A História e Suas Epidemias
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Nascida no Gresham College, a Roy al Society insistia em validar as contribuições am adoras; para isso, não baseava suas conclusões em debates filosóficos ou m etafísicos, m as em fatos apresentados pelo m étodo cartesiano de deduzir a veracidade ou não da descoberta. Três anos após sua fundação, lançava o prim eiro j ornal periódico científico da história da hum anidade, o Philosophical Transactions of the Roy al Society. Os trabalhos eram enviados pelos "repórteres", cunhando-se esse term o para designar um a form a de apresentação regulam entada que contém descrições, propósitos e ilustrações padronizados e detalhados com obj etividade — protótipo do paper científico dos dias atuais. Um dos principais m em bros da Roy al Society foi Robert Boy le, que estipulou as bases de reprodução dos experim entos e denom inou de "laboratório" o local para a realização das experiências.
Foi assim que várias descobertas do século XVII passaram pelo com itê de aprovação da Roy al Society, sendo depois publicadas em seu periódico para conhecim ento do m undo científico. A descoberta do vácuo propiciou a criação do barôm etro para a observação m eteorológica e tornou possíveis experiências que facilitaram o entendim ento dos com ponentes do ar. Perm itiu tam bém a pesquisa da pressão do ar com o desenvolvim ento da m áquina para a produção de vácuo por condensação de vapor, o que contribuiria para a industrialização no século seguinte.
A descoberta do m icroscópio desencadeou um avanço em várias áreas da ciência. A análise m icroscópica aj udou no entendim ento da circulação do sangue, na identificação de m icro-organism os, no estudo dos tecidos hum anos e nos trabalhos de botânica. O progresso da ciência e das inform ações foi tão grande no decorrer do século XVII que houve a necessidade de reunir os conhecim entos filosóficos e científicos num a publicação única, a Enciclopédia, de Denis Diderot e Jean d'Alem bert.
Pela prim eira vez, o hom em tinha a oportunidade de conhecer as bactérias pelas lentes dos m icroscópios. Era um a época rem ota da história da ciência, e ainda se estava longe de relacionar os agentes m icroscópicos às doenças que causavam . Quem proporcionou o conhecim ento desses seres foi o holandês Antony van Leeuwenhoek, que, ao com binar suas lentes convexas, descobriu e desenvolveu o m icroscópio. Leeuwenhoek j am ais conseguiria obter sua prim eira publicação no Philosophical Transactions em 1673 se não fosse a intervenção de um am igo m édico e anatom ista que enviou relatos de sua descoberta ao secretário da Roy al Society. Pelo fato de ser dono de um arm arinho, e não m édico ou cientista, dificilm ente a Roy al Society valorizaria suas observações. Leeuwenhoek descobriu, com seu m icroscópio potente, os m icroorganism os presentes em um a gota d'água. Ele descreveu aqueles pequenos seres que se m oviam nas lentes e os definiu com o "anim álculos". Tornou-se um fabricante de m icroscópios e estendeu seus trabalhos à observação de diversas substâncias, o que incluiu a descoberta dos esperm atozóides. Foi convidado a tornar-se m em bro da Roy al Society e, pela prim eira vez na História, um dono de loj a fazia parte da principal sociedade científica do m undo. Apesar de Leeuwenhoek ser considerado o pai da bacteriologia dada a im portância de sua descoberta, a ciência teria de aguardar dois séculos para se conscientizar da dim ensão desse feito.
No m esm o ano da m orte de Galileu nasceu Isaac Newton (1642—1727), que seria um dos principais nom es da época por revolucionar a ciência. Newton desenvolveu o conhecim ento da astronom ia usando as leis da física; estabeleceu os conceitos de peso, m assa e m ovim entos que forneceram bases para a teoria da m ecânica do Universo. Indiretam ente, a peste o aj udaria a iniciar os estudos para a sua principal obra científica.
As cidades européias eram obrigadas a parar suas atividades de tem pos em tem pos em decorrência de desastres com o o surgim ento de epidem ias. Londres conviveu com elas enquanto crescia, enfrentando surtos constantes de peste. Muitas vezes, as epidem ias chegavam com pessoas contam inadas que desem barcavam dos navios procedentes do continente. As m ortes com eçavam a ocorrer nos subúrbios próxim os das docas e por lá se espalhavam . Já em 1563, a Rainha Elizabeth I e sua corte se isolaram no Castelo de Windsor com m edo da peste que se alastrou por Londres, m atando entre vinte m il e 26 m il habitantes. Retornaria em 1578, deixando oito m il m ortos, e em 1593, 17 m il. O século XVII com eçaria de m odo não m uito diferente do anterior; e nos seus prim eiros quarenta anos, três grandes epidem ias iniciadas nos navios chegados às docas m ataram cem m il londrinos. A epidem ia de 1665, por ironia do destino, teria sua feição benéfica em favor da ciência. Londres viveu m om entos terríveis nos anos de 1665 e 1666. Quando se recuperava da epidem ia de peste, em 1666, um incêndio alastrou-se durante um a sem ana pelas casas de m adeira, deixando um a m ultidão de desabrigados e destruindo grande parte da cidade, incluindo a Catedral de St. Paul. Um ano antes, os londrinos alarm aram -se com as notícias do Boletim de Mortalidade, que com putava a m orte, pela peste, de m il a duas m il pessoas nas prim eiras sem anas de agosto. O m edo espalhou-se quando, em setem bro, o núm ero de óbitos registrado pelo boletim subiu para sete m il.
