A Menina do CEO

Jéssica Larissa · Capítulo 2 de 5 · parte 1/9

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A Menina do CEO

Capítulo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

BEATRIZ

Após passarmos na casa de Gracy, Pedro para o carro ao lado de um quiosque no calçadão de Copacabana. O dia está ensolarado e os turistas trafegam de um lado a outro, como é normal no Rio. Apesar da minha falta de ânimo mais cedo, o barulho das ondas e a brisa do mar recarregam as minhas energias. Eu e Gracy descemos, segurando nossas bolsas, nos sentamos nos banquinhos e pedimos, cada uma, um suco natural de laranja, enquanto Pedro estaciona o veículo.

— E então, Bia. O que está pensando em fazer com relação ao Cadu? — questiona Gracy, olhando-me com os seus olhos escuros cheios de expectativa.

Desvio meu olhar, coloco o canudinho na boca e sorvo um pequeno gole da bebida gelada. Passo a língua em meus lábios e, sem encará-la, respondo: — Para falar a verdade, ainda não sei. Pensarei em algo.

Minha amiga sorri abertamente e continua tomando o suco. Quando termina, levanta-se e chama o atendente para pedir outro. Sua alegria e autoestima são contagiantes. É impossível não se sentir bem quando ela está por perto. Dona de lábios carnudos magníficos, cabelos cacheados bem definidos e pele morena, ela deixa um rastro de luz por onde passa e pouco se importa se está um pouco acima do peso.

— Olha, estive pensando… — Ela começa a falar e me fita. — Já que você inventou de enviar mensagens anônimas para ele, que tal mudarmos este jogo? Se não surtiu qualquer efeito, tem que mudar de estratégia.

— Como assim? — Arqueio uma sobrancelha e questiono, esperando que ela apresente sua ideia.

— Vou te explicar. — Após pegar o suco das mãos do atendente e voltar a se sentar, Gracy continua. — É o seguinte. E se, ao invés de continuar mandando essas mensagens bobas, você começasse a falar coisas mais inteligentes e menos melosas?

— Tipo? — questiono e coloco o dedo no meu queixo, tentando imaginar onde ela pretende chegar.

— Você precisa deixar claro que se conhecem, Bia, mesmo que ele não saiba de quem se trata. Instigue-o a querer te conhecer mais a fundo, até marcarem um encontro.

Mordo o canudinho, já começando a ficar nervosa.

— Acho que para isso terei que trocar meu número. Porque provavelmente já queimei meu filme com ele — digo ao relembrar que enviei uma mensagem chamando-o de meu amor. Que vergonha! Ele deve estar querendo correr para quilômetros de distância de mim.

Gracy estreita os olhos e me encara com uma expressão de incredulidade e divertimento.

— Olha, se foi tão grave assim, melhor providenciarmos outro número para você, urgentemente.

Solto um risinho um pouco sem graça e balanço a cabeça em concordância.

— Está certo. Farei isso o mais breve possível. E o que tem em mente? — pergunto. Contudo, sou interrompida pela voz de Pedro que se aproxima do quiosque e também pede um suco de laranja.

— E então, meninas. Qual a novidade da vez? — Ele se senta em um banquinho do meu lado.

Gracy gargalha e começa a contar para o Pedro o plano mirabolante para que eu conquiste o Cadu. Meu amigo me observa com olhar neutro, sem demonstrar muitas emoções. Passa a mão nos cabelos escuros e volta a sua atenção para o mar, aparentemente incomodado.

— Não sei por que esse seu interesse naquele homem, Bia. Já parou para pensar que ele tem idade para ser o seu pai? — diz com deboche.

— Mas não é, e não tenho qualquer preconceito com idade — respondo e finjo que seu tom não me incomodou. Pedro anda estranho ultimamente.

— Ah, Pedrinho, deixa de ser careta. Além disso, o Cadu é um gostoso — comenta minha amiga.

— Está vendo? Gracy também concorda comigo. — Sorrio.

Pedro toma um gole do suco, balança a cabeça de um lado a outro e volta-se para mim.

— E quando você acha que um homem como ele, que pode ter a mulher que quiser aos seus pés, vai olhar para você, Bia?

Quando ouço suas palavras amargas, sinto meu coração dar um salto com uma mistura torturante de confusão e mágoa. Definitivamente, este não é o mesmo Pedro que conheço desde criança. Ou então ele está num dia muito ruim. O que será que aconteceu?

— Pedro, não estou entendendo… Por acaso acha que não sou boa o suficiente?

— Gente, o clima está ficando estranho aqui. Será que podemos mudar de assunto? — interrompe Gracy. — Acho melhor irmos para a areia. Preciso tomar um banho de sol.

— Vocês que mandam. — Pedro dá de ombros, levanta-se e retira a camisa azul, ficando apenas com a bermuda estampada com as cores do oceano. Ele é bonito. Tem um sorriso lindo e um físico bem definido. Faz muito sucesso com as meninas, pena que anda irritadiço ultimamente.

Também me levanto, pego as minhas coisas e seguimos os três na direção da areia. Após Gracy retirar a saída de praia e se acomodar em uma toalha ao lado de Pedro, também retiro a minha e fico apenas com um biquíni azul-turquesa que combina perfeitamente com o tom claro e levemente bronzeado da minha pele.

Passo um pouco de protetor solar no corpo, deixo os dois e começo a andar pela praia. A textura da areia debaixo dos meus pés é como massagem relaxante. Logo mais à frente, encontro um vendedor ambulante vendendo chips para celular. Um puta golpe de sorte, já que não precisarei me deslocar para fazer o que preciso.

Após pagar o moço, volto para o quiosque e me sento à sombra. Sem esperar mais, coloco as ideias de Gracy em ação. Troco o número do WhatsApp e mando uma mensagem para a minha amiga.

 

O que mando para ele? Me dê uma dica. Ass: Bia

Passam-se alguns segundos e, de onde estou, eu a vejo enfiar a mão dentro da bolsa, pegando o aparelho.

 

Vem curtir o sol, esquece esse homem só um minuto.

 

Por favor, Gracy. Quebra esse galho para mim.

