A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 5 de 7 · parte 4/5

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

O segundo fato foram as duas epidem ias de varíola na Bahia, em 1562 e 1563, que dizim aram índios dos aldeam entos j esuítas e provocaram sua fuga para o interior. O núm ero de m ortes e de fugas entre os indígenas foi tão expressivo que não se encontravam m ais nativos para os trabalhos da agricultura, sobrevindo assim a escassez de alim entos e a fom e para a população européia. Estim a-se que m orreram trinta m il índios em dois ou três m eses. Na m esm a época, surtos de varíola atingiam em barcações de Portugal em todas as suas colônias, alcançando o extrem o oriente j aponês.

As epidem ias, os com bates a tribos abadas a portugueses e franceses e a perseguição e escravatura indígenas praticam ente dizim aram a população de índios do litoral brasileiro no final do século XVI. O problem a quanto ao que fazer com os nativos m otivou assem bléias especiais, das quais participaram o governador-geral, o bispo e o ouvidor-geral, visando a m edidas de proteção aos indígenas contra a sua escravização pelos colonos dos engenhos. Em 20 de m arço de 1570, o Rei Dom Sebastião decretou norm as favoráveis aos pareceres dos j esuítas, e assim protegeu os indígenas, ainda que sob os protestos dos donos de engenho. Estava proibida a escravidão dos índios convertidos e só ficariam cativos os prisioneiros feitos pela guerra j usta decretada por um soberano, o que incluía os nativos que com batiam os portugueses e seus aliados. Em 1578, Dom Sebastião m orreu na batalha de Alcácer-Quibir, travada contra os m ouros do norte da África. Neto de Dom João II, Dom Sebastião assum ira o trono em 1568, depois do período da Regência. Com a m orte precoce do rei e a falta de herdeiros, o trono de Portugal ficou vago, e foi reivindicado pelo rei da Espanha, Filipe II, casado com a irm ã do pai de Dom Sebastião, portanto seu tio, j á falecido à época. Aceitas as pretensões de Felipe II, a Península Ibérica foi unificada em 1580 sob seu reinado; Portugal entrava na sua fase histórica sob dom ínio espanhol, que term inaria som ente em 1640. A Espanha com eçava a criar m edidas intervencionistas nas colônias portuguesas. Pela prim eira vez, o Brasil era visitado pela Inquisição, com a vinda do Santo Ofício em 1591. Chegando à Bahia e seguindo para Pernam buco, Itam aracá e Paraíba, os tribunais infligiram perseguições aos cristãos-novos por cinco anos. Após um longo período distante da Inquisição portuguesa, os degredados e fugitivos encontraram tranqüilidade na costa brasileira, de tal m aneira que, em 1593, 14% dos brancos que habitavam Pernam buco eram cristãos-novos, um prato cheio para o Santo Ofício recém -chegado. Ao m esm o tem po em que se preocupava com os atos religiosos dos habitantes brasileiros, a Espanha intensificava suas rivalidades com as nações européias, em especial a França, a Inglaterra e a Holanda. Seus inim igos iniciaram ataques constantes ao litoral brasileiro, sem que a Espanha se esforçasse por defendê-lo, dirigindo sua atenção para as colônias fornecedoras de ouro e prata. Portugal tentava garantir os dom ínios das áreas atacadas, aum entando a colonização, o que incluía o envio de degredados para o norte e nordeste do Brasil. As guerras persistiam e, com elas, as condições propícias às epidem ias. Expulsos da baía de Guanabara, os franceses iniciaram ataques e tentativas de se instalar no Nordeste. A m edida que eram forçados a deixar as localidades, partiam para regiões m ais ao norte. Dessa form a, instalaram -se consecutivam ente em Sergipe, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará e, finalm ente, no Maranhão, onde fundaram um a cidade em hom enagem ao santo francês São Luís.

Vários conflitos de portugueses e franceses nessas guerras de conquista e reconquista provocaram o surgim ento de epidem ias. Em 1597, novam ente ocorreria um encontro entre eles, que incluiria tam bém seus indígenas aliados em um a disputa de territórios na Paraíba. Esse contato favoreceu o ingresso da varíola, que levou à m orte dez em cada 12 índios, forçando os portugueses a suspenderem o conflito. Acredita-se que essa epidem ia tenha chegado à Bahia em navios franceses.

Em 1599, um navio espanhol com destino a Buenos Aires fez parada no Rio de Janeiro. Parada rápida, porém não tão rápida ao ponto de evitar a entrada de um a epidem ia não identificada que ocasionou, em três m eses, a m orte de cerca de três m il indígenas e portugueses, segundo relato de viaj antes ingleses. No século XVII o panoram a infeccioso não m udaria. Freqüentem ente, as infecções chegavam às m oradias dos nativos, principalm ente a varíola. Em 1660, essa doença alcançou o Maranhão, alastrando-se no litoral, e em Belém , onde dizim ou m ais de 50% dos índios doentes. A epidem ia dissem inou-se pelo rio Am azonas entre as m issões j esuítas fundadas ao longo de seu leito, atingindo a cidade de Manaus. Cerca de 44 m il nativos m orreram nessa epidem ia. As doenças infecciosas — trazidas pelos europeus de m aneira inevitável — aj udaram praticam ente a exterm inar os nativos brasileiros. Ainda seriam utilizadas para consolidar a conquista territorial no final do século XVIII, só que dessa vez de form a consciente. Os goitacás m oravam em palafitas nas áreas pantanosas da região dos rios Paraíba do Sul e Itabapoana. Extrem am ente violentos, constituíam tribos difíceis de ser com batidas e perm aneceram na região do cam po de Goitacás por m uitos anos. Até o dia em que os portugueses descobriram um m eio de vencer os 12 m il índios resistentes usando a varíola

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com o arm a bacteriológica. No final do século XVIII, esses nativos foram

dizim ados por um a epidem ia da doença espalhada entre eles de m aneira proposital pelos portugueses.

