A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

Florestan Fernandes · Capítulo 14 de 15 · parte 1/3

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A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1

2. Os padrões tradicionalistas de relações raciais

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

O quadro recém-exposto sugere que a ordem racial, elaborada socialmente no passado, permaneceu quase intata ao longo da desagregação da sociedade de castas e dos primeiros desenvolvimentos da sociedade de classes em São Paulo. Isso significa, em outros termos, que se renovaram incessantemente, apesar das mudanças ocorridas em outras esferas da vida humana, as condições psicossociais e socioculturais que suportavam, morfológica ou funcionalmente, as antigas estruturas de relações raciais. Em consequência, toda a velha etiqueta de tratamento racial recíproco (no intercâmbio entre “negros”, “brancos” e “mulatos”) continuou a encontrar plena vigência; e, com ela, perpetuavam-se as representações de status e de papéis sociais que regulavam o modo pelo qual as pessoas, identificadas como pertencendo a cada estoque racial, “deviam” (ou “podiam”) participar dos direitos e dos deveres incorporados à ordem social vigente. O grau de persistência e a vitalidade interna daquelas estruturas eram tão grandes que o próprio padrão histórico de manifestação do preconceito e da discriminação raciais não sofrera modificações apreciáveis, embora já não fosse mais necessário buscar nele a justificação moral da escravização do homem pelo homem nem impor, repressivamente, a supremacia monolítica

da “raça branca”.[255] Aliás, ainda hoje seria possível descrever ao vivo tais estruturas raciais persistentes. Elas se preservaram com tamanha tenacidade, que seria perfeitamente possível e logicamente legítimo estudar o passado através do presente. É sabido que, em certas circunstâncias, o passado não se conserva apenas nos documentos e nas lembranças dos homens: ele também se evidencia por sua mentalidade, por seu comportamento e pelo funcionamento das instituições. Só não exploramos sistematicamente essa possibilidade de reconstrução histórica porque contamos com dados suficientes para assinalar os aspectos da realidade que

nos interessavam agora, com documentação da própria época.[256] Nesta breve incursão, julgamos conveniente restringir a análise a três tópicos centrais. Primeiro, as expectativas que alimentavam, com teor de reciprocidade, os ajustamentos raciais; segundo, o próprio padrão de relação racial tradicionalista, que convertia a assimetria em traço típico dos ajustamentos entre “brancos” e “negros”; terceiro, as principais características sociológicas da ideologia racial dos “brancos” dos círculos sociais dominantes.

As expectativas que regulavam, reciprocamente, os ajustamentos em que as pessoas interagiam como “negros”, “brancos” e “mulatos” podem ser melhor compreendidas e interpretadas por meio da descrição de situações concretas. Por isso, selecionamos alguns dados, relativos a dez casos diversos, que ilustram, de forma típica, as predisposições psicossociais que orientavam o comportamento dos agentes.

Primeiro caso: J. vivia em harmonia com os “italianinhos”, filhos do seu patrão, em cuja casa morava, e com outros meninos brancos da vizinhança. Formavam um grupo unido, dentro do qual era bem-aceito e se sentia feliz. Até que um dia surgiu novo centro de interesses, que pôs em causa sua condição de “preto”. “Nessa ocasião, eu saía para ver palhaços trabalharem. Me oferecia para distribuir cartazes, em troca da entrada para o espetáculo.” Assim,

quando apareceu a ideia de se organizar um circo para dar espetáculos e cobrar entrada da garotada da vizinhança, eu era o palhaço indicado. Construiu-se um picadeiro no quintal da casa de um dos meninos. Na hora de serem distribuídos os papéis houve uma grande celeuma sobre a atribuição do papel de palhaço. Uns achavam que deveria ser eu mesmo. Outros, entre os moradores da casa onde estava instalado o circo, alegavam a minha cor como empecilho: “O que irão dizer de um circo onde o palhaço é um preto”. Venceu o primeiro grupo. Em primeiro lugar, porque “o engraçado era eu”; e, depois, porque alguém se lembrou que “ele se pinta e ninguém verá a cor!”. É bom acrescentar que nesta ocasião, como em outras, os filhos do “italiano” estavam do meu lado.

 

Segundo caso: o mesmo sujeito enfrentou situações análogas, em que a “cor” se ergueu como uma barreira às relações congeniais. “Enquanto a preocupação do grupo foi futebol, não houve maiores choques com os companheiros, pois eu era um bom jogador e eles precisavam de mim. É fato que, umas vezes por zanga, outras de brincadeira, era chamado

minelite[257] e negro, e isto não deixava de amargurar-me”. Entretanto, a idade atraía os jovens para novos centros de interesses, que envolviam vida associativa com moças e recolocavam o “problema da cor” em suas relações. “A certa altura, percebi um trabalho de sapa para eu não ir a certos lugares. Isto durou até o dia em que um dos companheiros, que gostava muito de mim, disse: ‘entramos para uma sociedade de baile e já falei com a diretoria, que concordou que você fizesse proposta, impondo, entretanto, a condição de só frequentar os ensaios de homens’, não podendo eu comparecer às reuniões de que participassem as damas. [...] Esta situação foi aceita num momento de deslocamento. [...] Os ensaios eram realizados às terças-feiras”. Parece que “dançar com preto” constituía algo degradante.

O terceiro caso mostra, de modo ainda mais dramático, que a madrinha de formatura, pertencente a tradicional família paulista, deixou de comparecer à festa para não arrostar semelhante risco. G., em notas autobiográficas, escreve:

Quando por ocasião de minha formatura no colégio, convidei para ser minha madrinha uma das filhas do cidadão que me criou e de quem eu sou considerado irmão de criação. Ela aceitou o convite e preparamo-nos para o dia. Fomos à festa e tudo correu normalmente até o baile. Como eu era o chefe da comissão de formatura, fui antes ao salão para ultimar algumas providências e, antes um pouco da meia-noite, quando os formandos iriam dançar a valsa especial, recebi um recado dela, dizendo que não ia sair de casa porque não estava se sentindo bem. Fingi acreditar, porque vivendo há muitos anos com eles, bem conhecia-os e sabia que ela estava se desculpando só para não dançar a valsa comigo. No dia seguinte, soube que ela ficou quase que a noite toda jogando...

