A Grande Saída

Angus Deaton · Capítulo 8 de 10

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A Grande Saída

Seis: Globalização e a maior de todas as fugas

SEIS

 

Globalização e a maior de todas as

fugas

 

DESDE O FINAL da Segunda Guerra Mundial, o mundo moderno conheceu a maior de todas as libertações. O rápido crescimento econômico em muitos países resgatou centenas de milhões de pessoas da miséria e, junto com a queda da mortalidade, o bem-estar material aumentou e as pessoas usufruem de vidas melhores e mais longas. Como sempre, o progresso não tem sido uniforme e, apesar de alguns países com maior crescimento econômico terem diminuído a diferença em relação aos países mais ricos, outros ficaram para trás. Antes pobres, países asiáticos subiram na escala do progresso, criando um abismo em relação a muitos países africanos.

A queda da mortalidade, especialmente entre crianças, teve o efeito de fazer aumentar a população mundial a taxas sem precedentes na história humana, uma verdadeira explosão populacional. Frente a essa tendência, o fato da pobreza global ter diminuído certamente teria surpreendido a maioria dos analistas nos anos 1960, que consideravam a “bomba populacional” uma ameaça aos padrões de vida no mundo. O grande economista e laureado Nobel James Meade costumava se queixar que os três maiores desastres do século XX foram o “infernal” motor à combustão, a explosão populacional e o Prêmio Nobel de Economia. A maioria de seus colegas contemporâneos teria concordado quanto à explosão populacional e, mesmo hoje, muitos consideram o crescimento da população uma séria ameaça (assim como o infernal motor à combustão). No entanto, não apenas a população mundial cresceu em quatro bilhões de pessoas na última metade de século, como também as sete bilhões de pessoas que vivem no mundo de hoje têm, na média, qualidade de vida muito melhor que seus pais e avós.

Médias, porém, não servem de consolo para aqueles que ficaram para trás. Vimos anteriormente que a média do crescimento econômico alcançado pelos Estados Unidos não beneficiou a todos de forma equilibrada. Este não é o único país onde a desigualdade tem crescido e, apesar de algumas importantes exceções, desigualdade de renda crescente é uma experiência recente comum em muitos países. E o que dizer sobre desigualdade entre países? Muitos deles, antes pobres, tiraram “vantagem do atraso”, ou seja, aproveitaram a oportunidade de adotar (e até melhorar) o conhecimento e a tecnologia há muito disponível nos países ricos, conseguindo pular a longa etapa de tentativa e erro que sempre limitou o crescimento pelo qual passaram os já desenvolvidos. Países como os Tigres Asiáticos — Hong Kong, Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan —, e mais recentemente China e Índia, alcançaram expressivas taxas de crescimento econômico nunca antes conquistadas. No entanto, o crescimento tem sido distribuído de forma desigual, e a maior parte dos países em situação de pobreza cinquenta anos atrás não conseguiu repetir o feito por China, Índia ou os Tigres Asiáticos.

De forma talvez surpreendente, e apesar das conquistas dos países de rápido crescimento, houve pouca redução nas diferenças de desigualdade econômica entre eles; para cada história de sucesso, há outra de um país que ficou para trás. A dispersão da renda média entre nações pobres e ricas é a mais alta registrada até hoje. Se ordenarmos os países por suas rendas, do mais pobre ao mais rico, podemos comparar um país que está no percentil 25 (um país moderadamente pobre) com um país que está no percentil 75 (um país moderadamente rico, cuja renda média é maior que a de três quartos dos países). Em 1960, o que estava em condição moderadamente boa tinha renda média sete vezes maior que a do moderadamente pobre, enquanto que em 2009 essa diferença havia subido para oito vezes e meia.

Este capítulo analisa o milagre do pós-guerra, a maior de todas as fugas: como aconteceu, como extinguiu antigas desigualdades e fez surgir novas. Também examinaremos em detalhe as estatísticas e questionaremos se é prudente confiar nelas. Ações globais contra a pobreza e a desigualdade estão repletas de dificuldades. Sabemos menos do que deveríamos, e certamente entendemos menos do que seria de esperar diante da enxurrada de pronunciamentos midiáticos sobre o tema a que estamos expostos.

 

Medindo o mundo

Medir bem-estar material não é tarefa fácil, e mesmo renda, termo tão frequente no nosso dia a dia, é difícil de definir com precisão. Nossas medidas de pobreza e desigualdade se limitam ao que sabemos sobre renda, e as coisas ficam ainda mais complicadas quando pretendemos fazer comparações entre países. As pessoas em geral têm uma ideia razoavelmente precisa de quanta renda é necessária para levar a vida sem cair na pobreza na comunidade onde vivem. Mesmo que linhas de pobreza nacionais não capturem exatamente quanto é indispensável para viver em cada localidade — deixemos de lado por ora as diferenças de opinião sobre o que é imprescindível —, ainda faz sentido esperar que a maioria dos cidadãos e formuladores de política vejam nelas um índice aceitável capaz de distinguir os que estão conseguindo levar a vida razoavelmente dos que não estão. Por outro lado, se queremos contabilizar todos os pobres do mundo, necessitamos de uma linha da pobreza homogênea e que faça sentido em Nairobi e Quito, Karachi e Timbuktu, e talvez até mesmo em Londres e Camberra. Para isso, e para qualquer comparação internacional de renda, é preciso converter uma moeda em outra e, no entanto, para esse fim, taxas de câmbio são inúteis.

Podemos então perguntar: como converter uma moeda em outra, por exemplo, dólares em rúpias? De fato, existe uma taxa de câmbio que flutua dia a dia que representa a quantia de rúpias que se pode comprar no mercado com um dólar — no momento em que escrevo este capítulo, em abril de 2013, a taxa é de 54.33. Assim, se eu embarcar em um voo de Nova York para Nova Délhi e, ao chegar, me dirigir a uma casa de câmbio, vou obter em torno de 50 rúpias para cada dólar, possivelmente menos, dependendo da comissão cobrada pela operadora. No entanto, uma vez na cidade, vou reparar que, mesmo nos hotéis mais caros, consigo comprar com 50 rúpias bem mais do que posso comprar com 1 dólar em Nova York — seja na lanchonete da Delhi School of Economics ou nas ruas da cidade, a diferença de preços é imensa.

Um jeito simples de explicar isso é dizer que o nível de preços na Índia é mais baixo do que em Nova York, ou seja, se o dinheiro for convertido à taxa de câmbio de mercado, a maioria dos produtos na Índia é mais barata que seus equivalentes nos Estados Unidos. Na realidade, estimativas recentes indicam que o nível de preços na Índia é em torno de 40% do nível de preços nos Estados Unidos; logo, se considerarmos uma cesta básica do que as pessoas em geral compram na Índia, seu preço é de somente 40% da mesma cesta nos Estados Unidos. Em outras palavras, os preços seriam os mesmos nos dois países se a taxa de câmbio fosse 20 rúpias por dólar, não 50 rúpias. Essa taxa de câmbio “correta”, a que faria 1 dólar valer o mesmo nos dois lugares, se chama, de forma bastante apropriada, fator ou taxa de conversão de Paridade de Poder de Compra ou fator PPC. O fator PPC é a taxa de conversão de dólares para a rúpia que propiciaria o mesmo poder de compra nos dois países. Se o nível de preços é mais baixo em Nova Délhi do que em Nova York — caso da maioria dos países pobres —, o fator PPC será mais baixo do que a taxa de câmbio de mercado.

Mas como podemos saber qual o patamar correto do fator PPC? Não existe um mercado onde moedas são conversíveis por PPC; consequentemente, é necessário que se faça uma pesquisa de custos. Equipes de pesquisadores e estatísticos internacionais coletam milhões de preços nos vários países do mundo, estabelecem o peso relevante de cada um e calculam um nível de preços para cada país. Essa metodologia foi empregada pela primeira vez para seis países na metade dos anos de 1970 por um grupo de economistas da Universidade da Pensilvânia liderados por Irving Kravis, Robert Summers e Alan Heston — este último continua sua pesquisa nessa área e é um dos responsáveis por muitas das estatísticas utilizadas neste livro. Esses pioneiros mudaram a maneira dos economistas de ver e pensar o mundo e, sem suas pesquisas, não teríamos ideia de como comparar padrões de vida entre

países.1

Uma das primeiras coisas que aprendemos por essas comparações internacionais é que o exemplo anterior sobre a Índia foi e continua sendo muito comum — o nível de preços é mais baixo em países mais pobres e, quanto mais pobre o país, menor o nível de preços. Muitos consideram essa conclusão tão improvável quanto surpreendente. Como é possível que bens e serviços sejam mais baratos em um lugar do que em outro? Se um produto, como aço ou gasolina, fosse muito mais barato em Nova Délhi que em Nova York, o que impediria um comerciante de comprar esse bem em Délhi e enriquecer vendendo o mesmo em Nova York? Na realidade, os preços de aço e gasolina não são tão diferentes ao levarmos em conta custos de transporte, impostos e subsídios. Mas esses argumentos não se aplicam a tudo. O fato de os preços de um corte de cabelo em Délhi ou um jantar em Bangkok serem uma tremenda pechincha se praticados em Nova York não significa que existem oportunidades de negócios para barbeiros ou donos de restaurantes, pois esses serviços estão disponíveis em Délhi e Bangkok e não em Nova York, não sendo possível transportá-los de um lugar para o outro. Uma vez que habitantes de países pobres são pobres, serviços nesses países são baratos; porém, muitos deles não podem ser exportados.

Se todas as pessoas do planeta pudessem transitar livremente por todos os países do mundo, salários diminuiriam em países ricos e aumentariam nos pobres, transformando o mundo num lugar mais igualitário. É claro que a resistência a salários mais baixos em países ricos é a razão determinante para a proibição ao livre trânsito entre países, e a causa de refeições e cortes de cabelo serem mais baratos em países pobres. O preço da terra, assim como o preço da mão de obra, não pode ser arbitrado entre países ricos e pobres. Não é possível elevar os baixos preços das moradias na Índia ou na África ao nível de preços das moradias nos Estados Unidos através do simples translado dos imóveis pelos oceanos. A existência de terra e mão de obra baratas em países pobres explica por que o nível de preços em países pobres é tão mais baixo do que em países ricos. O mercado estabelece a taxa de câmbio de maneira a equalizar os preços do aço, gasolina, automóveis e computadores — de tudo que faz parte do comércio internacional —, mas o nível de preços depende de bens e serviços que não podem ser comercializados internacionalmente. Dado que esses últimos são baratos em países pobres, quanto mais pobre o país mais baixo o nível médio dos preços.

Em função dos baixos preços nos países pobres, é errado utilizar taxas de câmbio de mercado para efetuar a conversão do custo de vida de um determinado país. Artigos de jornais incorrem nesse erro com frequência e até mesmo economistas tropeçam nele. Durante a primavera de 2011, o governo da Índia, de forma imprudente e mesquinha, defendeu na Suprema Corte que 26 rúpias ao dia seria o suficiente para evitar a pobreza, ao menos para aqueles vivendo fora das cidades. Após uma sucessão de protestos, a imprensa — local e internacional — observou que até mesmo o Banco Mundial, instituição vista com antipatia pela maioria da população indiana, considerava a linha da pobreza como sendo 1,25 dólar, quantia que, à taxa de câmbio de 53 rúpias por dólar, era duas vezes mais generosa que a linha proposta pelo governo. Contudo, se utilizarmos o fator PPC de 20 rúpias por dólar, o patamar sugerido pelo Banco Mundial será de 25 rúpias, bem próximo daquele sugerido pelo governo. Até mesmo o Financial Times utilizou a taxa de câmbio de mercado para fazer a conversão de rúpias para dólar, e observou que a linha proposta pelo governo era somente 52 centavos de dólar, bem diferente do 1,25 dólar sugerido pelo Banco Mundial. Uma quantia mais correta teria sido 1,30 dólar — uma verdadeira miséria, mas quase três vezes o valor incorreto.

