A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

Camilo Castelo Branco · Capítulo 68 de 146

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A Morgadinha de Val d'Amores / Entre a Flauta e a Viola

Macario

 

Isso então foi rethorica...

 

Cosme

 

Eu não admitto rethoricas em objecto tão sério como é o casamento! Olhem que educação fina a d'este anjo! Trepa ás arvores, atira aos passaros, e joga o páo! Que predicados estes tão mimosos para augmentarem as graças virginaes d'uma menina! Não lhe falta senão vestir-se{91} de homem, que é agora o trajar das senhoras innocentes das novellas e dos dramas. Uma menina que enfia os seus pezinhos n'umas botas de canhão, e rompe com elles por umas pantalonas dentro, fica a recender um aroma suave de amores que nem açafétida! E hade a gente persuadir-se que mora uma alma muito candida e muito pura dentro do peito que se albarda com um paletó de homem para arrotar francamente umas phrases de bomba real que nos fazem comichões nos miolos e arrepios na espinha! Arreda! olha o que me estava reservado para os quarenta e seis annos! Uma mulher assim paralisava-me as funcções do intellecto, e lá se me iam as minhas ovações parlamentares! Primeiro que tudo, sou do meu paiz, devo-me á regeneração da minha patria, sou homem publico; e um homem publico quando se casa deve fazel-o com dama que o não impeça nem apoquente. A femea natural do homem politico é a politica; a esposa, para os homens devotados aos interesses materiaes do seu circulo, significa tão sómente um supplemento vivo e util ás commodidades domesticas. Percebe vocemecê, snr. Macario?{92}

 

Macario