 

Sorrio quando imagino Gracy torcendo o nariz, inconformada. Após alguns minutos, ela responde:

Diga que o conheceu em alguma conferência e que ficou contente

em saber que logo poderão se ver de novo. Inventa alguma coisa, você

deve saber os lugares que ele frequenta. E só mais uma coisa: coloque

uma foto decente no perfil, de modo que não pareça que você está se

mantendo no anonimato, mas também cuide para que ele não

reconheça você. Boa sorte ;)

Começo a vasculhar na minha galeria, alguma imagem que eu ainda não tenha postado em nenhuma rede social e em que meu rosto não fique muito visível. Estou quase desistindo, quando me recordo de algumas fotos que Pedro tirou de mim no apartamento dos pais de uma de nossas colegas da faculdade.

Era noite e eu usava um vestido preto de renda, aberto na lateral, enquanto olhava o movimento da rua pela varanda. Havia terminado os parabéns para a aniversariante e, no momento em que começou a festa, segui para a varanda na intenção de tomar ar fresco. Pedro me acompanhou.

Com pressa, entro no meu e-mail e procuro pelo contato dele. Como imaginei, lá estão as imagens que ele havia me enviado e eu esqueci de salvar. Escolho uma mais sóbria, mas ainda assim sexy. Nela, parte do meu corpo aparece de lado no perfil e o meu rosto fica pouco definido, iluminado apenas pela luz dos faróis dos carros na avenida abaixo. Aplico um filtro azulado para camuflar a cor do meu cabelo que cai como ondas em minhas costas e coloco a imagem no perfil do aplicativo.

Depois de tudo pronto, respiro fundo e decido mandar a bendita mensagem para ele.

 

Bom dia, Carlos, como vai? Nos conhecemos há alguns meses, mas

acho que você não se recorda de mim, foi um breve momento. No

entanto, fico contente em saber que em alguns dias poderei revê-lo no

evento ambiental que será patrocinado pela Ferraz Engenharia. Será

interessante. ;) Um beijo. Ass: B

 

Meu coração bate desesperadamente em meu peito quando termino de escrever e clico em enviar. Guardo o celular, trêmula, e retorno para a areia.

 

O dia passa com toda a sua pressa, jogando na minha cara o quanto um segundo pode significar tudo ou nada. Cada minuto de espera me tortura, mas ainda não há nenhum sinal dele. A parte boa é que ele ainda não visualizou a mensagem, então há esperança.

Após sairmos da praia, deixamos Gracy em sua casa e seguimos para a minha. Pedro se mantém em silêncio, e eu também não procuro puxar assunto, até porque estou exausta e a única coisa que quero agora é tomar um banho, jantar e dormir.

Assim que estaciona na minha rua, despeço-me e faço menção de sair do carro, mas ele segura o meu braço.

— Bia, espera.

Volto minha atenção para o seu rosto e aguardo que continue.

— Sim?

— O que vai fazer mais tarde? — pergunta com o olhar cheio de expectativas.

Engulo em seco.

— Irei descansar, Pedro. Só isso — respondo e volto a puxar o trinco da porta.

— Não gostaria de sair comigo? Podemos jantar fora — sugere.

Arregalo os olhos, surpresa. Nunca saímos somente nós dois, saímos sempre em trio.

— Pedro, desculpa, mas realmente estou cansada.

— Me dê uma chance, Bia. Posso fazer você feliz. — Seu toque em meu pulso se estreita ainda mais, quase me machucando, mas a sua revelação, confusa e incoerente me causa choque.

— O que está dizendo? Somos amigos, Pedro — questiono, assustada, e puxo o meu braço. Mas ele segura com ainda mais força.

— Estou dizendo que gosto de você, não como amigo. Desejo você, Bia. Como um homem deseja uma mulher.

— Você não está… raciocinando direito — gaguejo ao ver que ele me encara com firmeza e inspeciona algumas partes específicas do meu corpo. Fico constrangida.

— Me dê uma chance. Esquece aquele cara.

— Pedro, me solta. Você está me machucando. Me solta!

Vejo-o soltar um suspiro pesaroso. Em seguida, afrouxa o aperto no meu braço. Respiro aliviada, mas ainda assim confusa com as revelações dele. No entanto, estou tão cansada que prefiro acreditar que ele esteja delirando, assim evito a fadiga de discutir sobre o assunto.

— Perdão. Não quis te machucar — diz e se afasta.

— Melhor você ir descansar também. Raciocinará direito amanhã. — Levo a minha mão à porta, abro-a e saio depressa, sem esperar que ele responda.

Entro em casa, subo para o meu quarto e sigo direto para o banho. Quando termino, desço para jantar com meus pais. Aproveitamos para conversar sobre o dia.

Mais tarde, após virar de um lado para o outro na cama, estou prestes a me levantar e ir até a cozinha comer algo quando ouço o toque de mensagem do meu celular, que está do meu lado na cama. Viro-me e pego o aparelho para conferir de quem se trata.

É uma mensagem de Pedro, pedindo desculpas pela forma que falou comigo. Penso em responder, mas decido deixar para o dia seguinte. No entanto, sinto meu coração falhar algumas batidas quando vejo outra mensagem chegar. Olho o nome dele na tela, quase sem acreditar que ele tenha mesmo respondido. Tenho a sensação de ter milhares de borboletas no estômago quando vejo o nome Carlos Eduardo.

CARLOS EDUARDO

Quando o avião aterrissa em solo carioca, já é quase meia-noite. A cidade está movimentada por ser sábado, e a noite está escaldante, clima típico dos meses de verão, o que me agrada. É a época mais bela e prazerosa do ano, onde posso me esbaldar nos corpos femininos bronzeados. Meu motorista me aguarda pacientemente no desembarque. Também pudera, não tem do que reclamar com o salário gordo que pago a ele.

Pego minha mala e sigo na sua direção. Estou satisfeito por estar de volta ao Brasil, contudo, a longa viagem me deixou quebrado. Preciso urgentemente comer algo e tomar o belo de um banho.

— Boa noite, senhor. Bem-vindo de volta — cumprimenta e pega a minha mala.

— Boa noite, Antônio — respondo e o sigo até o Cadillac chumbo, estacionado próximo à saída do aeroporto.

Enfio as mãos por dentro do tecido do meu terno preto e ajeito a peça no meu corpo. Entro no banco traseiro do carro e, após me acomodar, ergo a manga do terno para verificar as horas no relógio de pulso pela milésima vez.

— Direto para o seu apartamento, senhor Ferraz? — pergunta Antônio, olhando-me pelo retrovisor.

— Sim, por favor — confirmo.

O homem, já de meia-idade e olhos cansados, assente e segue viagem, permanecendo em silêncio. Desvio minha atenção das ruas do Rio e pego meu celular.

