A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

Camilo Castelo Branco · Capítulo 90 de 146

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A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

João Lopes (mettendo a cabeça)

 

Podem conversar, que elle passou para a tulha.

 

Frederico (com transporte)

 

És divinamente grande nas minimas bagatellas da humanidade! Se lanças o pé quebradiço{117} e chinez em attitude dançante, sacodes e impelles brazas á minha alma. O pavimento arde debaixo dos teus pés lindissimos. Tudo que fazes mata e aviventa. Como não serás esbelta, nos salões de Lisboa, princeza dos bailes, a rodopiar vertiginosamente nas valsas, nos cotillons, nos lanceiros, na doidice sublime em que ha um espadanar de felicidade por todos os póros! Ó Joaninha, deixa-me sonhar! (Fixa os olhos espantados no tecto da platêa. Musica surda) A minha vida vae ser uma etherisação de todas as potencias espirituaes. Embriagado nas taças nectáreas do céo, viverei enlevado nos arrobos da minha embriaguez... Esse rosto em que se espelham as formosuras não vistas de Angelos nem de Raphaeis, será o meu Al-korão, porque o summo artifice escreveu ahi a suprema estrophe do seu poema. Quando os teus olhos se abrirem ao diluculo da manhã, vêr-me-has de joelhos a beijar os teus cabellos; quando os fechares, cansados de serem beijados, e as sedosas palpebras se cerrarem como conchas ciosas de suas perolas, eu me quedarei a teus pés velando que os sylphos amorosos da noite não ousem perturbar o teu dormir. Oh! Joanna, Joanna!{118} (Ajoelha-se-lhe aos pés. João Lopes tosse com maior força. A morgadinha adverte em vão Frederico que continúa no seu arrebatamento:) Abre-me aqui já o sepulchro, se em alguma hora hei de sentir-me orphão dos teus carinhos... (Pantaleão ao fundo, erguendo o reposteiro.)