um pequeno arrepio estranho. Nunca tinha visto um simples rato tentar fazer qualquer coisa com tanta argúcia - com tanta inteligência. Na realidade, não estou em crer que o Mister Jingles fosse um visitante sobrenatural e, se por acaso vos dei essa impressão, lamento muito; no entanto, nunca duvidei de que a criatura fosse um gênio entre os da sua espécie.
O Delacroix inclinou-se para a frente, fazendo rolar o carretel que não tinha linhas pelo chão da sua cela. Deslizou facilmente, como se tivesse um par de rodas ligadas por um eixo, Veloz que nem um relâmpago, o rato saiu da sua caixa e correu atrás do carretel, tal como um cão que fosse no encalço de um pau. Dei largas à perplexidade que sentia, e o Delacroix esboçou uma careta risonha.
O carretel bateu contra a parede e ressaltou. Mister Jingles contornou-o, empurrando-o de volta à tarimba, alternando de um extremo ao outro do carretel, sempre que este parecia querer desviar-se da rota certa. Empurrou-o até ter chegado junto de um dos pés do Delacroix. Olhou para ele por breves momentos, como que a certificar-se de que o Delacroix não tinha mais tarefas imediatas que ele tivesse de levar a cabo (talvez uns quantos problemas aritméticos ou a análise de um texto em latim). Aparentemente satisfeito, o Mister Jingles regressou à sua caixa de charutos, voltando a instalar-se no seu interior.
- Foste tu que lhe ensinaste essa habilidade - disse eu. - Sim senhor, chefe Edgecombe - admitiu o Delacroix, esboçando,um sorriso abstrato. - De todas as vezes, ele foi buscá-lo. É esperto que nem um raio, não acha?
- E o carretel? - perguntei. - Como é que soubeste que tinhas de o arranjar para ele, Eddie?
- Ele segredou-me ao ouvido que o desejava - respondeu o Delacroix com uma grande serenidade. - Da mesma maneira que sussurra o seu nome.
O Delacroix mostrou a todos os outros tipos as habilidades do seu rato... isto é, a todos com a exceção do Percy. Para o Delacroix não fazia a mínima diferença que tivesse sido este a sugerir a caixa de charutos e a arranjar o algodão para cobrir o fundo. O Delacroix assemelhava-se a alguns cães: dê-lhes um único pontapé e eles jamais voltarão a confiar no agressor, independentemente do quanto nos possamos mostrar agradáveis para com eles.
Neste momento, parece que ainda estou a ouvir a voz do Delacroix a gritar: Ei, vocês! Venham ver as habilidades que o Mister Jingles consegue fazer! E todos eles, com os seus uniformes azuis, iam em grupo até lá abaixo - o Brutal, o Harry, o Dean e até mesmo o Bill Dodge. Também eles tinham mostrado o espanto adequado às circunstâncias, à semelhança do que eu próprio fizera.
Três ou quatro dias depois de o Mister Jingles ter começado a mostrar aquela habilidade com o carretel, o Harry Terwilliger passou revista aos materiais de arte que guardávamos na cela do isolamento, e encontrou os lápis de cera Crayola que entregou ao Delacroix com um sorriso que era quase de constrangimento. modalidade, penso eu, era de fato algo que qualquer pessoa teria pago para ver num circo. O Delacroix e o seu rato, este e o seu carretel garridamente colorido, eram o nosso divertimento principal, na época em que o John Coffey passou a estar sob a nossa tutela e aos nossos cuidados; foi assim que as coisas permaneceram por algum tempo. Pouco depois, a minha infecção urinária, que se tinha mantido dormente durante algum tempo, voltou a atormentar-me, e foi também nessa altura que o William Wharton chegou, dando origem a uma situação absolutamente caótica.
- Pensei que talvez gostasses de pintar esse carretel de diversas cores - justificara ele. - Assim, o teu pequeno amigo poderia transformar-se numa espécie de rato do circo, ou algo parecido.
- Um rato do circo! - exclamara o Delacroix, mostrando uma expressão de completa felicidade, mesmo de êxtase. Suponho que se sentisse inteiramente feliz pela primeira vez em toda a sua desgraçada vida. - Mas é isso exatamente o que ele é! Um rato de circo! Quando eu sair daqui, ele vai fazer com que eu fique rico, num circo! o ver se ele não vai fazer isso.