Há mais alguns recados da secretária e de Felipe. Leio por alto e respondo algumas coisas rapidamente. Continuo passando as mensagens, vendo se há mais alguma relevante, e é quando algo me chama atenção. Há uma mensagem de um número que não está em meus contatos, mas não é o mesmo que me enviou besteiras anônimas durante a semana.

Leio o texto onde a pessoa diz que me conhece e que estará presente em um dos eventos da Ferraz Engenharia nas próximas semanas.

Olho a foto do perfil e o que vejo me agrada. Agrada-me muito, na verdade. É uma foto sexy, não muito reveladora, mas me dá a ideia de ser uma mulher deliciosa. Seu corpo é pequeno e franzino, mas ainda assim, atraente. Ela possui a cintura fina e um traseiro empinadinho, posso ver perfeitamente pela forma justa e sensual com que o vestido longo a emoldura.

Passo meus olhos pelos cabelos escuros e longos. Involuntariamente, sorrio quando me imagino segurando as madeixas com força, enquanto ela rebola essa bunda no meu pau, de quatro.

Para conferir sua afirmação de que já nos encontramos, analiso o seu rosto. Realmente, tenho a nítida impressão de que a conheço, mas não me recordo de onde, nem quando a vi. Mas isso não tem importância agora.

Em outra ocasião, eu ignoraria, como sempre faço. Mas como agora estou dentro do carro, sem mais nada importante para fazer, decido respondê-la e fazê-la se sentir importante em algum momento da vida.

 

Oi, linda. Que bela surpresa. Como se chama?

 

Aguardo alguns minutos, mas a resposta não vem. Guardo o celular no bolso do terno e, assim que o motorista estaciona o veículo no estacionamento do meu prédio no Leblon, desço. Pego a mala e sigo para o elevador a passos rápidos; entro e aciono o botão que dá acesso à minha cobertura. Minha digital libera o movimento do elevador, que inicia sua subida.

Quando as portas se abrem, respiro aliviado e entro no meu apartamento. Levo a mala para a suíte que ocupo e a deposito no piso de tábua corrida. Em seguida, começo a tirar as minhas roupas.

Uma por uma, vejo as peças caírem no chão. Quando fico completamente pelado, pego as roupas e as levo até o cesto para depois entrar debaixo do chuveiro. Tomo um banho rápido, enrolo-me num roupão branco e desço as escadas. Caminho na direção da cozinha e vou direto à geladeira.

Pego um dos pratos que Sônia preparou e deixou no congelador, retiro o plástico protetor e coloco o recipiente no micro-ondas. Sônia é como se fosse minha segunda mãe, trabalha para a minha família há anos e é a responsável por cuidar do meu apartamento e das coisas pessoais.

Depois de me alimentar, vou até a adega e passo meus dedos pelos rótulos das várias garrafas de vinho e uísque que comprei em leilões ao redor do mundo. Alguns me custaram uma verdadeira fortuna.

Penso em optar pelo uísque, mas, quando olho para o balcão ao lado da adega, vejo uma garrafa de Bourgogne 1974 dentro do balde com gelo. Balanço a cabeça e sorrio. Sônia realmente me conhece.

Pego o balde, meu celular e subo as escadas. Caminho direto para o terraço. Sento-me em uma das espreguiçadeiras e me sirvo de uma taça da bebida encorpada.

A luz da lua se reflete na água da piscina e traz um ar de calmaria ao ambiente. Deixa tudo mais harmonizado. Tomo um gole da bebida e degusto o sabor levemente ácido que me faz relaxar. Desato o nó do roupão e permito que as bandas da peça caiam de cada lado do meu corpo, deixando os músculos do peito e o meu pau em evidência. O ar refrescante faz com que eu me distraía e feche os olhos. Suspiro, satisfeito com todo o luxo e poder que possuo sob o meu controle. Uma vida de rei.

De repente, ouço o toque de mensagens do meu celular. Pego o aparelho e confiro as horas; já passa de uma da manhã. Abro o aplicativo de mensagens, passo a mão na minha barba que começa a despontar e leio a resposta da mulher.

 

Me chamo Bianca. ;)

 

Então você me conhece, Bianca?

Interessante.

Gostaria de revê-la em uma ocasião mais discreta.

 

Envio a mensagem e aguardo a moça misteriosa me responder. Pouco me importo se fui tão direto, elas nunca dizem não.

 

Creio que terá uma bela surpresa quando me vir.

 

Gargalho e tomo outro gole da minha bebida. Tadinha, ela nem imagina que nada mais neste mundo me surpreende.

 

Qual a sua idade, lindinha?

 

22, e a sua?

 

Um bebê. Tenho 38, criança. ;)

Coloco a taça vazia no suporte ao lado do balde e passo a mão no meu pau, que está levemente ereto, atiçado por este joguinho barato e misterioso. Volto a olhar o celular.

Gosto de homens experientes :)

Sorrio novamente, envolvido com a ousadia dela. Não me lembro de ter ficado com nenhuma mulher tão jovem nos últimos anos. Sempre preferi as mais experientes e decididas, mas talvez eu possa abrir uma exceção se ela for uma boa menina.

Aciono a câmera do meu celular, coloco a mão cobrindo o meu pau e tiro uma selfie, de modo que fique em evidência que estou pelado, revelando apenas uma parte do rosto, do nariz para baixo. Não sou irresponsável de enviar nudes para uma desconhecida… Nem mesmo para uma conhecida. Tenho visto as diversas consequências disto entre pessoas ricas, famosas e poderosas.

Envio a imagem quase irreconhecível e provoco com uma mensagem:

Gosta disso, Bianca? Você dá conta?

 

Aguardo uma resposta, mas nada vem, e acabo deixando para lá. Retorno para o quarto e me deito. Logo, pego no sono.

No dia seguinte, gemo baixinho assim que acordo, sentindo meu pau duro roçando no colchão. Estou com a bela de uma ereção matinal, louco de vontade de meter em uma boceta.

A luz dos raios solares invade o quarto, deixando claro que já está bem tarde. Levanto-me e caminho na direção do banheiro, esvazio a bexiga e lavo o rosto para despertar do sono. Retorno ao quarto e volto a me deitar. Pego o celular que deixei em cima do criado-mudo, deslizo a tela e olho as mensagens. Relembro a curta conversa que tive com a mulher ontem à noite. O fato dela não ter me respondido me deixa ainda mais eriçado. O mistério instiga os meus sentidos.

