A História e Suas Epidemias
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
No século XIII, cem anos antes da chegada da peste bubônica, surgiram as prim eiras universidades da Europa im pondo gradualm ente sua aceitação por parte da Igrej a. A princípio, destacaram -se as de Bolonha, Paris, Oxford e Montpellier, seguidas por Cam bridge, form ada por dissidentes de Oxford, e
Pádua, por fugitivos de Bolonha. {13} Foi na Universidade de Paris, consultada para explicar o fenôm eno da peste bubônica, que nasceu a prim eira teoria científica sobre a doença. Acreditava-se que o m al era transm itido pelo ar contam inado. O contágio teria ocorrido por fenôm enos naturais de conj unção de planetas e com etas. Havia três anos se dera um a conj unção de Saturno, Júpiter e Marte. A conj unção de Saturno e Júpiter trouxe m orte e desastres, enquanto a de Júpiter e Marte trouxe a peste bubônica. Júpiter, quente e úm ido, teria feito com que se form assem vapores no ar; e Marte, quente e seco, teria inflam ado os vapores, causando a doença.
Dissem inaram -se pelas cidades m edidas para im pedir o contato com esse ar contam inado, e m áscaras foram adaptadas para evitar que se respirasse diretam ente o ar; fogueiras eram acesas nas encruzilhadas na tentativa de interrom per a contam inação; as casas dos doentes eram isoladas e seus pertences queim ados; cadáveres eram enterrados o quanto antes; vinagre, água de rosas e perfum es, entre outras substâncias arom atizantes, eram espalhados pelas casas; as j anelas eram trancadas para evitar esse ar; a lim peza das ruas e m ercados foi intensificada.
Os m édicos punham m áscara para atender os doentes, e m uitas vezes a em bebiam em substâncias arom atizantes; m esm o assim , o núm ero de baixas entre eles foi grande. Dos 24 m édicos de Veneza, vinte m orreram ; da fam osa escola de m edicina de Montpellier, quase todos pereceram . Enquanto as sangrias e as substâncias para provocar diarréia ou vôm ito não surtiam efeito, o lancetar dos bubões, com a saída do m aterial purulento, gerava esperança de cura. De todas as m edidas tom adas pela população para conter a m ortandade, a que gerou conseqüências m ais desastrosas foi a tentativa de encontrar um culpado para o castigo divino, ou m esm o um culpado para o fato de o m al ter se espalhado pelas cidades. E entre esses culpados encontrava-se o povo j udeu. Inim igos do cristianism o, os j udeus j á eram segregados na vida cotidiana das cidades m edievais havia m uito tem po, m arginalizados das atividades com erciais e im pedidos de trabalhar nos ofícios diários. Tam bém não podiam em pregar cristãos, exercer a profissão de m édico de cristãos, casar-se com cristãos, possuir terras e construir sinagogas.
Em decorrência dessa segregação, os j udeus viviam em bairros e com unidades j udaicas. Restava-lhes se afazerem a transações financeiras e em préstim os a j uros, esta últim a atividade um trabalho autônom o então realizado por falta de opção e no qual foram se destacando. Mas a Igrej a condenava o acúm ulo de riquezas, assim com o a avareza, reprovando tal ocupação. Pela orientação religiosa, bem com o pela quantidade de devedores dos j udeus, a população não os via com bons olhos. Eram alvo de constantes acusações e perseguições. Após a prim eira cruzada, a perseguição aum entou — os j udeus eram acusados de envenenam ento de alim entos, e um conselho de Viena proibiu, em 1267, a com pra da carne que eles vendiam ; eram difam ados com o seqüestradores de crianças cristãs e apontados com o o anticristo. A principal acusação que lhes dirigiam era de envenenam ento dos poços nos quais a população buscava água. Graças a seu hábito religioso de lavar as m ãos antes das refeições, apresentavam nelas um a quantidade m enor de bactérias. Portanto, ao m anipularem os alim entos, tinham m enos possibilidade de contam iná-los. Além disso, usavam água dos rios e não tanto dos poços. Bem diferente do que fazia a população que, ao usar roupas de lã, se coçava e contam inava as m ãos com bactérias fecais das regiões íntim as, o que causava a diarréia.
Esses fatos alertaram a população sobre a possibilidade de os j udeus terem receio da água dos poços provavelm ente porque sabiam do m al que ali existia. Portanto, teriam envenenado os poços. Na época da peste bubônica, em que a população da Europa sucum bia a um m al não j ustificado, nada m ais com um do que atribuir a culpa aos j udeus, acusando-os de desencadear a doença. Logo, deveriam ser excluídos das com unidades, para que o processo da peste term inasse. O que naturalm ente favoreceria tam bém aqueles a quem haviam feito em préstim os.
A perseguição iniciou-se na época em que a peste bubônica acom eteu o sul da França, na prim avera de 1348. A população local, tom ada pelo desespero, acusou os j udeus locais do envenenam ento e os perseguiu. As prim eiras perseguições ocorreram em Narbonne, Carcassonne e Provença com j udeus queim ados em fogueiras. Provavelm ente, esse fato poderia ficar isolado na região se não fosse o velho costum e, eficiente, de se obter por tortura a confissão dos acusados. Na Savóia, aconteceram os prim eiros j ulgam entos dos j udeus. Sob tortura, vários acabaram confessando o envenenam ento, o que resultou na m orte de 11 deles na fogueira. A conspiração teria com eçado em Toledo, na Espanha, de onde teriam partido j udeus carregando para o m undo cristão os potes com veneno. Essas notícias chegaram a todos os reinos europeus em cartas de alerta; estava aberta a caça aos culpados. Daí em diante, o que se viu foi perseguição e assassinato em m assa dos j udeus.