Sem dúvida que o Percy Wetmore teria chamado a atenção do Delacroix para o fato de que, quando chegasse a altura de este deixar Cold Mountain, seria levado numa ambulância que não precisava de ter as luzes nem a sirena ligadas, mas o Harry tinha demasiado bom senso para isso. Limitou-se a dizer ao Delacroix que colorisse o carretel tanto e tão depressa quanto lhe fosse possível, uma vez que teria de repor os lápis de cera no seu lugar logo depois do jantar.
Não há dúvida de que o Del conseguiu colori-lo. Quando terminou a sua tarefa, uma das extremidades do carretel estava pintada de amarelo e a outra de verde, enquanto a extensão no meio era de um vermelho de carro de bombeiros. Habituamo-nos a ouvir o Delacroix a dizer triunfalmente: Maintenant, m'sieurs et mesdames! Le cirque présentement le mous'amusant et amazeant! 5 Não era isto precisamente, mas chega para dar uma idéia do francês atabalhoado do Delacroix. Em seguida começava a emitir um som que vinha bem do fundo da sua garganta - acho que supostamente representaria o rufar de um tambor - e lançava o carretel. Como um relâmpago, o Mister Jingles ia atrás dele, quer trazendo-o de volta, empurrando-o com o focinho, quer servindo-se das patas. A segunda
5
Num francês não muito correto: “E agora, senhores e senhoras, o circo apresenta o rato
divertido e espantoso.” (N. da T.)
10
Na sua maior parte, as datas desapareceram da minha memória. Calculo que poderia ter pedido à minha neta, a Danielle, que verificasse algumas delas através dos arquivos dos jornais, mas qual seria o objetivo de uma coisa dessas? As datas mais importantes, como por exemplo o dia em que descemos até à cela do Delacroix e deparamos com o rato sentado em cima do seu ombro, ou o dia em que o William Wharton chegou ao bloco, não tendo morto o Dean Stanton por um triz, não teriam sido mencionadas na imprensa escrita. Talvez seja preferível continuar nos mesmos moldes que tenho seguido até aqui; ao fim e ao cabo, calculo que as datas não tenham grande importância, desde que uma pessoa seja capaz de se recordar dos acontecimentos que presenciou na seqüência adequada.
Sei que nessa altura as coisas ficaram um tudo-nada apertadas. Quando os papéis relativos à data da execução do Delacroix foram finalmente enviados do gabinete do Curtis Anderson, senti-me perplexo ao verificar que o encontro do nosso amigo cajun com a Velha Faísca fora antecipado, em relação à data com que tínhamos contado, uma coisa rara até mesmo nesses dias em que não era preciso revolver metade dos céus e toda a Terra para executar um homem. Foi uma questão de dois dias, penso eu, de 25 a 27 de Outubro. Não me obriguem a dizer-vos com exatidão, mas sei que não ando muito longe dessa data. Recordo-me de ter pensado que o Pouca Terra poderia reaver a sua caixa de Coronas mais cedo do que esperara.
Entretanto, o Wharton chegou ao nosso bloco mais tarde do que estava previsto. Por um motivo: o seu julgamento durara mais tempo do que aquilo que as fontes, habitualmente de toda a confiança, do Anderson pensaram que duraria (quando o assunto dizia respeito ao Bill Selvagem, nada era de confiança, haveríamos nós de descobrir ao fim de pouco tempo, incluindo os nossos métodos de controlo de prisioneiros, supostamente infalíveis). Então, e depois de se ter chegado à conclusão de que ele era culpado - pelo menos essa parte esteve de acordo com o argumento - foi levado para o Hospital Geral de Indianola a fim de ser submetido a alguns exames. Parece que fora acometido por um certo número de convulsões durante o julgamento; por duas ocasiões estas tinham sido suficientemente graves para o terem deitado por terra, onde ficou a estrebuchar e a bater com os pés contra o soalho. O defensor oficioso do Wharton afirmou que ele sofria de “ataques de epilepsia”, tendo cometido os seus crimes quando se encontrava desarranjado do juízo; por seu lado, a acusação clamou que os seus ataques eram o estratagema de , um cobarde desesperado, que tentava salvar a própria vida. Depois de ter observado em primeira mão os tão famosos ; “ataques de epilepsia”, o júri concluiu que estes não passavam de uma encenação. O juiz corroborou aquela opinião, mas ordenou que fossem levados a cabo uma série de exames clínicos depois de o júri ter apresentado o seu veredicto. Deus saberá por que motivo; talvez ele sentisse apenas curiosidade.