Durante muitos anos o PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, cometeu esse erro, sendo criticado por deliberadamente exagerar a pobreza em determinados países. Sempre que lemos sobre padrões de vida em países pobres — sejam seus salários, preços de consultas médicas ou de alimentação e transporte — e convertemos esses serviços ou produtos utilizando a taxa de câmbio de mercado, o resultado será demasiado baixo por um fator de duas a três vezes. Salários são definitivamente baixos em países pobres — o que é mais uma maneira de dizer que são países pobres —, mas de nada adianta exagerar o grau de pobreza desses países em relação aos países ricos do mundo.

Quando comparamos padrões de vida no mundo, ou calculamos pobreza global ou desigualdade, as taxas de câmbio corretas a serem empregadas serão sempre baseadas no PPC. A expressão “no mundo” é relevante nesse contexto, pois quando consideramos indivíduos de um mesmo país para calcular desigualdade — caso dos Estados Unidos no Capítulo 5 — é razoável que optemos por não ajustar diferenças de preços entre os vários lugares. Se por um lado é mais barato viver no Kansas ou no Mississippi do que em Nova York, por outro, esta oferece mais conveniências. Com efeito, se as pessoas têm total liberdade para escolher onde viver, os altos preços da cidade grande provavelmente são um bom indicador do valor dessas comodidades. Se isso for verdade, podemos comparar rendas em diferentes lugares sem ajustar para diferenças de preços; o que nos permite dizer que indivíduos com renda mais alta em Manhattan, Nova York, estão de fato em melhor situação do que os com renda mais baixa da pequena Manhattan localizada no estado do Kansas. A situação é diferente quando comparamos Estados Unidos com Índia, ou França com Senegal, já que não há total mobilidade das pessoas entre esses lugares. Mesmo que viver nos Estados Unidos resulte em mais conveniências do que viver na Índia — e não sei se isso é verdade —, não há razão para supor que a diferença de nível de preços desses dois países exprima a diferença em comodidade. Assim, quando compararmos as rendas de Índia e Estados Unidos para avaliar a desigualdade no mundo, devemos compensar as diferenças de preços utilizando fatores PPC.

Comparações baseadas no PPC são melhores que as baseadas em taxas de câmbio de mercado, mas estão longe de serem perfeitas. Níveis de custos nos diferentes países são calculados pela coleta de preços de itens similares, como um quilo de arroz ou um corte de cabelo em Hanói, Londres ou São Paulo, apesar de nem todos os itens serem facilmente precificados. Como atribuímos valor à morada que uma família pobre construiu para si em uma pequena cidade, ou ao barraco de uma favela urbana? É comum não haver mercado de aluguel para essas moradias, assim como não há para muitos tipos de residências em países mais ricos. Como nos Estados Unidos, é difícil saber como valorar os serviços fornecidos pelo Estado às pessoas — o programa Medicare, por exemplo — e mais difícil ainda fazer isso de forma homogênea e coerente envolvendo todos os países, garantindo que estamos comparando coisas iguais ou equivalentes. Para uma parcela significativa do que as pessoas gastam, não há preços de mercado, de forma que temos de nos contentar com estimativas que, embora razoáveis, podem ser equivocadas. Isso não significa que é melhor usar taxas de câmbio regulares de mercado, que sabemos serem erradas; quer dizer apenas que os fatores PPC, que são a medida correta, dão margem a incertezas inevitáveis.

Pense como seria fazer um levantamento de preços de itens comparáveis em diferentes países. Digamos que estamos pesquisando preços de camisas masculinas. Nos Estados Unidos, tomemos como padrão uma camisa social de uma confecção famosa, por exemplo, uma camisa de botão de algodão da Brooks Brothers. Se tivermos de comparar esta com uma camisa masculina na Bolívia, República Democrática do Congo ou Filipinas, nos depararemos com duas alternativas igualmente insatisfatórias. A camisa padrão nesses países provavelmente é muito mais barata e de qualidade inferior à da Brooks Brothers, de tal maneira que, se atribuirmos um preço a elas, não estaremos comparando coisas iguais e, portanto, apresentaremos preços nos países pobres menores que os do país rico. A alternativa é se esforçar para encontrar a camisa da Brooks Brothers, talvez na loja mais fina da capital, porém, isso ensejaria o risco oposto: sim, podemos encontrar a camisa, mas somente em uma loja muito especializada e muito cara, frequentada apenas por meia dúzia de clientes ricos. Isso significa que chegaremos a preços maiores que o real no país pobre, pelo menos do ponto de vista das pessoas comuns. É permanente a divergência entre dois objetivos conflitantes: levantar preços apenas de itens que são internacionalmente comparáveis e levantar preços apenas de itens representativos do que as pessoas consomem. Em casos extremos, comparações tornam-se efetivamente impossíveis se algo muito importante e amplamente usado em um país simplesmente não existe em outro. Teff é um cereal básico na dieta dos etíopes e raramente é usado em outros lugares; tofu é importante na Indonésia, mas não na Índia; não há bebida alcoólica em vários países islâmicos.

Mesmo quando todos os preços estão disponíveis, pessoas gastam seu dinheiro em coisas e em proporções distintas em diferentes países. Um exemplo conhecido de todos que, como eu, cresceram na Grã-Bretanha e agora vivem em outro lugar, é um produto chamado Marmite. Trata-se de um extrato de levedura (muito) salgado, um subproduto de fermentação, originalmente descoberto por Louis Pasteur, que o licenciou para um fabricante de cerveja britânico. No Reino Unido, Marmite vem em grandes jarros e é barato e muito popular. Nos Estados Unidos, onde vivo atualmente, é possível encontrar o produto, mas é caro e só é vendido em potinhos pretos muito pequenos. Marmite é um item específico, bem-definido, cujos preços nos Estados Unidos e Grã-Bretanha podem ser facilmente comparados. Mas, se compararmos preços nos Estados Unidos e Grã-Bretanha pelo cálculo dos custos relativos nos dois países dos bens que os britânicos compram, inclusive um monte de Marmite, concluiremos que os Estados Unidos são um lugar muito caro. Se examinarmos os preços relativos usando bens que os americanos compram — entre os quais bolachas graham e whisky bourbon, caros e difíceis de achar na Grã-Bretanha —, concluiremos que esta é um lugar muito caro.

Na verdade, comparações entre países ricos como Estados Unidos e Reino Unido não mudam muito se usamos produtos americanos ou britânicos como base, mas o exemplo do Marmite mostra como esse aspecto pode afetar comparações internacionais de preços. Em seus próprios países, as pessoas tendem a comprar uma grande quantidade de coisas que são relativamente baratas e menos coisas que são relativamente caras, de forma que comparar o custo de vida de quem vive no exterior usando como base produtos que fazem parte da cesta do país de origem tenderá a superestimar o custo de vida no exterior. Se usamos a cesta do país estrangeiro, tendemos a subestimar os custos relativos. Na prática, estatísticos tendem a dividir a diferença e chegar a uma média.

Dividir a diferença é uma solução sensata, mas não elimina o problema, como podemos ver ao analisarmos o que aconteceu quando recentemente estatísticos compararam preços no Reino Unido com preços em Camarões, país localizado na costa oeste da África. Em Camarões, assim como em boa parte da África, quase não se viaja de avião e as passagens são muito caras. Para os britânicos, as passagens são baratas e mesmo pessoas relativamente pobres podem voar de férias para o exterior. Atribuir preços de Camarões aos hábitos de viagem dos britânicos faz Camarões parecer um lugar muito caro. Trabalhar com a média ajuda, mas, independentemente do que fizermos, o preço das viagens aéreas tem efeito substancial no PPC de Camarões — o nível de preços no país seria de 2% a 3% inferior se as viagens aéreas fossem desconsideradas — apesar de elas praticamente não existirem por lá. Infelizmente, comparações internacionais dependem de soluções como essa — pelo menos em alguns contextos, como nas mensurações de pobreza —, que não fazem muito sentido. Uma vez mais, o problema aqui está em Camarões e Reino Unido serem, ao contrário de Estados Unidos e Reino Unido, muito diferentes entre si.

A comparação entre Camarões e Reino Unido é questão de menor monta; problema verdadeiramente grande é a comparação entre Estados Unidos e China. De acordo com as mais recentes estimativas do Banco Mundial, o PIB per capita da China em 2011 foi de 5.445 dólares e o dos Estados Unidos, de 48.112 dólares, ou seja, quase nove vezes maior. Mas esses cálculos são feitos a taxas de câmbio de mercado e não levam em consideração que o nível de preços na China equivale a dois terços do americano. Se empregarmos o fator PPC, a renda per capita dos chineses é de 8.400 dólares, de forma que a razão entre as rendas per capita com fator PPC — um indicador muito melhor de padrão de vida relativo — entre os dois países é de apenas 5,7 vezes, e não 8,8. Para precisar o tamanho absoluto das duas economias — dado que interessa particularmente aos corpos militares e diplomáticos, para quem a influência de um país depende da totalidade de seus recursos —, temos de multiplicar a renda por 4,31, que é quantas vezes a população da China é maior que a dos Estados Unidos. No total, portanto, o tamanho da economia chinesa é três quartos da americana. Considerando que a China está crescendo muito mais rapidamente que os Estados Unidos — mais sobre este assunto a seguir —, podemos supor que aquela superará estes em um futuro não tão distante: em apenas cinco anos, se a taxa de crescimento chinesa continuar cinco pontos percentuais mais alta que a americana.

Os números do parágrafo anterior tratam o fator PPC como se realmente o conhecêssemos tão bem quanto a taxa de câmbio de mercado. Mas a partir do momento em que admitimos a existência dos fatores Marmite e “viagens aéreas em Camarões”, assim como as incertezas que cercam comparações que sejam ao mesmo tempo representativas e de coisas comparáveis, devemos nos perguntar também se o fator PCC real poderia ser muito maior ou muito menor. Em meu trabalho com Alan Heston, calculamos que, uma vez admitido o problema Marmite — mais precisamente, uma vez que consentimos que podemos tirar uma média de dois conjuntos de preços usando a cesta chinesa ou a americana de produtos — há uma margem de erro de 25% para cima ou

para baixo no PPC. 2 Portanto, tudo que podemos afirmar é que a renda per capita chinesa em dólares internacionais em 2011 situava-se entre 13% e 22% da renda per capita nos Estados Unidos. A economia agregada chinesa equivale a algo entre 56% e 94% da americana. Embora seja conveniente dividir a diferença — se não por outro motivo, porque não desejamos trabalhar com uma vasta gama de possibilidades — permanece o problema de que tal divisão é uma maneira arbitrária de resolver uma questão conceitual para a qual não existe solução plenamente satisfatória.

No caso específico e muito particular da China, há muitas outras questões às quais não poderei dar a merecida atenção aqui. Talvez a mais importante delas seja a discussão, há muito em curso e ainda não assentada, sobre se a taxa oficial de crescimento da China é alta demais para ser crível, como defendem muitos acadêmicos, e, se for este o caso, em quanto deveria ser corrigida para baixo.

