A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1
2. Os diferentes níveis da desorganização social
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Essas conclusões nos levam, diretamente, ao que é fundamental: as compensações individuais ou coletivas, oferecidas pela “vida na cidade”, não alteraram, substancialmente, a posição do negro e do mulato no sistema de relações econômicas e sociais. Em todo o período considerado, ambos se mantêm no mesmo estado em que foram surpreendidos pela eclosão da ordem social competitiva e pela revolução urbana, completamente desfavorecidos pelos novos crivos socioeconômicos de peneiramento profissional e, por consequência, totalmente incapazes de assimilar os novos padrões de vida, associados às ocupações urbanas mais promissoras e rendosas. A rigor, não ficaram apenas à margem do processo de crescimento econômico, inerente à revolução urbana paulistana. Partilharam de tal modo da rede de ocupações e de oportunidades abertas pelo “estilo urbano de vida” que acabaram eternizando os inevitáveis desajustamentos iniciais, nascidos da crise do antigo regime, e se convertendo rapidamente, em toda a plenitude, numa população em desorganização social crônica.
Para se entender adequadamente esse fato é preciso compreender como a urbanização, a industrialização e a imigração se vincularam, dinamicamente, na evolução da cidade de São Paulo, no período que vai do fim do século XIX a 1930. Como vimos, o surto urbano paulistano coincide com a imigração e, sob muitos aspectos, é um complexo produto da combinação da expansão econômica interna, provocada pelas ramificações capitalistas engendradas pelos “negócios do café”, com a implantação de uma nova mentalidade econômica, trazida principalmente pelos imigrantes. Nesse período, o crescimento econômico contínuo vai conferir à cidade uma autêntica autonomia progressiva sobre o campo. Em particular depois da guerra de 1914-1918, os efeitos da industrialização vão se fazer sentir com força especial, projetando na cena histórica brasileira um novo padrão de urbanização, que põe em primeiro plano os interesses econômicos, sociais e políticos da cidade propriamente dita. Quando se atinge essa fase, o fazendeiro deixa de ter importância como figura dominante específica e a primazia do jogo econômico passa, gradualmente, para as mãos do capitalista típico, instalado na “grande cidade”. Isso não significa, naturalmente, que a produção cafeeira perdesse o caráter de meio de acumulação de capital, nem que o fazendeiro se tornasse, de um momento para outro, um agente econômico desprezível. Mas que ele esgotara seu papel histórico, na transição da grande lavoura para uma economia capitalista diferenciada.
Nas condições econômicas e sociais que se criam, então, duas categorias sociais se beneficiam, amplamente, com os proventos econômicos, sociais e políticos da industrialização: os que detinham os papéis de capitalistas, como “donos” das empresas nascentes; os que conseguiam vender sua força de trabalho, como “operários”. Embora os elementos nacionais se incluíssem em ambas as categorias, o negro e o
mulato delas participaram em proporções ínfimas.[206] Excluindo-se raros casos de mestiçagem em grandes famílias nacionais, o advento do capitalismo urbano e industrial foi prejudicial ao empreendedor negro ou mulato independente, inapelavelmente desalojado, como assinalamos, de todas as posições vantajosas que havia adquirido no passado. Quanto ao mercado de trabalho livre, também vimos como ele foi desfavorável aos elementos egressos da escravidão ou do trabalho livre associado ao regime servil. Poucos conseguiram se classificar como “operários”, seja porque se temia a sua falta de preparo técnico, seja porque se valorizava preferencialmente o “trabalhador estrangeiro”, seja enfim porque os próprios “negros” e “mulatos” se retraíam, candidatando-se de preferência às oportunidades de trabalho que lhes eram mais acessíveis. O fato de a urbanização e a industrialização se darem, em grande parte, como consequência da imigração, concedia ao imigrante uma posição altamente vantajosa em relação ao elemento nacional e, em segundo lugar, quase anulava as possibilidades de competição do negro e do mulato, automaticamente deslocados para os setores menos favorecidos do conglomerado nacional.
O que nos importa, aqui, são as tendências características de transformação da estrutura econômica, social e política da cidade. Nesse período, na medida em que vão para o centro do palco os agentes econômicos típicos da “grande cidade”, fazem-se sentir, com vigor, os efeitos da substituição populacional, ocorrida ao longo de pouco mais de meio século de evolução urbana. Embora esses agentes contem independentemente de suas origens éticas ou nacionais, eles são esmagadoramente “brancos” e de forma preponderante “estrangeiros” ou nacionais de ascendência “estrangeira”. Mesmo na categoria subordinada dos assalariados essa constante é visível e marcante, como acentua Lowrie, que explica o processo em termos dos requisitos psicossociais das novas ocupações.
Não está ainda perfeitamente delineado o motivo da substituição do antigo elemento brasileiro pelo estrangeiro. Não será certamente aplicável a São Paulo a ideia comum dos americanos de que a substituição resulta da incapacidade de competirem os nacionais com os estrangeiros em baixos padrões de vida e em salários reduzidos, pois que, se bem que o padrão de vida e os salários dos imigrantes não sejam elevados no Brasil, tudo está a indicar que eles são ao menos iguais, se não superiores, aos dos trabalhadores nativos. [...] Ouve-se frequentemente a asserção de que o trabalhador estrangeiro é superior ao nacional, mormente para o trabalho que exige um prévio estágio de aprendizagem. Na indústria, particularmente, diz-se que certos tipos de trabalhos especializados têm que ser confiados aos estrangeiros ou a seus filhos nascidos no Brasil, em virtude de não se encontrarem brasileiros com o necessário conhecimento e prática para o desempenho dessas funções. O grande número de operários estrangeiros empregados na indústria vem corroborar – sem, todavia, provar – esta assertiva. O recenseamento de 1920 registrou como estrangeiros, com 21 anos ou mais, metade dos trabalhadores industriais, sendo que nessa época apenas 34% da população total do Estado estava compreendida nessa classe de idade. Dos trabalhadores classificados como brasileiros grande parte era constituída por filhos de
estrangeiros, dos quais, provavelmente, um certo número adquirira prática diretamente dos pais.[207]
Portanto, as condições dinâmicas que ligaram a urbanização à imigração e ambas à industrialização da cidade de São Paulo, explicam por que o negro e o mulato não foram reabsorvidos pelo sistema ocupacional urbano. As posições “altas” ou “intermediárias” estavam fora de cogitação, pois a elas só podiam concorrer os elementos das camadas dominantes e os estrangeiros ou descendentes de estrangeiros em ascensão. As posições criadas pelo trabalho assalariado, graças à expansão urbana e à industrialização, caíam na esfera em que era mais intensa e dura a concorrência com elementos estrangeiros ou nacionais (em menor proporção), tidos como mais aptos, competentes e produtivos. Assim, a questão de como “ganhar a vida” surgia como um grave dilema para o negro e o mulato. Malgrado o afastamento do regime servil, nada alterara o estado de coisas que produzira o inevitável desajustamento estrutural do antigo agente do trabalho escravo no regime competitivo. As posições mais cobiçadas se mantinham “fechadas” e inacessíveis; as posições “abertas” eram seletivas segundo critérios que só episodicamente podiam favorecer pequeno número de “elementos de cor”. O negro e o mulato, que ficaram à margem da eclosão da ordem social competitiva, continuavam na mesma situação em seus desdobramentos históricos posteriores. O primeiro surto industrial, provocado pelo desenvolvimento urbano prévio, iria beneficiar, ainda mais, os agentes humanos “nacionais” ou “estrangeiros” que haviam logrado posições estratégicas na estrutura ocupacional e econômica da cidade. Os demais – e com eles o grosso da “população de cor” – teriam de aguardar o futuro, mobilizando apenas parcialmente sua capacidade de trabalho e desfrutando um nível de vida rústico, pré-capitalista e antiurbano.
