A Grande Saída

Angus Deaton · Capítulo 7 de 10 · parte 1/2

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A Grande Saída

Parte II: Dinheiro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

CINCO

 

Bem-estar material nos Estados

Unidos

 

A LONGEVIDADE PASSOU a crescer em vários países do mundo a partir da Inglaterra, em meados do século XVIII. À medida que os povos se libertavam de doenças e da morte precoce, os padrões de vida também experimentavam progressos, possibilitando que saúde e nível de vida avançassem lado a lado. As ideias da Revolução Científica e do Iluminismo levaram a uma revolução no bem-estar material, assim como na longevidade. Essas revoluções paralelas, impulsionadas pelas mesmas causas primárias, proporcionaram vidas melhores e longevas para muitos, mas também criaram um mundo de desigualdade através do que o economista Lant

Pritchett batizou de “megadivergência”. 1

O crescimento econômico propiciou melhorias no padrão de vida bem como a redução da pobreza. É difícil medir isso com precisão — apresento alguns comentários sobre essa situação mais adiante —, mas há um sólido estudo que estima que a renda média de todos os habitantes do mundo cresceu

de sete a oito vezes entre 1820 e 1992. 2 Ao mesmo tempo, a parcela da população mundial que vivia na pobreza extrema caiu de 84% para 24%. Esse progresso nos padrões de vida, sem paralelo na história, veio acompanhado de tremendos crescimentos na desigualdade de renda, tanto entre países quanto entre seus habitantes. Sua natureza também mudou. No século XVIII, a maior parte da desigualdade estava dentro dos países, entre ricos aristocratas proprietários de terra e o povo; quando chegamos ao ano 2000, os maiores abismos eram, ao contrário, entre países, resultado final da “megadivergência”. Diferentemente da longevidade, cujas disparidades vêm diminuindo, as desigualdades de renda entre países não dão sinais de arrefecimento.

Começo pelo bem-estar material nos Estados Unidos, especificamente nos últimos cem anos. Escolhi esse país porque sua história é dramática e ilustra os temas centrais deste livro. Quando há melhora no bem-estar, nem todos se beneficiam igualmente, de forma que ela aprofunda, ainda que nem sempre, as diferenças entre as pessoas. Mudanças, sejam elas positivas ou negativas, são muitas vezes injustas. A desigualdade é importante não apenas para o juízo que fazemos do progresso — quem está colhendo os benefícios e quem está ficando para trás —, como também porque tem outros efeitos próprios: ela pode às vezes espalhar crescimento se for capaz de abrir caminhos para outros aproveitarem as novas oportunidades, mas também pode minar o progresso material e até mesmo colocar em risco sua continuidade. A desigualdade pode inspirar ou motivar excluídos a “correrem atrás do prejuízo”, gerando melhorias para si e para outros. Porém, ela pode se tornar tão profunda, e os ganhos se concentrarem nas mãos de tão poucos, que o crescimento econômico acaba sufocado, e o funcionamento da economia, comprometido.

Também optei por começar pelos Estados Unidos porque a base de dados é de boa qualidade e fácil de entender. Todo mundo sabe o que é 1 dólar, não precisamos fazer conversões de moedas e podemos confiar nos resultados fornecidos por um sistema estatístico de primeira classe. Não teremos acesso a nenhum desses luxos quando examinarmos o mundo como um todo. Da mesma forma, quando precisamos voltar muito no tempo, os dados são de pior qualidade e a base de comparação, mais frágil. Confrontar o século XXI com o século XIX é, em muitos aspectos, tão difícil quanto comparar dois países: as pessoas são diferentes, gastam seu dinheiro em coisas diferentes, e os padrões de valor são diferentes; em resumo, “o passado é um país estrangeiro”. A facilidade de trabalhar com dados dos Estados Unidos me propicia um ambiente conhecido, no qual também posso desenvolver alguns conceitos e tentar esclarecer o que economistas e estatísticos querem dizer quando discutem e tentam medir renda, pobreza e desigualdade.

 

Crescimento econômico nos Estados Unidos

O familiar conceito de produto interno bruto (PIB) é um bom ponto de partida (mas seria um péssimo ponto de chegada se nos limitássemos a ele). A linha mais ao alto na Figura 1 mostra o comportamento do PIB per capita nos Estados Unidos desde 1929, quando começam as estatísticas modernas. O PIB é quanto uma nação produz e é a base da renda do país. Em 1929, era de pouco mais de 8 mil dólares per capita; caiu para 5.695 dólares em 1933, nas profundezas da Grande Depressão; e subiu, com alguns soluços, até alcançar 43.238 dólares em 2012. Um crescimento de mais de cinco vezes desde 1929. Esses números estão ajustados para compensar o aumento dos preços ao longo do tempo, ou seja, são medidas de renda per capita real, com base no poder de compra do dólar em 2005. Para 1929, a figura nos mostra que a renda média no país naquele ano (805 dólares, em valores da época, sem atualização) seria equivalente a 8 mil dólares

em 2009.3

FIGURA 1 Produto interno bruto e seus componentes, 1929-2012

Os soluços no PIB são períodos em que os avanços foram interrompidos ou revertidos; eles têm se mostrado cada vez menos frequentes e menos graves, o que em si é um índice de progresso. A Grande Recessão que se seguiu à crise financeira de 2008 mal aparece nessa história, apesar do sofrimento que causou, especialmente àqueles milhões que ficaram — e permanecem — desempregados até hoje. Depois de 1950, a linha é praticamente reta, indicando uma taxa constante de crescimento de 1,9% ao ano (ou pouco mais de 2%, se pararmos em 2008). Embora os dados fiquem um pouco menos confiáveis se voltarmos muito no tempo, notaremos que a taxa de crescimento da renda per capita não mudou muito nos últimos 150 anos. A uma taxa de crescimento de 2% a.a., a renda dobra a cada 35 anos, ou seja, se cada casal tivesse dois filhos aos 35 anos de idade, cada geração teria um padrão de vida duas vezes melhor que o de seus pais. Para nós que estamos vivos hoje, isso pode até parecer a ordem natural das coisas, mas teria chocado nossos ancestrais, que por milhares de anos não conquistaram nenhum progresso ou viram avanços serem pulverizados por sucessivos reveses. Suspeito que também nossos filhos e netos talvez venham a se surpreender.

