A História e Suas Epidemias
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Com a vegetação nativa destruída pelos coelhos, os ventos e as chuvas com pletaram as erosões do terreno. Os portugueses foram forçados a abandonar sua colônia prom issora. Partiram então para a ilha da Madeira, que recebeu esse nom e por ter o terreno totalm ente coberto de árvores. Na intenção de lim pá-lo para fazer m oradias e plantações, atearam fogo na vegetação da ilha e, m uitas vezes, perdido o controle, perm itiram que grandes áreas fossem consum idas pelas cham as. A ilha queim ou durante sete anos. Finalm ente, entre erros e acertos, os portugueses puderam aproveitar um terreno para benefício próprio. Em 1452, enquanto os coelhos dom inavam a ilha de Porto Santo, a Coroa portuguesa autorizou a im plantação do prim eiro engenho de cana-de-açúcar na ilha da Madeira. Nos vinte prim eiros anos, a produção de açúcar da ilha saltou de seis m il arrobas anuais para 15 m il, atingindo a m arca de 140 m il arrobas no início do século XVI. O núm ero de habitantes da ilha colonizada passou de oitocentas pessoas nos prim eiros anos para cerca de 19 m il no final do século.
Portugal com eçava seu im pério de produção de açúcar — conhecido no Oriente, am plam ente aceito pelo m ercado consum idor europeu e im plantado pela prim eira vez no Ocidente. Entre as alterações ecológicas ocorridas com a chegada dos europeus aos m ares do Atlântico nenhum a foi tão dram ática quanto a que estava por vir e que seria um prenúncio do que se preparava para a população ainda tranqüila da Am érica.
As ilhas Canárias, ao contrário das anteriores, eram habitadas pelos guanchos. Esse povo originário da costa norte da África perm aneceu por m uitos séculos em isolam ento. Vivendo de form a prim itiva, não conhecia as ferram entas de ferro, contentando-se com os utensílios de paus e pedras. Não tendo habilidades náuticas, ficou no isolam ento das ilhas do arquipélago, sem nenhum contato com o continente, vivendo da agricultura, caça e pesca. O grande problem a enfrentado pelos guanchos foi desconhecer os agentes infecciosos que se instalaram na Europa, o que os tornou presa fácil das doenças que os europeus lhes trariam com sua chegada.
Entre 1415 e 1466, os portugueses organizaram expedições para a conquista desse arquipélago. Em diversas invasões, vários guanchos foram capturados com o escravos para o trabalho nos engenhos da ilha da Madeira. Invasões com m ais de dois m il portugueses e m ais de cem cavalos foram registradas no período. Enquanto os guanchos eram obrigados a viver em m enos ilhas, sua cultura sobrevivia. Em 1475, quando os reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel, organizaram a conquista final das ilhas, os povos nativos estavam aglom erados em apenas três delas — eram sete no início. Portugal e Espanha travaram batalhas pela conquista das ilhas Canárias, cabendo a vitória ao povo espanhol, com a aj uda dos agentes infecciosos que seguiram em sua arm ada.
Em 1478, hom ens, cavalos e canhões desem barcaram na ilha Gran Canária para a conquista que só se consolidaria após cinco anos de luta com as guerrilhas dos guanchos ali refugiados. Além dos hom ens e arm am entos, os espanhóis contaram com um aliado europeu desconhecido dos guanchos: a infecção pela
modorra {20} , Não se conhece a causa da modorra, dada a falta de descrição suficiente de seu quadro clínico, esse tipo de infecção contagiosa perm anece um a incógnita. Sem saber por que, os guanchos com eçaram a adoecer e m orrer. A epidem ia aj udou os espanhóis m atando três quartos dos nativos da ilha. Em 1483, cerca de dois m il guanchos sobreviventes se renderam ao poderio espanhol, e assim abriram -se as portas para a im plantação do prim eiro engenho de açúcar no ano seguinte.
Entre 1492 e 1495, os espanhóis conquistaram as duas últim as ilhas do arquipélago em posse dos guanchos — La Palm a eTenerife. Após invasões m al-sucedidas, essas ilhas foram conquistadas pelos espanhóis, e novam ente com o auxílio da modorra. Foi um a das prim eiras infecções européias a dissem inar-se por povos isolados desse continente, deixando antever as conseqüências que um agente infeccioso causaria se introduzido num a população que com ele não m antivera contato prévio — o que se repetiria depois no continente am ericano. A m edida que as grandes navegações cobriam distâncias m aiores, surgiam problem as para a m anutenção da viagem . A alim entação era fundam ental para a garantia da tripulação. Diariam ente, fornecia-se para cada tripulante um a quantidade fixa de vinho e biscoito, alim entação básica; m as podia ser tam bém m anteiga, azeite, açúcar e vinagre. A carne era m uitas vezes transportada viva no convés — ovelhas, porcos, cabras e aves, que eram abatidos de acordo com a necessidade.
Freqüentem ente, a calm aria dos ventos fazia com que a viagem se estendesse m ais que o esperado e a escassez de alim entos causava a fom e. Proliferavam ratos e baratas nos porões, disputando os alim entos arm azenados, e estes se deterioravam nos locais quentes e úm idos em que eram guardados; biscoitos em boloravam e a água estagnada nos tonéis se contam inava com bactérias, ocasionando diarréias. Se um a doença resultou dessas navegações, sem dúvida, foi a diarréia infecciosa. Acom etia a tripulação por m eio da alim entação contam inada, aliada à m á condição de higiene, com o, por exem plo, a inexistência de banheiro — faziam -se as necessidades em assentos pendurados nas am uradas.
