A Papisa Joana
Capítulo 14 · Fulda
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Madalgis trocou algumas palavras com o seu filho mais velho, um
rapazote de doze ou treze anos. Ele dirigiu-se para a porta e voltou pouco depois com uma fatia de pão e um pedaço de queijo raiado de azul, que ofereceu à Joana e ao irmão Benjamim. O irmão Benjamim pegou no pão, mas recusou o queijo porque era óbvio que ele tinha bolor. Joana também teve nojo do queijo, mas para agradar ao rapaz, partiu um pedacinho e meteu-o na boca. Para sua surpresa, ele sabia muito bem — era rico, aromático, espantosamente saboroso — muito melhor do que qualquer queijo que aparecia nas mesas em Fulda.
— Mas, é delicioso!
O rapaz sorriu.
— Como te chamas? — perguntou-lhe ela.
— Arn — respondeu ele timidamente.
Enquanto comia, Joana observou o ambiente. A casa de Madalgis
era uma cabana pequena, sem janelas, feita em ripas cruzadas, cobertas com lama e revestida com palha e folhas.
Havia grandes rachas nas paredes, através das quais entrava,
agora, o ar frio da noite, levantando o fumo do lume térreo. A um canto, havia um curral para os animais; dali a um mês, Madalgis traria para ali as suas vacas, para o Inverno — prática comum entre os pobres. Assim, não só protegia o seu precioso sustento, como também traria uma bem precisa fonte suplementar de calor para aquecer a casa. Infelizmente, para além do calor do seu corpo, os animais também traziam doenças: carraças, moscas, mosquitos e uma série de outros vermes, que se entranhavam na palha que cobria o chão e nas enxergas. Os mais pobres andavam sempre cobertos de mordidas e infecções, facto documentado nas igrejas locais, cujas paredes apresentavam representações de Job, com o corpo coberto de úlceras, raspando as chagas com uma faca.
Alguns — e Joana suspeitava que Madalgis era um deles —
desenvolviam fortes e estranhas alergias às mordidas dos insectos. A sua pele inchava em grandes chagas que, irritadas pelas roupas de tecido grosseiro e pela lã suja, acabavam por infectar.
Mas, o teste ao diagnóstico de Joana tinha de esperar, porque,
agora, estava completamente escuro. Amanhã, pensou Joana, antes de adormecer, começamos amanhã.
No dia seguinte, limparam a pequena cabana de cima a baixo. A palha velha que cobria o chão foi retirada e o chão em terra foi
completamente varrido. As enxergas foram queimadas e substituídas por enxergas em palha nova. Até mesmo o telhado em colmo, que tinha começado a apodrecer com a idade, foi substituído.
A parte mais difícil era convencer Madalgis a tomar um banho.
Como todos os outros, ela limitava-se a lavar regularmente a cara, as mãos e os pés, mas, a ideia de uma imersão total era-lhe estranha, aliás, considerava-a mesmo perigosa.
— Vou apanhar gripe e vou morrer! — gritou ela. — Morres, se não o fizeres — respondeu Joana com firmeza. — A
existência de um leproso é a morte em vida.
Os ventos frios de Herbistmanoth tinham tornado demasiado frio o
ribeiro que corria por trás do prado para tomar banho.
Tiveram de ir buscar água e aquecê-la ao lume para, depois, a
deitarem no tanque da roupa. Enquanto os dois monges lhe viravam as costas, Madalgis entrou no tanque, apesar de contrariada e lavou-se com sabão e água.
Depois do banho, Madalgis vestiu uma túnica nova lavada, que
Joana tinha pedido ao irmão Conrad, o despenseiro, prevendo que ia ser necessária. Em linho fino, não era suficientemente quente para Madalgis passar o Inverno, mas era muito mais macia e menos irritante para a pele do que a lã.
Depois de lavada, com a casa liberta de vermes e brilhando do
telhado até ao chão, Madalgis começou imediatamente a melhorar. As suas lesões secaram e ela começou a mostrar sinais de cura.
O irmão Benjamim estava extasiado.
— Tinhas razão! — disse ele a Joana. — Não é lepra! Temos de
voltar e mostrar aos outros!
— Mais alguns dias — disse Joana, prudentemente. — Não pode
haver qualquer dúvida de que ela está curada, quando regressarmos.
* * *
— Mostra-me outra. — pediu Arn.
Joana sorriu. Nos últimos dias tinha ensinado ao rapaz o método
clássico de computação digital, de Beda, e ele tinha-se mostrado um estudante apto e esforçado.
— Primeiro, tens de me mostrar que te lembras daquilo que eu já
te ensinei. O que representa isto?
Ela levantou os últimos três dedos da sua mão esquerda. — As unidades — disse o rapaz, sem hesitação. — E estes — levantou o polegar esquerdo e o dedo indicador —
são decimais.
— Muito bem. E na mão direita?
— Estes representam as centenas e estes, os milhares. — Levantou
os dedos adequados para exemplificar.
— Muito bem, escolhe dois números.
— Doze, que é a minha idade. E... — pensou durante alguns
momentos — trezentos e sessenta e cinco, que é o número de dias de um ano! — disse ele, orgulhoso em mostrar mais outra coisa que tinha aprendido.
— Doze vezes trezentos e sessenta e cinco. Vejamos... — os dedos
de Joana moveram-se rapidamente, mostrando o total. — São quatro mil, trezentos e oitenta.
Arn bateu as palmas, encantado.
— Experimenta tu — disse Joana, repetindo a operação mais
devagar para que ele tivesse tempo de imitar cada um dos seus gestos. Depois, mandou-o repeti-los sozinho.
— Excelente! — disse ela, depois de ele o ter feito. Arn sorriu, encantado com o jogo e com o elogio. Depois, o seu
rostinho ficou sério.