Não quero deixar a impressão de que comparações entre países são impossíveis ou que sempre estão sujeitas a grandes margens de erro. Em 1949, meu orientador de doutorado na Universidade de Cambridge, Richard Stone, colocou a pergunta: “Por que queremos comparar Estados Unidos com, por exemplo, Índia ou China? Em que isso pode ser interessante? Todo mundo sabe que um país é, em termos econômicos, muito rico e, o outro, muito pobre. Que importância tem saber se o fator multiplicador da diferença é

trinta ou 35, ou seja lá qual for?” 3 Tanto China quanto Índia estão hoje em situação muito melhor do que em 1949, e a mídia — para não mencionar, claro, o Pentágono e o Departamento de Estado — está permanentemente interessada em determinar se a economia chinesa superou ou não a americana. Também fizemos grandes progressos nos procedimentos de levantamento de dados e na maneira de pensar desde que Stone nos brindou com seus escritos, de modo que agora temos uma ideia real de quais são os citados “fatores”. Mas as incertezas continuam, especialmente quando comparamos países ricos com pobres, como China, Índia ou (de forma ainda mais acentuada) países da África em geral. Entre os ricos, cujas estruturas econômicas são similares, a incerteza é muito menor e as comparações podem ser feitas com alguma segurança. Para países como Canadá e Estados Unidos ou da Europa Ocidental, as taxas de câmbio de mercado e os fatores PPC são muito parecidos, o que garante confiabilidade às comparações entre eles.

 

Crescimento global

Desde o final da Segunda Guerra, que deixou boa parte da Europa em desordem econômica e social, os países mais ricos do mundo cresceram de forma acelerada — no início, consertando os estragos, e depois avançando para novos níveis de prosperidade. Também as diferenças entre esses países diminuíram e atualmente elas são pequenas se comparadas com aquelas entre esse grupo e o resto do mundo. A Figura 1 mostra a evolução das rendas nacionais (corrigidas pelos níveis de preços) de 24 países ricos. Embora as medições sempre tenham algum grau de imperfeição, os dados são de boa qualidade, e os fatores PPC são em geral confiáveis para esse grupo de países. O diagrama de caixa é interpretado da mesma forma que a Figura 4 do Capítulo 4: as áreas superior e inferior das caixas representam as posições de 25% dos países imediatamente acima e dos 25% imediatamente abaixo da mediana (a linha horizontal dentro de cada caixa), ou seja, metade dos países está dentro das caixas sombreadas. As linhas verticais que saem dos lados superior e inferior das caixas dão uma ideia da dispersão dos números, e os pontos indicam casos extremos.

 

FIGURA 1 PIB per capita em 24 países ricos (Austrália, Áustria, Bélgica, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia e Estados Unidos)

A figura mostra que outros países ricos experimentaram a mesma desaceleração no crescimento que já observamos nos Estados Unidos. A década de 1960 foi a era de ouro do pós-guerra, com taxa média de crescimento de mais de 4% ao ano, alta o bastante para aumentar a renda em 50% em dez anos. Ela caiu para 2,5% a.a. na década de 1970, 2,2% nas de 1980 e 1990 e a menos de 1% a.a. na primeira década do século XXI. A magnitude da desaceleração geral do crescimento econômico é acentuada, de um lado, pelo crescimento exagerado nos anos seguintes à Segunda Guerra para compensar os danos provocados pelo conflito — o qual não poderíamos esperar que continuasse indefinidamente, depois que a reconstrução foi concluída — e, de outro, pela crise financeira. Embora extremamente penoso em si, consertar a devastação e a destruição é mais fácil do que atingir níveis de renda nunca antes experimentados; as pessoas se lembram de como as coisas costumavam ser feitas e a tecnologia precisa ser recriada em vez de se partir do zero. Uma vez concluída a reconstrução, o crescimento contínuo depende de inventar novas formas de fazer coisas e de colocá-las em prática; revolver terra virgem é mais difícil que arar a terra reaproveitando sulcos já anteriormente abertos. É claro que, em um mundo interconectado, inovações podem muitas vezes atravessar fronteiras — sobretudo entre países similares — de forma que o ônus da invenção é compartilhado entre muitos. A própria interconexão em si tenderá a potencializar o crescimento.

A globalização reduz custos de transporte de produtos e de disseminação de informação; permite que bens sejam produzidos e, cada vez mais, serviços sejam executados onde for mais barato fazê-lo. Propicia também que descobertas feitas em um lugar sejam rapidamente adotadas em outros. A exemplo do que vimos com novos conhecimentos e tratamentos de saúde — como a identificação dos efeitos do fumo ou a introdução de medicamentos que reduzem colesterol e pressão alta, ambos capazes de salvar vidas —, descobertas que elevaram padrões de vida material foram rapidamente internacionalizadas, aproximando os níveis de saúde e renda nos países ricos. Nestes — onde instituições políticas, médicas e econômicas adequadas permitiram que mudanças fossem implementadas, mesmo que cada país a seu ritmo —, observamos uma acentuada convergência de rendas médias, não obstante a recente redução da velocidade de evolução do progresso material. Nesses países, novas tecnologias estão diminuindo a desigualdade de renda, assim como já haviam levado a reduções da desigualdade na saúde.

A convergência das rendas médias dos diversos países não nos revela nada sobre o que estava acontecendo dentro de cada um deles. Já vimos que nos Estados Unidos o crescimento da renda média não alcançou a todos. O fato de as diferenças entre países estarem diminuindo não implica que o mesmo se dê entre todos os cidadãos do mundo rico. Imaginemos duas grandes multidões que no passado estavam separadas e agora estão se fundindo e misturando; se os membros de cada grupo estiverem se distanciando entre si, a divergência interna pode anular e até superar a fusão das duas multidões. Vista como um todo, ignorando quem está em cada país, a disparidade pode estar aumentando. Volto a esse assunto mais adiante, quando analiso a desigualdade entre todos os povos do mundo.

Estamos acostumados — pelo menos nós que vivemos no mundo rico e nascemos depois de 1945 — a um cenário de crescimento econômico e diminuição das diferenças entre os países. Altos padrões de vida são considerados normais e crescimento econômico contínuo é esperado com tal confiança que, para alguns, é quase uma certeza. Reduziram-se as diferenças de renda e saúde entre os países; viaja-se mais rápido, mais barato e mais facilmente; há informação ao alcance de todos em toda parte, a qualquer momento.

A descrição acima não retrata como são as coisas no resto do mundo. A Figura 2 é igual à 1, mas inclui todos os países do mundo, ricos e pobres. Naturalmente, quando incluímos os pobres, a dispersão das rendas médias é muito maior; as caixas são mais longas, assim como as linhas verticais que saem de suas extremidades superior e inferior, e os pontos fora da curva estão mais longe do centro. Os dados não são tão confiáveis e erros de mensuração provavelmente fazem a disparidade de renda parecer maior do que realmente é. Mais interessante, e menos óbvia, é a constatação de que as disparidades de renda média — desigualdade de renda entre países — não apresentam queda ao longo do período. As caixas referentes a 1950 devem ser desconsideradas por ora: há muitos países sobre os quais não há dados, e muitos dos países omitidos eram demasiado pobres, empurrando a caixa para uma posição alta demais e para um formato achatado. Depois de 1950, a diferença entre o país no percentil 25 (mais rico que um quarto dos países) e o país no percentil 75 (mais rico que três quartos dos países) — ou seja, a distância entre a base e o topo de cada caixa — permaneceu mais ou menos a mesma; por outro lado, ao examinarmos as linhas verticais que saem da base das caixas, vemos que a dispersão na verdade aumentou, principalmente entre os países mais pobres do mundo.

 

FIGURA 2 PIB per capita em todos os países do mundo

É de se esperar que haja convergência das rendas médias dos países ricos quando o crescimento é impulsionado por novas ideias e formas de fazer as coisas, e se tais novas ideias se difundem rapidamente no mundo. O que intriga, contudo, é o fracasso de países pobres na luta para se aproximar dos padrões dos mais ricos; é isso que faz as Figuras 1 e 2 serem tão distintas. Afinal de contas, as técnicas e o conhecimento que sustentam os altos padrões de vida nos países ricos estão disponíveis também para os países pobres. É claro que ter os mesmos conhecimentos não significa que todos os países devem ter os mesmos padrões de vida. Ter capacidade de usar métodos de produção de países ricos requer infraestrutura de país rico — estradas, ferrovias, telecomunicações, fábricas e máquinas — e, sobretudo, níveis educacionais de país rico, o que leva tempo e custa dinheiro para obter. No entanto, as diferenças entre ricos e pobres constituem incentivos fortes para investir em infraestrutura e em equipamentos e, como mostrou Robert Solow em um dos mais famosos trabalhos em toda a história da economia, padrões médios de vida deveriam convergir ao longo do

tempo.4 Por que isso não aconteceu é questão central da ciência econômica. Talvez a melhor resposta seja o fato de países pobres carecerem das instituições — capacidade do Estado, sistema legal e tributário eficaz, garantia de direito à propriedade privada, e confiabilidade — que são base indispensável para que haja crescimento.

As taxas de crescimento de países pobres não foram mais baixas que as dos ricos e, em alguns casos, chegaram a ser mais altas. No entanto, embora alguns tenham crescido rapidamente e percorrido boa parte do caminho rumo à equiparação, outros foram ficando cada vez mais para trás. A diversidade das experiências de crescimento foi muito maior entre os países mais pobres. Alguns conseguiram aproveitar as oportunidades para alcançar os que estavam mais à frente. Um grupo de países asiáticos — China, Hong Kong, Malásia, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia — e um africano — Botsuana — cresceu mais de 4% a.a. entre 1960 e 2010 — um aumento de mais de sete vezes a renda média em cinco décadas. Ao mesmo tempo, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Guiné, Haiti, Madagáscar, Nicarágua e Níger estão mais pobres que meio século atrás; há ainda outros países que quase certamente pertencem a esse grupo, mas não existem dados sobre eles (são candidatos prováveis a esse triste clube Afeganistão, Djibuti, Libéria, Serra Leoa e Somália, assim como o são vários dos que, em 1960, eram parte do que na época era chamado de bloco oriental ou bloco socialista). O rápido crescimento dos países que lograram avançar teria por si só reduzido as disparidades de renda entre eles, mas os que não conseguiram foram muitos, a ponto de impedir que a desigualdade realmente caísse.

China e Cingapura estão entre as nações com crescimento mais acelerado, porém a população da primeira é trezentas vezes maior que a da segunda. A Índia, o outro gigante, ganhou velocidade depois da China e não cresceu tão rápido, mas ainda assim suas taxas foram o dobro da média mundial desde 1990. Embora China e Índia sejam apenas dois países, seus crescimentos acelerados no final do século passado significam que por volta de 40% da população mundial estava vivendo em lugares com taxas muito altas de crescimento. Em contraste, na extremidade “ruim” da distribuição do crescimento, os países que têm regredido são em muitos casos pequenos (há exceções, como a República Democrática do Congo, que é grande e cujo fracasso é escandaloso).

Quando analisamos crescimento não em termos de quantos países experimentaram altas taxas, mas em termos de quantas pessoas, nos deparamos com um cenário de desenvolvimento global mais animador. O crescimento médio dos países foi de 1,5% a.a. em meio século a partir de 1960, mas a pessoa média vivia em um país que crescia 3% a.a. China e Índia, com suas grandes populações, avançaram muito mais rapidamente que a média dos países.