 

Aliás, o mesmo informante relata, com argúcia, os expedientes usados pelos amigos brancos, seja para excluí-lo, insensivelmente, de situações embaraçosas, seja para lhe evitar, ao mesmo tempo, experiências demasiado amargas.

Para que pudesse me ajustar dentro desse meio, os meus colegas, enquanto davam a mim as prerrogativas de chefe político da escola, sempre me escolhiam para ser o diretor de festas e caravanas do grêmio. Nessa qualidade, durante cinco anos de gestão, consegui organizar as maiores festas e caravanas na história daquele estabelecimento de ensino. Entretanto, como em nossas festas a seleção era rigorosa, sentia-me, às vezes, em situação deslocada. Mas justamente para que não se criasse em mim qualquer complexo de inferioridade, fato que percebi bem posteriormente, os meus colegas me colocaram naquela posição, porque, nas festas (bailes, sessões literárias, teatro, convescotes etc.), estaria sempre ocupado com a direção das mesmas, não me preocupando com os divertimentos, e, nas caravanas, estaria sempre ocupado com o alojamento dos colegas e o seu comportamento. A minha responsabilidade aumentava, às vezes, quando pais consentiam em que suas filhas tomassem parte nas nossas caravanas, mas com a condição de elas ficarem sob minha responsabilidade. Não confiavam em ninguém, a não ser em mim, que tinha de fazer o papel de ama-seca. Relativamente a isso, creio que assim se portavam, tais pais, no pressuposto de que não tinham necessidade de te-mer qualquer investida amorosa de minha parte com suas filhas, por ser negro e elas não me ligarem. Enganavam-se redondamente e, por vingança, delas bem aproveitava. [...] Todavia, em muitas ocasiões, meu trabalho terminava antes do final da festa. Então, os colegas mandavam algumas meninas mais chegadas a mim virem em comissão até onde me encontrava, para que eu escolhesse uma delas para dançar. Achava aquilo desprimoroso e ridículo para mim, eis que, sendo um cavalheiro, competia a mim convidá-la para dançar, não o contrário. Minha desculpa era não saber dançar. E não sabia mes-mo, não tendo interesse em aprender, para ser honesto comigo mesmo. [...] Muitas vezes, os seis colegas mais íntimos que tinha, percebendo a situação embaraçosa em que me encontrava, não compartilhan-do da alegria reinante nas festas que eu organizara, deixavam suas damas e namoradas e se acercavam de mim. Sentávamos em volta de uma mesa e bebíamos até não mais poder. No final, todos éramos levados para as nossas casas em elevado estado de

embriaguês.[258]

 

O quarto e o quinto casos giram em torno do namoro. O namoro inconsequente do adolescente e o namoro com perspectivas de casamento do rapaz. Naquele, temos de novo as peripécias da vida de G.:

Todas as namoradas brancas que tive não comunicavam a seus pais essa situação, porque, em certos casos, poderia eu sofrer até risco de vida. A maioria dos pais acreditava que não passava de pura amizade minhas relações com suas filhas. Jamais desconfiaram até da real situação. Houve apenas um caso, digno de nota: estava na terceira série ginasial e em minha classe havia uma mocinha morena, a mais bela da classe, e filha de grande fazendeiro de café. Desde o começo, a disputa pela posse de sua simpatia foi grande. Não concorri, como sói acontecer. Todavia, fui me esmerando nos estudos, até assumir a liderança na classe. Não sendo muito boa aluna, era obrigada a, de quando em vez, recorrer a mim, para poder seguir o ritmo do curso. Desses contatos nasceu a simpatia. Tínhamos encontros todas as noites e ela foi simpatizando-se cada vez mais comigo. Ingressamos em um curso de repetição de matérias e assim aumentou o nosso contato. Houve a troca de fotografias e, depois dela me ter dado mais de meia dúzia das suas, concordei, com muito medo, em dar-lhe uma das minhas. [...] Certo dia, a diretora do curso chamou-me e disse que não podia consentir na minha permanência naquela escola. Insisti em saber por que e ela não me revelou qualquer pormenor. Passados alguns dias daquele incidente, sou surpreso com a chamada do diretor do ginásio. Compareci em seu gabinete e ele disse-me que não me expulsava do ginásio porque se tratava de um estabelecimento oficial, e também em consideração à família que me criava, mas que ia transferir-me para outra classe, assim tendo feito. Fiquei furioso e insisti em saber do que se tratava, mas não soube. Tinha uma leve desconfiança porque não mais tive contato com a mocinha e ela era esperada todos os dias pelo robusto motorista de seu pai. Dias após é que fiquei ciente de tudo, por intermédio de uma empregada da casa de minha “namorada”: a mãe da menina, dando uma olhadela nos guardados desta, encontrou minha fotografia guardada em uma caixinha de prata no seu guarda-roupas. Chamou a garota e perguntou a razão daquela fotografia que, em vista da dedicatória, desconfiava não ser simples amizade, mesmo em se tratando de um negrinho. A menina disse então que gostava de mim, muito embora negro eu fosse, e que já se sentia capaz de discernir – 15 anos de idade. Consequência: tomou uma surra tremenda e foi proibida de sair sozinha durante muito tempo. A mãe, estendendo sua ira implacável, foi àquele curso e pediu a minha retirada dali. Por conveniência, a diretora atendeu. Foi depois ao ginásio e solicitou do diretor a minha expulsão, pois não podia se conformar com minha audácia, em ludibriando a boa-fé da filha que era uma criança. Eu também tinha 15 anos. E, assim, quase que aquele namoro estragou-me a vida.

 

 

O outro caso ocorreu com J. Ao contrário de G., era mulato claro, de bonita aparência – desses que “só se distinguem pela cor”. Quando seus amigos e companheiros começaram a namorar, ele também se viu envolvido nos arranjos pré-matrimoniais. Apenas, de modo diferente, que não teve ânimo de aceitar: “Por essa época, os italianos me diziam que iam arranjar mulher para me casar. Notava que, toda vez que se tocava no assunto, as moças que me eram propostas como bons casamentos não eram da família, mas sim mulatinhas. Entre os parentes do italiano havia uma sobrinha com a qual simpatizava; meu interesse, entretanto, teve um fim abrupto quando ela me disse: ‘O que estraga você é ser escuro demais’. Foi quando comecei a notar que a cor era um entrave”.

