A Grande Saída
Um: O bem-estar do mundo
UM
O bem-estar do mundo
A MAIOR FUGA da história da humanidade foi a da pobreza e da morte. Durante milhares de anos, quem tinha a sorte de sobreviver na infância passava o resto da vida sofrendo com pobreza extrema. Impulsionados pelo Iluminismo, pela Revolução Industrial e pela teoria microbiana das doenças, os padrões de vida aumentaram de forma significativa, as expectativas de vida mais que dobraram e as pessoas vivem melhor do que em qualquer outro momento da história. O processo ainda está em curso. Meu pai viveu o dobro do tempo que meus dois avós; sua renda real como engenheiro civil era várias vezes maior que a do seu pai, um minerador de carvão; e as minhas próprias educação e renda como professor superaram em muito as dele. Taxas de mortalidade infantil e de adultos continuam a cair mundo afora. Mas a saída está longe de ser alcançada por todos. Um bilhão de pessoas ainda padecem com padrões de vida, educação e expectativa de vida que são apenas um pouco melhores que dos seus (ou nossos) ascendentes. Encontrar uma forma de escapar fez uma tremenda diferença para aqueles que são mais ricos, saudáveis, altos, maiores e mais bem-educados que seus avós e que os avós deles. Também fez grande diferença em outro aspecto, menos positivo: graças ao fato de uma parcela importante da população ter ficado para trás, o mundo hoje é incomensuravelmente mais desigual que há três séculos.
Este livro conta a busca pela saída, dos benefícios para a humanidade por ela gerados e de como ela foi responsável pelo mundo desigual em que vivemos hoje. Também explica o que devemos fazer — ou não fazer — para ajudar aqueles que ainda estão aprisionados nos grilhões da pobreza.
Uso o termo bem-estar para designar todas as coisas que fazem bem a uma pessoa, que ajudam a tornar a vida melhor. Abrange bem-estar material, como renda e riqueza; bem-estar físico e psicológico, na forma de saúde e felicidade; além de educação e da chance de participar da sociedade por meio da democracia e do Estado de direito. Boa parte deste livro é dedicada a dois desses componentes: saúde e riqueza. Nesta visão geral, também faço comentários sobre felicidade.
Começo com um panorama amplo do bem-estar no mundo atual, e como ele mudou ao longo dos últimos trinta ou cinquenta anos, apresentando os fatos básicos apenas com algumas breves explicações. Nos capítulos finais, aprofundo alguns tópicos específicos, questionando como chegamos aonde chegamos e qual é o próximo passo.
Saúde e riqueza
Saúde é o ponto de partida óbvio para qualquer investigação sobre bem-estar. É preciso estar vivo para viver bem; saúde precária e invalidez limitam, e muito, a possibilidade de se aproveitar uma vida, que, de outra forma, poderia ser boa. Portanto, começo com a própria vida.
Uma menina que nascer hoje nos Estados Unidos pode esperar viver mais de oitenta anos. Essa estimativa oficial é na realidade muito conservadora, porque ignora quaisquer reduções futuras das taxas de mortalidade passíveis de acontecer ao longo da sua vida. Em vista do progresso no passado, é implausível que de repente pare de haver progresso. É claro que é difícil projetar qualquer avanço futuro na área da saúde, mas não é despropositado supor que uma menina branca de classe média nascida nos Estados Unidos
ricos de hoje tenha 50% de chance de chegar aos cem anos. 1 É uma mudança notável em relação à situação da bisavó dessa menina, nascida, digamos, em 1910, e que tinha, quando veio ao mundo, uma expectativa de vida de 54 anos. De todas as meninas nascidas nos Estados Unidos em 1910, 20% morreram antes de completar cinco anos, e apenas duas em cada cinco mil completaram cem anos de vida. Mesmo para sua avó, nascida em 1940, a expectativa de vida ao nascer era de 66 anos, e 38 de cada mil meninas nascidas em 1940 morreram antes de completar um ano.
Essas diferenças históricas são irrisórias se comparadas às diferenças entre países hoje. Há muitos lugares no mundo atual em que a saúde é pior que nos Estados Unidos de 1910. Um quarto das crianças nascidas em Serra Leoa (ou em Angola, Suazilândia, República Democrática do Congo ou Afeganistão) morre antes de completar cinco anos; a expectativa de vida ao nascer é pouco superior a quarenta anos. As mulheres costumam ter de cinco a sete filhos; e a maioria delas acaba enfrentando a dor de perder pelo menos um deles. Nesses países, um em cada mil nascimentos leva à morte da mãe, risco que sobe para um em cem nos casos de mulheres com dez filhos. Ainda que péssimos, esses números são muito melhores do que os de algumas décadas atrás: mesmo nos piores lugares, onde nada parece funcionar, a mortalidade vem caindo. Em alguns dos países com os piores índices, como Suazilândia, se uma criança consegue chegar aos cinco anos, corre o risco de contrair aids, responsável por aumentar significativamente o risco de morte entre jovens adultos, uma fase da vida em que poucos costumam morrer. Mas esses horrores não são comuns a todos os países tropicais nem a todos os países pobres. Há muitas nações, entre elas pelo menos uma tropical (Cingapura), onde um recém-nascido tem chances de sobrevivência iguais ou superiores às dos Estados Unidos. Mesmo na China e na Índia (que, somados, tinham mais de um terço da população mundial e quase metade dos mais pobres do planeta em 2005), recém-nascidos podem esperar viver 64 anos (Índia) e 73 anos (China).
Mais adiante neste capítulo, retomo a origem desses números, porém convém destacar desde já que, quanto mais pobre o país, piores tendem a ser as estatísticas de saúde. Ainda assim, temos boas informações acerca da mortalidade infantil — percentual de mortes de crianças antes do primeiro aniversário — e na infância — percentual de mortes de crianças antes do quinto aniversário —, mas, em contrapartida, dados muito piores quando se trata de mortes de adultos, entre eles taxas de mortalidade de mães, ou de expectativa de sobrevida de jovens de quinze anos.
Saúde não se resume a estar vivo e a viver muito tempo, é também viver com boa saúde. São muitas as dimensões de uma boa saúde, e medi-la é mais difícil do que o simples fato de alguém estar ou não vivo — embora aqui também haja evidências de melhorias ao longo do tempo, assim como de diferenças entre países ricos e pobres. As pessoas nos países prósperos relatam menos dor e menos incapacitação física do que nos mais pobres; a taxa de invalidez vem caindo ao longo dos anos nos países ricos, e índices de quociente de inteligência vêm crescendo. Na maior parte do mundo, as pessoas estão ficando mais altas. Aqueles que não recebem alimentação adequada na infância ou enfrentam doenças nessa fase muitas vezes não crescem tanto quanto seus genes permitiriam se vivessem em condições ideais; estatura inferior à esperada pode indicar adversidades no início da vida que comprometem o desenvolvimento cerebral e restringem ainda mais as oportunidades na fase adulta. Europeus e norte-americanos são, em média, mais altos que africanos e muito mais altos que chineses e indianos. Filhos são mais altos que seus pais e ainda mais altos que seus avós. Os avanços globais na saúde e na renda podem ser observados até nos corpos das pessoas.
Diferenças na saúde muitas vezes refletem diferenças em padrões de vida material ou em pobreza. Os americanos são muito mais ricos hoje do que eram em 1910 ou 1945; já os países com as mais baixas expectativas de vida têm rendas per capita que não chegam nem a uma minúscula fração das rendas dos americanos. A República Democrática do Congo (nome grotescamente inadequado), conhecida como Zaire na época em que era presidida por Joseph Mobutu, entre 1965 e 1997, tem renda per capita equivalente a cerca de 0,75% da dos Estados Unidos. Mais da metade da população daquele país vive com menos de 1 dólar por dia; os números de Serra Leoa e Suazilândia são similares. Para alguns dos piores países, como o Afeganistão, não há nem mesmo estatísticas, porque encontram-se mergulhados em conflitos.