Uma forma de refletir sobre o que tem acontecido é imaginar uma descomunal multidão, toda a população do planeta, cada pessoa carregando a bandeira de seu país, como numa gigantesca cerimônia de abertura dos jogos olímpicos. Pense na massa marchando a velocidades proporcionais à taxa de crescimento de suas rendas — indianos e chineses estariam correndo e alguns, congoleses e haitianos entre eles, estariam caminhando para trás. Da arquibancada, observamos os dois quintos das bandeiras de China e Índia avançarem firmes em meio à massa depois de terem largado lá de trás (ambos os países eram muito pobres em 1960), sem alcançar o grupo da frente (ainda estão muito atrás das bandeiras da Europa e América do Norte), mas se aproximando do meio. É claro que nem todo mundo nesses dois países avança no mesmo passo; como veremos, há indianos se distanciando de indianos e chineses de chineses. Não obstante, o rápido crescimento médio de ambos tirou da pobreza milhões de pessoas. E mesmo que não haja uma congruência entre todos os países, o avanço de China e Índia tornou possível a convergência da multidão como um todo, isto é, da população mundial.

Quando se trata de atacar um problema tão sério como a desigualdade entre todos os povos do mundo, a palavra possível não passa de uma tremenda desculpa. É claro que dá para fazer mais. O problema, novamente, é a incerteza que cerca algumas medições-chave. A taxa de crescimento da China é uma grande incógnita: existe vasta literatura especializada que tenta resolver os impenetráveis mistérios das contas nacionais chinesas. A maioria dos estudiosos acredita que as taxas oficiais são altas demais, mas não

sabemos em quanto.5 Também não temos estimativas muito boas do fator PPC chinês; uma espessa bruma de incerteza envolve a PPC da China (e de outros países) e o governo não participou de todos os exercícios de coleta de preços. Se a desigualdade no mundo estivesse se expandindo ou contraindo muito rapidamente, incertezas quanto a medições talvez não tivessem importância. No cenário atual, contudo, a verdade é que simplesmente não sabemos.

Pelo menos durante os últimos 25 anos, os dois mais populosos países do mundo estão entre os que mais progrediram. Isso se deu porque são os maiores ou é uma simples coincidência que o sejam? Há outros países grandes que também ficaram acima da média mundial, pelo menos durante alguns períodos, ainda que nenhum tenha superado a constância da China: Brasil, Indonésia, Japão, Rússia e Estados Unidos são bons exemplos. Os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) certamente tiram proveito do tamanho de suas populações. Para formar um bom corpo diplomático, uma burocracia competente, ter alguns líderes bem-treinados e um corpo docente de nível internacional é preciso muito mais que meia dúzia de pessoas boas; países maiores têm um contingente maior de onde selecionar esses talentos. Se descobertas científicas (ou, o que é mais importante para os países pobres, como conceber maneiras de adaptar velhos conhecimentos a novas condições) dependem dos números absolutos de cientistas ou pesquisadores, e não da parcela da população que é cientista ou pesquisadora, também nesse aspecto os países maiores têm alguma vantagem.

Um ilustre físico me perguntou uma vez no que eu estava trabalhando. “Medição da pobreza global”, respondi. “Interessante. De que países?”, ele quis saber. Quando eu disse “Índia”, ele retrucou, dizendo que eu estava falando bobagem e que a Índia era um dos países mais avançados do mundo. Ele estaria certo se computássemos apenas o número total de cientistas e não a renda per capita ou o número de pessoas pobres; e se o trabalho científico tem efeitos que beneficiam todos no país, possuir população grande é uma bênção. Se essas vantagens relacionadas a tamanho são suficientes para elevar as taxas de crescimento ou se países maiores tendem a crescer mais rápido são questões para as quais ainda não temos resposta.

Ainda há muito mistério em torno do porquê de alguns países crescerem rápido e outros devagar. Na realidade, nem se pode afirmar que é verdade que existam países que crescem permanentemente a altas taxas, e outros lentamente. Pelo menos no último meio século, países com crescimento rápido em uma década tenderam a não repetir o desempenho nas seguintes. O Japão era um país com eternas altas taxas de crescimento; até que um dia elas deixaram de acontecer. Durante muito tempo, a Índia, que hoje tem um dos maiores índices do mundo, parecia ser capaz de só crescer devagar — isso para não falar no meio século anterior à sua

independência, em que o crescimento foi zero.6 Atualmente a China é a superestrela do crescimento continuado duradouro, mas, pelos padrões históricos, arrancadas prolongadas como essa são extremamente incomuns. Economistas, organizações internacionais e outros comentaristas gostam de pegar alguns países com altas taxas de crescimento e procurar características e políticas comuns entre eles que depois serão anunciadas como “chaves para o crescimento” — pelo menos até que a tal chave não sirva para abrir a porta

do crescimento de algum outro candidato. 7 O mesmo vale para tentativas de adivinhar as causas do fracasso de países

com mau desempenho (o “bilhão mais pobre”). 8 Tais abordagens são quase a mesma coisa que tentar apontar as características comuns de pessoas que apostaram no zero pouco antes da bolinha cair nesse número na roleta; elas só servem para disfarçar nossa profunda ignorância.

A tolice por trás desses esquemas me lembra da busca das chaves do sucesso na Escócia da minha juventude. Trata-se de um país onde faz frio, venta e chove muito; quando eu era garoto, sabíamos muito pouco sobre crescimento econômico — e nos importávamos ainda menos —, mas vivíamos preocupados com o clima. Os verões longos e quentes de 1955 e 1959 pareciam intermináveis, com dias ensolarados passados ao ar livre, nos bosques e nos rios. Quais são as chaves dessa felicidade? Pensei muito sobre isso e por um tempo acreditei que, como eu estava na escola primária naqueles verões, talvez fosse ela a chave mágica. Mas meu primo David, um pouco mais velho que eu, me alerta de que ele estava no ginásio naquela época, o que nos fez abandonar a tese. Mas nos lembramos de que, em ambas as datas, o partido Conservador estava no poder; por isso, talvez a chave não fosse a escola primária e sim a política. Isso é uma grande bobagem, assim como o são todas as tentativas de pegar alguns poucos casos de sucesso e fracasso e, a partir deles, fazer generalizações ilusórias baseadas em coincidências. Arúspices etruscos e romanos faziam o mesmo com entranhas de galinhas.

 

Crescimento, saúde e explosão populacional

As seis décadas seguintes ao final da Segunda Guerra assistiram a reduções sem precedentes das taxas de mortalidade e aumentos igualmente inéditos da expectativa de vida (descritos no Capítulo 4), junto ao rápido crescimento da renda média descrito antes. No entanto, muito poucos previram esse milagre à época — na verdade, o contrário aconteceu.

O domínio da teoria microbiana das doenças pelos países pobres traduziu-se em controle de epidemias, em vacinações e em antibióticos, salvando milhões de pessoas, especialmente crianças, o que, por sua vez, resultou em rápido aumento das expectativas de vida, diminuindo a discrepância em relação aos países ricos. Junto com as melhoras nesse índice — unanimemente saudadas por todos — o mundo recebeu milhões de pessoas “a mais” — um aumento da população global que nem de perto provocou a mesma reação. A população mundial só atingiu um bilhão de habitantes no início do século XVIII, ou seja, centenas de séculos depois do surgimento do homem. A marca de dois bilhões foi alcançada cerca de 125 anos mais tarde, aproximadamente em 1935, e a de três bilhões em 1960, apenas 25 anos depois. Em vez de desacelerar a partir daí, a população mundial seguiu crescendo — em 1960, a taxa foi de 2,2%, a mais alta da história, o suficiente para dobrar a população a cada 32 anos. Não era exagerada a afirmação de que a população estava explodindo.

Nos anos 1960, o crescimento populacional descontrolado era encarado com extrema preocupação pelo público em geral — pelo menos no mundo rico — e também por formuladores de políticas, acadêmicos, fundações e organizações internacionais. Grande parte da inquietação era de natureza humanitária: muitos países pobres aparentemente já enfrentavam sérias dificuldades para alimentar seus povos; acrescentar milhões de novas bocas só pioraria ainda mais as coisas. Era como se uma família pobre, que depois de raspar aqui e requentar ali mal conseguira reunir alimentos para fazer uma refeição modesta, descobrisse à porta uma dúzia de parentes famintos. O risco da fome em massa era real. Mais do que em outros países, quem visitava a Índia ficava horrorizado pela óbvia — para o visitante — superpopulação, e se apavorava com a perspectiva de que outras centenas de milhões de pessoas se somariam a ela. Não surpreende que viajantes ocidentais que chegam pela primeira vez ao país fiquem chocados com a pobreza e a doença nas favelas de Délhi ou Calcutá, com os mendigos, os leprosos, as crianças aleijadas, com as pessoas defecando na rua ou simplesmente com a massa bruta de gente. Como não achar que as coisas ficarão ainda piores se o número de pessoas aumentar?

Segurança nacional também era uma preocupação. O crescimento da pobreza sem dúvida era combustível para o fortalecimento de movimentos comunistas, como já havia acontecido na China; e os Estados Unidos e seus aliados precisavam fazer alguma coisa para impedir que os dominós começassem a cair. Interesses menos nobres certamente tiveram sua importância na questão: já havia muito tempo que o movimento eugênico tinha como preocupação central a “qualidade” da população. Mesmo com a menor popularidade das ideias do eugenismo depois da derrota da Alemanha nazista, a hipótese de pessoas pobres, sem educação, se multiplicarem com mais rapidez que as ricas, com boa formação, parecia ser uma ameaça ao futuro da espécie humana. No limite, o ardor na defesa de controles populacionais na África e Ásia tinha muito a ver com a cor da pele daqueles que se desejava regular. Resulta daí que “ajudar” os pobres do mundo a conter suas populações por meio de controle da natalidade passou a fazer parte da política externa de países ricos e também das políticas de empréstimos de organismos internacionais e de doações de fundações. Pouco importava o que os pobres do planeta — as pessoas que estavam tendo aqueles filhos — achavam disso tudo.

Por que será que é tão universalmente aceita a ideia de que mais gente significa mais gente pobre? Pode parecer óbvio que, se os alimentos e outros bens do mundo forem compartilhados entre mais pessoas, haverá menos para cada um. Economistas gostam de chamar esse pensamento de falácia dos recursos finitos: a noção de que existe uma quantidade fixa de “coisas”, de forma que o empobrecimento derivado do aumento do número de pessoas é apenas uma questão aritmética, como no exemplo da família pobre que recebe visitantes inesperados para jantar. É evidente que mesmo essa analogia desmorona se os visitantes inesperados trouxerem comida, o que pode perfeitamente tornar a refeição coletiva muito melhor (tanto nutricional quanto socialmente) do que a originalmente planejada. A questão do empobrecimento por números não é aritmética: é preciso ver o que as novas pessoas acrescentam e não apenas quanto custam. Talvez a narrativa mais simples seja a de que cada boca vem acompanhada de duas mãos — simples demais, claro, mas muito mais perto da verdade do que a narrativa dos recursos finitos, em que cada nova pessoa chega de mãos abanando.