Como veremos, PIB não apenas é um indicador fraco de bem-estar como é limitado também como medida de renda. Nele estão incluídas rendas geradas nos Estados Unidos pertencentes a estrangeiros; rendas na forma de lucros corporativos não distribuídos que, em última instância, pertencem a acionistas; assim como superávits de governos federal, estaduais e municipais. A parte do produto nacional disponível para as famílias — após descontados impostos e recebidas todas as transferências — é a renda disponível das famílias, representada no gráfico pela segunda linha de cima para baixo; ela é muito menor que o PIB, mas seu crescimento e flutuações ao longo do tempo são bastante similares a este. O retrato é bem parecido quando analisamos não o que as pessoas recebem, mas no que gastam: são os gastos de consumidores, representados pela terceira linha. A diferença entre renda pessoal disponível e gastos de consumidores é o que as pessoas poupam; a figura mostra que os americanos vêm poupando parcelas cada vez menores de sua renda, especialmente nos últimos trinta anos. Não sabemos exatamente por que isso aconteceu, mas há várias explicações possíveis: é mais fácil tomar empréstimos hoje do que no passado; não é mais necessário economizar para dar entrada em uma casa, um carro ou uma lava-louças; as pensões pagas pela previdência social talvez tenham reduzido a necessidade de as pessoas guardarem dinheiro para quando se aposentarem; e o americano médio aproveitou a valorização do mercado de ações e dos imóveis residenciais — pelo menos até a Grande Recessão.

Ganhos de capital podem ser resgatados e gastos, ou podem ser usados para acumular riqueza mesmo quando as pessoas não estão poupando. Economistas definem poupança como diferença entre renda e consumo, os quais são fluxos de dinheiro por unidade de tempo. Riqueza não é fluxo, é estoque, o valor registrado nos livros contábeis em determinado momento. Ela é aumentada por ganhos de capital e diminuída por perdas de capital — muitos americanos perderam cerca de metade de sua riqueza depois da crise financeira de 2008. A riqueza também aumenta quando as pessoas poupam e diminui quando “despoupam” e gastam mais do que recebem, por exemplo, na aposentadoria ou durante um período momentâneo de desemprego.

A figura também mostra em que as pessoas gastaram. As despesas estão agrupadas em duas grandes categorias: bens (mais de um terço do total em 2012) e serviços. Os dois maiores itens de serviços são moradia e serviços básicos, totalizando atualmente cerca de 2 trilhões de dólares por ano (18% do total de despesas de consumidores), e saúde, na casa de 1,8 trilhão de dólares (16% do total). Cerca de um terço das despesas com bens recai sobre bens duráveis (veículos, móveis, eletrônicos e afins) e dois terços concentram-se em bens não duráveis (alimentos e vestuário, por exemplo). Hoje em dia, os americanos gastam apenas 7,5% do seu orçamento em alimentação; se incluirmos na conta também os gastos com alimentação fora de casa, o percentual sobre para 13%. Essas despesas são fatores centrais de bem-estar; seu crescimento, retratado na Figura 1 (e também no século anterior), expõe uma trajetória de prosperidade material crescente que foi acompanhada por aumentos na expectativa de vida. A vida não apenas está mais longa; também está melhor.

Em tempos recentes, muito se tem criticado o bem-estar material e as formas de medi-lo — PIB, renda e consumo pessoal. Frequentemente, pontifica-se que gastar mais não melhora nossas vidas, e volta e meia líderes religiosos nos alertam contra os males do materialismo. Mesmo entre aqueles de nós a favor do crescimento econômico, há muitos críticos da forma como o PIB é definido — por não incluir muitas atividades como, por exemplo, serviços domésticos e lazer — e medido —, pois não dá conta de mensurar direito o que está incluído em seu cálculo. Além disso, nele estão contidos gastos que poderiam perfeitamente ser descartados, como o custo de reduzir a poluição, construir prisões ou o custo de deslocamento para o trabalho. Esses gastos “defensivos” não são bons em si, mas são lamentavelmente

necessários para tornar possíveis coisas que são boas.4 Se a criminalidade aumenta e gastamos mais em prisões, o PIB se eleva; se não tomamos cuidado para evitar mudanças climáticas e gastamos mais e mais dinheiro em despoluição e reparos em danos provocados por grandes tormentas, o PIB sobe, não desce. Incluímos no cálculo o conserto, mas ignoramos o estrago.

O PIB é particularmente omisso na questão de quem fica com o quê; a Figura 1 nos mostra que existe mais disponibilidade de tudo, mas não nos conta quem se apropria disso. Esses temas de definição e medição são sérios, e voltarei a discuti-los. “Quem fica com o quê” é o mais importante; boa parte deste capítulo é dedicada a essa questão. No entanto, quero começar defendendo a relevância do padrão de vida e do crescimento econômico em oposição à ideia de que eles pouco ou nada contribuem para o bem-estar.

Crescimento econômico demanda investimento em coisas — mais máquinas, mais infraestrutura básica como estradas e banda larga — e em pessoas, que precisam receber mais educação de melhor qualidade. Conhecimento precisa ser conquistado e ampliado. Parte dessa ampliação é produto de ciência básica; parte provém da engenharia, que transforma ciência em bens e serviços; e também do incessante refinamento e aprimoramento do desenho industrial, que ao longo do tempo transformou um Ford Modelo T em um Toyota Camry, ou meu barulhento computador pessoal de 1983 no laptop elegante, levíssimo e infinitamente mais poderoso em que hoje escrevo este livro. Investimento em pesquisa e desenvolvimento fomenta o fluxo de inovações, porém ideias originais podem surgir em qualquer lugar; o arcabouço de conhecimento é internacional, não está circunscrito a fronteiras, e novidades se espalham rapidamente a partir de onde nasceram. Para que haja evolução, são necessários também empreendedores e administradores ousados que descubram formas lucrativas de converter ciência e engenharia em novos produtos e serviços. Porém, sem as instituições certas é mais difícil isso se materializar. Inovadores precisam estar isentos do risco de expropriação, de forma que tribunais independentes são indispensáveis para resolver disputas e proteger patentes; assim como é essencial que alíquotas de impostos não sejam excessivamente elevadas. Quando todas essas condições estão presentes ao mesmo tempo — como aconteceu nos Estados Unidos durante o último século e meio —, temos um crescimento econômico sustentável e melhores padrões de vida.

