A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1
Prefácio
A integração do negro na sociedade de classes é um desses livros essenciais, leitura obrigatória de estudiosos e estudantes do Brasil.
Escrito originalmente como tese para um concurso de professor titular de sociologia da USP, o livro é um ponto de encontro de muitos caminhos teóricos traçados por Florestan até aquele ano e, de passagem, para uma reflexão madura e politicamente mais engajada sobre a sociedade brasileira. De fato, Florestan já é um pensador maduro em 1964, quando defendeu sua tese. O seu domínio da teoria sociológica já lhe havia rendido reconhecimento internacional desde os Fundamentos empíricos da explicação sociológica, de 1959. Sociólogo em um país então deficiente em pesquisa histórica, Florestan fora praticamente obrigado a associar a pesquisa sociológica à histórica, seja em seus estudos sobre os tupinambá (Fernandes, 1949 e 1952), seja em seus estudos sobre as relações raciais brasileiras (Bastide e Fernandes, 1955). Em 1964, a sociologia histórica de Florestan já estava bem estabelecida, não apenas em suas obras, mas nos livros seminais dos discípulos que formara e diplomara como parte de suas atividades de professor de sociologia na USP. De fato, esses trabalhos tinham, eles também, revolucionado a sociologia e a historiografia brasileira e dado proeminência internacional a seus autores.
Mas A integração do negro marca ainda, como já sugerimos, um novo caminho de pesquisa e militância política para Florestan, pois 1964 foi também um ano de ruptura, e o livro espelha isso muito bem. Florestan havia dedicado toda a sua vida à ciência social e feito dela a sua vocação. Mas o estudo do desenvolvimento da sociedade de classes no Brasil, ou seja, da transição da sociedade de castas para a ordem competitiva, fazia-se acompanhar, mais uma vez, pela quebra da ordem democrática, e Florestan era instado a reconhecer o mito, mais que o ideal, sustentador da ordem democrática brasileira. A sua aposentadoria forçada, em 1969, imporá uma fenda irrecuperável nessa vocação puramente científica. Mas estou me adiantando. Voltemos nossa atenção para A integração do negro.
Há duas razões para que esta obra seja de leitura obrigatória – a sua atualidade e a sua importância no campo disciplinar.
A primeira razão responde pela sua enorme vitalidade. Desde que foi publicado, este livro se transformou em manual de formação política de jovens intelectuais de esquerda, que ingressavam nas nossas universidades e que iriam, nos anos 1970, revitalizar o movimento social negro e de redemocratização política. Foi um texto que revolucionou a nossa compreensão do racismo brasileiro. País de esparsa tradição de conflitos raciais, os movimentos sociais negros aqui nunca haviam merecido destaque de qualquer autor.
É bem verdade que Roger Bastide (1983), Costa Pinto (1953) e o próprio Florestan (na década de 1950) haviam se debruçado sobre tais movimentos, mas sem lhes dar grande importância histórica. Bastide e Fernandes porque dedicaram ao tema apenas alguns trabalhos esparsos, sem concatená-los com uma análise mais abrangente da sociedade brasileira. Costa Pinto porque cometera o equívoco de se contrapor ao movimento negro do seu tempo em nome de um ideal utópico, sem saber reconhecer que a utopia se inscreve às vezes de modo torto no dia a dia. A integração do negro veio finalmente suprir essa lacuna nas nossas ciências sociais.
Não há pesquisa empírica nova no material que Florestan nos apresenta, recolhido quase inteiramente para o projeto sobre Relações entre brancos e negros em São Paulo; além da coleta sistemática de documentos que vieram à luz depois dos 1950, há, sobretudo, uma grande abertura de foco no tratamento dos dados. Como seu título sugere, Florestan, neste livro, repõe os negros brasileiros no fluxo dos conflitos que decidem e formam a nação, a sociedade e o Estado no Brasil. Os negros, aqui, são tão centrais para a nação como foram os trabalhadores industriais, na Inglaterra. E é nesse filão interpretativo, no entrechoque entre negros migrantes e imigrantes europeus, como base da classe trabalhadora paulista, que Florestan se move.
A segunda razão para se ler este livro é aprender sociologia e se posicionar diante de teses e interpretações controversas que continuam a frequentar as nossas discussões sobre relações raciais.