De acordo com a agência do governo americano responsável pelo censo, a U.S. Census Bureau, 14% da população era pobre em 2009, mas a linha de pobreza no país é muito mais alta, 15 dólares por dia. É difícil imaginar viver nos Estados Unidos com 1 dólar por dia (embora haja um cálculo que sugere ser possível com 1,25 dólar, se excluirmos
os custos de moradia, saúde e educação).2 Não obstante, é com isso, ou algo parecido, que vivem as pessoas mais pobres do mundo.
A conexão entre expectativa de vida e pobreza, embora bastante real, está longe de ser exata. Na China e na Índia, onde a expectativa de vida é de 73 e 64 anos respectivamente, muitos vivem com menos de 1 dólar por dia — cerca de 25% da população da Índia e 14% da população rural da China. E, embora a economia chinesa esteja prestes a superar a americana em valores absolutos, a renda per capita no país asiático equivale a perto de apenas 20% da dos americanos; na média, as rendas somadas de cinco chineses é igual à de um único americano. Há outros países, ainda mais pobres, que têm melhores expectativas de vida: Bangladesh e Nepal, por exemplo, em torno de 65 anos; e, em situação apenas um pouco melhor, o Vietnã, cuja expectativa de vida era de 74 anos em 2005.
Há também alguns países ricos com situação muito pior do que suas rendas per capita fazem supor. Exemplo notável são os Estados Unidos, cuja expectativa de vida é uma das mais baixas entre os países mais ricos. Outro caso de natureza bem diferente é o da Guiné Equatorial, cuja renda per capita em 2005 estava inflada pela receita com petróleo, mas cuja expectativa de vida era de menos de cinquenta anos; o país, no passado uma colônia espanhola localizada no oeste da África, é dirigido pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, potencial ganhador do título de pior ditador da África (a disputa é acirradíssima) e cuja família é beneficiária da maior parte da receita gerada pela exportação de petróleo.
Expectativa de vida alta, boa saúde, ausência de pobreza, democracia e Estado de direito estão entre as características que desejaríamos incluir se criássemos um país ideal, pois permitem que as pessoas vivam bem e lutem pelo que é importante para elas. Contudo, sem perguntar à população, não sabemos exatamente o que ela considera importante, qual é o equilíbrio ideal entre saúde e renda, ou mesmo em que medida esses fatores importam, se é que importam. Às vezes, as pessoas são capazes de se adaptar a condições que parecem intoleráveis e até mesmo extrair um pequeno quinhão de felicidade ou viver bem em lugares onde a alta taxa de mortalidade e a pobreza são comuns — em outras palavras, prosperar no vale da sombra da morte bíblico. Pessoas pobres podem avaliar suas vidas como boas mesmo nas condições mais adversas, e pessoas ricas, que parecem ter tudo, podem, por sua vez, sentir-se profundamente insatisfeitas.
Em casos assim, é admissível optar por medir bem-estar do ponto de vista das oportunidades disponíveis para que as pessoas tenham uma vida boa, em vez de nos concentrarmos naquilo que efetivamente elas fizeram de suas vidas. O fato de uma pessoa pobre ser feliz e conseguir se adaptar às circunstâncias não diminui sua pobreza, assim como a infelicidade ou a ganância de um bilionário não diminui sua riqueza. Ao nos concentrarmos no que Amartya Sen chama de “capacidades”, somos levados a examinar a libertação da pobreza e da privação em termos das possibilidades geradas por circunstâncias objetivas, e não de como as pessoas aproveitam essas circunstâncias ou como se sentem em
relação a elas.3 Ainda assim, considerar a vida boa é em si algo positivo, e é melhor ser feliz do que infeliz. Esses sentimentos contribuem para que as pessoas vivam bem e é importante perguntar a elas sobre eles, mesmo que não tenham peso prioritário na avaliação do bem-estar. Essa posição difere da proposta de alguns utilitaristas, como o
economista Richard Layard,4 que argumentam que o importante é a pessoa se considerar feliz, que circunstâncias favoráveis são boas somente na medida em que promovem felicidade, e que condições adversas não são ruins se as pessoas são felizes apesar delas. Entretanto, como vimos nas Figuras 1 e 2 da Introdução, a verdade é que as pessoas não estão nada satisfeitas nos países em que a vida é sórdida, embrutecida e curta e, por outro lado, os habitantes dos países ricos, onde se vive por mais tempo, em geral têm plena consciência de quão afortunados são.
Expectativa de vida e renda no mundo
Para analisar os padrões gerais — e também detectar as exceções, que muitas vezes são bastante interessantes —, precisamos enxergar o mundo como um todo, mapeando padrões de saúde, riqueza e felicidade. Uma das formas mais úteis de se fazer isso foi concebida pelo demógrafo Samuel
Preston em 1975.5 O gráfico que ele produziu, atualizado para o ano de 2010, está redesenhado na Figura 1 e mostra a expectativa de vida e renda ao redor do mundo.
O eixo horizontal mostra o PIB per capita de cada país e o vertical indica a expectativa de vida ao nascer para ambos os sexos. Cada país é representado por um círculo, cuja área é proporcional à sua respectiva população. Os círculos grandes no meio da imagem são China e Índia, enquanto o círculo no alto à direita, bem menor, mas ainda assim bem grande, representa os Estados Unidos. A curva que sai do canto inferior esquerdo para o canto superior direito ilustra a relação geral entre expectativa de vida e renda per capita entre países: ela sobe rapidamente entre os países de baixa renda e depois se estabiliza entre os países ricos com expectativas de vida mais altas.
FIGURA 1 Expectativa de vida e PIB per capita em 2010
O PIB per capita mensura a renda média gerada em cada país e é aqui expresso em uma unidade comum a todos eles. Tal unidade, o dólar internacional de 2005, é utilizada para que, pelo menos em princípio, 1 dólar valha o mesmo em todos os países e seja possível comparar coisas similares; 1 dólar internacional compra a mesma coisa tanto no Brasil ou na Tanzânia quanto nos Estados Unidos. O PIB também abrange rendas que não são diretamente recebidas por pessoas ou famílias, como receitas de impostos cobrados pelo governo e lucros de empresas e bancos, assim como aquela obtida por estrangeiros. Em geral, apenas uma fração do PIB, embora bastante substancial, está disponível para as famílias efetuarem suas compras. Há outros componentes que beneficiam as pessoas de forma direta (gastos públicos com educação, por exemplo), ou indireta (investimento para o futuro). O PIB (produto interno bruto) é diferente do PNB (produto nacional bruto); este inclui — e o PIB exclui — renda recebida por residentes, mas gerada no exterior. Por outro lado, o PNB exclui — e o PIB inclui — rendas geradas dentro do país, mas de propriedade de estrangeiros. A diferença costuma ser pequena, mas para alguns países tem muita importância. Luxemburgo, onde trabalha muita gente que mora na Bélgica, França ou Alemanha, é um exemplo de país com PNB muito menor que o PIB, situação similar à da minúscula península de Macau, na costa da China, onde hoje fica o maior cassino do mundo. Esses dois países, que apareceriam bem fora dos limites do gráfico, à direita, foram suprimidos com Catar e Emirados Árabes, potências produtoras de petróleo; todos os quatro tinham os maiores PIBs per capita em 2010. O PNB é mais adequado para medir a renda de um país, mas os dados de PIB normalmente são disponibilizados de forma mais regular e sistemática, sendo este o motivo pelo qual eu o estou utilizando aqui e em várias outras partes do livro.