Quando vejo que tem uma resposta dela, abro a mensagem e sinto o meu pau pulsar, cheio de tesão.

 

Creio que sim. Eu dou conta. E você?

 

Junto com a mensagem, há uma foto dela de frente para o espelho. A mulher está de joelhos na cama, usando apenas um shortinho e uma blusa decotada colada ao corpo pequeno e delicado. A foto revela apenas as formas do corpo, sem mostrar o rosto.

Puta que pariu. Que delícia!

CARLOS EDUARDO

Que corpo lindo, Bianca. Me deixou excitado, criança.

 

Respondo à mulher e volto a largar o celular. Espreguiço-me na cama, ainda com o corpo quebrado devido à viagem, mas me forço a levantar e tomar um banho. Hoje é dia de visitar os meus pais e talvez eu fique para o almoço.

Após o banho, visto-me informalmente com um jeans amarronzado e camisa social azul-escuro. Faço uma pequena inspeção pelo cômodo, pego as minhas chaves e sigo para o elevador.

Desço até o térreo, onde fica a garagem do meu edifício. Caminho por entre os carros até chegar próximo ao Lamborghini Aventador prateado que comprei recentemente. Embora eu ainda esteja quebrado e deseje apenas ficar de molho em casa, penso em dirigir o esportivo, sentir o vento chicoteando o meu rosto enquanto piso no acelerador. Contudo, decido optar pela discrição, já que passarei o dia com os meus pais.

Caminho até o Mercedes McLaren branco e, após entrar e dar a partida, sigo para o meu destino.

A distância do Leblon para Ipanema é curta. Em quinze minutos, já estou entrando no condomínio onde meus pais moram. É também o bairro que Felipe, meu advogado e amigo, mora. Aproveitarei para pegar alguns papéis na casa dele mais tarde.

Estaciono o carro na rua, em frente à mansão, e desço. Antes de me aproximar do portão, vejo minha mãe, que vem ao meu encontro, sorridente. A mulher elegante, de cabelos loiros, presos em um penteado bem-arrumado, se aproxima e me abraça com força.

— Finalmente veio visitar sua mãe, Cadu. Eu já estava depressiva com seu abandono — a mulher dramatiza e me encara, passando a mão por todos os compartimentos do meu rosto. — Meu coração é fraco, filho.

Gargalho e acaricio seu rosto.

— Não seja dramática, dona Rebeca Ferraz. Eu estive longe por apenas uma semana. — Estendo meu braço para que ela o segure. — Vamos entrar ou iremos passar o restante do dia aqui fora?

— Menino levado. — Ela segura no meu braço, e seguimos na direção da porta de entrada. — Espero que tenha me arranjado uma nora nesse tempo que passou fora. Quero netos, Eduardo.

Balanço a cabeça sorridente, acompanhando-a. Minha mãe é realmente o drama em pessoa, mas é uma mulher admirável. Mesmo depois da doença do meu pai, ela não se deixou abater e mantém um sorriso no rosto, sempre.

— Sinto em dizer que isso não será possível.

— Por que não? — questiona, assim que passamos pela porta principal da mansão. Minha mãe para de andar, vira-se na minha direção e me encara. — Você já tem quase quarenta anos. Precisa se casar, ter filhos. — Abre os braços e começa a apontar para todos os lados. — Não permita que tudo isso morra com você simplesmente porque uma mulher qualquer te destruiu no passado.

— Mãe, por favor. — Volto a segurar o seu braço e a guio na direção da cozinha. — Esquece essa história e vamos procurar algo para saciar a minha fome. Estou faminto.

Ouço seu suspiro frustrado, mas finjo que isso não me abala. Na verdade, não me abala. Minha decisão está tomada quando se trata de mulheres. Se algum dia eu optar em ter um filho, ele com certeza não será gerado pela minha esposa, e sim por uma barriga de aluguel. Casamento não entra nos meus planos.

— Como está o meu pai? — pergunto, mudando de assunto, e pego uma maçã vermelha na fruteira. Sento-me próximo ao balcão.

— Como sempre. — Ela se senta do meu lado e responde, sem muita emoção na voz. — Ranzinza, abatido. Já não quer mais sair da cama.

Sorvo uma lufada de ar para os meus pulmões, enquanto a ouço. Apesar de nunca ter me dado muito bem com meu pai, saber que o homem que ergueu um império e me criou deteriora-se cada dia mais, deixa-me entristecido.

O remorso me atinge quando me recordo dos anos anteriores, quando me neguei a seguir seus passos dentro da Ferraz Engenharia. Naquela época, eu simplesmente fui embora sem olhar para trás. Passamos anos sem nos falar e só voltei a vê-lo quando recebi a notícia de que ele estava dentro de uma sala de cirurgia, após a ocorrência de um AVC hemorrágico.

Mordo a maçã, escorado no balcão da cozinha. Minha mãe não para de falar um só momento. Termino de me alimentar e conversamos por mais alguns minutos, em seguida, ela volta sua atenção para a cozinheira e passa-lhe algumas instruções sobre o almoço.

Deixo as duas envolvidas na discussão do prato do dia e caminho na direção do quarto do meu pai. Enquanto ando, ouço o toque do meu celular. Olho o visor e atendo.

— Oi, Felipe.

— Oi, cara, como vai?

— Um pouco quebrado da viagem, mas estou bem — respondo e me encosto na parede.

— Imagino. Apesar disso, você não quer vir almoçar aqui em casa? Convidei alguns amigos e suas esposas, e agora a mulherada está aprontando um verdadeiro banquete.

— Com direito a lasanha? — pergunto, sorrindo.

Felipe gargalha e volta a falar.

— Sim. Com direito a lasanha.

— Estou aqui nos meus pais. Passo aí mais tarde, guarde um pedaço para mim.

Dentro dos negócios, sou conhecido como um carrasco. Todos me conhecem e me respeitam. Mas de folga, na companhia dos meus amigos, sou comprado facilmente por um pedaço de lasanha.

Felipe continua falando, mas é interrompido. De imediato, reconheço a voz da sua filha, Beatriz. É uma linda menina, na faixa dos dezoito ou dezenove anos. É o xodó do meu amigo, o cara morre de ciúmes da garota e tenho até pena do marmanjo que ousar se aproximar da garota com segundas intenções.