O sexto e o sétimo casos dizem respeito a F., mulato escuro, e ao tratamento que recebeu na casa de uma família rica e tradicional, em que sua avó trabalhara e ele próprio fora criado. A família em questão morava na avenida Angélica.

Quando era estudante, senti-me numa ocasião em grande dificuldade. Não tinha outro remédio senão o de socorrer-me de algum amigo; mas os meus amigos não podiam servir-me. Então, lembrei-me de dona M. T. Fui lá e pedi para falar com ela. Ela me recebeu e expliquei-lhe o que queria. Disse-lhe que estava estudando e que me via em apertos terríveis, pois tinha de comprar certos livros [de odontologia] mas não possuía o dinheiro necessário. Então, lembrei-me dela e que, talvez, por consideração à minha avó e ao fato de me conhecer desde menino, ela me protegesse. Dona M. T. ouviu-me, disse que sim, e foi para outra sala. Voltou com trinta mil-réis e quis me dar. Eu me recusei e saí.

 

O informante considerou a atitude dela como uma “grave ofensa”. Não obstante, com o correr do tempo, esqueceu se dessa amarga experiência e voltou a visitá-los:

Depois de formado e com clínica estabelecida, fui um dia visitar a mesma família. Isso aconteceu por acaso. Ia passando ali por perto, perto das onze e meia, e resolvi rever os meus antigos companheiros de infância. Eles [os rapazes] me receberam bem. Conversaram um pouco. Contei que me formara e estava clinicando, com gabinete dentário montado. Daí a pouco, a empregada veio avisar que o almoço estava pronto. Então, prontifiquei-me para sair. Expliquei que passara por acaso e que não tinha previsto a eventualidade de almoçar fora. Os rapazes insistiram, que eu precisava almoçar lá etc. Até que me convenci e fiquei. A empregada, logo depois, veio avisar que tinha o meu lugar pronto. E me levou para a cozinha. Tinham arrumado a metade da mesa para mim. Quando aceitei o convite não esperava isso. Pensei que íamos comer todos juntos e trocar ideias. Logo percebi por que fizeram aquilo comigo. Não aceitei o almoço. Disse para a empregada para avisar-lhes, depois que eu saísse, que não almoçaria na cozinha. Nunca mais pus os pés naquela casa.

 

O oitavo caso se relaciona com o mesmo tipo de “aperto”. Só que a pessoa envolvida, J., apelou para a condescendência de seu pai natural. Um vez, quando tinha 22 anos, procurou-o em seu escritório de advocacia. Não o tendo encontrado, deixou, por insistência do pessoal do escritório, o nome e o endereço. Um mês depois, o pai foi procurá-lo, também não o encontrou, e deixou o cartão. “Voltei ao escritório. Ele [o pai] disse que não era culpado – a [minha] mãe era soberba e sumiu comigo. Falou bem perto da boca para ver se eu cheirava... Deu cem mil-réis... E depois era sempre assim. A necessidade era a gravidez da mulher com quem eu amasiara. Nunca tive muito contato com ele [o pai] porque já era homem feito e senti as restrições dele que, conhecendo a índole dos negros, de ‘tirar coisas’, tinha medo.”

O nono caso, que gostaríamos de mencionar, já foi relatado

anteriormente.[259] Trata-se do conflito no trabalho, que envolveu F. com seu novo chefe no banco. Este não gostou de encontrar um “negro” em posição respeitável e o mandou limpar seus sapatos, asseverando que “negro é para isso mesmo...”. Impõe-se recordar esse episódio, em si mesmo tão ilustrativo das atitudes dos brancos em face dos “subordinados de cor”. Aliás, é impossível dizer se os “crias da casa”, os “filhos adotivos” e os “protegidos” estavam melhor amparados nessas emergências, associadas à escolha ou à manutenção de uma carreira. Em sua autobiografia, G. aponta os dilemas morais que se impuseram diante dele, quando seu companheiro escolheu uma profissão que ele também desejaria para si, se pudesse tentá-la com êxito.

Certa vez, em conversa com um desses meus amigos, revelou-me ele que seu sonho era seguir carreira diplomática. Ele já se via embaixador em Londres ou Paris, recebendo todas aquelas homenagens de praxe etc. Julgava ele que eu também deveria seguir carreira diplomática, porque carreira mais bonita não existia no Brasil. Disse-lhe que não tinha vocação para tal; que minhas intenções para o futuro eram bem outras. Mas tanto ele argumentou que acabou convencendo-me que a carreira ideal para mim era a diplomática. Assim, confiando em que ele tinha um primo que era naquela época secretário-geral do Itamarati e também um tio que era embaixador, comecei o estudo preparatório com ele. Já tinha algum conhecimento de inglês, e nessa língua esmerei-me, assim como no francês. Sabia no final de dois anos de estudos todo o programa solicitado para os exames [...]. Tinha bom conhecimento do que solicitavam sobre Direito Internacional etc. No entanto, no decorrer dessa preparação fiquei ciente que negro não podia seguir carreira diplomática e, sendo assim, resolvi não tentar uma recusa formal no Rio de Janeiro. Por ocasião dos exames, aquele amigo foi até minha casa verificar se eu estava pronto para seguir com ele. Disse-lhe então que não mais estava interessado em fazer aquele concurso, eis que tinha verificado que minha carreira não podia ser aquela. Insistiu ele em saber qual o verdadeiro motivo que me fizera desistir na última hora, eis que havia estudado com muito entusiasmo. Disse-lhe então que estava informado de que negro não podia seguir carreira diplomática. Ele riu e retrucou dizendo-me que no Brasil não existem essas barreiras, que tudo não passava de fantasia, e arrematou prontificando-se a pagar-me as despesas de viagem e estada no Rio, eis que ficaríamos em casa de sua avó. Sustentei o meu ponto de vista e pedi-lhe que não insistisse, eis que estava resolvido a não seguir, e solicitei-lhe que me aguardasse para o outro concurso, que seria realizado em janeiro. Nesse ínterim, ele verificaria se seria possível o meu ingresso na carreira. Concordei em ir com ele, mas não fazer o exame. Lá ele ficou cientificado da verdade: negro não entraria no Instituto Rio Branco, nem com ordem do presidente da República. Aquele meu amigo ficou desapontadíssimo e resolveu não seguir aquela carreira (ele fez exame e passou com distinção), deliberando fazer o curso de Direito e seguir carreira política para combater esse nefando preconcei-to entravador do progresso do negro brasileiro. Hoje é advogado e oficial de gabinete do Ministro da Agricultura e brevemente será candidato a qualquer posto eletivo. O outro companheiro queria que eu fosse com ele...” [e repetem-se outras carreiras, igualmente vedadas ao “preto”.]

