A Menina do CEO

Jéssica Larissa · Capítulo 2 de 5 · parte 5/9

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A Menina do CEO

Capítulo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

Foco minha atenção no seu rosto e franzo a testa. Pergunto-me por que todo esse interesse dela em saber mais da Beatriz.

— Provavelmente foi isso que aconteceu. Você me confundiu com alguém — afirmo, cinicamente, para explicitar que não me renderei às suas especulações. O que ela tem pretende com isso? Somos amigos e parentes próximos, mas não darei essa abertura para ela se intrometer na minha vida pessoal.

Ela solta um sorriso espirituoso e descruza os braços.

— Você consegue mentir para todo mundo, menos para mim, Cadu. Nos conhecemos desde crianças, crescemos juntos praticamente. Ou se esqueceu disso também?

Ergo uma sobrancelha impaciente e questiono: — Onde quer chegar, Priscila? Seja clara! O que isso tem a ver com a Beatriz?

Minha prima leva a mão na boca, escondendo um riso, e eu puxo o ar para os meus pulmões. Já não me resta mais nenhuma gota de paciência.

— Eu vi você olhando disfarçadamente para ela, Cadu. Parecia encantado, e eu nem tiro a sua razão, porque ela é linda. Mas… — Com o maxilar cerrado, fecho os meus punhos e a expressão. Advirto-a de forma silenciosa para que pare. O problema é que nem mesmo a minha cara de carrasco é capaz de fazê-la fechar a boca. — Ela parece ser tão jovem. Qual a idade…

— Priscila, não me provoque — falo, ríspido. — Não é porque você é da família que permitirei que se intrometa na minha vida pessoal.

Ela continua sorrindo, mas balança a cabeça afirmativamente.

— Não se preocupe, não irei me intrometer, priminho. Até porque, pelo que percebi, Beatriz e aquele rapaz lindo, o Victor, estavam flertando, e ela parecia bem interessada. Você não se importa, não é mesmo? — pergunta e me fita, olho no olho, enquanto põe a mão na cintura.

Inferno! Só de imaginar os dois juntos, sinto meu corpo se retesar e uma vontade louca de quebrar a cara daquele desgraçado me toma. Cerro o maxilar e respondo: — Não. Eu não me importo! Beatriz não é nada para mim, além de ser a filha do meu amigo e advogado — minto descaradamente.

Nem sob tortura irei admitir o efeito devastador que aquela menina causa em meu corpo. Preciso repetir milhares de vezes para o meu subconsciente que ele está ficando louco a cada ataque de nervos que tenho ao imaginar outro homem tocando-a. Sei que ela está tentando se vingar do que pensa ter sido uma rejeição minha. Essa é mais uma razão para eu não me deixar abalar.

Mas não consigo controlar as minhas reações. Minha irritação e agonia são tantas que minha testa começa a suar.

Percebo que, de repente, Priscila fica séria e me analisa com atenção, como se só agora se desse conta de algo que passou despercebido. Seu semblante divertido dá lugar para algo mais parecido com incredulidade.

— Oh! Meu Deus… Você está se apaixonando por ela e ainda nem percebeu.

Sua afirmação é como um soco no meu estômago. Minha garganta fica seca e meu sangue gela no mesmo instante em razão do efeito das suas palavras.

Respiro fundo e balanço a cabeça de um lado a outro, sorrindo cinicamente.

— Não diga besteiras, Priscila — repreendo-a. — Você sabe muito bem que essa palavra não existe no meu vocabulário. — Tento refrear as elucubrações dela. Ela não sabe o que está dizendo … Está fazendo intrigas. Conheço essa tática feminina. Priscila está jogando verde para colher maduro. Mas estou anos luz à sua frente. Não vou cair nessa.

Passo a mão em meu cabelo, viro-lhe as costas e cumprimento algumas pessoas que passam por mim. Com um sorriso forçado na cara, caminho até o toalete mais próximo e entro. Ao me olhar no espelho, analiso o pequeno corte na minha boca, sentindo os meus nervos aflorarem descontroladamente. Merda! A que ponto cheguei?

Abro a torneira e jogo um punhado de água no rosto em uma busca de calma e equilíbrio. Contudo, sinto uma pequena ardência nos meus ombros quando inclino o corpo sobre a pia. Relembro das unhas dela afundando na minha carne enquanto eu a tocava intimamente. Beatriz e eu estávamos alucinados com a atração absurda que sentíamos naquele momento. O tesão louco que ela despertou em mim foi surreal e incontrolável, me atraiu como um ímã num campo magnético. Mas a palavra-chave é essa: tesão. Apenas tesão.

Contudo, admito que estou puto da vida com a desfaçatez dela de ir embora com outro. Mesmo que eu não a queira, não posso deixar que seja usada por um cafajestezinho de quinta categoria. Irritado, procuro o celular e disco o número dela. Aposto todas as minhas fichas que neste momento ela está em casa, aguardando uma ligação minha, e todo aquele teatro sobre um motel com Victor foi algo que as duas combinaram apenas para me provocar. Apesar de bela e deliciosa, Beatriz ainda é muito menina, ingênua e está perdidamente apaixonada por mim. Ela não iria pra cama com outro apenas por uma desforra.

Encarando o meu reflexo no espelho, espero a ligação ser completada e mantenho um sorriso vitorioso em meus lábios quando o celular dela chama. No entanto, a confiança que havia estampada nos meus olhos desaparece assim que ouço o toque de chamada rejeitada.

Olho a tela do celular com a testa franzida, incrédulo, sentindo a raiva me tomar por completo. O ciúme me invade.

— Maldita! Mil vezes maldita! Aquela fedelha não teria esse atrevimento!!

CARLOS EDUARDO

Seco o meu rosto e ainda sinto os meus nervos a todo vapor. Apesar de estar me mordendo de raiva, tenho consciência que talvez tenha sido melhor assim. Quanto mais distante ela ficar de mim, menores as chances de uma tragédia acontecer e menos ela irá se magoar. Afinal, não quero nem pensar no que o pai dela fará se ao menos imaginar que a toquei daquela forma. Eu me comportei como um animal selvagem no cio, fui guiado pelo tesão e quase fiz uma loucura irreversível. Que espécie de amigo eu sou? Inferno!

Relembro as palavras de Priscila, dizendo com convicção que estou me apaixonando por Beatriz e, mais uma vez, sorrio, sarcástico. Um sorriso amargo, repleto de lembranças dolorosas que me fazem odiar quem fui no passado. Um homem fraco e apaixonado, que se doou por completo a uma mulher e foi traído descaradamente.