As casas dos doentes eram isoladas e m arcadas para alertar a população, as loj as perm aneciam fechadas, o tabagism o era rotineiram ente em pregado com o m edida de prevenção do m al. Mas a grande precaução para evitar o contágio era, ainda, a fuga da cidade. O Rei Carlos I e sua corte m udaram - se para Oxford. Seguindo seu exem plo, m uitas pessoas fugiram evitando assim estar entre os 75 m il vitim ados pela epidem ia. Newton abandonou a escola de Cam bridge e foi para sua terra natal, Woolsthorpe. Nesses "anos da peste", em seu retiro, aperfeiçoou os estudos da decom posição da luz solar e do m ovim ento circular, que possibilitaram a form ulação das leis dos m ovim entos dos planetas. A Europa fervilhava de conhecim entos científicos na Roy al Society e na Académ ie. A Roy al Society prom ovia encontros científicos e debatia suas descobertas, prom ovendo e patrocinando pesquisas. O Rei Sol, Luís XIV, foi o fundador e patrocinador da Académ ie. O m onarca intensificou o desenvolvim ento científico e intelectual em seu país com a criação de várias academ ias ligadas à literatura, dança, pintura, escultura, arquitetura e m úsica. Newton retornou a Cam bridge em 1667 e, depois de continuar suas pesquisas, incluindo contatos com o astrônom o inglês Edm und Halley, publicou seu livro Princípios matemáticos da filosofia natural, no final do século.
O PRIMEIRO MODELO DEVACINA
A origem da varíola perm anece obscura; os m aiores indícios a apontam com o doença originária do Oriente, principalm ente da China. Arquivos chineses descrevem um m al sem elhante à varíola em eras longínquas, de m il anos antes de Cristo. O isolam ento chinês contribuiu para restringi-la àquela área do globo. Som ente no século VI d.C., surgiram relatos da sua incidência na Europa, acreditando-se ser essa a época da introdução da varíola no Ocidente. Por volta do ano 570, o bispo de Avenches, na Suíça, relatava a epidem ia que atingira a Itália e a Gália. Nesses territórios de influência rom ana, provavelm ente ganhou o nóm e que tem hoj e. Em latim , a palavra vari significa "irrupção de botões"; varius são "indivíduos com o rosto recoberto de m anchas". Os acom etidos tinham a face com aspecto salpicado — "bariolado", "variolado" — pela doença. A varíola sem pre foi um m al tem ido pelas fam ílias européias. Era a principal causa da m ortalidade infantil, obrigando m uitos a se felicitarem não com o nascim ento dos filhos, m as quando estes sobreviviam à doença. Aparecia em epidem ias nas cidades; os acom etidos ficavam acam ados, com febre, e surgiam as horríveis bolhas na pele contendo pus. Cada epidem ia levava à m orte 20% a 40% dos doentes. Muitas vezes, os felizes que conseguiam sobreviver não escapavam das cicatrizes na pele e tam bém da cegueira causada pelas lesões nos olhos. Nos séculos XVII e XVIII, em decorrência da doença, um terço dos habitantes de Londres apresentavam cicatrizes horríveis e dois terços ficaram cegos. Da Europa, a varíola avançou para as colônias am ericanas que se form aram no litoral do continente no início do século XVII. O prim eiro m étodo para prevenir a doença foi sua inoculação, que j á era realizada no Oriente, especialm ente na China e na índia, havia séculos. A Europa, que ficara isolada desse conhecim ento, ainda m ais sob os olhos da Igrej a, com eçava a ter as prim eiras notícias sobre o assunto. Em 1700, o Dr. Martin Lister, m em bro da Roy al Society, recebeu cartas de colegas que descreviam os m étodos em pregados na China. Os chineses retiravam as crostas das lesões, reduziam -nas a pó e o assopravam através de bam bus nas narinas das crianças, fazendo com que estas ficassem protegidas. Sabem os hoj e que introduziam quantidades de vírus atenuados ou m ortos que não causavam a doença, m as suficientes para estim ular o sistem a im unológico a produzir anticorpos. O interesse por esse m étodo de prevenção aum entaria em 1711 com a m orte do Im perador Joseph, do Sacro Im pério Rom ano, pela varíola. A Europa recebia as notícias da grande epidem ia que ocorrera na Islândia, que, por ter ficado isolada do continente ao longo de anos, form ara um a população vulnerável, não im une ao vírus. Quando este chegou à ilha, em 1707, m atou cerca de 15 m il pessoas, um terço da população.
Em 1713, o m édico grego Em m anuel Tim oni descreveu um m étodo de inoculação que tam bém era utilizado na Turquia, pelo qual se introduzia a ponta de um a agulha no conteúdo pustulento retirado das lesões da varíola e se faziam pequenas incisões com a agulha contam inada na pele do braço. Ocorria um a reação na pele, que cicatrizava. Hoj e sabem os que se dava um a proliferação do vírus nessa incisão, com reação da im unidade e form ação de lesões no local do ferim ento para posterior produção de anticorpos que protegiam da varíola. Esse m étodo foi denom inado "variolização".
A Roy al Society, recebendo as inform ações sobre esses m étodos, entrou em debates quanto à validade e utilidade do procedim ento. A década de 1710 foi m arcada por discussões entre os m em bros, cuj as opiniões divergiam , enquanto Londres presenciava três epidem ias da doença que m ataram , cada um a, cerca de três m il pessoas. Em 1716, chegaram à cidade os filhos do secretário do em baixador na Turquia que tinham sido inoculados. Foram rapidam ente subm etidos aos exam es dos m em bros da Roy al Society, m as isso pouco aj udou no desenlace das discussões acaloradas, que perm aneceram até 1721. Naquele ano, dois episódios em continentes diferentes, em Londres, na Europa, e em Boston, na Am érica, m arcaram o início das inoculações.
