A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

Florestan Fernandes · Capítulo 8 de 15

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A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

Capítulo II - Pauperização e anomia social

CAPÍTULO II

 

PAUPERIZAÇÃO E ANOMIA SOCIAL

Introdução

 

A emergência da ordem social competitiva e a expansão urbana da cidade de São Paulo constituem processos histórico-sociais coincidentes. Contudo, a análise apresentada ao longo do capítulo anterior sugere que essa coincidência, sob vários aspectos essenciais, não foi meramente episódica. Graças ao volume da produção cafeeira e às formas assumidas pela sua comercialização, os dois processos histórico-sociais se entrosaram estrutural e dinamicamente. Isso fez com que, sob o ponto de vista sociológico, a correlação dos dois fenômenos adquirisse significado interpretativo a um tempo particular e típico. Particular, porque São Paulo foi a única cidade brasileira que deu (não obstante várias circunstâncias desfavoráveis) um verdadeiro “salto” na consolidação da ordem social competitiva, desprendendo-se, assim, do padrão brasileiro tradicional de organização do espaço e do estilo de vida urbanos. Típico, porque essa correlação pode se repetir, em outras cidades brasileiras, desde que elas reúnam certas condições produzidas pelo crescimento econômico acelerado, pela concentração demográfica e pela modernização institucional. Apanhado na confluência desses processos, o negro sofreu impactos negativos diretos, resultantes da alteração súbita das relações de produção, do horizonte cultural médio e da organização da sociedade, tanto quanto das “reações acumulativas circulares” que tais impactos provocaram, liquidando a eficácia ou a viabilidade das técnicas econômicas e socioculturais que aprendera anteriormente, como “escravo” ou como “liberto”.

Pelo que já foi exposto, a rapidez com que se consolidou a ordem social competitiva pôs cobro, praticamente, às possibilidades de absorção imediata do negro a papéis econômicos ativos e compensadores. Doutro lado, as tendências da urbanização impediram a preservação de “mores” afro-brasileiros, que poderiam garantir a transformação da “população negra” numa minoria racial integrada e autônoma, sem facilitar a tendência alternativa, representada pelos anseios de classificação social revelados, ostensivamente, pelos vários segmentos daquela população. Na medida em que a ordem social competitiva e a urbanização estavam em plena emergência, a posição de cada grupo étnico e de cada camada social no sistema econômico e na sociedade dependia, fundamentalmente, de sua capacidade de participação do crescimento econômico e do desenvolvimento sociocultural. Os negros e os mulatos ficaram à margem ou se viram excluídos da prosperidade geral, bem como de seus proventos políticos, porque não tinham condições para entrar nesse jogo e sustentar as suas regras. Em consequência, viveram dentro da cidade, mas não progrediram com ela e através dela. Constituíam uma congérie social, dispersa pelos bairros, e só partilhavam em comum uma existência árdua, obscura e muitas vezes deletéria. Nessa situação, agravou-se, em lugar de corrigir-se, o estado de anomia social transplantado do cativeiro.

Os fatores e os efeitos do agravamento desse estado de anomia são de enorme interesse para o estudo sociológico da integração dos negros e dos mulatos à sociedade de classes. Ao que parece, neles se encontram as “fontes de inércia” que neutralizaram ou tardaram o empenho de classificação e de ascensão sociais da gente negra. O tema já atraiu, dada a sua importância, a curiosidade de vários estudiosos. Todavia, a imensa tragédia dos homens cegou os investigadores. Em sua maioria, estes se empenharam em explicar o “déficit negro”, ignorando ou dispensando limitada atenção às suas causas psicossociais ou socioculturais. O presente capítulo pretende sanar essa lacuna sociológica, tratando em conjunto dos aspectos quantitativos e qualitativos do colapso da “população negra” na cidade.

 

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