A perseguição seguiu o cam inho da peste bubônica, alastrando-se na m esm a velocidade e traj etória da doença, do sul para o norte da Europa. Quanto m ais a peste se aproxim ava, m ais rápido se dava o exterm ínio dos j udeus. Com eçando no lago de Genebra, a doença propagou-se em direção ao norte; em novem bro de 1348, os j udeus foram proibidos de entrar em Zurique, e em Basle j á haviam sido construídas casas de m adeira para queim á-los vivos. De novem bro a m arço de 1349, o exterm ínio seguiu pelas cidades de Solothurn, Stuttgart, Landsberg, Landau, Burren, Menningen, Freiburg, Ulm , Spey er (onde os corpos eram colocados em im ensos barris e atirados ao rio), Gotha, Eisenach, Dresden, Worm s, Baden e Erfurt. Os assassinatos cam inhavam ao lado da peste bubônica. Em Estrasburgo, sem anas antes de a doença chegar, a população j á sabia da sua aproxim ação. Dessa form a, m ais de dois m il j udeus tinham sido queim ados; na noite de São Valentino, foram queim ados vivos novecentos j udeus. Acredita-se que só nessa cidade 16 m il j udeus tenham sido m ortos. A perseguição recom eçou quando a peste bubônica se aproxim ou de Mainz e
Colônia: 12 m il j udeus queim ados.{14}
De nada adiantou a tentativa do Papa Clem ente VI de pôr fim ao m assacre. A população endoidecida e convicta da culpa dos j udeus continuou a persegui-los com ferocidade. O papa editou um a bula condenando esse m ovim ento, sob pena de excom ungar os que o levassem adiante; de nada adiantou. No total, foram exterm inadas m ais de sessenta grandes com unidades de j udeus, além de outras 150 de m enor porte. Ocorreu um grande êxodo dos sobreviventes para as regiões que os acolhiam , e eles se aloj aram em terras da Polônia e Lituânia, onde perm aneceram em descanso até o fatídico ano de 1939, início da Segunda Guerra Mundial, quando se deflagraria nova perseguição. A Europa j am ais testem unhara tragédia com o essa. Em pouco tem po, um terço da sua população desapareceu. Os cam pos e as cidades ficaram desabitados, raras foram as fam ílias que não perderam alguns de seus m em bros. Por exem plo, em um a fam ília de seis pessoas — um casal e quatro filhos — era com um a perda de dois filhos ou do pai e de um filho. Essa dim inuição da população foi um dos fatores da grande depressão do século XIV. A Igrej a j á sofrerá sérias derrotas m orais no início do século pelas m ãos de Filipe IV, o Belo, rei da França. Ele havia obrigado o clero francês a pagar im postos e isso desagradou ao Papa Bonifácio VIII, que se pronunciou contrário à im posição. O conflito gerou atitudes radicais — Filipe foi excom ungado pelo papa e este considerado um herege pelo rei. Tais fatos precipitaram a invasão de Rom a, em 1303, pelo exército de Filipe IV. O papa foi aprisionado e libertado após três dias, m orrendo um m ês depois, aos 86 anos. Com a eleição de um papa sucessor francês, Filipe IV transferiu o papado para a cidade francesa de Avignon, desm oralizando a Igrej a Católica da Idade Média. Essa perda de crédito da Igrej a se deu tam bém diante da população em razão dos exageros em Avignon. Mem bros do clero com pravam cargos, vendiam indulgências, arrecadavam fundos para cruzadas, relacionavam -se com prostitutas, tinham am antes e filhos e enfeitavam -se com artigos de luxo. Todas essas atitudes desgastaram a m oral da Igrej a, que decaiu ainda m ais na época da peste bubônica, quando a instituição perm aneceu im potente diante da população que sofria.
No entanto, a peste bubônica serviu para aum entar as riquezas da Igrej a. No ano de 1300, o Papa Bonifácio VIII criou o j ubileu da Igrej a Católica, o que m otivou um a peregrinação m aciça a Rom a, incentivada pela doação de indulgências. O j ubileu, que seria realizado em intervalos de cem anos, alcançou tam anho sucesso que o Papa Clem ente VI reduziu o intervalo para cinqüenta anos, decretando um j ubileu em 1350. Novam ente, Rom a via suas ruas tom adas por peregrinos, que lotavam os cofres da Igrej a com a com pra de indulgências e doações. Um a população que via a m orte se aproxim ar agia assim , apesar da im potência da Igrej a diante daquele m al.
DURANTE Q UATROSÉCULOS
Após essa grande epidem ia de peste bubônica, a Europa ficou albergando o agente infeccioso da doença. Agora, os ratos que circulavam pelas cidades provocavam epidem ias de tem pos em tem pos. A peste bubônica tornou-se m otivo de pânico constante na vida dos europeus nos quatro séculos seguintes. Após a peste negra do ano de 1347, a doença só desapareceria das cidades européias no ano de 1720, com a últim a epidem ia em Marselha. As epidem ias de peste bubônica retornavam com freqüência às cidades, e foram a causa de um m edo constante naqueles séculos.