BEATRIZ

Ao acordar pela manhã, a primeira coisa que faço é pegar o celular e reler a conversa que tive com ele durante a noite. Mal pude acreditar quando vi que ele havia respondido. Fiquei tão eufórica que liguei para Gracy à uma da manhã para contar a novidade, e agora não vejo a hora de levarmos essa conversa para um nível mais avançado.

Suspiro, olhando a foto que ele enviou para mim. Apesar de não ter nada revelador, percebo que ele está completamente pelado. Fecho os meus olhos, sonhadora, e relembro da vez em que o flagrei masturbando-se no banheiro do quarto de visitas há alguns meses. Aqueles gemidos não saem da minha mente, embora eu não tenha conseguido ver o que tanto queria.

Ah, Cadu! Como eu amo você.

Mordisco o lábio e apenas torço para que ele não fique muito bravo quando descobrir quem é a Bianca, e que não tenho vente e dois anos, e sim dezoito. Foi só uma mentirinha de nada.

Perdida nos meus sonhos de menina, levanto-me e rodopio pelo quarto, feliz. Meu sorriso está de orelha a orelha.

Após alguns minutos, apronto-me e desço as escadas para tomar o café da manhã com a minha família. Papai, que não para de atender ligações a cada cinco minutos, informa que teremos companhia para o almoço, e eu logo me empolgo ao imaginar que talvez o Cadu venha passar o dia conosco, e não chegue somente ao anoitecer como havia dito ontem na ligação que fez para o meu pai.

Após terminarmos, ajudo mamãe a retirar a mesa e vou para o meu quarto revisar alguns assuntos da faculdade, antes que Gracy e Pedro cheguem.

Passo os dedos pelas folhas do caderno, mas meus pensamentos me traem, sempre relembrando nossa conversa. Estou distraída quando meu celular apita. Pego o aparelho e olho o visor. É uma resposta dele, falando que ficou excitado com a foto que enviei. Minhas bochechas enrubescem.

Quem diria que o importante empresário Carlos Eduardo Ferraz é um safado.

Penso em responder de imediato, mas me contenho. Gracy havia me dito para não deixar tão óbvio que estou a fim dele. Segundo minha amiga, essas coisas assustam os homens, que eles gostam mais de serem desafiados.

Na minha mente, isso não passa de besteira, mas se ela, que é experiente, diz que não, quem sou eu para contestar?

Quando meus amigos chegam, deixo os estudos de lado e os acompanho até a piscina. Gracy está animada, como sempre, mas Pedro está calado, cabisbaixo, nem mesmo olha no meu rosto. Só agora me recordo que não respondi ao seu pedido de desculpas ontem à noite.

— Está tudo bem? — pergunto e me sento em uma das espreguiçadeiras.

Gracy, que está distraída passando protetor solar no corpo, nem se dá conta da nossa conversa.

— Bia, sobre ontem. Eu…

— Pedro… — interrompo-o. — Esquece isso, por favor.

Ele se senta do meu lado e volta a falar: — Não quero que fique chateada comigo. Não quis magoar você. — Ele me encara com o semblante triste, e o meu peito se aperta.

— Não estou magoada. Você só me assustou. Mas vamos esquecer isso, tá bem?

Ele sorri e estende o dedo mindinho.

— Sempre amigos?

Cruzo o seu dedo com o meu e também sorrio.

— Sempre amigos.

Gracy, que no momento é a única usando trajes de banho, senta-se do nosso lado, relaxada, e entra na conversa que acabamos de engatar. No fim das contas, combinamos de jogar algumas partidas de voleibol no fim da tarde.

Logo, a casa está lotada com os amigos que papai convidou para o almoço. Deixo Gracy e Pedro na piscina e vou à procura do meu pai para que ele possa instalar a rede de voleibol, próximo à área da piscina. As mulheres estão na cozinha, ajudando minha mãe a preparar o almoço, e os homens na sala, conversando alegremente sobre futebol.

Encontro meu pai perto da janela, falando no telefone. Eu me aproximo e o interrompo por poucos segundos. Assim que ele confirma que irá instalar a rede, retiro-me e volto para onde os meus amigos estão.

O dia passa rapidamente entre risadas e muitas conversas. A maior parte das visitas já foi embora, e o vestido soltinho que eu usava foi substituído por um short térmico preto, colado ao corpo. Na parte de cima, coloquei apenas um biquíni azul-marinho.

O voleibol começa de forma improvisada. Como não há o número necessário de jogadores, colocamos quatro pessoas de cada lado. Eu, Gracy, Pedro e minha mãe de um lado e dois casais, amigos dos meus pais, do outro. Papai ficou responsável pela arbitragem.

Estamos jogando há quase meia hora. O jogo está difícil, trincado, mas me recuso a perder.

Observo papai sair e seguir na direção do portão, mas não lhe dou atenção. Em posição de saque, seguro a bola e saco, visando marcar um ponto, mas para o meu azar, a bola bate na barreira e volta. Desdobro-me em duas para evitar que a equipe adversária consiga pontuar, contudo, ao tentar impedir que a bola caia na minha quadra, falho vergonhosamente.

Irritada, viro-me depressa e corro o mais rápido que posso para pegar a bola e voltar a atacar. Contudo, com o movimento rápido, não percebo a presença de um homem que caminha distraidamente próximo ao local onde estou, e o nosso choque é inevitável. Caímos os dois com tudo no chão.

Por sorte, caio por cima dele e não me machuco, mas sinto meu coração falhar uma batida quando vejo que o tal homem é o Cadu. Pela sua expressão, ele não teve tanta sorte quanto eu.

— Porra! — ele xinga e praticamente me empurra, fazendo com que eu saia de cima do seu colo. Vejo o homem colocar a mão em cima do pênis e se contorcer, sem ar. — Minhas bolas.

— Cadu? — Desesperada, nem ao menos percebo a hora que retiro suas mãos do local machucado e começo a massageá-lo. — Gente, ajuda aqui, ele está machucado — grito.

Massageio seus testículos de leve, nervosa e suando frio. A culpa está me consumindo. Ele tenta conter meus movimentos, segurando os meus pulsos. É neste momento que ouço sua voz sofrida e falha: — Bia… Você está segurando o meu pau. — O ar parece faltar em meus pulmões.

CARLOS EDUARDO

Após passar o dia com meus pais, despeço-me e sigo para a casa de Felipe. Assim que chego, sou atendido por ele no portão. O homem me cumprimenta e me dá espaço para entrar, logo depois, segue na direção da área da piscina, onde vejo algumas pessoas jogando voleibol.