Vejamos algumas teorias que são hoje aceitas sem muita contestação. A primeira delas é o que poderíamos chamar do mito da escravidão benévola. Havia, ainda em 1964, para uma forte corrente na nossa historiografia – baseada em escassa documentação e pesquisa, mas num sentimento de excepcionalidade nacional –, a crença de que a escravidão no Brasil fora marcada pela escravidão doméstica, pela intimidade entre senhores e escravos, pela relativa facilidade das manumissões, enfim, pela maior humanidade no tratamento dos escravos. As pesquisas realizadas por Florestan, em São Paulo, e por seus discípulos Cardoso (1962) e Ianni (1962), no sul do Brasil, lançaram não apenas sérias dúvidas sobre a veracidade factual da tese, mas, principalmente, demonstraram o seu caráter ideológico.
Analisando a relação senhor-escravo, central ao modo de produção da riqueza material, e se indagando sobre a maneira como a ordem social interagia com a ordem econômica; perguntando-se sobre o modo como tais ordens se reproduziam no tempo, ou seja, sobre como as ordens política e ideológica se coadunavam com a economia e a sociedade, esses autores desvendavam mais que a incongruência de um passado que se acreditava harmonioso e descobriam as contradições atuais da sociedade brasileira. É esse método de investigação, conhecido depois como histórico-estrutural, que marcava o que também depois será chamado de escola paulista de sociologia.
O método operava em conjunção com elementos centrais à teoria estrutural-funcionalista em sociologia e psicologia social, como o conceito de personalidade-status. Ralf Linton (1945) contrastava a personalidade-base dos indivíduos com as suas diversas personalidades-status, desenvolvidas porque a sociedade espera que os indivíduos que ocupam certas posições no sistema social exibam certos traços de personalidade e estes, em geral, respondem positivamente e cultivam tais traços. A análise da adaptação de ex-escravos às personalidades-status da ordem competitiva ocupará boa parte dos esforços de Florestan.
Mas Florestan também buscará, para sua análise da superação do escravismo no Brasil, inspiração em outras fontes, e utilizará fartamente conceitos de Mannheim (dinâmica social), de Durkheim (anomia) e, principalmente, a dialética de Marx, a que Antonio Candido (2001) se refere como o “rio subterrâneo” que sempre correu nos escritos de Florestan, e que finalmente emerge na sua análise da formação racial da classe trabalhadora paulista.
Outra interpretação inovadora de Florestan, tendo inspirado a juventude que fundou o Movimento Negro Unificado, no final dos anos 1970, foi perceber que a democracia racial brasileira, mais que um ideal normativo (como, nos 1950, ele e Bastide consideravam), tinha se transformado em mito. Mito não no sentido de falsidade, como alguns pensam, mas no sentido de uma ideologia dominante, de uma percepção de classe que pensa o seu ideal de conduta como verdade efetiva.
O mito consistiria em tomar o que eram desigualdades raciais – próprias da ordem racial escravocrata – como desigualdades de classes da ordem competitiva – próprias do capitalismo industrial. A burguesia e a classe média brasileiras projetavam tal ideal de comportamento de classe de modo a encobrir o seu racismo. As desigualdades sociais poderiam ser combatidas, na democracia, pela intermediação de organizações trabalhistas e empresariais, numa espécie de acomodação ou rotinização das lutas de classes. Já o que tornava aceitável a reprodução das desigualdades raciais, aos olhos do bom-mocismo burguês, estava implícito: era uma espécie de racismo, que Florestan tenta fazer aflorar em sua análise. Isso significaria o reconhecimento, por parte da sociedade burguesa, das organizações raciais com que os negros buscavam sua integração: associações, clubes, jornais, partidos etc.
Não por acaso, Florestan concentra boa parte de seus esforços em A integração do negro na sociedade de classes analisando a trágica história da Frente Negra Brasileira, nos anos 1930 – seus equívocos ideológicos e a incompreensão do establishment branco. À medida que essa história vai sendo narrada e analisada, vai ficando claro para Florestan e seus leitores o enredo trágico de uma revolução burguesa inacabada e de uma proletarização sem virtudes. Aliás, advirto o leitor de que a linguagem que estou empregando – establishment branco, por exemplo – não é invenção minha, nem contaminação pelo movimento negro atual, ou americanismo, como ficou depois em moda acusar. Trata-se de linguagem que o próprio Florestan foi cunhando, à medida que a democracia era sepultada pelo golpe militar de 1964 (lembre-se, por exemplo, do título de seu livro de 1972, O negro no mundo dos brancos).