— Até onde sois capaz de contar? — perguntou ele. — Podeis
fazê-lo com uma centena e um milhar? Com... um milhar e outro milhar? Joana acenou que sim. — Toca no peito assim... vês?
Isto faz dezenas de milhar. E se tocares na tua coxa, assim, obténs
centenas de milhar. Portanto — os seus dedos voltaram a mexer-se — mil e cem vezes duas mil e trezentas é... dois milhões, quinhentos e trinta mil!
Os olhos de Arn abriram-se de espanto. Os números eram tão
grandes que ele nem sequer conseguia imaginá-los.
— Mostrai-me outro! — pediu ele.
A Joana riu-se. Gostava de ensinar o rapaz porque ele absorvia o
conhecimento sofregamente. Lembrava-lhe ela própria, quando criança. Que pena que esta chispa de inteligência esteja destinada a extinguir-se na escuridão da ignorância, pensou ela.
— Se eu conseguisse tratar de tudo — disse ela —, gostarias de
estudar na escola da abadia? Podias continuar a aprender lá — não só números, mas também a ler e a escrever.
— A ler e a escrever? — repetiu Arn, maravilhado. Estas habilidades extraordinárias estavam reservadas a sacerdotes
e a grandes senhores, não a pessoas como ele.
Perguntou, ansiosamente:
— Tenho de me tornar monge?
Joana estava divertida. Arn tinha a idade em que os rapazes
começam a desenvolver um forte interesse pelo sexo oposto, a ideia de uma vida de castidade era compreensivelmente aberrante para ele.
— Não — disse ela. — Estudarias na Escola Externa, a que é para
estudantes leigos. Mas isso quereria dizer que tinhas de sair de casa e ir viver para a abadia. E tinhas de estudar muito porque o professor é muito rigoroso.
Arn não hesitou um momento que fosse.
— Oh, sim! Sim, por favor!
— Muito bem. Amanhã, regressamos a Fulda. Eu falarei com o
professor.
— Finalmente! — o irmão Benjamim suspirou de alívio. À sua frente, onde a estrada pedregosa se fundia com o horizonte,
erguiam-se as muralhas cinzentas de Fulda, enquadradas pelas duas torres da igreja da abadia.
O pequeno grupo de viajantes tinha passado por uma viagem
cansativa desde a cabana de Madalgis e a humidade tinha agravado o reumatismo de Benjamim, transformando cada passo num tormento.
— Já falta pouco — disse Joana. — Daqui a uma hora, podereis
pôr os pés à lareira num quarto quente.
À distância, o repicar dos sinos anunciava a chegada deles —
ninguém se aproximava das portas de Fulda sem ser anunciado.
Ao ouvir os sinos, Madalgis apertou nos braços o seu bebé,
nervosa. Tinha sido difícil a Joana e ao irmão Benjamim convencerem-na a regressar à abadia, mas, ela tinha acabado por concordar, mas só com a condição de os filhos a poderem acompanhar.
A irmandade estava reunida no pátio para os receber, alinhados
cerimoniosamente por ordem de importância, com o abade Rábano de cabelo grisalho e majestosamente de pé, à frente.
Madalgis encolheu-se com medo, escondendo-se por trás de
Joana.
— Aproxima-te — disse Rábano.
— Está tudo bem, Madalgis — tranquilizou-a Joana. — Faz como
o padre abade te diz.
Madalgis avançou e ficou de pé, a tremer, no meio de estranhos.
Um suspiro de espanto perpassou as fileiras dos irmãos, quando a viram. Os nódulos abertos e ulcerosos e as lesões tinham desaparecido, à excepção de algumas marcas secas e a fechar, a pele bronzeada do seu rosto e dos seus braços estava limpa e lisa, cheia de saúde. Não havia qualquer dúvida: mesmo o mais inexperiente podia dizer que a mulher que estava diante de si não era leprosa.
— Ó maravilhoso sinal da graça! — exclamou o bispo Otgar em
louvor. — Tal como Lázaro, ela foi trazida da morte para a vida!
A irmandade reuniu-se em círculo, empurrando o pequeno grupo
de viajantes, triunfalmente, na direcção da igreja.
O facto de Joana ter curado Madalgis foi considerado nada menos
do que um milagre. Fulda encheu-se de louvores a João Anglicus. Quando o irmão Aldwin, um dos irmãos mais velhos e um dos dois padres da comunidade, morreu durante o sono, a irmandade não tinha muitas dúvidas acerca de quem lhe devia suceder.
Mas, o abade Rábano era de uma opinião diferente. João Anglicus
tinha uma natureza demasiado frontal e presunçosa para o seu gosto. Rábano preferia o irmão Tomás, que, apesar de se saber que era menos brilhante, era muito mais previsível — qualidade que Rábano apreciava.
Mas, a decisão cabia ao bispo Otgar. O bispo sabia que Gottschalk
tinha estado à beira da morte por causa de ter sido castigado, acontecimento que se reflectiu negativamente no prestígio de Rábano. Se Rábano preterisse João Anglicus a favor de um irmão menos qualificado, podiam levantar-se questões acerca do seu serviço na abadia. E se o rei recebesse um relatório negativo acerca dele, ele podia ser retirado da abadia — o que era impensável. Era melhor ser prudente na escolha de quem seria padre, pensou Rábano — pelo menos, de momento.
Anunciou no capítulo:
— Como vosso pai espiritual, o direito de nomeação de um padre
de entre vós pertence-me. Depois de muita oração e reflexão, decidi escolher um irmão habilitado para o cargo em virtude dos seus grandes conhecimentos: o irmão João Anglicus.