Do século do Descobrim ento até o fim da escravidão, estim a-se que três m ilhões de índios tenham sido exterm inados pelas doenças infecciosas que os europeus trouxeram ao País. Um dos últim os exem plos disso ocorreu na tribo dos índios ianom âm is, que vivem nas proxim idades do rio Orinoco, na fronteira do Brasil com a Venezuela. No final da década de 1960, o saram po foi introduzido nessa população, o que causou a m orte de quase 10% de seus m em bros. A m ortalidade só não foi m aior em razão das vacinas e da aplicação de m edidas m édicas. As dificuldades encontradas no em prego de m ão-de-obra indígena nos engenhos aum entaram no transcorrer do século XVI: fugas, suicídios e resistência ocorriam de form a intensa, e eram agravados pela ação protetora dos j esuítas e pela m ortandade provocada pelas epidem ias. Cada vez m ais, os donos de engenho se interessavam pela m ão-de-obra escrava africana. Assim , a adotaram definitivam ente, e a vinda de africanos foi intensificada. Em 1590, a Bahia j á im portava um núm ero seis vezes m aior de negros, e estes predom inavam não som ente ali, m as em Pernam buco. Partiram da costa da Guiné; depois, do Congo e de Angola.

NOS NAVIOS NEG REIROS

 

No com eço do século XVII, pouco antes da Guerra dos Trinta Anos, as disputas territoriais entre os Estados absolutistas rom piam os dom ínios europeus em busca das colônias. A Holanda conquistou sua independência libertando-se do reino da Espanha e lançando-se em sua expansão m arítim a. Inicialm ente, lutaria contra os povos ibéricos, incluindo Portugal, anexado à Espanha desde 1580. Os holandeses, j untam ente com os ingleses, atacavam os navios espanhóis carregados de ouro, e eram um a am eaça constante às nações ibéricas. Criaram a Com panhia das índias Orientais, realizando ataques e conquistas nas possessões portuguesas no Oriente, para com ercializarem as especiarias. Em 1630, os holandeses invadiram o nordeste brasileiro, após duas tentativas frustradas na Bahia e no Recife, e se apoderaram dos engenhos de açúcar, com proveito econôm ico para o com ércio europeu. Com o a base do trabalho era executada por m ão-de-obra escrava, a Holanda apressou-se a conquistar o principal fornecedor de escravos ao Brasil. Em 1638, dom inou a fortaleza de El Mina e, em 1641, conquistou a cidade de Luanda, em Angola. A colonização inglesa na Am érica teve inicio com plantações de tabaco. A intensificação da produção e o crescim ento da dem anda européia tornaram necessário aum entar a m ão-de-obra. A Inglaterra incentivou a m igração para as colônias am ericanas oferecendo facilidades. Foi estim ulada a partida de ingleses descontentes, em pobrecidos e sem perspectivas, que teriam esperanças de um a vida e de um futuro m elhor diante da possibilidade de aquisição de terras próprias para cultivo. Dessa form a, deu-se a colonização na Virgínia e em Mary land. No século XVII, ao contrário do que ocorreu na Am érica Latina, o trabalho agrícola das colônias inglesas foi realizado por colonos im igrantes e não por escravos. Som ente 5% da população da Virgínia, em 1671, era form ada por escravos. A entrada de europeus em terras am ericanas fez surgirem epidem ias entre os povos nativos, que desconheciam essas doenças. Da m esm a form a, navios abarrotados de pessoas forneciam um m eio propício a doenças e epidem ias que, no fim das viagens, espalhavam -se pela Am érica. Foi assim que, em 1610, um navio que partira da Europa com im igrantes esperançosos de um futuro m elhor foi acom etido por um a doença febril desconhecida que se alastrou na Virgínia. E em 1621, o navio Abigall transportaria para a colônia um a nova doença infecciosa que se dissem inaria causando m ilhares de m ortes. A varíola tam bém foi levada pelas em barcações européias, m as sua conseqüência revelou-se m ais desastrosa para a população indígena, que nunca havia tido contato com o agente. A m ortandade que causou só foi com parável à sofrida pelos índios no século anterior.

Em 1633, entrava na Nova Inglaterra a epidem ia de varíola, que devastaria a população indígena. Ao longo do século, Boston veria epidem ias da doença que se repetiriam em 1649, 1666, 1677, 1689 e 1702. A epidem ia de 1677 foi a pior do século, e, segundo relatos do Reverendo Thom as Thacher, m orriam até nove pessoas por dia; os sinos anunciavam enterros a todo m om ento, e nunca os espaços no cem itério foram ocupados de m aneira tão rápida. Seguindo essa doença, vinham o saram po e a disenteria. As epidem ias espalhavam -se nas regiões dos grandes lagos e ao longo do rio São Lourenço, levadas pela locom oção hum ana. Naquele século, a população de índios foi reduzida de m aneira drástica.

No com eço do século XVIII, as colônias inglesas se valeram do trabalho escravo, que se tornou a principal m ão-de-obra, assem elhando-se à Am érica Latina que j á a utilizava desde o século anterior. No século XVII, o crescim ento do m ercado de escravos fez aum entar o tráfico negreiro. A m aior dem anda de escravos era para o Brasil e depois para as ilhas do Caribe e colônias inglesas. O tráfico negreiro produziu conseqüências diversas no que se refere às doenças infecciosas.

A captura de escravos no interior da África se dava por m eio de prisões nas guerras entre tribos, por j ulgam ento de crim es de roubo com punição de escravidão e até com invasões. Ocorreu assim um a com unicação entre as tribos do interior, entre povos de diferentes procedências, o que favoreceu a troca de agentes infecciosos. Depois de capturados, os escravos eram transportados em longas cam inhadas, com pouco alim ento, dorm indo ao ar livre, até chegarem ao destino, os portos de em barque.