Sem ter como “ganhar a vida” em ocupações e níveis de renda conspicuamente urbanos, o negro e o mulato não podiam absorver o “estilo urbano de vida”. Como acontecera antes, na fase incipiente de formação da ordem social competitiva e da revolução urbana, moravam dentro da cidade, sem pertencer a ela de corpo e alma. Como as motivações e os sentimentos vigorosos, forjados pela luta abolicionista, deixassem de operar, o impacto dessa situação se tornava ainda mais destrutivo e desalentador. Antes, o ócio disfarçado ou a vagabundagem ocasional apareciam como um expediente de autoafirmação, um meio para resguardar a liberdade e a dignidade da pessoa. Agora, já não possuem significado suplementar – a desocupação permanente desmoraliza o homem e o predispõe para a vadiagem sistemática. A mesma coisa acontece em outros níveis do comportamento humano, da exploração do trabalho da mulher à especialização na área do crime. O que soava como uma dramática e altiva forma de protesto, por falta de melhor destino, degrada-se incessantemente, conduzindo seus agentes humanos pelo plano inclinado da miséria, da corrupção e do desalento coletivo.
É extremamente difícil documentar essa faceta da vida do negro e do mulato na cidade. Os viajantes, os historiadores e os ensaístas deixaram de dar atenção ao negro, concentrando seu interesse nos imigrantes ou nos agentes econômicos típicos da “sociedade industrial”. A variada e rica
documentação contida na chamada “imprensa negra”,[208] por sua vez, retém mais os efeitos que as causas do drama do negro na cidade. Por isso, ela fornece boas pistas mas poucos dados conclusivos para explicar o que aconteceu. Por meio de alguns documentos pessoais, especialmente algumas histórias de vida e entrevistas focalizadas nos perfis de carreira do negro ou do mulato, conseguimos estabelecer as linhas dessa interpretação geral e comprovar que, de fato, a impossibilidade de “ganhar a vida” de maneira segura, compensadora e constante, mediante ocupações conspicuamente urbanas, está na própria raiz de todos os males que se abateram sobre a “população de cor” da cidade de São Paulo. A absorção de novos padrões de comportamento e do “estilo urbano de vida” dependia, naturalmente, da aquisição prévia e em larga escala das formas de “ganhar a vida” produzidas e reguladas pelo desenvolvimento da civilização urbana e industrial. Enquanto e na medida em que se viam excluídos de tais formas de “ganhar a vida”, o negro e o mulato não tinham como participar econômica, social e culturalmente daquela civilização. Ficavam condenados a um isolamento disfarçado, ajustando-se deficientemente ao mundo urbano, através da herança sociocultural transplantada do antigo passado rústico do “escravo” e do “liberto”.
As indicações coligidas evidenciam que, no decurso da expansão urbana, a situação do negro e do mulato no sistema ocupacional da cidade, por volta de 1920, era sensivelmente pior que antes. Em uma das histórias de vida, o informante nos adiantou que “eram raros os negros que tinham profissão, como pedreiro, carpinteiro, barbeiro, alfaiate, sapateiro. Eram profissões difíceis e os negrinhos aprendizes tinham dificuldade em conseguir colocação”. Nas fábricas, as oportunidades de trabalho raramente caíam em suas mãos, a menos que fossem “serviços de negros”, descritos pelo informante, com esse nome, como “os que os italianos não faziam, os serviços pesados e arriscados para a saúde”. A mulher negra, por sua vez, “até hoje encontra dificuldade para ser aprendiz e chegar a ser tecelã”, tendo de se contentar com os empregos como domésticas, principalmente junto a “famílias tradicionais”. “No comércio havia poucas pessoas de cor. Apenas duas ou três chapelarias tinham empregados negros; quando trabalhavam em casas de comércio, em regra eles exerciam ocupações braçais.” Por isso, os negros e os mulatos que quisessem ganhar a vida se sujeitavam aos “serviços de negros” (de faxina, como carregador, de pá e picareta etc.). Em sua maioria, esses serviços eram mal pagos e requeriam pouca ou nenhuma qualificação.
No começo de minha vida de adulto [por volta de 1920], os negros tinham profissões domésticas. Realizavam todos os serviços de casa. Os cocheiros eram geralmente brancos, mas os que cuidavam dos cavalos eram negros. O cocheiro era um sujeito importante, que tinha uma cartola assim. ... Nas pensões, os serviçais eram negros. Havia, mesmo, lavadores de casas, que faziam ponto num determinado lugar. [...] Os negros fortes eram bem vistos para servirem de capangas para garantir seus patrões ou mostrar que se mexessem com eles teriam de se haver com um negro. [...] Havia advogados e médicos que tinham um negro para tomar conta do escritório.
Ser motorista particular, pequeno funcionário público (como serventes, bedéis e escriturários, mas também em serviços de pá e picareta e como lixeiros) e investigador da Polícia era algo considerável. Tais empregos só podiam ser obtidos por aqueles que dispusessem de forte proteção de “algum figurão branco”. As exterioridades no vestir e o nível de vida estabeleciam a distinção entre os “negros pobres” e os “negros de elite”.