O fato de o Wharton não ter fugido do hospital constitui , um verdadeiro mistério (e a ironia de a mulher do diretor Moores, Melinda, se encontrar internada no mesmo hospital , nessa altura não escapou à atenção de nenhum de nós), mas o certo é que não o fez. Suponho que o tenham mantido sempre rodeado de guardas e que ele ainda albergasse a esperança de vir a ser considerado inimputável por causa da epilepsia, se é que tal é possível.
Isso, porém, não veio a verificar-se. Por seu lado, os médicos não detectaram nada de anormal no seu cérebro - pelo menos de natureza fisiológica - e o Billy “the Kid” Wharton foi finalmente despachado para Cold Mountain. Isso deverá ter acontecido por volta do dia 16 ou 18; as minhas recordações dizem-me que o Wharton chegou mais ou menos duas semanas depois de John Coffey e uma semana ou dez dias antes de o Delacroix ter percorrido a Milha Verde.
O dia em que o nosso novo psicopata se nos reuniu foi para mim um dia recheado de acontecimentos. Acordei às quatro horas da manhã, sentindo as partes baixas a latejarem, e o pênis entupido e inchado. Antes mesmo de ter posto os pés no chão, compreendi que a infecção urinária não estava a melhorar como eu esperara. Tinha atravessado uma breve fase de melhoras, nada mais, e ela entretanto chegara ao fim.
Fui à latrina no exterior fazer o que tinha a fazer - isto aconteceu três anos antes de termos instalado a nossa primeira privada com descarga de água - e ainda mal chegara à pilha de madeira à esquina da casa quando percebi que não conseguiria conter-me por mais tempo. Baixei as calças do pijama precisamente na altura em que a urina começou a verter; esse fluxo foi acompanhado pelas dores mais excruciantes que sofri em toda a minha vida. Em 1956, tive uma pedra na vesícula; sei que as pessoas costumam dizer que essa dor é a pior de todas, mas o certo é que essa pedra da vesícula foi para mim como uma ligeira indisposição provocada por acidez no estômago, em comparação com o que sofri nessa altura.
Os meus joelhos deram de si e caí pesadamente sobre eles, tendo rasgado o traseiro das calças do pijama ao abrir as pernas a fim de evitar perder o equilíbrio e cair de cara em cima da poça do meu próprio mijo. Ainda assim, poderia ter acabado por cair se não me tivesse agarrado com a mão esquerda a um tronco de lenha. No entanto, tudo aquilo poderia estar a acontecer na Austrália ou até mesmo em outro planeta. Tudo o que me preenchia a mente eram as dores atrozes que pareciam querer consumir-me como o fogo. Sentia o baixo-ventre a arder, enquanto o meu pênis - um órgão de que eu me havia esquecido quase por completo, excetuando as alturas em que me proporcionava o mais intenso prazer físico que um homem poderá sentir - me dava naquele momento a impressão de estar a derreter-se. Se baixasse o olhar, esperava ver sangue a jorrar da sua extremidade; contudo, o que vi pareceu-me ser um fluxo normal de urina.
Agarrei-me à pilha de lenha com uma mão enquanto mantinha a outra sobre a boca, concentrando-me em mantê-la cerrada. Não queria assustar a minha mulher, despertando-a com um grito inesperado. Pareceu-me que haveria de mijar para sempre, mas finalmente o fluxo de urina cessou. Nessa altura, as dores já se haviam albergado bem no fundo do meu estômago, assim como nos testículos, dando a sensação de que mordiam como dentes ferrugentos. Durante bastante tempo - é possível que se tenha alongado por um minuto - senti-me fisicamente incapaz de endireitar o corpo. Por fim, as dores começaram a abrandar e foi com esforço que consegui pôr-me na posição ereta. Olhei para a minha urina, que já tinha em- papado o solo, perguntando a mim mesmo se algum Deus de perfeito juízo poderia dar origem a um mundo onde uma quantidade tão insignificante de urina pudesse jorrar a extensão de dores tão excruciantes.
Pensei que iria dar parte de doente e que, apesar da relutância que sentia, teria de consultar o Dr. Sadler. Não desejava sofrer os efeitos nauseantes das cápsulas de sulfamidas dele, mas qualquer coisa seria preferível a ter de me ajoelhar junto da pilha de lenha envidando todos os esforços para não gritar, enquanto a minha picha me informava que havia sido regada com querosene e posta a arder.
