A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

Camilo Castelo Branco · Capítulo 40 de 146

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A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

Frederico

 

Ahi ha certa sublimidade de idêa, de que lhe dou os parabéns. V. Exc.ª ia quasi escrevendo d'um traço a historia philosophica da democracia moderna.

 

Pantaleão

 

Eu não escrevo historia nenhuma; o que eu lhe digo é que isto cá nas montanhas é outra cousa. Os morgados são morgados; os escrivães são escrivães; e os sapateiros são sapateiros. Ora, quando acontece alguem querer sahir da sua classe, primeiro avisa-se; depois quebram-se-lhe as costellas. O snr. sabia isto?{62}

 

Frederico

 

Eu não sabia que estava na Cafrária. Cuidei que este concelho era um retalho do Portugal civilisado; cuidei que a luz do grande fóco radiara uma flecha de luz até ao coração de V. Ex.ª que me parece ser uma pessoa de bons costumes, e não um esquimó. Cuidei finalmente que o Evangelho e a Carta constitucional livellavam a dignidade humana... (Ouve-se o cantar das raparigas que se avisinha.)

 

Pantaleão

 

Enganou-se comigo. Eu sou Pantaleão Cogominho de Encerrabódes, décimo oitavo senhor do morgadio de Val-d'Amores. Quem houver de casar com minha filha hade poder deixar apellidos nobres ao vigessimo senhor d'esta casa. Tenho dito, e acabou-se o cavaco. Saude e juizo. (Volta-lhe as costas. Frederico bambôa a cabeça altivamente e retira-se.){63}