Um importante aspecto do gráfico é “o ponto de inflexão” perto da China, onde a curva começa a se achatar. Esse ponto sinaliza a transição epidemiológica. Nos países à esquerda da transição, doenças infecciosas são relevantes causas de mortalidade, com muitos óbitos de crianças, a ponto de, nos países mais pobres, cerca de metade de todas as mortes serem de menores de cinco anos. Uma vez passada a transição, à medida que nos deslocamos para os países mais ricos, a mortalidade infantil praticamente deixa de existir e a maioria dos óbitos se concentra nos idosos, que falecem não de doenças infecciosas, mas das crônicas. As mais relevantes são as cardíacas (ou, num sentido mais amplo, doenças cardiovasculares, incluindo derrame) e câncer. As doenças crônicas também vêm se tornando causa de morte cada vez mais presente nos países pobres, porém poucos falecem de doenças infecciosas em países ricos, exceto por um número pequeno de idosos que morrem de pneumonia. Uma forma de ilustrar essa transição é dizer que as doenças infecciosas deixam os intestinos das crianças e passam a atacar as artérias dos idosos.
Entender que há uma interdependência clara entre expectativa de vida e renda é importante para pensar a distribuição do bem-estar no mundo. Saúde e riqueza são os dois mais importantes fatores para o bem-estar, e o gráfico mostra (embora não sem exceções) que eles em geral andam juntos. Povos que enfrentam privações em seus padrões de vida material, como é o caso de boa parte da população da África subsaariana, em geral sofrem carências também na área da saúde: vivem menos e têm de conviver com a indizível tragédia de ver muitos de seus filhos morrerem. Na outra ponta da curva, entre os países ricos, poucos são os pais que presenciam a morte de um filho e muitos têm a oportunidade de usufruir de um alto padrão de vida durante quase o dobro de anos que os habitantes de países pobres. Ao vermos o mundo na perspectiva de interdependência entre saúde e riqueza, somos forçados a perceber que as divisões se acumulam e que a distribuição do bem-estar é mais desigual do que quando olhamos para renda ou saúde de forma isolada. Um truque primário, e às vezes útil (embora pouco sólido em termos éticos), é combinar renda e expectativa de vida multiplicando um pelo outro de forma a chegar a uma renda obtida ao longo da vida. É um método frágil de medir bem-estar — o valor de um ano de vida a mais é calculado pela renda do indivíduo, de modo que um ano na vida de uma pessoa rica vale mais que um na de uma pessoa pobre —, mas ilustra as diferenças entre os países. Estima-se, por exemplo, que a renda per capita na República Democrática do Congo seja equivalente a 0,75% da americana, e a expectativa de vida inferior a 66%, o que resulta no seguinte comparativo: a renda média per capita durante toda a vida nos Estados Unidos é mais de duzentas vezes maior que a da República Democrática do Congo.
O que a figura não estabelece é que renda mais alta é a causa de uma saúde melhor, nem que pobreza é a causa do que com frequência se chama de “doenças da pobreza”. O gráfico tampouco anula essa possibilidade; renda, de fato, tem de ser considerada em alguns aspectos e em algumas situações — essa ideia será bastante aprofundada ao longo deste livro. Por exemplo, ela é importante em lugares onde progressos na saúde requerem níveis mais altos de nutrição — para obtê-los, as pessoas precisam de dinheiro — ou água mais limpa e melhor saneamento — para isso, é o governo que precisa de dinheiro. Comparativamente, nos países ricos é muito menos óbvia a ideia de que com dinheiro é possível vencer o câncer ou as doenças cardíacas (embora se reconheça que pesquisa e desenvolvimento nessas áreas são muito custosos), ou seja, a curva se estabiliza à medida que os países passam pela transição epidemiológica. Também é possível que exista um limite para o aumento na expectativa de vida — ainda que pareça estranho, essa ideia é bastante contestada —, de forma que, quando a expectativa de vida atinge níveis tão altos como no Japão ou mesmo nos Estados Unidos, torna-se cada vez mais difícil continuar a aumentá-la.
Alguns defendem a tese de que não existe relação entre
renda e expectativa de vida nos países mais ricos do mundo. 6 Como fizemos na Introdução com os gráficos de qualidade de vida em função do PIB, cabe redesenhar a Figura 1 usando uma escala logarítmica para a renda. A Figura 2, que utiliza os mesmos dados que a 1, nos oferece uma leitura bem diferente. Numa primeira avaliação, observa-se que a inclinação da curva é a mesma à esquerda e à direita do gráfico, embora a relação no alto seja um pouco mais plana — em boa medida por causa do desempenho ruim dos Estados Unidos — e, entre os países mais ricos de todos, ainda constatemos a falta de uma relação direta. Mas, para a maior parte do mundo, crescimentos proporcionais na renda estão associados ao mesmo crescimento em anos de vida, assim como estavam associados ao mesmo crescimento em satisfação com a vida, como vimos na Introdução. É claro que, como os países ricos têm rendas muito maiores, um mesmo crescimento proporcional em um país rico significa um crescimento de renda muito maior, em termos absolutos, do que num país pobre, de modo que, a exemplo da Figura 1, a mesma quantia de dinheiro é acompanhada por menos anos adicionais de vida entre os ricos do que entre os pobres. Mas, mesmo nos países ricos, renda maior ainda se traduz em mais anos de vida. Contudo, como mostra a Figura 2, o ranking dos países por expectativa de vida está longe de ser idêntico ao ranking por renda.
FIGURA 2 Expectativa de vida e PIB per capita em 2010 em escala logarítmica
As histórias dos países fora da curva são tão importantes quanto a dos países que estão nela. Entre aqueles cujo desempenho é muito pior do que seria de se esperar em função de sua renda, muitos foram afetados por guerras. Outros — entre eles Botsuana e Suazilândia (e mais países africanos não mostrados) — sofrem de epidemias de aids que, em diversos países, mitigaram ou anularam os avanços em expectativa de vida conquistados desde a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, a doença os empurrou para baixo e para longe da curva. Já mencionei o exemplo da Guiné Equatorial, o mais terrível de todos. Contudo, o mesmo fator — extrema desigualdade de renda — também é em parte responsável pela posição da África do Sul, que está abaixo da curva há anos, desde antes da disseminação da aids. A África do Sul pode ser vista — mesmo depois do fim do apartheid — como um pequeno país rico incrustado em um país muito maior e muito mais pobre. Na verdade, se traçarmos uma linha entre as posições de Nigéria e Estados Unidos na Figura 2 e, a seguir, deslocarmos em 10% o ponto em que aquela está na direção destes — sendo 10% a parcela de brancos na população da África do Sul — teremos a posição aproximada da África do Sul no gráfico.
A Rússia é outro país que apresenta um desempenho bastante fraco, onde a expectativa de vida diminuiu rápido depois da queda do comunismo, possivelmente em função do caos e dos efeitos colaterais da transição. Um dos fatores decisivos que ratifica essa história foi o consumo excessivo de álcool, em especial entre homens. O que aconteceu na Rússia ainda é controverso, até porque a mortalidade entre homens já vinha crescendo bem antes da mudança no sistema
político.7 Seja qual for a verdade, a Rússia e os países da antiga União Soviética possuem tanto saúde quanto qualidade de vida muito piores do que se poderia esperar à vista de suas rendas. São também nações onde a transição de um sistema econômico para outro trouxe dificuldades na mensuração da renda, que pode estar superestimada nas figuras. A mudança na Rússia, embora de alguma forma inevitável e com probabilidade de ser benéfica a longo prazo, resultou em custos enormes e perdas de renda e de anos de vida. Seu impacto é muito menor que o de outras catástrofes do mundo pós-guerra, como a aids e a Grande Fome chinesa, mas são inegáveis os imensos sofrimentos e a perda de bem-estar.