 

O décimo caso se refere às experiências de uma matrona de importante família tradicional, no convívio com antigas servas ou criadas da casa. Certa vez, ela encontrou uma “negra muito velha”, que não via há tempo. Chamou-a de “dona”, ouvindo a seguinte resposta: “Que é isso, sinhá?!... Dona não. Deste estofo (e batia no peito) não sai dona, não!” A mesma senhora costumava receber a visita de antiga “cria” e cozinheira da casa, que ia lá, de vez em quando, em companhia da filha. “A filha, sem a menor cerimônia, entra, senta, conversa; a mãe não se senta, ‘não acha jeito de se sentar na frente do patrão’. Só por insistência da avó e por causa da impaciência da filha – ‘sente, minha mãe!’ – é que ela acabou sentando-se, na beiradinha da cadeira.”

Esses casos, escolhidos com o propósito de sublinhar o sentido das ações e relações que expunham os agentes a se comportarem como “negros”, “brancos” ou “mulatos”, evidenciam claramente que as “pessoas de cor” não se libertaram – nem objetiva, nem subjetivamente – da condição heteronômica inerente à antiga situação do “escravo”, do “liberto”, do “cria da casa” etc. O “preto” aparecia na cena social como o substituto e o equivalente humano do “escravo”, do “liberto”, do “cria da casa”, devendo, portanto, ser encarado e tratado como tal. A resistência à alteração de semelhantes expectativas de comportamento partia, simultaneamente, de “brancos” e de “negros” embora entre estes surgissem, aqui e ali, personalidades inconformistas, em franca rebelião contra tais arranjos. Os próprios informantes, de ambos os estoques raciais, tinham plena consciência desses fatos. Reconheciam abertamente a subserviência do “negro” e o orgulho emproado do “branco”. Contudo, também ressaltam que as coisas estavam se transformando. Uma senhora, de família tradicional, desabafava:

Os negros de agora não conhecem mais o seu lugar. São uns malcriados, atrevidos e, às vezes, até desonestos. A A., uma cozinheira que tive, saiu daqui fazendo malcriação, dizendo que negro era melhor que branco, que negro sabe educar filho, que negro não é vagabundo... e uma porção de coisas que nem me lembro! A A. era mulata, era educada, parecia muito fina, mas tinha um “azedume” por causa da cor. Quando ela entrou aqui, disse que havia saído da casa da outra patroa, porque ela era muito orgulhosa, achava que negro não era gente, e que não admitia que o filho [dela, A.] entrasse na casa para conversar com a mãe. Tinha que ficar só no portão. Eu disse que não achava isso certo, que aqui ela podia receber o filho no quarto dela, dar café com pão e mesmo almoço, de vez em quando. Sabe o que aconteceu? Uma vez eu desci para ver uma cesta de costura e sabe o que vi?... O mulatinho da A., refestelado na poltrona da sala de visitas, lendo as revistas, com o pé em cima da mesinha... Nem meus filhos e minhas visitas tomam essas liberdades! Quando eu disse para a A. que ela devia receber o filho só no quarto dela, e não deixar que ele sentasse na sala de visitas, ela ficou furiosa: “É isso mesmo! Diz que não é igual às outras, só para fingir de boa, mas no fim são todas iguais, acham sempre que negro não é gente!“ Mas que desaforo... Então uma professora vai sentar na cadeira do diretor do Grupo? Uma enfermeira toma conta, como se fosse seu, do consultório do médico? Cada pessoa tem seu lugar, seu emprego e não vai tomando conta do que não é seu. Mas os pretos, quando a gente trata bem, pensam que são iguais, que podem fazer tudo que querem!

 

Comentando ocorrências dessa natureza, a matrona mencionada afirmou que as atitudes desabridas dos “negros” se acentuaram aos poucos, tornando-se frequentes e intoleráveis apenas depois das leis trabalhistas, promulgadas por Getúlio Vargas. “O resultado é esta absoluta falta de conhecimento de seus lugares que se nota hoje em dia”, frisando que isso acontecia com toda a “gentinha”, inclusive com os “brancos da plebe”.

O “preto”, por sua vez, podia não gostar do servilismo a que se via reduzido. Mas tinha de se acomodar passivamente às expectativas de comportamento dos “brancos”. Como esclarece J., a seu próprio respeito: “aturava, porque era condição de vida do negro na ocasião”. Doutro lado, o próprio branco manipulava, como podia, os cordões do conformismo e da acomodação passiva do “preto”. O seguinte trecho do depoimento autobiográfico de G. ilustra esse fato vivamente:

Certa vez, estava sentado em uma bela poltrona, na varanda da residência daquele amigo que queria que eu seguisse carreira diplomática. Sua família é riquíssima. Grandes fazendeiros de café. Sua mãe estava ali também, fazendo tricô. E eu, cabisbaixo, pensava justamente na situação em que me encontrava. Era benquisto em quase todos os lares ricos e pobres da cidade; desfrutava de um conceito muito bom; era o “dói-dói” de toda aquela gente. Entretanto, pensava, se um dia me casasse, tivesse filhos, minha mulher e meus filhos desfrutariam daquela situação que eu gozava? O bom senso dizia-me não. E isso me tornava mais meditabundo e sorumbático. Em dado momento, aquela senhora quebrou o silêncio reinante e, como que adivinhando quase o que se passava em minha mente, perguntou-me por que estava tão triste e se não estava gostando da vida que levava, pois ela não podia conceber que eu já tivesse problemas. Disse-lhe então que tinha e que eram bem graves, e que não sabia mesmo como solucioná-los. Falei-lhe a respeito do que pensava. Ela disse-me que eu era muito criança para pensar nessas coisas e que eu tinha que lutar para sustentar a posição que ostentava no momento, sendo amigo das melhores famílias da cidade e vivendo em um meio que era realmente aristocrático, pois, segundo era do seu conhecimento, tinha eu o privilégio de gozar da intimidade mesmo dessas famílias, sendo tratado como pessoa da família etc. Disse-lhe, então, que não podia me conformar com essa situação, pois a posição que desfrutava na sociedade era falsa, e eu não podia me manter nessa situação por tempo indeterminado. Uma prova era que, embora gozando de todos aqueles privilégios, não me permitiam aqueles amigos, de modo indireto, que eu dançasse nos salões de suas sociedades, senão quando o meu colégio ali fizesse realizar festas; não permitiam que eu nadasse em sua piscina e jogasse tênis ou bola ao cesto em suas quadras. Arrematei dizendo que, se essa situação de relativa amizade me era proporcionada, salvo as exceções, o era por ser eu filho adotivo de um dos homens mais ricos e conceituados da cidade e, acreditando mesmo que, no dia em que eu fosse obrigado a viver sem estar amparado por aquela família, toda aquela situação desapareceria. Aquela senhora não soube nem pôde me contestar. Aconselhou-me apenas a não lutar muito contra a evidência das coisas, porque acabaria mal.