Sigo-o devagar, inspecionando as mulheres que correm e pulam loucamente atrás da bola para evitar que o grupo adversário marque pontos. Aproximo-me da quadra e paro quando ouço o toque do meu celular. Olho o visor e atendo ao ver que é uma das minhas “amigas” de cama.

— Oi, querida.

— Oi, mi amor. Que saudades eu estava de você.

Repuxo os lábios em um sorriso sarcástico quando ouço a revelação nada verdadeira.

— Não seja falsa, Raquel. Nós dois sabemos do que você está com saudades, e não é de mim — brinco, mas com um fundo de verdade. Refiro-me a ela estar com saudades do meu pau e da minha conta bancária. É disso que elas gostam, de rola e dinheiro.

— Tem razão, mi amor, estou com saudades do seu pau — diz com a voz manhosa.

— Sinceridade é tudo — debocho.

Raquel gargalha do outro lado da linha e eu continuo andando distraidamente, enquanto a ouço. A voz sedutora, porém dengosa, traz até mim uma mistura de indiferença e tédio. De todo modo, Raquel ganhou alguns pontos comigo por não ser uma mulher pegajosa. Ela sabe que quero apenas transar e nada mais, e aceitou as minhas condições sem maiores questionamentos. É por esse motivo que ela é uma das únicas com quem repito a dose quando estou sem saco para ir à caça.

— Tem um tempinho para mim, hoje à noite? — pergunta com voz suave.

Repuxo os lábios em um sorrio cínico e abro a boca para respondê-la, contudo, sou surpreendido por algo que faz todo o ar sair dos meus pulmões. Como um carro desgovernado, sou atropelado por alguém que corre na minha direção e se choca com tudo contra o meu corpo. Como estava distraído, e devido à pancada brusca, caímos os dois no chão. Meu celular voa para longe.

— Porra! — O pior é que a pessoa cai no meu colo com tudo. Sinto a pressão do peso dela nas minhas bolas e suo frio. Tudo acontece tão depressa que só consigo identificar que é uma mulher e a tiro de cima de mim o mais rápido que posso. Contorço-me no chão por causa da dor e cubro os meus testículos com as mãos, antes que a louca resolva terminar o serviço e acabar de esmagar os meus futuros filhos. — Minhas bolas.

A dor é latente, mas, por sorte, a pancada não pegou em cheio. Do contrário, eu sairia daqui direto para um hospital.

— Cadu? — Ouço a voz assustada da mulher e, ainda grogue, abro os olhos para identificá-la.

Vejo uma Beatriz assustada e nervosa, que nem ao menos percebe quando retira minhas mãos de cima do meu pau e começa a massagear-me em todos os lugares, desajeitadamente.

É uma situação no mínimo estranha. Puta merda.

Ela começa a gritar, nervosa, pedindo socorro e, inocentemente, agarra o meu pau. O mais estranho é que a dor brutal que eu sentia começa a dar espaço a outras sensações mais peculiares. Engulo em seco.

Seguro os seus pulsos para impedi-la de continuar tocando-me dessa forma extravagante, mas quando ela se volta para mim, com aqueles olhos tão intensos quanto um quartzo verde polido, sinto o traidor do meu pau enrijecendo, contrariando todas as vontades da minha mente.

— Bia… Você está segurando o meu pau — digo com a voz falha, ainda sem conseguir definir se é de dor ou de tesão.

Ela estremece, arregalando os olhos, e afasta-se, petrificada.

Desço meu olhar rapidamente pelo seu busto e franzo o cenho quando me dou conta que essa região me parece familiar. Bia percebe o meu olhar confuso, analisando-a, e levanta-se rapidamente.

Neste instante, todos que estavam na quadra chegam até mim, fazendo um enorme alvoroço, tentando entender o que aconteceu. Volto a colocar a mão em cima da minha virilha para disfarçar o volume que começou a se formar e explico o ocorrido.

Inesperadamente, Bia desaparece da vista de todos, deixando-me surpreso e ainda mais confuso com o comportamento assustado dela quando a analisei. Apesar de ser uma menina linda e atraente, é filha de Felipe, pessoa que respeito e trato como irmão. Automaticamente, entrou para a lista de mulheres que jamais levarei para a cama. Sem contar o fato de que tenho o dobro da sua idade. Contudo, a sensação que senti quando ela me tocou deixou-me intrigado.

BEATRIZ

Quando vejo que Cadu analisa o meu busto e franze o cenho, pareço acordar do choque que me atingiu quando ele alertou que eu estava segurando o seu pênis. Levanto-me depressa e saio da vista de todos. Entro em casa e vou direto para o meu quarto. Tranco a porta e recosto-me na madeira, sem ar, aflita.

Será que ele reconheceu algo em mim, da foto que mandei? Seria possível?

Trêmula, caminho até a cama e me deito.

Aquele olhar intenso, tão azul como o oceano, tão marcante como safiras. Senti-lo tão próximo a mim, foi como ir ao céu e ao inferno ao mesmo tempo, porque, por mais que eu desejasse tanto tocá-lo, a situação constrangedora em que me meti não ajudou em nada. Na verdade, temo que ele queira se manter a mil quilômetros de distância de mim depois daquele ocorrido.

Suspiro fundo, derrotada, e penso em tomar um banho, mas ouço uma batida na porta e a voz preocupada de Gracy.

— Bia, está tudo bem? — Caminho na direção da porta e a abro.

— Oi, Gracy. — Deixo meus ombros caírem e dou um passo para o lado, para que ela entre. — Acho que eu acabei com o um porcento de chance que tinha de conquistá-lo — desabafo, sem ânimo, e sigo com ela até a cama.

Gracy senta-se e me analisa por poucos segundos, como se ponderasse o que diria a seguir.

— Realmente, acho que ele não vai querer correr o risco de receber outra pancada nos ovos tão cedo. — Minha amiga tenta manter-se séria, mas logo se desmancha em gargalhadas. — Bia, você é inacreditável. Mas talvez possa funcionar se, ao invés de ficar estática, você o ameaçar. Exija que ele te beije, se não irá receber um chute nas partes baixas também.

Reviro os olhos e jogo-me na cama, desiludida. Gracy gargalha por mais alguns minutos, fazendo algumas piadas bobas, e assim o tempo passa com toda a sua lentidão e angústia.

Logo Pedro aparece para se despedir e, pela graça de Deus, carrega Gracy consigo.