Em Luanda, principal porto de em barque de negros para o Brasil, os cativos perm aneciam m eses à espera de em barcação. Viviam com pouca roupa, dorm indo em arm azéns a céu aberto, expondo-se a chuvas, desnutrindo-se e contam inando-se com suas excreções fisiológicas, que eram feitas no m esm o local. Toda essa condição favorecia sua depauperação e os quadros infecciosos, que ocasionavam m uitas m ortes antes m esm o que em barcassem . Mas era nas viagens que ocorria a m aioria dos óbitos. Os escravos eram transportados em navios específicos para o tráfico, de m odo que se pudesse levar o m aior núm ero possível deles, e isso resultava num a aglom eração descom unal nos porões im undos e sem ventilação. Recebiam água e alim entos m uitas vezes deteriorados e suj eitos à contam inação pelas fezes. Daí a disenteria ser com um nessas viagens e a principal causa de m orte entre os escravos. Quando identificados, os m ortos eram lançados ao m ar. As taxas elevadas de m orte num a m esm a viagem decorriam da varíola e do saram po, que, por sua alta contagiosidade em população aglom erada e depauperada, alastravam -se. Estim a-se que cerca de dez m ilhões de escravos tenham cruzado o Atlântico e que 10% deles tenham m orrido na travessia. Os historiadores acreditam que tenham chegado ao Brasil três m ilhões e m eio de cativos. A taxa de m ortalidade nas travessias variava de 10% a 25%, sendo m aior nas viagens de longo traj eto. Entre os anos de 1795 e 1811, o núm ero de m ortes foi m aior nas viagens entre Moçam bique e o Brasil (23%) do que entre Angola e o Brasil (9%), assim com o m orriam m ais negros de Angola para o Caribe do que para o Brasil.

A m ortalidade era tam anha que, em 1811, Dom João VI assinou decreto oferecendo recom pensa aos capitães que conseguissem dim inuir esse índice nas

viagens para 2%. {32} Além dos m alefícios para a população negra, outra conseqüência das infecções decorrentes do tráfico foi a sua dissem inação por diferentes áreas do globo, com o foi o caso da febre am arela e da m alária, exportadas das regiões africanas subsaarianas para as Am éricas. Além disso, o tráfico era responsável pela chegada de negros infectados, à qual se seguia o aparecim ento de epidem ias, principalm ente por varíola, nas cidades de destino. O Brasil, em 1600, superava a produção de açúcar das ilhas atlânticas, sendo o principal produtor m undial com nove m il toneladas por ano. Durante o tem po que ocuparam Pernam buco, os holandeses beneficiaram -se do com ércio do açúcar m antendo sob o seu dom ínio os engenhos nos prim eiros 15 anos. Mas em 1645 com eçaram m ovim entos de revolta pelo interior da capitania que prej udicaram a produção açucareira. Ocorriam verdadeiras guerrilhas dos revoltosos, com a queim a de engenhos. Um a alternativa para os holandeses foi transferir suas atividades para as ilhas do Caribe, que vinham sendo ocupadas pelos ingleses e franceses.

A Inglaterra e a França dom inaram as ilhas abandonadas pelos espanhóis, que lucravam m ais com a extração de m etais preciosos no continente. Os ingleses ocuparam Barbados, Nevis e Saint Kitts; os franceses, a Martinica e Guadalupe, com plantações de tabaco. A chegada dos holandeses oferecendo a m aquinaria e, principalm ente, a experiência que adquiriram nos engenhos de açúcar em Pernam buco, provocaram um a inversão no cultivo: do tabaco passaram ao açúcar, em pregando m ão-de-obra escrava. O novo cultivo foi estabelecido prim eiro em Barbados e depois na Martinica e Guadalupe. Com o aum ento progressivo da produção de açúcar, os países europeus com eçavam então a investir m ais no Caribe: a Inglaterra conquistou a Jam aica; a França, a m etade oeste da ilha de São Dom ingos.

No século XVII, a produção de açúcar do Caribe cresceu tanto que passou a ser a m aior do m undo, com conseqüente aum ento do tráfico negreiro. O crescim ento do tráfico escravo para o Caribe foi tão intenso que em 1680 Barbados apresentou um a inversão populacional, com predom ínio da população negra, e chegou a ter cinqüenta m il escravos no fim do século; situação que se repetiu nas colônias francesas. O fluxo de escravos para o Brasil era de quinhentos m il a seiscentos m il, enquanto no Caribe chegava a 450 m il.

A África abrigava infecções desconhecidas dos outros continentes. Nos m osquitos da sua floresta tropical viviam os agentes causadores da m alária e da febre am arela. Som ente com a exploração do lugar e o início do transporte de escravos, o m undo pôde ver a dissem inação desses agentes por outros continentes.

No século XV, quando não se sabia ainda da existência do continente am ericano, os portugueses j á enfrentavam essas doenças desconhecidas. Colonizando a costa da Guiné, eles adquiriam m arfim na Costa do Marfim , pim enta-m alagueta na Costa da Malagueta, ouro na Costa do Ouro e escravos na Costa dos Escravos. Este últim o negócio era altam ente rentável, perm itindo exportações para as cidades européias e para os engenhos de açúcar nas ilhas atlânticas. Ao chegarem a esses destinos, os europeus contraíam febre am arela e m alária. A m ortandade que tais regiões causavam entre eles era conhecida por todas as nações e tem ida pelas em barcações que passavam pelas proxim idades. O que não sabiam era do potencial de dissem inação das doenças por outras partes do globo, possível quando o tráfico de escravos se expandiu das ilhas do Atlântico e cidades européias para a Am érica. Na Am érica tropical, com suas florestas, a quantidade de m osquitos com capacidade de abrigar os agentes infecciosos da m alária e febre am arela era enorm e — bastava transportar esses agentes para as proxim idades da região.

Foi um desses navios negreiros chegados a Barbados em 1647 que, provavelm ente, levou escravos doentes de febre am arela ou m osquitos portadores do vírus a terras am ericanas. Essa teoria sobre a origem da febre am arela na Am érica é m ais plausível que outras que indicam sua presença no golfo do México. Em Barbados, onde um processo de desm atam ento foi realizado visando às plantações, ofereciam -se condições de exposição dos habitantes aos m osquitos retirados de seus hábitats. Os m osquitos, um a vez contam inados ao sugar o sangue dos doentes, proliferaram e transm itiram a doença.

A transm issão da febre am arela ocorre com a picada do m osquito e a inoculação do vírus responsável pela doença. Inicia-se um quadro de febre, queda do estado geral e calafrios seguidos de com prom etim ento do fígado e dos vasos sangüíneos. A inflam ação daquele órgão provoca um aum ento da substância sangüínea que causa a coloração am arela nos olhos e na pele, daí o nom e da doença — febre am arela. Quando o fígado entra em falência, não m ais produz os fatores que fazem a coagulação do sangue, o que favorece os sangram entos. O sangue no estôm ago causa um vôm ito de coloração escura, por isso esse m al tam bém é cham ado de "vôm ito negro".