Mas tudo isso vale a pena? Para além da libertação da pobreza e da carestia, novos bens e serviços nos permitem fazer coisas que antes eram impossíveis; e essas novas possibilidades tornam a vida melhor. Tomemos alguns exemplos e pensemos em como era a vida antes deles existirem. Uma série de utensílios domésticos libertaram pessoas, especialmente mulheres, de penosos e cruéis serviços; lavar roupa costumava ser uma tarefa semanal que durava um dia inteiro, demandando manter a água quente com fogo alimentado por carvão, esfregar, pendurar para secar e passar. Uma propaganda escocesa dos anos 1950 anunciava um novo e aperfeiçoado sabão em pó que “economizava carvão todas as segundas-feiras”. Os romanos conheciam bem os benefícios da água corrente e do saneamento, mas foram necessários crescimentos na renda para que todos tivéssemos acesso a eles. Melhorias e expansão dos meios de transporte abrem caminho para maior liberdade pessoal, ampliando as opções de lugares onde se pode morar, e permitem uma nova gama de atividades de lazer, além de facilitar uma delas em particular, o convívio com amigos e familiares, muito valorizado pelos antimaterialistas. Graças às viagens aéreas, o país e o mundo se tornaram acessíveis a grandes parcelas da população. Com a internet, podemos estar em contato com nossos filhos e amigos todos os dias, o dia inteiro, construir e curtir amizades estreitas com pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância e ainda ter acesso a uma fartura impensável de conhecimento e diversão, muitos dos quais gratuitos. Novos tratamentos médicos, como os remédios anti-hipertensivos discutidos no Capítulo 4, nos deram mais anos de vida para aproveitar essas possibilidades; ao passo que outros, como a substituição de quadril e a cirurgia de catarata, reduziram a morbidez que impede que sejam plenamente desfrutados. O fato de gastarmos excessivamente com cuidados com a saúde não anula em absoluto essas conquistas. Ninguém nega que o crescimento econômico tem efeitos colaterais negativos, mas seu saldo positivo é imenso.

Essa cantilena — a enumeração dos benefícios das inovações materiais — pode soar gasta e lugar-comum, ou não suficientemente trivial, dependendo do ponto de vista. Seja como for, essas listas simplesmente revelam como são frágeis as alegações de que nenhum desses avanços contribui para o bem-estar ou de que só desejamos esses bens porque nossos vizinhos os têm.

Como explicar a evidência de que, apesar de todo o crescimento retratado na Figura 1, os americanos não estão mais felizes do que há cinquenta anos? Isso não contradiz a ideia de que crescimento econômico é bom? Não necessariamente. Como vimos no Capítulo 1, perguntar às pessoas se são ou não felizes gera resultados muito diferentes daqueles obtidos quando perguntamos se estão ou não satisfeitas com suas vidas; a Figura 7 do Capítulo 1 mostra que os dinamarqueses e os italianos vivenciam menos o sentimento de felicidade que os bangladeshianos ou nepaleses, apesar de considerarem suas vidas muitíssimo melhores. Não sabemos como os americanos de cem anos atrás teriam avaliado suas vidas; não dispomos desses dados. Mais importante que isso é pensar na distribuição de renda. Como veremos, o crescimento econômico expresso na Figura 1 exagera muito o que aconteceu com as famílias comuns americanas, especialmente desde meados da década de 1970. O problema para essas pessoas não é terem experimentado os benefícios do acentuado crescimento econômico e não estarem satisfeitas com eles, mas o fato de não terem experimentado nenhum ou apenas muito pouco crescimento. Não surpreende, portanto, que não estejam mais felizes com suas vidas.

O aumento da renda é positivo porque amplia as oportunidades de as pessoas terem uma vida boa. Dito isso, convém relembrar o que está e o que não está coberto nas medições retratadas na Figura 1. Tempo de lazer é desconsiderado; se as pessoas decidirem trabalhar menos e dedicarem mais tempo a coisas que apreciam mais que o trabalho, a renda nacional e os gastos dos consumidores cairão. Uma das razões pelas quais o PIB per capita da França é inferior ao dos Estados Unidos é o fato de os franceses terem férias mais longas; porém, é difícil defender a tese de que, por esse motivo, eles estão em situação pior. Tampouco estão considerados na medição os serviços que não são comercializados no mercado, ou seja, se uma mulher trabalha em casa cuidando da família, seu trabalho não é computado, mas, se ela trabalha na casa de outras pessoas, cuidando da família dos outros, ele é contado e, portanto, o PIB será maior. Se as atividades de lazer são ampliadas porque, por exemplo, a internet propicia diversão de qualidade a baixo custo, não temos como mensurar esses benefícios. Há boas razões, mesmo que relativamente técnicas, para fazer as coisas dessa maneira, mas esses exemplos provam que o PIB tem deficiências como indicador de bem-estar.

Um dos motivos para nos preocuparmos com a não inclusão do lazer é a profunda mudança na forma dos americanos alocarem seu tempo ao longo dos últimos cinquenta anos. A maior dessas mudanças é o fato de agora mais mulheres trabalharem fora, principalmente mulheres casadas com homens de maior nível educacional. Se pensarmos em lazer como algo bom e trabalho como algo ruim, essas mulheres estão em pior situação devido ao tempo livre que deixaram de ter. Isso é verdadeiro para algumas mulheres — aquelas que são forçadas a ter um segundo ou terceiro emprego com baixo salário para conseguir pagar as contas — de forma que, se considerarmos apenas a renda adicional e ignorarmos a perda de tempo livre, estaremos superavaliando seu real bem-estar. Para muitas mulheres, no entanto, poder trabalhar fora é uma felicidade que não existia meio século atrás. Tampouco deveríamos considerar um benefício o “tempo livre” do desempregado. Quem perdeu o emprego não está escolhendo passar mais tempo em casa; são muitos os estudos que mostram que os desempregados estão entre os mais insatisfeitos com suas vidas. Em resumo, os dados da Figura 1 não melhorariam com um simples ajuste mecânico do valor do lazer.

Cerca de dois terços dos americanos vivem em casa própria e, portanto, não pagam aluguel. No entanto, eles recebem um valioso serviço — viver em suas casas, livres de aluguel — que é contabilizado como gasto de consumidor, renda disponível das famílias e também no PIB. Na verdade, os especialistas em contas nacionais decretaram que aqueles de nós que vivemos em casa própria pagamos aluguel para nós mesmos e incluem esse altíssimo valor (1,2 trilhão de dólares em 2011) tanto em nossa renda quanto em nossos gastos. No passado, o governo britânico cobrava impostos “reais” sobre essa renda “imaginária” como parte de suas regras de imposto de renda; lembro que, ao receber essas cobranças, meu pai, um fiel seguidor das leis, normalmente calmo e submisso, tinha ferozes e incomuns ataques de raiva contra o governo. É correto que contadores contabilizem esses valores — embora hoje provavelmente seria prudente os governos não tentarem tributá-los —, mas essa e muitas outras rendas “imputadas” constituem um abismo entre a visão que as pessoas têm de sua renda e a visão dos especialistas sobre ela. Gastos do governo em assistência médica em nome do consumidor também são considerados renda e gasto pessoais; porém, por alguma razão misteriosa, gastos do governo com educação em nome do consumidor não o são.