À luz da sua renda per capita, o desempenho da saúde nos Estados Unidos deixa a desejar, embora sejam o país que destina a maior fatia do seu PIB a esse setor. Isso ilustra bem o fato de que não há relação fixa entre renda e saúde, e menos ainda entre saúde e gastos nessa área. Chile e Costa Rica têm expectativas de vida tão altas quanto os Estados Unidos, apesar de suas rendas per capita representarem cerca de 25% da americana, e ser apenas 12% seu gasto per capita com saúde. Voltarei a discutir saúde e financiamento do sistema de saúde nos Estados Unidos nos Capítulos Dois e Cinco.
Outros países têm desempenho muito melhor do que suas rendas fazem supor. A Figura 2, com escala logarítmica, mostra quais são eles de forma mais clara que a Figura 1. Nepal, Bangladesh, Vietnã, China, Costa Rica, Chile e Japão são nações importantes cujas expectativas de vida são altas em relação ao que poderíamos esperar em função da curva internacional. Os mais pobres entre esses países têm bom desempenho ao conseguirem alcançar, de forma inesperada, taxas baixas de mortalidade infantil (bebês com menos de um ano) e na infância (com menos de cinco anos), ao passo que os mais ricos, com destaque para o Japão, têm taxas anormalmente baixas entre adultos de meia-idade e idosos. Mais adiante, voltarei a explorar em maior profundidade essas exceções, mas o ponto principal a ser destacado aqui é que a curva não expressa uma realidade preestabelecida: países pobres podem se sair melhor do que se espera à luz dos seus recursos, e países ricos podem se sair pior. Sempre há uma forma de garantir boa saúde apesar de uma renda per capita baixa, assim como sempre há formas de gastar somas gigantescas de dinheiro sem propósito. Guerras, doenças epidêmicas e desigualdade extrema também pioram os índices de saúde, independentemente do nível de renda, ainda que as chances de as duas primeiras eclodirem em países pobres sejam muito maiores do que em países ricos.
Para o alto e avante, com interrupções catastróficas
As Figuras 1 e 2 nos oferecem um retrato do mundo em 2010. Mas a curva que relaciona expectativa de vida e renda não permaneceu inalterada. A Figura 3 assinala dados e duas curvas, uma repetindo a de 2010 e outra com números de 1960. Os países em 1960 são mostrados em tom mais claro para diferenciá-los de sua posição em 2010. Também aqui as áreas dos círculos são proporcionais à população, mas separadas umas das outras em cada um dos anos retratados, de forma que não é possível determinar mudanças populacionais comparando o tamanho do círculo de um país em 1960 com o do seu círculo em 2010.
FIGURA 3 Vidas mais longas, vidas mais ricas
Quase todos os círculos escuros encontram-se acima e à direita dos círculos claros; desde 1960, quase todos os países se tornaram mais ricos e seus habitantes passaram a viver mais. Este talvez seja o fato crucial relacionado ao bem-estar desde a Segunda Guerra: as coisas estão melhorando e os aspectos saúde e renda do bem-estar progrediram ao longo do tempo. O economista e historiador Robert Fogel escreveu sobre o que chama de fuga da fome e da morte prematura
abrangendo um longo período da história.8 Essa grande fuga continuou em um ritmo acelerado desde a Segura Guerra. Embora alguns poucos países não a tenham encontrado, e outros a tenham buscado apenas de forma parcial, devemos destacar e celebrar as conquistas. Muitos milhões de pessoas escaparam de um mundo de doença e de escassez material.
Amartya Sen fala em desenvolvimento como liberdade,9 e a Figura 3 mostra que o mundo está mais livre em 2010 do que em 1960. Se completássemos o gráfico com dados (muito menos completos) referentes a 1930 ou 1900, veríamos que a liberdade vem se expandindo há muito tempo, um processo iniciado há cerca de 250 anos e que tem ganhado velocidade e atingido mais e mais países na última metade do século passado.
Apesar do progresso em termos gerais, houve catástrofes. Uma das piores da história da humanidade foi o “Grande Salto para a Frente” da China, entre 1958 e 1961, quando políticas de industrialização e de produção e distribuição de alimentos profundamente equivocadas levaram perto de 35 milhões de pessoas à morte por fome e impediram o nascimento de talvez outras quarenta milhões. As condições climáticas nesses anos foram normais; a fome foi totalmente provocada pelo homem.
Mao Tsé-Tung e seus companheiros à frente do país estavam determinados a mostrar a superioridade do comunismo, a ultrapassar de forma imediata os níveis de produção da Rússia e Inglaterra e a estabelecer a liderança de Mao no mundo comunista. Metas de produção absurdas foram definidas para fazer frente às necessidades de alimentos nas cidades que se industrializavam rápido e para gerar divisas por meio da exportação de alimentos. Sob o regime totalitário mantido pelo Partido Comunista da China, a competição levava comunidades rurais a exagerar os informes de suas produções, inflando ainda mais as inatingíveis cotas de produtos estabelecidas a serem entregues, de forma que nada sobrava para suprir a população. Ao mesmo tempo, o partido levava o caos ao campo ao decretar a estatização de todas as terras privadas, confiscar propriedades particulares e até utensílios de cozinha privados, obrigando as pessoas a comerem em cozinhas comunitárias. Como era muito grande a confiança de que seriam alcançados aumentos substanciais de produção, a mão de obra rural foi deslocada para projetos públicos e usinas de produção de aço, e a maior parte não deu em nada. Restrições draconianas a viagens e comunicações impediram que tal realidade viesse à tona no restante do mundo; as penalizações pelas divergências eram duras, e 750 mil pessoas foram executadas entre 1950 e 1951 (de todo modo, naqueles anos iniciais da revolução, o Partido Comunista tinha bastante apoio).
Quando tomou conhecimento dos desastres (ainda que não em sua totalidade), Mao radicalizou ainda mais as políticas, expurgando os mensageiros, desqualificando-os como “revisionistas de direita” e acusando camponeses de armazenar alimentos de forma clandestina. Fazer o contrário e admitir que o Grande Salto para a Frente fora um erro teria comprometido a posição de liderança do próprio Mao, que estava disposto a sacrificar a vida de milhões de seus cidadãos para impedir isso. Se ele tivesse recuado assim que o governo se deu conta da extensão da fome, esta teria durado apenas um ano, e não três; de qualquer modo, havia nos depósitos do governo estoques suficientes de grãos para
evitar que tantos morressem. 10
De acordo com vários relatos, a expectativa de vida na China, que era em torno de cinquenta anos em 1958, caiu para trinta anos em 1960. Meia década depois, assim que Mao parou de assassinar a população, ela tornou a subir,
chegando perto dos 55 anos. 11 Quase um terço dos nascidos durante o Grande Salto para a Frente não sobreviveu. Às vezes, é difícil identificar os benefícios de uma política ou mesmo acreditar que certas medidas governamentais fazem alguma diferença, mas os efeitos catastróficos de más administrações são indiscutíveis, como demonstrou o programa de Mao. Mesmo sem guerra ou epidemia, a má gestão no centro de um sistema totalitário causou a morte de dezenas de milhões de pessoas. É claro que existem tantas outras que não levam milhões à morte. O problema na China foi a demora em suspender tais medidas, graças ao sistema totalitário, e a falta de qualquer mecanismo que obrigasse seu dirigente a corrigir a rota. O sistema político do país hoje não é muito diferente do criado por Mao; a diferença está no fluxo de informações. Apesar do ainda presente controle do Estado, é difícil imaginar uma crise de alimentos de tais proporções sem que a liderança chinesa — ou a do restante do mundo — a detectasse rapidamente. O que não se sabe é se hoje os outros países do planeta teriam condições de ajudar mais do que naquela época.