Tomo um banho rápido, coloco um vestido simples de cor vinho e tecido leve, amarro meus cabelos em um rabo de cavalo alto e retorno para a sala. Passo pelo cômodo vazio e sento-me no sofá preto. Aproveito e pego o livro 1984, de George Orwell, que eu havia deixado em cima da mesinha. Abro-o e continuo a leitura de onde havia parado.

Leio algumas páginas distraidamente, mas, quando ergo o meu rosto e olho na direção da porta do escritório de papai, quase tenho um ataque do coração. Cadu está escorado na porta, encarando-me com seriedade. Seu olhar reflete curiosidade e divide a atenção entre o meu rosto e o livro que seguro.

Ele se aproxima, e eu engulo em seco, vendo o homem tão viril e confiante andar na minha direção. Nem parece a mesma pessoa que se contorcia de dor há pouco.

— Não sabia que gosta de ler George Orwell — diz ele, fitando a capa do livro que deixei em meu colo.

— Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado — respondo, usando uma das frases de Tolkien. A resposta meio que sai no automático. — Eu… gosto de passar o meu tempo lendo… — completo em um murmúrio.

Cadu arqueia uma sobrancelha e encara meu rosto. Parece incrédulo. Seus olhos fitam os meus e, por um segundo, tenho a impressão de que ele analisa a minha boca.

Umedeço os lábios, nervosa.

— Pensei que garotas da sua idade gostassem de coisas fúteis, e não de ler livros que abordam assuntos tão complexos.

Sinto uma pontada de irritação quando ouço o tom sarcástico da sua fala, mas ignoro. O fato de estar conversando com ele tão de perto e, pela primeira vez, a sós, deixa-me de pernas bambas, e o meu cérebro parece não raciocinar direito.

— Acontece que não sou como todas as garotas — respondo, desafiando-o, mas arrependo-me instantaneamente. A verdade é que não sei o que dizer ou como agir perto dele.

Levanto-me quando percebo que papai se aproxima, já de banho tomado, com uma pasta na mão. Cadu permanece em silêncio, mas sinto meu coração acelerar quando ele me encara com uma expressão indecifrável no rosto. Parece pensativo, não sei ao certo. Também não consigo definir se é boa ou ruim a forma com que seu olhar me queima com tanta intensidade.

BEATRIZ

De frente para o espelho, observo o vestido nude que se emoldura tão perfeitamente à minha cintura. A gola em v é discreta e valoriza as formas dos meus pequenos seios, ao mesmo tempo que o restante da roupa se cola ao meu corpo, tapando até a metade das coxas. Digamos que estou vestida à altura de um jantar elegante, porém, estou nervosa.

Só de pensar que em alguns minutos estarei em uma mesa, ao lado do senhor e senhora Ferraz, de frente para ele, sinto meus nervos gélidos e sinto-me paralisada. Desde aquele ocorrido na área da piscina, há uma semana, não tive coragem de enviar-lhe outra mensagem fingindo ser a tal Bianca. Também não o vi mais depois de nossa curta conversa na sala.

Solto os meus cabelos, que caem em ondas castanhas, alinhadas e sutis em minhas costas. Passo o batom vermelho como sangue em meus lábios e finalizo com um perfume suave. Fecho os olhos à procura de calma e assim permaneço até ouvir uma batida na porta.

— Filha, está pronta? — pergunta minha mãe.

— Sim, mamãe. Estou pronta — murmuro.

Continuo parada, ansiosa e sem forças para me mover. Penso em dizer que não irei, mas, ao mesmo tempo, meu subconsciente diz para que eu vá e, na primeira oportunidade, me declare para ele. Perco-me em meus pensamentos e até me esqueço que mamãe me aguarda do lado de fora, só volto a me recordar quando ela abre a porta e entra.

— Querida, o que foi? — pergunta ao ver que estou cabisbaixa. Nem consigo disfarçar.

Levanto a minha cabeça e a encaro. Mamãe ainda é jovem; as faces são coradas e a pele firme como se ainda possuísse vinte anos, e não mais que quarenta.

— Mamãe … A senhora já amou outro homem que não foi o papai? — pergunto, tentando sanar um pouco da minha curiosidade e entrar em um assunto delicado. Sinto que devo falar com alguém experiente.

Minha mãe ergue uma sobrancelha e caminha na minha direção. Cruza as mãos em frente ao vestido azul-marinho que usa.

— Por que essa pergunta agora, querida? — questiona.

— É que… preciso entender algumas coisas… Algo que estou sentindo.

Com o olhar confuso, mamãe assente, segura na minha mão e guia-me até a cama para nos sentarmos.

— Já tive algumas paixonites antes do seu pai, sim. Mas amar, amar mesmo, a gente só ama uma vez, e eu senti isso no dia em que o vi pela primeira vez. — Ela parece se perder no tempo, pois sua expressão suaviza-se e seus olhos amarelados se iluminam.

— E todas as vezes que o via, a senhora se sentia como se estivesse perdendo o chão? Como se seu corpo flutuasse e nada mais no mundo existisse a não ser ele?

Ela sorri e me fita. Seu olhar parece captar tudo o que estou sentindo. Confirmo isso no brilho do sorriso que se abre em seus lábios.

— Você está apaixonada, querida? — pergunta e toca o meu rosto, deslizando as costas da mão nas minhas bochechas.

— Acho que sim — digo e umedeço os meus lábios. — Mas ele não sabe — completo.

Curiosa, mamãe franze a testa e questiona: — Quem é ele? Algum colega da faculdade?

Um pouco aflita, levanto-me da cama e fico de costas para ela, para que eu consiga camuflar a verdade que meu olhar não conseguiria esconder.

— Não. E… a senhora também não o conhece — minto, nervosa.

Ouço seu suspiro em minhas costas e sinto o toque de suas mãos no meu ombro em seguida.

— Filha, pode confiar em mim. Eu sou sua mãe.

Viro-me e a encaro.

— Eu sei.

Ela sorri.

— E ele? Também está apaixonado por você?

— Tenho certeza que não! — afirmo.

— Tem certeza? Você é tão linda e inteligente. Qualquer homem…

— Mamãe — interrompo-a. — Ele é inalcançável para mim.

Ainda sorridente, mamãe diz: — Tente. Diga a ele. Só não consegue o que quer quem não se dá ao luxo de tentar. — Dito isso, ela vira as costas e segue na direção da porta. Antes de sair, completa: — Te espero lá embaixo. Se apresse.