A taxa de m ortalidade por febre am arela foi elevada — 15% da população da ilha de Barbados foi exterm inada pela doença, que se alastrou facilm ente. Com a chegada dos escravos e m esm o com a locom oção de pessoas entre as ilhas e o continente, a febre am arela tornou-se endêm ica em toda a Am érica Central. Nas décadas seguintes, espalhou-se por Guadalupe, Cuba, México e Jam aica, onde perm aneceria endêm ica. Em vista disso, o governo do Estado de Massachusetts im plantaria pela prim eira vez na Am érica a quarentena dos navios que chegavam a seu porto.

O tráfico trazia epidem ias para a costa brasileira. Em 1621, a varíola atingiu o Maranhão. No final da década de 1620, Angola era castigada pela doença, e o sobrevôo das aves à espreita dos m ortos rendeu-lhe o nom e de "Quilom bo dos Corvos". A epidem ia chegou ao Brasil holandês e, em 1641, estava na Bahia e no Rio de Janeiro. Depois de 1622, o litoral brasileiro enfrentou várias epidem ias de varíola, o que obrigou à construção, no Rio de Janeiro, em 1665, do prim eiro cem itério de escravos pelos franciscanos.

Os brasileiros que traficavam escravos ganharam autonom ia para exercer essa atividade perante Portugal. Regiões do Nordeste, incluindo Bahia e Pernam buco, utilizavam o tabaco na troca por escravos africanos, enquanto o Rio de Janeiro fornecia sua cachaça, m uito m ais vantaj osa do que o vinho português. Na década de 1680, havia epidem ias em Angola, principalm ente de varíola, e isso levou os traficantes de cativos da Bahia e de Pernam buco a transferirem seus negócios para a Costa da Mina, enquanto os do Rio de Janeiro m antiveram suas trocas em Angola.

Foi num a dessas em barcações com aglom erações de negros originários da ilha de São Tom é que, no verão de 1686, aportaram no Recife doentes com febre am arela. A doença propagou-se por Olinda, aum entando o núm ero de m osquitos portadores do vírus. Em abril, era notificado o prim eiro caso na Bahia, e a dissem inação ocorreu rapidam ente. A Bahia foi duram ente castigada — havia dias em que m orriam até duzentas pessoas. Na m aioria das casas, encontravam -se doentes, e as ruas ficaram vazias. Morreram j esuítas, pessoas hum ildes e m em bros da elite. O núm ero de m ortes foi m aior entre a população branca, provavelm ente pelo fato de os negros j á terem tido contato com o agente na África. Após esse surto, a febre am arela desapareceu do Brasil, retornando apenas em m eados do século XIX, quando se tornou um problem a de saúde pública.

A epidem ia da Bahia e a escassez de escravos em Angola aj udaram no declínio açucareiro do Brasil no final do século XVII, e houve a ascensão do Caribe. No século XVIII, as ilhas da Jam aica (colônia inglesa) e de São Dom ingos (m etade oeste pertencente à França) passaram a principais produtoras de açúcar m undial. A população de escravos aum entou, e a ilha de São Dom ingos era a que apresentava a m aior quantidade de cativos no Caribe: seiscentos m il de um total de um m ilhão. Saíam seiscentos navios por ano levando para a Europa não só açúcar, m as tam bém cacau, algodão, índigo e café. No prim eiro quarto do século XVIII, a produção açucareira do Caribe j á se igualava à do Brasil.

No século XVIII, eram com uns os surtos epidêm icos de febre am arela nas cidades do Caribe e nas colônias inglesas que viriam a ser os Estados Unidos, em m eio à endem ia, estando o Brasil livre da doença após a epidem ia que enfrentara em 1686. Freqüentem ente, europeus recém -chegados às ilhas caribenhas ou às colônias inglesas eram acom etidos pela doença. Da m esm a form a, eclodiam epidem ias de varíola levadas pelos escravos que desem barcavam nesses lugares. Os navios que partiam do Caribe e da África tam bém transportavam a febre am arela para as cidades européias. Nessas em barcações estavam não apenas doentes transm issores do vírus, com o tam bém o m osquito, que proliferava nos barris de água. Lisboa perdeu seis m il habitantes na epidem ia de 1723; Cádiz foi castigada em 1701 e 1731; e Málaga, em 1741. Com o não havia condições clim áticas e geográficas para a proliferação do m osquito, esses surtos foram isolados e se extinguiram .

Em resum o, o com ércio triangular entre Am érica, Europa e África aj udou no transporte de agentes infecciosos para outros continentes. A qualidade da travessia atlântica a que os negros eram subm etidos desencadeou a m orte de um im enso núm ero deles nas em barcações, cham adas adequadam ente de"tum beiros". Muitos dos óbitos, por infecção. Por sua condição clim ática e pela presença abundante de m osquitos, as ilhas do Caribe eram um reduto da febre am arela, exportada nas em barcações com erciais para os territórios dos Estados Unidos no século XIX, o que será visto adiante.

ASBRUXAS

 

A Europa viveu um período de intensa perseguição às bruxas desde a m etade do século XVI até o final do século XVII. As razões para a perseguição, principalm ente de m ulheres em vilarej os da Europa, com sua condenação à fogueira, eram variadas, incluindo um a colheita ruim , com conseqüente fom e, e o surgim ento de um a epidem ia. Esses, entre outros, eram m otivos para acreditar que havia algum a m ulher com poderes diabólicos espalhando o m al. Em períodos de epidem ia vividos em qualquer vilarej o europeu dos séculos XVI e XVII, quer em decorrência da peste, do tifo ou da doença diarréica, as m ulheres idosas e solteiras j á estavam suj eitas à acusação de originar o desastre. Um a série de fatos históricos deu origem a um acúm ulo de pretextos para a perseguição que, finalm ente, atingiu seu apogeu naqueles séculos quando m ilhares de m ulheres foram levadas à m orte nas fogueiras. Por volta de 1550, aum entaram as acusações a m ulheres bruxas na Europa e iniciaram -se os 150 anos de seu exterm ínio, com a m orte de cerca de cem m il

delas na fogueira ou na forca.{33} Contando-se as que foram acusadas m as não punidas com a m orte, e tam bém os fam iliares que foram discrim inados e forçados a abandonar as cidades, esse núm ero de pessoas ultrapassou em m uito as estim ativas m ais ponderadas de historiadores. A população européia havia crescido m uito, atingindo a saturação em relação à oferta de alim entos obtidos com a agricultura. Com o resultado, a fom e era preocupação constante nos vilarej os. Naquele período, m eados do século XVI, não ocorreu um a catástrofe igual à que se sucedeu por ocasião da peste de 1348 quando cerca de um terço da população européia m orreu, equilibrando assim a falta de alim ento para o núm ero excedente de pessoas. Desde o início do século XVI, quando sua superpopulação j á convivia com a constante escassez de alim entos, a Europa com eçou a receber um a descarga enorm e de ouro e prata proveniente da Am érica. A Espanha recebia as riquezas e as repassava para o resto do continente, gerando um a inflação sem precedentes na História. Os ricos ficavam m ais ricos, m as os pobres, que não se beneficiavam do influxo de ouro e prata, sofriam as conseqüências do aum ento dos preços. Cresciam assim os contingentes de m iseráveis, pedintes, m endigos e ladrões.