A vida do negro dividia-se [o informante refere-se a 1924-1926] em: 1o – negros que frequentavam salões de baile no centro, considerados elite; 2o – negros de bairro, chamados de brim por causa do tecido das roupas que usavam. Os primeiros eram os que trabalhavam nas repartições públicas, os choferes, ganhavam mais e andavam melhor trajados – os motoristas, por exemplo, gastavam mais nos bufês dos salões de baile e não admitiam a aproximação dos outros, oprimidos, mais ignorantes. Os segundos, embora com menos dinheiro, eram mais independentes, não estavam encostados nos brancos, recebendo proteção e os bajulando.
Seria possível, aproveitando-se os dados arrolados pelo coronel dr. Arthur Lobo da Silva, ter uma imagem mais completa da distribuição das ocupações pelos diferentes grupos da população, mas com referência a todo o estado de São Paulo. A amostra em questão dizia respeito a indivíduos convocados para o serviço militar; abrangia, pois, uma parcela da população que tendia para posições “baixas” ou “intermediárias” na estrutura ocupacional. É provável que apresentasse, por isso, uma concentração maior de “pessoas de cor”. O quadro 13, a seguir, coordena os referidos dados, sob novo arranjo e com o cálculo das percentagens.
Na verdade, prevalecia a maior incerteza quanto à conquista e à preservação de uma fonte estável de ganho. A maioria precisava viver de “expedientes” – pequenos serviços, prestados aqui e ali, sem nenhuma perspectiva de engajamento assalariado. O fato de possuir ou não qualificações profissionais não constituía uma garantia de obtenção de emprego. Um exemplo é esclarecedor: “um bom pedreiro frentista, vindo da Bahia onde aprendeu o ofício desde menino, precisou trabalhar uma semana em experiência porque o mestre da obra não acreditava que ele fosse capaz de fazer aquele serviço”. Mas, mesmo depois de obter o emprego, ficavam permanentemente sujeitos a contratempos. Na história da vida de um dos informantes há um episódio esclarecedor: conseguiu colocação como empregado de escritório em banco. Depois de certo tempo, quando pensava que tudo iria bem em sua vida, trocaram o gerente do banco. O novo chefe “me manda limpar os sapatos dele. Disse-lhe violentamente que tinha cuidado de suas acomodações porque tinha ficado encarregado disso, mas que era empregado de escritório e não me cabia fazer o que me havia mandado. ‘Negro é para isso mesmo’, respondeu-me. Catei-o pelos colarinhos!... A intervenção de colegas impediu que lhe desse na cara”. O acaso regulava o aproveitamento ocupacional do negro e do mulato e nada restringia a enorme mobilidade, que os levava a borboletear de serviço em serviço, à cata de uma oportunidade efetiva, de melhor remuneração e também de consideração humana. Homens e mulheres começavam a trabalhar na mais tenra idade, nas barbearias, nos depósitos de lenha, nas oficinas ou nas casas de família; e trabalhavam duramente até o fim da vida, mal ganhando para o próprio sustento e a alimentação dos filhos. Vários informantes indicaram que as mães solteiras trabalhavam onde podiam, e quando não encontravam serviço tinham de recorrer à mendicância e à prostituição ocasional. Os filhos auxiliavam o orçamento doméstico como podiam; “nós, negrinhos, éramos todos chamados de moleques. As famílias gostavam de nos ter para recados e entregas”. Enfim, prestando pequenos serviços, aprendiam “na escola da rua” a viver de expediente, ganhando “alguns níqueis” com que concorriam para “o sustento da casa”.
Q UADRO 13
Profissões exercidas por convocados ao serviço militar – estado de São Paulo (1922-1923)[209]
Em suma, o “negro ordeiro” precisava se conformar com um duro e triste destino. Diante dele só se abriam as perspectivas oferecidas por uma sorte de especialização tácita, involuntária mas quase insuperável, que o mantinha eternamente preso aos “serviços de negro”, que consumiam o físico e o moral do agente de trabalho, dando-lhe em troca parca compensação material e uma existência tão penosa quanto incerta. Por isso, não é de se estranhar que muitos preferissem trilhar outro caminho, para “não ser otário”, “não bancar o trouxa” ou “não vender o sangue como escravo”. O vagabundo, o ladrão ou a prostituta enfrentavam riscos bem menores e construíam um destino comparativamente melhor. Em certo sentido, só eles conseguiam êxito e podiam ostentar os marcos dos seus triunfos no gênero de vida que levavam, na roupa que vestiam e no fascínio que acabavam exercendo na imaginação dos outros. Uma prostituta que visitasse a afilhada no cortiço ou fosse levar a mesada para a mãe se portava como “grande senhora” e certamente era vista como tal, mesmo por aqueles que aparentavam desprezá-la... O vagabundo contumaz que explorasse uma, duas ou mais amantes e praticasse roubos ocasionais e, principalmente, o ladrão profissional levavam “vida de macho”, tinham sempre dinheiro e conseguiam, num “golpe de sorte”, o que os companheiros “ordeiros” mas “trouxas” não ganhavam durante anos de trabalho afrontoso e, às vezes, até no decorrer de uma vida de árduas privações. Portanto, a comercialização do vício não se impunha como uma consequência fatal e espúria da “escola do cortiço e das ruas”. A desorganização imperante no meio social imediato auxiliava, naturalmente, a aprendizagem na área do vício e do crime. Mas não a impunha como um ajustamento desejável e preferível. Isto chegava a ocorrer porque os caminhos de autoafirmação se achavam bloqueados. Os mais audaciosos, impacientes e bem dotados (física e intelectualmente), muitas vezes optavam pelo crime ou pelo vício para evitar o lento suplício e a humilhação dos “serviços de negro” e “para negro”. Na experiência de cada um era simples e fácil separar as duas coisas aonde conduzia a vida laboriosa das “pessoas ordeiras” e a vida agitada dos “turbulentos”, que afrontavam simultaneamente as normas estabelecidas pela sociedade inclusiva e os valores estreitos das tradições rústicas do “meio negro”. Desse confronto, resultava uma verdade incontestável. O êxito evidente e reconhecível, o conforto e o respeito dificilmente poderiam ser logrados por outras vias que não passassem pela área do vício ou do crime. Além do sacrifício apagado e estéril dos que se destruíam para conseguir sobreviver, só o vício e o crime ofereciam saídas realmente brilhantes ou sedutoras de carreiras rápidas, compensadoras e satisfatórias. Por isso, ambas foram trilhadas com alguma sofreguidão pelos jovens, embora numa proporção bem menor do que supunham os brancos. Mas, ainda assim, numa escala que evidencia, sem subterfúgio, que ali se achavam as melhores perspectivas de carreira com que contavam os talentos jovens do “meio negro”. Ou seja, em outras palavras, nesse meio a diferenciação do comportamento ou da personalidade em direções desaprovadas socialmente constituía um
fenômeno “normal”.[210]
Esse sumário escorço das indicações coligidas revela a natureza da grave contradição que se manteve suspensa, como um fantasma, sobre a “população negra” da capital nas três primeiras décadas do século XX. Estabeleceu-se um verdadeiro e insuperável círculo vicioso entre a herança sociocultural, transplantada da senzala e do antigo regime, e a exclusão permanente do negro e do mulato das formas de “ganhar a vida”, nascidas da revolução urbana e industrial. Na medida em que podia ser identificado por aquela herança, o “negro” se via barrado daquelas formas de ganhar a vida; e, na medida em que isso acontecia, ele não tinha nenhuma possibilidade real de absorção gradativa pela civilização urbana e industrial. Tornava-se cada vez mais fraco e indefeso, vítima de uma herança que repelia, mas da qual dependia para sobreviver socialmente. Assim, a vida em condições permanentes de desorganização social se convertia numa tradição cultural e numa cadeia invisível. Esta só podia ser rompida, de modo insofismável, num ponto: quando o “negro” se atrevia a quebrar as arestas de sua concepção rústica do mundo e a afrontar o código ético da sociedade inclusiva. Então, para o seu bem ou para a sua ruína, o “marginal” e o “criminoso” apareciam como gente de sucesso, com destino próprio – se não como autênticos heróis, pelo menos como alguém, como pessoas que escapavam, por seus méritos individuais, à mediocridade arrasadora da sina comum.