Além das diarréias, relatam -se várias doenças febris, não descritas, que acom etiam a tripulação. Apesar das doenças infecciosas, o m aior tem or, e tam bém o m aior problem a diante das grandes distâncias, era a carência de vitam ina C na dieta, que causava o m al das gengivas — hoj e denom inado
escorbuto —, descrito na viagem de Vasco da Gam a à índia em 1498.{21} Quando a frota de Vasco da Gam a atingiu a costa oriental da África, a doença com eçou a m anifestar-se na tripulação. De acordo com a descrição, ocorria o crescim ento das gengivas com apodrecim ento e odor fétido — sendo necessário cortá-las para que não cobrissem os dentes —, além de inchaço nos pés. O retorno era, m uitas vezes incerto, registrando-se alta m ortalidade nas viagens pela quantidade de doenças, infecções, naufrágios, guerras e com bates. Os m arinheiros, grum etes e paj ens dorm iam espalhados pelo convés, expondo-se ao frio e às chuvas, o que aum entava a incidência de infecções pulm onares. Muitas vezes, no regresso havia m enos que a m etade da tripulação original. Na viagem de Vasco da Gam a, que partiu com 170 hom ens, apenas cerca de um terço da tripulação retornou. Houve a m esm a proporção de perdas entre a tripulação que
regressou da viagem de Pedro Álvares Cabral, iniciada com 1.500 hom ens. {22} Mais im portante que as infecções a bordo das em barcações foi a propagação de doenças infecciosas desconhecidas entre novos povos — no início, os da África. É grande a possibilidade de introduzir-se um agente infeccioso com poder de levar à m orte um a população que j am ais teve contato com ele, e isso aconteceu com os índios am ericanos.
Enquanto Portugal conquistava de form a organizada e program ada o hem isfério sul, o genovês Cristóvão Colom bo propunha ao Rei Dom João II, de Portugal, o descobrim ento do cam inho das índias navegando para o Ocidente. A proposta não foi aceita, um a vez que a expedição de Bartolom eu Dias chegou inform ando ter conseguido transpor o fam oso cabo das Torm entas, no extrem o sul da África, em 1488. Essa proeza fez com que esse nom e fosse m udado para cabo da Boa Esperança. Dessa form a, ficava m ais concreto o sonho de atingir as Índias. Rej eitado por Portugal, o plano de Colom bo foi posteriorm ente aceito pelos reis católicos de Castela e Aragão. A história das doenças infecciosas na Am érica teria m ais um capitulo com o descobrim ento do novo continente em 1492. Esse fato m arcou o deslocam ento de espécies anim ais e vegetais para outras terras. A Europa conheceu novos alim entos originários da Am érica, com o o m ilbo, a m andioca e a batata. Mais rentável que o trigo europeu, a batata supriria as necessidades da população m iserável, aj udando a am enizar a fom e. O chocolate, consum ido pelos índios da Am érica Central, foi introduzido na Europa, onde, encontrando o açúcar, adquiriu gosto agradável, não m ais am argo, e se difundiu pela Europa. Cham ado pelos m aias de cacao e pelos astecas de
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cacabuatl, seu nom e foi m odificado pelos espanhóis. Levado da Ásia para a
Europa, o açúcar era então introduzido na Am érica. O em baixador francês em Lisboa, Jean Nicot, enviou a Catarina de Médici, na França, a planta do tabaco originária da Am érica, que difundiu pela Europa o hábito de fum ar e foi posteriorm ente cham ada de "nicotina" em hom enagem a
esse em baixador.{24}
As em barcações européias levavam cavalos e gado para as terras am ericanas. O cavalo foi m uito utilizado pelos exércitos espanhóis para ataques aos índios. Levados por Colom bo na expedição de 1493, proliferaram no nordeste m exicano e alastraram -se na Am érica do Norte. As prim eiras tentativas de colonização do rio da Prata, com lutas entre europeus e índios, deram origem à criação de gado e cavalos nas planícies dessa região. Com os assentam entos espanhóis em Buenos Aires, a chegada dos portugueses ao sul do Brasil e a chegada dos j esuítas, estim a-se que o núm ero desses anim ais tenha alcançado 48 m ilhões de cabeças em 1700. Tam bém em 1493, o porco foi introduzido na Am érica e criado com o fonte nutriente. Reproduziu-se e, tornando-se selvagem , difundiu-se das Antilhas para a Am érica do Sul e costa dos Estados Unidos. O m esm o ocorreu com cabras, carneiros, galinhas e gatos.
Grandes transtornos foram causados por algum as espécies levadas à Am érica pelos europeus, com o a dos ratos pretos. Transportados nos porões das em barcações, desem barcaram nas terras am ericanas e dissem inaram -se com facilidade. Em 1607, fundou-se na Virgínia, Estados Unidos, o povoado de Jam estown. Com a proliferação dos ratos, a arm azenagem de alim entos foi destruída em 1609, assim com o as plantações. A fom e atingiu o povoado e quase o extinguiu. A população sobreviveu com grande dificuldade, graças à caça e à pesca. Na m esm a época, a com unidade de franceses instalada em Port Roy al, na Nova Escócia, enfrentava problem as iguais. Apesar de toda a m igração de espécies anim ais entre os dois continentes, o m aior im pacto para am bas as civilizações foram as trocas de suas espécies m icroscópicas. As em barcações transferiam agentes infecciosos desconhecidos de um continente para outro — no início entre a Europa e a Am érica, depois foram incluídos agentes originários da África. A sífilis, supõe-se, partiu da Am érica para a Europa e, em troca, outros agentes foram enviados para a Am érica, com o os causadores de varíola, peste, saram po, tifo e gripe. A população de índios das ilhas do Caribe j am ais tivera contato com essas doenças infecciosas, endêm icas nas principais cidades européias, com o Florença, Paris, Gênova, Sevilha e Londres.
A SÍFILISCHEG A À EUROPA
Não há registros de que a m odesta frota de três em barcações da prim eira expedição de Cristóvão Colom bo tenha levado algum a doença infecciosa para os indígenas. No entanto, acredita-se que no retorno dos espanhóis, em 1493, as em barcações Nina e Pinta tenham transportado para a Europa um a form a agressiva de infecção, a sífilis. Apesar de persistirem dúvidas de que a origem da doença sej a am ericana, vários relatos históricos referem a propagação da sífilis no sentido Novo Mundo — Velho Mundo. O filho de Colom bo, Fernando, contou que o pai, ao chegar à vila São Dom ingos, encontrou os habitantes com a sífilis epidêm ica e elevada m ortalidade. No retorno da expedição, o com andante da Pinta foi acom etido por enferm idade sem elhante à sífilis, contraída em relações sexuais com as Índias da ilha Hispaniola. O m édico Ruy Diaz de Isla, que trabalhava em Barcelona à época, descreveu a epidem ia de sífilis naquela cidade após a chegada triunfal dos espanhóis.