Também é preciso reconhecer que, na ampla maioria dos casos, as crianças africanas e asiáticas que estavam causando a explosão demográfica eram de fato desejadas por seus pais. À época, até mesmo essa conclusão era às vezes questionada; as pessoas eram vistas como escravas de suas paixões sexuais e seus filhos como uma consequência infeliz, porém inevitável. É certo que nem todo mundo em todos os lugares tem acesso a métodos anticoncepcionais modernos a baixo custo, mas há evidências contundentes — como se fosse mesmo necessário apresentar evidências — de que, na média geral, e muito provável também se pensarmos em cada família individualmente, as pessoas desejam os filhos que têm, cada uma com suas boas razões para tê-los. A estorinha da paixão desenfreada fornecia uma lógica racional conveniente para o que “nós” queríamos fazer, isto é, “ajudar” pessoas pobres a terem menos filhos que “elas” queriam, mas “nós” não. Ninguém jamais apresentou evidências de que as pessoas queriam essa ajuda ou de que ter menos filhos melhoraria suas vidas. Muito pelo contrário.

Pais desejarem ter mais filhos não significa necessariamente que proles numerosas são boas para a sociedade; talvez haja consequências que pais desconheçam, ou que optem por ignorar. Filhos podem impor custos a outras famílias. Quando o ônus é arcado pela própria família, podemos assumir que os pais provavelmente pesarão prós e contras e terão filhos quando isso fizer sentido para eles. É possível que isso diminua os recursos disponíveis para outros membros da família — bebês não nascem prontos para fornecer sua própria quota de trabalho e contribuição. Mas, se colocarmos tudo na balança, inclusive as perspectivas econômicas futuras dos pais e de seus filhos e as alegrias da paternidade e da maternidade, podemos supor com segurança que ter mais filhos aumenta o bem-estar da família. Não é absurda a preocupação de que alguns poucos pais têm filhos para explorá-los ou deles abusar de alguma forma, mas mesmo essa possibilidade não justifica a ideia de que outras pessoas farão escolhas melhores em seu nome. A argumentação ganha um pouco de seriedade quando se fala em custos recaindo sobre os outros — escolas e postos de saúde lotados, menos terras agricultáveis comuns, menos lenha, menos água limpa, aquecimento global. Esse argumento, chamado por muitos de tragédia dos bens comuns, pressupõe que as pessoas terão filhos demais e é, há muito tempo, pilar-chave de quem defende controle de natalidade.

Há várias alternativas para enfrentar a tragédia dos comuns. Economistas gostam de citar preços para resolver esse tipo de questão e, às vezes, é possível usar um imposto para chamar a atenção das pessoas para um custo social que normalmente seria ignorado. O imposto sobre carbono, que ajudaria muito no combate ao aquecimento global, é um exemplo clássico. Mas essa estratégia também ilustra o conflito: implantar tal imposto demandaria um nível de acordo político muito difícil de alcançar. Problemas como acesso a lenha, uso de bens comuns, ou quem tem direito de uso de recursos hídricos, podem ser enfrentados por meio de acordos regionais. Embora não se possa ter certeza de que a necessidade de ação governamental leva à criação de instituições adequadas, discussões políticas locais frequentemente resolvem tais disputas e impedem as pessoas de tomar atitudes que impingem custos para terceiros. A implantação de mais postos de saúde e escolas também pode ser encaminhada através de acordos nacionais ou locais. Instituições políticas legítimas podem determinar a implementação de algum tipo de incentivo econômico ou social para limitar o tamanho das famílias; esse tipo de controle populacional — se decidido de maneira democrática — é uma solução apropriada para a tragédia dos comuns e para as dificuldades a ela associadas. Nesses formatos, porém, não há espaço para controle populacional por gente de fora, como governos estrangeiros, organismos internacionais ou fundações, especialmente se tais instituições têm seus próprios interesses e um entendimento normalmente estreito demais das vidas dos povos que, em teoria, estão tentando ajudar.

Muitos danos foram perpetrados em nome do controle populacional internacional. Alguns dos piores tiveram lugar na Índia, onde esterilizações teoricamente voluntárias nada tinham de espontâneas. Embora os executores diretos tenham sido políticos e autoridades indianas, instituições como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e o Banco Mundial têm boa parte da responsabilidade pelo fomento e pelo apoio intelectual e

financeiro.9 A política de filho único da China, imposta por um governo não democrático e inspirada nas preocupações ocidentais com superpopulação, permanece em vigor até hoje e é um dos crimes mais graves cometidos por um governo

moderno contra seu povo.* Ademais, nem está claro se a política foi mesmo eficaz: a natalidade caiu muito mais em Taiwan, em grau idêntico na Tailândia, quase tão rapidamente no sul da Índia, sendo que em nenhum desses países os governos coagiram seus cidadãos ou os violentaram em seus direitos mais profundos e pessoais.

Apesar das profecias apocalípticas, a explosão populacional não empurrou o mundo para um abismo de fome e destituição generalizadas. Ao contrário, nos últimos cinquenta anos assistimos não apenas à redução da mortalidade que causou tal crescimento agudo como também a uma fuga em massa da pobreza e da privação que a própria explosão populacional, supunha-se, deveria ter causado. O que aconteceu e como é possível que todos tenhamos errado nas previsões?

Nem todos estavam errados. O economista e demógrafo Julian Simon contestou sistematicamente os profetas do apocalipse, fazendo previsões corretas de fartura no futuro, usando argumentos que hoje são aceitos de forma muito mais ampla que à época. Em seu livro The Ultimate Resource, ele argumentava que a verdadeira fonte de prosperidade são as pessoas, e não a terra e os recursos naturais que um dia

poderão se esgotar.10 Cada nova boca sempre traz consigo não apenas um novo trabalhador — o que, no longo prazo, tornaria as rendas médias independentes do tamanho da população —, mas também uma nova mente criativa. As novas ideias produzidas por essas novas mentes são boas não apenas para seus donos, mas também para o resto da humanidade. Se, depois de dobrados os números de bocas e pares de mãos, todo mundo continua com o mesmo que tinha antes, as mentes adicionais podem bolar formas de todas as mãos fazerem mais. É claro que nem todo recém-nascido será um Einstein, um Edison ou um Henry Ford, nem toda ideia nova será útil para todos. Mas justamente porque elas podem ser compartilhadas, nem todo mundo precisa ser gênio; qualquer ideia que puder ser aplicada fora do seu lugar de origem beneficia a todos, não apenas seu inventor. Mais filhos pode significar custos mais altos para todos — como mais escolas, mais postos de saúde —, porém representam benefícios em termos de novas ideias e novas formas de fazer as coisas, que são, em essência, o motor primordial do crescimento econômico, as ferramentas de construção da grande saída. Tais benefícios podem facilmente compensar os custos. Seguindo essa lógica, pode-se afirmar que o mundo foi abençoado em dose dupla pelas melhorias na saúde nos anos 1950 e 1960 — primeiro, porque elas resultaram em aumento da expectativa de vida e, depois, porque a explosão populacional trouxe consigo a explosão do conhecimento e da criatividade globais.

O economista e demógrafo David Lam, em seu discurso de 2011 como presidente da Population Association of America, entidade sem fins lucrativos dedicada a estudos demográficos e populacionais, identificou as chaves da prosperidade global,

em meio às taxas recordes de crescimento populacional.11 A queda da fecundidade foi um dos fatores decisivos: diante dos declínios sem precedentes na mortalidade de sua prole, famílias passaram a ter menos filhos. Antes, pais e mães não se preocupavam com o número de filhos nascidos e sim com o número dos que sobreviviam. Agora, crianças que em tempos passados teriam morrido não mais “precisavam” nascer, poupando suas mães do fardo e dos perigos da gravidez e do parto, e ambos os pais da agonia indizível de enterrar um filho. Tendemos a pensar que os principais beneficiários do declínio da mortalidade infantil são as crianças, que em outro tempo teriam morrido, mas agora têm a oportunidade de viver boas vidas. Não deixa de ser verdade, mas a vida de pais — e especialmente de mães — também é transformada: elas ficam livres para se envolver em outras atividades, como estudar e trabalhar fora. Podem também dedicar mais tempo e recursos à educação e ao desenvolvimento de cada um dos filhos sobreviventes.

Quando menos crianças morrem, os pais podem diminuir o número de filhos que nascem, ao mesmo tempo em que mantêm igual o número deles que se tornarão adultos, darão continuidade à família, herdarão seus bens e manterão vivas suas tradições, mas a um custo muito menor para si mesmos em termos de riscos e esforço. A redução da fecundidade não aconteceu de imediato — do contrário, não teria havido explosão populacional —, mas, pelo que indicam os dados, passou a ser evidente depois de mais ou menos uma década. Em consequência disso, a explosão populacional foi um evento temporário, ainda que duradouro. O mundo saiu de uma situação de relativo equilíbrio entre nascimentos e mortes para uma em que nascimentos superavam em muito as mortes; depois de um breve tempo, voltou o equilíbrio, mas agora com menos nascimentos e mortes do que em 1950. A taxa anual de crescimento da população mundial, que atingiu 2,2% em 1960, caiu para metade disso em 2011. O contingente de pessoas nascidas entre as quedas da mortalidade e da fecundidade representou um enorme aumento na população mundial, primeiro como crianças, quando suas necessidades eram maiores do que sua própria capacidade de atendê-las; depois como adultos, quando eram produtivas e criativas; e, finalmente, como idosos, muitos dos quais estão aposentados.

Lam enfatiza também a exitosa resposta da economia mundial aos desafios colocados pelo crescimento populacional. Esse é um dos nossos temas principais: a sociedade tende a se adaptar a novos problemas, em parte inventando novas formas de fazer as coisas — no caso da explosão populacional, o surgimento de tantas novas mentes ajudou muito — e em parte criando incentivos para fazer as coisas diferentemente. A Revolução Verde e outras inovações aumentaram a produtividade da agricultura, e a produção de alimentos cresceu mais rápido que a população. A globalização também ajudou a acelerar o crescimento mundial ao permitir a transferência da produção para países e lugares onde podia ser executada de modo mais eficiente. Recursos finitos foram poupados ou substituídos. O sistema de preços tem papel central na criação de incentivos; quando recursos não renováveis se tornam incomodamente escassos, seus preços sobem e as pessoas têm de se virar com menos, fazer substituições ou buscar mudanças técnicas para descobrir formas de viver sem tais recursos específicos.

Não raro economistas são acusados — às vezes com razão — de confiar cegamente no sistema de preços. Por outro lado, tanto economistas quanto seus críticos concordam que há grandes perigos quando recursos importantes não têm preço, ou seja, apesar de seu valor, estão disponíveis a usuários a custo zero. Se não for cobrado um preço, não há incentivo para economizar tais bens. O exemplo mais importante hoje é o aquecimento global, que, se não for atacado, imporá uma das maiores ameaças à continuidade do crescimento da prosperidade mundial.

O diagnóstico errado dos efeitos da explosão populacional feito por grande parte dos cientistas sociais e formuladores de políticas públicas — e os graves danos para milhões de pessoas provocados pelas ações equivocadas resultantes desse diagnóstico errado — foi um dos mais sérios fracassos intelectuais e éticos de um século em que houve muitos.