Ouviu-se um murmúrio de aprovação entre a irmandade. Joana
corou de excitação. Eu, padre! Ser admitida aos mistérios sagrados, administrar os santos sacramentos!
Tinha sido a ambição do pai para Mateus e, depois de Mateus ter
morrido, para João. Que ironia se essa ambição acabasse por se concretizar através da sua filha!
Sentado do outro lado da sala, o irmão Tomás olhou,
sombriamente, para Joana. Este sacerdócio é meu, pensou ele, amargamente. Fui eu o escolhido de Rábano, não foi o que ele disse há umas semanas atrás?
O facto de João Anglicus ter curado a mulher leprosa tinha
mudado tudo. Era ultrajante. Madalgis não era ninguém, era uma serva, ou pouco mais. Que diferença fazia se ela tivesse ido para a leprosaria, vivido ou morrido? Tanto fazia!
Que o prémio fosse para João Anglicus era uma humilhação
amarga. Tomás tinha-o detestado desde o princípio — odiava a sua rapidez de raciocínio, que ele tinha sentido na pele tantas vezes, odiava o à-vontade com que ele dominava as suas lições. Essas coisas não tinham sido fáceis para Tomás. Ele tivera de estudar como um escravo para aprender as fórmulas latinas e decorar os capítulos da regra. Mas, o que faltava a Tomás em brilhantismo tinha ele em persistência e no esforço que punha nas práticas piedosas. Quando terminava as refeições, tinha o cuidado de poisar a sua faca e o seu garfo perpendicularmente, em homenagem à Santa Cruz. Nunca bebia o seu vinho de uma vez, como os outros, mas em três golos de cada vez, reverentemente, numa piedosa ilustração do milagre da Trindade. João Anglicus não se preocupava com tais actos de devoção.
Tomás olhou para o seu rival, com um ar tão angelical com o seu
cabelo dourado. Que o Inferno o consuma nas suas chamas, a ele e ao ventre maldito que o gerou!
O refeitório ou sala de jantar dos monges era uma sala com
quarenta pés de largura e cem pés de comprimento, amplo, para acomodar ao mesmo tempo os trezentos e cinquenta irmãos de Fulda. Com sete janelas altas na parede sul e seis na parede norte, voltadas na direcção da luz do Sol ao longo de todo ano, era uma das salas mais agradáveis do mosteiro. As amplas vigas de madeira e as traves-mestras que suportavam as vigas ostentavam pinturas coloridas com cenas da vida de São Bonifácio, patrono de Fulda, estas contribuíam para aumentar a impressão de brilho e luz, pelo que a sala, tanto agora, nos dias frios e curtos do Heilagmanoth, como nos dias de Verão, era um espaço acolhedor e agradável.
Era a hora nona e os irmãos estavam reunidos no refeitório para
jantar, a primeira das duas refeições quotidianas. O abade Rábano estava sentado a uma comprida mesa em forma de U, cujo centro se encontrava do lado da parede oriental.
Estava rodeado de doze irmãos à sua esquerda e doze irmãos à sua
direita, representando os apóstolos de Cristo. Sobre as longas mesas encontravam-se pratos simples com pão, legumes e queijo. Os ratos corriam pelo chão de terra batida, por baixo da mesa, à procura de migalhas caídas.
De acordo com a Regra de São Bento, os irmãos tomavam sempre
as suas refeições sem falarem uns com os outros. O silêncio rigoroso só era quebrado pelo tilintar do metal das facas e dos copos e pela voz do leitor da semana, que ficava de pé, no púlpito, lendo uma passagem dos Salmos ou da Vida dos Padres.
— Tal como o corpo mortal necessita de comida terrena —
gostava de dizer o abade Rábano — assim também a alma deve prover ao seu sustento espiritual.
A regula taciturnitis — ou regra do silêncio — era um ideal
elogiado por todos, mas respeitado por poucos. Os irmãos tinham engendrado um esquema complicado de gestos e expressões faciais através das quais comunicavam durante as refeições.
Era possível desenvolver longas conversas através deste sistema,
especialmente quando o leitor era fraco, como era o caso naquele dia. O irmão Tomás lia com uma voz lenta e com tanto sotaque que se perdia completamente a cadência poética dos Salmos, para obviar às suas poucas capacidades, Tomás lia alto. A sua voz feria os ouvidos da irmandade. O abade Rábano pedia frequentemente ao irmão Tomás para ler, preferindo-o aos leitores do mosteiro mais capacitados porque, como ele dizia, uma voz demasiado doce convida o demónio a entrar no coração.
— Pssst.
Um bichanar abafado chamou a atenção de Joana. Levantando os
olhos do seu prato, viu o irmão Adalgar a fazer-lhe sinais do outro lado da mesa.
Ele levantou quatro dedos. O número simbolizava um capítulo da
Regra de São Bento, um veículo frequente para este tipo de comunicação fraterna, que favorecia as referências enigmáticas e as circunlocuções.
Joana recordou-se das frases iniciais do capítulo quarto: Omnes
supervenientes hospites tamquam Christus suscipiantur, dizia ele. Que todos os que chegam sejam recebidos como Cristo.
Joana percebeu imediatamente o que o irmão Adalgar queria dizer.
Tinha chegado uma visita a Fulda — alguém importante, ou o irmão Adalgar não se teria dado ao trabalho de o mencionar. Fulda recebia para cima de doze visitantes por dia, ricos e pobres, peregrinos bem vestidos e peregrinos andrajosos, viajantes cansados que vinham porque sabiam que ninguém os mandaria embora, que, ali, encontrariam repouso, abrigo e comida por alguns dias, antes de continuarem o seu caminho.
A curiosidade de Joana aguçou-se.
— Quem? — perguntou ela, silenciosamente, erguendo um pouco
as sobrancelhas.