A sífilis seguia, então, para as outras cidades portuárias da Espanha e da Itália. Na segunda viagem de Colom bo, de acordo com relatos do m onge Rom an Pane, a doença estava am plam ente presente na ilha Hispaniola. Posteriorm ente, o Frei Bartolom é de Las Casas, defensor dos indígenas, registrou sua ocorrência entre os índios am ericanos; Gonzalo Fernandes de Oviedo descreveria espanhóis acom etidos pela sífilis na sua chegada à ilha Hispaniola; e durante a incursão de Hernán Cortez ao México, seu com panheiro Bernardo Díaz de Castillo registraria o adoecim ento por sífilis do exército espanhol naquele território. Se fontes históricas j á fornecem indícios para que se acredite que a doença teve origem na Am érica, a arqueologia reforça isso. Muitas vezes, a sífilis causa acom etim ento ósseo, levando a deform ações que podem ser avaliadas em esqueletos. Quando se estudam os esqueletos europeus, raram ente se encontram lesões com patíveis com a sífilis antes do Descobrim ento da Am érica, e as poucas que existem criam controvérsias sobre terem sido realm ente causadas pela doença. Por outro lado, esqueletos de índios am ericanos anteriores à presença dos europeus na Am érica revelam um a am pla coletânea de achados com patíveis
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com a sífilis, que existia no continente m uito antes da chegada dos espanhóis. Em j unho de 2000, um a nova descoberta reacendeu o m istério da origem da sífilis. Num m osteiro da cidade de Hull, na Inglaterra, foram encontrados esqueletos com lesões sugestivas de sífilis, m as a data estim ada pelo carbono 14 evidenciou que as m ortes ocorreram antes da viagem de Colom bo. Ainda há necessidade de novos estudos para reafirm ar a data desses esqueletos, m as se levanta a hipótese de que nesse caso particular a doença tenha sido levada pelos vikings quando estes exploraram territórios am ericanos, sem que ela tenha se dissem inado pela Europa à época. Por enquanto, são especulações que aguardam descobertas e trabalhos futuros para confirm á-las ou não. No m om ento, a teoria m ais aceita é a de que a sífilis tenha se originado nos índios am ericanos e depois m igrado para a Europa.
As vésperas da chegada da doença à Europa existia no continente prom iscuidade sexual por parte da população m asculina — bordéis eram aceitos nas cidades e a prostituição adm itida com o prática com um . Os prostíbulos acom odavam garotas pobres e até m esm o sem fam ília. Era com um esses locais receberem viaj antes, garotos j ovens e recém -chegados. Em Rom a existiam , na chegada da sífilis, m ais de seis m il prostitutas; e em Veneza, no início do século XVI, m ais de 11 m il. A doença entrava pelas cidades portuárias da Espanha, França e Itália, espalhava-se pelos prostíbulos e dal, por m ercadores e com erciantes, para os portos do Mediterrâneo. Com a aceitação da prom iscuidade sexual, a sífilis proliferou nas com unidades litorâneas européias. Em 1494, deu-se o início de um a era de guerras entre espanhóis e franceses pelo dom ínio dos territórios italianos quando o exército francês m archou para suas conquistas territoriais em Nápoles. Enquanto Leonardo da Vinci se preparava, em Milão, para pintar a "Ultim a Ceia", seu patrocinador e protetor Ludovico, da fam ília Sforza, que dom inava a corte daquela cidade, perm itia a passagem do exército francês pelo seu território rum o a Nápoles. O exército francês, com trinta m il m ercenários, finalm ente chegou ao reino de Nápoles e o dom inou. Nápoles era um a das cidades m ais populosas da Europa com 150 m il habitantes, superando outras potências m ercantis com o Veneza, com cem m il habitantes, Lisboa, com cinqüenta m il, e Sevilha, com quarenta m il. Recebia com erciantes e viaj antes de todo o m undo; sua baía perm anecia abarrotada de em barcações. Essa aglom eração de estrangeiros oriundos de diversas partes, tornava a cidade suj eita a doenças levadas pelos viaj antes. Dessa form a, a sífilis chegou e perm aneceu em seus prostíbulos. Com a vitória dos franceses, os com batentes com em oraram nos prostíbulos da cidade durante dias, sem saber da presença desse novo habitante europeu, a sífilis.
O grande exército francês era form ado por com batentes m ercenários da Espanha, França, Suíça, Alem anha, Inglaterra, Polônia e Hungria, entre outras nações. Com o retorno de cada com batente para sua terra de origem , a sífilis dissem inou-se pela Europa. Em 1495, estava na Alem anha, na França e na Suíça; em 1496, j á se m anifestava na Holanda e na Grécia; em 1497, na Inglaterra e na
Escócia; e finalm ente, em 1499, chegou à Hungria, Polônia e Rússia.{26} Logo se evidenciou a ligação entre a nova doença e os prostíbulos. Ter a sífilis era sinal de m au com portam ento, de relações sexuais pecadoras. Os doentes nem sequer podiam esconder as m anchas na pele que ela causava, e j á por isso se viam denunciados. A posição da Igrej a diante da infecção reforçava o caráter pecam inoso das pessoas, que estariam sendo castigadas por Deus com esse m al. Diante do preconceito em relação à sífilis, nenhum a nação queria ser responsabilizada por sua origem . Assim , os europeus discutiam o nom e que deveria receber — os franceses a cham avam de "doença napolitana"; os italianos, de "doença espanhola"; e os espanhóis, de "doença francesa". Erasm o de Roterdã, de m odo im parcial, batizou-a de "a nova peste". Som ente em 1530 o italiano Girolam o Fracastoro publicou seu poem a "Sy philis Sive Morbus Gallicus", que conta a lenda de Sífilo, um pastor que teria prestado hom enagens a seu rei com o se este fosse um a divindade. Essa atitude ofendeu o deus Apolo, que o puniu com a doença. A obra ganhou reconhecim ento em várias regiões da Europa, e o m al foi batizado de sífilis. E interessante notar com o a história da sífilis se repetiu quase cinco séculos depois, na época em que surgiu a Aids. Ainda tem os na lem brança as explicações para o seu aparecim ento na década de 1980. Mem bros da Igrej a diziam que a doença fora enviada por Deus com o castigo às im oralidades sexuais dos prim eiros pacientes, um a vez que no início só eram acom etidos hom ossexuais m asculinos.
Muitos acreditam , ainda hoj e, que a Aids surgiu para conter o avanço da liberdade sexual que está im plícita em um contexto de im oralidade. O preconceito está caracterizado nos diversos sinônim os que a doença recebeu, com o "doença dos gays" e "peste gay". Esse m esm o preconceito se reflete na postura de esconder os fam iliares ou am igos que apresentam a doença. Na década de 1980, dizer que alguém tinha Aids era o m esm o que declará-lo hom ossexual, e os casos se m antinham com o um segredo guardado a sete chaves pela fam ília. No início do século XXI, o quadro não é m uito diferente, m as j á há um a evolução.