Foi nesse contexto de m edo generalizado da fom e e da m iséria que a população buscou um a explicação. Assim , as catástrofes foram atribuídas a bruxarias. Um a safra ruim gerava a fom e num a aldeia e, com a im possibilidade de se com prar alim entos m ais caros, sobrevinham as epidem ias num a população desnutrida. Esses eram os m otivos principais para procurar, e encontrar, um a pessoa ou grupos de pessoas que fossem responsáveis pela catástrofe por terem feito um pacto com o diabo.

As epidem ias sofridas nos vilarej os eram um a das causas da procura por bruxas e de sua punição. As regiões centrais da Europa, principalm ente a Alem anha, eram as m ais rigorosas nos castigos. Por serem áreas que não recebiam influências da cultura do Mediterrâneo, e descentralizadas, im punham punições m ais severas do que França, Itália, Portugal, Espanha e Holanda. A Escócia foi outra região que perseguiu severam ente suas bruxas, seguida pelas colônias inglesas na Am érica.

As m ulheres acusadas de bruxaria eram subm etidas a exam e pelos tribunais das com unidades. Ficavam nuas para que se procurassem lesões na pele que confirm assem relações carnais com o diabo, e, lógico, qualquer lesão ou sinal encontrado j á era um forte indício. Partindo do princípio de que a grande m aioria das pessoas tem algum sinal na pele, não seria de estranhar a eficiência dessa conduta que, aliada aos m étodos de tortura para obter a confissão, levou várias m ulheres à condenação.

Com o vim os, as doenças infecciosas foram um dos m otivos das acusações de bruxaria por parte da população, sem que houvesse vínculo direto entre as epidem ias e as acusadas. Mas cabe relatar um fato histórico em que a suspeita dessa ligação direta se m ostrou extrem am ente forte: o episódio conhecido com o

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"as bruxas de Salem ".

O hábito alim entar dos europeus, que sem pre incluiu a carne, foi m antido após a peste negra, período em que a população reduziu-se em razão das m ortes. O gado era abatido antes do inverno, um a vez que não sobreviveria ao frio, que acabava com os pastos. Durante essa estação, a carne era conservada salgada. Mas não estava livre de se deteriorar. Para ser possível saborear um alim ento com gosto tão desagradável, salgado e, m uitas vezes, apodrecido, era necessário acrescentar-lhe as fam osas especiarias, principalm ente a pim enta. Por isso as especiarias originárias do Oriente — pim enta, cravo, canela — eram extrem am ente caras.

Depois da peste, a população desfrutou de carne e pão de boa qualidade até m eados do século XVI, quando voltou a crescer e atingiu um núm ero elevado. A situação econôm ica piorou com o início da inflação gerada pelos m etais preciosos provenientes da Am érica. A população em pobrecida, um a vez privada da ingestão de carne, voltou-se para a base da alim entação européia, os cereais, entre os quais o trigo, gênero de prim eira necessidade utilizado na produção de pão e papas. A cevada se destinava ao gado que fornecia o esterco para adubar a plantação. Ainda existiam a aveia e o centeio para suplem entar os m enos favorecidos.

O trigo, além de ter um rendim ento fraco, apresenta duas dificuldades para o seu cultivo: é preciso esperar que a terra descanse por um período prolongado antes que se faça um a nova plantação e é necessário que as sem entes sej am separadas para a próxim a safra. Assim , m uitas vezes esse cereal não supria as necessidades da população, o que gerava a fom e quando o clim a não era favorável. Nessas épocas, seu preço elevava-se m uito e as cidades o im portavam . A situação só m udou quando a batata e o m ilho foram levados da Am érica para a Europa. Quanto m ais pobre a população, m aior era o uso de cereais secundários, com o a aveia e o centeio. O que não se sabia, entretanto, era da existência do ergotism o, infecção causada por um fungo que existe nas plantações de centeio, assim com o no pão feito com esse cereal. O fungo encontra condições de acom eter as plantações em locais úm idos, com invernos rigorosos, prim averas chuvosas ou em áreas pantanosas. A doença atingia zonas rurais e populações pobres que consum iam centeio. As regiões m ais castigadas pela praga foram as áreas pobres da França, Alem anha e Rússia.

A infecção pelo ergotism o se dá quando a pessoa ingere o alim ento contam inado pelo fungo, e são duas as suas form as de apresentação. Quando com prom ete as artérias, causa lesão inflam atória nas extrem idades, com necrose, podendo levar à infecção secundária. Foram descritos surtos na França nos anos 922 (quarenta m il m ortes) e 1128 (14 m il). A população se referia à doença com o fogo-de-santo-antônio, sendo o santo invocado para a cura. Em sua outra form a, o ergotism o com prom ete o sistem a nervoso central, provocando convulsões, ansiedade, desequilíbrio, sensação de picadas pelo corpo, alucinações e delírios. O fungo produz um a substância alcalóide que é a base da produção do LSD, responsável por esse quadro de alucinações e delírios quando ingerido. Em 1692, ocorreu na vila de Salem , em Essex, nos Estados Unidos, um a série de acusações a pessoas com alteração do com portam ento que sofreriam de possessão do dem ônio. Dos 250 acusados, foram executados cinco hom ens e 14 m ulheres j ovens, conhecidas com o as bruxas de Salem . Discute-se o ocorrido, levantando-se várias evidências de que teria sido o ergotism o o que levou essas pessoas à m orte.