Respiro fundo, pego meu celular e abro o aplicativo de mensagens. Vou direto no contato dele.

A imagem de Eduardo dentro do escritório da empresa preenche a foto do perfil. O rosto másculo e destemido, a expressão imbatível. Posso dizer que ele é o homem mais bonito e intimidante que já conheci em toda a minha vida.

Um pouco trêmula, digito uma resposta atrasada para o comentário que ele havia feito na semana anterior.

 

É um prazer saber que te deixei excitado. Precisamos dar um jeito nisso.

;)

Envio a mensagem, guardo o celular na minha bolsa de mão e desço as escadas.

 

Na sala, converso distraidamente com mamãe e a senhora Ferraz. A mulher elegante, com os cabelos loiros perfeitamente arrumados em um coque alto, usando um conjunto de saia e terninho cinza, é um poço de gentileza e requinte.

Enquanto fala sobre o estado depressivo do marido, que até este momento não compareceu à sala, ouço o toque da campainha e vejo o mordomo seguir até a porta. Logo, um grupo de pessoas se junta a nós e, contente, a senhora Ferraz nos apresenta uma por uma. Ela começa pelo homem bonito e educado que a cumprimenta com um aperto de mão e um beijo no rosto.

— Queridas, este é Andrew Thompson. Um velho amigo do meu marido que está passando alguns dias de férias aqui no Rio.

O homem nos cumprimenta com um sotaque arrastado, logo, presumo que não é brasileiro.

— Prazer, senhor Andrew — cumprimento e aperto a sua mão. Mamãe faz o mesmo.

— E estes são Alexander e Angelina. Estou certa? — diz a senhora Rebeca.

Só então volto-me para o casal que está atrás de Andrew, que dá um passo para o lado e apresenta os dois como sua filha e genro. O homem alto, cabeludo e de olhar intimidante mantém-se sério enquanto aperta a mão de todos na sala. Sua mão possessiva não larga a cintura da esposa por um só segundo.

Acabo viajando para longe ao analisar a mulher tão pequena e linda que se assemelha a um anjo, enquanto ele, ao mesmo tempo que é bonito e rústico, possui quase o dobro do tamanho dela. Pergunto-me como ela aguenta um homem desse tamanho. Se bem que Cadu não tem o porte menor que este Alexander e eu não sou muito maior que Angelina.

Sinto minhas bochechas enrubescerem quando me dou conta que estou pensando em safadezas enquanto a senhora Ferraz fala algo comigo. Nem presto atenção no que ela diz, apenas assinto e volto meu olhar para a porta ao ver que mais uma vez o mordomo a abre.

Desta vez, meu coração falha uma batida quando vejo quem entra na sala. Pareço flutuar.

O terno preto, o maxilar másculo, o olhar viril e confiante. Eduardo entra e para por alguns instantes, pondo as mãos nos bolsos da calça. Ao longe, vejo-o erguer uma sobrancelha e virar-se, olhando para fora. Parece impaciente.

Continuo petrificada, admirando-o até sentir um aperto no peito quando uma mulher morena, de corpo escultural repleto de curvas, entra na sala e cruza o braço no dele. Ao olhar para onde estamos, ela sorri e ambos caminham na nossa direção.

Não consigo disfarçar a decepção que sinto ao vê-lo acompanhado de outra mulher. Não consigo nem sequer desviar meu olhar.

Aperto com força a pequena bolsa que seguro, tentando disfarçar o nervosismo que me toma. Quando os dois se aproximam, procuro disfarçar a minha irritação e dirijo minha atenção para os lados, à procura de algo no qual eu possa focar, contudo, parece ser tarde demais. Percebo isso no olhar travesso e no sorriso debochado que a mulher me dirige.

CARLOS EDUARDO

Desço do carro e aguardo que Raquel me acompanhe. Assim que ela cruza o braço no meu, seguimos na direção da porta. Contudo, antes de chegarmos, ela para e pede que eu a espere por um instante, enquanto arruma o cabelo. Impaciente, sigo para o interior da mansão e aguardo. Não entendo que mania boba é essa que as mulheres têm de se preocuparem com coisas tão desnecessárias. O cabelo dela estava perfeitamente arrumado. Essas futilidades me deixam irritado e já começo a me arrepender de tê-la convidado para me acompanhar nesse jantar.

A mulher me alcança e volta a cruzar o braço no meu. Viramo-nos e seguimos até o grupo de pessoas que conversam na sala de visitas.

Vejo o tal Alexander agarrado à cintura da esposa, mas mantenho minha pose de bom samaritano como se nada tivesse acontecido. Andrew já havia me ligado para informar que sua filha e genro também iriam comparecer ao jantar. Quando o homem me vê, cerra o maxilar e fecha a expressão, deixando claro o quanto a minha presença o desagrada.

Abro um sorriso cínico e o ignoro. Aproveito para fazer uma rápida inspeção pela sala, enquanto caminho. Vejo minha mãe conversando alegremente com Andrew e a esposa de Felipe. Do seu lado esquerdo, está Beatriz. Eu mentiria se dissesse que não voltei o olhar para ela mais uma ou duas vezes disfarçadamente. A garota está um espetáculo de linda dentro do vestido justo. Contudo, observo que ela olha na minha direção e muda a pose; parece ter ficado desconcertada. Imagino que ainda se sinta envergonhada depois de ter agarrado o meu pau na piscina. Se Felipe souber de uma desgraça dessas, arranca minhas bolas fora, mas o toque daquelas mãozinhas em mim fez o meu pau corresponder de uma maneira descontrolada, como nenhuma outra mulher conseguiu fazer tão facilmente.

— Boa noite — cumprimento e aperto a mão de todos presentes. Exceto a de Alexander, que me deixa com a mão estendida no ar, causando um desconforto no ambiente. Imbecil.

O clima tenso é quebrado quando Raquel passa a mão pela minha barriga e resolve abrir a boca. Já começa falando merda.

— Não vai me apresentar aos seus amigos, mi amor?

Minha mãe arregala os olhos e abre um sorriso iluminado quando escuta a menção do apelido idiota dirigido a mim. Fecho os meus punhos, nervoso, e retiro as mãos de Raquel da minha cintura. Ela sabe que este apelido ridículo é estritamente proibido de ser dito em público.

Apresento-a a todos como uma amiga de longa data, o que não deixa de ser verdade, e me afasto um pouco.

Continuar: parte 2 de 9