Criou-se, com o tempo, toda uma mitologia sobre a miséria, a promiscuidade e o desamparo em que viviam, normalmente, uns três quintos da “população negra” da capital nessa época. Tal mitologia circulava tanto entre os “brancos” quanto entre negros e mulatos. Todavia, ela só fazia justiça parcial à realidade. As evocações que conseguimos reunir mostram quadros turvos, chocantes e quase inconcebíveis na cena histórica brasileira. A moradia representava um dos problemas básicos na luta pela sobrevivência. Muito se falou a respeito das condições de vida no cortiço e das consequências do apinhamento concentrado de pessoas num quarto comum. Os que se achavam nessa condição já possuíam alguma coisa, pois tinham um teto onde se abrigar. Um dos informantes mais fidedignos relata que “muitos não tinham onde morar”: “minha mãe mesmo chegou a dormir comigo e com minha irmã em uma privada, por falta de outro lugar”. Ao descrever o quarto, que compartilhava com ambas, afirma: “não havia cama, nem colchão. O chão era de terra batida. A cama era uma esteira velha. Não havia cobertas e nem roupa de cama”. Corresponder ao aluguel de um quarto no cortiço já representava um êxito, pois era preciso possuir dinheiro para pagá-lo e varar as resistências do locador. O pretendente “negro” podia ser rejeitado; algumas vezes por causa da cor mas também porque o locador temia pela regularidade dos pagamentos. Só quando conseguia boas referências é que acedia na locação. Relata um informante:
Em cortiços onde havia promiscuidade de italianos, espanhóis e negros, estes tinham que fazer uma vida mais engraçada: conseguir graças por graças. Precisavam estar em boa situação com os senhorios, porque estavam sempre em dificuldades econômicas. A condição do negro era de subserviência. Muitos alimentavam-se com as sobras de comida que as cozinheiras traziam da casa dos patrões, à noite, depois de um dia de trabalho. Por outro lado, havia repulsa aos negros sem índole boa, que chamavam os italianos de carcamanos, sujos, comedores de cebola. Isto era motivo de choques nos cortiços e levava à investigação dos antecedentes, sempre que um negro aparecia querendo quarto.
Outro informante assinala que, nessa época, o negro e o mulato formaram “o ideal de viver em cortiço”, o qual se arraigou profundamente, em seu entender, “na gente negra”. Não sabiam o que era “decência” e “conforto”, preferindo morar assim, em habitações coletivas, na proximidade de numerosas famílias estranhas. Mesmo depois de conseguir o suficiente para alugar uma casa, gostavam mais do porão ou do cortiço, citando o exemplo do próprio cunhado, que pagava mais pelo alojamento em um cortiço do que gastaria de aluguel em uma boa casa isolada, de arrabalde.
O locatário convencional de um, dois ou três quartos, com cozinha independente ou comum, era o chefe da família – a mãe solteira, o pai, o amásio da mãe ou o padrasto. Mas, mesmo no caso de possuírem só um quarto, não havia limite certo ou fixo para o número de pessoas que compartilhavam da moradia. Por isso, poder-se-ia definir tal ocupação da residência como ocorrendo sob a forma de apinhamento concentrado: todos os componentes da família pequena – o pai, a mãe e seus filhos em número variável, de dois, três, quatro, a cinco, seis ou mais; outras vezes, em lugar do pai podia estar o padrasto ou o amásio da mãe, e vice-versa, a madrasta ou a amásia do pai; além disso, podia compartilhar do mesmo quarto um parente (mãe ou irmã da esposa ou do marido, um primo ou cunhado etc.), um conhecido ou um amigo. Quando um filho ou filha se casava e não podia montar casa, também podiam passar a viver naquela moradia, por tempo indefinido, juntamente com os filhos que tivessem; e nada podia impedir que um filho, um irmão, outro parente qualquer ou um amigo, “sofrendo um revés na vida”, fosse se alojar, enquanto “durasse a precisão”, sob o mesmo teto. Em consequência, alguns “alojamentos”, como os descreve um dos informantes, continham elevado número de moradores. Os cortiços mais célebres foram construídos com fitos exclusivamente comerciais: em condições anti-higiênicas, mal ventilados, mal iluminados e com pequeno espaço útil. É fácil imaginar o que acontecia; a habitação expulsava os moradores para a rua. Os que trabalhavam fora, com frequência saíam pela manhã e voltavam à noite. Mas os que estivessem desocupados ou semiocupados permaneciam mais tempo, em contato íntimo com outros no quarto. Nada se ocultava dos demais, rezando a crônica que os menores pressentiam ou assistiam até às relações sexuais dos adultos. Doutro lado, como as paredes muitas vezes eram meros tabiques ou estavam em ruínas, o palco era mais amplo. Ouvia-se e via-se também o que se passava nos quartos vizinhos. Um dos informantes evocou a seguinte lembrança de sua infância: “assisti uns negros assaltarem armados uma negra que vivia no quarto ao lado e pegarem-na à força, um pela frente outro por trás”.