O problema não era a contracepção em si. Graças aos contraceptivos, casais passaram a poder gerir sua fecundidade de acordo com os próprios interesses e os de seus filhos; a possibilidade de regular, de forma acessível e eficaz, a fecundidade melhorou a vida de milhões de mulheres ao redor do mundo. A exemplo do que ocorre em muitas outras invenções, os primeiros beneficiários foram os habitantes de países ricos, o que resultou no surgimento de uma nova desigualdade global. Fechar esse abismo por meio da disponibilização do novo método no mundo inteiro era corretamente considerado prioridade e trazia embutido o potencial de se alcançarem efeitos extremamente positivos para as populações, assim como o foram no passado os antibióticos e as vacinações. O que foi realmente muito errado foi a coerção e a perda de liberdade por milhões de pessoas. Países ricos, a pretexto de ajudar os pobres, foram cúmplices na coerção. Em vez de ajudar a eliminar a desigualdade global, alimentaram-na, criando ainda mais injustiça global. Alguns dos danos foram causados por erro; muitos formuladores de políticas públicas e cientistas acreditavam que seus diagnósticos e receitas poderiam efetivamente ajudar os povos pobres. Contudo, é mais provável que esses erros tenham sido turbinados pelos interesses dos próprios países ricos — seu medo de como seria a vida em um mundo com mais pobres e de que a explosão populacional favoreceria a expansão do comunismo global.

 

Pobreza global

Já vimos que o aumento da prosperidade interna pouco contribuiu para a redução da pobreza nos Estados Unidos, pelo menos depois de 1975. O mundo como um todo teve melhor sorte; o rápido crescimento da renda média, particularmente na China e na Índia, sobretudo depois de 1975, foi fator decisivo na redução da pobreza extrema no planeta. Na China, em especial, mas também na Índia, centenas de milhões de pessoas escaparam da pobreza tradicional e arraigada, naquela que pode ser considerada a maior de todas as fugas.

Embora a história esteja bem clara em suas linhas gerais e não haja contestações sérias à sua conclusão, quero contá-la com muito cuidado, se não por outro motivo porque não é nada óbvia a forma de medir a pobreza global e tampouco está nítido o que queremos dizer quando falamos sobre o número de pessoas que vivem com menos de um ou 1,25 dólar por dia.

Para comunidades pequenas, não é difícil determinar quem é pobre ou não. Agentes comunitários frequentemente realizam “diagnósticos rurais participativos” em que os aldeões se reúnem em algum local central para a vida comunitária — talvez sob uma figueira-de-bengala — e conversam com coletores de dados sobre a aldeia, suas colheitas, suas principais ocupações e atividades, abastecimento de água, meios de transporte e sobre o próprio povo. Não é incomum que inválidos ou idosos que são sós, sem família que os sustentem, sejam vistos como pobres. Também nos países ricos, as pessoas adoram dar respostas sensatas quando lhes perguntam de quanto uma família precisa “apenas para ir levando” em sua comunidade. Estabelecer a linha de pobreza de um país é mais difícil, se não por outro motivo pelo fato de que em alguns deles isso pode trazer às pessoas o direito de receber tratamento especial, como subsídios não concedidos a todos. No entanto, como vimos no caso dos Estados Unidos, esses índices acabam sendo de alguma forma definidos e podem ser revistos ou atualizados posteriormente por meio do debate político. Algo bastante similar aconteceu na Índia, onde as linhas originais, propostas a princípio por acadêmicos que se dedicavam à medição de padrões de vida, foram mais tarde adotadas pelo governo (na Índia, a Comissão de Planejamento é a guardiã da linha de pobreza) e passaram a ser revisadas de tempos em tempos — com base no aconselhamento de um “comitê de peritos”, um tipo de instituição que muito agrada aos indianos — sempre que pareciam desatualizadas ou tinham deixado de receber apoio generalizado da população.

As linhas nacionais de pobreza de Índia e Estados Unidos foram criadas e discutidas no âmbito de um sistema democrático, com debates na imprensa e entre as partes interessadas. Essa característica lhes confere a valiosa virtude da legitimidade. Mas isso não se aplica a muitos países, talvez à maioria deles. Muitos governos, para os quais redução da miséria é apenas um discurso vazio, só realizam medição da pobreza porque são instigados pelo Banco Mundial, ou por outra agência internacional ou por ONGs. Nestes, os índices não são estabelecidos como resultado do debate interno e sim a partir das úteis e cruciais orientações fornecidas pelo Banco Mundial.

As linhas de pobreza elaboradas pelo Banco Mundial, ou com base em seus métodos, normalmente são bastante razoáveis, ou ao menos são assim percebidas por especialistas independentes. Na maioria das vezes, elas são calculadas como o valor da renda necessária para uma família média adquirir uma dieta minimamente aceitável. O defeito dessas linhas não reside em sua falta de plausibilidade, e sim na sua falta de legitimidade; não há nenhuma garantia de que qualquer cidadão do país — ainda menos se for um de poucos recursos — verá na linha a fronteira que separa os pobres dos não pobres. Na prática, essas linhas são conveniências administrativas para agências internacionais que precisam medir pobreza para seus próprios fins.

A primeira linha de pobreza do Banco Mundial, de 1 dólar por dia, recentemente atualizada para 1,25 dólar, veio da média das linhas de pobreza nacionais de uma seleção de países entre os mais pobres do planeta. Essas linhas de pobreza nacionais são expressas em moeda local, o que torna necessário convertê-las a uma unidade global para que se tire a média; para tanto, usam-se os fatores PPC já mencionados aqui. Quando o Banco Mundial fez o cálculo pela primeira vez, vinte anos atrás, a média estava próxima de 1 dólar por pessoa por dia (1985), ou seja, 1.460 dólares por ano para uma família de quatro pessoas; a média mais recente — com base em dados de um grupo diferente de países — é de 1,25 dólar (de 2005), isto é, 1.825 dólares por ano para uma família com quatro integrantes. Na última etapa, essa linha de pobreza global é, depois de convertida para as moedas locais, usada em cada um dos países pobres — os ricos são excluídos do cálculo — para que se chegue ao número de pessoas que vivem com o valor local equivalente à linha global. Esse cálculo permite determinar o número de “globalmente” pobres em cada país; esses números são então somados de modo a se obter os totais regionais e do mundo como um todo.

Esse levantamento é feito de forma relativamente sistemática desde 1990; o Banco Mundial publica hoje dados sobre a pobreza global de 1980 a 2008. São os números que apresentei no Capítulo 1, cuja Figura 6 mostra que o número de pessoas no planeta vivendo com menos de 1 dólar (de 2005) por dia caiu de cerca de 1,5 bilhão em 1981 para 805 milhões em 2008. Saliente-se que isso se deu a despeito do crescimento populacional de quase dois bilhões de pessoas nos países observados, ou seja, a proporção da população abaixo da linha de pobreza encolheu ainda mais rápido que em números absolutos, de 42% para 14%. O milagre do crescimento chinês puxou praticamente sozinho o declínio em números absolutos; se excluirmos os chineses dos cálculos, a queda seria de 785 milhões abaixo da linha da pobreza, em 1981, para 708 milhões em 2008. É forçoso reconhecer que é um retrato um pouco menos impactante, mas mesmo assim devemos lembrar que a proporção da população mundial de não chineses que são pobres baixou de 29% para 16%.

Na Índia, onde houve outro milagroso crescimento gigantesco, o número de pessoas vivendo com menos de 1 dólar por dia caiu de 296 milhões para 247 milhões, e a parcela da população abaixo da linha de pobreza recuou de 42% para 21%. China e Índia são histórias de sucesso; crescimento rápido em países grandes pode provocar marcantes recuos da pobreza global. Na África subsaariana, em contrapartida, está o grande fracasso no esforço para diminuição da pobreza; a parcela da população vivendo com menos de 1 dólar por dia era de 37% em 2008, contra 43% em 1981, porém, como a fecundidade na África não caiu como na Ásia, o número de pessoas pobres quase dobrou, de 169 para 303 milhões.

Com sua imensa área, a África se destaca em qualquer mapa, mas convém lembrar que é muito menos densamente povoada que o sul e o leste asiáticos, de forma que o relativo fracasso na redução da pobreza no continente teve peso menor no índice global do que os sucessos asiáticos. Não obstante, não se deve cair no erro comum de menosprezar de alguma forma o êxito chinês. Pessimistas da pobreza, talvez principalmente na “indústria da ajuda externa”, com frequência divulgam declarações sugerindo que, com a solitária exceção da China, globalização e crescimento econômico pouco contribuíram para a redução da pobreza no planeta. Mas esse é exatamente o jeito errado de pensar sobre a pobreza global. A China não é um diamante solitário e sim um país de 1,3 bilhão de habitantes; tirar da conta sua saída da pobreza é o mesmo que sustentar que chineses valem menos que etíopes, senegaleses ou quenianos. Cada país deve ser estudado e avaliado individualmente, mas, quando estamos analisando e tentando medir o bem-estar no mundo, todas as pessoas devem ser contadas igualmente, sem levar em conta onde vivem. Não há compensação por habitar um país pequeno nem penalidade por viver em um país grande. Pobreza global é uma ideia cosmopolita e sua medição precisa ser conduzida em bases cosmopolitas.

Quão confiáveis são os números da pobreza? O esquema de medição do Banco Mundial que delineei acima é bastante razoável — pelo menos se desconsiderarmos a parte relativa à falta de participação democrática local —, mas há muitas dificuldades no caminho; aqueles de nós envolvidos na construção e crítica desses números, como muitas outras pessoas que trabalham com levantamento de dados, somos muito mais céticos e hesitantes na hora de usá-los do que a maioria das pessoas. Apesar de tudo, penso serem reais os padrões gerais de redução da pobreza global. O rápido crescimento econômico de China e Índia é bastante palpável, de forma que possíveis exageros nos índices de crescimento do PIB em qualquer um dos países não afetariam a tendência de redução da pobreza, sobretudo na China. Os dados referentes à África muitas vezes não são de boa qualidade e suscitam muito mais desconfiança, mas a estagnação da pobreza é congruente com outras coisas que sabemos sobre o continente, como o crescimento relativamente demorado das rendas nacionais e o declínio lento da fecundidade. Para além dessas tendências gerais, muitas incertezas cercam o restante do cenário da pobreza global.

Uma das fragilidades das estimativas de pobreza global está na dependência dos fatores PPC, o que as torna vulneráveis às críticas a essas taxas e às incertezas que as envolvem — o problema do Marmite, entre outros. Outra fragilidade está na contagem do número de pessoas abaixo da linha em cada país. Há também dúvida sobre se as linhas em si fazem sentido.

Os fatores PPC não são calculadas todos os anos e tampouco em intervalos regulares; os últimos três cálculos foram feitos em 1985, 1993 e 2005, e os resultados de uma rodada de levantamentos de 2011 estão sendo preparados no momento em que escrevo este livro. Nem todos os países participam todos os anos; a China, cujo tamanho assegura um grande efeito em qualquer resultado, só começou a participar em 2005, ou seja, as estimativas anteriores baseavam-se em informações apenas parciais, o que é melhor que mero chute, mas ainda assim está longe de ter base sólida. Por esse motivo, ou simplesmente pela dificuldade de medição (não sabemos ao certo), os números da pobreza global têm forte tendência de mudar toda vez que os fatores PPC são revisados. Tais mudanças afetaram os números não apenas de países individualmente como de continentes inteiros; a revisão de 1993 subitamente fez a África parecer muito mais pobre, e a América Latina, muito menos pobre. As consequências das revisões podem ser marcantes, como no caso da África subsaariana, onde a taxa de pobreza subiu de 39% para 49%.