Em 1721, m orava em Londres Lady Mary Wortley Montagu, esposa do em baixador britânico na Turquia. Lady Mary vivera em Constantinopla em 1718, e ali inoculara seu filho, incentivada pelo sucesso do m étodo naquela região e tam bém pelo pavor que tinha à doença que a deixara com cicatrizes em 1715 e que m atara seu irm ão. Quando de seu regresso a Londres, j á conhecia a técnica e estava fam iliarizada com ela. Em 1721, iniciou-se um a epidem ia em Londres e Lady Mary pediu ao Dr. Maitland que inoculasse sua filha, enquanto continuavam os debates na Roy al Society. Dessa form a, ocorreu o prim eiro caso de inoculação na Inglaterra, e Lady Mary fez sua defesa do m étodo. Um a das colônias inglesas na Am érica, Boston recebia um núm ero cada vez m aior de novos habitantes ingleses e, com eles, o vírus da varíola. A cidade entraria para a História com o a prim eira a usar um m étodo de prevenção contra a doença. Em 1666, conheceu a prim eira epidem ia de varíola, que m atou 1% da sua população de quatro m il habitantes. Boston crescia e desenvolvia-se. A doença retornaria quase dez anos depois, dessa vez vitim ando trinta pessoas num único dia. Estabeleceu-se a quarentena: nenhum a em barcação entrava na cidade ou saía dela e seus portões bloqueavam a passagem de transeuntes. Pela prim eira vez na Am érica, foi im presso e distribuído à população um panfleto m édico que descrevia os sintom as da doença, as m edidas de controle, as causas e o tratam ento.
Em 1702, quando a cidade j á havia crescido o suficiente para acom odar seus sete m il habitantes, surgiu um a nova epidem ia que m atou 4% da população. O núm ero de m ortes em cada epidem ia vivida por Boston tendia a crescer proporcionalm ente ao aum ento populacional. Em 1721, a em barcação Seahorse, procedente da Inglaterra, lhe traria m ais um a epidem ia. Não foi de estranhar que, dessa vez, a doença tivesse m atado m ais de 7% da população da cidade, agora j á com 11 m il habitantes.
Naquele ano, Boston notificava os prim eiros casos de varíola provocados pela chegada de em barcações; em dois m eses, enfrentava nova epidem ia. Mas dessa vez foi diferente em razão do conhecim ento da variolização. O Reverendo Cotton Mather, da própria cidade, era defensor da inoculação desde a década anterior. Em 1706, ouviu de seu escravo Onesim us que na África, de onde provinha, era com um a prática de introduzir m aterial das pústulas da varíola em cortes feitos na pele, evitando-se assim a doença. Cotton Mather ficou perplexo não com a inform ação, m as quando anos depois, em 1714, leu as publicações da Roy al Society sobre os m étodos adotados pelos m édicos gregos em Constantinopla, e que coincidiam com o que dissera Onesim us.
Diante da epidem ia de 1721, que estava prestes a dizim ar parte da população local, o reverendo persuadiu o Dr. Boy lston a iniciar as inoculações nos cidadãos suscetíveis à doença. Surgiram divergências de opinião entre os habitantes, houve discussões nas ruas e até m esm o ataques à casa do reverendo. No final da epidem ia, avaliaram -se os resultados. Boy lston registrou seis m il casos de varíola, com 855 m ortes. Foram realizadas 242 inoculações; das 855 pessoas m ortas, apenas seis haviam sido inoculadas. Os dados foram encam inhados para avaliação da Roy al Society. Em agosto daquele ano, o Dr. Maitland iniciou a inoculação experim ental em seis hom ens da prisão de Newgate, que receberam a liberdade com o recom pensa. A Roy al Society convencia-se cada vez m ais do benefício do m étodo.
Todos os dados relativos a inoculações realizadas foram encam inhados ao Dr. Jurin, secretário da Roy al Society, que logo chegou a conclusões sobre os riscos do m étodo. A inoculação causava feridas extensas no braço inoculado, e as infecções — erisipelas — eram freqüentes. O risco do procedim ento era um a m orte em cada cinqüenta inoculações. As discussões agora se referiam a quando inocular, um a vez que a técnica era capaz de levar a com plicações e à m orte, e até ao aparecim ento da varíola ou de epidem ias da doença em áreas que antes não a apresentavam . Muitos m em bros da Roy al Society sugeriram a inoculação em épocas de epidem ia, nas quais a m ortalidade por esse m al era m uito m aior que pela inoculação.
Em algum as localidades de plantações de açúcar da Am érica, foi incorporada com o rotina a inoculação de escravos para evitar a varíola, com um no tráfico. Essa foi um a das prim eiras descrições de inoculação sistem ática em determ inada população. Outro relato de aplicação do m étodo de m aneira sistem ática e com pulsória foi em 1743 no Hospital Foundling, em que seus diretores inocularam todas as crianças ali adm itidas. Por outro lado, alguns m em bros da Igrej a condenavam o procedim ento, pois a varíola era vista com o um castigo divino, e o hom em estaria interferindo na conduta e na vontade de Deus ao tentar evitá-la. Nesse contexto, é im pressionante o que a ciência conseguiu. Se, havia um século, Galileu fora condenado por sugerir que os m ovim entos das m arés não eram obra divina, agora o hom em estava m edindo forças com Deus, pois criava m étodos para com bater e evitar seu castigo. Enfim , estava-se no século do Ilum inism o e o hom em tinha conhecim ento da sua capacidade de fazer as leis da natureza atuarem no sentido de m elhorar sua condição de vida — com o, por exem plo, prevenindo a doença pela inoculação. Assim , não causa surpresa que um dos sím bolos dessa filosofia na França, Voltaire (1694—1778), tenha sido um sim patizante desse m étodo.