Nesse momento, o abade Rábano fez sinal e os irmãos levantaram-
se da mesa todos ao mesmo tempo, alinhados por ordem de antiguidade. Ao saírem do refeitório, o irmão Adalgar foi ter com ela.
— Parens — murmurou ele e apontou para ela. — Parentes teus. Joana seguiu a irmandade, saindo do refeitório com o passo calmo
e comedido, assim como com a expressão plácida, adequada a um monge de Fulda. Não havia nada na sua expressão exterior que traísse a sua profunda agitação.
Será que o irmão Adalgar tinha razão? Será que algum parente seu
tinha vindo a Fulda? A sua mãe ou o seu pai? Parens, tinha dito Adalgar, o que podia significar uma coisa ou a outra. E se fosse o pai dela? Não esperaria encontrá-la a ela, mas sim ao seu irmão, João. Joana ficou assustada com este pensamento.
Se o pai descobrisse a sua impostura, de certeza que a denunciaria
logo.
Mas, talvez fosse a sua mãe. Gudrun não trairia o seu segredo. Ela
compreenderia que essa revelação custaria a vida a Joana.
Mamã. Há dez anos que Joana não a via e, quando se separaram,
tinha sido difícil. De repente, Joana desejou mais do que tudo ver o rosto familiar e amado de Gudrun, desejou abraçá-la e que ela a abraçasse, ouvi-la falar no ritmo cadenciado da Língua Antiga.
O irmão Samuel, o irmão hospitaleiro, interceptou-a, quando ela ia
a sair do refeitório.
— Estás dispensado das tuas obrigações desta tarde, veio alguém
para te visitar.
Dividida entre a esperança e o medo, Joana não disse nada. — Não fiques tão sério, Irmão, não é o Diabo que vem buscar a
tua alma imortal.
O irmão Samuel riu-se com vontade. Era um homem de bom
coração, jovial, amigo de gracejos e de graças. O abade Rábano tinha-o castigado anos a fio por causa das suas qualidades pouco espirituais, mas, tinha acabado por desistir e por o nomear hospitaleiro, uma função cujas tarefas mundanas de receber e cuidar dos visitantes se adequava perfeitamente ao irmão Samuel.
— Está aqui o teu pai — disse Samuel alegremente, satisfeito por
dar uma boa notícia. — Está à tua espera no jardim.
O medo estilhaçou a máscara de impassibilidade de Joana. Ela
recuou, abanando a cabeça:
— Não irei vê-lo. Eu... eu não posso.
O sorriso desapareceu dos lábios do irmão Samuel. — Ora, Irmão, não pode ser. O teu pai viajou desde Ingelheim até
aqui para falar contigo.
Ela tinha que encontrar uma explicação.
— As coisas não estão bem entre nós. Nós... discutimos... quando
eu saí de casa.
O irmão Samuel passou o braço pelo seu ombro: — Eu compreendo — disse ele, num tom condescendente. Mas,
ele é teu pai e veio de muito longe. Será uma obra de caridade falar com ele, nem que seja só por breves momentos.
Incapaz de encontrar um argumento contra isto, Joana ficou em
silêncio.
O irmão Samuel tomou o seu silêncio por aquiescência. — Anda. Vou levar-te até ele.
— Não! — ela sacudiu o braço com que ele a abraçava. O irmão Samuel estava espantado. Esta não era forma de se dirigir
ao hospitaleiro, um dos sete ofícios da abadia aos quais se devia obediência.
— O teu espírito está perturbado, Irmão — disse ele asperamente.
— Precisas de orientação espiritual. Discuti-lo-emos no capítulo de amanhã.
O que posso fazer?, pensou Joana consternada. Seria difícil, se não
mesmo impossível, esconder do pai a sua verdadeira identidade. Mas, uma discussão no capítulo seria catastrófica.
Não havia desculpa para o seu comportamento. Se se descobrisse
a sua desobediência, como tinha sido descoberta a de Gottschalk...
— Nonnus, perdoa — disse ela, utilizando o título de respeito
devido a um irmão mais velho — a minha falta de temperança e de humildade. Apanhaste-me de surpresa e, na minha confusão, esqueci o meu dever para contigo. Peço-te perdão, com toda a humildade.
Era uma boa desculpa. O ar sério do irmão Samuel dissolveu-se
num sorriso, ele não era homem para guardar ressentimentos.
— Estás perdoado, Irmão. Anda. Iremos juntos para o jardim. Enquanto saíam do mosteiro, passando pelos armazéns de víveres,
pelo moinho e a estufa de secagem, Joana avaliava rapidamente as suas hipóteses.
Da última vez que o pai a tinha visto, ela era uma criança de doze
anos. Tinha mudado muito nos dez anos seguintes. Talvez ele não a reconhecesse. Talvez...
Chegaram ao jardim com os seus canteiros semeados em filas
rectilíneas — treze ao todo. O número tinha sido escolhido cuidadosamente para simbolizar a sagrada congregação de Cristo e dos Doze na Última Ceia. Cada canteiro tinha exactamente sete pés de largura, isso também tinha um significado, uma vez que sete era o número de dons do Espírito Santo, o que simbolizava a plenitude de todas as coisas criadas.
O seu pai estava ao fundo do jardim, de costas para eles, entre
canteiros de mastruço e de cerefólio. O seu corpo atarracado, o seu pescoço grosso e a posição resoluta foram imediatamente familiares a Joana. Ela escondeu bem a sua cabeça dentro do capuz volumoso, de maneira a cobrir bem o cabelo e, tanto quanto possível, o rosto.
Ao ouvir os seus passos a aproximarem-se, o cónego virou-se. O seu cabelo escuro e as suas sobrancelhas fartas, que tinham
despertado, em tempos, tanto terror a Joana, estavam completamente grisalhos.