Não há lugar para essas besteiras de amor em minha vida. Tudo que algum dia senti, destruí sem pena. Agora, vivo um dia após o outro, dormindo em uma cama diferente todas as noites, beijando bocas vazias sem me comprometer a nenhuma, despejando as minhas frustrações em cada mulher que abre as pernas para mim. Para falar a verdade, estou muito melhor assim, apenas eu, a minha empresa e todo o prazer que sexo sem compromisso pode me proporcionar.

Abro a porta do toalete e movo-me para retornar ao salão, enquanto afirmo para mim mesmo que devo deixar as coisas como estão. Beatriz ainda é jovem, inexperiente. Logo irá esquecer as besteiras que fizemos e seguirá em frente sem olhar para trás, sem carregar sequelas. O problema é que só de imaginar algo do tipo, sinto um aperto estranho no peito, um vazio de algo que nem ao menos percebi que existia. Sinto uma secura fora do comum em minha garganta e engulo a saliva para aliviar a sensação áspera.

Respiro fundo e apresso o passo, decidido a pôr uma pedra nessa história que nem deveria ter começado.

 

Sentado atrás da minha mesa, entro de cabeça no trabalho e mantenho o foco no início da construção do maior resort da América Latina. Apesar da Ferraz Engenharia ser uma das maiores construtoras do país com atuação internacional, uma obra desse patamar nos trará ainda mais reconhecimento.

Termino de avaliar os desenhos definitivos da estrutura, ligo para a secretária e ordeno que convoque uma reunião com todos os engenheiros que foram contratados para a obra. Estou prestes a sair da minha sala quando a porta se abre e um Felipe confiante entra.

— Tenho ótimas notícias — diz e caminha na minha direção a passos firmes. — Os trâmites e documentação da obra do resort já foram aprovados. Podemos dar início à construção imediatamente.

— Perfeito! — Assinto e estendo a mão para pegar a pasta que ele me entrega. — Acabei de acionar uma reunião com os engenheiros responsáveis e o nosso cliente. Discutiremos os últimos detalhes e em poucos dias a obra será iniciada! — comunico, enquanto analiso a documentação.

Felipe balança a cabeça em afirmativa, guarda os papéis e dá meia volta para se retirar, no entanto, lembro-me de perguntar sobre o estado de saúde do pai da sua esposa. Recordo de ele ter mencionado alguma vez em nossas conversas nos últimos dias.

— Felipe, e o seu sogro, como está?

Ele se vira na minha direção e sorri. Parece despreocupado, apesar da grande responsabilidade que carrega nas costas.

— Está bem melhor. Logo minha esposa retornará para casa.

Assinto e volto a falar, esperançoso de que ele diga algo sobre a filha também. Desde o evento há alguns dias, não tive mais notícias dela e, por uma motivo que não consigo compreender, sinto-me tentado a saber se ela está bem.

— Fico feliz que tudo esteja se ajeitando, parceiro.

Felipe balança a cabeça e pisca sorridente.

— Eu também, Eduardo. Minha esposa está fazendo uma falta tremenda, se é que você me entende. — Gargalho e balanço a cabeça. Compreendo perfeitamente o que ele quer dizer. Ficar sem sexo por tanto tempo é uma merda! — E minha filha está eufórica com o retorno da mãe — completa.

Não compreendo por que, mas quando ele faz menção a Beatriz, sinto uma sensação diferente no interior do meu peito.

— Então ela está bem… — comento em um sussurro abafado, mais para mim do que para ele.

— Sim, muito bem. E, o mais importante, cada dia mais focada nos estudos — diz e caminha na direção da porta, orgulhoso. Pego minha mala e o acompanho, um pouco mais relaxado. Saber que ela está bem, de uma certa forma, me deixa em paz.

BEATRIZ

Dias depois

 

O toque do despertador soa alto, acordando-me para mais um dia de aula na faculdade. Saio da cama e me apronto depressa para encarar mais um dia, enquanto não chega o horário de mamãe retornar para casa.

Termino de me arrumar e desço as escadas quase correndo.

Encontro papai terminando de tomar o seu café da manhã, aproximo-me e lhe dou um beijo no rosto.

— Bom dia, papai.

— Bom dia, querida, dormiu bem? — pergunta e coloca a xícara suja sobre a pia.

— Muito bem, obrigada. — Sento-me próximo ao balcão e me sirvo de uma xícara de café, pensativa. Apesar de estar seguindo em frente, às vezes, quando me recordo daquela noite, ainda sinto um enorme vazio no meu peito. Sinto-me incompleta e envergonhada.

— Está bem mesmo, Beatriz? Parece triste.

— Estou bem, sim — minto. — É que dormi tarde, estudando. Estou um pouco cansada.

Papai assente, me dá um beijo na testa e se despede.

Quando ele sai, relaxo o corpo e solto um suspiro doloroso. Embora tenha dormido tarde da noite, repassando algumas matérias, não consegui dormir direito com a lembrança dele em minha mente.

Olho meu celular e vejo mensagens de Gracy e Pedro, informando que passarão aqui em casa em alguns minutos para irmos pra faculdade. Envio uma resposta, confirmando que estou à espera, e termino o meu café. Quando eles chegam, já estou pronta, aguardando na sala.

— Bom dia — cumprimenta Gracy com seu sorriso costumeiro. Assim que abro a porta, Pedro se aproxima, dando um beijo amigável na minha testa.

— Bom dia, gente — respondo. — Vamos?

Pedro e Gracy assentem, e seguimos os três para o carro do meu amigo. Quando sinto o frescor do vento matinal bater em meu rosto, sorrio e entro no banco de trás do veículo. Embora eu esteja lutando dia após dia para esquecê-lo, sou grata pelos amigos que tenho e que estão sempre ao meu lado, dando o apoio que preciso para não me desabar em lágrimas.

— Gente, que tal sairmos hoje à noite? Podemos pegar uma baladinha mais tarde — sugere Gracy, animada.

— Por mim, tudo bem. O que acha, Bia? — Pedro me fita pelo retrovisor do carro e aguarda uma resposta.

Apesar de ele não ter mais mencionado algo sobre seus sentimentos com relação a mim, sinto um frio na barriga quando seus olhos me fitam esperançosos. É como se ele ainda tivesse esperanças de uma aproximação. Percebo isso quando ele mordisca o lábio e inspeciona o meu corpo por breves segundos.

Engulo em seco e desvio o olhar. Quero sair e me divertir mais com meus amigos, no entanto, não quero que ele veja isso como uma oportunidade de se aproximar de mim com segundas intenções. Terei que conversar seriamente com Pedro em um outro momento, deixar claro que quero apenas a sua amizade.