A inoculação ganhou im pulso m aior em 1746, com o aum ento do núm ero de casos da doença em Londres, onde se abriram várias casas que em pregavam o m étodo. Som ente com a epidem ia de varíola iniciada em Londres em 1751, que m atou m ais de três m il pessoas e se espalhou nas cidades do interior da Inglaterra, é que a alarm ada população aceitou a variolização em larga escala. Boston veria um a nova epidem ia de varíola em 1763, j á com um a população de 15 m il a vinte m il habitantes. Quando os prim eiros 13 casos surgiram , com 11 m ortes, esperava-se um a taxa de m ortalidade m uito m aior que a últim a, de 7% da população, ocorrida em 1721. Porém , m edidas de quarentena foram em pregadas, e a população alarm ou-se. A variolização m udou o rum o da epidem ia. Cerca de cinco m il pessoas foram subm etidas ao m étodo, o que perm itiu um controle da epidem ia, e esta acom eteu apenas setecentos habitantes, causando um a centena de m ortes, m enos que 1% da população. No século XVII, a doença esteve presente na Guerra da Independência dos Estados Unidos, bem com o a prática da variolização. As forças coloniais am ericanas se rebelaram contra a opressão dos britânicos e assim teve início a guerra que levaria à independência. Quando os colonos atacaram a cidade de Quebec no final de 1775, m orreu o fam oso General Montgom ery, e as tropas do General John Thom as chegaram para apoiar o exército am ericano. Em m arço de 1776, esse exército recebeu um novo visitante em seu acam pam ento, a varíola. A aglom eração de soldados facilitava a dissem inação da doença, e um terço dos m ilitares pereceram . Os 2.500 soldados seriam reduzidos a apenas dois m il, m etade acom etida pela varíola. O General j ohn Thom as m orreu da doença. Durante os m eses de j unho e j ulho, no auge da epidem ia, m orriam cinqüenta a sessenta m ilitares por dia. O núm ero de britânicos acom etidos pelo m al foi m enor: m uitos j á o haviam contraído na infância ou tinham sido subm etidos à variolização. O saldo da epidem ia foi a im possibilidade de os am ericanos tom arem Quebec que, perm anecendo com o um a base britânica, fez com que a Guerra da Independência dos Estados Unidos se prolongasse. O estrago causado pela epidem ia durante a guerra foi tão grande que, em j aneiro de 1777, George Washington aprovou a lei que regulam entou a prática da variolização no exército am ericano.
CHEG A A VACINA
Em bora a variolização tenha obtido repercussão m undial, espalhando-se pela Europa, ainda persistiam alguns problem as: o m étodo poderia causar o desenvolvim ento da doença em pessoas que a recebiam , precipitar o surgim ento de epidem ias ou levar à m orte por erisipelas, um a vez que as lesões que ocorriam no braço inoculado eram grandes, profundas e, m uitas vezes, infectavam .
O sudoeste da Inglaterra era um a região dedicada à econom ia leiteira, com pastagens apropriadas para a criação de gado, ao contrário de outras regiões do país onde se desenvolveram a indústria, a m ineração e a pecuária para corte. Vivia da retirada do leite bovino para com ercialização e, de tem pos em tem pos, ocorria ali um a doença que recebeu o nom e de cowpox, a varíola bovina. Consistia em lesões de vesículas no úbere da vaca, que eram m uitas vezes transm itidas às m ulheres durante a ordenha de um anim al infectado. Mas a doença nessas m ulheres ficava restrita às m ãos, que tam bém com eçavam a desenvolver lesões bolhosas sem elhantes às da varíola, cicatrizando logo em seguida.
A varíola da vaca era transm itida para as m ãos da pessoa que ordenhava o anim al sem causar nenhum m al m aior e evoluía com cicatrização, e não despertaria a atenção dos m édicos se não fosse pelas observações que com eçaram a aparecer. Aqueles que adquiriam o cowpox ficavam im unes à varíola; ou sej a, nos tem pos de epidem ia desse m al, não adoeciam . Por ser um vírus sem elhante ao da varíola, o cowpox estim ula um a resposta im unológica tam bém eficaz para o vírus da varíola, o que cham am os de reação im unológica cruzada.
Várias descrições desse fenôm eno foram apresentadas a organizações m édicas da época. Em 1765, Fewster escreveu textos para a Medical Society de Londres relatando o fato de o cowpox prevenir a varíola; e Jobst Bose publicou, em 1769, artigos referentes à proteção que as m ulheres que se ocupavam da ordenha na Alem anha tinham contra a doença. Em 1781, Nash descreveu com m ais detalhes o papel do cowpox na prevenção da varíola, argum entando que quem o adquiria, além de não contrair a doença, tam bém não apresentava as lesões de pele ao ser inoculado pela variolização. Além disso, com o as vacas curadas não voltavam a desenvolver o cowpox, Nash reforçava o papel de prevenção apresentado por essa infecção, e por isso sugeriu em pregá-la para evitar a varíola em lugar da variolização.
O condado de Gloucester era um a região dedicada ao gado leiteiro, onde, portanto, estavam presentes o cowpox e a crença de que este protegia contra a varíola. Foi em Gloucester que nasceu, em 1749, Edward Jenner. Form ado cirurgião em Sodbury, próxim o a Bristol, Jenner interessou-se pela história natural dos anim ais e realizou estudos com plexos sobre o cuco. Posteriorm ente, pesquisou as doenças que acom etiam os anim ais e o hom em , e seu interesse foi despertado pelo fato de o cowpox proteger da varíola as m ulheres que faziam a ordenha. Sua prim eira oportunidade de saber m ais sobre a questão surgiu em 1789, ano em que se iniciou um surto de varíola suína no condado. Tendo Sarah Nelm es, a babá de seu filho de dez m eses, adquirido a doença, Jenner, em 1790, inoculou o conteúdo das pústulas no m enino e em duas em pregadas da vizinhança. Nenhum dos inoculados m anifestou a varíola. Realm ente ficaram protegidos com o uso da técnica de Jenner.