Mas Florestan era otimista, não se deixava aprisionar no determinismo dos conceitos que utilizava. A agência humana, a ação social, sempre ressurge por entre o emaranhado das restrições estruturais. Não se pode ler este livro sem pensar que, afinal de contas, para Florestan, neste país de negros e mulatos, o futuro estará sempre nas mãos desse novo proletariado negro que se forma, tanto para superar o racismo, quanto para superar a exploração de classe.
Outras teses do livro são mais controversas, seja porque o movimento social adquiriu novos interesses culturais nos últimos anos, que a elas se contrapõem; seja porque a teoria sociológica passou a dar menos ênfase às restrições estruturais e a valorizar mais as ações individuais e coletivas; seja porque a pesquisa histórica demonstrou, nos últimos cinquenta anos, que há evidências que as contrariam. Começo por citar duas delas: a tese da autoexclusão do negro e do mulato do mercado de trabalho paulista, nos anos que se seguiram à Abolição; e a tese complementar de que os imigrantes europeus não discriminaram racialmente os negros; ao contrário, quando exibiram algum preconceito contra os mesmos o fizeram do modo aprendido com os brasileiros natos.
Algumas das mais importantes contribuições posteriores à historiografia e à sociologia brasileiras, como os livros de Carlos Hasenbalg (1979), de George Andrews (1991) e de Lilia Schwarcz (1993), contrapuseram-se a essas teses, ou qualificaram o âmbito de sua validade. Todos reconheceram, entretanto, que a classe operária brasileira, ao contrário do que se passou em outros países, não se segmentou racialmente. Lilia Schwarcz enfatizou o modo como as teorias racistas do final do século XIX foram eficientes em tecer o senso comum cotidiano que permitiram a substituição do negro e do mulato pelo imigrante europeu; George Andrews mostrou muitas evidências de como a preferência pelos imigrantes foi sistemática e não dependeu de habilidades ou de adequadas personalidades-status dos imigrantes. Argumentou, ademais, que o negro brasileiro, no final do século XIX, não estava despreparado para a liberdade. Carlos Hasenbalg salientou que o capitalismo industrial nem mesmo prescinde do racismo que Florestan acreditava ter sido herdado da ordem escravocrata.
Vale lembrar, entretanto, que a tese do despreparo do negro para a liberdade – que se transmutou muitas vezes na responsabilização do Estado por não garantir, através da educação e de outros serviços públicos, os meios para o exercício da liberdade pela população de cor – não é originalmente de Florestan. Foi utilizada, primeiro, pelos abolicionistas e ganhou depois, completamente, o meio negro paulistano. Basta ler o Clarim da Alvorada e outros órgãos da imprensa negra paulista para se ajuizar o que digo. Como bem lembrou um de seus discípulos (Martins, 1998: 30), Florestan sempre fundava sua interpretação levando em conta o modo como o grupo que estudava havia, ele próprio, explicado a sua situação social.
Há, sem dúvida, na argumentação de Florestan, como apontou Andrews, algo de senso comum de época, que sugere a culpabilização da vítima. Disso, entretanto, nenhum escritor pode escapar, pois somos prisioneiros de nosso tempo; e não nos deve impedir de perceber e valorizar o mais importante. Quero me referir ao seguinte: ao se concentrar na análise detalhada da formação da identidade negra em São Paulo, ao privilegiar o momento histórico em que os negros aparecem na cena política brasileira com um movimento social pujante, que chega mesmo a se transformar em partido político, Florestan está claramente apontando para a reconstrução do negro brasileiro, enquanto negro; sublinhando a sua emancipação enquanto sujeito, com a aquisição das técnicas sociais e das disposições psicossociais adequadas para a vida capitalista e pós-capitalista. É o novo negro. Esse homem (e mulher) negro não se deixou enredar no conflito racial com os trabalhadores imigrantes, ou com a burguesia que o escravizara; ultrapassou os seus ressentimentos e reconstruiu a sua identidade racial.