Mesm o no século da peste negra, várias epidem ias voltaram a ocorrer em cidades isoladas. A m ortalidade no continente europeu nunca m ais seria igual à dos fatídicos anos de 1347 a 1350; porém , em cada nova epidem ia de peste bubônica, a m ortandade não seria diferente. Ainda no século XIV, diferentes regiões da Europa veriam o retorno dessas epidem ias, com o Inglaterra, França, Bélgica e Itália. E elas perm aneceriam nos próxim os séculos. Entre 1347 e 1536, a França sofreria 24 epidem ias da doença e, entre 1536 a 1670, m ais 12 surtos. O m edo nos séculos seguintes não seria m inim izado, assim com o a m ortalidade em cada surto. No século XV, quando as caravelas portuguesas ainda não tinham atingido a região sul da África, Paris foi atingida pela peste bubônica, que m atou quarenta m il habitantes. No século XVI, j á com a chegada das novas epidem ias de sífilis e tifo, crescia o pânico da população. No final do século XV, as cidades do norte da Itália foram castigadas pelas epidem ias de peste bubônica. A prim eira com eçou em 1477, alastrando-se por Milão, Brescia e Veneza. Os lazaretos ficaram lotados, adm inistrando o contingente de doentes que chegava todo dia. Os esforços m édicos, inúteis num a época em que se desconhecia a causa dessa peste, não evitaram a m orte de 22 m il pessoas em Milão, 34 m il em Brescia e trinta m il em Veneza. Esta últim a, grande centro com ercial que recebia em barcações de diversas regiões, incluindo o Oriente, sofreu várias epidem ias de peste bubônica. O ano de 1575 ficaria guardado na lem brança de Veneza pelo acom etim ento da m etade de sua população de 180 m il habitantes. Mesm o tendo experiência nas m edidas de controle, com o isolam ento dos doentes e a queim a de seus utensílios e roupas, os órgãos de saúde não evitaram a m orte de cinqüenta m il m oradores. A Guerra dos Trinta Anos (1618—1648) foi um período m arcante nas epidem ias de peste bubônica nas cidades européias, m escladas com as epidem ias de tifo que predom inaram na prim eira m etade desse conflito. O norte da Itália foi intensam ente atingido no ano de 1630, com a m orte de 32% da população de Veneza, 51% da de Milão, 63% da de Verona e 77% da de Mântua. Naquele período, o serviço prestado pelos capuchinhos à população ganhou popularidade no continente; eles foram considerados heróis em tem po de peste bubônica, assistindo os doentes de todas as form as preconizadas pela Igrej a. Um fato que aj udou a difusão dessa ordem pelas m onarquias católicas. As cidades francesas viveram os piores anos da peste bubônica, desde a sua chegada, nas 28 epidem ias que ocorreram entre 1625 e 1640. Novos cem itérios apareceram naqueles anos, os m ortos eram queim ados onde se conseguisse lugar. A cidade m ais castigada foi Ly on, em 1628. No período que se seguiria ao fim da Guerra dos Trinta Anos, o panoram a das cidades não seria diferente. Em 1649, Sevilha, um dos principais portos com erciais do continente, perderia sessenta m il habitantes do seu total de 110 m il. Três anos m ais tarde, a peste bubônica chegaria a Barcelona, não poupando m etade de sua população de 44 m il pessoas. Nápoles, em 1656, registraria 250 m il m ortes de seus quatrocentos m il a 450 m il habitantes. Em Londres, foram exterm inados quarenta m il cães e duzentos m il gatos por um a população desesperada para encontrar a causa de um a nova epidem ia — que m ataria cerca de 68 m il dos seus 460 m il habitantes. Fugiram da cidade cerca de duzentas m il pessoas, entre elas, e para o bem da ciência, Isaac Newton. Na segunda m etade do século XVII, foi a vez de os países do centro-leste europeu docum entarem seus piores anos da peste bubônica. Em 1663, a doença iniciou sua onda de epidem ias na Alem anha, Áustria e Suíça. Chegaria a Viena em 1679, procedente dos Bálcãs e da Turquia. A cidade ficava no entroncam ento das rotas com erciais do leste e oeste europeus, suscetível à chegada do agente infeccioso.
Finalm ente, a Europa se viu livre das epidem ias de peste bubônica com a últim a delas em Marselha, na França, em 1720, que m atou m etade dos cem m il habitantes. Naquele ano, a peste cam inhou para a Europa por um a em barcação m ercante nos m ares do Mediterrâneo, procedente da Síria. Chegou em m aio de 1720, quando o Grand St. Antoine atracou ao porto de Marselha anunciando a presença de tripulantes doentes. As m edidas de quarentena em pregadas pelos órgãos com petentes poderiam ter dado resultado se não fosse o contrabando de roupas que provavelm ente albergavam pulgas contam inadas. Com os prim eiros casos da doença na cidade, ocorridos entre os com pradores das roupas contrabandeadas, adotaram -se m edidas de queim a do vestuário, que não contiveram a epidem ia. Os órgãos m unicipais dem oraram dois m eses para reconhecer que era m esm o epidem ia, por tem or de que as m edidas de quarentena afetassem o com ércio; m as este foi prej udicado pela m orte de um terço à m etade da população de Marselha. Não se sabe ao certo o m otivo de, depois disso, a doença ter desaparecido na Europa, m as é fato que no terceiro decênio do século XVIII aconteceu a últim a epidem ia, não havendo registro de outra, apenas de casos esporádicos.
No início das epidem ias, os m em bros dos conselhos adm inistrativos m unicipais tentavam de todas as form as conter o pânico da população com falsas conclusões. Eram com uns diagnósticos tranqüilizadores, pela suposição de que fossem casos esporádicos, bem com o os que negavam tratar-se de peste bubônica. Dessa form a, om itiam -se núm eros oficiais das m ortes e dos acom etim entos, ganhando-se tem po para o controle e evitando-se o pânico. Retardavam -se m edidas deletérias à vida com ercial e financeira da cidade, com o a tem ível quarentena, que interrom pia o com ércio. Eram m edidas protelatórias, logo desm entidas pelo núm ero crescente de m ortes que afloravam aos olhos da população j á assustada.
As cidades novam ente esvaziavam -se, os m oradores trancavam -se em casa com m edo do ar corrupto que transm itiria a peste bubônica; o com ércio parava; as ruas ficavam desertas. Mas o que não faltavam eram os corpos espalhados pelas calçadas, aguardando as carroças que os levassem am ontoados para enterros coletivos em valas com uns. Num erosos relatos de pilhas de cadáveres nas ruas são encontrados em docum entos, assim com o de corpos que saíam das casas por cordas ou que eram arrem essados pelas j anelas. As casas dos doentes eram lacradas com m adeira e seus pertences, queim ados; apareciam os oportunistas e saqueadores das residências e dos corpos abandonados pelo pavor do contágio. Os fam iliares dos doentes eram enclausurados em seu dom icílio até serem autorizados a sair. As fugas aceleravam -se, as cidades esvaziavam -se. Som ente depois de passada a peste bubônica é que os m oradores voltavam , de m aneira ainda tím ida. Os m ais abastados colocavam antes um criado no dom icílio para prevenirem -se. Todas as m edidas de tratam ento adotadas pelos m édicos da época falhavam . Sangrias debilitavam ainda m ais o corpo doente; cristais de arsênico e pedras preciosas aplicados à superfície do corpo enferm o eram inúteis, do m esm o m odo que os ungüentos, preparados de diversas form as — com excrem entos de anim ais, cebola, m ostarda ou terebintina. Até as providências contra os bubões não surtiam o efeito desej ado. A cauterização com ferro quente, a aplicação de folhas de repolho e o em prego de sanguessuga, ou m esm o seu corte com navalha, pouco m udavam o destino final dos doentes. Além do apelo religioso a um a entidade superior que livrasse a população do m al, tentava-se encontrar responsáveis pela epidem ia.