Pouco depois, enquanto tomava algumas aspirinas na cozinha, ouvindo a Jan ressonar suavemente no nosso quarto, ocorreu-me que aquele era o dia em que o William Wharton deveria chegar ao bloco e que o Brutal não estaria presente, uma vez que a escala de serviço o destacara para outra zona da prisão, a fim de ajudar a mudar o que restava da biblioteca e da enfermaria para o novo edifício. Havia uma coisa acerca da qual eu não me sentia bem, apesar das dores que me atormentavam: deixar o Wharton apenas a cargo do Harry e do Dean. Ambos eram eficientes, mas o relatório enviado pelo Curtis Anderson indicava que o William Wharton era verdadeiramente uma má rês. Ele escrevera: Este homem está-se nas tintas para o que lhe possa acontecer, frase que havia sublinhado para lhe dar mais ênfase.
Ao fim de algum tempo, as dores tinham abrandado um pouco, o que me permitiu pensar com mais coerência. Parecia-me que a melhor idéia seria sair mais cedo para a prisão. Poderia chegar às seis, que era a hora a que o diretor Moores costumava chegar. Ele poderia voltar a destacar o Brutos Howell para o Bloco E durante o tempo suficiente para dar entrada ao Wharton, o que me permitiria efetuar a consulta ao Dr. Sadler que eu tinha vindo a adiar indefinidamente. Na realidade, Cold Mountain ficava-me em caminho.
Por duas vezes, durante o percurso de trinta e dois quilômetros até à penitenciária, senti-me assolado por uma enorme vontade de urinar. Nas duas ocasiões pude encostar à acostamento, tratando desse problema, sem grande embaraço para mim próprio (por uma razão, o movimento de tráfego nas estradas regionais àquela hora da manhã era quase inexistente). Nenhuma destas duas ejaculações urinárias foi tão dolorosa como a que me tinha feito ir abaixo dos joelhos a caminho da latrina em minha casa, mas em ambas as ocasiões fui forçado a agarrar-me ao fecho da porta do lado do passageiro do meu pequeno Ford conversível sentindo o suor a escorrer-me pelas faces ardentes abaixo. Não havia dúvida de que eu estava doente, muito doente.
No entanto, lá consegui chegar ao fim da viagem; tendo transposto o portão virado a sul, estacionei no meu lugar habitual e fui imediatamente falar com o diretor da prisão. Nessa altura já eram quase seis horas. O gabinete de Miss Hannah encontrava-se vazio - ela não chegaria antes das sete, que era a hora das pessoas civilizadas chegarem - contudo, a luz do gabinete de Moores já se encontrava ligada; via-a através do vidro fosco e com nervuras. Bati num gesto mecânico, abrindo logo a porta. O Moores soergueu o olhar, surpreendido por ver alguém àquela hora matutina, e eu teria dado qualquer coisa para não o ter visto naquelas condições, com a expressão de quem havia sido apanhado de surpresa. O seu cabelo branco, habitualmente tão bem penteado, estava naquela altura todo espetado e emaranhado; quando entrei no seu gabinete, tinha os dedos nos cabelos, arrepelando-os e puxando-os. Os seus olhos estavam extremamente congestionados, com a pele abaixo deles tumefacta e balofa. Os seus tremores eram os piores que eu lhe tinha visto; o aspecto era o de um homem que acabara de entrar no gabinete, depois de uma longa caminhada numa noite terrivelmente fria.
- Hal, desculpa, volto mais tarde... - comecei a dizer. - Não - replicou ele. - Por favor, Paul. Entra. Entra e fecha a porta. Se alguma vez precisei da companhia de alguém em toda a minha vida, é precisamente neste momento. Entra e fecha a porta.
Fiz como ele me dizia, esquecendo-me das minhas próprias dores pela primeira vez desde que acordara nessa manhã.
- É um tumor no cérebro - acrescentou Moores. - Descobriram-no nas radiografias. Na realidade, pareciam estar muito satisfeitos com as suas radiografias. Um deles até disse que eram as melhores radiografias que alguém alguma vez tinha tirado, pelo menos até agora; acrescentaram ainda que vão publicá-la numa grande publicação médica da Nova Inglaterra. Disseram que era do tamanho de um limão e que se encontra bem entranhado no cérebro, num sítio onde não poderiam operar. Disseram também que ela estará morta por altura do Natal. Eu ainda não lhe disse nada. Por muito que pense, não sei como é que hei de dar-lhe uma notícia destas.