Em m aio de 1796, com o aparecim ento do cowpox na região, Jenner novam ente retirou o conteúdo das pústulas das m ãos de Sarah Nelm es e o inoculou num garoto de oito anos, Jam es Phipps. Após sete sem anas, quando Phipps foi então inoculado com a varíola, nada ocorreu, o que incentivou Jenner a em pregar o cowpox outras vezes. Os trabalhos foram estendidos a m ais oito crianças, incluindo outro de seus filhos. A teoria de Jenner era com provada, na prática, com um núm ero m aior de crianças inoculadas. Seu trabalho foi apresentado à Roy al Society, que não o aceitou em razão do pequeno núm ero de casos relatados. Diante da rej eição, em 1798 Jenner decidiu publicar um livro sobre a inoculação do cowpox para proteção contra a varíola. Por ter usado o term o latino referente à vaca em suas publicações, vaccina, sua técnica ganhou reconhecim ento — tornou-se um a vacina que protegia da varíola, o que deu origem a essa denom inação em pregada até nossos dias. Apesar da eficiência dessa técnica, Jenner foi com batido pelo fato de usar m aterial de anim ais para inoculação em seres hum anos. Seus opositores chegaram a aventar a possibilidade de as pessoas desenvolverem feições de vaca ou de lhes surgirem órgãos sem elhantes ao do anim al. Outra dificuldade encontrada pelo m étodo foi a aquisição do m aterial do cowpox — era necessário esperar o surgim ento da epidem ia nas vacas. A m aneira de solucionar a falta do vírus inoculável foi usar a secreção que aparecia nas lesões do braço das pessoas vacinadas. A criança que recebia o m aterial em pequenos cortes no braço desenvolvia um a ferida ulcerada e cruenta ao longo de um a sem ana; então, retornava ao m édico, que colhia das lesões o m aterial e o inoculava im ediatam ente no braço de outra criança — o que estabeleceu o m étodo de vacinação cham ado braço a braço.
A técnica provocava m enor reação cutânea do que a variolização, além de não causar surto de varíola — fatos suficientes para fazê-la conquistar a população m édica e ser usada em lugar do prim eiro m étodo. Apesar disso, foi m uito criticada na Europa e dem orou a ser aceita. Os riscos de infecção na lesão ulcerada persistiam com esse procedim ento, pois ainda existia um a chance de m orte decorrente da erisipela; entretanto, eram m enores que os apresentados pela variolização. Além disso, viu-se que o líquido, cham ado de linfa, retirado da lesão ulcerada de um a pessoa e inoculado no braço de outra, poderia transm itir a sífilis, o que desencadeou críticas m aciças. Constatou-se tam bém que a vacinação braço a braço dim inuía o efeito protetor da vacina. Hoj e sabem os que isso decorre da perda do poder im unizante do vírus com o tem po. Para solucionar esses problem as — o da sífilis e o da perda da proteção com o tem po —, recom endava-se que a inoculação fosse feita diretam ente das lesões do úbere da vaca acom etida para os braços da população, a cham ada "vacinação anim al". A vacina anim al ficou restrita a pouquíssim os países europeus até 1864, ano em que foram apresentados resultados no Congresso Médico de Ly on, o que resultou na difusão do m étodo no continente. Tão logo as casas específicas para a vacinação — com estrutura para adm issão da vaca, extração do vírus de seu úbere e inoculação na população — com eçaram a ser criadas, um a antiga onda de críticas explodiria no m eio científico.
Acreditava-se que os m ateriais extraídos da vaca não deveriam ser introduzidos em seres hum anos, pois se tem ia criar características desse anim al nos inoculados, ou sej a, "avacalhar" as pessoas. O receio j á aparecia no fam oso quadro de Jam es Gillray, do início do século XIX, que m ostra pessoas com chifres e tam bém com cabeça de vaca no rosto e no braço. Enquanto as críticas persistiam , a vacinação ganhava reconhecim ento por seus resultados, sendo cada vez m ais inoculado o "vírus" da varíola retirado de vitelos. A m edicina do Im pério Rom ano acreditava que os m ales eram ocasionados por venenos presentes na natureza, cham ados de vírus. Daí nasceu a inoculação com o veneno que causava a varíola, ou sej a, com o vírus da doença, antes que se tivesse conhecim ento da relação entre os m icroorganism os e as infecções, e m uito antes de se descobrirem os vírus.
Para Jenner, o controle da varíola pelo m étodo da inoculação extinguiria a doença da face da Terra, o que foi confirm ado na década de 1970. Hoj e, ela está extinta, m as o vírus é guardado em laboratório nos Estados Unidos e na Rússia. Essas am ostras do vírus da varíola, que ficaram esquecidas pela população m undial, voltam aos noticiários no início do século XXI, com o verem os no capítulo sobre guerra bacteriológica.
A G RANDE REVOLUÇÃO
Em Paris, no dia 2 de m aio de 1789, os deputados eleitos desfilam para o rei da França, Luís XVI, abrindo os Estados Gerais convocados diante da crise que se abatia sobre o reino. Era o início dos anos turbulentos que m arcariam a história européia e a história das doenças infecciosas.
Mal se iniciavam as atividades dos Estados Gerais, os deputados do Terceiro Estado indispunham -se com a nobreza e o clero proclam ando a Assem bléia Nacional. As tropas suíças do rei m obilizavam -se em Versalhes. No dia 12, os rum ores sobre a dem issão do Ministro Necker, contrário ao aum ento dos im postos, inflam am as ruas de Paris. Realizam -se com ícios e agitações, seguidos de passeatas em que se carrega o busto de Necker. As tropas iniciam um a repressão às m anifestações da população. Na m adrugada, irrom pem incêndios nas barreiras de acesso à cidade. São os protestos contra as altas dos preços dos cereais. A m assa sublevada aum enta em 48 horas, j á não se consegue deter a revolução liderada por m em bros dos Estados Gerais. Finalm ente, na m anhã de 14 de j ulho, a população invade o Hotel des Invalides, arm ando-se com m ilhares de fuzis. Em busca de m unição e pólvora, em preende a m archa para a prisão do Castelo da Bastilha, que é tom ado às 17h — episódio que se tornará um m arco da Revolução Francesa. As m unições são pilhadas; os acusados de ocultar cereais e arm as, enforcados nas ruas. O rei perde poderes, acata as decisões da Assem bléia, interrom pe a ação das tropas, dem ite m inistros e readm ite Necker. No interior, os cam poneses atacam as instalações da nobreza. Abre-se um a nova época em 26 de agosto com a Declaração dos Direitos do Hom em e do Cidadão.