Na época, existiam plantações de centeio na região. Há relatos da m orte de um a parte considerável do gado, que tam bém pasta nas plantações infestadas. A coloração averm elhada no pão de centeio, causada pelo fungo, foi descrita por três "bruxas". Relatos de 24 vítim as referem a sensação de picadas pelo corpo e assinalam três m ortes. A m aioria dos acom etidos foram crianças e adolescentes, que ingeriam m aior quantidade de alim ento contam inado. Na região, os invernos eram rigorosos e as plantações, úm idas — exatam ente as condições favoráveis ao surgim ento do fungo.

As perseguições à bruxaria teriam fim no início do século XVIII, com a últim a execução na Inglaterra em 1712 e, dois anos depois, os últim os j ulgam entos na Rússia e na Prússia. Outra epidem ia de ergotism o ocorreu na Rússia em 1722. Quando as tropas do Czar Pedro I, o Grande, rum avam em direção ao Cáucaso e à Pérsia, a doença eclodiu nos acam pam entos m ilitares ao longo do rio Volga. Matou cerca de vinte m il pessoas, obrigando o czar a cancelar a invasão m ilitar.

 

OBSERVANDO E EXPERIMENTANDO

 

O século XVI foi m arcado por um a era de incertezas quanto às verdades até então consideradas absolutas pela Igrej a. Com o Descobrim ento da Am érica, o m undo viu-se diante de um continente desconhecido de tudo o que a Igrej a descrevia — estava em xeque o dogm a dessa instituição. A descoberta de nativos que viviam em com unidades sem nenhum avanço científico, sem plano de política e governo, deixou o m undo perplexo com a existência desses hum anos não citados na Bíblia.

Ao chegarem à Europa anim ais com o a arara e o peru e vegetais com o a batata, o abacaxi e os cactos, surgiu a necessidade de se classificar o inusitado — estavam abertas as portas para as pesquisas. Até então, os fenôm enos naturais eram estudados pela filosofia, com base nas tradições disciplinares antigas direcionadas pela Igrej a; o novo século pôde introduzir a ciência na vida européia e, com ela, a com preensão das doenças infecciosas.

A prim eira grande derrota da Igrej a foi proporcionada por ela m esm a quando tentou corrigir o tem po defasado pelo calendário de Júlio César. A Terra faz o giro em torno do Sol em 365 dias, cinco horas, 48 m inutos e 46 segundos; m as os egípcios calcularam esse tem po em apenas 365 dias e seis horas; portanto, 11 m inutos e 14 segundos a m ais. Quando Júlio César, no século I a.C., im plem entou o calendário pelas leis egípcias, j am ais im aginaria que após 15 séculos estaria atrasado em dez dias. A Igrej a, no século XVI, percebeu que havia um atraso no tem po e que seria fundam ental sua correção, pois o principal feriado, a Páscoa, teria de ser com em orado no dia exato. Em 1514, o Conselho do papa solicitou aj uda ao astrônom o Nicolau Copérnico para solucionar a questão. Copérnico, nascido em 1473 na Polônia, realizava estudos dos m ovim entos celestes. Logo percebeu que resolver esse problem a baseando-se nas teorias de Aristóteles e Ptolom eu, que colocavam a Terra com o o centro do Universo e o Sol girando ao seu redor, não seria possível. Todos os cálculos dos m ovim entos planetários ficavam perfeitos e exatos quando se situava o Sol no centro do Universo e a Terra ao seu redor. Entre enfrentar a verdade da Igrej a, com batendo a teoria de Aristóteles e Ptolom eu, e declarar que não tinha capacidade para resolver o problem a, Copérnico ficou com a últim a opção e retirou-se para seus trabalhos.

Em bora cada vez m ais convencido de que estaria correta sua teoria, Copérnico, sem pre com receio de enfrentar a Inquisição, m anteve-se no anonim ato por trinta anos. Apenas em 1540, j á acam ado por paralisia, deu perm issão para que se publicasse sua obra Sobre as revoluções das órbitas celestes (ou As revoluções) e m orreu três anos depois. Seu trabalho foi atacado por João Calvino e Lutero, m as Copérnico abriu cam inho para a passagem dos dem ais. Três anos após sua m orte, nascia na Dinam arca Ty cho Brahe, um futuro astrônom o que aj udaria a fortalecer a ciência. Apaixonado pela astronom ia aos 13 anos, presenciou aos 26 o aparecim ento de um corpo brilhante no céu, que perm aneceu por cerca de quatro m eses e desapareceu. A princípio, acreditou-se ser um com eta. Ao estudá-lo, Ty cho Brahe descobriu que o corpo não apresentava m ovim ento e que, portanto, tratava-se de um a estrela. Para os cientistas de hoj e, foi um a estrela nova surgida no ano de 1572, m as naquela época o astrônom o não se preocupou em entender o fato. Sim plesm ente pôs em questão a teoria de Aristóteles, que descrevia o céu com o perfeito e im utável. Prosseguindo nos estudos, ele acom panhou a traj etória dos com etas surgidos em 1577, 1580 e 1585 e descobriu que esse fenôm eno acontecia m ais longe da Lua. Isso novam ente derrubava a explicação de Aristóteles de que com eta e m eteoro seriam fenôm enos atm osféricos — daí se usar o term o m eteorologia para fenôm enos atm osféricos. Ty cho Brahe ficou fam oso pelo estudo dos m ovim entos celestes, apresentados em seus m apas, que forneceram suporte para a navegação, agricultura e fabricação de relógios m ais precisos.

Em 1576, o Rei Frederico II da Dinam arca doou a ilha de Vem , próxim a a Copenhague, para que nela se edificasse um observatório para Ty cho Brahe. A construção tornou-se um com plexo com observatório, laboratório de quím ica, relógios, quadrantes, globos, fábrica de papel e oficina de im pressão e encadernação de seus m anuscritos, j ardins e bosques, tanques de peixes, m oinhos, bom bas d'água e residências, onde ele recebia visitantes. Ty cho Brahe aplicou a m atem ática para acom panhar com m ais precisão os m ovim entos celestes. Em 1600, um ano antes de m orrer, recebeu um novo astrônom o para trabalhar com ele, Johannes Kepler. Este contribuiria para a ciência com descobertas que o legado do astrônom o dinam arquês propiciara. Naquele ano, porém , am bos estavam perplexos com as notícias de Rom a sobre a m orte de Giordano Bruno.