Foi então que começou a chorar, um choro intenso e convulsivo que me provocou uma amálgama de pena e uma espécie de horror - quando um homem tão reservado como o Hal Moores acaba por perder o controlo das suas emoções, isso assusta. Fiquei imobilizado por uns momentos, até que me aproximei dele e coloquei o meu braço em redor dos seus ombros. Moores abraçou-me com ambos os braços; parecia um homem prestes a afogar-se e começou a soluçar contra o meu estômago; todas as reservas o tinham abandonado. Mais tarde, depois de ter conseguido recuperar a compostura, pediu-me desculpa. O fez sem que o seu olhar tivesse ido ao encontro do meu, tal como qualquer homem faria ao aperceber-se de que procedera de forma constrangedora, tão constrangedora que nunca poderia esquecer-se daquela situação. Um homem é muito capaz de vir a odiar o sujeito que o viu em circunstâncias como aquelas. Mas eu estava convencido de que o diretor Moores era uma pessoa que poderia ultrapassar isso; nunca me passou pela cabeça tratar do assunto que ali me havia levado originalmente, uma vez que, quando saí do gabinete do Moores, encaminhei-me para o Bloco E; em vez de regressar ao meu automóvel. Nessa altura, a aspirina já começara a produzir o seu efeito, pelo que as dores que eu sentia na região central do meu corpo se tinham reduzido a um fraco latejar. Concluí que havia de conseguir chegar ao fim do dia, instalar o Wharton na sua cela, voltar a falar com o Hal Moores ainda nessa mesma tarde e dar parte de doente só no dia seguinte. O pior já passara, pensei, sem fazer a mais pequena idéia de que o pior de todas as desventuras desse dia ainda nem sequer tinha começado.
- Calculamos que ele ainda se encontrava sob o efeito dos tranqüilizantes das análises - disse o Dean no fim desse mesmo dia.
A sua voz soava baixa e rouca, assemelhando-se mais a um ladrar; no seu pescoço tinham começado a aparecer umas equimoses de púrpura-enegrecida. Eu compreendia que lhe devia custar bastante falar, e pensei em dizer-lhe que deixasse o assunto de lado, mas acontece que por vezes é mais difícil não abordar as questões. Cheguei à conclusão que aquela era uma dessas ocasiões, pelo que decidi manter a minha própria boca fechada.
- Todos pensamos que ele estava drogado, não é verdade? - insistiu o Dean.
O Harry Terwilliger acenou afirmativamente. Até mesmo o Percy, sentado um pouco afastado de nós, formando o seu pequeno grupo amuado de uma só pessoa, também corroborou aquela versão com um gesto de cabeça.
O Brutal fitou-me, e por breves instantes os nossos olhares cruzaram-se. Tínhamos o mesmo pensamento, que as coisas aconteciam assim. Os dias decorriam dentro de toda a normalidade, mas cometia-se um só erro e pumba!, o firmamento abatia-se inexoravelmente sobre nós. Tinham calculado que o homem se encontrava sob o efeito de sedativos, o que era uma suposição bastante razoável, embora ninguém houvesse inquirido se ele estava efetivamente drogado ou não. Pensei ter detectado algo mais no olhar do Brutal: o Harry e o Dean aprenderiam com o seu erro. Muito em especial o Dean, o qual poderia, facilmente, ter sido entregue já morto à família. Mas não o Percy. Talvez isso fosse impossível com o Percy. Tudo o que este podia fazer era manter-se sentado a um canto, amuado por estar outra vez atolado na merda.
Ao todo eram sete, os que foram a Indianola para assumir a tutela de Bill “Selvagem” Wharton: o Harry, o Dean, o Percy, mais outros dois guardas que seguiam atrás (já me esqueci dos seus nomes, apesar de ter a certeza de que em tempos os conheci) e mais dois que seguiam à frente. Iam naquilo a que costumávamos chamar a diligência - uma pequena camioneta Ford com painéis de madeira que fora reforçada com placas de aço, e equipada com o que devia ser vidro à prova de bala. Aquele veículo assemelhava-se a uma mistura de carrinho de distribuição de leite e carro blindado.