 

Esses casos são suficientes para demonstrar o que nos importa no momento. “Negros”, “brancos” e “mulatos” interagiam entre si como se ainda fossem separados e unidos pela antiga etiqueta de relações raciais, vigente na ordem senhorial e escravocrata. Onde os direitos e os deveres sociais se objetivassem em conexão com a condição racial das pessoas, estas não só deveriam “conhecer o seu lugar” mas, ainda, saber se mostrar à altura dele, agindo e vivendo de acordo com as conveniências, as obrigações ou as imposições dele decorrentes. Em suma, “conhecer o seu lugar” e “saber honrá-lo e dignificá-lo” ainda constituía uma mesma coisa, apesar da insatisfação cada vez mais ostensiva, imprevisível e incontrolável do “homem de cor”. A cor servia como um ferrete, que identificava o “preto” e, atrás dele, aquela parte da “gentinha” procedente do eito e da senzala – ou seja, da subordinação infamante e sem limites do estado servil. Dentro desse contexto psicossocial e cultural, o “escravo” e o “liberto” não desapareceram: subsistiam no “preto” como categoria a um tempo racial e social. E, se porventura o “branco” se esquecesse disso, cabia ao próprio “negro” proclamar sua condição, protestando que do “seu” estofo não

podiam surgir nem a pessoa, nem o equivalente humano do senhor.[260]

Tudo isso evidencia que se deve dar especial atenção à forma assumida pela acomodação racial igualitária. Esta não nasceu nem vingou, imediatamente, como uma relação típica da sociedade de classes. Foi pervertida e assimilada pelos padrões tradicionalistas de relações raciais, adquirindo a aparência da ordem social democrática mas preservando, tenazmente, a substância do antigo regime. Onde parecia fluir plena igualdade nas acomodações raciais, preservava-se, quase intata e completa, a velha relação heteronômica, que separava o “branco” do “negro”, como o “senhor” do “escravo” ou “liberto”. As condições histórico-sociais de formação e de desenvolvimento do regime de classes em nossa cidade tornaram esse destino do “negro” inelutável. A situação de classe só encontra vigência quando determinada categoria social conquista os requisitos econômicos, sociais e culturais de uma classe (ou de parte de uma classe). Em termos raciais, somente os estoques “brancos” da população de São Paulo adquiriram, desde logo, os caracteres psicossociais e socioculturais típicos da formação de classe. Os “negros” e os “mulatos” ficaram variavelmente ausentes desse processo, misturados com os segmentos dos estoques raciais “brancos” que também encontraram dificuldades em participar das novas formações sociais, constituindo a “gentinha” uma sobrevivência da “ralé” do antigo regime. Enquanto se manteve nessa condição, o “negro” vivia numa sociedade organizada em classes sem participar do regime de classes. O termo “preto” permitia selecionar a cor como marca racial para distinguir, a um tempo, um estoque racial e uma categoria social em situação societária ambígua, para não dizer francamente marginal.

Isso nos leva, naturalmente, ao segundo tópico da presente discussão. Na medida em que os negros e os mulatos não se inseriram, senão tardia e lentamente, nas classes sociais em emergência, eles não partilharam das situações de classe existentes e suas relações com os “brancos” também não eram, tipicamente, relações de classes. A acomodação racial se processava segundo modelos reconhecidamente aberrantes, antes conforme à relação tradicionalista e patrimonialista que à relação heteronômica inerente à ordem social competitiva. O “branco” preservava ciosa e ferrenhamente a posição ativa e dominante da polarização “senhorial”. Enquanto o “negro” se conservava (ou era mantido) na posição subordinada correspondente, como se ainda fosse despido da condição civil de “pessoa”. Portanto, o que se deve enfatizar não é, propriamente, a existência de relações de dominação. Em toda a sociedade de classes existem formas legítimas de exercício da dominação, da liderança e da autoridade. Mas a interpenetração entre o regime de classes e formas arcaicas de dominação racial. Se os negros e os mulatos tivessem conseguido classificação social rápida no seio do sistema de classes emergente, suas relações com os “brancos” se converteriam, simultaneamente, em relações de classes. Estabelecer-se-ia um novo paralelismo entre a ordenação social e a estratificação racial da sociedade inclusiva. Como tal não sucedeu, ocorreu uma dupla corrupção. De um lado, a sociedade de classes foi abertamente solapada e pervertida por distinções sociais fundadas em privilégios raciais incompatíveis com a estrutura e a dinâmica da “sociedade democrática”. De outro, a persistência da dominação da “raça branca” ao velho estilo se deu além e acima de sua fonte de legitimação jurídica e histórica, o que lhe imprimia o caráter de uma violação irreparável dos direitos fundamentais dos “homens de cor” e lhe tirava todo e qualquer fundamento ético-jurídico. Perdido na sociedade de classes, sem desfrutar das garantias sociais estabelecidas, o “preto” ficava à mercê de uma tutelagem que carecia de sentido moral e que não se impunha nenhum freio, fosse ele alicerçado no interesse material, no decoro ou na obrigação subjetiva. O paradoxo final se apresenta com a tendência de se conceber, historicamente, as relações raciais assim desenvolvidas sob os modelos vigentes de ordenação societária. Tais modelos se aplicavam às relações dos “brancos” entre si, com inconsistências notórias em se tratando da democratização do poder ou do comércio social das elites com a “gentinha”. Apenas de modo esporádico, porém, chegavam a afetar a convivência dos “brancos” com os “negros”. No entanto, convencionou-se que os princípios democráticos imperavam nas relações inter-raciais e que a forma de acomodação racial predominante seria “igualitária”.