EM CONSEQ ÜÊNCIA...
A sífilis influenciou a perseguição aos prostíbulos nas décadas seguintes. Entretanto, essa perseguição se deveu principalm ente à Reform a Protestante do início do século XVI, e a sífilis foi em pregada com o um pretexto, interpretada com o um a form a de castigo divino à im oralidade que dom inava o m undo. A Igrej a Católica encontrava-se num período conturbado em relação às atividades im orais dos seus m em bros. Entre eles havia os que levavam a vida privada de m aneira não condizente com os preceitos da Igrej a, incluindo até os que com andavam e adm inistravam estabelecim entos libertinos, com o tabernas e casas de j ogo.
Era cada vez m ais com um que esses m em bros do clero m antivessem relações sexuais e tam bém relacionam entos com am antes. O Papa InocêncioVIII, 25 anos antes da Reform a, teve vários filhos. O Papa Leão X recebia um a alta renda anual por vender cargos clericais a com pradores abastados, e portanto eleitos m em bros do clero não por m érito, m as porque pagavam m ais. As indulgências que perdoavam os pecados e garantiam a entrada no reino do Céu deviam ser doadas aos hom ens com o m erecim ento por seus atos nobres — caridade e participação em cruzadas, por exem plo. Mas os papas da Renascença com eçaram a com ercializá-las, acum ulando fortunas; o Papa Leão X contou com banqueiros para negociar a venda de indulgências m ediante com issões. Em 1517, Lutero fazia conferências sobre Aristóteles e a Bíblia em Wittenberg quando chegou o dom inicano Tetzel vendendo indulgências. A população hum ilde correu para com prá-las, levando Lutero à indignação — j á antes, ele se m anifestara contrário a esse procedim ento da Igrej a. Em 31 de outubro do m esm o ano, Lutero afixou suas 95 teses contrárias ao com portam ento na porta da igrej a, condenando não só a venda das indulgências com o outras atitudes. A resposta de Leão X foi im ediata, com a condenação e a excom unhão de Lutero, m ais a exigência de que ele se entregasse ao castigo da Igrej a. Lutero tinha um a grande arm a na m ão inventada no século anterior, a im prensa. Os panfletos e folhetos se m ultiplicavam de m aneira inacreditável e se difundiram pela região, fazendo com que todos os habitantes da Europa setentrional tom assem conhecim ento das teses que condenavam o com portam ento da Igrej a. Entre as condenações encontrava-se a prostituição reinante na Europa renascentista. Prostitutas de elite, de classe social e econôm ica elevada, eram culturalm ente aceitas com naturalidade no continente e até tinham m em bros do clero entre a sua clientela. Lutero lutava por um a reform a m oral, pela purificação, defendendo o sexo para finalidade de procriação e não pelo prazer, atacando portanto a prostituição. Em 1520, escreveu seu Discurso à nobreza alemã, com ataques ao m eretrício. Na época, vários fatores contribuíram para o início e o aum ento progressivo das perseguições às prostitutas. As críticas de Lutero, com o aconselham ento da reform a m oral, e o surgim ento da sífilis, interpretada com o castigo divino, im pulsionaram a perseguição.
A crise econôm ica do século XVI desencadeou um a série de perseguições a pessoas que pudessem ser responsáveis pelas catástrofes das com unidades, com o as chuvas — que prej udicavam as colheitas e geravam a fom e — e as epidem ias. Foi nesse contexto que se deu tam bém a "caça às bruxas", que seriam m ulheres solitárias aliadas ao diabo e responsáveis pelas catástrofes. Assim , a perseguição às prostitutas ganhou cada vez m ais força na Europa. Várias m edidas de controle foram adotadas no com bate à epidem ia de sífilis. Algum as cidades passaram a proibir a entrada de pessoas suspeitas de ter a doença e até a expulsá-las. Os enferm os eram encam inhados a hospitais especiais para tratam ento. Em Bam berg, não era perm itida a entrada de sifilíticos em igrej as e hospedarias. O fecham ento de prostíbulos e a expulsão de seus m em bros com eçaram na Alem anha, berço da Reform a, onde as prostitutas foram banidas de Augsburgo em 1532, de Ulm em 1537, de Resensburg em 1553 e de Nurem berg em 1562.
Em algum as cidades da Inglaterra im puseram -se castigos às prostitutas e seus rostos foram m arcados com ferro quente. Na França, em certas regiões, cortavam -se suas orelhas. Na cidade francesa de Gaillac, além da expulsão, foram relatados o espancam ento e a im ersão no rio com o form a de castigo. A Contra-Reform a da Igrej a Católica, na tentativa de reorganizar-se e m oralizar-se, tam bém atacou o com portam ento sexual im oral, acentuando a perseguição. Em 1566, o Papa PioV assinou decreto de expulsão das prostitutas de Rom a, fato que gerou polêm ica no conselho m unicipal pelas conseqüências econôm icas desse ato para a cidade.
Foi assim que a sífilis, castigo de Deus aplicado por causa da im oralidade reinante na Europa, associada à intenção de m oralização que a Reform a e a Contra-Reform a pretendiam , desencadeou a perseguição às prostitutas do século XVI. No século seguinte, ocorreu um a regressão dos casos da doença, tornando-a endêm ica e livrando a Europa de sua form a epidêm ica e m ais sintom ática. Provavelm ente essas perseguições e a m oralização sexual contribuíram para o controle da sífilis.