Harry Terwilliger, tecnicamente, era a pessoa responsável por aquela expedição. Entregou toda a papelada ao xerife do município (não era o Homer Cribus, mas sim outro labrego eleito nos mesmos moldes imagino eu), o qual por seu turno entregou Mr. William Wharton, o arruaceiro extraordinaire, tal como diria o Delacroix. Antecipadamente, havia sido enviado um uniforme prisional de Cold Mountain, embora o xerife e os seus homens não se tivessem dado ao incômodo de dizerem ao Wharton que o usasse; deixaram essa tarefa para os nossos rapazes. O Wharton estava vestido com umas roupas de algodão do hospital e calçava umas pantufas baratas de feltro quando o viram pela primeira vez no segundo piso do hospital; era um indivíduo escanzelado com um rosto de feições afiladas e faces cheias de borbulhas, possuidor de uma longa cabeleira loura e emaranhada. O seu traseiro também era estreito e estava coberto de borbulhas, podendo ser visto através da abertura daquela espécie de bata. Aquela fora a zona da sua anatomia que o Harry e os demais viram, uma vez que o Wharton se encontrava junto de uma janela, a observar o parque de estacionamento, quando eles entraram na enfermaria. O homem não se voltou, ficou no mesmo lugar a segurar os cortinados com uma das mãos, silencioso como um boneco, enquanto o Harry implicava com o xerife do município por este ser demasiado preguiçoso para obrigar o Wharton a vestir o uniforme da prisão, e o xerife começava a dissertar - tal como todos os funcionários do município que eu tive oportunidade de conhecer - sobre aquilo que fazia parte das suas funções e aquilo que não fazia.
Quando o Harry se cansou desse aspecto da conversa (duvido que isso tenha levado muito tempo), ordenou ao Wharton que se virasse. O que este fez. O homem tinha o mesmo aspecto, disse-nos o Dean mais tarde na sua voz rouca e meio sufocada, dos milhares de labregos arruaceiros que haviam passado por Cold Mountain enquanto lá trabalhamos. Caso se observasse bem essa aparência, tudo nele se resumiria ao aspecto de um mentecapto de maus fígados. Por vezes também se vislumbrava neste tipo de fulanos uma certa cobardia quando se viam encostados à parede, mas, na maior parte das vezes, não passavam de arruaceiros maldosos. Há gente que vê nobreza em indivíduos da laia do Billy Wharton; todavia, eu não me insiro nesse grupo. Caso se veja encurralada, qualquer ratazana também nos dará luta. O rosto daquele homem parecia não ter mais personalidade do que o seu traseiro cheio de acne, de acordo com o que o Dean nos disse. O seu maxilar inferior não era firme e o olhar mantinha-se distante, os ombros descaídos, as mãos pendendo, flácidas, junto dos flancos. Tinha o aspecto de estar drogado com morfina, e parecia tão apático como todos os drogados que conhecíamos.
Perante isto, o Percy fez um dos seus acenos de cabeça carrancudos.
- Veste isto - ordenou Harry, indicando o uniforme prisional aos pés da cama. Já fora retirado do interior do saco de papel castanho em que viera, mas ninguém lhe tocara mais; continuava dobrado tal como chegara da lavanderia da prisão, juntamente com um par de cuecas de algodão branco que saíam de uma das mangas da camisa, enquanto a espreitar do punho da outra se via um par de meias também brancas.
O Wharton deu a impressão de querer obedecer ao que lhe fora dito, embora não tivesse conseguido fazer grandes progressos sem auxílio. Lá conseguiu vestir as cuecas, mas, quando chegou a vez das calças teimou, insistentemente, em enfiar as duas pernas pelo mesmo buraco. Por fim, o Dean resolveu dar-lhe uma ajuda, fazendo com que os pés do homem entrassem nos sítios adequados para o efeito, e puxou-lhe as calças para cima, apertando-lhe a braguilha e abotoando-lhe o botão do cós. O Wharton limitou-se a ficar especado, sem sequer tentar fazer qualquer gesto para se vestir, ao ver que o Dean tratava daquela tarefa por si. Olhava absortamente para o outro lado da enfermaria, com as mãos inertes, sem que houvesse ocorrido a nenhum dos guardas que ele estaria a maquinar alguma. Não com a esperança de fugir (pelo menos estou convencido de que não era esse o caso), mas somente com a esperança de provocar o maior número de complicações possível quando a ocasião lhe parecesse ser a mais propícia.