As informações coligidas permitem inferir que a coabitação sob a forma de apinhamento se refletia de modo direto na desorganização da vida sexual. As crianças aprendiam precocemente os segredos da vida, sabendo como os adultos procediam para ter prazer sexual, como se perpetua a espécie e se processa o parto, quando iriam receber um novo irmãozinho etc. Nos casos em que o marido ou o amante não saíam ao mesmo tempo que a mulher para o trabalho, por serem biscateiros, malandros, ou bêbados contumazes, acabavam ficando em casa grande parte do dia e levando para lá seus amigos. Daí nasciam não só relações perigosas para os menores, como vários tipos de incentivos ao vício. O padrasto ou o amásio tendia a aproveitar as oportunidades para seduzir a filha da companheira e para se entreter sexualmente com meninos ou rapazes do mesmo sexo. Também podia ocorrer o inverso: a madrasta ou a amiga seduzir o filho do companheiro. Pudemos registrar certo número de informações concordando sobre ambas as alternativas. Por fim, as próprias crianças acabavam achando atrativos na atividade sexual: serviam-se uns aos outros, segundo os informantes, já com cinco ou seis anos, embora fossem os meninos e as meninas púberes os mais empenhados em aproveitar essa fonte de prazer. Então, tanto ocorriam relações heterossexuais entre irmãos e irmãs, ou entre primos e primas, quanto podiam formar pares ou círculos homossexuais, de que eventualmente participavam os amigos da vizinhança. O “abuso” do menor, de 13 ou 14 anos, era fato corriqueiro, contando-se entre os agentes até o irmão da mãe e mesmo o pai da menina. Na época, essa associação sexual favorecia a contaminação dos menores pelas doenças venéreas de seus parceiros sexuais. Não se opunha uma barreira à propagação dessas moléstias e muitos julgavam “natural” que as coisas corressem desse modo, não se atribuindo muita importância às peripécias da vida sexual das crianças, dos jovens e dos adultos. Afinal, diziam, “o negro nasceu para isso mesmo”! A “escola da rua” acabava produzindo efeitos análogos. Meninas e meninos eram atraídos para aventuras desse tipo, pelos companheiros ou por adultos, às vezes em troca de pequenas compensações. Uma informante relatou um caso típico, de uma mocinha de 15 ou 16 anos. Os pais saíam para o trabalho e ela ficava sozinha. Fez “más relações” e acabou sendo “infelicitada”. Quando o pai soube da história, ficou furioso: deu-lhe uma sova e a expulsou de casa, como a “vergonha” e a “desonra” dele. Quando isso sucedia, as mães procuravam ajeitar a situação e preparar o caminho para o retorno da filha. Passados alguns dias, se não “caísse na vida”, ela voltava para junto da família. As vizinhas faziam algum falatório, mas não se passava disso:
– “Sabe, a fulana já foi!”
– “Já... Com quem, hein?
– “Com fulano; ou: ela não quer dizer.”
Os meninos, por sua vez, não escapavam incólumes. Eis o que relata um informante a respeito de suas experiências de rua:
Era comum aqueles negros pegarem um dos moleques e levar para o mato. Os que ficavam com pena, se é que ficavam, mandavam o garoto tocar uma punheta. Vi um negrão pegar um garoto e arrombá-lo. O negócio deu truta. Aqueles negros queriam pegar a gente e nos convidavam para ir no mato [...] Eles pegavam os garotos menos sabidos. Os garotos recatados passavam por aquilo naturalmente. Alguns, como o F., procuravam os homens. Eu era cheio de malícia. Cresci na rua. Eu sempre me safei.
Na tradição cultural do “meio negro” entende-se que tudo isso sucedia porque o negro e o mulato “são mais quentes”, “vivem obcecados com o sexo” e “encontram maiores facilidades para converter o sexo num derivativo e numa fonte de prazer”. Contudo, aponta-se a “promiscuidade” dos porões e dos cortiços como a “causa” dessas propensões e se discute muito seus dois efeitos básicos, a “mãe solteira” e o “filho natural”. Informantes seguros acreditavam que a quase totalidade das jovens negras e mulatas “se infelicitavam” e (continuam a se infelicitar) fora de qualquer compromisso de noivado ou perspectivas de casamento. Um deles afirmava que no passado a proporção seria de 100%; teria declinado, a seguir, para 85%. Suas opiniões foram contraditadas, porque os críticos admitiam que a última porcentagem seria exagerada: no máximo, ela andaria por volta de 90%!... Em consequência, o número de filhos naturais era e continua a ser muito elevado. Os rapazes e as moças se envergonham disso, indicando pais supostos. Mas, se por uma razão ou por outra precisam exibir as certidões de nascimento, verifica-se que são bastardos. Portanto, a própria “população de cor” percebeu, claramente, em que sentido a “promiscuidade” se erigiu numa condição permanente de vida social anômica, produzindo efeitos que solapavam o equilíbrio da vida doméstica e das relações das gerações. Em troca de compensações eróticas, o “negro” se desmoralizava duplamente: aceitando um estilo de vida em que se “inferiorizava” e no qual “inferiorizava” os outros continuamente; e “inferiorizando” as mulheres que iriam ser as mães de seus filhos e a estes próprios, ao longo de suas vidas, fazia-os arcar para sempre com a “vergonha” e com as “responsabilidades” de seus atos.