— Eu não sei, gente. Estamos em semana de provas e…

— Vamos, Bia, por favor! Você precisa relaxar um pouco. — Gracy segura na minha mão e me olha com carinha de gato manhoso.

Rio do seu drama e assinto.

— Tudo bem, mas nada de encher a cara, estamos entendidas?

— Yes, yes! — exclama ela, animada.

Pedro sorri e foca sua atenção no volante. Fito-o por um tempo, analisando sua expressão contente. Os cabelos pretos, na altura do pescoço, contrastam com a pele branca e balançam com a brisa que adentra pela janela, deixando-o sexy. Pedro é um rapaz bonito. Um pouco misterioso, mas bonito. No entanto, mesmo que eu tente vê-lo com outros olhos além do forte sentimento de amizade que sinto, não consigo.

Ao chegarmos na faculdade, seguimos para a sala de aula e nos mantemos entretidos entre uma matéria e outra. Contudo, a parte mais interessante do dia é quando somos direcionados para o auditório de palestras. Um grupo de biólogos e demais profissionais da área de proteção ambiental palestram sobre a importância do projeto de conservação e proteção da vida marinha, em especial as tartarugas ameaçadas de extinção no litoral.

Meu coração dá um salto de felicidade quando eles passam uma lista, pegando o nome e contato de alunos do curso de Biologia Marinha que gostariam de se voluntariar no projeto de preservação, principalmente com a aproximação da temporada de desova no litoral.

Pedro e Gracy não se interessam muito pelo assunto, mas no fim eu acabo convencendo-os a se inscreverem comigo.

No fim das aulas, decidimos passar no shopping para comprar algo legal para usarmos à noite e depois passamos um tempo no calçadão da praia de Copacabana. Almoçamos em um restaurante ali perto e aproveitamos para conversarmos e rirmos um pouco, como nos velhos tempos, e assim o dia passa em um piscar de olhos.

Mais tarde, quando já estou em casa, tomo um banho rápido, coloco um biquíni e decido correr um pouco pela praia de Ipanema. O fim de tarde traz até mim a energia que preciso para continuar seguindo em frente sem maiores arrependimentos. Eu preciso esquecê-lo, preciso viver a minha vida sem me recordar a todo momento que o amor que sinto pelo Eduardo vive como uma sombra no meu encalço.

Abro os meus braços para sentir a brisa do mar refrescando o meu corpo e corro o mais rápido que posso na direção da água. O líquido suave toca a minha pele com tanta leveza que fecho os meus olhos para apreciar a sensação. É reconfortante.

Mantenho-me tão concentrada no que faço que dou um pulo para a frente, assustada quando ouço a voz de alguém gritando o meu nome nas minhas costas.

Viro-me, surpresa ao ver a pessoa correr sorridente na minha direção. O corpo forte e desnudo da barriga para cima brilha por causa do suor, e o sorriso sensual em seus lábios faz minha garganta ficar seca.

BEATRIZ

— Oi, Bia!

— Victor? Oi… O que faz aqui? — pergunto, ainda surpresa por vê-lo. — Nunca te vi por aqui.

Ele sorri e põe a mão na cintura, deixando os músculos do seu peito e abdômen em evidência. Suspiro. Afinal, estou de coração partido, não cega.

— Me recordo que quando éramos crianças, gostávamos de correr por aqui. Nossas mães nos traziam para brincarmos na praia quase todo fim de tarde. Não se lembra? — Ele abre o sorriso ainda mais, revelando a fileira de dentes brancos e perfeitamente alinhados. — Quando te liguei e você não atendeu, pensei que pudesse estar por aqui, não sei… — Ele faz uma pequena pausa, como se refletindo sobre algo e continua: — Ainda bem que eu estava certo e te encontrei.

Retiro uma mecha do meu cabelo que cai sobre os meus olhos e coloco-a atrás da minha orelha antes de responder-lhe: — Pra falar a verdade, não. — Sorrio e nego com a cabeça. — Não me recordo de virmos aqui.

— Você era apenas uma garotinha, Bia. Posso imaginar que não se recorde.

Balanço a cabeça em afirmativa e sugiro nos sentarmos na beira do mar para conversarmos um pouco.

— E o que queria falar comigo? — questiono, curiosa.

— Sinceramente? — Ele se senta na areia do meu lado, e eu mantenho a minha atenção nas ondas a minha frente. — Eu só queria te ver, Beatriz. — Sua declaração me deixa sem voz por alguns instantes. Nervosa, encaro-o e fito a sinceridade no fundo do seu olhar.

— Victor, olha… — Tento falar, mas ele me interrompe minha fala.

— Eu sei que pode ser cedo, mas peço que me ouça — diz, olhando no fundo dos meus olhos. — Desde aquela noite no evento, não consigo tirar você da minha cabeça. — Seus dedos quentes tocam as minhas bochechas frias, fazendo com que eu prenda a respiração. — Sinto algo diferente por você, algo que me deixa apreensivo e ansioso por vê-la. Queria poder passar mais tempo na sua companhia.

Engulo em seco, sentindo as minhas pernas tremerem, surpresa. Eu já imaginava que ele estava interessado em mim, suas atitudes deixavam isso bem claro, no entanto, não imaginei que ele fosse me falar assim, tão diretamente e com tanta sinceridade.

Ele está se… apaixonando… por mim?

Desvio meu olhar e volto a fitar o mar, sentindo um mix de confusões invadir o meu peito. O sol começa a se pôr no horizonte, trazendo mais beleza à paisagem, mas nem mesmo isso é capaz de aplacar um pouco da agonia que começo a sentir. Uma coisa é certa: não há espaço para outro homem dentro do meu coração agora, e Victor não merece ser enganado, não merece sofrer. Nada mais justo do que eu ser sincera e deixar as coisas bem claras entre nós.

— Victor, eu gostaria de poder dizer que sinto o mesmo por você… — A secura na minha garganta impede que eu fale, e minha voz falha. Engulo um pouco de saliva e continuo. — Mas o meu coração pertence a outro homem. E eu… não conseguiria me relacionar com um outro alguém no momento. Eu sinto muito…

— Bia, olhe para mim.

Faço o que ele pede e o encaro.

— Eu imaginei que fosse dizer isso. — Seu sorriso é contido e um pouco triste, aperta o meu peito de uma maneira tão doída que não consigo explicar. — Para ser sincero, não estou cobrando nada de você. Só queria que soubesse o que sinto e que não tenho pretensão nenhuma de desistir. Estou disposto a lutar pelo que sinto, Bia. E se, no fim, você ainda não me quiser, eu entenderei.