É, portanto, contra a burguesia de boa consciência – a que não aceita os movimentos negros, a que não reconhece a diferença racial a não ser quando é do seu interesse –, é contra ela que se volta a crítica de Florestan. Há claramente, no presente livro, um responsável pela tragédia racial brasileira, que termina sempre em maior desigualdade: a burguesia que se furta a reconhecer o outro, a aceitá-lo como adversário político, num jogo democrático. Para essa burguesia que só sabe dominar por sobre o silêncio político e o aplastamento identitário de quem não é branco como ela se quer – se não no corpo, ao menos na alma – Florestan reserva um duro (suave para alguns) diagnóstico: ela viverá do mito.
Entretanto, todas essas teses polêmicas, em Florestan, se fundamentam sobre outra, segundo a qual não se desenvolvera em São Paulo – ao contrário do que acontecera no Recife, em Salvador, ou no Rio de Janeiro – um mercado de trabalho livre e artesanal, que estivesse ocupado por libertos nos anos que se seguiram à Abolição. Segundo Florestan, São Paulo surge praticamente como uma cidade burguesa, em pleno século XX, enquanto o restante do país fará a transição de modo mais lento e já com uma classe média mestiça e um operariado negro estabelecidos.
Sabemos hoje que o mercado de trabalho urbano, mesmo industrial, é sustentado por redes informais de vizinhança, amizade, etnicidade etc. Não deveria ser diferente na São Paulo do começo do século XX, com seus milhões de imigrantes europeus e de migrantes negros, tomada pela ética do trabalho e pelo sentimento de desprezo pela cultura colonial luso-brasileira alimentado por suas elites europeizadas e racistas. Essa tese precisa ainda ser mais bem avaliada pela pesquisa histórica. Boa parte da interpretação de Florestan se assenta nessa constatação e deriva dela.
Já entende o leitor, chegando ao final deste breve prefácio, que a leitura de A integração do negro não será fácil. Florestan o concebeu como um livro de estudo, e se ele ainda merece ser lido hoje é nessa qualidade. As verdades nele dispostas estarão sempre sujeitas à disputa pela crítica historiográfica e teórica. Foi assim no momento em que o livro foi publicado, ainda é assim agora. A linguagem que Florestan utiliza, então chamada por muitos, pejorativamente, de “sociologuês”, é, como qualquer forma que transmite ideias ou sentimentos, indispensável ao conteúdo transmitido. É um enorme prazer para o estudante de sociologia aprender teoria sociológica nos livros de Florestan, ainda que seja custoso e que preciso seja, às vezes, um dicionário para localizar os conceitos no tempo.
Os editores norte-americanos deste livro prepararam uma edição abreviada da obra, The negro in brazilian society, que, se guarda as teses principais, não mantém a minudência da análise. Florestan, ele mesmo, proferiu numerosas conferências ao redor do mundo sobre as teses básicas deste livro, expondo-as em linguagem menos conceitual e de modo mais breve. Juntou-as, mais tarde, em O negro no mundo dos brancos. Porém, nem a edição abreviada norte-americana, nem o volume que reúne as suas conferências poderão jamais substituir a leitura desta tese de titularidade à cátedra de Sociologia I da USP que foi lida, aqui e lá fora, por estudantes negros e jovens revolucionários, por outros sociólogos e historiadores, e que conseguiu estremecer o tão bem fundado mito da democracia racial brasileira.
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães
Departamento de Sociologia da USP
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Obras de Florestan Fernandes citadas
Organização social dos tupinambá (1949) A função social da guerra na sociedade tupinambá (1952) Relações raciais entre brancos e negros em São Paulo (1955) Fundamentos empíricos da explicação sociológica (1959) The negro in brazilian society (1969) O negro no mundo dos brancos (1972)
A revolução burguesa no Brasil (1975)
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Outras referências
ANDREWS, George Reid. Blacks & whites in São Paulo, Brazil, 1888-1988. Madison: University of Wisconsin Press, 1991. BASTIDE, Roger. A imprensa negra do Estado de São Paulo. In: Estudos afro-brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1983. CANDIDO, Antonio. Florestan Fernandes. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional; o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. São Paulo: Difusão Europeia do Livro,
1962.
CARDOSO, Fernando Henrique & Ianni, Octavio. Cor e mobilidade social em Florianópolis. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1960. COSTA PINTO, Luis. O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1953. HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979. IANNI, Octávio. As metamorfoses do escravo: apogeu e crise da escravatura no Brasil Meriodional. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1962. LINTON, Ralph. The cultural background of personality. New York/ London: D. Appleton-Century, 1945. MARTINS, José de Souza. Florestan: sociologia e consciência social no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das Le-tras, 1993
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