Esse rápido bosquejo desvenda as particularidades da situação de existência do negro e do mulato aglomerados na cidade. Espoliados das garantias sociais a que faziam jus e das quais necessitavam de maneira premente, expelidos dos centros de interesses vitais para o crescimento econômico e para o desenvolvimento sociocultural da coletividade, descobriam no corpo humano uma fonte indestrutível de autoafirmação, de competição por prestígio e de autorrealização. A ideia do homem ou da mulher bestial não se aplica ao seu comércio erótico. A tradição cultural do “meio negro” focalizou muito bem o significado do excesso erótico: um “derivativo” e uma fonte pura de “prazer”. Só errou ao atribuir tal propensão à suposta natureza humana do “negro” e do “mulato”. As coisas não se passaram assim simplesmente porque os homens e as mulheres desse estoque racial fossem “mais quentes”. Mas, principalmente, porque o “sexo” se erigiu na única área livre de exercício das aptidões humanas e numa esfera lúdica da cultura. Os jovens tentavam comprovar sua capacidade fecundadora de machos – convertiam-se em “colecionadores de cabaços” e adquiriam com suas realizações eróticas uma notoriedade reconhecida e valorizada. Os adultos do sexo masculino mantinham ou alardeavam os seus prestígios de “garanhões” – o senhor do prazer, o homem que “derruba” e “derrete” as mulheres, diante do qual nenhum “branco” pode aguentar confronto. As moças ostentavam o prestígio simétrico: atraíam os machos, fazendo-os “enlouquecer”, para realizarem sua masculinidade através delas, em rosário, porque o sortilégio de seus corpos prende e perde a todos. As mulheres adultas por se sentirem, assim, na corrente da vida, dando e sentindo prazer, mantendo os homens em derredor de suas saias, submetidos à sua feminilidade e sucumbidos aos encantos de suas habilidades ocultas. No significado que o “sexo” e as “atividades eróticas” assumem, dentro desse contexto emocional, técnico e moral, sobrevivem algumas das associações mais profundas das tradições africanas. Entretanto, a continuidade cultural não é, em si mesma, relevante para a nossa descrição e a nossa análise. O que importa, aqui, é o fato elementar de que o “negro” foi despojado e excluído de tudo – menos do seu corpo e das potencialidades que ele abria à condição humana. Tudo acabou gravitando em torno do “sexo” e da “arte erótica”, porque foi nesse terreno que o “negro” e o “mulato” viram abertos diante de si todos os caminhos que conduziam ao prazer e à perdição, mas também levavam à redenção e ao amor.
O lado dramático dessa situação não está, portanto, na área em que se deu a autoafirmação do “negro” e do “mulato”. Mas no caráter de pura explosão erótica apresentado por essa autoafirmação. Nenhuma disciplina interna ou exterior sublimava o teor emocional ou o sentido moral do “prazer sexual”. Ora, tal coisa não sucedia nas tradições tribais perdidas: nelas, a vitalidade, a alegria e a pureza do prazer sexual se exprimiam segundo certas regras, que incluíam o respeito por si e pelo parceiro da atividade erótica.
[211] Foi a escravidão que suprimiu essas barreiras e toda a delicadeza ingênua mas refinada que coroa a ligação do homem e da mulher segundo os modelos tipicamente africanos. Impedindo a escolha dos parceiros e até dos momentos para os encontros amorosos, obrigando uma mulher a “servir” vários homens, com ou sem disposição erótica, e incentivando o coito como mero “alívio da carne”, ela degradou, juntamente com a pessoa do escravo, o seu corpo, a atividade erótica e as técnicas do amor. Ao conquistar a liberdade, o “negro” imprimiu nova dignidade às relações dos sexos, mas não tinha como nem por que se disciplinar na redescoberta das únicas fontes violentas, puras e simples de prazer que estavam ao seu alcance. Compreendem-se bem essas ponderações quando se atenta para as explicações fornecidas pelos homens ou pelas mulheres para os seus “excessos”. “Quando eu vi ele uma coisa buliu dentro de mim”; “fiquei louca, menina, ninguém me segurava mais”; “passei a lábia nela até ela ficar derretida”; “com os meus carinhos qualquer mulher fica louca”; “eu sou que nem feitiço”; e por aí afora. Trata-se, pois, de uma verdadeira explosão: o sexo que se liberta, que readquire dignidade e dimensão humana e que, por isso mesmo, extravaza como uma força incontrolável, impetuosamente avassaladora e destrutiva. O que conta não é a ligação permanente, os laços que atravessam o fortuito; mas o momentâneo. O desprendimento erótico em si e por si mesmo, como uma dádiva da natureza, um dom amoroso e uma fruição total do “outro”.
Aos poucos, o “negro” iria perder essa riqueza de comunicação profunda pelo sexo. À medida que se processou a absorção dos modelos de organização da família e de ordenação das relações sexuais, impostos pela sociedade inclusiva, procurou-se submeter esse elã erótico à expressão comum. Parece que ainda estamos longe do desfecho definitivo. Na fase que nos preocupa, o processo mal se iniciara. Existiam, já, muitos “negros ordeiros”. Todavia, eles não conseguiam reprimir completamente a livre expressão das impulsões sexuais, sequer dentro dos quadros domésticos. Acabavam tendo de sofrer a “vergonha” associada às transgressões das regras, diante do abandono do lar pela mulher, da sedução e da prostituição
das filhas, ou das “asneiras com rabos de saia” dos filhos.[212] Por isso, o sexo erige-se no foco por excelência de precipitação e de revitalização dos fatores de anomia da vida social dos negros e dos mulatos. Ele retrai, solapa e às vezes até deturpa a absorção de novos padrões de comportamento, impedindo ou retardando a plena configuração da família equilibrada e integrada no “meio negro”.