Sinto um nó se formando em minha garganta quando ouço as suas palavras. Minha voz fica embargada e nada mais consigo dizer. Tudo o que eu queria era que fosse ele. Que fosse o Cadu me dizendo isso. Eu só queria que ele me amasse.

— Victor, não sei o que dizer… — respondo com a voz falha.

— Não precisa dizer nada agora. — Ele segura a minha mão e aperta entre seus dedos. — Abra uma brecha para mim. Me deixe ao menos ser seu amigo…

Pondero sobre o seu pedido, refletindo se permito ou não a sua aproximação. No entanto, concluo que nada tenho a perder e, para falar a verdade, seria uma dádiva se eu conseguisse esquecer aquele homem e me apaixonasse por outro. Victor com certeza seria o primeiro da lista. Sua espontaneidade e caráter são coisas que me cativam cada dia mais, sem falar no sorriso contagiante.

Com os olhos marejados, balanço a cabeça em afirmativa. Victor sorri abertamente e me abraça, depositando um beijo demorado em minha cabeça.

— Eu não te prometo nada, Victor. Mas podemos, sim, ser amigos. Acho que é um bom começo — sussurro.

— Já é o suficiente para mim.

Depois de alguns minutos em silêncio, levantamo-nos e continuamos andando pela praia até o sol se pôr completamente. Victor me acompanha até a minha casa e, no portão mesmo, combinamos de sair para jantar qualquer dia.

Ele se despede e eu caminho na direção da porta principal. Já está um pouco tarde e imagino que meu pai já tenha ido buscar mamãe no aeroporto. Estou morta de saudades e ansiosa para vê-la.

Subo as escadas correndo em direção ao quarto, pego o telefone que eu havia deixado em cima da cama e confiro as ligações perdidas do Victor. Meu coração bate confuso no meu peito. Por um lado, minha mente diz que sim, ele merece uma chance, mas o meu coração traidor diz que não. Que eu não posso me envolver com ninguém agora porque ainda amo aquele cretino.

Meus olhos se enchem de água novamente, mas eu me recuso a chorar. Recuso-me a permitir que ele me machuque outra vez.

Encosto-me na parede do quarto, segurando o celular fortemente em minhas mãos, e fecho os olhos, disposta a dar um rumo definitivo à minha vida. Talvez agora eu me distraia com os trabalhos voluntários no projeto de proteção das tartarugas marinhas. Juntarei o útil ao agradável, por ser algo que sempre amei fazer. Não é à toa que desde criança sou apaixonada pelo sol, pela praia e pelo mar.

O toque de chamada do meu celular desperta-me do meu transe e eu abro os olhos. Analiso o número desconhecido, pensativa, mas atendo.

— Alô!

— Beatriz? Como vai, tudo bem? — A voz de uma mulher soa do outro lado da linha, e eu franzo a testa, intrigada.

— Sim, quem fala? — questiono.

— É a Priscila, a prima do Cadu. Peguei seu número com sua amiga Gracy. Desculpa te ligar assim, é que eu queria te fazer um convite.

Arregalo os olhos ao ouvir a menção do nome do Cadu e sinto as batidas frenéticas do meu coração. Tenho vontade de me estapear por reagir com tanto entusiasmo a tudo que tenha a ver com ele. Minhas pernas tremem. Céus, o que ela quer comigo?

— Oi… Priscila. Que convite? — pergunto após me recuperar do choque momentâneo.

— Para a minha despedida de solteira daqui há alguns dias. Teremos a tarde das garotas com direito À piscina, massagem relaxante e striptease e, logo mais à noite, uma festinha privada.

BEATRIZ

— Oi… Priscila. Que convite? — pergunto, um pouco desconcertada pela surpresa da sua ligação.

Ouço seu sorriso brando do outro lado da linha e surpreendo-me ainda mais quando ela me convida para a sua festa de despedida de solteira que acontecerá em um espaço requintado no centro do Rio em alguns dias. Sei disso porque conheço parcialmente o local por ela citado.

— Nossa. Uau… — murmuro, sem saber muito o que responder. Afinal, mal fomos apresentadas no evento beneficente da Ferraz Engenharia.

— Então, Bia, você irá comparecer? Gracy já confirmou presença e, como são amigas, achei que seria legal que você fosse. Além disso, será uma oportunidade perfeita para nos conhecermos melhor e conversarmos um pouco…

Automaticamente, me pergunto se o Eduardo estará presente nessa festa. Calculo quais as possibilidades de eu me manter imune à sua presença sem cometer nenhum vexame. No entanto, quando Priscila informa que será uma festa apenas para mulheres e que o noivo também fará uma despedida com alguns conhecidos em outro local, respiro aliviada e confirmo a minha presença.

— Tudo bem, eu comparecerei — confirmo.

— Certo, querida. Não esqueça seus trajes de banho. Depois te passarei o horário certinho via mensagem.

Nós nos despedimos, e eu deligo o telefone, ainda sentindo meu coração batendo descompassado por causa do convite inesperado. Suspiro sem ânimo, dou de ombros e decido organizar o quarto rapidamente antes de ir para o banho.

 

Ouço o barulho do carro de papai estacionando na garagem, coloco o secador de cabelos em cima da cômoda e caminho saltitante na direção da porta do quarto. Com um sorriso imenso no rosto, vejo mamãe sair do banco do carona assim que entro na garagem e corro para abraçá-la. Os olhos amarelados brilham como o sol ao me fitarem, e seus braços se abrem para me receber com um abraço de urso.

— Bem-vinda de volta, mamãe. — Passo os braços em volta do seu pescoço e lhe dou um beijo no rosto.

— Querida, que saudade. — Sinto suas mãos afagando os meus cabelos e sorrio.

— Como está o vovô?

Afasto o meu corpo e a encaro sorridente.

— Agora o seu avô está muito bem de saúde, querida — responde com um sorriso contagiante.

— Que maravilha. — Sorrio mais uma vez e a ajudo com a bolsa de mão. Papai pega a mala no porta-malas do carro e entramos em casa.

Após minha mãe tomar um banho, ajudo-a preparar o jantar, enquanto papai põe a mesa, e aproveitamos para conversar sobre assuntos diversos. Quando papai sai da cozinha e segue para a sala de estar, minha mãe olha-me pensativa, e então dou-me conta que ela provavelmente esteja procurando uma forma de conversar comigo sobre o Eduardo.