Os papéis foram assinados. O William Wharton, que se havia transformado em propriedade do município quando da sua prisão, passara agora a ser propriedade do estado. Foi conduzido pelas escadas das traseiras, atravessando a cozinha do hospital, rodeado de uniformes azuis. Caminhava com a cabeça baixa e as suas mãos de dedos afuselados oscilavam flacidamente. Da primeira vez que o seu boné caiu, o Dean apanhou-o e voltou a colocar-lho na cabeça. Da segunda vez, colocou-lho simplesmente na algibeira de trás das calças.
O Wharton teve outra oportunidade de criar problemas na Parte traseira da diligência, na altura em que lhe colocavam as grilhetas, embora não o tivesse feito. Se por acaso possuísse a faculdade de pensar (até mesmo agora, não estou certo se seria capaz e, em caso afirmativo, até que ponto), teria concluído que o espaço era bastante confinado e o número de polícias demasiado elevado para conseguir provocar qualquer estardalhaço minimamente satisfatório. E assim se colocaram , as correntes, um conjunto de grilhetas à volta dos tornozelos e um outro - que veio a verificar-se ser demasiado longo - entre os pulsos.
A viagem até Cold Mountain levou uma hora. Durante todo o percurso, o Wharton manteve-se sentado no banco lateral esquerdo, junto da cabina, com a cabeça baixa e as mãos pendentes entre os joelhos. De vez em quando, trauteava um pouco, disse o Harry, e o Percy condescendeu em acrescentar que o mentecapto deixava que o cuspo lhe escorresse pela frouxa queixada inferior, uma gota de cada vez, até começar a formar uma pequena poça aos pés. Como se fosse um cão num dia de Verão, a escorrer saliva da ponta da língua.
Entraram pelo portão virado a sul assim que chegaram à penitenciária; calculo que tenham passado pelo meu carro. O guarda, que se encontrava de serviço na passagem a sul, fez correr os portões enormes entre o parque de estacionamento e o pátio de recreio, tendo permitido o acesso da diligência. Naquela altura do dia, o pátio tinha pouco movimento, não havendo muitos homens no exterior, e os que ali se encontravam tratavam do jardim. Deve ter sido na hora de descanso. Conduziram diretamente para o Bloco E, onde se detiveram. O motorista abriu a porta do seu lado, dizendo-lhes que ia levar a diligência para a oficina, a fim de mudar o óleo, acrescentando que tinha sido um prazer trabalhar com eles. Os guardas suplementares seguiram no veículo, indo dois deles na parte de trás a comer maçãs; naquela altura, as portas estavam abertas sobre as calhas.
Assim, só ficaram o Dean, o Harry e o Percy com o prisioneiro acorrentado. Deveria ter sido o suficiente, teria sido o suficiente, se eles não houvessem sido ludibriados pela atitude atoleimada do camponês que continuava de cabeça baixa enquanto avançava no piso de terra batida, com os artelhos e pulsos acorrentados. Fizeram-no caminhar os mais ou menos doze passos até à porta que dava acesso ao Bloco E, mantendo a formação habitual de quando escoltávamos qualquer prisioneiro através da Milha Verde. O Harry seguia à esquerda do Wharton, o Dean à direita e o Percy fechava o cortejo, de bastão na mão. Ninguém me disse isso, mas eu tenho a certeza que ele o desembainhara; o Percy tinha paixão por aquele bastão de nogueira. Quanto a mim, eu estava sentado naquilo que passaria a ser a casa do Wharton, até chegar o momento de ele se apresentar na chapa dos grelhados - a primeira cela à direita, quando nos dirigíamos através do corredor para a cela do isolamento. Segurava nas mãos a prancha de madeira com a documentação e pensava no meu pequeno discurso, ansiando por poder pôr-me dali para fora. As dores que sentia nas virilhas tinham recomeçado a intensificar-se, e tudo o que eu mais desejava era poder ir para o meu gabinete, onde aguardaria que passassem.