A epidemia de aids foi outro grande desastre. Como já vimos, ela foi responsável pelo aumento da mortalidade e pela queda drástica da expectativa de vida em muitos países da África subsaariana. A posição da África do Sul constitui uma ilustração didática; nas Figuras 1 e 2 ela está bem abaixo da curva. Se voltarmos a 1960, muito antes da aids ter qualquer efeito sobre a mortalidade, notaremos que a posição é praticamente a mesma, não por causa das doenças, mas por causa da extrema desigualdade entre as populações negra e branca. Se exibíssemos essas curvas como num filme e acompanhássemos suas transformações década a década, observaríamos que a África do Sul se deslocou para cima, aproximando-se mais e mais da curva à medida que o apartheid desaparecia e as discrepâncias de saúde entre os grupos raciais diminuíam. Pelo menos era isso que acontecia até 1990; a partir daí, com o aumento das mortes provocado pela aids, o país voltou à posição original, ao ponto onde se encontra na Figura 1.
Nos últimos anos, medicamentos antirretrovirais começaram a estancar a perda de vidas na África. Essa epidemia em si também nos faz lembrar que fugas podem ser temporárias e que grandes epidemias de doenças infecciosas — hoje aids, cólera no século XIX, Peste Negra na Idade Média — não estão confinadas de forma definitiva no passado. Tanto publicações científicas especializadas quanto a imprensa em geral vêm dedicando grande atenção às ameaças atuais de doenças infecciosas “emergentes”, como foi a aids, em especial àquelas originárias do mundo animal e transmitidas a humanos. São muitas as doenças zoonóticas, algumas com potencial letal extraordinário e fulminante. Contudo, é justamente essa letalidade que impossibilita que se transformem em epidemias de grande escala: a morte das vítimas não é boa nem para elas nem para os germes. A aids, que não é transmitida com facilidade e mata muito de forma lenta, constitui maior grau de perigo, e a pandemia que causou deveria nos despertar para o fato de que não podemos nos dar ao luxo de ignorar os perigos de tais doenças no futuro.
Ao deixarmos as catástrofes um pouco de lado, veremos pela Figura 3 que não apenas os países estão se tornando mais ricos e saudáveis, mas também que a própria curva que relaciona expectativa de vida e renda se desloca para cima ao longo do tempo. A curva de 2010 está acima da curva de 1960 e, se analisássemos tempos mais remotos, observaríamos que a curva de 1960 está acima da de 1930, que, por sua vez, está acima da de 1900, e assim por diante. Ao verificar esse movimento ascendente, Preston concluiu que a causa devia ser algum fator sistemático que não a renda. Se esta fosse o aspecto mais importante — com outros fatores, como doenças epidêmicas ou políticas nacionais de saúde, ocorrendo de forma aleatória, mais ou menos sem qualquer padrão —, as posições dos países em relação à curva mudariam para cima ou para baixo (a maioria para cima). No entanto, embora haja de fato um deslocamento dos países para cima na curva, não foi só isso que aconteceu. Mesmo sem alterações na renda, a expectativa de vida subiu ao longo do tempo no mundo inteiro, tanto nos países com renda per capita alta quanto nos com baixa. Preston atribuiu essa melhora na curva a progressos científicos e a novas descobertas na medicina, ou, no mínimo, a uma maior aplicação de conhecimentos médicos e científicos existentes. Ele considerou que os deslocamentos em relação à curva tiveram a contribuição do avanço dos padrões de vida na saúde, e que os deslocamentos da curva em si foram consequência dos novos conhecimentos
aplicados. 12 Renda ou conhecimento? A discussão sobre qual desses fatores é o responsável pelas melhoras no bem-estar estará presente ao longo do livro. Defenderei a tese de que conhecimento é a chave, e que a renda — embora importante em si como componente do bem-estar, e ainda muitas vezes como facilitadora de outros aspectos do bem-estar — não é a causa última do bem-estar.
Pobreza e desigualdade globais
Os padrões de vida material estão subindo na maioria dos países do mundo. No entanto, não há nenhuma relação lógica que garanta a associação automática entre crescimento e reduções da pobreza global; aliás, é possível que as nações mais pobres do mundo não estejam crescendo — como de fato aconteceu na África nos anos 1980 e início dos 1990 — ou, talvez, que o crescimento, se ocorreu, tenha beneficiado apenas quem já estava em boa situação dentro de cada país. Esses argumentos são muito invocados pelos que acreditam que a globalização e o crescimento econômico beneficiam apenas os ricos. Como já vimos, não resta dúvida de que há abismos quase inimagináveis entre os padrões de vida dos países; tampouco são pequenas as diferenças domésticas entre ricos e pobres. Essas desigualdades estão aumentando com o progresso econômico mundial? Estão todos aproveitando ou só os já ricos, que conseguiram alcançar suas fugas e deixaram os menos afortunados para trás?
Uma forma de buscar a resposta é verificar se os países inicialmente pobres cresceram mais rápido que os países inicialmente ricos, requisito indispensável para que as diferenças entre eles diminuam. Se os progressos na ciência e nos conhecimentos aplicados são os fatores decisivos que viabilizam o crescimento econômico, devemos então esperar que os padrões de vida dos países se aproximem, pelo menos na medida em que conhecimento e técnicas possam ser transferidos de um país para outro com facilidade.
A Figura 4 mostra pontos espalhados de modo mais ou menos aleatório pelo gráfico. Cada ponto é um país e representa sua taxa média de crescimento da renda per capita no eixo vertical em relação ao seu PIB per capita, no eixo horizontal. Os pontos escuros tomam o ano de 1960 como ponto de partida e exibem o crescimento de 1960 a 2010; os mais claros começam em 1970 e representam o crescimento de 1970 a 2010. A falta de qualquer padrão nos pontos significa que os países pobres não cresceram mais rápido que os ricos, de forma que não houve uma diminuição da distância nem qualquer redução na desigualdade entre os países. Tampouco os ricos cresceram mais rápido que os pobres. No geral, não ocorreram grandes alterações nas desigualdades existentes. Quase todas as taxas de crescimento são positivas e estão acima da linha pontilhada indicativa de crescimento zero. O mundo apresentou muito crescimento nos últimos cinquenta anos; em 2010, apenas quatro países tiveram rendas per capita inferiores às que apresentavam em 1960, e somente quatorze recuaram em relação a 1970. Como sempre, vale lembrar que alguns dos países com pior desempenho (aqueles em guerra, por exemplo) não são considerados, ou porque não há dados sobre eles ou porque não existiam nos anos retratados no gráfico (na Figura 4, os dois países com pior desempenho são República Democrática do Congo e Libéria, que foram assolados por guerras).