Essa procura de culpados prosseguia. Os estrangeiros eram os prim eiros suspeitos. Em 1596, os espanhóis acom etidos pela peste bubônica acusaram estrangeiros dos Países Baixos; Lorena, em 1627 e 1636, responsabilizou prim eiro os húngaros e depois os suecos; Toulouse, em 1630, incrim inou as pessoas provenientes de Milão; Isaac Newton ao fugir da peste bubônica de Londres, acreditava que os holandeses eram os responsáveis por ela. Muitas vezes, a culpa atribuída aos estrangeiros era tam bém dirigida aos m oradores da cidade. O m edo coletivo fazia as pessoas perderem a razão, e o fato de se achar um culpado era um a esperança de pôr fim à m ortandade diária que surgia a cada epidem ia. Assim , em Milão, na peste bubônica de 1630, foram vistos o com issário de saúde Piazza e o barbeiro Mora passando um a substância pegaj osa nas portas das casas e nos m uros da cidade. Supostam ente teriam sido encontradas as pessoas que estavam espalhando a doença e que deveriam ser banidas. Esse delírio fez com que o Senado investigasse os dois. Sob tortura, eles, com o seria de esperar, confessaram o crim e. Foram castigados com ferro quente, suas m ãos decepadas, os ossos quebrados; e, m ortos, foram queim ados. A religiosidade preponderava nas cidades atingidas. Penitências proliferavam , assim com o as súplicas dos habitantes. Eram m uitos os serm ões coletivos seguidos de procissões gigantescas que percorriam as ruas acom panhadas de rezas ininterruptas; quanto m ais barulho se fizesse, m aior seria a chance de Deus ouvir a população desesperada. Os sinos tocavam todo o tem po. Surgia um novo protetor contra a peste bubônica, São Roque, que suplantaria a fam a de São Sebastião. Roque teria sido acom etido pela doença na Itália e expulso de Piacenza. Refugiara-se num a cabana afastada, sendo alim entado e tratado por Gottardo, um patrício que o hospedara. Curado, teria voltado à sua cidade natal, Montpellier, onde foi acusado de ser espião. Morreu na prisão, e o calabouço em que estava se ilum inou. Perto de seu corpo, puderam ser lidas inscrições que o referiam com o protetor da peste bubônica.
O TIFO
Um agente infeccioso conhecido com o Rickettsia é o causador do tifo. Alberga-se no organism o dos piolhos e sua transm issão para o hom em se dá pela picada desses insetos, que o transferem para o sangue. A epidem ia de tifo se instala com o aum ento das infestações por piolhos num a população. Os aglom erados hum anos com m á higiene, freqüentes nas guerras, cam pos de concentração, acam pam entos m ilitares e cadeias, ocasionaram a grande m aioria das epidem ias de tifo.
Depois que a Rickettsia é introduzida no sangue, o paciente tem febre, dores pelo corpo, m al-estar, indisposição e dor de cabeça. Mas o m aior dano ao ser hum ano se dá com as lesões que esse agente causa nos vasos sangüíneos, que ficam obstruídos. Áreas do corpo passam a não receber sangue adequadam ente, e as lesões averm elhadas na pele progridem para a necrose, o apodrecim ento do tecido; perdem -se braços, dedos ou pernas. Diante desse quadro, é fácil im aginar a alta m ortalidade que o tifo causava e o aspecto pavoroso dos doentes. O século XVI foi m arcado por guerras constantes, com disputas territoriais, religiosas e com erciais. Essas foram características tam bém dos séculos anteriores, com a diferença de que som ente nessa época a Rickettsia foi levada para a Europa. O tifo apresentou-se na form a endêm ica no leste europeu. Não se sabe ao certo por que seu agente se restringiu a essa região, m as a m aioria de suas aparições na História deveu-se às guerras que propiciavam as infestações pelo piolho. Assim , ocorreram epidem ias no leste europeu durante a Prim eira Grande Guerra; na Rússia, quando invadida pelo exército de Napoleão Bonaparte e em sua Revolução de 1917; e nas guerras dos povos católicos ao Im pério Otom ano. Sua prim eira aparição na Europa foi proveniente dessas regiões do leste.
A doença entrou na Europa pelo sul da Espanha em 1489, partindo do leste do Mediterrâneo. Naquele ano, com eçou a guerra espanhola pela reconquista de Granada, últim o território m uçulm ano na Península Ibérica. A vitória do exército espanhol se deu em 1492, ano da chegada de Colom bo à Am érica. Alguns soldados espanhóis que lutavam na ilha de Chipre contra os turcos voltaram a seu país e participaram do cerco de reconquista de Granada. O que não sabiam , porém , é que levavam algo m ais que o reforço m ilitar: a Rickettsia. De acordo com relatos de generais espanhóis, dos vinte m il com patriotas m ortos na guerra apenas três m il com batiam — os 17 m il restantes foram vitim ados pelo
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tifo. Mais preocupante foi o regresso desse exército, que levava, além das
glórias da vitória pela reconquista do território cristão, o agente responsável pela tem ível doença que m arcaria os séculos seguintes até a Grande Guerra de 1914-1918. Esse agente habitaria então a Europa e causaria epidem ias nos aglom erados de guerra, principalm ente no século de sua chegada. A m onarquia espanhola se instalou e se fortaleceu quando o neto dos reis católicos, Carlos I, assum iu o trono em 1516. Filho de um m em bro da fam ília dos Habsburgos, Carlos I foi eleito três anos depois im perador do Sacro Im pério Rom ano com o Carlos V, e assim uniu a Espanha, a Europa central e o sul da Itália. Em 1515, Francisco I ascendeu ao trono da França, prom oveu o fortalecim ento da m onarquia nesse Estado e foi reconhecido pelo papa com o dotado do poder de controlar os eclesiásticos franceses e de escolher os bispos e abades. Fatalm ente, as duas potências em ascensão, França e Espanha, travaram guerras por disputas territoriais, acom panhadas dessa vez pelo tifo, presente então na Europa.
O território intensam ente disputado por esses dois Estados foi o italiano. Em 1525, o exército francês foi derrotado no norte da Itália e Francisco I foi preso, libertando-se por m eio de acordos. Em 1527, diante das tendências de aliança do papa com a França, Carlos V invadiu a Itália, saqueou o Vaticano e aprisionou o papa no Castelo Santo Ângelo. O exército francês foi obrigado a seguir em apoio ao papa. Conquistou regiões pelo norte italiano, e o exército espanhol organizou a defesa nos seus territórios em Nápoles.