Aqui, não nos interessa discutir o sentido sociopático de tal manifestação de etnocentrismo. Pretendemos, pura e simplesmente, proceder a uma análise sociográfica da chamada “acomodação racial igualitária” para pôr em evidência seus componentes estruturais e

funcionais típicos.[261] No fundo, pondo de lado o enganoso nome novo, a forma de acomodação que se estabeleceu e se perpetuou praticamente até nossos dias (embora com algumas atenuações e substanciais alterações na perspectiva social do “negro”) provinha do passado tradicionalista e patrimonialista, como se os “brancos” pretendessem preservar o paternalismo nas relações com os “homens de cor”. Não obstante, não existiam mais condições econômicas, sociais e políticas para a sobrevivência do paternalismo, como já assinalamos. Este podia ser praticado em pequena escala, em consonância com a persistência de alguns traços sociais e políticos do antigo regime, incrustados no estilo de vida de “grandes famílias”; e de modo fortuito na proteção de um ou outro “elemento de cor mais chegado”. A relação paternalista passara a ser: um ônus severo e gratuito para o “protetor”; algo insatisfatório e ainda por cima infamante para o “protegido”. Em busca de fontes regulares e autônomas de trabalho e de ganho, o negro e o mulato só recorriam a “benfeitores” no último extremo e quase sempre para saírem insatisfeitos com as soluções acessíveis. Por isso, essa relação somente teve certa continuidade em duas direções. Primeiro, no auxílio contínuo ou acidental a antigos servos e empregados “de cor”. Segundo, na proteção disfarçada ou sistemática de negros e mulatos definidos como “afilhados” ou “crias da casa”. No mais, a relação se perverteu por completo. O polo ativo passou a ser ocupado por “brancos” que usavam o “negro” como instrumento – em regra com fins políticos e eleitorais. E o polo passivo era preenchido por “negros” que desfrutavam o “branco” rico, explorando sua ignorância do “meio negro”, vendendo influências que não existiam e servindo como guarda-costas. Desaparecido o mundo social criado pela escravidão, em resumo, sumiram os suportes materiais e morais dos antigos modelos de associação entre “negros”, “brancos” e “mulatos” – especialmente os modelos que ligavam entre si os dois extremos da sociedade. A continuidade de tais modelos surgia, em si mesma, como uma anomalia e onde ela se vinculasse a interesses práticos quase sempre existia alguma parte de perversão nos motivos dos “brancos”, dos “negros” ou de ambos.

A sondagem efetuada nos revela que a relação tradicionalista no comércio inter-racial entrara em colapso. A supressão legal do sistema de castas e a desagregação inevitável, embora lenta, do antigo regime minavam aos poucos os suportes materiais e morais em que aquela relação se erigia. Isso significa que a realidade histórica não favorecia o curso tomado pelos contatos raciais; que os requisitos psicossociais e socioculturais das formas arcaicas de acomodação racial estavam fatalmente condenados; e que as tendências de reintegração da ordem racial teriam de ser fornecidas pelo sistema de classes sociais. No entanto, os vários fatores de inércia, já analisados, que operavam simultaneamente no “meio negro”, nos círculos dirigentes da “raça dominante” e na sociedade inclusiva como um todo engendravam, na esfera das acomodações raciais, um longo período de transição, o qual confirma ser realmente difícil ao homem sair da própria pele. O “negro”, no regime de igualdade e de liberdade, continuou a se comportar como “escravo” ou como “liberto”, enquanto o “branco” ignorou as transformações ocorridas, aceitando o incenso que era queimado a seus pés ou exigindo os tributos devidos à “raça dominante”.

O fato é que, por curioso que pareça, os fatores de inércia conservaram o passado no plano por assim dizer ritualizado do convívio inter-racial. Na medida em que o “negro” se identificava com seus antigos papéis sociais ou em que o “branco” se recusava a partilhar com ele seu estilo de vida e os papéis sociais correspondentes, reduziam-se ao mínimo as modificações do horizonte cultural imperante em cada setor racial da sociedade paulistana. Em consequência, estabeleceu-se uma espécie de consentimento tácito, que conferia ao “branco” o arbítrio de decidir como tratar o “negro”, em situações concretas, e infundia neste a propensão a acatar, conformadamente, as expectativas de comportamento daquele. Esse desfecho seria inconcebível se o conformismo do “negro” não tivesse sido modelado pela escola da escravidão e se, apesar de escravo, ele tivesse sido o próprio agente histórico de sua libertação. Do jeito que se passaram as coisas, seria mais fácil alterar bruscamente a personalidade dos senhores que a personalidade dos ex-escravos e libertos. Ninguém poderá dizer até onde iria o ressentimento dos “brancos” dos círculos senhoriais se fossem compelidos, pelas circunstâncias, a obedecer de um momento para outro a um código ético igualitário. Mas percebe-se melhor a extensão tomada pelo processo inverso: como transcorreu a acomodação conformista dos negros e mulatos. Ainda em 1949, duas de nossas pesquisadoras se interessaram pelas influências tradicionalistas, que alimentam o extremo conformismo dos “pretos velhos”. Eis como uma delas resume, livremente, a filosofia de vida de sua informante: “Os reveses por que passou a fizeram fatalista. O destino quis que ela se casasse e ficasse viúva três vezes. Não culpa os pais por não a mandarem à escola, mas ao destino que assim o quis. Sua pobreza também estava determinada. Aceita todas as vicissitudes com submissão de escrava, sem revoltas, sem desejo de interferir nos acontecimentos. Só o fato de ser preta é uma advertência para que se conserve submissa”. A outra pesquisadora, conversando com os membros da família que lhe competia estudar, soube que o pai era espírita e que a mãe não tinha religião certa (“ora vou em esta, ora vou em aquela”), e colheu, do chefe da família, a seguinte explicação sobre o processo de cura das doenças: “Fé em Deus, sem fé não adianta nada o médico! [...] Então, perguntei-lhe, ‘por que o senhor vai ao médico?’ Ele respondeu: ‘Ué! Ele ajuda!’”. A pesquisadora ficou desorientada com o que observou e ouviu, desabafando em seu diário de trabalho: “São todos os membros da família de um conformismo revoltante. Mesmo que pareça impossível, estão relativamente satisfeitos com a situação. [...] Se é isso a vontade de Deus que é que se vai fazer? [...] Não culpam nem a cor nem a falta de oportunidades pela situação”.