Enquanto a doença chegava à Europa no final do século XV, persistia entre Portugal e Espanha um a guerra de espionagem na exploração m arítim a. As cartas e estratégias de navegação eram guardadas a sete chaves. Haj a vista que quando Dom Manuel teve notícias do Descobrim ento do Brasil, em 1500, m anteve segredo do fato para o reino da Espanha por praticam ente um ano, para evitar reivindicações do adversário. Nesse contexto de disputas que se acirraram com o Descobrim ento da Am érica, os reis católicos solicitaram a aprovação pontifícia, e lhes foi dada a posse de todas as terras que descobrissem . Portugal respondeu com um tratado antigo, que garantiria suas terras a partir do paralelo das ilhas Canárias. O início das negociações ocorreu com a divisão dos territórios a partir de cem léguas das ilhas de Açores e Cabo Verde. A parte do ocidente ficou para a Espanha, e a do oriente, para Portugal. Mas Dom João II, rei de Portugal, insistiu em am pliar essas delim itações para 370 léguas, j ustificando a m udança com o necessária em virtude de suas viagens à Índia. No início de 1494, a Espanha enfrentava turbulências diplom áticas com a França em razão de um a guerra im inente, m otivada pela sucessão no reino de Nápoles — guerra que, com o foi visto, influenciou a dissem inação da sífilis. Esse fato obrigou a Espanha a resolver as negociações com Portugal, evitando conflitos no seu flanco ocidental. Dessa form a, para certificar-se de que nada perderia com o novo posicionam ento da linha divisória a 370 léguas, enviou a segunda expedição de Colom bo para localizar m elhor as novas terras. Nesse contexto de desconfiança e disputa, a segunda expedição de Colom bo partiu de Cádiz, em setem bro de 1493, com caráter m ilitar, agregando 17 em barcações que levavam de 1.200 a 1.500 hom ens. Depois do reconhecim ento das terras e da verificação de que não haveria perda de nenhum território com a nova linha divisória, foram enviadas inform ações aos reis católicos — e eles puderam negociar finalm ente, em 1494, o Tratado de Tordesilhas. Foi nessa grandiosa expedição que o historiador Francisco Guerra se baseou para levantar a hipótese de introdução de agentes infecciosos no Novo Mundo.
NA AMÉRICA ESPANHOLA
Em sua segunda expedição rum o à colonização da Am érica, os espanhóis levaram anim ais. Partiram com em barcações carregadas de gatos, cachorros, porcos, galinhas e tam bém plantas das ilhas Canárias. A viagem seria m ais um a das m uitas realizadas pelos m ares se não fosse pela presença de viaj antes m icroscópicos que causaram um a epidem ia e um a m ortalidade considerável a bordo. Chegando à sua base de colonização no Caribe, a ilha Hispaniola, a tripulação doente desem barcou em terras am ericanas e a epidem ia dissem inou-se pelos nativos. Atribui-se a doença ao vírus da gripe, o influenza, dados os sintom as de prostração e febre, m as acredita-se que pode ter ocorrido um a associação com outras doenças, com o tifo e disenteria. Na viagem , Colom bo transportava sete índios que levara à Espanha para m ostrar aos reis católicos. Cinco deles m orreram no traj eto vitim ados pela epidem ia, do que se deduz que a m ortalidade entre os habitantes da ilha Hispaniola acom etidos pela doença não foi insignificante. Dos espanhóis levados para a colonização m ais da m etade m orreu, sendo incalculável o núm ero de nativos que pereceram . A prim eira cidade espanhola na Am érica, Isabela, fundada em 1494, ficou deserta e desabitada pela m ortandade, vindo a tornar-se cidade-fantasm a com o surgim ento de São Dom ingos em 1496.
A cada viagem , novos colonos eram levados ao Caribe e, com eles, agentes infecciosos desconhecidos dos nativos. A tripulação de espanhóis era m uitas vezes acom etida por infecções em decorrência das condições im próprias de navegação, com aglom eração hum ana e fom e. Chegavam às ilhas caribenhas verdadeiras em barcações de epidem ia. Foi assim que Nicolás de Ovando transportou 2.500 colonos, em 1502, para a ilha Hispaniola. Logo na chegada, cansados e vivendo situação de fom e, m uitos adoeceram com um quadro febril — e assim m orreram cerca de m il espanhóis, o que forçou a fundação do
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prim eiro hospital na Am érica em 1503.
Essa elevada m ortalidade não foi nada em com paração à registrada entre os nativos, incalculável. Segundo relatos do Frei Bartolom é de Las Casas, nos oito anos seguintes à chegada dos espanhóis ao Caribe, m orriam nove em cada dez índios, alastrando-se a doença nas ilhas de Porto Rico, Jam aica e Cuba. Assim , enquanto os índios brasileiros viam Am érico Vespúcio reconhecer o território recém -descoberto pelos portugueses, o Caribe era invadido pelas epidem ias, com a dim inuição vertiginosa de sua população.
No início do século XVI, as cidades da Península Ibérica prosperavam com a econom ia fortalecida pelas novas terras e rotas descobertas. As cidades espanholas chegavam os m etais preciosos procedentes da Am érica, enquanto às cidades portuguesas eram levadas caríssim as especiarias das Índias através da rota do sul da África, para que fossem com ercializadas no resto da Europa. As cidades ibéricas tom aram o lugar das cidades italianas de Gênova e Veneza com o o principal centro econôm ico europeu, passando a receber em barcações de todas as partes do continente para transações com erciais. Nas cidades ibéricas, crescia o núm ero de casas, habitantes e ruas, assim com o, por conseqüência, a pobreza e a m iséria. Dirigia-se a elas um fluxo grande de im igrantes, m ercadores e estrangeiros que as colocavam sem pre sob am eaça da infecção pela peste, que poderia chegar a qualquer m om ento, o que ocorreu com freqüência em todo o século XVI. As m edidas de controle adotadas em cada epidem ia não surtiam efeito, sendo inúteis as fogueiras nas ruas, o isolam ento de doentes e a oclusão de suas casas com pedras e cal. Muitas dessas epidem ias atingiram tam bém a corte portuguesa. Em 1415, faleceu a esposa do Rei Dom João I; em 1437, o Rei Dom Duarte.