Nascido na Itália em 1548, Giordano Bruno concluiu o curso de teologia em Nápoles em 1575 — ano que lhe foi m arcante pelo fato de ter lido secretam ente as obras proibidas de Erasm o, e isso seria usado por seus inim igos. Acusado de heresia, foi forçado a fugir para Rom a em 1576, sem nunca atacar as idéias da Igrej a. Acusado de assassinato em Rom a, viu-se, no m esm o ano, obrigado à nova fuga, dessa vez para Genebra. Já declarando suas idéias revolucionárias, criticou um professor calvino em artigo público, o que lhe custou outra fuga para Paris. Entre 1580 e 1585, encontrou a paz para a publicação de suas idéias, lecionando em Paris, em Londres e na Universidade de Oxford. As idéias de Giordano Bruno repercutiam na Igrej a: ele criticava as teorias de Aristóteles, pregava que o Universo era infinito, citava a teoria de Copérnico e sustentava que a Bíblia devia ser seguida por seus ensinam entos m orais e não por suas teorias em astronom ia. Por criticar altos funcionários do governo de Paris, foi obrigado a m udar-se para a Alem anha. Em 1591, retornou à Itália, dessa vez para Veneza, a pedido do nobre Giovanni Mocenigo. Por desavenças dos dois, Mocenigo o denunciou à Inquisição de Veneza e Giordano Bruno foi deportado para Rom a em 1593. Após sete anos de j ulgam ento, prisioneiro do Santo Ofício, foi condenado à m orte. Em 1600, quando se encontravam pela prim eira vez Ty cho Brahe e Kepler, Giordano Bruno era am ordaçado, am arrado e queim ado vivo no Cam po di Fiori, em Rom a.

Ty cho Brahe m orreu, e Kepler, com o im pulso de seus m anuscritos, consolidou a união da física, m atem ática e astronom ia. Ele não só defendeu a teoria de o Sol estar no centro do Universo com a Terra ao seu redor, com o dem onstrou pela física e pela m atem ática os cálculos das órbitas dos planetas, sendo reconhecido pelas suas três leis precisas até hoj e. Publicou sua obra em 1609, a Astronomia nova.

Nascido em 1564, Galileu Galilei foi o prim eiro cientista m oderno, e sua história, um exem plo de com o a Igrej a com andava as descobertas científicas. Recebeu com agrado a invenção de um aparelho óptico desenvolvido na Holanda, em 1608 — a luneta, que proporcionava a visão am pliada dos obj etos visualizados. Galileu teve o m érito de aperfeiçoar o instrum ento recém - desenvolvido criando o telescópio, e, especialm ente, o de apontá-lo para o céu em 1609. Descobriu-se assim um a infinidade de estruturas j am ais vistas ou conhecidas. Com o telescópio potente que construiu, Galileu descobriu as luas de Júpiter — satélites a seu redor —, as quais batizou de "corpos m ediciantes" em hom enagem à fam ília Medici, influente em Florença. A traj etória de Vênus ao redor do Sol pôde ser com provada por observação no seu telescópio, que perm itia a análise das diferentes fases do planeta. Galileu verificou m anchas na superfície do Sol, cuj as im agens im prim iu em papel. Esses registros tornavam clara a existência de corpos e m ovim entos no Universo que a Igrej a desconhecia e que a Bíblia não citava — o céu não era im utável com o sem pre se sustentara. Galileu com eçou a dizer que a Terra girava em torno do Sol assim com o a Lua ao redor da Terra. Ele sem pre defendeu os princípios de Copérnico, discordando da doutrina religiosa. Até descrevia os m ovim entos das m arés com o conseqüências do m ovim ento da Terra, que deslocaria as águas do m ar para o litoral dos continentes. Escreveu sobre suas descobertas e teorias, causando descontentam ento aos m em bros do clero, que o subm eteram à censura em 1616. Teria início o seu silêncio científico.

O destino de Galileu m udaria em agosto de 1623 quando os cardeais do Vaticano queim aram palha seca em vez de úm ida para provocar a fam osa fum aça branca — sinal, para a população, de que um novo papa tinha sido eleito. O cardeal Maffeo Barberini foi nom eado Papa Urbano VIII. Barberini tivera contato com Galileu no passado e m anifestava profunda adm iração e respeito por suas idéias. Era a oportunidade que Galileu tinha de continuar a divulgação de seus estudos. Recebendo-o em audiência em Rom a, o papa concordou com a publicação de seu novo livro, aquele que o levaria a j ulgam ento. Galileu dedicou-se a escrever a nova obra, Diálogo sobre os dois maiores sistemas do Universo, publicada som ente em 1632, após longos anos de realização e aprovação pela censura da Igrej a. Pela bula papal de 1515, todos os livros e m anuscritos elaborados em territórios católicos tinham de ser analisados pela Igrej a, que autorizaria ou não sua edição. Os autores que não cum prissem tais norm as estariam suj eitos à punição. A censura tornou-se cada vez m ais rígida com a difusão da Reform a no século XVI. Em 1520, eram proibidos os livros de autoria de Lutero e, em 1559, prom ulgava-se o prim eiro Index de Livros Proibidos. Em 1564, as punições de excom unhão para quem fugisse à regra se estendiam aos im pressores de livros, livreiros e leitores de obras consideradas heréticas.

Diálogo consistia em um a discussão de três personagens que baseavam suas argum entações nas teorias de Aristóteles e Copérnico, dando ênfase a este últim o, para quem o Sol ocupava o centro do Universo. Após longa análise da censura católica e correções im postas pela Igrej a, o livro finalm ente foi publicado em fevereiro de 1632. A prim eira edição se esgotou e a obra foi considerada um sucesso, m as não se passaram seis m eses para que a Igrej a a proibisse. O m om ento era delicado na Europa. A Igrej a reforçava a sua luta contra a heresia num a época em que o continente estava dividido pela Reform a. Em plena Guerra dos Trinta Anos, o papa era criticado pelo Rei Filipe IV, da Espanha, por não apoiá-lo contra os protestantes. Tem eroso de ser envenenado, o papa tornou-se um recluso.

