A Grande Saída
Prefácio
O FILME Fugindo do inferno conta a história de prisioneiros que escapam de um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Este livro conta a história de como a humanidade escapou da pobreza e da morte precoce e de como as pessoas conseguiram melhorar suas vidas e abriram caminho para que outras as seguissem.
Uma dessas vidas foi a do meu pai, Leslie Harold Deaton, nascido em 1918 em uma cidadezinha de mineiros pouco acolhedora chamada Thurcroft, na região carbonífera de South Yorkshire, na Inglaterra. Os avós dele, Alice e Thomas, tinham desistido de viver da agricultura e, em busca de uma vida melhor, decidiram tentar a sorte na mineração. O filho mais velho, meu avô Harold, lutou na Primeira Guerra, voltou para as minas e acabou se tornando supervisor. Foi difícil para o meu pai obter uma formação escolar em Thurcroft no entreguerras, porque apenas um número limitado de crianças tinha acesso à educação. Leslie prestava pequenos serviços na mina; como os outros garotos, ansiava um dia poder trabalhar na escavação propriamente dita. Nunca conseguiu. Foi recrutado pelo Exército em 1939 e participou da malfadada ação da Força Expedicionária Britânica na França. Depois do fracasso, foi enviado à Escócia para receber treinamento a fim de integrar unidades de assalto; foi quando conheceu minha mãe e teve a “sorte” de ser considerado inválido pelo Exército por conta de uma tuberculose, sendo enviado para um sanatório. Teve “sorte” porque o ataque à Noruega perpetrado pelas unidades de assalto foi um fiasco, e ele muito provavelmente teria morrido. Foi dispensado em 1942 e se casou com minha mãe, Lily Wood, filha de um carpinteiro da cidade de Galashiels, no sul da Escócia.
Apesar de não ter conseguido concluir o ensino médio em Yorkshire, Leslie frequentara um curso noturno de técnicas topográficas que foram úteis na mineração. Em 1942, com a falta de mão de obra, essas habilidades lhe abriram portas, e ele acabou contratado como office boy em uma empresa de engenharia civil em Edimburgo. Decidido a se tornar engenheiro mesmo tendo partido de uma base educacional quase nula, dedicou dez anos de muito esforço até se formar. O curso foi um grande desafio, em especial disciplinas como matemática e física. Recentemente, a escola onde ele estudou, hoje a Heriot-Watt University, em Edimburgo, enviou-me os resultados das suas provas e, sem dúvida, ele teve muitas dificuldades. Arranjou um emprego como engenheiro de abastecimento de água na fronteira da Escócia e comprou o chalé onde a avó da minha mãe havia morado e que, dizia-se, tinha sido visitado algumas vezes por Sir Walter Scott em tempos mais remotos. Para mim, deixar Edimburgo, com sua fuligem, sua sujeira e seu clima deplorável, e me mudar para uma cidadezinha no campo, com colinas, bosques, riachos cheios de truta e um sol infinito, no verão de 1955, foi em si uma grande fuga.
Como em geral acontece, meu pai se empenhou para me proporcionar uma vida melhor que a dele. De algum modo, conseguiu persuadir meus professores a me darem aulas particulares, para que eu me preparasse para a prova que concederia bolsa numa prestigiosa escola de Edimburgo, e fui um dos dois alunos que entraram para estudar de graça naquele ano (a anuidade era mais alta que o salário do meu pai). Acabei indo estudar matemática em Cambridge e depois me tornei professor de economia, primeiro na Grã-Bretanha e mais tarde em Princeton, nos Estados Unidos. Minha irmã se formou na Escócia e se tornou professora. Dos meus doze primos, fomos os únicos a fazer curso superior; desnecessário dizer, é claro, que ninguém das gerações anteriores teve essa oportunidade. Os dois netos de Leslie vivem nos Estados Unidos: minha filha é sócia em uma bem-sucedida empresa de planejamento financeiro em Chicago, e meu filho é sócio em um bem-posicionado fundo de hedge de Nova York. Ambos tiveram uma educação rica e diversificada na Universidade de Princeton — muito superior em profundidade, gama de oportunidades e qualidade de ensino à minha própria experiência, rasa e restrita, em Cambridge. E têm padrões de vida muito melhores do que Leslie poderia sonhar, embora tenha vivido o bastante para testemunhar boa parte desse conforto e se alegrar com o que viu. Os netos e bisnetos do meu pai vivem em um mundo de riqueza e oportunidade que soaria pura fantasia nas minas de carvão de Yorkshire.