Em 1505, aportava em Lisboa um navio italiano que levava à cidade, além da tripulação, o agente da peste, com o tantas vezes ocorria. Mas dessa vez a situação seria bem diferente, pois a epidem ia se alastraria por todos os centros ibéricos. Em Lisboa, a peste perm aneceu de 1505 a 1507, forçando a inauguração de dois cem itérios ali. Dissem inou-se pelas cidades espanholas: Sevilha perdeu 28 m il habitantes; Barcelona, 3.500; Madri, três m il; e Valladolid, sete m il. O ano de 1507 ficou conhecido com o o "ano da grande peste". Era previsível que as epidem ias daquela década atingissem a Am érica espanhola, em razão do grande trânsito m arítim o que se instalara. Só em 1508, 45 em barcações partiram da Espanha para a ilha Hispaniola; e, entre 1509 e 1515, o
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Caribe recebeu 185 dessas em barcações. Com o intenso intercâm bio de
pessoas, as epidem ias ocorridas na Espanha em 1507 e 1508 foram relacionadas ao declínio acentuado da população indígena do Caribe naquele período. Em 1514, chegou à ilha Hispaniola a expedição de Pedro Árias de Ávila, com 17 em barcações e 1.500 hom ens recrutados em Sevilha, portando nova rem essa de agente infeccioso que, dessa vez, seria responsável pela m orte de dois terços da população indígena local. A doença, descrita com o modorra, pode ter sido causada pelo vírus da gripe, o influenza. Enquanto as em barcações espanholas circulavam pelas ilhas do Caribe, os astecas — povo indígena que habitava o planalto central do México — não im aginavam o futuro desastroso que os aguardava. Sua capital, Tenochtitlán, fundada no século XIV, era um a das cidades m ais populosas do m undo, com m ilhares de habitantes. Construída acim a de um lago, era abastecida diariam ente por centenas de barcos. O centro era form ado por edificações cerim oniais aglom eradas ao redor do santuário Tem plo Maior, com construções ornam entadas com pedras preciosas. Apesar de o im pério ter grande extensão territorial, nunca houve dados que docum entassem seu contato com os incas, no Peru. A união desses im périos se daria por sua conquista pelos espanhóis, que prim eiro acabariam com a tranqüilidade da capital asteca.
Em 1518, partia para o continente m exicano a expedição de Hernán Cortez, com o obj etivo de explorar terras e conquistar territórios indígenas ricos em ouro e prata. Cortez chegou ao litoral m exicano e iniciou sua exploração a partir do interior, percorrendo as cidades indígenas até chegar a Tenochtitlán. Seu exército deparou-se com um a população altam ente organizada, até então não vista no Novo Mundo. A cidade era cerca de quatro vezes m aior que os principais centros europeus, com o Sevilha e Gênova. Possuía casas de pedra bem construídas, organizadas, e sistem a de abastecim ento de água por aquedutos. Na chegada de Cortez e seu exército a Tenochtitlán, a população e o Rei Montezum a os acolheram cordialm ente com o am igos. Cortez foi aloj ado no palácio e passou a receber presentes e a visitar a cidade. Mas a relação cordial foi efêm era. Cortez acusou Montezum a dos ataques que os espanhóis haviam sofrido no continente e o aprisionou, interferindo na adm inistração local. Essa situação perm aneceu por cerca de seis m eses, com o rei cativo e os espanhóis à procura de m etais preciosos. Os invasores foram finalm ente expulsos depois de terem ultraj ado os deuses astecas. E foram m assacrados em sua fuga noturna para as cidades vizinhas, o que reduziu o exército espanhol a apenas centenas de soldados e dezenas de cavalos. Enquanto Cortez preparava novo exército para outro ataque à capital asteca, certos acontecim entos nas ilhas do Caribe o aj udaram nesse propósito.
O núm ero de europeus que chegavam às ilhas aum entava a cada ano. Em 1510, o rei da Espanha, Ferdinando I, oficializava o em prego de escravos negros nas m inas espanholas. Agora, além de estarem em contato com os europeus, os índios conviveriam tam bém com os africanos. Ingressavam quatrocentos negros por ano no novo continente, am pliando a chance da entrada de agentes infecciosos. Em dezem bro de 1518, um a nova doença européia chegava à ilha Hispaniola: a varíola. Desem barcou nos portos, atingiu um a grande parte da população indígena suscetível, m as poupou os espanhóis, provavelm ente por estes j á terem tido contato prévio com ela e estarem im unizados. Os m onges Luis Figueroa e Alonso de Santo Dom ingo escreveram para o m onarca espanhol Carlos V, em 10 de j aneiro, relatando a m orte de um terço dos nativos da ilha, cuj a população de cerca de trezentos m il indígenas seria reduzida para apenas m il nos prim eiros cinqüenta anos que se seguiram à chegada dos espanhóis. A doença alastrou-se nas ilhas de Porto Rico e, posteriorm ente, em Cuba, com a m orte de um terço à m etade dos índios. Estava em curso a prim eira pandem ia de varíola na Am érica.
No México, Cortez reuniu forças no território de seus aliados, os tlaxcalas. Mas haveria um fato novo: a chegada de Pam philo de Narvaez. Cortez partiu para a conquista do território m exicano sob as ordens de Diego Velásquez, tenente da ilha de Cuba; todavia, ignorou Velásquez ao relatar suas conquistas nas cartas que enviou ao rei da Espanha. Narvaez seguiu em expedição ao continente com a m issão de punir Cortez por ter desobedecido às ordens superiores de Velásquez, que am bicionava os m etais preciosos existentes no continente. Cortez conseguiu dom inar o exército de Narvaez e o convenceu a acom panhá-lo em seu cam inho na conquista do território asteca, usando com o estím ulo a existência de ouro e prata na região. O que Cortez não sabia era que, quando Narvaez partiu de Cuba, a epidem ia de varíola j á grassava ali, e, por conseguinte, alguns hom ens contraíram a doença e levaram o vírus para o continente. Na chegada a Cozum el, j á eclodia a epidem ia do continente entre os indígenas. A doença foi carregada para a cidade deVera Cruz e, finalm ente, para o interior, ao encontro do exército de Cortez. Esse exército reagrupado e reforçado era acom panhado pela varíola, que seria um a aliada em potencial contra os astecas. Assim partiu Cortez com sua aliada, a varíola, para a conquista de Tenochtitlán. A cidade situava-se num a ilha no interior do lago da planície m exicana, sendo fácil para o exército espanhol bloquear suas entradas e saídas. Dessa form a, foi cortado o suprim ento de água e alim ento da população indígena, que sucum biu ao cerco. O golpe final seria dado com a chegada da varíola à cidade. Não é possível calcular