Em Rom a ocorreram epidem ias de peste bubônica que acom eteram o exército espanhol causando baixas im portantes. Os espanhóis de Carlos V encontravam -se acuados em Nápoles, com fom e e depauperados pela peste bubônica. Finalm ente, foram im pedidos de receber provisões por um bloqueio m arítim o feito por dez navios genoveses na baía de Nápoles. Com a chegada dos franceses, em 1528, era inevitável o m assacre que sofreriam os espanhóis — apenas 11 m il hom ens enfraquecidos tentando conter o avanço dos 28 m il inim igos. Durante o cerco de Nápoles, o tifo acom eteu os acam pam entos franceses, causando o exterm ínio da sua força m ilitar. Em m enos de um m ês, m etade dos soldados franceses m orreram , entre os quais o General Odet de Lautrec. De 28 m il hom ens, perm aneceram vivos quatro m il fugitivos. Pela prim eira vez, o tifo foi responsável pelo desfecho de um a guerra, determ inando a vitória de Carlos V e o poder espanhol sobre o papado e a Itália. A rivalidade entre essas duas nações continuou, e em outubro de 1552 o exército espanhol sitiou a cidade de Metz, em disputa com os franceses. Eram 75 m il m ercenários aglom erados nos acam pam entos m ilitares do cerco, e, novam ente, o tifo eclodiu, m atando m ais de dez m il soldados em um único m ês, com a contribuição das disenterias. Na prim eira m etade do século XVI, ainda eram constantes as guerras entre esses dois Estados — que estavam associadas aos confrontos religiosos, acirrados pela Reform a Protestante de Martinho Lutero —, e em todas o tifo se fazia presente. Além desses conflitos internos na Europa, havia o m edo em relação aos turcos do Oriente. Eles haviam conquistado Constantinopla no século anterior e invadiram os Bálcãs, tornando-se um a am eaça às fronteiras da Hungria. O cristianism o europeu estava am eaçado pela invasão do exército turco. As nações européias realizaram cam panhas m ilitares para conter o avanço desse im pério em seu território. A cada cam panha, eclodiam epidem ias de tifo, procedentes da Ásia Menor, nos acam pam entos m ilitares e nas cidades. O obj etivo principal do sultão otom ano foi selado com a invasão da Hungria por seu exército em 1526, abrindo as portas para a conquista da Europa. Na prim eira m etade do século XVI, travaram -se batalhas nesse território, com as forças católicas tentando conter o avanço dos turcos provenientes do leste. Finalm ente, em 1541, a cidade de Budapeste caía nas m ãos dos turcos, um a derrota m arcante para a nação católica européia.
As forças das nações do continente europeu uniram -se para expulsar os turcos. Assim , em 1542, Joachim de Brandem burg chegou à Hungria com seu exército de alem ães e italianos. Nos acam pam entos m ilitares im undos, o tifo m atou cerca de 55 m il católicos. Os europeus conheciam a nova doença levada da Ásia até eles pelos turcos e cham aram -na de "doença húngara". Poucos turcos foram acom etidos, assim com o poucos húngaros, reforçando a hipótese de a doença ser originária do Oriente, cuj os povos, por terem m antido contato prévio com ela, lhe teriam certa im unidade. Os turcos perm aneciam em Budapeste com a aj uda dos m ales infecciosos.
A Hungria foi a zona de choque entre forças católicas e otom anas. Em 1566, o Sultão Suleim an I avançou com seu exército para Viena, e organizaram -se novas cam panhas m ilitares para contê-los. Maxim iliano II seguiu para a Hungria com um a força de cem m il hom ens. O tifo foi responsável pela m orte de boa parte desse exército que, por fim , m atou o sultão e fez os turcos recuarem . No regresso, os soldados espalharam o tifo em diversas cidades alem ãs da Boêm ia, e assim Viena sofreu a m aior epidem ia da sua história. Poucos anos depois, seria criada a Liga Santa, unindo a Espanha, a República de Veneza e o papado no com bate aos turcos.
As epidem ias de tifo dessa fronteira estabelecida no leste europeu, entre o m undo católico e o Im pério Otom ano, não ficaram restritas aos acam pam entos m ilitares. O deslocam ento do exército cristão com pacientes portadores do tifo ou de pessoas infestadas por piolhos contendo a Rickettsia tam bém levou as epidem ias para a população das cidades européias. Além de reinar nos acam pam entos m ilitares, a doença invadia as prisões européias, e por isso ficou conhecida com o a "febre das cadeias". Os prisioneiros eram aglom erados em celas im undas, sem higiene e sem banho, o que deflagrava as infestações por piolhos e a dissem inação do tifo. Várias epidem ias ocorriam entre os presos da Europa, causando a m orte de grande núm ero deles pela "febre das cadeias".