A fuga de meu pai de Thurcroft ilustra um pouco do que trata este livro. Leslie não nasceu na extrema pobreza — ainda que assim pareça segundo os padrões atuais —, mas, comparativamente, terminou a vida em situação de fartura. Não disponho dos números relativos às vilas mineradoras de Yorkshire em particular, mas, na Inglaterra de 1918, de cada mil crianças nascidas, mais de cem não chegavam a completar cinco anos — e é provável que os riscos de morte na infância em Thurcroft fossem ainda maiores. Hoje, crianças nascidas na África subsaariana têm mais chance de completar cinco anos do que tinham as nascidas na Inglaterra em 1918. Leslie e seus pais sobreviveram à grande pandemia de gripe de 1918-1919; o pai dele, no entanto, morreu cedo, vítima de um vagão desgovernado dentro de uma mina. O pai da minha mãe também faleceu jovem, de infecção após uma cirurgia para extração do apêndice. Apesar de seu encontro com a temível tuberculose na juventude, Leslie viveu noventa anos. E os bisnetos dele têm boa chance de chegar aos cem.
Os padrões de vida hoje são significativamente melhores que os de um século atrás, e mais pessoas escapam da morte na infância e vivem o bastante para usufruir dessa prosperidade. Quase cem anos depois do nascimento do meu pai, apenas cinco em cada mil crianças britânicas não chegam aos cinco anos. Ainda que esse número seja mais alto no que restou do campo carbonífero de Yorkshire — a mina de Thurcroft fechou em 1991 —, é apenas uma fração minúscula do que era em 1918. Receber uma boa formação — algo tão difícil para meu pai — é hoje direito de todos os britânicos. Na minha geração, menos de uma em cada dez crianças britânicas cursaram faculdade, ao passo que hoje a maioria tem algum tipo de curso superior.
A saída do meu pai e o futuro que ele construiu para os filhos e netos não constituem uma exceção. Mas sua história está longe de ser universal. Muito poucos da geração de Leslie obtiveram algum tipo de certificação profissional. O mesmo vale para as irmãs da minha mãe e seus maridos. O irmão dela emigrou com a família para a Austrália nos anos 1960, quando a capacidade de ganhar o suficiente para levar uma vida bem simples trabalhando em vários empregos diferentes foi prejudicada pelo fechamento da linha férrea que cruzava a região da fronteira com a Escócia. Meus filhos têm uma situação financeira bem-sucedida e estável, mas eles (e nós) foram extraordinariamente afortunados — os filhos de diversas pessoas abastadas e com boa formação estão lutando para se saírem tão bem quanto seus pais. Para muitos de nossos amigos, o futuro dos filhos e a educação dos netos é motivo constante de preocupação.
Esse é o outro lado da história. Embora meu pai e sua família tenham sido mais longevos e prósperos — em sintonia com o que acontecia com a média da população, que também estava vivendo mais e melhor —, nem todos tinham a mesma força de vontade ou dedicação que meu pai. Ou a mesma sorte. Ninguém trabalhou com mais afinco do que ele, mas sua sorte também foi decisiva — sorte de não estar entre aqueles que morreram ainda na infância, de ter sido obrigado a deixar as minas para lutar na guerra, de não ter participado de uma operação militar malsucedida, de não ter morrido de tuberculose, de ter conseguido um emprego em um mercado de trabalho mais favorável. Na hora de fugir, sempre há aqueles que ficam para trás, e a sorte sopra para alguns e não para outros; ela cria oportunidades, mas nem todos estão preparados ou determinados a aproveitar. O resultado disso é que a história do progresso é também a história da desigualdade. Isso é particularmente verdadeiro hoje, quando a onda de prosperidade nos Estados Unidos está longe de ser igualitária. Alguns poucos estão se dando muito bem; muitos estão em dificuldade. No mundo como um todo, vemos os mesmos padrões de progresso — alguns encontram a saída enquanto outros ficam para trás, afundados em extrema pobreza, privação, doença e morte.