— Deus tecum — o irmão Samuel deu um empurrãozinho
encorajador à Joana. — Deus esteja contigo.
Depois, deixou-os.
O seu pai atravessou o jardim hesitante. Era mais baixo do que ela
pensava, ela reparou, com surpresa, que ele utilizava uma bengala para se apoiar. Quando ele se aproximou, Joana virou-se e, sem falar, fez-lhe sinal para que ele a acompanhasse. Levou-o do sol do meio-dia, que brilhava a pique, para a capela sem janelas que ficava junto ao jardim, onde a escuridão era mais segura. Uma vez lá dentro, esperou que ele se sentasse num banco. Depois, sentou-se ela própria na outra ponta do banco, de cabeça baixa, de forma a que o capuz lhe escondesse o perfil.
— Pater Noster qui es in caelis, sanctificatur nomen tuum... O seu pai começou a rezar o Pai-Nosso. As suas mãos cruzadas
tremiam de velhice, falava no tom trémulo e frágil de um velho. Joana juntou a sua voz à dele e as palavras de ambos fundiram-se e ecoaram na pequena sala com paredes em pedra.
Depois de terminada a oração, ficaram em silêncio durante algum
tempo.
— Meu filho — disse, finalmente, o cónego — fizeste bem. O
irmão hospitaleiro disse-me que vais ser padre. Honras a nossa família como eu esperei, um dia, que o teu irmão fizesse.
Mateus. A Joana apalpou o medalhão de Santa Catarina que tinha
pendurado ao pescoço, aquele que Mateus lhe tinha dado havia tanto tempo.
O pai apercebeu-se do seu gesto.
— A minha vista tornou-se fraca. Isso é o medalhão da tua irmã
Joana?
Joana largou-o, maldizendo a sua estupidez, não tinha pensado em
escondê-lo.
— Fiquei com ele como recordação... depois. — Ela não
conseguia falar do horror do ataque dos normandos.
— A tua irmã morreu sem ser... desonrada?
Joana lembrou-se de repente de Gisla, gritando de dor e de medo
enquanto os normandos a violavam à vez.
— Morreu pura.
— Deo gratias. — O cónego benzeu-se. — Então, foi a vontade de
Deus. Criança teimosa e desnaturada, nunca ficaria em paz com o mundo, foi melhor assim.
— Ela não teria dito isso.
Se o cónego se apercebeu da ironia na sua voz, não o deu a
entender.
— A sua morte foi um grande desgosto para a tua mãe. — Como está a minha mãe?
O cónego demorou muito tempo a responder. Quando, finalmente,
acabou por o fazer, a sua voz tremia ainda mais do que antes.
— Foi-se.
— Foi-se?
— Para o Inferno — disse o cónego — para arder para toda a
eternidade.
— Não — Joana atingiu os limites da sua compreensão. — Não. A
mamã, não, com o seu belo rosto, os seus olhos bondosos, as mãos delicadas que lhe davam ternura e conforto — a mamã, que a amava.
— Morreu há um mês — disse o cónego — sem absolvição e sem
se reconciliar com Cristo, invocando os seus deuses pagãos.
Quando a parteira me disse que ela não sobreviveria, eu fiz o que
pude, mas ela não aceitou os Santos Sacramentos. Eu meti-lhe a Hóstia Sagrada na boca, mas ela cuspiu-ma na cara.
— A parteira? Não quereis dizer...
A sua mãe tinha mais de cinquenta anos, já tinha passado, havia
muito, a idade de ter filhos, não tinha concebido mais nenhuma criança desde que Joana tinha nascido.
— Não me deixaram enterrá-la no cemitério cristão por causa da
criança não baptizada que lhe ficou no ventre.
Ele começou a chorar. O seu corpo estremecia todo com grandes
soluços.
Então, ele amava-a? Tinha uma forma estranha de o demonstrar,
com os seus acessos de fúria brutal, a sua crueldade e a sua luxúria, a sua luxúria egoísta, que tinha acabado por a matar.
Os soluços do cónego acalmaram e ele começou a rezar pela
morta. Desta vez Joana não o acompanhou. Silenciosamente, entredentes, começou a recitar o Juramento, invocando o nome sagrado de Thor, o deus do trovão, tal como a mamã lhe tinha ensinado havia muito tempo.
O pai pigarreou desconfortavelmente.
— Há uma coisa, João. A missão na Saxónia... achas que... quer
dizer, será que os irmãos precisam da minha ajuda no seu trabalho de conversão dos pagãos?
Joana estava perplexa.
— Então e o vosso trabalho em Ingelheim?
— É que a minha posição em Ingelheim tornou-se difícil. A
recente... desgraça... com a tua mãe.
Joana compreendeu imediatamente. As restrições ao casamento do
clero, que tinham sido raramente aplicadas durante o reinado do imperador Carlos, tinham endurecido no reinado do seu filho, cujo zelo religioso lhe tinha granjeado o título de Luís, o Piedoso. O recente sínodo de Paris tinha reafirmado veementemente tanto a teoria quanto a prática do celibato do clero. A gravidez de Gudrun, prova evidente da falta de castidade do cónego, não podia ter vindo em pior altura.
— Haveis perdido o vosso lugar?
O pai confirmou, relutante.
— Mas Deo volente, ainda tenho força e capacidade para fazer o
trabalho de Deus. Se pudesses interceder por mim junto do abade Rábano...
Joana não respondeu. Estava cheia de desgosto, ira e dor, não
havia lugar no seu coração para a compaixão pelo seu pai.
— Não me respondes. Tornaste-te orgulhoso, meu filho. Ele levantou-se e a sua voz assumiu algo do seu velho tom de
comando.