Na Inglaterra, um a conseqüência im ediata de ir para a prisão era o risco de contrair o tifo em surtos epidêm icos. O que m ais assustou a população européia, principalm ente a inglesa, foi o fato de a doença dissem inar-se pelos habitantes por m eio dos tribunais. Em 1522, o tribunal de Cam bridge, ao abrir sua sessão para o j ulgam ento dos presos, recebeu-os na sala do castelo repletos de piolhos transm issores do tifo. Em poucos dias, m em bros do j úri, espectadores e oficiais adoeceram . Os tribunais do país passaram a espalhar erva-doce nas salas com base na crença de que isso purificava o ar poluído pela doença. Em j ulho de 1577, o tribunal de Oxford, em sessão concorrida, j ulgava o encadernador inglês Rowland Jencks pelas ofensas que teria feito ao governo britânico e à Igrej a Anglicana. As salas estavam lotadas, com a população ansiosa por ver a condenação do hom em , que teria as orelhas cortadas. Assim foi, m as ele acabou poupado do tifo que se alastrou no tribunal: dado o grande núm ero de espectadores que tinham piolho, a doença dissem inou-se de form a epidêm ica. De volta para casa, as pessoas espalharam os piolhos com o agente do tifo entre fam iliares e vizinhos. Morreram cerca de quinhentos habitantes, incluindo vários m em bros da Universidade de Oxford. A cidade de Exeter foi responsável pelo j ulgam ento de prisioneiros capturados num navio português. Aglom erados nas prisões infestadas, doentes e desnutridos, esses hom ens form aram um elo da doença com os espectadores da sessão no tribunal realizada em m arço de 1586. O tifo acom eteu os espectadores e m atou 11 dos 12 j urados, alastrando-se nas redondezas. No início do século XVII, a Europa vivia um a tensão geral em decorrência da expansão das m onarquias e dos conflitos religiosos resultantes da Reform a. Os príncipes da Alem anha tem iam a perda de territórios, e os reis da Suécia e Dinam arca alm ej avam o crescim ento territorial de seus dom ínios, conquistados sem pre em disputas. Acreditou-se que os três com etas aparecidos no céu da Europa em 1618 eram um m au presságio, a concretizar-se naquele m esm o ano. O crescente conflito religioso foi o estopim para um a guerra generalizada — a dos Trinta Anos, que envolveu diversas potências daquele continente. Assim , a Europa testem unhou m ovim entos de tropas m ilitares em seu território: refugiados m igraram de diversas regiões, a população civil se m isturou e a fom e se fez presente. Novam ente o tifo, no continente europeu desde o século anterior, encontrou condições para causar epidem ias entre m ilitares e dissem inar-se por populações civis. Com o vim os, a peste bubônica foi outra infecção que se aproveitou dessas condições para surgir em epidem ias. A guerra, a fom e e as epidem ias m ataram quase m etade da população da Alem anha. O estopim da Guerra dos Trinta Anos foi um a desavença na sucessão do território da Boêm ia, o que ocasionou a entrada das principais nações européias em conflito. A revolta da Boêm ia foi sufocada pelo exército do rei austríaco Fernando II, com andado pelo General Tilly na batalha de Montanha Branca, próxim o de Praga. Nessa batalha, iniciou-se um a epidem ia de tifo nos acam pam entos m ilitares. Com as locom oções hum anas de m ilitares e civis, a infecção espalhou-se nas cidades da Boêm ia e da Alsácia e no sul da Alem anha. Apareceu em Metz, em 1625, cam inhando paraVerdun e França. O tifo alastrava-se não som ente nos acam pam entos m ilitares, m as tam bém nas cidades que recebiam im igrantes e fugitivos das áreas de guerra. Assim , em 1624, m ais de dez m il habitantes de Am sterdã m orreram . Montpellier, cercada em 1623, foi atingida pelo tifo, que se espalhou por Ly on em 1628 causando sessenta m il m ortes e, finalm ente, por Lim oges, ondé m atou 25 m il pessoas. Cristiano IV, rei da Dinam arca, entrou na guerra a favor da Boêm ia e invadiu seu território. Fernando II, com a aj uda de seus generais, Tilly e Wallenstein, investiu o exército contra as tropas que partiam do norte. Assim , em 1629, os exércitos dos dois generais propagaram o tifo pelas cidades nórdicas de Estrasburgo, Manheim , Frankfurt, Mainz e Nurem berg.
Com as tropas austríacas chegando ao m ar Báltico, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia, entrava na guerra, apoiado pela França. No início, sua cam panha foi m arcada por vitórias-relâm pago e por epidem ias de tifo. Durante o cerco de Nurem berg, em 1632, um a dessas epidem ias propagou-se por cidades do interior, m atando cinco m il civis. Nessa fase, j á crescia o núm ero de acom etidos pela peste, que predom inaria na outra m etade da guerra. Gustavo Adolfo m orreu em com bate e, com isso, estava declarada a guerra dos Habsburgos e Bourbons pela hegem onia européia, que acabaria som ente com o Tratado de Vestefália, em 1648.
A epidem ia da peste tam bém alcançou as cidades italianas por ocasião da Guerra dos Trinta Anos. As localidades do norte foram as prim eiras a conhecer o poder destruidor das epidem ias. Em 1629, j á se instituía a quarentena em Milão, o que não evitou a m orte de sessenta m il pessoas, quase m etade dos seus 130 m il habitantes. Um a a um a, as cidades italianas se rendiam ao invasor inevitável. Assim foi com Brescia, Bolonha, Pádua, Parm a, Turim e Gênova. O registro de m ortalidade era assustador para as cidades que, m esm o sem epidem ia ainda, sabiam -se na rota da doença. Mântua perdeu 25 m il habitantes; Colm o, 42% de sua população; Monza, 57%; Bérgam o, 40%; Bolonha, 24%; Florença, 10%; Pádua, 59%; Verona, 61%. Na República de Veneza, um a das m ais populosas, com 140 m il habitantes, m orreram 46 m il.
No fim da guerra, em 1648, as potências estavam dilaceradas não só pelas batalhas, m as tam bém pelas epidem ias de tifo e peste que m ataram m ilitares nos acam pam entos e cidadãos em diversas localidades. Até o final do século XVII, era com um surgirem epidem ias de tifo isoladas nas cidades.
UMA DOENÇA MISTERIOSA
A Inglaterra viveu m om entos difíceis no período da Guerra das Duas Rosas, que m arcou a disputa pela sucessão de seu trono entre as fam ílias dos York e dos Lancaster. Em 1485, as tropas de Henrique Tudor preparavam -se para a últim a batalha, que derrotaria no cam po de Bosworth o Rei Ricardo III e poria fim à Guerra das Duas Rosas. Henrique Tudor iniciou a dinastia dos Tudor com o Henrique VII, e com a entrada de suas tropas em Londres tudo estava preparado para coroá-lo novo rei da Inglaterra.
O que a população ignorava era que, com as tropas, chegavam não só as glórias da vitória, m as tam bém um novo agente infeccioso oriundo do cam po da últim a batalha ou talvez do território francês de onde partiram as tropas m ercenárias. O agente desencadeou a epidem ia na cidade de Londres. Os doentes apresentavam fraqueza intensa e febre elevada com calafrios. Em poucas horas, esse quadro podia evoluir com dores de cabeça, convulsão, com a e m orte. Os que sobreviviam recuperavam -se totalm ente depois de passar dias suando m uito. A
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doença ficou conhecida com o "suor inglês".