Os estudiosos da “população de cor” paulistana colocaram, em geral, maior ênfase em outros fatores da desorganização social do “meio negro”. De fato, o desemprego, o alcoolismo, o abandono do menor, dos velhos e dos dependentes, a mendicância, a vagabundagem, a prostituição, as doenças e a criminalidade constituem problemas sociais de inegável importância na história cultural dessa população. Ainda hoje eles se fazem sentir, tanto estrutural quanto dinamicamente, na cadeia de fatores e de efeitos interdependentes que contribuem, de forma incessante, para desorganizar a vida social do negro e do mulato. No entanto, parece-nos patente que eles floresceram e se perpetuaram graças a certos impedimenta de natureza psicossocial e sociocultural, que converteram a “explosão erótica” numa condição altamente desfavorável à constituição e à consolidação da família no “meio negro”. A ligação entre a “obsessão pelo sexo”, como preferem dizer alguns informantes, e a desorganização como verdadeiro “estilo de vida” de extensas áreas da “população de cor” paulistana se estabelece nesse nível. A maneira pela qual o sexo tomou conta dos centros de interesses dos indivíduos e de suas atividades em sociedade, tornando-se uma esfera de expressão artística, de competição por prestígio e de comunicação simpática (e, portanto, de associação comunitária), indica claramente a ausência ou a deficiência de certas influências socializadoras desencadeadas, dirigidas e reguladas pela família. Não foi a família que se desintegrou, como instituição social, e em consequência emergiram certas inconsistências na socialização dos indivíduos; mas, a própria família que não se constituiu e não fez sentir seu influxo psicossocial e sociocultural na modelação da personalidade básica, no controle de comportamentos egoísticos ou antissociais e na criação de laços de solidariedade moral. Comprova-se isso, historicamente, por uma simples referência à política central da sociedade senhorial e escravocrata brasileira, que sempre procurou impedir o florescimento da vida social organizada e da família como instituição
integrada no seio da população escrava.[213]
A inexistência da família como instituição social integrada ou, então, o seu funcionamento inconsistente, por estar se formando em condições sumamente adversas, é que vêm a ser, do ponto de vista sociológico, os elementos centrais. Isso não significa que se deva ignorar ou subestimar o desemprego, o alcoolismo, o abandono do menor, do velho e dos dependentes, a mendicância, a vagabundagem, a prostituição, as doenças e a criminalidade. Apenas que esses problemas sociais não devem ser encarados como “as causas” da desorganização social imperante no “meio negro” e que tampouco devem ser compreendidos como fenômenos isolados. Em primeiro lugar, parece claro que eles eclodiram, se manifestaram e se perpetuaram de forma especialmente perniciosa, reincidente e destrutiva em virtude das debilidades institucionais da população negra e mulata da capital. Se esta tivesse encontrado meios mais rápidos de participação da herança sociocultural da comunidade inclusiva e, particularmente, se tivesse absorvido mais depressa seus modelos de organização da família, é muito provável que aqueles problemas sociais não se propagariam nem se perpetuariam nas mesmas proporções. Em segundo lugar, também parece evidente que os mencionados problemas sociais produziram efeitos reativos em cadeia, que dificultaram sobremaneira a absorção de novos comportamentos e de novas instituições pelo negro e pelo mulato. Eles se tornaram, assim, obstáculos à participação eficaz da “população de cor” na herança social da comunidade inclusiva e contribuíram, ponderavelmente, para retardar sua integração ao estilo urbano de vida. Portanto, em termos específicos, sua influência negativa tópica não ia na direção de “desintegrar a família”, mas no sentido inverso, de impedir sua rápida constituição e consolidação. Isso permite formar uma imagem global da situação histórico-social considerada. A ausência ou as deficiências da família como instituição social integrada favoreciam a emergência tumultuosa de desajustamentos e de comportamentos egoísticos, o que explica a amplitude e a virulência com que se manifestavam os referidos problemas sociais. Doutro lado, a incapacidade institucional de submeter tais problemas a controle ou, pelo menos, de corrigir socialmente seus efeitos mais destrutivos fazia com que eles atuassem dinamicamente, como fatores de preservação ou de agravação do status quo, isto é, de perpetuação das condições vigentes de desorganização social.
Essas conclusões aconselham a dar maior atenção aos mecanismos de integração e de funcionamento da “família negra”, em torno dos quais iriam gravitar as outras influências negativas ou perturbadoras do ambiente. Em vista disso, nas páginas subsequentes apenas evocamos alguns aspectos mais significativos daqueles problemas sociais, concentrando em seguida a descrição e a análise nas deficiências institucionais das funções socializadoras da família. Não obstante, na discussão final, de caráter interpretativo mais geral e sistemático, procuramos situar, em conjunto, os efeitos estruturais e dinâmicos de todos os fatores psicossociais e socioculturais a serem considerados numa descrição sociológica. Aí, num esforço de relativização e de compreensão globalizadora, examinamos as conexões estruturais e funcionais que permitem explicar a extrema apatia da “população de cor” diante da desorganização permanente de suas condições materiais e morais de existência social.
O problema do desemprego apresenta feições peculiares. Em-bora os informantes brancos, negros e mulatos tenham salientado, invariavelmente, que “grassava o desemprego” na “população de cor” da cidade (em especial no setor masculino), parece que a proporção de desempregados propriamente ditos era irrisória. Para se entender a situação do negro e do mulato, na sociedade paulistana dessa época, seria preciso recorrer a um artifício que permitisse considerar suas formas sociais de ocupação como se participassem de uma economia de subsistência, mais ou menos bloqueada no meio urbano condicionante. Nesses termos, constatam-se diversos tipos de ajustamentos econômicos que vão do parasitismo ocasional ou sistemático sobre a “companheira” à prestação de serviços remunerados fortuitos e ao trabalho assalariado permanente. Na medida em que não estavam incorporados ou apenas se incorporavam parcialmente ao sistema de classes emergente, o negro e o mulato viviam numa situação ambígua, em confronto com os brancos nacionais ou estrangeiros. Estes, em sua maioria, ajustavam-se a papéis sociais que os convertiam – quisessem ou não – em “assalariados” ou em “empresários”. Os negros e os mulatos, ao contrário, desfrutavam dessa regalia somente quando se inseriam na teia das ocupações urbanas institucionalizadas – ou seja, só uma minoria da “população de cor” estava em condições de enfrentar o desemprego como problema social. No conjunto, no seio dessa população ainda prevaleciam vários ajustamentos e critérios de avaliação incorporados à herança sociocultural do passado rústico, os quais comportavam diversas modalidades toleradas e até aprovadas de ocupação instável, de subocupação e, mesmo, de desocupação permanente do homem. Por isso, nem todos se viam nem se definiam, idealmente, como “assalariados” e muitos preferiam aproveitar os meios de “ganhar a vida” que excluíam o “emprego firme”, o que envolvia obrigações prefixadas, estáveis e obrigatórias. O sistema de ocupações e serviços da cidade se encontrava numa fase de transição, havendo relativa abundância de serviços que regulariam apenas a semiocupação ou a ocupação parcial dos agentes de trabalho, na maior parte vinculados à persistência de estruturas econômicas arcaicas, mas alguns nascidos da própria expansão urbana. Na verdade, o grosso das oportunidades de ganho da “mão de obra negra” se encaixava nessa rede de serviços, com consequências funestas para os trabalhadores negros e mulatos. Semelhantes atividades afastavam-nos das ocupações em que poderiam se realizar o seu adestramento e a sua socialização para o trabalho assalariado permanente, com o estilo de organização da vida que ele pressupõe. Além disso, elas fomentavam uma instabilidade ocupacional imoderada, que era lançada, pelos empregadores eventuais, nas costas do “negro”, representado como um “trabalhador volúvel”, “borboleteante”, “com o qual não se pode contar certo”, como se o “gosto por biscates” ocasionais fosse o produto de predisposições inalteráveis do ânimo do “trabalhador negro”. Doutro lado, mantinha-se acentuada resistência à aceitação do negro e do mulato em serviços que dependiam de tirocínio complexo e impunham um mínimo de iniciativa, de disciplina e de responsabilidade. Dizia-se que “o negro não nasceu para isso”, “não foi feito para essas coisas” etc., por ser “volúvel”, “instável”, “indisciplinado” e, também, “por não possuir ambição como o italiano”. Um dos melhores informantes brancos sobre esse período, ele próprio, operário qualificado e com experiência direta em várias empresas, indicou expressamente que “as firmas tinham a mania de não aceitar pretos”. Segundo suas observações, a aceitação do negro é recente, coincidindo com a paulatina escassez crescente de mão de obra. Exemplificou com o que aconteceu com um mulato que conhecia: fez várias tentativas para se colocar em empregos a que podia aspirar e, em todos eles, disseram-lhe “a vaga já está ocupada”. Depois, verificava-se que os lugares não estavam, de fato, preenchidos. “Recusavam-no por causa da cor. Ele ficou quase louco com isso.” Eis como coordena as informações que julgou mais significativas:
Os pretos gostam todos do Getúlio porque pensam que foi ele que acabou com o preconceito. Mas não foi. É que faltou mão de obra. Se não houvesse falta de mão de obra, os pretos nunca conseguiriam entrar nas fábricas. Ficava tudo como antes. Se continuassem a entrar imigrantes, os patrões preferiam a mão de obra
estrangeira, deixando a nacional.[214] Quer dizer que indiretamente o Getúlio foi responsável pela melhoria da situação, que fez com que o preconceito desaparecesse nas fábricas.