Se um político lhe disser que “as coisas nunca estiveram tão bem!” e você responder “não aqui no meu pedaço; simplesmente não vejo nada disso aqui”, é improvável que você engula a explicação de que as coisas vão bem porque o aluguel que você paga para você mesmo subiu, ou porque o governo está adquirindo mais assistência de saúde para os idosos!

Gastos com saúde são quase tão grandes quanto os com moradia, porém mensurar o valor dos serviços de saúde é ainda mais difícil. Sabemos que serviços de saúde custam muito, mas os benefícios que eles geram são ao mesmo tempo incertos e difíceis de julgar. Se fossem vendidos no mercado como latas de atum ou iPads, poderíamos valorar os serviços de saúde pelo preço que consumidores pagam por eles. Mas, em grande medida, eles são pagos pelas seguradoras ou pelo governo, o que nada revela sobre o valor que as pessoas que os recebem atribuem a eles. Especialistas em contas nacionais, por falta de melhor opção, medem serviços de saúde pelo seu custo; aqueles que acham que cada centavo gasto em saúde vale a pena argumentam que essa forma de medir subestima o real valor da contribuição, enquanto os que destacam os desperdícios do sistema têm opinião oposta. Com uma coisa todos concordam: o valor dos serviços de saúde é medido de forma precária.

Minha avaliação dos benefícios do crescimento econômico atribui grande importância a novos produtos. No entanto, muitos economistas acreditam que seu valor, em especial dos radicalmente novos, não é integralmente capturado nas contas nacionais. O mesmo se aplica a melhorias na qualidade de produtos já existentes — camisas que não precisam mais ser passadas, telefones com comando de voz, carros mais seguros, computadores mais rápidos. Especialistas em contas nacionais fazem os ajustes compensatórios para todas essas coisas, mas ninguém acredita que sabemos exatamente como fazer isso direito. Alguns economistas argumentam que crescimento econômico costumava ser, em sua maior parte, maior produção de coisas — mais casas, mais saias e camisas, mais mesas e cadeiras — enquanto hoje é principalmente produção de coisas melhores. Mas medir “melhor” é muito mais difícil que medir “mais”, o que significa que é, no mínimo, possível que estatísticos estejam deixando de ver o retrato inteiro cada vez mais com o passar do tempo. Talvez a maioria dos economistas pense que os números subjacentes à Figura 1 tendam a minimizar quão boas são as reais condições de vida das pessoas nos Estados Unidos — porém ninguém conseguiu bolar um plano convincente para corrigir esse desvio. Além disso, nem todos os bens e serviços são melhores hoje do que no passado: poder fazer transações em caixas eletrônicos e não precisar esperar na fila do caixa da agência tornou melhores os serviços bancários, mas também é certo que os empréstimos predatórios e fraudulentos que culminaram na recente crise financeira não beneficiaram em nada clientes de bancos.

A maçã dourada do progresso material tem um bichinho que mal aparece na Figura 1: o progresso médio está desacelerando, de forma que o hiato entre pais e filhos já não é o mesmo de antes. Se observarmos atentamente a curva do PIB e compararmos sua inclinação antes e depois de 1970, perceberemos essa desaceleração, mesmo se desconsiderarmos os últimos anos da Grande Recessão. O declínio fica mais evidente quando analisamos os números: de 1950 a 1959, o PIB per capita cresceu 2,3% a.a.; na década de 1960, 3%; na de 1970, 2,1%; na de 1980, 2%; na de 1990, 1,9%; e, na primeira década do século XXI, apenas 0,7% a.a. Mesmo se expurgarmos 2008 e 2009 do último dado, teremos apenas 1,6%. A diferença entre 3% e 1,6% pode não parecer dramática, mas, quando acumulado, o crescimento faz com que a melhora de mais de 100% no padrão de vida de uma geração ao longo de 25 anos se transforme em uma melhora de menos de 50% da geração seguinte. Economia em expansão significa que há mais para todo mundo (pelo menos em tese) e, quanto mais rápido crescer o bolo, menos difíceis são os conflitos em torno de quem leva o quê; todos podem receber mais sem que alguém tenha de receber menos.

A desaceleração parece bem real, mas, se for verdade que estamos negligenciando os progressos gerados por melhores bens e serviços, é possível que, de outro lado, estejamos exagerando a extensão dessa desaceleração ou mesmo enxergando uma desaceleração que na realidade não existe. Como serviços são uma parcela cada vez maior do PIB e também a mais difícil de medir, os especialistas em contas nacionais talvez estejam errando o alvo com maior frequência com a passagem do tempo. O mesmo vale para todos os bens e serviços ancorados na internet que só há pouco tempo se tornaram disponíveis, e cujos benefícios quase certamente não são capturados por completo nas estatísticas. Cuidados com a saúde estão se tornando cada vez mais efetivos e o aumento da longevidade deles resultante não é computado em nenhuma dessas contas. No entanto, ao constatarmos essa deficiência, vemos também os danos que poderiam ser provocados por uma correção canhestra. Como apresentado no Capítulo 4, parte dos avanços na longevidade derivou de melhoras nos serviços de saúde, mas uma parte ainda maior resultou de mudanças comportamentais, como as pessoas deixarem de fumar. Logo, se definirmos um valor aos anos adicionais de vida — em si, um cálculo difícil e polêmico — e atribuirmos todos esses anos aos gastos com serviços de saúde, poderemos facilmente, mas de maneira incorreta, aumentar o ritmo de crescimento do PIB. Uma vez mais, a emenda estatística provavelmente é pior que o soneto estatístico. Seja como for, o problema da redução dos números ainda não está esgotado; voltará a aparecer em vários outros pontos neste capítulo.