— Lembra-te que fui eu que te permiti que viesses para aqui e que
adquirisses a posição que tens agora na vida. Contritionem praecedi suerbia, et ante ruinam exaltatio spiritus — admoestou-a ele, rigidamente.
— O orgulho leva à destruição e um espírito altivo, à queda. Provérbios, capítulo dezasseis.
— Bonum est homini mulierem non tangere — ripostou Joana. —
É bom que o homem não toque numa mulher, Primeira aos Coríntios, capítulo sete.
O pai levantou a bengala para lhe bater, mas o movimento fez com
que ele perdesse o equilíbrio e caísse. Ela estendeu a mão para o ajudar, mas ele agarrou-se a ela, atirando-a ao chão.
— Meu filho — a sua voz soava chorosa aos seus ouvidos — meu
filho. Não me abandones. És tudo quanto eu tenho.
Enojada, ela recuou com tal violência que o seu capuz lhe
escorregou da cabeça. Ela puxou-o rapidamente, mas, era tarde de mais.
O rosto do seu pai ostentava uma expressão horrorizada ao
reconhecê-la.
— Não — disse ele, aterrado — não, não pode ser. — Pai...
— Filha de Eva, o que fizeste? Onde está o teu irmão, João? — Morreu.
— Morreu?
— Os normandos mataram-no, na igreja de Dorstadt. Eu tentei
salvá-lo, mas...
— Bruxa! Feiticeira! Demónio do Inferno!
Fez o sinal da cruz no ar, diante de si.
— Pai, por favor, deixai-me explicar...— pedia Joana,
desesperadamente. Ela tinha de o acalmar antes que os seus gritos atraíssem os outros.
Ele pegou na bengala e lutava desesperadamente para se pôr de pé,
com o corpo todo a tremer. Joana aproximou-se para o ajudar, mas ele repeliu-a e disse, num tom acusador:
— Mataste o teu irmão mais velho. Não podias ter poupado o mais
novo?
— Eu amava o João, Pai. Nunca lhe faria mal. Foram os
normandos, vieram de surpresa, com espadas e machados. - Ela controlou-se para não começar a chorar, tinha de continuar a falar, fazer com que ele compreendesse. — O João tentou resistir, mas eles mataram todos, todos. Eles...
Ele virou-se para a porta.
— Tenho de pôr termo a isto, antes que faças mais algum mal. Ela agarrou-lhe o braço.
— Pai, não, por favor, eles matam-me, se...
Ele virou-se para ela, ameaçador:
— Demónio tentador! Devias ter morrido no ventre da tua mãe
pagã antes de teres nascido! — Lutava para se libertar dela, com o rosto a enrubescer de uma forma alarmante. — Deixa-me!
Ela continuava a agarrá-lo, desesperada. Se ele passasse por
aquela porta, a sua vida estava condenada.
Soou uma voz da porta. Era o irmão Samuel:
— Irmão João. — com o seu rosto bondoso crispado de
preocupação. — Passa-se alguma coisa?
Surpreendida, Joana abrandou a pressão no braço do pai. Ele
libertou-se e dirigiu-se ao irmão Samuel.
— Levai-me ao abade Rábano. Eu tenho... eu ten... — ele
interrompeu-se de repente com um olhar surpreendido.
Ficou com uma expressão estranha. A sua pele tinha-se tornado
ainda mais vermelha, o seu rosto estava retorcido grotescamente, com o olho direito mais fechado do que o esquerdo e a boca retorcida para um lado.
— Pai! — Ela aproximou-se, hesitando, estendendo a mão. Ele dirigiu-se para ela, com o braço direito mexendo-se como se
tivesse perdido o controlo sobre ele.
Aterrada, Joana recuou.
Ele gritou qualquer coisa incompreensível, depois, caiu como uma
árvore cortada.
O irmão Samuel gritou por ajuda. Apareceram imediatamente
cinco irmãos à porta.
Joana ajoelhou-se ao lado do pai e segurou-o nos seus braços. A
sua cabeça pendia pesadamente contra o seu ombro. O seu cabelo juntava-se aos seus dedos. Ao fitá-lo nos olhos, Joana ficou chocada com o ódio maligno que viu neles.
Os seus lábios moviam-se determinados:
— M... m... m...!
— Não tenteis falar — disse Joana. — Não estais bem. Ele fitou-a com uma fúria selvagem. Com um último esforço
explosivo, cuspiu uma única palavra:
— M... m... m... mulier!
Mulher!
A sua cabeça virou-se convulsivamente para o lado e ficou nessa
posição. Os seus olhos ficaram a fitar o vazio.
Joana debruçou-se sobre ele, procurando sinais de respiração
vindos dos seus lábios retorcidos, assim como qualquer pulsação no seu pescoço exausto. Depois, fechou-lhe os olhos.
— Está morto.
O irmão Samuel e os outros benzeram-se.
— Pensei que o tinha ouvido falar antes de morrer — disse o
irmão Samuel. — O que é que ele disse?
— Ele... ele invocou Maria, mãe de Cristo.
O irmão Samuel abanou a cabeça gravemente. — Um santo homem.
E disse para os outros:
— Levai-o para a igreja. Prepararemos o seu corpo com a
cerimónia devida.
— Terra es, terram ibis — entoou o abade Rábano. Tal como o
resto da irmandade, Joana inclinou-se para pegar num punhado de terra, depois lançou-o para a sepultura e ficou a ver os torrões de terra escura e húmida a escorregarem sobre a madeira macia do caixão do seu pai.