A epidem ia espalhou-se por Londres, seguindo para o interior do reino e só parando na fronteira da Escócia e Gales. O pânico tom ou conta dos ingleses — de cada três que com eçavam a apresentar os sintom as do suor inglês, um m orria. A coroação de Henrique VII teve de ser adiada por cerca de cinco sem anas, quando os casos da epidem ia com eçaram a sum ir da capital, passando a m anifestar-se no interior. Boatos advertiam que era um m au presságio para a dinastia Tudor. Após o fim da calam idade em Londres, coroou-se Henrique VII. Em 1485, iniciava-se a dinastia Tudor na Inglaterra, associada ao início de um a doença nunca vista antes.
O reinado de Henrique VII foi m arcado não só pela aparição do suor inglês com o, em seus últim os m eses, em 1508, pela segunda epidem ia desse m al em Londres. Novam ente m atou habitantes, m as em m enor escala que da prim eira vez. Estudantes e docentes de Oxford e Cam bridge estavam entre as vítim as. Um ano depois, m orria Henrique VII, e o trono da Inglaterra foi ocupado por seu filho Henrique VIII.
A corte do Rei Henrique VIII viveu um ano tum ultuado, o de 1517, em razão da chegada da terceira epidem ia do suor inglês — as tarefas adm inistrativas foram interrom pidas e seus m em bros refúgiaram -se em Windsor. Apesar de poupar o rei, a doença atingiu boa parte da corte, que adoeceu e m orreu. Em seis m eses, o suor inglês propagou-se pelo reino da Inglaterra, novam ente parando às portas da Escócia. As cidades que foram duram ente acom etidas perderam quase a m etade de sua população. Com o fim da terceira epidem ia do suor inglês, Henrique VIII voltou a reinar tendo um núm ero reduzido de m em bros na sua corte. Enquanto o rei iniciava os preparativos para o m ovim ento de reform a da Igrej a, surgiu a quarta epidem ia da doença, que, m ais um a vez, com eçou em Londres, alcançou o interior e parou às portas da Escócia. Dessa vez, alastrou- se tam bém por cidades portuárias do m ar Báltico e do m ar do Norte. Foi para Ham burgo em j ulho de 1529, onde m atou entre m il e duas m il pessoas nas prim eiras sem anas. Do litoral, espalhou-se na Alem anha, Holanda, Suécia, Lituânia, Polônia, Rússia, Dinam arca e Suíça. A Alem anha foi a m ais duram ente castigada — eram sepultados cinco a oito corpos num a m esm a vala. O Concílio da Reform a foi interrom pido em Marburg. E em Augsburgo, nos prim eiros cinco dias da epidem ia, 15 m il pessoas j á haviam sido acom etidas. A Igrej a Católica viu na doença um castigo de Deus pela heresia de Lutero, tendo em vista que o m al atingiu apenas os países da Reform a e poupou os Estados católicos: França, Itália,
Espanha e Portugal.{17}
Encerrada a epidem ia de 1528—1529, o im passe religioso continuava na Inglaterra. Henrique VIII destituía os que eram fiéis ao papa e nom eava m em bros do clero de sua confiança. Usando o apoio da legislação do Parlam ento inglês, com eçou a ter o controle da Igrej a no reino. O arcebispo de Canterbury, Thom as Cranm er, declarou nulo o casam ento de Henrique VIII com Catarina de Aragão e legalizou seu novo casam ento com Ana Bolena, am ante do rei que j á esperava um filho dele, futuro herdeiro do trono inglês. Nasceria, pouco depois, Elizabeth.
Não restava outra opção ao papa senão excom ungar o rei da Inglaterra, que rom peu definitivam ente com a Igrej a de Rom a ao declarar-se chefe suprem o da Igrej a inglesa, para instalar a Igrej a Anglicana em 1534. Henrique VIII perseguiu e m atou os que eram contrários à sua reform a, com o o bispo de Rochester, John Fisher. Apossou-se de todo o território e tesouro da Igrej a Católica em solo inglês e acabou com m osteiros, abadias e conventos católicos. Estava instituída a reform a religiosa inglesa. O rei ainda se casaria quatro vezes antes de m orrer, em 1547.
Sucedeu-lhe seu filho do terceiro casam ento, Eduardo VI, que, com nove anos de idade e doente, reinaria por apenas seis anos. Nesse reinado ocorreu a quinta e últim a epidem ia do suor inglês, que se iniciou em 1551. Dessa vez não com eçou em Londres, m as em Shrewsbury, com a m orte de novecentas pessoas nos prim eiros dias. A Escócia foi novam ente poupada da doença, que, depois dessa epidem ia, m isteriosam ente desapareceu da História. Dois anos após a últim a epidem ia do suor inglês, com a m orte de Eduardo VI, assum ia o trono a filha de Catarina de Aragão, Maria I. A nova rainha tentou reinstituir a Igrej a Católica na Inglaterra. Seu reinado foi m arcado por conflitos com o Parlam ento, contrário à restituição do poder papal à Igrej a inglesa. Conhecida por "Maria Sanguinária", ela deu início à perseguição religiosa que tirou a vida de cerca de trezentas pessoas acusadas de heresia. Casou-se com o então Rei Filipe II, da Espanha. Seu reinado durou pouco, de 1553 a 1558, e então Elizabeth I, filha de Ana Bolena, ascendeu ao trono inglês para consolidar a reform a religiosa iniciada por seu pai.
No reinado de Elizabeth I, a Inglaterra prosperou econom icam ente. Sua frota m arítim a expandiu o com ércio para diferentes áreas do globo. A indústria inglesa entrava num a nova era. A cultura encontrava seu auge na literatura, com Shakespeare. O reinado foi m arcado por triunfos políticos e Elizabeth I sustentou a reform a religiosa de Henrique VIII controlando a conspiração elaborada na Escócia por Maria I, em 1586, e evitando a invasão espanhola de Filipe II com a sua grande arm ada de 130 navios, em 1588.