Por instigação de j esuítas inim igos de Galileu, Diálogo foi condenado pelo papa, que era forçado a tom ar m edidas m ais agressivas em defesa da Igrej a, tendo em vista os im passes do m om ento. O rigor da Igrej a em suas punições à heresia para evitar a progressão da Reform a j á havia sido dem onstrado em 1600 no caso de Giordano Bruno. Pelo livro, Galileu foi condenado à prisão perpétua dom iciliar em j unho de 1633. A publicação ocorreu no auge da Guerra dos Trinta Anos, conflito religioso que obrigou a Igrej a a adotar castigos exem plares. Nesse período de guerra, em que a Europa era visitada pelas epidem ias de tifo e peste, Galileu perm aneceu prisioneiro em casa até m orrer em 1642. A peste talvez tenha contribuído indiretam ente para sua condenação. Ele estivera em Rom a para conseguir a autorização para a publicação do livro. Os órgãos de inspeção j á haviam analisado o m anuscrito; o Padre Niccolo Riccardi assinara a autorização tão esperada, m as exigiu algum as correções. Galileu foi a Florença e corrigiu as partes indicadas, porém um fato novo o im pediu de retornar a Rom a: a peste de 1630. O núm ero de vítim as aum entava nas cidades italianas, e os hospitais recebiam sem pre m ais doentes — os sanatórios de San Miniato e San Francesco atenderam seis m il pessoas. Os acom etidos eram retirados de casa e enviados aos hospitais; suas roupas e pertences, queim ados, enquanto seus fam iliares eram enclausurados nas residências por 22 dias. Quando a peste avançava para o sul da Itália, as quarentenas das cidades eram instituídas, dificultando as viagens.

A ida de Galileu à Cidade do Vaticano seria im possível em razão das quarentenas e das barreiras nas estradas. O Padre Riccardi respondeu a Galileu que não voltaria atrás em sua decisão de autorizar a publicação do Diálogo, m as o m anuscrito teria de chegar a Rom a para ser lido. As barreiras apreendiam m ercadorias, e m uitas delas eram borrifadas com substâncias diversas que, com freqüência, inutilizavam -nas. Apenas com a aj uda das autoridades de Florença Galileu conseguiu que seu m anuscrito fosse lido e j ulgado pelos órgãos católicos locais, que autorizaram a publicação. A peste im pediu que a Inquisição de Rom a

fosse a últim a a ler o m anuscrito. {35}

 

ASDESCOBERTASCIENTÍFICAS AVANÇAM

No século da m orte de Galileu, as descobertas científicas criariam terreno para a vitória da razão e da ciência sobre os dom ínios da Igrej a, servindo de base para o Ilum inism o no século seguinte. As descobertas eram proporcionadas pelo desenvolvim ento da m atem ática, que se tornou um a necessidade cada vez m aior num continente que a em pregava em suas explorações m arítim as, cálculos de navegação, levantam entos topográficos e cartografias. Os m atem áticos deixaram de ser elem entos secundários e foram reconhecidos com o fundam entais nos estudos da filosofia natural.

A m atem ática foi enaltecida pelo sistem a pedagógico dos j esuítas, que passaram a difundi-la em seus ensinam entos. Um dos alunos desses padres, René Descartes, antes de ser filósofo foi um m atem ático em nom e da ciência e contribuiu para as m udanças de seu tem po. Inventou a geom etria coordenada e o gráfico, o que deu origem à expressão "coordenadas cartesianas", usada até hoj e. Na Universidade de Pádua surgiu André Vesálio, que revolucionou o estudo da anatom ia em 1537, encontrando erros nos escritos de Galeno. Seguiu seus passos o m édico inglês William Harvey, que descreveu a circulação do sangue no corpo hum ano em obra publicada em 1628. A invenção de diversos instrum entos para o estudo da filosofia natural criou um arsenal para as descobertas científicas. Além do telescópio, foram desenvolvidos o m icroscópio, o barôm etro, a bom ba de ar, o term ôm etro e, posteriorm ente, as m áquinas elétricas. Diante da dim ensão dos conflitos de inform ação em que a Europa se encontrava, não se sabia m ais o que era oficialm ente aceito ou não. Era necessário reform ular a m aneira de pensar as inform ações. Surgiu nesse contexto o advogado inglês Francis Bacon, que influenciou sua época com a publicação da obra The new system, em 1620. Nascido em 1561, Bacon seguiu os cam inhos de seu pai ao se tornar guarda do Selo Real da Inglaterra. Foi defensor do desenvolvim ento científico, acreditando estar nas ciências o aperfeiçoam ento das ações do hom em , que propiciaria sua m elhor condição de progresso. Com fortes influências políticas na m onarquia inglesa, Bacon tentou fundar um a faculdade para os experim entos da ciência, sem sucesso. Seu sonho seria concretizado som ente com a criação da Roy al Society em 1662. Ele preconizava m étodos para os experim entos. Consistiam em observar os fatos e registrar as im pressões para as conclusões. Quanto m aior o núm ero de dados obtidos, m elhor seria a conclusão científica.

René Descartes acrescentaria ao conhecim ento da época seu m étodo de questionar todas as verdades im postas. Nascido em 1596, na França, colaborou para o avanço da ciência ao publicar o livro Discurso sobre o método, em 1637. Sustentava que se deveria partir de fatos sim ples, inquestionáveis, portanto verdadeiros, e, acrescentando um raciocínio lógico, desenvolver novos dados para construir resultados com plexos.

Bacon e Descartes contribuíram para a m etodologia da pesquisa científica, pela qual os trabalhos têm um obj etivo que é alcançado após a análise dos dados pesquisados; isso fez nascer o experim entalism o. Faltava apenas um órgão com petente que analisasse as descobertas e as aceitasse oficialm ente. A ascensão dos m étodos experim entais, com um núm ero cada vez m aior de relatos nessa área, deu origem a grupos que reuniam em debates filósofos e praticantes de ciências naturais. Foi assim que nasceram a Roy al Society de Londres, em 1662, e a Académ ie Roy ale des Sciences de Paris, em 1666. Enquanto a Académ ie era form ada por pessoas que recebiam salário a serviço da Coroa francesa, a Roy al Society era com posta de m em bros independentes e interessados em pesquisa, e necessitava recrutar associados para o seu desenvolvim ento.

Continuar: parte 5 de 5