A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola
Os commandantes
Snr. morgado! As forças populares de seis freguezias que ahi estão reunidas fóra no terreiro d'esta illustrissima casa, mandaram-me a mim, á frente dos seus doze commandantes que se acham presentes, declarar a V. Ex.ª que por voto geral foi acclamado general em chefe d'esta provincia. Eu lhes fiz um eloquente discurso para os tirar d'essa ideia, allegando com o meu gráo de pharmaceutico que V. Ex.ª soffria dos intestinos e d'outros incommodos intestinaes; mas elles não me attenderam e obrigaram-me a vir offerecer a V. Ex.ª a espada de general em chefe. Aqui está por consequencia esta valente espada que matou em 1810 muita somma de francez do Junot, e que ha de nas mãos de V. Ex.ª limpar este paiz de escrivães de fazenda e outros mariolas que nos desgraçam. Receba V. Ex.ª das minhas mãos esta espada e salve com ella a patria do snr. D. Affonso Henriques!{134}
Os commandantes
Viva o snr. boticario! Viva!
Macario
Obrigado, valentes guerreiros! (A musica executa uma marcha muito compassada. Macario caminha a passo solemne e cadencioso com a espada offerecida segura pela lamina, levando a sua na bainha. O morgado faz signal de que quer fallar. Silencio.)
Pantaleão (commovido)
Snr. Macario Mendes, e mais Senhores! Grande impressão me fizeram as vossas palavras e não pude deixar de me commover... Estou realmente commovido, e sinto-me abalado com tanta honra; mas sinto muito dizer-lhe que as minhas doenças e outras desgraças me não permittem tomar o commando das valentes forças populares que representaes. Não posso, senhores, não posso. Se a fortuna me tivesse dado um filho, essa espada estaria já nas mãos d'elle.{135}