Em m eio aos boatos de golpe da Guarda Real, a Assem bléia declara-se inseparável do rei. A população invade o Palácio de Versalhes e força a m udança de Luís XVI para a cidade. O poder real declina de form a acentuada até ficar dependente das determ inações da Assem bléia, com a Constituição de 1791 - a m esm a que defendia os direitos dos negros nas colônias francesas, o que incentivaria a revolução de independência do Haiti. A Assem bléia dividia-se entre os partidos dos defensores da revolução - incluindo Robespierre, o advogado Danton e o m édico Marat — e os favoráveis à restituição do rei ao trono, os contra-revolucionários. O confronto dos partidos intensifica-se em 1792, aum entam as agressões de am bos os lados. Em abril daquele ano, os revolucionários do governo francês obrigam o rei a declarar guerra às m onarquias vizinhas por estas não extraditarem em igrados franceses. O nacionalism o ferve entre a população, nasce o hino "A Marselhesa", cantado na chegada a Paris dos m arselheses da Guarda Nacional. Nações vizinhas defendem a perm anência do rei. As forças prussianas invadem a França, o pânico tom a conta da população, a revolução é am eaçada e há o risco de Luís XVI ser restituído ao trono. As tensões internas dos partidos agravam -se. O rei da Prússia invade o nordeste da França com um exército de 42 m il hom ens; e dessa vez, ao contrário do que viria a ocorrer em batalhas futuras, um agente infeccioso se alia à Revolução Francesa. Um a epidem ia de disenteria instala-se nos acam pam entos m ilitares dos invasores e m ata ou debilita 12 m il deles, facilitando a vitória da França.
As tropas francesas conseguem expulsar os prussianos, os esquerdistas guilhotinam o rei em 1793 e, finalm ente, o assassinato de Marat deflagra o Terror na França, liderado por Robespierre. Todos os suspeitos de se colocarem contra a revolução são presos e guilhotinados, iniciando-se assim um a perseguição indiscrim inada que levou à m orte, em 1794, até o hom em que m udou o estudo da quím ica, Lavoisier.
Já em 1790, a Assem bléia Nacional am pliava suas ações a todos os territórios da França, incluindo as colônias. As possessões francesas na região oeste da ilha Hispaniola (atual Haiti) ficavam a cargo da Assem bléia da Colônia, form ada por brancos. A decisão de abolir o regim e de escravidão, em concordância com a Declaração dos Direitos do Hom em e do Cidadão, deveria ser tom ada pela Assem bléia.
O Haiti era um a das colônias m ais lucrativas do m undo à época. Era responsável por m ais da m etade da produção m undial de açúcar, além de produzir índigo, café e algodão. O núm ero de escravos negros na ilha chegava a quase quinhentos m il nos tem pos da revolução, a m aioria absoluta da população. Em 1791, iniciam -se os m ovim entos revolucionários para a libertação dos escravos, tendo à frente o general negro Toussaint L'Ouverture. Sua reivindicação era o fim da escravidão e o estabelecim ento de um regim e livre no qual os negros tom assem a decisão sobre seu cam inho. Para isso, contava com o apoio de 90% da população da ilha escravizada. O Haiti seria m arcado por um a sucessão de guerras de libertação que destruiriam as áreas de plantação e causariam sua decadência econôm ica.
Com os prim eiros m ovim entos revolucionários negros, os grandes fazendeiros brancos foram perseguidos e obrigados a um a fuga m aciça, retornando à França. Muitos, entretanto, seguiram para a então capital dos Estados Unidos, a Filadélfia. Com esses fugitivos em barcaram pessoas doentes de febre am arela e tam bém m osquitos, causando assim a grande epidem ia vivida na Filadélfia em 1793. Enquanto a cidade de Washington estava em construção, a Filadélfia, com seus cinqüenta m il habitantes, com andava a adm inistração do país, que se tornara independente havia pouco tem po. O início da epidem ia m udou a rotina da cidade: hospitais im provisados não suportavam o núm ero crescente de doentes, a quarentena foi instituída nos portos e as fugas se iniciaram . Nada pôde evitar que 17 m il pessoas fossem acom etidas e que 10% da população local m orresse. As potências européias, Inglaterra e França, principais beneficiárias das produções de açúcar do Caribe, receavam rebeliões em cascata nas outras colônias. Não tinham saída senão evitar a independência do Haiti, e assim partiram para a invasão com obj etivo de controlar a rebelião e pôr-lhe fim . Apesar de sua superioridade em arm am ento m ilitar, os europeus não contavam com a presença das doenças tropicais na ilha, que seriam m ortais para seus com batentes, os quais nunca haviam tido contato com elas e, portanto, não lhes tinham im unidade.
Entre 1793 e 1798 ocorreram as invasões européias na ilha para o controle da revolução. Os obj etivos ficavam claros com as ordens do general francês Le Clerc para que se dizim assem os negros, hom ens ou m ulheres, em todo o Haiti, poupando apenas as crianças m enores de 12 anos. Assim , dos quase quinhentos m il negros da ilha foram m ortos 150 m il. Da população restante, excetuando-se os doentes e inválidos, restaram 170 m il em condições de trabalho nas plantações. O genocídio poderia ter sido m aior e a invasão européia bem -sucedida se não fossem a febre am arela e a m alária que acom eteram os europeus.