Abaixo a cabeça e aguardo que ela fale. Não há como fugir ou evitar, apesar de ser a única coisa que desejo fazer agora.

— Querida, durante esses dias que passei com seus avós, me mantive muito preocupada com você. Imagino que você saiba o porquê.

Balanço a cabeça em afirmativa e viro-lhe as costas, envergonhada.

— A senhora não precisa se preocupar. Foi apenas uma ilusão boba — minto. De todo modo, é nesta mentira que me agarro, e batalho todos os dias para que ela se transforme em realidade.

— Uma ilusão, Beatriz? Não foi isso que me pareceu naquela noite. — Ouço-a mexendo com as panelas, e o silêncio reina na cozinha, mas por apenas alguns minutos, pois logo é quebrado pelo seu longo suspiro. — Eu não sei o que aconteceu na minha ausência, querida. Mas quero que saiba que pode confiar em mim. Eu sou a sua mãe e tudo que mais quero nessa vida é que seja feliz.

Sinto um aperto estranho no peito e levanto o meu olhar. Viro-me e a encaro. Queria poder dizer a ela que continuo amando-o. Que continuo apaixonada por ele. Mas sei que a tristeza que carrego no olhar deixaria claro que este sentimento não é correspondido e que para ele fui apenas um bichinho interessante para brincar um pouco.

Quando relembro de tudo, sinto meus olhos queimarem com as lágrimas que teimam em cair, mas desvio o olhar e apenas respondo: — Eu sei, mamãe. Eu sei. Mas não se preocupe. Estou bem e aquilo que eu disse sobre estar apaixonada não passou de uma ilusão boba. Eu nem me recordo mais.

Ela caminha até mim e deposita um beijo na minha testa. Seu olhar cálido me acalenta e me faz sorrir, ajuda-me a tirar um pouco da angústia que carrego no peito.

— Vá chamar o seu pai para jantar.

 

Após o jantar, subo para o meu quarto e me apronto para sair com meus amigos. A noite está abafada, então opto em usar um vestido branco de tecido leve, justo no corpo e batendo na metade das minhas coxas. Capricho na maquiagem nos olhos, perfumo-me e desço.

Gracy e Pedro me aguardam como sempre na sala. Despeço-me dos meus pais e os acompanho até o carro. Ao chegarmos na boate escolhida, já entro dançando ao som de uma batida eletrônica.

Seguimos até o bar e pedimos uma dose de tequila para cada um. Viro a bebida toda de uma vez, sentindo meus olhos lacrimejarem com o sabor forte do álcool. Meu corpo se treme todo com um calafrio, contudo, já estou pronta para outra. Brindamos, sorrimos e nos divertimos como se não houvesse amanhã. Após algum tempo, percebo Gracy trocando olhares com um cara apresentável e logo os dois se aproximam, deixando Pedro e eu sozinhos entre a multidão desconhecida.

Enquanto Pedro continua bebendo descontroladamente, decido dar um basta na bebida e apenas faço companhia a ele, afinal, alguém precisa continuar sóbrio esta noite, pois pelo andamento da carruagem, voltaremos para casa de táxi.

Vez ou outra, percebo que ele me encara firmemente, como se quisesse dizer algo, mas não tem coragem. Embora eu saiba dos seus sentimentos em relação a mim, estou crente que uma conversa franca entre nós dois deixará as coisas em seus devidos lugares.

Uma música contagiante começa a tocar, fazendo com que eu feche os olhos e balance o corpo no ritmo da melodia e, apesar dos pesares, me sinto leve e bem, como há muito tempo não me sentia.

No entanto, a proximidade de alguém nas minhas costas enquanto danço deixa-me em alerta e eu me afasto. Contudo, a pessoa me segura fortemente contra o seu corpo, fazendo o meu sangue gelar pela proximidade íntima demais. Posso sentir cada centímetro do corpo masculino colado no meu.

— Me solta! — grito, mas meu apelo não surte nenhum efeito.

— Como você é gostosa, cheirosa … Uma delícia de mulher. — Ouço o sussurro de Pedro em meu ouvido e meu coração parece parar.

— Pedro, ficou louco? Para com isso! — exijo, assustada, e o empurro com mais força.

Ele prende mais forte a minha cintura e continua falando imoralidades no meu ouvido, enquanto a mão gananciosa alcança um dos meus seios. Grito e esperneio enlouquecida, tentando a todo custo me soltar do seu toque inescrupuloso.

Ele afrouxa o aperto em meu corpo e faz com que eu vire na sua direção, forçando-me a encará-lo.

Ao ver seus olhos vermelhos, frios, sinto um nó estranho se formar na minha garganta. Sinto nojo e repulsa de tudo o que ele acabou de fazer. Por me tocar daquela maneira. Odeio-me por ter aceitado o seu convite para sairmos.

Pedro solta o meu braço como se nada tivesse acontecido e me fita.

— Não ouse encostar o dedo em mim de novo seu nojento — digo, ferida, a voz tão embargada que se mistura com os meus soluços.

Pedro encara-me friamente, a expressão neutra, sem demonstrar nenhum sentimento de arrependimento. Isso é como um punhal no meu peito. Ele aproxima-se novamente, e eu dou um passo para trás, amedrontada. Não consigo reconhecer aquele garoto que sempre foi o meu amigo. Quando viro o corpo para sair o mais rápido possível da sua presença, sinto sua pegada brusca no meu pulso, seguido de um sussurro no ouvido que me causa ânsia de vômito.

— Você sempre quis dar a boceta para aquele cara. Por que não dá para mim? Por que me evita? Eu amo você, sua vadia, não percebe?

Fecho os meus olhos, tendo a certeza que a amizade que construímos por tantos anos acaba de ser destruída para sempre. Mesmo que ele esteja sob o efeito do álcool. Sem lhe dar ouvidos, puxo o meu braço e corro por entre as pessoas que dançam na pista, até chegar ao toalete.

Ofegante e trêmula, ligo a torneira e passo as mãos molhadas pelo meu pescoço suado. Abaixo a cabeça e permaneço assim por alguns minutos, crente que nada poderá ficar pior. O problema é que nunca estive tão enganada.

Ao levantar meu olhar, vejo a silhueta de Raquel refletida no espelho, encostada na porta, encarando-me. Viro-me depressa e a fito de volta.

— Olha só quem está por aqui! A ratinha! — provoca ela, debochada, e caminha na minha direção.

Os quadris avantajados balançam debaixo do minivestido preto muito vulgar.

Oh, céus, mais essa agora.