É possível analisar esses mesmos dados de uma perspectiva diferente e mais positiva. A Figura 5, desenhada pela primeira vez por Stanley Fischer, é idêntica à 4, mas nela cada país é representado por um círculo cuja área é
proporcional à sua população no ano inicial.13 Olhando dessa forma, a primeira impressão é de uma forte relação negativa, com os países mais pobres crescendo mais rápido. Mas já sabemos que as nações mais pobres não cresceram mais rápido. A diferença na percepção deriva da ampliação dos pontos referentes aos maiores países na figura. China e Índia, os dois maiores, cresceram a taxas altíssimas ao longo dos últimos cinquenta anos. Como são ambos muito populosos, seu crescimento levou as rendas médias de mais de dois bilhões de pessoas da parte mais pobre da distribuição de renda global, onde estavam no início, para um ponto bem mais próximo do meio, onde se encontram hoje. Se cada cidadão de cada país tivesse a renda média da nação como um todo, a Figura 5 mostraria os padrões de vida de todas as pessoas do mundo se aproximando, ainda que não tenha havido diminuição da diferença entre os padrões de vida dos países. É óbvio que dentro de uma nação os cidadãos não têm a mesma renda — não só há desigualdade de renda dentro de cada país como esta vem aumentando em muitos deles, mas não em todos (como veremos no Capítulo 6). Se levarmos isso em consideração, fica muito mais difícil avaliar a situação da desigualdade entre pessoas do mundo inteiro, embora seja bastante forte a hipótese de que ela esteja diminuindo.
FIGURA 4 Crescimento por país
O rápido crescimento de Índia e China não apenas permitiu que centenas de milhões de cidadãos encontrassem sua rota de fuga, mas tornou o mundo mais igual. Se nos importamos com pessoas e não com países, o retrato otimista expresso na Figura 5 é o correto, e não o pessimista da Figura 4.
A história da pobreza também é muito afetada pelo que vem acontecendo na China e na Índia. O Banco Mundial regularmente faz um levantamento global do número de pessoas que vivem em domicílios com renda diária inferior a 1 dólar por pessoa. A Figura 6 mostra a versão mais recente
dessa estatística, com dados até 2008. 14 O número total de pessoas que vivem com 1 dólar por dia ou menos foi reduzido em 750 milhões entre 1981 e 2008, apesar do crescimento de cerca de dois bilhões de pessoas na população dos países pobres. Como consequência, caiu de mais de 40% para 14% a parcela da população do planeta com renda inferior a 1 dólar por dia. Embora a taxa de pobreza tenha diminuído em outros países do mundo, a queda em números absolutos foi impulsionada em grande parte pelo rápido crescimento da China, de modo que, pelo menos até dez anos atrás, o número absoluto de não chineses pobres continuou a crescer (como veremos no Capítulo 6, há fortes indícios de que as estatísticas indianas não estejam refletindo uma parcela crescente do que as pessoas possuem de fato, de forma que é possível que esses números não retratem o progresso que a Índia fez na redução da pobreza).
O Banco Mundial calcula que 37% da população da África ao sul do Saara viveu com menos de 1 dólar por dia em 2008; em 1993, eram 49%. Nos últimos anos, as economias africanas vêm registrando crescimento, ainda que partindo de um nível baixo; porém, dados referentes à África devem sempre ser tratados com cautela. Concluindo, também no que tange à pobreza global, há progresso: ainda que não em todos os lugares o tempo todo, o crescimento mundial durante um quarto de século contribuiu muito para reduzi-la.
Como as pessoas avaliam sua qualidade de vida?
Para se viver bem é necessário mais que saúde e dinheiro, e a fuga da pobreza que o desenvolvimento proporciona deve vir acompanhada por melhor educação e mais oportunidades de exercer os direitos cívicos. Meus temas centrais neste trabalho são saúde e riqueza, mas o quadro mais amplo é o mesmo: houve grandes progressos em décadas recentes, embora ainda haja muito a ser feito. Há mais crianças estudando e mais pessoas alfabetizadas. Se por um lado há diversos ditadores e milhões de pessoas vivendo com seus direitos constitucionais restritos, em alguns casos de forma grave, há mais liberdade política hoje do que meio século atrás. A vida está melhorando para a maioria do mundo, pelo menos no que se refere às oportunidades que essas
circunstâncias permitem.15 No entanto, é sempre possível que as pessoas não meçam suas vidas por tais critérios, que talvez sejam mais valorizados por especialistas em desenvolvimento ou comentaristas acadêmicos do que pelos cidadãos propriamente envolvidos. Ou talvez elas atribuam valor a coisas diferentes, que não estão nas nossas listas. Portanto, são bastante válidos os estudos que perguntam diretamente às pessoas o que elas acham de suas vidas.
FIGURA 5 Crescimento com representação ajustada à população do país
FIGURA 6 Redução da pobreza global
Uma forma de fazer isso é usar critérios de bem-estar apontados pelos próprios indivíduos, como aqueles descritos nas Figuras 1 e 2 da Introdução. Em períodos mais recentes, economistas, psicólogos e filósofos passaram a se interessar por esses critérios, e os institutos estatais de pesquisas de vários países estão começando a coletar esse tipo de
dados.16 Tais índices, que muitos chamam de índices de felicidade, possuem muitos atrativos: vêm diretamente das pessoas que estamos tentando estudar, apuram resultados reais, e talvez incluam efeitos de fatores que são importantes para o bem-estar, mas que desconhecemos, ou conhecemos mas não conseguimos medir.
Contudo, muitos escritores, sejam economistas ou filósofos, veem com ressalvas a validade e a utilidade de critérios de bem-estar baseados em autoavaliações. Nem sempre sabemos o que as pessoas estão pensando quando respondem às perguntas e há dúvidas quanto às questões serem interpretadas da mesma maneira por pessoas diferentes ou em nações diferentes. A tradução de perguntas às vezes é difícil, mesmo quando existe uma palavra correspondente na outra língua: os americanos, por exemplo, usam happy de forma mais corriqueira e em mais situações que os franceses usam heureux, e os povos do leste asiático em particular parecem não gostar nem um pouco de admitir
que estão felizes.17 Nos Estados Unidos, a busca da felicidade é um dos direitos inalienáveis enumerados na Declaração de Independência, mas, no vilarejo calvinista escocês onde cresci, tal busca seria vista como um indicativo de grave fraqueza de caráter.
Mais inquietante ainda é a adaptação: pessoas que vivem em condições desesperadoras podem acabar acreditando que têm a melhor vida possível ao seu alcance e declarar que são felizes. Outros, que vivem cercados de luxos, tornam-se tão acostumados à riqueza que podem se mostrar insatisfeitos
diante da eventual falta de algum capricho. 18 Uma vida plena e feliz pode às vezes conter perda e dor; a filósofa Martha Nussbaum escreve sobre o “soldado feliz” que está indo para a guerra e espera não encontrar nada além de dor e morte, mas que, não obstante, sente que leva uma vida boa e
digna. 19 Essas ressalvas não significam que devemos ignorar a visão que as pessoas têm de suas vidas, apenas que devemos ficar alertas para possíveis falhas e não desprezar nosso ceticismo.
Se as pessoas sempre acabam se adaptando ao que têm, a resposta média não deveria variar muito de um país para outro: a maioria dos países ricos está nessa categoria há muito tempo, assim como a maioria dos pobres; portanto, as pessoas tiveram muitos anos para se adaptar às circunstâncias à sua volta. As figuras apresentadas na Introdução, no entanto, mostram que não é isso que acontece.
A nota da qualidade de vida na Dinamarca, eterna campeã nesse tipo de comparação, é 7,97 (em uma escala de zero a dez), seguida por outros países nórdicos: Finlândia, com 7,67; Noruega, com 7,63; e Suécia, com 7,51. Os Estados Unidos ficam um pouco atrás, com 7,28. A nota de Togo, que vive em um regime ditatorial há muito tempo, é 2,81; a de Serra Leoa, depois de anos de guerra civil, é 3; e a de Zimbábue, também sob regime ditatorial há anos, é 3,17. Em seguida, na lista dos piores, vêm, por ordem, Burundi, com 3,56; Benin, com 3,67; e Afeganistão, com 3,72. Apesar de serem justificáveis as dúvidas filosóficas acerca dessas avaliações, quando se trata de aferir a pobreza e identificar os países onde pessoas prosperam ou não, as medições de satisfação com a vida apresentam resultados perfeitamente coerentes com as mensurações de renda, saúde ou liberdade política. Os países ricos, desenvolvidos e democráticos da Europa, América do Norte e suas ramificações europeias são melhores para se viver do que os mais pobres da África subsaariana, Ásia e América Latina. Além disso, obtemos o mesmo resultado tanto das perguntas diretas sobre satisfação com a vida quanto da análise de renda ou longevidade.