 

Pobreza nos Estados Unidos

É possível ter uma ideia de exatamente quanto o crescimento mais lento do PIB afetou as camadas de baixo da pirâmide observando o número de pessoas vivendo na pobreza. A Figura 2 mostra as taxas oficiais de pobreza medidas pelo U.S. Census Bureau, agência responsável pelo recenseamento. A linha grossa, embaixo, é a porcentagem de americanos vivendo na pobreza, começando em 22%, em 1959, início da série, caindo a um mínimo de 11% em 1973 e, a partir daí, flutuando em torno de uma tendência levemente ascendente. Em 2010, 15% da população estava na pobreza, cerca de 2,5 pontos percentuais acima do índice antes da crise financeira. Pode-se questionar muita coisa sobre a forma de construção desses dados, mas, se os tomarmos como verdadeiros, evidencia-se de imediato a contradição entre a evolução positiva expressa na Figura 1 e a evolução negativa da pobreza da Figura 2, especialmente depois da desaceleração no crescimento iniciada em 1970. A economia não parou de crescer depois de 1973 — a renda per capita cresceu mais de 60% entre 1973 e 2010. No entanto, esse crescimento todo não foi capaz de causar nem um arranhão nos índices de pobreza. A maior renda estava indo para algum lugar, mas, sem dúvida, não para aqueles oficialmente classificados como pobres. Embora haja, como sempre, problemas de medição — as rendas que entram nas estatísticas de pobreza não são definidas da mesma forma que as rendas que entram no cálculo do PIB —, ainda é preciso explicar por que o crescimento econômico não conseguiu eliminar a pobreza.

FIGURA 2 Taxas de pobreza, 1959-2011

Os índices de pobreza variam de acordo com o grupo populacional, especialmente antes de meados da década de 1970. Atualmente, afro-americanos e latinos (não exibidos no gráfico) têm, de longe, os mais altos índices de pobreza, e idosos, os mais baixos, embora os índices de todos os três grupos tenham declinado dramaticamente, em especial nos primeiros anos da série. Muitos atribuem a redução da pobreza entre os idosos à consolidação da Seguridade Social, que garante pagamentos de aposentadorias e pensões corrigidas pela inflação para quem tem 65 anos ou mais. A probabilidade de crianças viverem na pobreza é maior que a de adultos, mas, a exemplo de outros grupos e da população como um todo, elas não foram beneficiadas em nada, ou quase nada, por reduções na pobreza nos últimos trinta anos. Observe que o quadro mostra parcelas da população que são pobres, ou seja, como a população está crescendo, o número de pessoas pobres está crescendo mais rapidamente que o índice de pobreza. Com efeito, em 2011 havia 46,2 milhões de americanos vivendo na pobreza contra 6,7 milhões, em 1959.

Em uma economia em crescimento, cabe perguntar se esses números que retratam pobreza cada vez maior — ou estacionada, numa visão otimista — são críveis ou se há algo errado nos cálculos. Existem, de fato, boas razões para nos preocuparmos com a forma de classificação das pessoas como pobres. Embora a ideia básica seja simples, sua aplicação não o é. Um dos pontos mais espinhosos é: como escolher a linha de pobreza, e como atualizá-la ao longo do tempo.

A linha de pobreza nos Estados Unidos foi estabelecida em 1963-64 por Mollie Orshansky, economista que trabalhava para a Social Security Administration, a agência de seguridade social. Ela calculou quanto uma família de quatro pessoas — dois adultos e duas crianças — teria de gastar com alimentação apenas para sobreviver e, baseada na crença de que uma família comum gastava cerca de um terço da renda em alimentação, multiplicou o valor por três. O número ao qual ela chegou foi 3.165 dólares por ano (valores de 1963). Em agosto de 1969 ele foi oficialmente adotado como a linha de pobreza dos Estados Unidos; exceto por atualizações para compensar diminuição do poder de compra, nunca foi alterado desde então. Em 2012, o valor era de 23.283 dólares. É realmente muito estranho que a linha tenha sido mantida; por que não aplicar novamente o procedimento original e refazer o cálculo de Orshansky para cada um dos anos subsequentes? Em vez disso, a linha de pobreza definida em 1963 foi mantida e ajustada apenas para compensar a inflação.

A base “científica” da linha de pobreza de Orshansky — calcada na superficialmente sensata e retoricamente sedutora ideia do atendimento das necessidades de alimentação — era pouco mais que uma cortina de fumaça. Economistas do governo Johnson, que estavam se preparando para lançar o que seria a “Guerra à Pobreza”, precisavam de uma base e estavam adotando o valor de 3 mil dólares porque lhes soava como um número razoável. A tarefa de Orshansky era oferecer algo mais racionalmente defensável que um mero número soprado pelas estrelas. Seu primeiro cálculo — o que ela preferia — baseava-se no “plano de alimentos de custo baixo” do Departamento de Agricultura do governo e resultou no valor de 4 mil dólares. Um “plano alimentar econômico” mais parcimonioso produziu valor de 3.165 dólares, que foi adotado porque era mais próximo dos 3 mil dólares originais e não porque era mais adequado ou cientificamente mais

sólido. 5

Meu objetivo, ao contar essa história, não é ilustrar a perfídia dos economistas do governo Johnson e menos ainda colocar em dúvida a integridade científica de uma respeitável servidora pública. O ponto aqui é que os burocratas estavam certos: a linha de pobreza precisa ser razoável e aceitável tanto para o público quanto para os formuladores de políticas. Pesquisas realizadas pelo Gallup à época perguntaram às pessoas quanto deveria ser a linha de pobreza, e a resposta

mais comum foi em torno de 3 mil dólares.6 A retórica da alimentação era — e continua sendo — conveniente porque as pessoas tendem a associar fome à pobreza, e talvez fiquem mais dispostas a concordar com transferências para os pobres quando pensam que são pessoas que não têm o que comer. Os cálculos baseados em necessidades nutricionais dão à linha de pobreza a aparência de que foi pensada por “experts” apesar de, na verdade, ninguém ser expert em “necessidades de uma família pobre”, exceto, talvez, as próprias famílias pobres.

Foi bastante conveniente que retórica e realidade tenham coincidido em 1963, quando a linha foi definida, mas bem menos conveniente nos anos posteriores, quando diferentes métodos de atualizá-la começaram a resultar em valores diferentes. Se a abordagem de Orshansky era a correta, a linha de pobreza deveria ter sido recalculada anualmente de acordo com um novo plano alimentar econômico e um novo multiplicador. Se gostamos do método Gallup, deveríamos fazer a atualização utilizando o que o povo acha que a linha deve ser (pessoalmente, este último é o meu preferido: se vamos rotular pessoas como pobres e tratá-las diferentemente por causa disso, concedendo-lhes, por exemplo, subsídios para comprar comida, então a opinião do povo em geral — cujos impostos estão sendo utilizados para viabilizar isso — deveria ser levada em conta na hora de definir o valor da linha). Exceto por alguns pequenos rearranjos técnicos e ajustes para compensar aumentos de preços, a linha hoje ainda é a mesma que Orshansky — ou, pelo menos, os economistas de Johnson — escolheu em 1963. Se o método de Orshansky tivesse sido atualizado — como ela própria defendeu durante anos —, a linha de pobreza teria subido e seria muito mais alta do que é hoje. Pesquisas Gallup mostram que as pessoas acreditam que a linha deveria ter subido, acompanhando aumentos reais de salários. De um jeito ou de outro, a linha deveria ter ficado mais alta com o passar do tempo, o que significa que os índices de pobreza teriam crescido mais rapidamente do que realmente aconteceu. Sem dúvida, é difícil defender a tese de que o fracasso da economia americana na diminuição mais rápida da pobreza é consequência da atualização inadequada da linha de pobreza; na realidade, o contrário é que é verdadeiro.