Na verdade, foi mais fácil ao “negro” lutar contra o aparato material da condição servil que combater seu sustentáculo moral invisível, a concepção tradicionalista do mundo. Seria necessária uma lenta reeducação pela experiência para que se desse conta de que precisaria conquistar, por meios próprios, a Segunda Abolição – aquela que seria igualitária e definitivamente redentora. Em suma, todos consentiam, espontaneamente, em perpetuar as velhas formas exteriores de convivência racial. “Brancos” e “negros” se viam através de um prisma deformado. Tendiam a se apegar, portanto, a expectativas de comportamento, a ideais de personalidade e a concepções de status e de papéis sociais que ordenavam a situação de contato inter-racial, material e moralmente, como se prevalecesse, para fins de classificação social e de tratamento recíproco, um estado de servidão não declarada da “raça negra”. Isso pressupunha a atualização e a vigência ininterruptas de ajustamentos raciais que renovavam, diuturnamente, o padrão assimétrico de relação racial, construído sob o império da escravidão e do domínio integral da “raça branca”. O elemento típico da “acomodação racial igualitária” não vem a ser, por conseguinte, a disposição, mutuamente admitida ou consentida, de igualdade racial efetiva. Mas uma polarização inversa, que convertia a subordinação passiva do “negro” e a supremacia ilimitada do “branco” em bases normais da interação racial. Nem mesmo sob a condição de processo in statu nascendi e in fluxu chegam a se estabelecer, no período considerado, tendências alternativas de evolução igualitária da situação de contato racial.

Essa conclusão, amplamente fundada e comprovada pelos documentos transcritos, evidencia algo que é essencial para a nossa reconstrução e a nossa análise. A repetição de velhos “usos” e “costumes” no comércio racial teria, em si mesma, pouca importância sociológica. Se tudo se limitasse apenas a isso, estaríamos diante de sobrevivências, de relíquias do comportamento humano, residuais e destinadas a rápido desaparecimento. Contudo, o que se constata é que as exterioridades do comportamento do “negro” correspondiam, estrutural e funcionalmente, a exterioridades contrapostas do comportamento do “branco”. Em outras palavras, era um padrão de relação racial que se perpetuava historicamente, prolongando pelo tempo uma forma de acomodação racial contrária aos requisitos econômicos, sociais e culturais da sociedade de classes. A mais completa e extrema assimetria continuava a imperar na convivência entre “negros”, “brancos” e seus descendentes mestiços. E não se tratava de uma assimetria nascida da livre competição racial ou das desigualdades inerentes ao regime de classes. Porém, de uma assimetria monolítica, rígida e implacável, que não deixava alternativa – ou o ajustamento esperando; ou a autoexclusão. Ainda aqui, observamos como o cruel dilema, que perseguiu incessantemente o liberto, também operou contra o “negro livre”. Integrar-se à vida social significava, para o negro e para o mulato, aceitar passivamente as regras do jogo, estabelecidas pelo e para o “branco”. O que equivalia a admitir e reconhecer sua condição submissa, dependente e de “gentinha”. A outra saída consistia em romper pela abstenção – isolar-se do convívio com o branco e quebrar o maior número possível de ligações com o seu mundo social, constituído pela própria sociedade inclusiva.

Esse mecanismo de ajustamento fomentou a elaboração de estranha filosofia conformista, que transformou o “retraimento” e o

“complexo”[262] em fatores de isolamento renitente. Um informante negro escreveu, em documento pessoal, algo característico: “nunca procuro um lugar em que me sinto acanhado nem também que eu me sinto indesejado nesse ou naquele ambiente”. Quer dizer que, pouco ou muito, cada qual fugia o quanto pudesse do convívio com o “branco”, especialmente onde esse convívio implicasse em sair da rotina. Entretanto, dada a fragilidade de semelhante recurso adaptativo, seria difícil determinar as fronteiras que separavam o isolamento puro e simples do desajustamento declarado. O isolamento como técnica social de ajustamento se produzia num clima psicológico em si mesmo desmoralizante e desmoralizador. Doutro lado, em determinadas circunstâncias ele próprio acabaria disfarçando um desajustamento crônico irremediável, embora não reconhecido abertamente como tal.

As lembranças de um informante branco permitem situar um caso-limite, dessa natureza. Segundo suas recordações, estava almoçando com um amigo de folguedos “negro”, com o qual mantinha relações de profunda amizade, quando apareceu um vendeiro da vizinhança, para fazer uma reclamação: Z., o seu amigo, e um “italianinho” haviam derrubado uma pilha de latas do armazém. “Dna. N. não bateu no filho. Depois de desculpar-se ao vendeiro, pôs-se a falar, como num choramingo, ao filho: ‘Já avisei, meu filho. Preto com branco não dá certo. Branco não presta, meu filho. Branco é mau. Este mundo é deles. Já avisei. A gente tem que se conformar e viver entre nós. Branco, se trata bem no começo, é para pôr canga em preto, no fim. Dna. N. pra cá, Dna. N. pra lá, dizem as patroas do hotel, mas, no fim, quando a gente quer o dinheiro que devem, se não põem o mundo abaixo, vão embora e deixam a nossa panela sem feijão. Branco não presta, meu filho, escuta o que sua mãe diz’.” Z. ouviu com cara sisuda aquele desabafo de uma submissa. “Foi realmente impressionante. Lembro-me muito bem, até hoje. A velha, notando a minha aflição, vem em meu socorro: ‘Não ligue não. Você é como meu filho’. Nunca me esqueço”.

No entanto, temos de deixar de lado tais aspectos da situação de contato. Eles possuem inegável importância e não devem ser subestimados ou esquecidos em nenhum momento da nossa análise. Mas esta deve cingir-se ao plano imediato em que se desenrolava o intercâmbio social do “negro” com o “branco”.