Nos períodos da invasão, os britânicos enviaram vinte m il soldados e os franceses, 35 m il. Pela superioridade das arm as européias, o m assacre dos negros progrediu; porém , com a febre am arela e a m alária, os m em bros dos exércitos europeus foram caindo um a um . A força britânica perdeu quase 13 m il com batentes, 65% do total, e m ais 1.500 ficaram inválidos; do lado dos franceses, m orreram 29 m il hom ens, 83% do total. Com o efetivo reduzido a seis m il hom ens de cada lado, o sucesso da invasão ficou prej udicado. Assim , em 1797, o líder negro Toussaint despachava o com issário francês da República para a França e iniciava os últim os atos para a independência em 1804. Napoleão ainda tentou um últim o esforço para o controle da ilha, novam ente m alsucedido por causa da febre am arela. Em 1802, chegavam 25 m il soldados ao Haiti. A doença com eçou a m atá-los nos seus navios ancorados nos portos. Na prim eira sem ana de j unho, m orriam três m il franceses; em setem bro, o núm ero subia para quatro m il, com cem óbitos por dia. Enquanto se desenrolavam as guerras na ilha do Haiti, o exército francês retom ava os territórios invadidos pelas m onarquias européias e, após a ascensão de Napoleão, em 1798, com eçava a era de suas conquistas.
O governo francês preocupava-se com a corrida arm am entista e visava com bater as coligações m onárquicas da Europa. Assim , criou um a com issão que funcionava com o um Ministério de Arm am ento. Aum entaram as fundições de ferro para a produção de arm as e canhões. A industrialização contribuiu com a invenção e o aperfeiçoam ento de equipam entos de perfuração de m etais, viaturas para transporte de arm am entos pesados, m elhorias no calibre e com prim ento dos canhões, m unições de qualidade superior e reforço de navios com chapas de ferro.
A França chegava a produzir anualm ente cerca de 240 m il espingardas e sete m il canhões, tendo fabricado entre 1803 e 1815 m ais de 2,5 m ilhões de arm as de
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fogo. Núm eros desse porte só foram registrados no país precursor da
industrialização, a Inglaterra. Não tendo rivais no continente, o exército de Napoleão não encontrou dificuldades em concretizar a expansão de conquistas, criando assim um im pério francês praticam ente indestrutível. O General Napoleão, nascido na Córsega e educado em Paris, vencia as coligações européias da Prússia, Áustria, Inglaterra e Rússia e am pliava os dom ínios franceses com vitórias sucessivas de seu exército. Invadiu o norte da Itália e estendeu as conquistas para a Espanha e a região central da Europa. Em 1812, o im pério de Napoleão atingiu sua extensão m áxim a, m as entraria em decadência ao invadir a Rússia, em parte pelas epidem ias de tifo. Já no início da Revolução Francesa, quando o rei ainda vivia, os exércitos prussianos invadiram a França em defesa da m onarquia. As infestações de piolhos e sua proliferação não encontravam barreiras nos aglom erados de m ilitares, cuj as precárias condições de higiene favoreceram a dissem inação do tifo. O exército prussiano adoeceu em Verdun e Valm y, forçando o recuo das tropas, aj udando assim o Estado revolucionário da França. As cidades acom etidas em seguida foram Vendée e Nantes, esta registrando dez m il m ortes. Um a vez presente na Europa, o tifo atingiu exércitos em conflito em diversos acam pam entos m ilitares. No final do século, m orreriam em Gênova 14 m il pessoas e na Silésia, cem m il.
No com eço do século XIX, o exército francês avançava na conquista dos territórios europeus e, com ele, propagavam -se as epidem ias de tifo. Em 1805, as tropas de Napoleão invadiram e tom aram a cidade de Viena. Poucas sem anas depois, Napoleão venceu a batalha de Austerlitz, consolidando sua vitória no leste europeu. Os soldados, cansados das batalhas e sofrendo infestações de piolhos nos acam pam entos, dissem inaram o tifo. Os feridos rem ovidos para Brunn levaram a epidem ia a essa cidade. A doença alastrou-se na Morávia, Silésia, Áustria, Galícia e Hungria.
As tropas de Napoleão m archavam agora para o território da Prússia. Era o final de 1806, ano em que os franceses levaram o tifo e a disenteria às populações de Marienburg e Brom berg e do leste da Prússia, causando a m orte de m ilhares de pessoas. Chegaram à cidade de Danzig iniciando o cerco que precipitaria a rendição, em abril de 1807, dos prussianos enfraquecidos e fam intos. A entrada triunfal de Napoleão na cidade deu-se no dia lo de j unho. O tifo m arcou presença nesse episódio.
Em 1812, Napoleão decidiu-se pela invasão da Rússia, e para tal tinha a segurança de contar com um dos m aiores contingentes m ilitares da História, cerca de seiscentos m il hom ens. Quando reuniu seu exército no leste europeu para a invasão, ocorreu o inesperado. Os cam poneses da região transm itiram piolhos contam inados para os m ilitares, que com eçaram a desenvolver o tifo e m orrer no percurso ao encontro das tropas russas. A m edida que os franceses invadiam o território, o exército do país recuava atraindo-os para o interior. Napoleão teria de encontrá-lo rapidam ente para iniciar o com bate e decidir a batalha; se dem orasse, continuaria a perder seus soldados e chegaria com poucos com batentes ao encontro do inim igo. Foi o que ocorreu: ao atingir o rio Dnieper e atravessá-lo, transcorrido um m ês, Napoleão j á não contava com oitenta m il hom ens, entre m ortos e doentes. Em seis sem anas de deslocam ento, 20% do exército inicial estava fora de condições de com bate. Ao atingir a cidade de Sm olensk, Napoleão foi obrigado a m ontar um acam pam ento, visando à recuperação das tropas e à ação dos m édicos da cam panha, na tentativa de bloquear a epidem ia. Mas nenhum a das m edidas adotadas se voltou à ehm inação dos piolhos, j am ais suspeitos de causar o grande m al que abatia o exército francês. Vendo o núm ero de com batentes dim inuir a cada dia, Napoleão avançou contra Moscou, tom ando-a sem encontrar o exército russo. Após essa batalha irrelevante para a decisão da guerra, as forças francesas foram obrigadas a bater em retirada; dessa vez, teriam de enfrentar a chegada do inverno rigoroso, que, som ado ao tifo, as dizim aria. Napoleão regressou com m enos de noventa m il dos seiscentos m il hom ens que partiram , um a perda im portante para o prosseguim ento das batalhas. E m ais, em seu retorno, os m ilitares levaram a doença às cidades européias, principalm ente as da Alem anha, ocasionando epidem ias esparsas pelo continente. Napoleão ainda conseguiu reunir cerca de quinhentos m il hom ens para o com bate, à custa de j ovens recrutados em caráter de urgência. Ao recom eçarem as cam panhas m ilitares na região da Alem anha, j á com a presença do tifo, ele constatou a perda de com batentes pela doença. Seguiram -se as batalhas de Dresden e Bautzen em 1813, com um grande núm ero de j ovens franceses m ortos nos cam pos de batalha; porém , o núm ero dos que m orreram em decorrência do tifo foi m uito m aior.