— O que você quer? — pergunto, trêmula. Sinto uma mistura angustiante de ansiedade e medo.

A mulher se aproxima e para, tão perto que posso sentir seu perfume enjoativo.

— Quero apenas deixar claro que eu e o Cadu estamos juntos de novo e agora é para valer, querida. Portanto, não volte a se aproximar dele ou não responderei por mim. — Ela levanta a mão e praticamente esfrega um anel brilhante na minha cara. — Estamos noivos.

Arregalo os olhos, surpresa, sentindo cada pequena partícula do meu coração partindo-se em minúsculos pedaços. Minha garganta se fecha e o mundo parece parar à minha volta ao mesmo tempo que sinto meus olhos arderem mais. No entanto, mantenho-me firme, sem expressar nenhuma emoção. Não irei dar esse gostinho a ela, mesmo que por dentro eu esteja começando a sangrar.

— Não se preocupe, Raquel. Não tenho a mínima pretensão de me aproximar dele.

— Ótimo, querida! — Ela sorri e dá meia volta, saindo do toalete. Só então, permito que meu corpo deslize pelos azulejos gelados e me sento no chão. As lágrimas frescas queimam as minhas bochechas, fazendo minha visão ficar turva, e eu soluço.

A cada minuto que passa, sinto como se o mundo estivesse desabando em minhas costas. As lágrimas não cessam.

Uso a palma da minha mão para secar os meus olhos e busco meu celular dentro da bolsa. Sem pensar muito, pego o aparelho e mando uma mensagem para o Victor.

 

Oi. Está muito ocupado?

 

Em poucos segundos ele responde.

 

Para você, jamais, Bia.

 

Pode me buscar em um lugar?

 

Aconteceu alguma coisa?

 

Eu não sei se gostaria de falar sobre isso agora

Tudo bem. Me passe o endereço

Digito a mensagem, passando todas as coordenadas, e ele responde, dizendo que chegará em alguns minutos. Enquanto o espero, limpo os meus olhos borrados com o auxílio de um lenço e arrumo o meu cabelo. Permaneço no interior do toalete até receber a mensagem dele, informando que se encontra na entrada do estabelecimento.

Caminho depressa na direção da porta, temendo encontrar Raquel ou Pedro em algum lugar da casa. Como Gracy está acompanhada, decido não interromper. Enviarei uma mensagem informando o meu paradeiro assim que chegar em casa.

A passos rápidos, caminho, cortando espaço entre a multidão, até que, em um súbito, olho na direção do camarote e o vejo. Lindo, sexy e arrogante, usando uma camisa social branca, conversando descontraidamente com algumas pessoas, enquanto segura um copo que imagino ser uísque.

Como se sentisse a minha presença, ele olha na minha direção e me fita, franzindo a testa. Nossos olhares se encontram como imãs magnéticos impossíveis de serem desconectados. Os olhos oceânicos permanecem cravados no meu rosto, como se procurasse entender o que se passa na minha cabeça.

Suspiro e desvio o olhar quando vejo Raquel se aproximando dele. Ela sorri mais uma vez, e eu viro-lhes as costas.

Um gosto amargo invade a minha boca e todo o meu corpo treme, angustiado e humilhado. Caminho depressa, as lágrimas voltando com força, deixando em evidência o quanto sou fraca.

O celular vibra em minha mão, fazendo com que eu me assuste, quase deixando-o cair.

Abro a mensagem pensando ser Victor, mas me surpreendo ao ver que se trata de uma mensagem dele, do Cadu. Meus nervos temem ao ler o conteúdo. Pergunto-me, como ele pode ser tão frio, tão babaca.

 

Está tudo bem?

 

Com a mágoa tomando o meu peito, desligo a tela do aparelho, ignorando-o, e continuo andando até avistar o Victor. Quando ele me vê, sorri e acena. Corro na sua direção o mais rápido que consigo, como se nas minhas costas tivesse um mar revolto e ele fosse o meu porto seguro. Sem conseguir mais esconder o meu sofrimento, abraço-o em prantos e sussurro: — Por favor. Me leve para casa.

CARLOS EDUARDO

Depois de um dia exaustivo na empresa, chego em casa por volta das oito da noite, louco por um banho, comida quente e uma bela noite de sono. No entanto, assim que passo pela porta, alguns colegas da época que eu trabalhava em Curitiba me ligam, convidando para sairmos, já que estão de passagem no Rio.

Aceito o convite e sigo direto para a cozinha. Retiro a comida do congelador, levo ao micro-ondas e subo as escadas para tomar um banho relaxante.

Apesar do meu cansaço, devo confessar que preciso me desligar um pouco do trabalho e focar a mente em outras coisas. Isso serve para tentar sanar essa confusão martirizante que se formou em minha cabeça desde a noite do evento. Não consigo parar de pensar nela, no cheiro doce e suave da sua pele ou no quanto Beatriz fica encantadora quando sorri. Isso já está se tornando ridículo.

Termino o banho, seco-me e me deito na cama, pelado. Suspiro fundo e fecho os meus olhos, exausto, ao mesmo tempo em que levo a mão no meu pau para massageá-lo.

Sinto-o crescendo, enchendo a minha mão com o volume desejoso, louco para ser enfiado dentro de uma boceta quente e macia. O pior é que a primeira que vem à minha mente é a dela. Rosada e suculenta, melada e quente como o inferno. Merda!

Preciso tirar esses pensamentos idiotas da minha cabeça. Irei dar um basta nessa obsessão louca que está me tomando nos últimos dias e que luto desesperadamente para deixar de lado.

Irritado, levanto-me e vou à procura de uma roupa, enquanto penso em aproveitar a noite para bater um papo descontraído com os amigos e, no fim, me enterrar todo dentro de alguma mulher gostosa que eu venha a conhecer até adormecer exausto de tanto gozar gostoso.

Termino de me arrumar, fechando os botões da camisa branca social. Borrifo meu perfume favorito de fragrância almiscarada no colarinho da camisa e peito, saio do quarto e pego as chaves do meu Lamborghini. Ao chegar na garagem, ouço o toque de chamada do meu celular e atendo sem olhar no visor, enquanto entro no carro descontraidamente: — Alô?

— Mi amor? Que saudades. — A voz de Raquel soa enjoativa do outro lado. Eu nem ao menos me recordava da sua existência desde o nosso último encontro, quando ela foi à minha procura na empresa alguns dias depois do jantar na casa dos meus pais. Claro que não pude atendê-la, estava em reunião. Apenas recebi o recado da secretária e uma mensagem da própria Raquel.