O fulcro do padrão assimétrico de relação racial consistia numa polarização em que o “branco” e o “negro” apareciam, respectivamente, como os equivalentes do tutor e do interdito. Nesse sentido, poder-se-ia falar, numa extensão de um princípio do direito natural, na existência de um “poder do branco” (como o poder paterno ou o poder marital), a ser exercido, em qualquer circunstância e em qualquer fim, com ou sem o consentimento da parte interessada e, teoricamente, sempre no seu benefício. Os fundamentos dessa polarização recíproca aparecem claramente no seguinte depoimento, que condensa os principais elementos típicos da relação enunciada:

[...] o negro sabe que é inferior e reconhece que o branco é mais inteligente e deve mandar nele. Por isso, se comporta para com o branco com timidez e com respeito, aceitando o seu lugar. Ele nunca poderá alcançar a mesma posição que o branco, por mais que faça. Os próprios “homens de cor” desenvolveram aguda consciência dessa polarização, apontando-a como “causa” do preconceito de cor e da discriminação racial em nossa sociedade. Nestas condições, o que nós sentimos de ordinário na rua é não somente o efeito do preconceito mas, no caso, é a causa dos efeitos citados. O preconceito é este conceito de inferioridade que se tem para com o negro e em decorrência dessa inferioridade aparece o tratamento do superior para com o inferior. [...] A raça branca criou para si o conceito de superioridade e para a raça negra o conceito de inferioridade. [...] Este conceito criado para o negro criou, no elemento branco, a prevenção. Criou um estado de espírito que, se não podemos dizer de atrocidade para com o elemento negro, pelo menos o podemos afirmar na condição a que

deveria ser – relegado a um elemento inferior. E esse conceito de inferioridade sentimos a cada passo. [...][263]

 

Convicções dessa ordem se mantiveram firmes e arraigadas. Ainda em 1952 pudemos observar a indignação de um luso-brasileiro diante da elevação de L., grande jogador mulato, à condição de técnico do seu clube. O informante era torcedor fanático daquele clube e achava que seu quadro ia mal em virtude daquela circunstância. “L. é um grande jogador, ainda agora. Mas o mal foi terem-no aproveitado como técnico. [...] Negro não serve para isso. Não serve para mandar e ainda mais para mandar em branco. [...] L., como todo preto, é desorganizado e insubordinado. Como poderia então ser chefe e dar ordens? Ninguém quis obedecer-lhe e o exemplo de insubordinação tomaram dele próprio. [...] Além disso, no quadro há rapazes brancos, de fina educação, inclusive advogados formados. Como poderiam ser comandados por um negro e receber ordens dele?”

Assim como não podia “mandar em branco”, o “negro” também não podia ser recebido ou tratado como “um igual”. As antigas servas e empregadas ou os chamados “crias da casa” deviam ser recebidos na copa, pela porta da cozinha ou na varanda. Vários documentos demonstram que a localização recíproca dos socii, a esse respeito, era estrita e aceita tacitamente. Isso não deveria “ferir os brios de ninguém”, pois se julgava que os procedimentos não afetavam a pessoa, mas a sua condição social “inferior”. Os mesmos documentos evidenciam que o essencial era cada um “saber qual é seu lugar” e se ater, convenientemente, à “tradição de hierarquia”. Um advogado e fazendeiro possuía dois serventes negros. Eis como explicava as razões dessa preferência: “Sou eu quem escolhe os nossos empregados. Temos agora dois negrinhos formidáveis: espertos e ótimos empregados. Aliás, prefiro ter negro nesse lugar... Já que a gente vai ajudar alguém, que seja um negro, que está precisando mais de auxílio. Prefiro ajudar um negro, que um italianinho picareta que quer subir. O negro, pelo contrário, liga à vontade de subir uma tradição de hierarquia: é respeitoso e educado; o italianinho é moleque e malcriado”.

A mesma razão levantou algumas quizílias contra o mulato. Como disse um informante: “Agora, não sei se você percebeu que o mulato é pior que o preto. Eu por mim não tenho nada com os pretos. Acho que é boa gente e me dou com eles. Mas não quero saber de negócios com os mulatos. O mulato pensa que é branco e fica muito metido. Prefiro os pretos, porque eles sabem qual é o seu lugar e se afastam. Os mulatos não. São pernósticos e pensam que podem fazer tudo como os brancos”. No contato categórico, a distância social e a “tradição de hierarquia” eram sublinhadas pelo tratamento cerimonioso. Não se dava de “senhor” ou de “dona” a um “preto” – nem ninguém se desbarretava diante dele ou lhe dava a mão. Alguns chegavam a proibir que as “pessoas de cor” usassem essas fórmulas entre si. “Conheço um caso que me ocorre agora. Na casa de uma família abastada, com ranços ainda de aristocratas, essa gente não permitia, entre as empregadas negras, que a mais moça chamasse a mais velha de senhora, porque senhora, naquela casa, só eram elas, as brancas donas da casa.”

Apesar da enorme tolerância associada ao uso de nomes e prenomes das famílias tradicionais pelos ex-escravos, até aí se estabeleciam distinções notórias. Certa matrona, de família com belo renome, tinha por hábito chamar por Clemente os moleques de recado (em regra, “pretos”). Uma ocasião, um desses rapazes foi à sua casa, para lhe prestar um serviço. Ela indagou: “Como é que você se chama? Clayton?... Isso não é nome de negro! Você se chama é Clemente!”. E o designou, sempre, por esse nome.

Na medida em que identificava certos hábitos e modos de ser com um status “aristocrático”, o próprio negro, assim que pudesse, tendia a absorver os padrões de comportamento dos “brancos da elite”, servindo-se deles para se distinguir e se separar dos “negros pobres” ou “negros de brim”. Os clubes negros mais ou menos conceituados ficavam, por isso, famosos pelo formalismo imperante na vida mundana dos associados, pelo decoro das festas e pelo zelo da etiqueta mais estrita, que governava as relações cerimoniosas dos sexos no decorrer das danças. Nas relações com o “branco”, porém, tais evidências de ostentação de prestígio e de poder podiam ser mal interpretadas e recebidas com hostilidade. Em regra, dizia-se, diante de qualquer situação desse tipo: “parece que o negro quer virar gente”, “essa gentinha não se enxerga!”, “negro já pensa que é gente” etc. Ainda recentemente, registramos uma ocorrência digna de menção. O chofer de um carro de aluguel estava transtornado. “Hoje estou de peso. O primeiro freguês que me apareceu foi uma mulher. Ela deu sinal para eu

Continuar: parte 2 de 3