A linha de pobreza americana transformou-se em algo conhecido como linha de pobreza absoluta: o que ela define é um valor fixo necessário para sair da pobreza, atualizado apenas para compensar mudanças de preços. Nesse molde, a linha não é em função de quanto as outras pessoas ganham nem tem qualquer relação com os padrões predominantes da economia. Uma linha absoluta faz mais sentido quando existe uma cesta bem-definida de bens indispensáveis à vida; neste caso, a linha nada mais é que o custo dessa cesta, que não precisa ser atualizada de tempos em tempos, exceto para fazer frente a mudanças de preços, de modo a manter-se sempre acessível. Essa abordagem pode até fazer algum sentido para países pobres da África ou do sul da Ásia, mas as famílias americanas pobres estão longe desse tipo de subsistência hoje e tampouco precisavam de 3.165 dólares para sobreviver em 1963. Pobreza nos Estados Unidos é não ter o suficiente para participar plenamente da sociedade, e famílias — inclusive suas crianças — não conseguirem ter vidas decentes junto a vizinhos e amigos. Não atingir esses padrões sociais de dignidade é uma privação absoluta; contudo, escapar a essa privação requer uma quantidade de dinheiro que é relativa, no sentido de que precisa estar

alinhada com padrões locais. 7 Em países ricos como os Estados Unidos, não há como justificar qualquer coisa diferente de uma linha de pobreza relativa. E uma linha relativa significa que, comparados com 1963, tanto o nível quanto a taxa de crescimento da pobreza são maiores que os apresentados.

Em um mundo em que padrões gerais de vida estão melhorando, linha absoluta de pobreza significa que quem é pobre está deslizando progressivamente para mais baixo em relação ao restante da sociedade. Nos Estados Unidos, assim como em outros países, a linha de pobreza é a régua que determina a elegibilidade do cidadão a uma gama de benefícios e subsídios; se ela não é atualizada acompanhando o progresso geral, na prática tais benefícios vão se tornando mais e mais restritos com o passar do tempo.

A não atualização da linha é apenas um dos muitos furos na medição da pobreza nos Estados Unidos. O outro é o fato de as estatísticas oficiais considerarem a renda antes de impostos e subsídios para determinar se uma pessoa é pobre ou não. Trata-se de uma falha letal. Não entram no cálculo os muitos programas governamentais para atenuação da

pobreza, como Food Stamps* — na nomenclatura oficial, Supplemental Nutrition Assistance Program, SNAP (Programa de Assistência de Suplementação Nutricional) — e as transferências em dinheiro pelo sistema de impostos. A consequência absurda dessas políticas é que, por mais efetivas que sejam na redução da pobreza real, elas não conseguem reduzir a pobreza medida. Mesmo que um governo eficaz e criativo conseguisse eliminar a pobreza com esses programas, isso não apareceria nas estatísticas oficiais. Essa falha não é uma possibilidade apenas teórica: levantamentos conduzidos de forma mais apropriada mostram que o crescimento da pobreza geral depois de 2006 (não os anteriores) teria sido bem menor se uma abordagem mais abrangente de medição de renda tivesse sido adotada. Também aqui não se deve atribuir a falha aos estatísticos da agência responsável pelo censo; na verdade, o problema foi detectado e entendido há bastante tempo e a agência foi

pioneira no desenvolvimento de melhores medições.8 A questão é que o método original não considerava subsídios ou créditos tributários, porque eles não existiam em 1963; além disso, como muito poucos pobres pagavam impostos, no início tais erros não tinham consequências. Com os anos, a política passou a dar as cartas. E é difícil mudar o método de levantamento do número de pobres — mesmo que isso implique corrigir uma falha que todo mundo concorda ser real — sem abrir uma Caixa de Pandora de temas sensíveis e controversos sobre os quais os partidos têm posições radicalmente antagônicas: poucos governos mostraram-se dispostos a enfrentar tal desafio.

O que podemos dizer sobre índices de pobreza nos Estados Unidos desde 1950? Sabemos muito sobre renda na base da pirâmide distributiva; apesar das falhas da linha de pobreza oficial, é possível ver o que aconteceu. Não resta dúvida de que o declínio da pobreza geral desde 1959 até meados da década de 1970 foi real, assim como o foi a anormalmente rápida melhora das condições de idosos e afro-americanos. Também não se discute que esse progresso desacelerou ou foi suspenso depois de meados da década de 1970. Para aqueles que acreditam que uma linha fixa de pobreza é a melhor abordagem, como fazem as medições oficiais, os índices permaneceram estagnados, apesar do substancial crescimento econômico no período.

Uma forma de evitar essa conclusão negativa é argumentar, uma vez mais, que a evolução está sendo subestimada porque melhoras de qualidade e novos bens não estão sendo adequadamente capturados nas estatísticas. Isso significaria que a inflação está sendo superestimada, porque parte do aumento dos preços advém do fato de os bens terem ficado melhores, e não apenas mais caros. Se for este o caso, a linha de pobreza está sendo aumentada rápido demais e, portanto, uma proporção cada vez maior de pobres simplesmente não são pobres de verdade. Se aceitarmos como válido esse argumento — e não há como saber em quanto os pobres estão se beneficiando das melhoras de qualidade não medidas — podemos, finalmente, estar

vencendo a guerra contra a pobreza.9 Um argumento em favor dessa conclusão é o fato de medições oficiais não incorporarem impostos e transferências concebidos para beneficiar os pobres; essa opção não apenas ameniza aumentos pontuais durante recessões — foi o que vimos na mais recente — como teria levado a um declínio maior da

pobreza no longo prazo.10

No entanto, se você acredita, como eu, que a linha de pobreza deveria subir de acordo com os padrões de vida da média dos domicílios da população, as taxas de pobreza na realidade cresceram nas quatro últimas décadas, em grosseiro contraste com o crescimento da economia. Numa perspectiva mais abrangente, os frutos do crescimento econômico dos Estados Unidos foram amplamente divididos até os anos 1970. Desde então, o crescimento desacelerou e deixou de ser partilhado com as camadas na base da pirâmide social. A história do pós-guerra pode ser dividida em dois períodos: o primeiro, com crescimento rápido e riqueza amplamente distribuída, e o segundo, com crescimento mais lento e um abismo crescente entre pobres e o restante da população.