Os negros e os mulatos se defrontavam, portanto, com uma situação típica de desocupação disfarçada involuntária, apesar de o contexto econômico geral ser de “pleno emprego”. Para contornar essa situação, tinham de tirar proveito de acomodações econômicas que conduziam, inevitavelmente, a ajustamentos precários, insatisfatórios e socialmente indesejáveis. A exploração permanente da companheira, o trabalho remunerado ocasional e a preferência pela comercialização do crime despontavam, via de regra, como os ajustamentos viáveis de êxito mais fácil e marcante. Se isso não ocorresse, a dedicação às oportunidades conferidas por aquelas acomodações tinha um inconveniente básico: elas deslocavam os centros de interesses da “vida profissional” para “outras coisas”.
Em vez de preparar o negro e o mulato para competirem com os brancos na civilização industrial, elas concorriam para convertê-los num agente econômico deformado. Em primeiro lugar, excetuando-se o pequeno número dos que compartilhavam de posições conspícuas estáveis do sistema ocupacional, a grande massa da “população de cor” não tinha oportunidade para se reeducar para o gênero de trabalho, a ética e o estilo de vida do trabalhador livre. Sem poder discernir a fonte e as consequências sociais dos comportamentos que punham em prática, os negros e os mulatos acabavam cultivando os atributos que faziam deles os trabalhadores “volúveis”, “com quem não se podia contar” – propensos a interromper por qualquer motivo as suas ocupações, a trocar facilmente de serviços ou a largar o trabalho assim que lograssem certa quantia de dinheiro, para “viver à vontade”, sem trabalhar, enquanto pudessem. Em segundo lugar, a desmoralização resultante das formas de acomodação ocupacional possíveis, combinada com os efeitos contraproducentes de uma dieta deficiente, de condições anti-higiênicas do alojamento, do descuido com o corpo e da promiscuidade nos porões ou nos cortiços, de desregramentos sexuais e de doenças, tornava-os “desanimados para o trabalho”. Não só viam limitadas compensações materiais e morais no engajamento como assalariados; não possuíam razões para compartilhar das convicções que levavam o assalariado a encarar o trabalho organizado, disciplinado e permanente como algo necessário, útil e dignificante. Por fim, em terceiro lugar, puseram em primeiro plano o que se poderia chamar de produto final: o nível de vida associável a uma ocupação conspícua e rendosa. O consumo ostensivo, especialmente no vestuário e na alimentação, começa a marcar, de modo característico, as preferências centrais do “negro da cidade”. Vejamos, por meio de alguns exemplos escolhidos, como ele se manifestava concretamente. Um carpinteiro, cuja renda era insuficiente para sustentar a família e necessitava da contribuição financeira da mulher para esse fim (ela “lavava roupa para fora”), gostava de “se apresentar a rigor” nas festas de seu clube. Com esse fito, absorvia grande parte do seu ganho e o da esposa. A mesma coisa sucedia com as mulheres, que faziam penosos sacrifícios, às vezes durante todo o ano, “para brilhar” em determinada festa ou no carnaval, com fantasias aparatosas e caras. O afã em jogo foi descrito pelo sujeito de uma das histórias de vida como constituindo o “ideal” – de se distinguir como um “negrão alinhado”. A ambição de ter uma mesa farta “todo dia” (e não somente aos domingos, “como os italianos”), por sua vez, também era irreprimível. Quem “tivesse com que”, comia carne diariamente (se possível “a fartar”) e queria ver na mesa dois ou três pratos “de mistura”, condenando-se severamente os hábitos de moderação alimentar dos estrangeiros, que levavam a “sacrificar o estômago” ou a “tirar dinheiro da boca”. A convivência prolongada com os amigos, nos bares e nos botequins, suscitava uma terceira propensão contraditória entre os homens. Desejavam, ao mesmo tempo, dispor de dinheiro para gastar nas libações alcoólicas e contar com bastante tempo para os entretenimentos com os amigos. Esse rol de exemplos evidencia a natureza das interferências psicossociais, que deslocavam o trabalho para um plano secundário e convertiam-no em uma necessidade aborrecida. É inegável que algumas polarizações dessas interferências tinham um teor compensatório e eram construtivas, como a propensão de “parecer um negrão alinhado” e a ambição de “ter mesa farta”. Contudo, elas dificultavam o ajustamento eficiente do negro e do mulato ao horizonte cultural típico do trabalhador assalariado. Em vista da magreza dos orçamentos domésticos das “famílias negras”, as aspirações descritas produziam efeitos daninhos, que concorriam apenas para “dourar a miséria reinante”, sem erradicá-la. O pior é que tais aspirações impediam a objetivação, em escala coletiva, de ideais compensatórios alternativos, úteis à emulação profissional e à ascensão social. Em consequência, suas polarizações negativas, que contribuíam para agravar o desajustamento estrutural do negro ao estilo de vida urbana e fortaleciam a propagação de avaliações desfavoráveis ao “negro” na sociedade inclusiva, lavravam abertamente, como influências dinâmicas de natureza sociopática.