Este livro trata da eterna dança entre progresso e desigualdade, de como o progresso gera desigualdade e como a desigualdade pode às vezes ser útil — ao mostrar caminhos ou proporcionar incentivos para que as pessoas os alcancem —, e às vezes danosa, quando aqueles que encontraram a saída escondem o caminho das pedras erguendo barreiras por onde passam. Essa é uma história que já foi contada muitas vezes, mas quero contá-la de um jeito diferente.
É fácil pensar que a fuga da pobreza está relacionada apenas ao dinheiro — possuir o bastante para não precisar mais viver com a corrosiva ansiedade de não saber se haverá o bastante amanhã, ou temer que surja alguma emergência para a qual faltarão recursos e que acabará arruinando você e sua família. Dinheiro é, de fato, parte central da história. Porém, tão ou mais importante quanto ele é ter uma saúde melhor e uma chance maior de viver tempo suficiente para conseguir prosperar. Pais que vivem com medo de que seus filhos morram — o que de fato acontece com frequência — ou mães que dão à luz dez filhos para que cinco cheguem à idade adulta refletem terríveis carências que agravam as preocupações com dinheiro que assombram muitas dessas pessoas. Ao longo da história e por todo o mundo hoje, doença e mortalidade infantil, intermináveis enfermidades recorrentes em adultos e pobreza excruciante são situações que frequentemente caminham juntas e assolam as mesmas famílias, repetindo-se incontáveis vezes durante suas vidas.
Muitos livros contam a história da riqueza, outros tratam da desigualdade. Há também muitas obras que falam da saúde e sobre como saúde e riqueza andam de mãos dadas, mostrando como desigualdades na saúde espelham desigualdades de riqueza. Neste livro, conto as duas histórias ao mesmo tempo, aventurando-me, como economista, a invadir os territórios dos demógrafos e historiadores. Mas não se pode contar adequadamente a história do bem-estar, do que faz a vida valer a pena, se olharmos apenas para uma parte do que de fato importa. A grande saída não respeita as fronteiras das disciplinas acadêmicas.
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Como economista, acumulei muitas dívidas intelectuais ao longo da minha carreira. Richard Stone talvez seja quem mais me influenciou: com ele, aprendi sobre pesquisas e como elas são importantes para abordagens corretas; e, também, como nossas análises são limitadas sem elas. Com Amartya Sen aprendi a pensar sobre o que faz a vida valer a pena e como é preciso refletir sobre o bem-estar como um todo, e não apenas em partes. Medir o bem-estar é o cerne deste livro.
Amigos, colegas e alunos foram muitos generosos em ler as primeiras versões de todo este trabalho, ou partes dele. Este livro ficou incomensuravelmente melhor graças às observações cuidadosas e perspicazes que eles fizeram. Em especial, agradeço àqueles que, mesmo discordando de mim, investiram seu tempo não apenas em criticar e me persuadir, mas também em elogiar e concordar quando possível. Sou grato a Tony Atkinson, Adam Deaton, Jean Drèze, Bill Easterly, Jeff Hammer, John Hammock, David Johnston, Scott Kostyshak, Ilyana Kuziemko, David Lam, Branko Milanovic, Franco Peracchi, Thomas Pogge, Leandro Prados de la Escosura, Sam Preston, Max Roser, Sam Schulhofer-Wohl, Alessandro Tarozzi, Nicolas van de Walle e Leif Wenar. Meu editor na Princeton Universiy Press, Seth Ditchik, me ajudou a dar o pontapé inicial e me ofereceu apoio e bons conselhos ao longo da caminhada.
A Universidade de Princeton proporcionou-me um ambiente acadêmico incomparável por mais de três décadas. O Instituto Nacional de Envelhecimento e a Agência Nacional de Pesquisas Econômicas ajudaram a financiar minha pesquisa sobre saúde e bem-estar, cujos resultados influenciaram este livro. Realizei muitos trabalhos em parceria com o Banco Mundial, que frequentemente lida com problemas práticos urgentes, e isso me ensinou quais questões são de fato importantes e quais não são. Nos últimos anos, fui consultor da Gallup Organization, pioneira em pesquisas globais sobre bem-estar, de modo que alguns dos dados por ela coletados aparecem na parte inicial deste livro. Sou grato a todos esses órgãos.
Por último, e mais importante, Anne Case leu cada uma das minhas palavras logo depois de serem escritas e, em alguns casos, muitas outras vezes. Ela é responsável por inúmeras melhorias. Sem seu estímulo e apoio este livro não existiria.