Os soldados franceses dissem inaram a doença pelas cidades da Alem anha. Em Berlim , a incidência de tifo aum entou 400%. A doença espalhou-se pelas localidades ao longo do rio Reno e nas regiões central e norte da Alem anha. Quase m etade dos quinhentos m il hom ens de Napoleão m orreu de tifo. Quando encontrou as tropas inim igas na batalha de Leipzig, o exército, reduzido e abatido, não suportou o com bate, o que determ inou sua prim eira grande derrota. As cidades do sul da Alem anha, na Baviera, conseguiam evitar a entrada do tifo quando, por decisão das autoridades, os soldados franceses doentes eram m antidos fora delas em barracas e hospitais. Após a derrota de Leipzig, em outubro de 1813, a situação m udou em razão do grande contingente de franceses refugiados que entraram nas cidades e dissem inaram a doença. Novam ente no regresso das tropas, o tifo atingiu a Alsácia, Lorena e Cham pagne, até chegar às portas de Paris. Cerca de dois m ilhões de pessoas contraíram a doença nos anos de 1813 e 1814 e aproxim adam ente 250 m il m ortes ocorreram na Alem anha. Após a derrota final de Napoleão em 1815, a Europa viveu um pós-guerra de devastação nos terrenos agrícolas; houve fom e e epidem ias de tifo que duraram até 1819, com um a taxa de m ortalidade de 16% a 37% dos casos. Foi dessa form a que a doença interferiu nas guerras de Napoleão, que, por sua vez, influenciaram no surgim ento das epidem ias de tifo no início do século XIX.
1
Im agem rom ana representando Asclépio, a quem se iniciou um culto no século
VI a.C. por se acreditar que detinha a arte da cura das doenças; sua figura era
sem pre representada nos altares com o bastão trazendo a serpente enrolada. Ao
lado, Higéia, filha de Asclépio, incum bida de m anter e restaurar a saúde dos
doentes.
2. Pintura grega no fundo de um a taça m ostrando o ato de vom itar com o
m aneira de elim inar os hum ores em excesso que seriam causadores de doenças.
O vôm ito m uitas vezes tam bém era provocado por substâncias ingeridas com a
m esm a finalidade terapêutica.
7
Em "O Triunfo da Morte", de Pieter Brueghel, "o Velho", pintado
aproxim adam ente em 1562, um a cena em que a m orte ceifa todas as vidas.
8
Cena da peste bubônica vivida em Londres, 1665. A seqüência de im agens
m ostra os habitantes fugindo em em barcações e pelas estradas. Nas terceira e
quarta figuras, o transporte dos m ortos deixa de ser realizado com o nas
cerim ônias habituais para ser feito em carroças repletas de corpos, depois
enterrados em valas coletivas. Gravura em m adeira de Magdalene College.
10. Um a das principais representações da sífilis, por Albrecht Durer, incluindo a influência dos astros no seu surgim ento. O hom em representado expõe as lesões da sífilis no braço, palm a das m ãos, pernas e face. No ano de 1484, registrado na
esfera, ocorreu um a conj unção de corpos celestes que, segundo alguns,
ocasionou o surgim ento da epidem ia anos m ais tarde.
16
As em barcações eram responsáveis por levar determ inadas epidem ias, com o a
cólera, para outras nações. Esta litogravura do século XIX, publicada na Puck Magazine, de Nova York, m ostra a cólera pegando carona num a em barcação e
os esforços da população e dos órgãos de saúde para evitar sua chegada.
17
Na epidem ia de cólera em Granada, 1865, a teoria dos m iasm as ainda
dom inava. Os m oradores acendiam fogueiras pelas ruas na tentativa de purificar
o ar ou afastar as substâncias nocivas que continha.
18
"O Carnaval de 1876" no Rio de Janeiro, desenho de Agostini para a Revista
Ilustrada, m ostra que quem se divertia m esm o era a m orte ao levar um grande
núm ero de vidas nas epidem ias de verão.
19
Desenho de A Sem ana Ilustrada, 1861, retratando, no Rio de Janeiro, os escravos "tigreiros", responsáveis pelo despej o diário dos dej etos hum anos na praia quando
ainda não havia sistem a de esgotos.
20
As tropas inglesas adotaram m edidas drásticas na cidade de Hong Kong para
conter o avanço da peste bubônica na década de 1890. Lim pavam -se ruas e
casas, entulhos e lixos eram queim ados.
21
Para o sucesso da construção do canal do Panam á, os Estados Unidos deveriam
prim eiro controlar a febre am arela. Nesta gravura de W. A. Rogers, publicada na
capa da revista Harpers Weekly, de Nova York, em 1905, a doença é
representada com o a prim eira m ontanha a ser rem ovida.
24
Hospital de Em ergência do cam po Funston, Kansas, im provisado durante a epidem ia de gripe espanhola de 1918 para atender o grande núm ero de soldados
am ericanos enferm os.