Ele sempre a tinha odiado. Mesmo quando ela era pequena, antes
de ter sido declarada guerra entre ambos, ela nunca tinha obtido dele mais do que uma tolerância azeda e condescendente. Para ele, ela não passava de uma rapariga estúpida e inútil. Mesmo assim, ela estava chocada por causa de se ter apercebido de como ele estava disposto a denunciá-la, de como ele a teria entregado, sem hesitação, a uma morte inenarrável.
Apesar disso, quando as últimas pás de terra cobriram a sepultura
do seu pai, Joana sentiu uma melancolia estranha e inesperada. Ela não se lembrava de alguma vez não ter ficado ofendida com o seu pai, de não o ter temido, mesmo odiado.
Mas, sentia uma estranha sensação de perda. Mateus, João, a
Mamã — todos tinham partido. O seu pai era a última ligação a casa, à rapariga que ela tinha sido em tempos. Já não havia nenhuma Joana de Ingelheim, só havia o João Anglicus, sacerdote e monge da casa beneditina de Fulda.
Capítulo 17
Fontenoy, 841
O prado brilhava à luz sombria e parda da madrugada, atravessado
pelas suaves linhas sinuosas de um ribeiro.
Cenário pouco adequado a uma batalha, pensou Geraldo,
amargamente.
O imperador Luís tinha morrido havia menos de um ano, mas o
fogo da rivalidade entre os três filhos já tinha ateado uma guerra civil.
O mais velho, Lothar, tinha herdado o título de Imperador, mas as
terras do Império foram divididas entre ele e os seus dois irmãos mais novos, Carlos e Luís — combinação insensata e perigosa que deixou todos os três filhos descontentes. Mesmo assim, a guerra poderia ter sido evitada se Lothar fosse mais habilidoso na diplomacia. Peremptório e despótico por natureza, Lothar tratava os seus irmãos mais novos com uma arrogância que os levou a unirem-se em rebelião aberta contra ele. Assim, os três herdeiros ao trono acabaram por vir aqui a Fontenoy, determinados em resolver os seus diferendos através do derramamento de sangue.
Depois de uma longa hesitação, Geraldo acabou por tomar o
partido por Lothar. Ele conhecia bem os defeitos de Lothar, mas, enquanto Imperador sagrado, ele era a única esperança para um reino franco unido. As divisões que tinham assolado o país ao longo do ano anterior tinham custado um preço terrível: os normandos, aproveitando-se do caos resultante da desordem política, tinham intensificado os seus ataques à costa franca, provocando grande destruição. Se Lothar obtivesse uma vitória decisiva aqui, os seus irmãos não teriam outra opção senão apoiá-lo. Um país governado por um tirano era, melhor do que não haver, sequer, país.
Começou o bater das tábuas para reunir os homens. Lothar tinha
decidido que haveria uma missa de manhã cedo para encorajar tropas, antes da batalha.
Geraldo deixou as suas meditações solitárias e regressou ao
acampamento.
Vestido com uma casula dourada, o bispo de Auxerre estava em
cima de um carro de mantimentos para que todos pudessem vê-lo.
— Libera me, Domine, de morte a eterna — cantava ele numa voz
de barítono, enquanto dezenas de acólitos passavam entre os homens, distribuindo a hóstia consagrada.
Muitos dos soldados eram coloni e camponeses sem qualquer
experiência no exército, homens que, normalmente, estariam isentos do bannum imperial requerido para o serviço militar.
Mas, estes dias não eram normais. Muitos tinham sido arrancados
ao lar, tendo-lhes sido dada pouco mais de uma hora para tratar dos seus negócios ou para se despedirem dos seus entes queridos. Estes recebiam a hóstia distraidamente, não estando preparados para a morte. Os seus pensamentos estavam ainda agarrados às coisas deste mundo das quais tinham sido separados de uma forma tão abrupta: os seus campos, os seus haveres, as suas dívidas, as suas esposas e as crianças que tinham deixado. Fora de si e assustados, ainda não se tinham apercebido da situação tremendamente perigosa em que se encontravam, não podiam acreditar que os esperava a luta e a morte em terra desconhecida, em nome de um imperador cujo nome, alguns dias atrás, não passava de um eco distante nas suas vidas. Quantos destes inocentes sobreviverão para ver o Sol a pôr-se hoje?, pensou Geraldo.
— Ó Senhor dos Exércitos — rezava o bispo, ao concluir a missa
— Campeão contra o inimigo, Granjeador de vitórias, concedei-nos a protecção da Vossa ajuda e a espada da Vossa glória para a destruição dos nossos inimigos. Ámen.
— Ámen.
O ar reverberou com o som de milhares de vozes. Pouco depois,
os primeiros raios de sol assomaram no horizonte, espalhando a sua luz pelo campo, fazendo brilhar as pontas das suas espadas e flechas como pedras preciosas. Os homens deram um grito de alegria.
O bispo retirou o pallium e deu-o a um acólito que esperava. Ao tirar a sua casula, deixou-a cair ao chão e, por baixo dela,
apareceu a cota de um soldado: a brunia, o grosso casaco em cabedal mergulhado em cera quente e cerzido com placas de aço, e a bauga, as chuteiras em metal.
Então, ele tenciona combater, pensou Geraldo. A rigor, o ministério sagrado do bispo proibia que ele derramasse
sangue de outro homem, mas, na prática, este ideal piedoso era muitas vezes esquecido, os bispos e os sacerdotes lutavam ao lado dos seus reis como qualquer outro vassalo real.
Um dos acólitos estendeu ao bispo uma espada com o sinal da
cruz gravado. O bispo levantou a espada e a cruz em ouro reluziu ao sol.
— Louvado seja Jesus Cristo! — gritou ele. — Ao ataque, bons
cristãos!