Em 2005, mais uma vez com base em novos dados, o Banco Mundial aumentou em um terço sua estimativa de pobreza no mundo; dentre os qualificados como pobres, o número dos que viviam na Ásia era muito maior do que na África. A maior parte desse aumento derivou da mudança da linha de pobreza do Banco Mundial, mas a alteração ilustra a pouca confiabilidade geral dos números e, não menos importante, a inconveniência de permitir que o Banco seja a única fonte dos números com base nos quais são avaliadas suas próprias iniciativas de combate à miséria. É claro que todas essas mudanças não são reais, são apenas estatísticas; ninguém no mundo ficou mais pobre ou rico porque os cálculos mudaram. Mas essas revisões podem de fato ter efeitos reais se organismos internacionais e ONGs redirecionarem seus esforços (e sua retórica) para os lugares onde “veem” os índices mais altos. Essa é uma das razões pelas quais as medições são tão importantes. Muito da atenção dedicada à pobreza na África nos últimos tempos é posterior à revisão de 1993, e é razoável crer que foi por esta influenciada. Direcionar ajuda ou atenção internacional aos países mais pobres do mundo pode ser perseguir uma quimera, porque — recorrendo à imagem metafórica de outro animal — o mapa da pobreza global muda de cor como um camaleão.

Os rumos da pobreza global tendem a não se alterarem muito quando os dados são revistos. Mesmo assim, é possível que a taxa de declínio da pobreza na China e na Índia tenha sido maior do que a apregoada e que seus níveis estejam caindo mais rapidamente do que mostram os números oficiais. Essa questão, ainda não resolvida, é ao mesmo tempo técnica e profundamente política.

É surpreendentemente difícil aferir o número de pessoas pobres de cada país, mesmo quando a linha de pobreza é definida. Os cálculos usam uma pesquisa domiciliar em que se pergunta a uma amostragem aleatória de famílias quanto ganham ou gastam, e consolidam o número de membros das famílias que vivem abaixo da linha. Os dados das pesquisas são cruzados com os das contas nacionais, que geram estimativas independentes dos totais de gastos e de renda do país como um todo. Mas em muitos países esses cruzamentos de dados revelam que os números não batem; o total das famílias muitas vezes é bem menor que aquele que os estatísticos acham que deveria ser e, ainda pior, a diferença não para de crescer. Em outras palavras: quando visitamos um domicílio e perguntamos às pessoas, ouviremos delas que seus padrões de vida não estão melhorando tão rapidamente quanto esperaríamos se considerarmos a taxa de crescimento do país. De certa maneira, isso é similar ao que vem acontecendo nos Estados Unidos: a renda nacional está crescendo, mas não vemos nenhuma ou quase nenhuma melhora para as famílias comuns. O motivo principal nos Estados Unidos — aumento da desigualdade — é quase sem dúvida parte do motivo para o que acontece na Índia e em outros países. Mas na Índia — e, em menor escala, nos Estados Unidos — os dados das famílias são simplesmente incompatíveis com os dados consolidados do país como um todo. Essa lamentável discrepância nas estatísticas não é

exclusividade indiana e aparece em muitos países. 12

Na Índia, essa incoerência estatística deu origem a discussões muitas vezes acaloradas. De um lado — em geral, o campo mais à direita politicamente — estão aqueles que preferem acreditar nos dados consolidados do produto interno do país e argumentam que as medições de pobreza baseadas nas pesquisas domiciliares, usadas pelo Banco Mundial e pelo governo indiano, subestimam seu declínio. Esse grupo costuma contar casos de pesquisadores de campo que fingem que trabalham e ficam sentados à sombra de árvores ou em casas de chá inventando dados em vez de cumprir sua função de entrevistar as pessoas. O lado oposto, mais à esquerda, prefere os dados das pesquisas domiciliares, argumentando que, se não vemos a redução na pobreza quando perguntamos às pessoas, não temos base sólida para dizer que ela realmente ocorreu. Entre os argumentos em favor desta visão estão as muitas deficiências no sistema de contas nacionais indiano e a falta de evidências de que pesquisadores “cozinham” dados bebericando em casas de chá. Não resta dúvida de que há verdades nas alegações de ambos os grupos, mas o debate nos alerta para o fato das discussões sobre pobreza às vezes se basearem em fatos pouco comprováveis, terreno fértil para que as pessoas escolham as versões mais convenientes às suas inclinações políticas. Subjacente a tudo isso está o fato do governo indiano ter-se tornado muito mais pró-empresariado e muito

menos pró-pobres em sua retórica.13 Portanto, para esse discurso é crucial demonstrar que o crescimento indiano está beneficiando a todos e não apenas à próspera classe média florescente encrustada em algumas poucas regiões de algumas poucas cidades. Negar a validade das pesquisas domiciliares permite àqueles que estão prosperando não “ver” os pobres.

Vem da Índia um dos exemplos que, na minha opinião, melhor ilustra como pequenas mudanças podem ter imensos efeitos. O grande economista e estatístico P.C. Mahalanobis, do Indian Statistical Institute, em Calcutá, é responsável por importantes contribuições à teoria e prática de desenho de pesquisas, especialmente as domiciliares, em que se fazem perguntas sobre hábitos de consumo dos entrevistados. Depois de algumas experiências, ele decidiu perguntar às pessoas quanto tinham consumido — por exemplo, de arroz ou trigo — nos últimos trinta dias. Nos anos 1990, as Indian National Sample Survey (Pesquisas Nacionais por Amostragem da Índia) continuavam a usar a regra dos trinta dias de Mahalanobis, apesar de muitos outros países na época usarem um período mais curto, de sete dias, porque se acreditava que os entrevistados não conseguiriam lembrar com precisão eventos ocorridos antes. Para alguns, esse era o motivo pelo qual muita coisa estava sendo desconsiderada e, portanto, a pobreza sendo superestimada. Essa visão prevaleceu, fez-se a mudança para o período reportado de sete dias e, como esperado, os gastos diários médios subiram. Essa obscura mudança na técnica estatística diminuiu o índice de pobreza da Índia pela metade: 175 milhões de pessoas deixaram de ser pobres. A duração do período reportado é um detalhe que sem dúvida só deixa uma categoria muito alvoroçada: a dos estatísticos. Trata-se de filigrana extremamente específica. No entanto, uma questão técnica mínima como essa pode alterar totalmente a medição e a percepção da pobreza. Reduzir a pobreza por meio de truques estatísticos é muito mais fácil do que propiciar que as pessoas de fato melhorem de vida!

Cabe aqui um adendo a posteriori: a mudança na Índia não durou muito. Depois que os experimentos de Mahalanobis foram refeitos, o período de trinta dias revelou-se não tão terrivelmente impreciso e, em muitos casos, mostrou-se melhor que o período de sete dias. Para deleite dos esquerdistas, o período de trinta dias foi reinstaurado nas pesquisas. Um aspecto mais geral e mais importante é que há, na Índia, assim como em muitos outros países em que parcela substancial da população é pobre, milhões de pessoas perto da pobreza, muito pouco acima ou muito pouco abaixo da linha. Há milhões que são pobres, mas não o seriam se a linha estivesse um pouco abaixo, e milhões que não são pobres, mas o seriam se a linha estivesse um pouco acima. Como resultado, mudanças mínimas na linha podem ter impacto imenso no número de pessoas qualificadas como pobres. Essa hipersensibilidade mina a atividade de medição da pobreza como um todo. No fundo, não sabemos exatamente onde deveria estar a linha, mas sabemos que sua posição exata faz uma tremenda diferença. Em termos mais grosseiros: a verdade é que não sabemos direito o que estamos fazendo e decerto é um grande erro permitir que qualquer coisa realmente importante dependa desses números.

No romance David Copperfield, de Charles Dickens, o personagem do senhor Micawber tem sua visão particular de linha de pobreza. Ele observa: “Renda anual de 20 libras, gasto anual de 19,96, resultado felicidade. Renda anual de 20 libras, gasto anual de 20 libras e 6 xelins, resultado miséria.” Essa fala é inesquecível porque, entre outras razões, é boba demais. Por que tanta coisa pode depender de uma diferença tão mínima? E por que alguém que está um fio de cabelo abaixo da linha de pobreza deve ser classificado como pobre e receber assistência especial ou atenção do Banco Mundial, e alguém um fio de cabelo acima da linha não precisa de assistência e pode ser deixado para que se vire por sua própria conta? Não temos muita ideia de qual deve ser a linha de pobreza e temos grande dificuldade para medir renda, o que torna julgamentos ao estilo do personagem Micawber duplamente absurdos. É razoável nos preocuparmos mais com pessoas mais pobres, mas não é razoável fazer distinções radicais com base em linhas de corte.

Uma última observação sobre a linha de pobreza global: para a maioria das pessoas, é obviamente impossível viver com 1 dólar por dia nos Estados Unidos e na Europa. Embora não se espere que ninguém tenha de fazê-lo, e apesar de Estados Unidos e Europa não estarem incluídos nos levantamentos globais, essa impossibilidade mina a validade da linha, mesmo em outros países. Afinal, milhões de pessoas na Índia vivem com menos de 1 dólar por dia, convertido pelo fator PPC de cerca de 22 rúpias por dólar, e o propósito precípuo dessas taxas de conversão é equalizar o poder de compra entre os países. Portanto, se as pessoas na Índia conseguem viver com 22 rúpias por dia — e estas nem são as que estão em pior situação — por que as pessoas nos Estados Unidos não conseguem viver com 1 dólar por dia?

Não tenho certeza de haver uma resposta plenamente convincente para essa pergunta. A linha de pobreza na Índia exclui a maior parte de três itens importantes e caros nos Estados Unidos: moradia, saúde e educação. Ademais, em um país quente como a Índia há pouca necessidade de aquecimento e se gasta ainda menos em vestuário. Quem trabalha perto de onde mora não gasta quase nada em transporte. Se esses itens forem excluídos, uma família americana de quatro pessoas autossuficiente, que não usa serviços básicos como eletricidade, aquecimento etc., talvez pudesse comprar alimentos — arroz, aveia, grãos e algumas poucas verduras — para sobreviver com 1.460 dólares por ano; um estudo recente estimou o preço de uma cesta básica de produtos essenciais nos Estados Unidos em cerca de 1,25 dólar por dia, ou 1.825 dólares por ano para uma família de

quatro pessoas.14 Defensores da linha de pobreza podem também objetar, não sem razão, que 22 rúpias por dia compram uma vida miserável também na Índia e que os pobres do país e seus filhos, se não passam fome diariamente, estão entre os mais desnutridos do planeta.

 

Desigualdade de renda global

Muitos argumentam que a globalização tornou o mundo mais desigual e que, se de um lado, se abriram novas oportunidades para ricos ficarem mais ricos, para os pobres foram poucos os ganhos. Essa linha de pensamento não é totalmente implausível. Aqueles de nós afortunados por viver na Europa ou na América do Norte desfrutamos de todos os benefícios desse mundo novo e interconectado. Ao mesmo tempo, é difícil ver que bem a globalização traz aos cidadãos de um país pobre, sem acesso ao mar, com população pouco saudável e sem boa educação.

Há argumentos que apontam na direção oposta. Graças à globalização, trabalhadores asiáticos têm acesso inédito em suas histórias a mercados de países ricos e podem realizar muitos dos serviços antes exclusivos desses países, mesmo sem emigrar. Se isso acontecer em larga escala, salários subirão na Ásia e cairão nos Estados Unidos e Europa, diminuindo a desigualdade de renda no mundo como um todo. Os donos do capital também têm novas oportunidades de investimento com a globalização. Se houver capital relativamente abundante nos países ricos e relativamente escasso nos pobres, um mundo com menos barreiras permitirá aos capitalistas do mundo rico ficarem mais ricos enquanto seus correspondentes nos países pobres ficam menos ricos. Com capitalistas enriquecendo e trabalhadores empobrecendo, a desigualdade de renda se ampliará nos países ricos e encolherá nos pobres. (É claro que desigualdade de renda não se limita apenas à divisão entre trabalhadores e capitalistas.)