O Dean avançou para abrir a porta .que estava fechada à chave. Selecionou a chave do molho que tinha preso ao cinto e inseriu-a na ranhura da fechadura. Na altura em que o Dean fez girar a chave e puxou a maçaneta, o Wharton regressou ao mundo dos vivos. Soltou um grito, um berro desarticulado - uma espécie de grito dos rebeldes - que imobilizou temporariamente o Harry, e arrumou o Percy Wetmore durante todo aquele confronto. Ouvi aquele berro através da porta parcialmente aberta, não o tendo associado a nada de humano, pelo menos de princípio; pensei que um cão qualquer conseguira entrar no pátio, e alguém o magoara, que talvez algum prisioneiro de maus fígados o tivesse atingido com uma enxada.
O Wharton ergueu os braços e deixou cair a corrente que unia as grilhetas que lhe envolviam os pulsos por cima da cabeça do Dean, começando a asfixiá-lo. O Dean soltou um grito estrangulado, cambaleando para a frente sob a fria luz elétrica do nosso pequeno mundo. O Wharton sentiu-se feliz por poder acompanhar os seus movimentos, tendo mesmo chegado a dar-lhe um empurrão, enquanto durante todo esse tempo gritava e falava sem nexo, soltando gargalhadas. Tinha os braços dobrados, os punhos cerrados e erguidos até às orelhas do Dean, e puxava a corrente, mantendo-a tão esticada quanto possível, zurzindo-a para a frente e para trás.
O Harry atirou-se às costas do Wharton, agarrando com uma mão num punhado de cabelos louros e sebosos do nosso novo rapaz, e com a outra batendo com toda a força numa das faces do Wharton. Tinha o seu próprio bastão e uma pistola à ilharga, mas no meio de toda aquela confusão não lhe ocorreu sacar de qualquer destas armas. Podem crer que já passáramos por problemas com outros prisioneiros, mas nunca tínhamos deparado com um que nos houvesse apanhado tão de surpresa como o Wharton. A manha do homem ultrapassava toda a nossa experiência. Eu nunca tinha visto nada assim e nunca mais voltaria a ver.
E ele era bastante forte. Toda a inércia tinha desaparecido. Mais tarde, o Harry disse que tivera a sensação de saltar para um amontoado de molas de aço que haviam adquirido vida. O Wharton, que naquela altura já tinha entrado no bloco e estava próximo da mesa do guarda de serviço, rodopiou para a esquerda, e arremessou o Harry. Este embateu contra a secretária, indo estatelar-se no chão.
- Ennaaa, rapazes! - exclamou o Wharton com uma gargalhada. - Isto é que é uma festa de arromba, não acham? É ou não é?
Continuando a gritar e a rir-se, o Wharton regressou para junto do Dean, a fim de continuar a asfixiá-lo com a corrente que lhe prendia os punhos. E porque não? O Wharton sabia aquilo que todos nós sabíamos: só o poderiam fritar uma vez.
- Bate-lhe, Percy, bate-lhe! - gritava o Harry, esforçando-se por conseguir pôr-se de pé. Mas o Percy continuou imóvel, empunhando o seu bastão de nogueira, com os olhos tão arregalados como pratos de sopa. Qualquer pessoa teria dito que ali estava a oportunidade por que ele tanto ansiara, a hipótese de dar uma boa utilização ao seu estala-cabeças; no entanto, o homem sentia-se demasiado confuso e amedrontado para poder agir. O prisioneiro não era nenhum pequeno francês aterrorizado, nem tão-pouco um gigante negro, o qual mal sabia que se encontrava no interior do seu próprio corpo; era um demônio enraivecido.
Saí da cela do Wharton deixando cair a prancheta com a papelada e sacando da minha calibre trinta e oito. Pela segunda vez naquele dia, esqueci-me por completo da infecção que tanto ardor me provocava na região central do corpo. Não duvidei da história que os outros me contaram quanto à expressão vazia do rosto do Wharton, assim como dos seus olhos entorpecidos; contudo, esse não era o Wharton que eu tinha à minha frente. Aquilo que vi foi o rosto de um autêntico animal - não uma criatura inteligente, mas sim repleta de manha... de maldade... e de satisfação. Sim. Ele estava a pôr em prática aquilo que tencionara fazer. O local e as circunstâncias não tinham qualquer importância. A outra coisa que vi foram as faces inchadas e avermelhadas do Dean Stanton. Ele estava a morrer em frente dos meus olhos. O Wharton avistou a arma e posicionou o Dean na sua direção, de forma a que, quase de certeza, eu seria forçado a alvejar um quando alvejasse o outro. Por cima do ombro do Dean, avistei um olho azul flamejante que me desafiava a disparar.