A Grande Saída

Angus Deaton · Capítulo 10 de 10

Páginas do PDF

A Grande Saída

Pós-escrito: E o que vem a seguir?

PÓS-ESCRITO

 

E o que vem a seguir?

 

MINHA VERSÃO DA GRANDE SAÍDA é positiva: são milhões de pessoas salvas da morte e da miséria, e um mundo melhor que em qualquer outro momento da história, apesar de suas desigualdades e dos milhões que ficaram para trás. No entanto, o filme (Fugindo do inferno) que usei como metáfora para o meu relato, não teve final feliz. Quase todos os fugitivos foram recapturados, e cinquenta deles executados. Podemos confiar que a nossa fuga será diferente?

Provavelmente não, mas não é despropositado ter esperança.

Nossos filhos e netos não podem, em absoluto, imaginar que estão imunes às forças que fizeram ruir grandes civilizações do passado. Na Europa e na América do Norte, nos acostumamos a acreditar que as coisas sempre ficarão melhores. Os últimos 250 anos foram de progresso sem precedentes, mas 250 anos é um período curto demais diante da longevidade de civilizações do passado, que sem dúvida acreditavam-se destinadas a durar para sempre.

Há muitas ameaças capazes de nos derrubar. Mudança climática é a mais evidente delas, e não há solução clara que seja politicamente viável. A possibilidade de interesses privados vencerem o interesse público está memoravelmente expressa na reflexão de Jared Diamond sobre o que poderia estar passando na cabeça da pessoa que cortou a última

árvore da Ilha de Páscoa. 1

Continuamos a ter guerras. Há movimentos políticos perigosos por toda parte. Imagine a turbulência que líderes chineses enfrentarão quando cessar o crescimento econômico de seu país (a história sugere que isso acontecerá). Uma das reações possíveis, não totalmente improvável, seria invadir Taiwan, o que poderia resultar numa desgraça fatal. O mundo mudou muito nos últimos cinquenta anos, mas a natureza da liderança chinesa mudou muito menos, de forma que não devemos descartar a possibilidade de outra tragédia nefasta, como a Grande Fome, sob o regime de Mao Tsé-Tung. É um alívio saber que brutal carestia não poderia acontecer nos nossos dias, já que o mundo saberia. Mas o que exatamente conseguiríamos fazer a respeito?

A Revolução Científica e o Iluminismo abriram caminho para sólidos progressos no bem-estar material e na saúde. Contudo, a ciência está sob ataque constante de religiosos fundamentalistas em muitas partes do planeta, inclusive nos Estados Unidos. Muitos desses fundamentalistas têm poder político e são apoiados por aqueles cujos interesses são ameaçados pelo conhecimento científico.

A ciência não é capaz de nos tornar totalmente imunes a doenças. Novas enfermidades podem surgir a qualquer momento. Normalmente, as mais aterrorizantes matarão alguns poucos, perderão força e se recolherão de volta em seus hospedeiros de origem. Mas a pandemia de aids nos alerta para o potencial destrutivo desses episódios, que podem ser muito piores. Apesar das 35 milhões de mortes — que fazem da aids uma das maiores catástrofes dos tempos modernos —, o vírus foi rapidamente identificado e terapias foram desenvolvidas; mas, se fosse outra doença, é possível que levássemos mais tempo para decifrá-la e aprender a tratá-la. Em suas atividades rotineiras, sistemas globais de saúde recorrem a antibióticos cuja eficácia está ameaçada, em boa medida, por causa de seu uso descontrolado na agricultura e consequente aumento da resistência dos vírus. Nossa vitória contra os germes ainda não está concluída e sacramentada; é uma guerra sem fim, em que as correntes movem-se ora para um lado, ora para outro. Talvez estejamos agora num momento favorável para nós, mas pode ser apenas uma etapa da guerra, e não o prenúncio de seu final. A evolução ocorre independentemente das atividades dos homens; germes se defendem e contra-atacam.

Crescimento econômico é o motor da fuga da pobreza e da penúria material. Mas, atualmente, ele é débil no mundo rico e vem diminuindo década a década. Em quase todos os lugares, a fragilidade do crescimento vem acompanhada de aumento da desigualdade. No caso dos Estados Unidos, os atuais contrastes de renda e riqueza são os maiores em mais de cem anos. Grandes concentrações de riqueza podem minar a democracia e o progresso, sufocando a destruição criativa que o torna possível. Tais desigualdades estimulam quem já conseguiu alcançar a saída a bloquear as rotas de fuga depois de passar por elas.

Mancur Olson previa que os países ricos declinariam assim: enfraquecidos pelo rent-seeking de um número cada vez maior de grupos de interesse específicos, preocupados apenas com vantagens para si próprios em detrimento e às

custas de uma maioria desarticulada. 2 Com crescimento menor, tornam-se inevitáveis os conflitos distributivos, porque só posso avançar às custas do meu vizinho. É fácil imaginar um mundo com crescimento baixo, e também com intermináveis conflitos distributivos entre ricos e pobres, entre velhos e jovens, entre Wall Street e as pessoas comuns, entre fornecedores de serviços médicos e seus pacientes, e entre os partidos políticos que os representam.