A medição da pobreza feita nos Estados Unidos tem muito em comum com a de outros países, inclusive com a mensuração da pobreza global. A escolha de uma linha de pobreza é quase sempre polêmica, e muitas vezes há questões técnicas — menos visíveis ao público — sobre como definir e medir renda. O tema da atualização dessas linhas é espinhoso, em parte devido a diferenças filosóficas e políticas, mas também porque reclassificar alguém que é pobre muitas vezes implica mudanças de benefícios pelas quais alguns saem ganhando e outros, perdendo. Qualquer mudança na forma de cálculo da pobreza — mesmo aquelas destinadas a resolver uma falha que todos reconhecem existir, como não considerar os valores referentes aos Food Stamps — enfrentará oposição política. Estatísticas de pobreza são parte do aparato do Estado para governar, distribuir renda e tentar impedir que as pessoas afundem na miséria; elas são parte da máquina de fazer justiça. Sua própria existência marca a aceitação pelo Estado da responsabilidade de atacar o desamparo e mitigar suas piores consequências. Elas propiciam que o Estado “veja” a pobreza e compõem a estrutura que lhe possibilita, na memorável expressão cunhada pelo cientista político James Scott, “enxergar como

Estado”.11 Como sempre, contudo, assim como é difícil governar sem medições, não existe medição sem política. A raiz estat da palavra estatística não está ali à toa.

 

A distribuição de renda nos Estados Unidos

Pode-se abordar distribuição de renda de três perspectivas: crescimento, pobreza e desigualdade. Crescimento refere-se à média e como esta muda; pobreza diz respeito à base; e, desigualdade, à dispersão da distribuição da renda entre famílias ou indivíduos. Essa dispersão da distribuição é medida pelo Coeficiente de Gini — referência ao economista italiano Corrado Gini, da primeira metade do século XX. O Coeficiente de Gini é um número qualquer entre zero (igualdade absoluta — todo mundo tem a mesma riqueza) e um (desigualdade absoluta, um único indivíduo tem toda a riqueza); ele reflete quão distantes, em média, as pessoas estão umas das outras (para quem deseja conhecer os detalhes, eis um resumo: trata-se da diferença média de renda entre todos os pares de indivíduos dividida pelo dobro da renda média, ou seja, se houver dois indivíduos, eu e você, e você tiver toda a riqueza, a diferença entre nós é o dobro da média e o Gini é um. Se ambos tivermos a mesma renda, a diferença entre nós é zero e, portanto, o Gini também é zero).

O Gini permaneceu praticamente constante do final da Segunda Guerra até meados dos anos 1970, quando passou a crescer; isso também é verdade para a fração da renda total recebida pelos 10% mais ricos e independe de as rendas analisadas serem antes ou depois do pagamento de tributos. A renda média cresceu, mas as rendas das camadas mais baixas estagnaram; isso só pode ter acontecido se a renda de quem não é pobre tiver se distanciado da renda dos pobres. Essas descrições são corretas, mas não ajudam muito quando se trata de expor o que está ocorrendo ou por quê. Em vez disso, precisamos examinar todas as faixas de renda, de onde elas vêm e as forças que as moldam; há muito mais coisas acontecendo, e não é possível sintetizá-las em apenas duas ou três estatísticas. Uma forma de visualizar as rendas dos americanos é compará-las a um largo rio, cuja corrente revela pouco do que está acontecendo próximo às suas margens, nos redemoinhos ou nas piscinas de água parada.

A Figura 3 nos oferece um bom ponto de partida ao mostrar o que ocorreu com a renda média de várias camadas da pirâmide distributiva. O U.S. Census Bureau calcula esses números com base em um levantamento anual em que se pergunta às famílias sobre suas rendas no ano anterior; os dados mais recentes foram coletados junto a mais de 87 mil famílias entrevistadas em março de 2011 sobre suas rendas em 2010. O gráfico mostra as rendas médias (ajustadas aos preços de 2010 para compensar a inflação e em escala logarítmica) de famílias distribuídas em cinco faixas de renda.

FIGURA 3 Distribuição de renda familiar nos Estados Unidos

A linha superior mostra a renda média dos 5% no topo; em 1966, ela era onze vezes a renda média dos 20% mais pobres. Em 2010, essa razão passara a ser de 21 vezes. Todos esses números são antes de impostos e subsídios e não levam em consideração itens oferecidos aos indivíduos pelo governo — por exemplo, a grande quantidade de serviços de saúde. Veremos mais adiante como algumas dessas omissões são importantes. Esses itens, contudo, estão incluídos nos números da Figura 1 e são uma das razões pelas quais esta resulta numa imagem razoavelmente mais promissora que a da Figura 3.

O gráfico expõe um dos principais fatos acerca da distribuição de renda desde o final dos anos 1960. Todas as famílias compartilharam os benefícios da prosperidade crescente até a segunda metade da década de 1970. Desde então, as rendas dos diferentes estratos se distanciaram. Como já vimos nos números referentes à pobreza, os 20% mais pobres avançaram muito pouco; o crescimento de sua renda média foi inferior a 0,2% a.a. durante os últimos 44 anos e, mesmo antes da recessão, a renda média real não era mais alta do que no final da década de 1970. Já a renda média dos 20% mais ricos, ao contrário, cresceu mais rapidamente, à razão de 1,6% a.a., embora não no ritmo dos 5% mais ricos, para quem o crescimento foi de 2,1% a.a. Também aqui, se estendermos o argumento da mudança (não mensurada) de qualidade, o progresso seria maior para os 20% mais pobres, ainda que os ritmos diferentes de progresso entre topo e base não fossem afetados.

Como veremos adiante, esse gráfico tem duas deficiências: não abrange o passado mais remoto e a amostra do levantamento, por ser pequena demais, não representa as rendas dos muito ricos. São mínimas as chances de Bill Gates e Warren Buffett serem incluídos nele. Abordarei mais à frente essas duas fragilidades, mas, por ora, quero me concentrar nas últimas quatro décadas e no vasto grupo de famílias que não estão ganhando milhões de dólares por ano.