Seria ótimo se pudéssemos analisar as respostas dos questionários das pesquisas de qualidade de vida dos últimos cinquenta anos, retroagindo e comparando com o que aconteceu desde 1960, como fizemos no caso da relação entre renda e saúde. Todavia, a Pesquisa Mundial do Instituto Gallup só começou a ser feita em 2006 e, embora haja dados isolados sobre alguns países referentes a anos mais remotos, pouco sabemos sobre a confiabilidade desses números ou como os entrevistados foram selecionados. Portanto, neste momento não temos como afirmar se o crescimento no mundo nos últimos cinquenta anos se traduziu ou não em melhor qualidade de vida das pessoas.
Seja como for, o fato de habitantes de países ricos sistematicamente classificarem sua qualidade de vida com notas mais altas que as de países pobres fortalece a suposição de que o crescimento influencia de forma positiva o sentimento das pessoas em relação às suas vidas. A diferença mais evidente entre, de um lado, Dinamarca e Estados Unidos e, de outro, Serra Leoa, Togo e Zimbábue é o fato de um grupo ser rico, e o outro, pobre; tal hiato é resultado de 250 anos de crescimento dos primeiros contra crescimento zero dos últimos. Há também, como já vimos, enormes diferenças de expectativa de vida, mas esta também aumentou com o crescimento econômico dos últimos cinquenta anos. Portanto, seria estranho se de fato a avaliação média de qualidade de vida na China, na Alemanha, no Japão ou nos Estados Unidos em 2008 não fosse mais alta do que em 1960. Contudo, essa conclusão aparentemente nada controversa vem sendo objeto de infindáveis discussões.
Em 1974, o economista e historiador Richard Easterlin, um pioneiro nas pesquisas de bem-estar por meio de questionários diretos, afirmou que o crescimento econômico no Japão não tinha tornado a vida melhor, segundo os próprios entrevistados; em trabalhos posteriores, ele ampliou sua constatação para vários outros países, entre eles os
Estados Unidos.20 Naquela época, como ainda hoje, Easterlin sustentava a tese de que crescimento econômico não melhora a sorte da humanidade. Voz singular entre economistas, acredita que crescimento não tem valor por si só (ele não duvida que saúde e outros benefícios tenham emergido com crescimento econômico, mas não necessariamente como causa deste). Sua posição alinha-se com a de muitos psicólogos, líderes religiosos e outros que rechaçam que o bem-estar se baseia em aspectos materiais, exceto, talvez, entre os mais pobres. Os economistas Betsey Stevenson e Justin Wolfers questionam essas ideias e sustentam que, com dados passíveis de comparação, crescimento econômico interno melhora a satisfação com a vida da mesma forma como esperaríamos constatar se analisássemos as diferenças entre avaliações da vida de cidadãos em países ricos e
pobres. 21
Os efeitos do crescimento econômico na qualidade de vida em uma nação são muito mais difíceis de detectar que os efeitos das diferenças entre países ricos e pobres. Nem mesmo cinquenta anos de crescimento econômico são suficientes para que um país progrida de forma a reduzir diferenças internacionais resultantes de séculos de taxas de crescimento muito discrepantes. Um país que consegue crescer à taxa de 2% ao ano durante meio século (mais ou menos a média da Figura 4) terá, no fim do período, renda nacional per capita 2,7 vezes maior. É um avanço relevante, mas equivale quase à diferença entre as rendas per capita de Índia e Tailândia hoje. Considerando que a relação entre qualidade de vida e renda não é perfeita nem mecânica, não surpreenderia se esses períodos de crescimento fossem acompanhados por melhoras muito pequenas ou difíceis de detectar nas notas de avaliação de vida, ou até mesmo por retrocessos. Com efeito, como a Figura 1 da Introdução mostra, a China, cuja renda per capita em 2008 era o dobro da verificada na Índia, tem qualidade de vida substancialmente menor.
Assim como há países onde a saúde é melhor ou pior do que fazem supor suas rendas per capita, há aqueles cujos habitantes classificam suas vidas melhor ou pior do que sugeririam suas rendas. Já vimos que os países escandinavos são os campeões do bem-estar; mas devemos lembrar que também se tratam de países muito ricos e que a qualidade de vida não é muito mais alta do que sugerem suas rendas nacionais. Outra verificação bastante recorrente é a de que, com frequência, países latino-americanos alcançam boas notas; por outro lado, vários países do leste asiático têm desempenho relativamente ruim, entre eles China, Hong Kong, Japão e Coreia do Sul. Não sabemos se essas diferenças continentais derivam de divergências reais em algum aspecto objetivo do bem-estar, de disparidades entre estados de espírito de seus povos ou de variações na forma como as pessoas reagem ao questionário com notas de zero a dez. Uma constatação recorrente refere-se ao nível excepcionalmente baixo de bem-estar na Rússia, nos países da antiga União Soviética e do leste europeu pertencentes ao bloco comunista no passado. Idosos em particular são os mais
infelizes com suas vidas; 22 já os mais jovens hoje têm oportunidades inacessíveis às gerações anteriores, como viajar, estudar fora e encontrar um espaço para seus talentos na economia global. Seus avós, por sua vez, assistiram ao desmoronamento do mundo que conheciam e que conferia sentido às suas vidas; alguns ainda tiveram de enfrentar a falência de seus sistemas de pensão e de saúde pública.
Bem-estar emocional
Resultados de pesquisas de qualidade de vida são muitas vezes descritos como índices de felicidade, mesmo que, como na pergunta, não se faça nenhuma menção a essa palavra. Já existem evidências sólidas de que questionários de qualidade de vida — aqueles que pedem às pessoas que avaliem como estão suas vidas — capturam diferentes aspectos das experiências humanas e apresentam diferentes resultados de perguntas sobre sentimentos ou emoções vividas. É possível estar infeliz, preocupado ou estressado mesmo em períodos em que se julga que a vida está indo bem. De fato, tristeza, dor e estresse podem ser inevitáveis em alguns momentos da trajetória para se construir uma vida boa. Treinamento militar, pós-graduação em economia, faculdade de medicina ou a perda de um dos pais são exemplos de experiências desagradáveis, mas que fazem parte da vida; a decepção de jovens com relacionamentos que acabam sendo desastrosos é outro exemplo de vivência necessária à educação emocional. Essas e outras experiências contribuem por si só para o bem-estar atual. O fato é que sentir-se feliz é melhor que sentir-se triste, e estresse, preocupação e raiva reduzem o bem-estar no presente, mesmo que às vezes haja a promessa de compensação no futuro.
Assim como pedimos às pessoas que avaliem suas vidas, podemos também questioná-las sobre suas experiências emocionais. A Pesquisa Mundial do Instituto Gallup, além de perguntar aos entrevistados sobre sua qualidade de vida, pede que respondam sobre as emoções e sentimentos que vivenciaram no dia anterior à entrevista, como preocupações, estresse, tristeza, depressão, alegria, raiva e dor. O resultado são respostas médias nacionais muito diferentes das médias nacionais de avaliação de vida.