— Olá, Raquel. O que deseja? — questiono, sem demonstrar a mínima gota de interesse, e sento-me no banco.

— Queria te ver, mi amor. Faz tanto tempo que não nos divertimos um pouco.

— Eu sinto muito, estou de saída agora — respondo, seco e sem ânimo.

— Podemos marcar algo para mais tarde, o que acha? — diz com a voz manhosa, quase como um miado. — Posso fazer aquela massagem que você gosta e que te leva à loucura. — Respiro fundo, um pouco impaciente, já cansado da sua conversa. Mesmo que eu esteja louco para foder, Raquel não desperta o meu interesse no momento. Preciso de carne fresca!

O pior é que pensar nisso me leva direto para a noite do evento, quando Beatriz estava toda aberta para mim, recebendo a minha língua. Chego a salivar quando me lembro do sabor dela, o cheiro do sexo excitado me levando à loucura.

Merda! Merda! Que porra eu vi naquela pirralha?

Passo a mão pelo meu queixo, frustrado, sentindo a barba começando a despontar, e volto a responder para a Raquel: — Talvez eu te ligue qualquer dia e te foda caso eu não tenha mais nada para fazer. Agora irei desligar, estou atrasado.

Encerro a chamada, respiro fundo e confiro as horas. Vejo que realmente estou atrasado para o compromisso. Confirmo o local marcado e arranco na direção da boate.

Piso o pé no acelerador, sentindo a adrenalina tomar conta das minhas veias a cada segundo devido à velocidade do carro, e sorrio. O esportivo prateado combina perfeitamente com a vida de liberdade que levo. Sem nenhuma amarra ou preocupações desnecessárias.

A poucos quilômetros de distância do local combinado, ao olhar pelo retrovisor, tenho a impressão de ver um sedan escuro me seguir. Desvio o trajeto, entrando em outra rua, e sigo o meu caminho.

Estaciono o carro e adentro a boate. Ando a passos firmes, sério e atento, sentindo o meu ego inflar um pouco mais a cada passo que dou, percebendo a luxúria que provoco nas mulheres. Sigo direto para o camarote, onde ambos os ex-colegas me aguardam. Cumprimento-os, feliz. Apesar dos anos, é como se o tempo não tivesse passado.

Por estar dirigindo, opto por não ingerir muito de nenhuma bebida alcoólica, ficando apenas em um copo praticamente vazio de uísque, que vai ser o único da noite. Os minutos passam enquanto conversamos animadamente. Hora ou outra, observo as mulheres dançando lá embaixo, imaginando o momento em que levarei alguma ou algumas delas para um motel.

Fecho a expressão, surpreso quando vejo Raquel entrar na casa, olhando em todos os locais à sua volta. Quando a mulher percebe a minha presença, sorri e vem na minha direção. Estreito os olhos, incomodado com a sua presença, mas ajo naturalmente como se ela fosse apenas uma conhecida e que nos encontramos por acaso. Lá no fundo já imagino que possa ter sido ela a pessoa que me seguia no caminho.

Sorrindo descaradamente, Raquel me cumprimenta e passa a mão pelo meu pescoço, ficando na ponta dos pés para me dar um selinho nos lábios, fazendo com que eu torça a boca, irritado. Contudo, apresento-a aos meus colegas e nem ao menos preciso convidá-la para fazer parte da conversa. Ela mesma se autoconvida, sempre se mantendo ao meu lado, tentando me tocar.

As horas passam e já estou prestes a ir embora quando vejo Raquel fixar o olhar em algo lá embaixo e, em seguida, pedir licença e sair. Volto o meu olhar na direção de onde ela olhava, mas não vejo absolutamente nada fora do lugar.

Em poucos minutos, ela está de volta, parecendo triunfante, com um sorriso presunçoso nos lábios. Encaro a mulher por alguns segundos, imaginando que merda ela acha que está fazendo. Mas Raquel simplesmente expande o sorriso enjoado e dá de ombros.

Despeço-me de todos ali, inclusive dela, e vejo o sorriso vitorioso morrer em seu rosto. Pouco me importo. Viro-me devagar e olho lá embaixo. Contudo, o que vejo faz uma sensação diferente surgir no meu âmago e eu congelo. Tudo parece perder a importância à minha volta.

Vejo Beatriz encarando-me como se estivesse petrificada, uma expressão indecifrável em seu semblante. Algo parecido com… dor, mágoa. Os olhos de íris esverdeadas estão vermelhos e brilhantes, como se ela estivesse segurando para não deixar uma lágrima cair.

Sem entender absolutamente nada, ergo a sobrancelha, desconfiado, e sinto a aproximação de Raquel nas minhas costas, fazendo todos os sentidos do meu corpo se alarmarem. Meu sangue ferve de raiva ao imaginar que mal Raquel tenha feito a ela e fecho os meus punhos. Não é difícil adivinhar que essa peçonhenta tenha destilado seu veneno em Bia.

Seu olhar triste e magoado me deixa atordoado. Sinto-me verdadeiramente culpado por algo que nem ao menos sei do que se trata.

Quando ela me dá as costas e sai, em um rápido movimento, pego o celular e lhe envio uma mensagem, perguntando se está bem. Imediatamente, excomungo-me por perguntar algo tão idiota. Mas é claro que ela não está bem. Merda!

Encaro Raquel com frieza, deixando claro que descobrirei tudo o que ela tenha aprontado, mas não espero uma resposta. Desço as escadas de vidro o mais rápido que posso e caminho na direção da saída sem conseguir me contentar em ficar aqui de braços cruzados.

Preciso entender por que ela está chorando, mesmo quando meu cérebro grita para que eu fique longe. Algo no fundo da minha alma insiste para que vá até ela. A vontade de abraçá-la e protegê-la é mais forte do que consigo controlar.

Ao chegar do lado de fora, vejo-a correr rapidamente até alguém. Ao olhar para a frente, vejo o estagiário da Ferraz e sinto meu sangue ferver em uma mistura de raiva e incerteza que não consigo compreender.

Ela o abraça, mas não me dou por vencido e me aproximo. Vejo os seus ombros estremecerem e escuto um soluço escapar da sua garganta, fazendo o meu peito palpitar, preocupado, enciumado e confuso.

— Beatriz? — chamo-a. Vejo-a virar-se em câmera lenta, como se não acreditasse no que está vendo.

— Cadu? O… o que faz aqui? — murmura, levando a mão aos olhos para secar as lágrimas abundantes.

Fecho os meus punhos e trinco o maxilar, revoltado com toda essa situação, sentindo-me um animal enjaulado, sem saída para alguma solução. Que merda está acontecendo?