quantos indígenas m orreram , dada a falta de registros, m as sabe-se que na entrada da cidade rendida j azia um grande núm ero de corpos, espalhados pelas ruas e boiando no lago — vários em estado avançado de decom posição. Após a derrota do Im pério Asteca, a epidem ia de varíola alastrou-se nos Estados Unidos, ao norte, e na Am érica do Sul. Na época em que os astecas faziam sua expansão territorial na Am érica Central antes da chegada dos espanhóis, tam bém ocorria a ocupação das cordilheiras da Am érica do Sul pelos incas. Sob o com ando de Tupac Yupanqui seria form ado o m aior im pério da Am érica, com cerca de 900.000km 2. O im pério era ligado por um a rede de estradas que cobriam todo o território, com postos de parada e descanso, som ando cerca de vinte m il quilôm etros de rede viária. A m anutenção da ordem do Im pério Inca era garantida não só pelo sistem a de com unicação das diversas regiões com o tam bém pela m aneira de conquista dos povos, pela qual a língua era im posta aos derrotados e ensinada aos seus chefes. No m om ento em que Colom bo chegava às Antilhas, Tupac Yupanqui foi assassinado, ascendendo assim o décim o prim eiro inca ao poder, Huay na Capac. Em 1525, em seguida a um a ação m ilitar nas terras do norte do Im pério Inca, Huay na Capac m orreu vítim a de um a epidem ia, apresentando lesões cutâneas. A escassez de docum entos não perm ite confirm ar que tenha sido um a epidem ia de varíola, em bora haj a registros de entrada dessa doença no Im pério Inca. No período m arcado pela m orte de Huay na Capac e a ascensão de seu filho Atahualpa, o explorador Francisco Pizarro tom ou conhecim ento do Im pério Inca e retornou à Espanha em busca de autorização para conquistá-lo. Em seu retorno em 1530, Pizarro encontrou o im pério abalado pela guerra civil que se iniciara após a m orte de Huay na Capac. Atahualpa e Huascar, filhos de Huay na Capac, lideravam as duas facções desse conflito e Pizarro soube tirar proveito de sua desunião. Atahualpa e seus principais líderes caíram num a em boscada arm ada por Pizarro, foram cercados num a praça; os espanhóis trucidaram os m aiores assessores do im perador com seus cavalos, arm as e canhões. Atahualpa foi feito refém e, apesar da m ontanha de ouro oferecida pelos indígenas para a sua libertação, foi executado. O assassinato do líder indígena e dos que pertenciam à classe dom inante dos nativos aj udaria na conquista de seu im pério pelos espanhóis, com a indispensável contribuição das epidem ias européias, principalm ente a da varíola. O exército espanhol, m esm o possuindo cavalos e espadas, era pequeno em núm ero de soldados para vencer os índios. A varíola foi fator im portante na década de 1520 para essa vitória; depois, o saram po m ostrou seus efeitos nos nativos. Chegou em 1530 às ilhas do Caribe para iniciar sua pandem ia na Am érica, passando pelo México e dissem inando-se pelo norte e o sul. Acredita-se que tenha sido levado por escravos africanos que partiram de Sevilha num a em barcação com destino ao Caribe. No início, exterm inou dois terços dos nativos restantes de Cuba e cerca da m etade dos de Honduras antes de continuar avançando para o continente.
Até a década de 1530, j á haviam entrado na Am érica a varíola, o saram po e o influenza. As freqüentes epidem ias e pandem ias que os indígenas sofreram , som adas às perseguições e aos m assacres im postos pelos espanhóis, quase os levaram à extinção no século XVI. Estim a-se que essa população foi dizim ada em 90%, perm anecendo vivo um décim o do total de índios que existiam na Am érica quando Colom bo chegou. Na ilha Hispaniola, de um m ilhão de nativos, calcula-se que havia apenas quinhentos em 1548; no México, ocorreu um a redução de 25 a trinta m ilhões de índios, existentes à chegada de Colom bo, para cerca de três m ilhões em 1568, com a varíola m atando m ais de 70% deles; nos Andes, onde viviam cerca de oito m ilhões de incas, avalia-se que havia apenas um m ilhão em 1553.
NOBRASIL
Na costa brasileira, as doenças infecciosas contribuíram para a dim inuição da população indígena — contribuíram , pois o principal m otivo para o exterm ínio dos nativos foi a atitude dos colonizadores portugueses. Desde os prim eiros anos que se seguiram ao Descobrim ento do Brasil, eram constantes as expedições portuguesas trazendo agentes infecciosos que os indígenas desconheciam . Além de sua interação com os portugueses, os nativos tam bém entravam em contato com os navios franceses clandestinos que vinham buscar o pau-brasil para tintura de sua produção têxtil no noroeste francês. Os índios derrubavam a m adeira e a arm azenavam ao longo da costa, em locais j á determ inados, e então aguardavam as em barcações, tanto portuguesas quanto francesas, para fazerem o escam bo, troca do pau-brasil por artigos diversos, badulaques trazidos pelos europeus. Não sabiam que tam bém recebiam nas trocas agentes causadores de infecção.
Estudos sobre a baía de Cabo Frio, região de escam bo do pau-brasil, estim am que cerca de trezentas em barcações ali chegaram até m eados do século XVI; os
índios tiveram contato com aproxim adam ente dez m il europeus. {29} Com a intensificação da colonização portuguesa e o ingresso de um m aior núm ero de europeus, elevou-se a m ortalidade indígena pelas epidem ias. A consolidação da conquista na segunda m etade do século XVI aum entou os núcleos populacionais, que receberam assim m ais agentes infecciosos. As tribos reagiram a essa intensificação da colonização de duas m aneiras. Aquelas que se aliavam aos portugueses m antinham com eles um a convivência pacífica. As que se opunham a eles eram atacadas, aprisionadas e escravizadas pelas tribos rivais associadas aos lusos. Mas todas elas sofriam a investida de um terceiro inim igo, m uitas vezes m ais potente, os agentes infecciosos procedentes da Europa. Entre 1549 e 1554, alastrou-se por São Paulo um a epidem ia nas tribos indígenas que acom eteu os tupinam bás até o litoral norte. O alem ão Hans Staden, quando prisioneiro dessa tribo, descreveu a infecção e o pavor dos índios, acrescentando ser a doença um castigo de Deus em resposta à conduta dos nativos, que queriam
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praticar a antropofagia com ele. A m elhora e a cura de alguns índios contribuiu, em parte, para a salvação do alem ão. Cham ada de "peste de pleurisia", a doença foi possivelm ente causada pela gripe européia, com com plicações pulm onares. Os indígenas da vila de São Vicente foram duram ente castigados.