Em 1603, com a m orte de Elizabeth I, chegou ao fim a dinastia Tudor no trono da Inglaterra. Um a dinastia que surgiu no m esm o ano da aparição do suor inglês, doença que a acom panharia por m ais da m etade do tem po em que ocupou o trono inglês — na m aioria das vezes, restrita à ilha da Inglaterra, poupando os territórios da Escócia, m as capaz de alastrar-se nos países do continente. A doença perm anece um enigm a até hoj e, sem que os historiadores consigam enquadrá-la em algum dos m ales conhecidos. Da m esm a form a que apareceu de m aneira súbita em Londres no ano de 1485, desapareceu m isteriosam ente na últim a epidem ia, a de 1551. Se foi causada por um agente surgido apenas naquela época e que depois foi extinto, j am ais saberem os. Sabem os, sim , que os agentes infecciosos são dinâm icos, e a cada dia surgem m utações de vírus que tornam possível a form ação de outros. Além disso, existe um a im ensa quantidade de tipos de agentes infecciosos que não conhecem os. Novas doenças infecciosas podem aparecer a qualquer m om ento, e a Aids é um exem plo disso; talvez o suor inglês tenha sido outro.
Em 1959, surgiu um a epidem ia em Uganda causada por um vírus desconhecido que se espalhou pelo Quênia,Tanzânia e Zâm bia. Os doentes apresentavam febre, m anchas na pele e dores nas j untas, m as a infecção não levava à m orte. O novo vírus foi isolado, recebeu o nom e de o'ny ong-ny ong. Misteriosam ente, ficou ausente por 35 anos, sem que nenhum caso fosse diagnosticado até que, em 1996, a doença reapareceu em Uganda. Isso dem onstra com o a natureza pode ocultar vírus por décadas. Muitas hipóteses podem ser levantadas sobre a doença do suor inglês — a m ais provável é que tenha sido causada por um agente infeccioso j á extinto.
NOVOSMUNDOS, NOVAS DOENÇAS
O reino de Portugal foi um dos pioneiros na expansão ultram arina. O início das grandes navegações portuguesas ocorreu com Dom Dinis, o Lavrador. Esse m onarca desenvolveu a m arinha m ercante; reform ou os estaleiros que se destinavam a restaurações, transform ando-os em estaleiros de construção naval. Em 1290, fundou a Universidade de Lisboa, com a escola de "m arinharia". Fom entou as plantações de pinhal de Leiria, que forneceram m elhores m adeiras para construir naus e caravelas.
Portugal lançou-se à exploração m arítim a ao longo do século XIV Suas em barcações afastavam -se das costas litorâneas para se aventurar em m ar aberto. A bússola, inventada no século XII e originária da China, com eçava a ser utilizada nas em barcações européias. Guardada em caixas de m adeira, recebeu seu nom e em siciliano — "caixa", bússola. Com a referência da estrela Polar, as em barcações portuguesas dirigiam sua expansão para o sul do planeta. As am pulhetas feitas com m árm ore negro triturado m ediam o tem po no m ar; e as descobertas dos diferentes tipos de vento orientavam as em barcações, criavam as cartas náuticas para os navegantes.
Portugal envolveu-se na cam panha da conquista de Ceuta, cidade dos m uçulm anos no norte da África, no outro lado do estreito de Gibraltar. A conquista deu-se no ano de 1415, sob o com ando de Dom Henrique, o Navegador, e fixou um novo m arco na cam panha de expansão m arítim a portuguesa. Dom Henrique, com a tom ada de Ceuta, descobriu um a relação
com ercial com territórios do sul dessa região, de onde provinha o ouro. {18} Assim com eçou a estabelecer-se um a grande infra-estrutura de navegação com base científica, cuj a finalidade era possibilitar às em barcações contornar a costa ocidental da África e chegar à entrada de grandes rios que levariam a tais regiões, supostam ente ricas em ouro. Form ou-se a Escola de Sagres, em penhada em construir em barcações e aprim orá-las de acordo com o progresso das descobertas, elaborar cartografias e desenvolver cartas celestes de navegação para o hem isfério sul, com a orientação da constelação do Cruzeiro do Sul, até então desconhecida. Com eçaram a m igrar para o país banqueiros que financiavam esses em preendim entos e engenheiros navais responsáveis pelos proj etos de construção. Entravam em Portugal m atem áticos, astrólogos, geógrafos, astrônom os, especialistas em construção naval e cartógrafos da Espanha, Itália e Alem anha. Vários desses, j udeus. Os navegantes portugueses rum avam cada vez m ais para o sul da costa africana usando seus instrum entos de orientação, aos quais posteriorm ente acrescentariam o astrolábio e o quadrante. Em 1434, descobriram o cabo Boj ador, que, transposto graças às caravelas, m arcaria as descobertas sistem áticas do litoral africano. As ilhas de Cabo Verde seriam descobertas em 1446, e seu cabo ultrapassado. Quatorze anos depois, os portugueses chegaram a Serra Leoa, no m esm o ano em que m orreu Dom Henrique. Em 1471, ultrapassaram a linha do equador.
A m edida que exploravam a costa africana, os portugueses descobriam um a fonte de riqueza bem diferente da que os incentivara a princípio. Iniciaram a exploração de escravos, ouro, m arfim e pim enta-m alagueta. A riqueza obtida com esse com ércio propiciava o financiam ento das expedições. O litoral africano era então batizado, por sua fonte de riquezas, de Costa do Ouro, Costa dos Escravos e Costa do Marfim . Na década de 1480, Portugal j á construía a Fortaleza de São João da Mina.
Com o início das navegações para o Atlântico, os europeus descobriram as ilhas próxim as da costa africana e da Europa. Os portugueses com eçaram a colonizá-las no século XV e, com isso, ocorreram alterações ecológicas nesses lugares, então isolados havia m uitos séculos. Já na década de 1430, foram soltos vários anim ais, entre carneiros e ovelhas, nas ilhas dos Açores. Sem encontrar nenhum predador natural, esses anim ais se m ultiplicaram na vegetação das ilhas. Foi no arquipélago das ilhas Madeiras que os colonizadores portugueses conheceram seu poder de destruição do sistem a ecológico. Ao chegarem à ilha de Porto Santo, deixaram um casal de coelhos. Sem predador natural e encontrando vegetação abundante para sua sobrevivência, esses anim ais
procriaram tanto que a ilha não pôde ser habitada pelos portugueses. {19} Os coelhos dissem inaram - se de tal m odo que acabaram por destruir todas as plantações iniciadas pelos europeus. Mesm o exterm inando m uitos desses anim ais, não se conseguiu vencer seu alto índice de proliferação, propiciado pelas condições da ilha.