— O que aconteceu? Por que está chorando? Alguém te machucou? — questiono e me aproximo mais, perdendo a razão.

Olho para o Victor ao lado dela em busca de uma resposta, e ele fecha a expressão. Beatriz faz o mesmo. Com incerteza no olhar, ela o fita e depois me encara.

— Não aconteceu nada — mente com a voz falha, mesmo quando seu semblante diz o contrário. — Victor, por favor, me leve para casa.

Ele apenas balança a cabeça em concordância, e eu dou mais um passo na direção de ambos, negando-me a aceitar que ela vá embora assim com ele, sem me dar maiores explicações. Sinto-me seriamente preocupado.

— Bia…

— Cadu, eu estou bem… — diz sem me encarar, a voz cada vez mais embargada. — Victor, vamos.

Sem que ela volte a me olhar, vejo-o segurar a mão de Beatriz e caminhar na direção do estacionamento, deixando-me ali parado, com a garganta seca, o peito apertado e irritado. Ao mesmo, sinto a raiva me tomando por ela ter preferido ir com ele ao invés de confiar em mim.

Passo a mão pelos meus cabelos, nervoso, movimento que faço sempre que estou irritado ou contrariado com algo. Meu sangue ferve como a lava de um vulcão furioso, minha testa sua de frustração e algo a mais que não consigo explicar.

CARLOS EDUARDO

— Merda!

Retorno para o interior da boate, agitado, à procura de Raquel, decidido a descobrir tudo o que aconteceu aqui. Procuro em todos os lugares, mas não obtenho sucesso. A mulher parece ter evaporado, ou simplesmente a raiva não me permite ver com precisão.

Caminho até um local mais escuro e, de onde estou, vejo o amigo de Beatriz bebendo descontroladamente. Franzo a testa, ainda mais intrigado, imaginando porque Beatriz recorreu ao Victor e não ao amigo que está na boate. Se bem que, vendo-o nessa situação, não posso tirar a razão dela.

Continuo andando pelos cantos escuros à procura de Raquel. Encontro alguns conhecidos e cumprimento-os, mas a maior surpresa é quando vejo a amiga, que sempre está com Bia, conversando com um cara. Gracy, se não me engano.

Ela sorri descontraidamente, sem se dar conta da minha presença.

Intrigado, caminho até os dois, toco-a no ombro, chamando a sua atenção, e franzo a sobrancelha quando ela me encara parecendo surpresa.

— Boa noite — cumprimento ambos, e, tocando em seu braço chamo Gracy para um local mais afastado para conversarmos com calma. Ela deve saber alguma coisa do que aconteceu com Beatriz.

— Eduardo? O que quer? — pergunta, parecendo confusa. Vira-se na direção do cara e acena com a mão, indicando que não irá demorar.

— Beatriz… Ela saiu da boate em prantos e não tenho ideia da merda que aconteceu — digo sem rodeios.

Gracy arregala os olhos escuros, espantada, e volta a falar: — A Bia? Ela foi embora? — sua expressão é assustada e, ao mesmo tempo, acusadora — O que… o que você fez dessa vez, seu…

— Me escute, Gracy, eu não fiz nada. Nem ao menos falei com ela — interrompo-a, segurando os seus ombros — É por isso que estou aqui. Preciso saber que porra aconteceu, se Raquel a machucou… — Sinto meus nervos incharem com a raiva espalhando-se pelo meu corpo. Aquela mulher irá pagar caro se machucou Beatriz.

Gracy suspira pesadamente, um pouco mais calma, mas visivelmente perdida.

— Eu não sei o que aconteceu, Eduardo. Na verdade, nem sabia que Beatriz havia ido embora. Sei muito menos se essa tal Raquel a machucou. Ela não me disse nada — justifica. A testa franzida deixa em evidência o quanto está preocupada.

Nervoso, olho de um a lado a outro em busca de qualquer pista do que possa ter acontecido, mas nada parece fazer muito sentido, nem mesmo o fato de Raquel tê-la machucado. Por que ela faria isso?

Virando na direção de Gracy, concluo que devo agir o mais rápido possível, mesmo que eu tenha que ir até ela. O problema é que Beatriz me ignoraria da mesma forma que fez na saída da boate, não me dando outra alternativa a não ser apelar para a amiga dela. Gracy terá que me ajudar, não há outra saída.

— Gracy, preciso que fale com ela e descubra o que aconteceu — digo, firme.

— Como é? Não está achando que irei perguntar as coisas para a minha amiga e fofocar para você! — responde, fazendo bico, irritada, deixando-me ainda mais nervoso.

— Gracy, colabora, por favor. Isso é sério! — esbravejo, encarando-a seriamente. — Beatriz saiu daqui em prantos, com o Victor. Você nem ao menos sabia que ela tinha ido embora, e tudo indica que alguém ligado a mim teve alguma coisa a ver com isso. Não entende a gravidade, porra?

Afasto-me dela, fora de controle e sem um pingo de paciência desses jogos adolescentes. Por que essas garotas complicam tanto as coisas? Merda!

— Eu… tudo bem. Desculpe — diz ela, voltando a se aproximar. — O que eu devo fazer?

— Não sei… envie uma mensagem, algo assim. Pergunte o que aconteceu!

Enquanto aguardo Gracy entregar em contato com Beatriz, continuo olhando, impacientemente, o circular de pessoas pela casa. Se Bia não fosse tão teimosa, obviamente eu já estaria no seu encalço, fazendo-a se abrir comigo e dizer toda a verdade.

— Senhor! Eu não posso acreditar nisso… — Gracy resmunga do meu lado, chamando a minha atenção para o aparelho que ela segura nas mãos.

— O que ela disse? — pergunto exaurido.

— Não posso acreditar… Não consigo acreditar…

— Que diabos…

Impaciente, pego o celular da mão dela e olho a mensagem. Beatriz fala algo relacionado ao amigo Pedro, mas não entra detalhes. Contudo, fala explicitamente que eu estou noivo de Raquel e que a própria disse a ela. Diabos!

— Isso não é verdade, menina. — Adianto-me em me justificar, sentindo meus nervos ferverem mais, enquanto estendo o celular para Gracy. — Essa mulher é louca — afirmo.

Apesar de não ter obrigação nenhuma de lhe dar satisfação, sinto a necessidade de ela dizer isso a Beatriz. O que me deixa dez vezes mais intrigado. Aos poucos, Beatriz está me deixando maluco. Pergunto-me que merda está acontecendo comigo? Por que logo ela?

Continuar: parte 6 de 9