Com a falência das capitanias hereditárias, partia de Lisboa em lo de fevereiro de 1549, a expedição que trazia ao Brasil seu prim eiro governador-geral, Tom é de Sousa. Com posta de três naus, duas caravelas e um bergantim , a arm ada transportava tam bém o prim eiro grupo de j esuítas chefiados por Manuel da Nóbrega, que form aria os aldeam entos indígenas atacados depois pelas epidem ias de m aneira constante. Os j esuítas tinham por m issão a form ação desses aldeam entos para a conversão indígena ao cristianism o por m eio de educação e aprendizado, sendo contrários à escravidão. Em 1553, Manuel da Nóbrega subia a serra de Paranapiacaba, em São Vicente, e fundava um a dessas com unidades indígenas para evangelização. O aldeam ento foi form ado pela união dos líderes das aldeias indígenas dos tupiniquins, tibiriçás, caiubis e tam andibas, no planalto de Piratininga, entre os rios Tam anduateí e Anhangabaú. Tibiriçá, aliado dos portugueses, chefiou esse aldeam ento, iniciando-se a catequese. Aj udou a criar a "escola dos m eninos" construindo igrej a e colégio. Em 1554, realizou-se a prim eira m issa no recém -construído Colégio de São Paulo. Tibiriçá, que tanto contribuiu para o aldeam ento, m orreu em 1562 num a epidem ia que fora levada à região pelos portugueses. A França sem pre cobiçava um pedaço de terra na costa brasileira, incentivada pela quantidade de pau-brasil. Depois de realizar estudos secretos sobre o litoral, escolheu a baía de Guanabara com o local de invasão e conquista pelo fato de ser um ancoradouro estratégico, com facilidade de defesa, e por estar no território da tribo tam oio, aliada dos franceses. Em 10 de novem bro de 1555, chegaram as prim eiras em barcações francesas chefiadas por Nicolau Durand de Villegaignon. Era fundada a "França Antártica" e construído o forte Coligny na ilha de Serigipe. Enquanto ocorriam divergências e brigas internas entre os franceses em conseqüência da convivência de adeptos da Igrej a Católica e da religião reform ada, os portugueses preparavam a expulsão dos intrusos. Para isso, o então governador-geral Mem de Sá reuniu portugueses e índios da Bahia, partindo pelo m ar em j aneiro de 1560. Recebeu reforços no traj eto em Ilhéus, Porto Seguro e no Espírito Santo, que era castigado por um a grande epidem ia. Chegando à Guanabara em fevereiro, recebeu um a arm ada de apoio vinda de São Vicente. Estava reunida um a esquadra com 120 portugueses e 140 índios oriundos de diversas partes do litoral. A tom ada do Forte Coligny não foi difícil, tendo em vista os canhões portugueses que partiram do continente e a falta de água e alim entos a que os franceses foram subm etidos. Entre os franceses na baía de Guanabara iniciou-se um a epidem ia de varíola que durou de 1555 a 1562. Propagou-se pela costa brasileira m atando 50% dos indígenas acom etidos. Várias vilas j esuítas perderam seus índios em fase de cristianização — há relatos de m orte de até trinta m il deles.
A epidem ia, que em 1559 castigou o litoral do Espírito Santo, tam bém m atou índios, que apresentavam sintom as de diarréia sanguinolenta associados a outros parecidos com os de coqueluche ou de influenza. Avançou pelo litoral até a Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, facilitada pela cam panha m ilitar de Mem de Sá. O início da década de 1560 foi m arcado pela epidem ia decorrente de doença com sintom as variados. Houve casos descritos com o diarréia hem orrágica e sintom as pulm onares, assim com o a varíola na sua form a m ais grave, a hem orrágica. Essa fam osa epidem ia pode ter decorrido, na verdade, de associações de agentes. Assim , foram atingidas diversas localidades do litoral: São Vicente, em 1561; Itaparica, em 1562; e a Bahia, em 1563. Em 1565, um a nova epidem ia visitava o Espírito Santo. No início, dois j esuítas acom etidos pela varíola estavam em contato com os nativos.
As populações européia e brasileira j á cam inhavam j untas na História, e com elas se casaram os agentes infecciosos. Cada vez m ais, desem barcavam na costa do Brasil agentes invisíveis para os nativos, e que tam bém colonizariam essas terras — agentes que, indiretam ente, aj udariam no processo. Portugal enviava m ulheres e crianças para os hom ens que habitavam o território brasileiro. Em 1570, chegava a nau de João Fernandes, conhecida tam bém com o a "nau das órfãs" por transportar um a grande quantidade de m eninas que haviam perdido os pais durante a peste que assolou Lisboa à época. Assim , desem barcavam nos portos brasileiros a peste, a rubéola, a varíola, o saram po e a varicela. Os tupis assustavam -se com esses novos visitantes, e a varicela recebia a denom inação tupi de catapora, "fogo que salta".
A segunda m etade do século registrou o aum ento do plantio da cana-de-açúcar e do núm ero de engenhos pelo litoral. As províncias que m ais prosperaram com esse cultivo foram Pernam buco e Bahia, locais em que se encontrava a m aioria dos engenhos. Com a dim inuição da população indígena e a necessidade crescente de m ão-de-obra, ocorreu um aum ento do tráfico de escravos negros provenientes da África. A chegada dos j esuítas favoreceu a adoção de m edidas de proteção aos índios contra sua escravidão. Determ inou-se que só fossem escravizados os nativos capturados nas "guerras j ustas", ou sej a, nas guerras a índios contrários às norm as cristãs, aqueles que m atavam cristãos ou praticavam antropofagia.
No início da década de 1560 ocorreram no Nordeste dois fatos decisivos para a redução da população indígena, com a conseqüente dim inuição da produção dos engenhos de cana-de-açúcar e a definitiva substituição do trabalho escravo dos índios pelo do negro africano, m ão-de-obra que seria a base da colonização do século seguinte. O prim eiro fato foi a perseguição aos índios caetés da Bahia. Em 1556, naufragou na costa de Pernam buco a nau Nossa Senhora da Aj uda, e alguns dos sobreviventes foram m ortos e devorados pelos caetés. Com o entre os devorados estava um bispo português, Pero Fernandes Sardinha, tom ou-se a decisão de punir a tribo. Quando Mem de Sá venceu os franceses na baía de Guanabara, em 1562, decretou a guerra j usta aos caetés pelo crim e com etido. Essa foi um a oportunidade de ouro para os colonos aprisioná-los e escravizá-los, e assim suplem entar a m ão-de-obra j á escassa nos engenhos do Nordeste. A perseguição contribuiu para que a população indígena fosse rapidam ente reduzida.