Apesar de tudo, estou cautelosamente otimista. O desejo de escapar é profundamente enraizado e não será facilmente apagado. Os meios de fazê-lo são cumulativos: os libertados do futuro terão atrás de si a longa estrada percorrida por gerações anteriores. As pessoas podem bloquear túneis atrás de si, mas não conseguem bloquear o conhecimento de como os túneis foram escavados.

É provável que a desaceleração do crescimento esteja exagerada, porque estatísticos negligenciam muitas melhorias na qualidade, especialmente de serviços, que respondem por parcela cada vez maior do produto interno. A revolução da informação e os dispositivos a ela associados contribuem para o bem-estar mais do que somos capazes de aferir. O fato de os prazeres proporcionados por essa revolução ficarem quase inteiramente fora do radar das estatísticas de crescimento revela muito sobre as imperfeições das estatísticas, e não sobre as imperfeições da tecnologia ou sobre as alegrias que ela traz.

A maioria da população mundial não vive em países ricos; para ela, não houve desaceleração do crescimento. Na verdade, as mais de 2,5 bilhões de pessoas que vivem na China e na Índia experimentaram, em tempos recentes, expansões sem paralelo em outros países ou momentos da história. Mesmo que esse ritmo perca força, as “vantagens do atraso” e o impulso para diminuir a diferença em relação aos demais países devem garantir que continuem com taxas de crescimento superiores à média nos próximos anos.

Há possibilidades infinitas para a África, algumas das quais só agora estão sendo reconhecidas, à medida que melhores gestões da economia evitam alguns dos desastres autoinfligidos do passado. E se o Ocidente conseguir curar-se do seu vício em ajudar, e parar de solapar a política interna dos países africanos, haverá esperança real de desenvolvimento impulsionado por forças internas próprias. Precisamos parar de sufocar a expressão dos ilimitados talentos dos africanos.

Ao contrário do que pode parecer, a desaceleração do progresso na expectativa de vida é algo positivo; a morte está demorando mais para chegar, e salvar vidas de pessoas mais velhas tem menor impacto na expectativa de vida que salvar crianças. Também aqui o problema é a medição, não o que está sendo medido. Expectativa de vida nem sempre é a forma correta de medir o bem-estar de uma sociedade; em nenhum lugar está escrito que salvar vidas de pessoas de meia-idade e idosas é intrinsecamente menos valioso que salvar vidas de crianças.

Se de um lado há ameaças à saúde, de outro há muitos avanços por acontecer, com sinais de progressos reais contra o câncer que, com sorte, serão equivalentes aos alcançados na luta contra doenças cardiovasculares nos últimos quarenta anos.

A razão fundamental pela qual continuaremos a ter avanços na saúde é o fato das pessoas efetivamente desejarem que ela melhore e estarem dispostas a pagar por ciência básica, pesquisa comportamental, medicamentos, procedimentos e pelos dispositivos que lhe dão sustentação. Inovações não são como produtos prontos esperando alguém tirá-los da prateleira; elas tampouco surgem sempre que são necessárias. Porém, não há dúvida de que necessidades enfrentadas com recursos financeiros adequados trazem bons resultados.

Mesmo a pandemia de aids, apesar de seu horrendo preço, contém uma história de sucesso sobre como novos conhecimentos básicos e novos tratamentos podem responder às necessidades; além disso, conseguem fazê-lo em um espaço de tempo que, embora longo demais para os que morreram, é curtíssimo se comparado com outras epidemias históricas. Ciência realmente funciona.

São muitos os avanços em curso que não mencionei neste livro. A violência diminuiu; hoje, as chances de uma pessoa

ser assassinada é muito menor que no passado. 3 A democracia está implantada em muito mais países do que cinquenta anos atrás. São cada vez menos comuns casos de opressão de um grupo social por outro. As pessoas têm atualmente muito mais possibilidades de participar das decisões da sociedade que no passado.

No mundo inteiro as pessoas estão ficando mais altas e provavelmente mais inteligentes.

A educação tem melhorado na maior parte do planeta. Atualmente, 80% da população mundial é alfabetizada; em

1950, eram apenas 50%. 4 Em algumas áreas da zona rural da Índia, há mulheres que nunca puseram o pé em uma escola, mas cujas filhas estudam regularmente.

Não se deve esperar que esses progressos ocorram em todos os lugares, ou que sejam ininterruptos. Coisas ruins acontecem; novas fugas, como as do passado, trarão novas desigualdades. Apesar de tudo, minha expectativa é a de que os reveses sejam superados no futuro como foram no passado.

Você terminou A Grande Saída

Angus Deaton

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.