No início deste capítulo apresentei dados que mostravam que as rendas médias nacionais estão se distanciando entre si ou, na melhor das hipóteses, não dão sinais de que estão se aproximando. No entanto, alguns dos países gigantes do mundo estão crescendo muito rapidamente, de maneira que bilhões de pessoas vivem hoje em países cujas rendas médias estão mais perto da classe média do que do empobrecimento, o que constituiu fator importante para a maior equalização da renda no mundo. Não é possível, todavia, avaliar a extensão da desigualdade entre todos os cidadãos do mundo — algo que poderíamos chamar de desigualdade cosmopolita — usando apenas as médias e ignorando a desigualdade dentro dos países. As médias chinesa e indiana estarem crescendo não significa necessariamente que a maré alta da prosperidade faz todos os barcos desses países subirem. Ou, voltando à minha metáfora das bandeiras na abertura dos jogos olímpicos, o fato das bandeiras “médias” de China e Índia estarem avançando do final do desfile para o meio não implica que todas as bandeiras individuais desses países estão seguindo no mesmo ritmo. Talvez os magnatas das cidades indianas que abrigam centros de alta tecnologia já tenham chegado à cabeça do desfile há muito tempo, deixando trabalhadores agrícolas pobres lá atrás, onde sempre estiveram. Se aguda demais, a expansão da desigualdade doméstica pode anular a marcha dos países gigantes para o meio e aprofundar a desigualdade de renda cosmopolita.

O Capítulo 5 discute o crescimento recente da desigualdade americana. Embora seja apenas um país, alguns dos fatores presentes nos Estados Unidos — novas tecnologias e globalização — devem surgir em outros lugares ou, pelo menos, em outros países ricos. Entre as nações pobres, também há evidências de que nem todos se beneficiaram das novas oportunidades propiciadas pela globalização. Embora eu não acredite ser possível fazer qualquer afirmação sobre desigualdade de renda que seja verdadeira para todos os países — exceto quanto à dificuldade de medi-la —, parece claro que há uma tendência geral de aumento de desigualdade, em especial nos últimos anos. O caso dos Estados Unidos é excepcional, tanto no seu nível de desigualdade quando no porte da recente explosão, principalmente no topo, mas certamente não é o único país onde o fenômeno está em curso. Em vários países ricos, a desigualdade de renda — medida pela fração da renda recebida pelo 1% mais rico — continuou a cair nos anos 1980, como já o vinha fazendo ao longo de boa parte do século, ou seja, o repique recente foi não apenas menor que nos Estados Unidos como também aconteceu mais tarde.

O crescimento econômico na China variou de acordo com as regiões geográficas; cidades tiveram melhor desempenho que o campo. Essas desigualdades entre as populações rural e urbana criam incentivos para as pessoas se mudarem, o que funcionaria como antídoto contra grandes disparidades de renda, mas migrações são rigorosamente controladas na China, de maneira que mais de cem milhões de trabalhadores migrantes só podem ter acesso a bons empregos se aceitarem viver separados de suas famílias. Na Índia, as evidências de aumento da desigualdade são menos claras, embora também aqui algumas regiões, principalmente no sul e no oeste do país, tenham alcançado desempenho melhor que outras. Estudos de dados de imposto de renda na China e Índia, parte de um projeto multinacional de pesquisa sobre os mais ricos, detectaram que a fatia do 1% com maior renda vem crescendo em ritmo acelerado em ambos países, ainda que seja apenas metade (na Índia) e um terço (na China) do tamanho da parcela da renda nacional detida pelo 1% mais

rico nos Estados Unidos.15 E para complicar ainda mais o quadro, há evidências de declínio na desigualdade em alguns outros países grandes, entre os quais dois tradicionalmente muito desiguais: Argentina e Brasil.

Muitos países ricos também tiveram aumentos na desigualdade nos últimos anos. A maioria assistiu à redução das rendas mais altas na primeira metade do século XX à medida que guerras, inflação e impostos erodiram as maiores fortunas. Em décadas mais recentes, países de língua inglesa, como Estados Unidos, tiveram crescimento importante na fatia do 1% mais rico, mas isso não se observou na Europa (exceto Noruega) nem no Japão. Quando o centésimo no topo se distancia do restante, os outros 99% têm desempenho pior que a média nacional. O sucesso dos grupos de 1% mais ricos variou entre países, o que significa que os rankings de desempenho de cada país às vezes valem para o país como um todo, mas não para os 99% da base.

É interessante comparar França e Estados Unidos. Aquela cresceu um pouco menos rapidamente que estes nos últimos anos, mas os 99% da população com renda mais baixa tiveram crescimento em sua renda média maior que os 99%

da população dos Estados Unidos.16 Em outras palavras, na França, tirando o 1% com renda mais alta, o conjunto da população teve resultado melhor que o conjunto da população americana (também excetuando-se o 1% com renda mais alta).

A disparidade entre anglófonos e não anglófonos não deve surpreender se executivos e administradores de alto escalão, cuja língua nativa é o inglês, puderem vender seus serviços em um mercado mundial impulsionado pela explosão dos salários mais altos nos Estados Unidos, mas que não está aberto da mesma maneira a gestores franceses, alemães ou japoneses. Uma interpretação mais otimista vê a globalização como criadora de um mercado imenso e rico para os melhores executivos que falam inglês, que, como cantores de ópera ou astros do esporte, vivem hoje em um mundo interconectado e cosmopolita de CEOs. Nessa narrativa, supersalários nos Estados Unidos e em outros países de língua inglesa são a recompensa paga a supertalentos do novo mercado global, e não o resultado da ação de CEOs americanos que se atribuem salários excessivos e forçam os demais países de língua inglesa a fazer o mesmo.

Todos os países ricos precisam enfrentar os efeitos das mudanças tecnológicas bem como a concorrência de outros países com menores salários. Nem todos registraram o mesmo aprofundamento da desigualdade de renda que os Estados Unidos, mas alguns que originalmente pareciam imunes à tendência têm revelado no passado mais recente uma expansão da desigualdade — um espraiamento dos ganhos — especialmente acima da mediana. Aparentemente, polarização de empregos e remunerações — com muitos empregos de salário médio sendo substituídos por máquinas ou terceirizados enquanto os de salário menor têm desempenho relativamente bom — é fenômeno bastante

comum nos países ricos.17 A polarização, algo novo, ajuda a frear o aumento da desigualdade na faixa mais baixa da distribuição de renda. Outras tendências, entre as quais o crescimento do número de famílias uniparentais na parte de baixo da distribuição, e de “casais de sucesso” no topo, também se difundiram. Sistemas de impostos e transferências, mais comuns na Europa que nos Estados Unidos e mais direcionados para limitar a desigualdade, parecem não ter sido capazes de evitar o aumento recente da desigualdade.

O que essas experiências internas de cada país nos revelam sobre a desigualdade no mundo como um todo? Tais aprofundamentos das disparidades domésticas são suficientes para anular o movimento ascendente dos países gigantes na distribuição global? Se as rendas médias dos países estão se distanciando entre si e se o país médio está se tornando mais desigual, não podemos concluir que o mundo está se tornando mais desigual?

Só temos resposta clara para a última pergunta, e ela é não. Países têm tamanhos muito diferentes e, pelo menos nos últimos anos, os gigantes cresceram em ritmo acelerado, a taxas bem superiores à média. Quando olhamos um a um, consideramos países pequeníssimos, como Guiné-Bissau, com um milhão e meio de habitantes, como se fossem gigantes como a Índia, por exemplo, com mais de um bilhão de pessoas. O fato de Guiné-Bissau e muitos outros pequenos países africanos não terem bom desempenho indica que o abismo entre os países está se aprofundando, mas não nos diz nada sobre o aumento ou não das diferenças entre as pessoas.

O que dizer dos efeitos da desigualdade doméstica de cada país sobre a desigualdade global? Sim, eles têm seu peso, especialmente no topo da distribuição de renda no mundo, mas não são decisivos para a maioria das pessoas, quando não porque a maior parte da desigualdade no mundo reside nas disparidades entre países e não nas disparidades dentro de cada país. E assim voltamos aos gigantes, particularmente China e Índia, e à velocidade dos seus crescimentos vis-à-vis ao resto do mundo. Expansões econômicas rápidas como essas deveriam, a despeito do aumento da desigualdade interna, principalmente na China, atropelar tudo o que estiver à frente e, portanto, tornar o mundo menos desigual, pelo menos enquanto a China for mais pobre que a média. Estimativas cuidadosamente preparadas, baseadas na consolidação de todas as evidências, sugerem ser exatamente isso o que está acontecendo e, apesar de as disparidades entre os países e a desigualdade doméstica estarem aumentando, a desigualdade global está estável ou

diminuindo lentamente. 18 É até possível que isso seja verdade, embora eu não esteja convencido de que deva apostar todas as minhas fichas nisso. A grande incerteza está nas taxas de crescimento real de China e Índia — se são mesmo tão altas quanto indicam os números oficiais; essa incerteza é potencializada pelas dificuldades de se realizarem comparações entre elas e as de outros países.

Por fim, precisamos nos perguntar se devemos nos importar com a desigualdade no mundo e, se a resposta for sim, por quê. Dentro de um país, desigualdade tem a ver com justiça, isto é, se todos os cidadãos — que, gostem ou não, têm de pagar impostos e seguir as leis e políticas do país — estão recebendo recompensas razoáveis de acordo com o cumprimento de suas obrigações. Cabe aqui citar o filósofo Ronald Dworkin: “Uma comunidade política que exerce o poder sobre seus cidadãos e exige deles fidelidade e obediência às suas leis precisa adotar postura imparcial e

objetiva em relação a todos eles.”19 Sim, é verdade que as pessoas têm visões diferentes sobre a relação entre distribuição de renda e justiça, e sobre ser injusta ou não a já alta e crescente desigualdade nos Estados Unidos; mas isso é ponto central das discussões nacionais sobre desigualdade de renda: se algo deve ser feito a respeito e, em caso afirmativo, o quê exatamente.

Quando falamos de muitos países, o cenário é bem distinto. Não existe governo mundial ao qual as pessoas devem fidelidade ou que tenha poder de atacar desigualdades internacionais claramente injustas. A medição da desigualdade entre países não é parte de um arcabouço estatístico que orienta as políticas internacionais, como o são as estatísticas que norteiam as nacionais. Em realidade, não há estatísticas oficiais de desigualdade global entre indivíduos — e talvez esse seja um tópico que deva ser mesmo reservado à curiosidade individual de acadêmicos. Há muita verdade nisso tudo, mas há também contra-argumentos. Admita-se que não existe um governo mundial, mas existem instituições globais — por exemplo, a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial — cujas políticas afetam diretamente as rendas das pessoas em muitos países, e cujas atividades sejam talvez equivalentes o suficiente às de estados nacionais para dar sustentação a clamores por justiça daqueles afetados. Nenhuma dessas organizações tem autoridade ou capacidade para implementar um sistema global de impostos ou de redistribuição; todavia, seu potencial de fazer bem ou mal certamente justifica que pelo menos monitorem a distribuição de renda. O mundo pode até não ser um Estado unificado, mas tampouco é um conjunto de Estados isolados que não interagem uns com os outros.

 

* A política chinesa de filho único começou a ser abrandada e abandonada em 2015, depois da publicação da edição original deste livro. (N. do R. T.)