A Figura 7 apresenta o mapa global da felicidade, representado pela relação entre renda nacional per capita e a parcela da população que declarou ter se sentido feliz durante boa parte do dia anterior à entrevista. Esse gráfico é bem distinto daquele referente à qualidade de vida; um destaque especial à fraca relação dela com a renda. Embora alguns dos países mais pobres do mundo, como Burkina Faso, Burundi, Madagáscar e Togo, reportem de fato muito pouca felicidade, há poucas diferenças sistemáticas de felicidade entre países ricos e pobres, exceto no caso daqueles mais pobres. Na Dinamarca, onde as pessoas acreditam viver muito bem, a felicidade não é assim tão percebida. Nem na Itália; na verdade, parcelas maiores de habitantes de Bangladesh, Quênia, Nepal e Paquistão vivenciam muito mais felicidade que dinamarqueses e italianos.
A tênue relação entre renda e sensação de felicidade é verificada também nos Estados Unidos. Pobreza gera tristeza, mas, a partir de certo montante (cerca de 70 mil dólares por ano), ter mais dinheiro não contribui para sentir-se mais feliz, ainda que aqueles mais endinheirados declarem que têm
vidas melhores. 23 Para experimentar o sentimento de felicidade, dinheiro só é importante até certo ponto. Vale a pena ter isso em mente, se não por outra razão, pelo fato de que sentir-se feliz é algo positivo e torna a vida melhor. Isso, no entanto, torna a felicidade uma medida frágil de bem-estar geral, pois há muitos lugares do mundo onde as pessoas conseguem se sentir felizes mesmo em meio à saúde precária e à pobreza material. Pesquisas de qualidade de vida são muito mais eficazes para mensurar bem-estar geral. Os casos de Dinamarca e Itália são bons exemplos.
O mapa que retrata a felicidade mostra os Estados Unidos — onde ser feliz é quase uma responsabilidade cívica — em terceiro lugar, atrás apenas de Irlanda e Nova Zelândia. Rússia e seus antigos satélites estão entre os países mais infelizes do mundo. Todavia, a maioria das pessoas do planeta é feliz: quase três quartos da população mundial declaram ter vivido o sentimento de felicidade durante boa parte do dia anterior à entrevista.
Uma vez mais, os resultados diferem se usarmos índices de experiências emocionais diferentes. Em 2008, 19% da população mundial registrou ter sentido raiva durante boa parte do dia anterior à pesquisa, 30% sentiu estresse, 30% declarou-se preocupada e 23% afirmou ter sentido dor. A população dos países mais pobres relata mais dor, embora sejam muitas as variações em todos os níveis de renda. Mas as médias nacionais de preocupação, estresse e raiva não estão de forma alguma relacionadas ao PIB, ainda que variem muito de um país para outro. Por exemplo: 75% dos filipinos declaram alto nível de estresse; logo atrás deles aparecem os cidadãos de Hong Kong, Líbano, Síria e Estados Unidos, onde 44% declaram ter sentido estresse durante boa parte da véspera. A renda nacional parece não interferir de forma significativa nessas emoções negativas.
Qualidade de vida e felicidade (ou outras emoções) revelam aspectos diferentes do mundo. Qual dos aspectos é o correto? A pergunta faria sentido se tivéssemos a expectativa de que essas medidas produzissem um único índice de bem-estar geral, mas esta não é a maneira certa de pensar sobre o bem-estar. É bom sentir-se feliz; não é bom estar preocupado ou com raiva. Também é bom crer que a própria vida vai bem. No entanto, esses sentimentos não significam a mesma coisa, e são consistentes com resultados bons ou ruins em outros aspectos do bem-estar, como renda e saúde física e mental. Não há pergunta mágica que forneça uma pedra de toque para a avaliação do bem-estar; mesmo se as pessoas andassem com um “hedonômetro” no corpo, que, como um relógio, registraria a felicidade 24 horas por dia, não há razão para crer que os dados capturados por ele seriam úteis para avaliar a qualidade de vida das pessoas. O bem-estar humano abriga muitos aspectos distintos frequentemente relacionados entre si, mas ainda assim distintos; se desejamos medir o bem-estar do mundo, precisamos reconhecer e levar em conta essa diversidade.
FIGURA 7 Felicidade no mundo
O historiador Keith Thomas escreve sobre as mudanças nas formas como se buscava a realização pessoal na Inglaterra e como, no século XVIII, a corrida pela riqueza passou a ser vista como um caminho legítimo e ético para
alcançar a felicidade. 24 A riqueza das nações, de Adam Smith, cristalizou a ideia que vinha sendo amadurecida havia muitos anos de que a busca da riqueza não apenas era uma atividade respeitável dos indivíduos como também trazia benefícios para a sociedade como um todo. A metáfora da “mão invisível” cunhada por Smith tornou-se parte do nosso entendimento de como funciona o capitalismo. Apesar disso, como observa Thomas, Smith era cético quanto aos benefícios pessoais da riqueza. Em Teoria dos sentimentos morais, Smith classificou a crença de que riqueza traz felicidade como ilusória, embora útil, “que deflagra e mantém em movimento perpétuo a engenhosidade humana”. Ele também colocava em xeque a verdadeira extensão da desigualdade, argumentando que os ricos, ao empregar os outros “para atender às suas próprias demandas vãs e insaciáveis”, provocavam uma distribuição aproximadamente equilibrada das “necessidades básicas da vida”. Assim, as abundantes posses do rico “mantêm ao largo a chuva de verão, não a tormenta do inverno, mas o deixam sempre quase tão expostos quanto antes (às vezes até mais) à ansiedade, ao medo, à tristeza; a doenças, ao perigo e à
morte”. 25
Smith escreveu quando a Grande Divergência estava prestes a começar, numa época em que doenças contagiosas ameaçavam de igual modo ricos e pobres. No próximo capítulo, veremos que a expectativa de vida dos aristocratas na Inglaterra era idêntica à dos cidadãos comuns. Mesmo hoje, a vida emocional dos pobres não é muito diferente da dos ricos, embora aqueles estejam muito menos satisfeitos com suas vidas do que estes. Riqueza não é escudo contra ansiedade, medo ou sofrimento; tampouco é indispensável para o sentimento de felicidade e para uma vida prazerosa. Mas o mundo mudou nos últimos 250 anos. Não há qualquer evidência que sustente a tese de que pelo menos as “necessidades básicas da vida” são distribuídas de forma equilibrada entre todos e também é improvável que o fossem na Grã-Bretanha no tempo de Smith. Além disso, riqueza hoje efetivamente constitui proteção contra riscos de doenças e morte. À medida que o mundo foi se tornando mais rico e o conhecimento se difundiu, em especial nos últimos sessenta anos, essas proteções foram estendidas a parcelas cada vez maiores da população do planeta.
Renda e saúde evoluíram em quase todo o mundo desde a Segunda Guerra. Não existe um único país no planeta em que as taxas de mortalidade infantil entre menores de cinco anos
não sejam mais baixas hoje do que em 1950.26 Graças ao crescimento econômico, milhões de pessoas foram resgatadas da extrema miséria, em especial na China e na Índia. No entanto, também houve terríveis retrocessos. A Grande Fome na China, a pandemia de aids, a queda da longevidade nos países da antiga União Soviética, bem como as incontáveis guerras, os massacres e a fome nos alertam para o fato de que doenças, guerra e más políticas não são monstros domados e encarcerados no passado. Seria imprudente pensar que sim: como no filme Fugindo do inferno, a fuga obtida nos últimos anos pode não proporcionar liberdade permanente, mas apenas um alívio temporário do mal, das trevas e do caos que nos rodeiam.