 

Desigualdade no trabalho

O mercado de trabalho é um bom ponto de partida para começarmos a pensar sobre renda; para a maioria das famílias, a renda vem do trabalho, de forma que empregos e salários têm efeito profundo na renda familiar. Mas o mercado de trabalho é apenas uma das forças que moldam a renda das famílias. Muitas pessoas — por exemplo, quem trabalha cuidando da casa e da família, aposentados, crianças, desempregados e inválidos — não são remuneradas e dependem de parentes, de pensões ou do governo. Há os empresários que tiram renda do próprio negócio, seja na forma de remuneração pelo trabalho, seja como retorno do capital investido. Alguns recebem rendimento de capital, como dividendos e juros sobre poupança, que eles próprios, ou seus pais ou avós, acumularam no passado.

Em muitas famílias há mais de uma pessoa que gera renda, o que significa que a forma como as pessoas se organizam e vivem coletivamente molda a forma como rendas individuais se transformam em renda familiar. Esse é o efeito das características demográficas na distribuição da renda. Um mundo em que só homens trabalham é diferente de um em que ambos os cônjuges dos chamados “casais de sucesso” ganham salários altíssimos; mudanças demográficas são em si um capítulo à parte na história do crescimento da desigualdade. Políticas públicas também são importantes; governos centrais e locais decidem quanto da renda será tributada, definem as regras da seguridade social (aposentadorias e pensões do Estado) e de boa parte dos serviços públicos de saúde e estabelecem e fazem cumprir uma miríade de regras e regulações que afetam diretamente o funcionamento de empresas e do mercado de trabalho. Por meio da política, resolvem-se conflitos em torno de quem leva o quê, e o governo é o campo de batalha em torno do qual se enfrentam não apenas eleitores como também grupos de interesse e lobistas tentando aumentar a fatia dos seus clientes. Mudanças no tamanho e no poder desses grupos — sindicatos, idosos, imigrantes e até prisioneiros — redesenharam a evolução da renda nos Estados Unidos. Tudo isso se dá em um cenário de transformação tecnológica, do comércio internacional e da migração entre países, e das normas sociais.

Distribuição de renda não pode ser reduzida a um único mecanismo, como oferta e demanda no mercado de trabalho, tampouco pode ser aferida por uma única medida de desigualdade, como o Coeficiente de Gini: ela é resultado de muitos processos diferentes atuando juntos. História também conta, assim como mercado, política e demografia.

Jan Tinbergen, um dos dois economistas que dividiram o primeiro prêmio Nobel de Economia, viu a evolução da distribuição de renda não como ela poderia ter sido percebida no passado — uma luta entre trabalho e capital —, mas como uma corrida entre progresso tecnológico e na expansão da

educação.12 Os economistas Lawrence Katz e Claudia Goldin, de Harvard, tomaram emprestada essa analogia para descrever mudanças recentes no mercado de trabalho

americano. 13 Tecnologia empregada no trabalho exige habilidade e treinamento, ou talvez apenas a adaptabilidade proporcionada por uma boa educação geral. Se a educação dos trabalhadores fica a dever em relação àquilo que o mercado procura, o valor da educação subirá, os ganhos dos trabalhadores com melhor formação aumentarão e, em consequência, a desigualdade crescerá. Quando a educação se antecipa à demanda — por exemplo, quando a guerra do Vietnã motivou jovens a fazer um curso superior que em outra situação não fariam —, a oferta de mão de obra qualificada aumenta e seu preço (a recompensa por uma educação em nível superior) cai, levando ao declínio das desigualdades salariais.

No início do século XX, a principal linha divisória em termos de educação era entre aqueles que tinham ou não concluído o ensino médio; hoje, com o nível bem mais alto da educação, a fronteira é entre os que têm e os que não têm curso superior. Mudanças na tecnologia de produção sempre favoreceram aqueles com mais habilidades, tendência sintetizada na expressão progresso técnico intensivo em qualificações (skill-biased technical progress). Num passado remoto, a mudança foi do trabalho agrícola para a linha de produção; hoje se fala na capacidade de escrever códigos para que computadores consigam dar conta de novas tarefas. Trabalhadores com melhor educação estão mais capacitados para usar novas tecnologias à medida que estas surgem, e mais preparados para adaptar, aprimorar ou refinar novos métodos.

Durante a maior parte do século passado, houve uma crescente procura por mais educação pelos americanos, levando ao aumento da oferta de mão de obra melhor qualificada. Se nada mais tivesse acontecido, essa cadeia de eventos teria reduzido o preço da mão de obra mais escolarizada e diminuído a distância entre os salários dos trabalhadores com e sem diploma de curso superior. No entanto, a distância cresceu em vez de encurtar — de forma particularmente rápida desde o final dos anos 1970. Quando o preço sobe apesar do crescimento da oferta, sabemos que a demanda deve estar aumentando ainda mais rapidamente. Economistas atribuem essa elevação à implacável necessidade de habilidades cada vez maiores para trabalhar com as novas tecnologias da informação; para eles, a aceleração do progresso técnico intensivo em qualificações nos últimos trinta anos é o principal vetor da crescente desigualdade salarial. O prêmio cada vez maior reservado a quem tem curso superior é a forma do mercado avisar aos jovens que, devido às mudanças tecnológicas, vale cada vez mais a pena ter diploma universitário; o aumento dos níveis educacionais comprova que as pessoas estão entendendo o recado.

Transformações rápidas nos modos de usar os computadores, na internet e na disponibilidade imediata de conhecimento criaram uma demanda crescente por gente capaz de usar informação na tomada de decisões e nos negócios; mas, pelo menos desde o final dos anos 1970, a oferta de educação não evoluiu no mesmo ritmo. É claro que essa tendência talvez não dure para sempre. Se o sistema educacional se adaptar e se tornar suficientemente flexível para fornecer as novas habilidades à medida que o apelo por elas crescer, o aumento da desigualdade acabará por

cessar. 14

Como sempre, mudanças nas formas de fazer as coisas não devem ser vistas como revolucionários avanços científicos que caem do céu aleatoriamente ou surgem do nada na mente de gênios solitários; na verdade, elas costumam responder a necessidades ditadas pelo ambiente socioeconômico. Às vezes, a ciência básica já fez seu trabalho e os elementos estruturais já estão definidos, mas sua aplicação requer empreendedores e engenheiros para identificar oportunidades lucrativas e moldá-las para enfrentar o mercado. O economista Daron Acemoğlu aponta para a importância desse tipo de mudança tecnológica “dirigida” e enfatiza que muitos dos novos métodos só se tornam viáveis quando há oferta suficiente de trabalhadores qualificados para

Continuar: parte 2 de 2