Geraldo comandava o flanco esquerdo, colocado no cimo de uma
colina que bordejava o extremo sul do campo. Na colina oposta, o sobrinho de Lothar, Pepino, comandava o flanco direito, um contingente enorme e bem armado de aquitanos. A vanguarda, comandada pelo próprio Lothar, encontrava-se por trás da orla de árvores que marcava o extremo oriental da pradaria, de frente para o inimigo.
O garanhão baio de Geraldo baixou a cabeça, assoprando
impacientemente. Inclinando-se, Geraldo passou a mão pelo seu pescoço russo, acalmando-o. Era melhor reservar aquela energia fogosa para o ataque, quando ele viesse.
— Já vai, — murmurou ele firmemente — já vai. Olhou para o céu. Eram seis horas, a primeira hora da manhã. O Sol, ainda baixo no horizonte, batia directamente nos olhos do
inimigo. Ainda bem, pensou Geraldo. É uma vantagem que podemos utilizar. Olhou para Lothar, à espera do sinal para avançar. Passou um quarto de hora e não vinha nenhum sinal. Os exércitos inimigos estavam alinhados frente a frente, fitando-se através da grande extensão de verde. Passou outro quarto de hora. Depois, outro. E mais outro.
Geraldo rompeu as fileiras e cavalgou colina abaixo, em direcção
à linha da frente, onde Lothar estava montado sob uma floresta de estandartes.
— Majestade, porque esperamos? Os homens estão impacientes
para avançar.
Lothar olhou do alto do seu nariz empinado, irritado: — Eu sou o Imperador, não é adequado que seja eu a ir ao
encontro dos inimigos.
Ele não gostava de Geraldo, que era demasiado independente para
o seu gosto, resultado, sem dúvida, dos anos que tinha passado entre pagãos e bárbaros no Norte do Império.
— Mas, Senhor, olhai para o Sol! Agora, somos nós que estamos
em vantagem, mas, dentro de uma hora, ela terá desaparecido!
— Confiai em Deus, conde Geraldo — ripostou Lothar
altivamente. — Eu sou o rei consagrado pelos Céus, Ele não deixará de nos conceder a vitória.
Pelo tom decidido de Lothar, Geraldo compreendeu que não valia
a pena continuar a insistir. Curvou-se com rigidez, virou o cavalo e regressou à sua posição.
Talvez Lothar tivesse razão e Deus lhes concedesse a vitória. Mas,
será que Ele não estaria à espera de uma ajudinha dos homens?
Eram quase dez horas, o Sol estava a aproximar-se do zénite. Maldição, praguejou Geraldo entredentes. O que raio está Lothar a
pensar? Há quase quatro horas que estavam à espera. O sol batia nas suas cotas em aço, aquecendo-as de tal forma que os homens se torciam, desconfortáveis. Aqueles que tinham de fazer as suas necessidades, eram obrigados a fazê-las onde estavam porque não podiam quebrar a forma, o cheiro desagradável começava a fazer-se sentir no ar quente.
Nestas circunstâncias difíceis, Geraldo ficou contente ao ver que
se aproximava um pequeno grupo de servos, trazendo barris de vinho. Os homens tinham calor e tinham sede, um bom copo de vinho era justamente aquilo que precisavam para animar os seus espíritos abatidos. Ouviu-se um suspiro de satisfação, à medida que os homens começaram a circular, distribuindo copos cheios de vinho tinto dos Francos. Geraldo serviu-se e sentiu-se muito melhor. Mas, não se permitiu nem permitiu aos seus homens que bebessem mais do que um copo. Enquanto um pouco de vinho podia aumentar a coragem de um homem, muito vinho podia fazer dele um tolo, tornando-o um perigo para si próprio e para os seus companheiros.
Lothar não manifestava essa preocupação. Generoso, encorajou os
seus a continuarem a beber. Gritando e tagarelando, vangloriando-se da sua habilidade com as armas, os homens da sua vanguarda disputavam uma posição, atropelavam-se uns aos outros para ganharem a honra de ficarem na fila da frente, empurrando-se e dando encontrões uns aos outros como crianças desobedientes — que eram, de facto, tirando um punhado de veteranos experientes, a maior parte não tinha mais de dezoito anos.
— Eles vêm aí! Eles vêm aí!
O grito ecoou pelas filas de soldados. O exército inimigo
avançava, devagar, de forma a que os peões e archeiros apeados pudessem acompanhar a cavalaria, que avançava à sua frente. O efeito era solene, majestoso, parecendo mais uma procissão religiosa do que o cenário de uma batalha. Na vanguarda de Lothar, havia uma desordem enorme, enquanto os homens procuravam recuperar os elmos, lanças e escudos espalhados.
Tinham acabado de conseguir montar quando a cavalaria inimiga
que se pôs a galope, abatendo-se sobre eles com uma velocidade terrível, fazendo com que a terra vibrasse com um ribombar ensurdecedor, como se se tratasse de milhares de trovões.
Os estandartes da vanguarda imperial caíram e voltaram a
levantar-se, assinalando a carga de resposta. A cavalaria avançou, com os cascos dos cavalos pisando a turfa verde à medida que avançavam com os pescoços esticados.
O baio de Geraldo saltou em resposta, Geraldo puxou-lhe as
rédeas.
— Ainda não.
Geraldo e os seus homens tinham de esperar, o flanco esquerdo
seria o último a entrar em campo, depois de Lothar e Pepino.
Como duas grandes ondas, os exércitos inimigos avançaram um
para o outro. Quarenta mil nobres, o orgulho da nobreza franca cavalgando em filas cerradas com meia milha de comprimento e de fundura.
Com um grito selvagem, um grupo da vanguarda imperial saiu da
forma, esporeando os cavalos numa corrida desordenada, fazendo corridas uns com os outros para disputarem a glória de serem os primeiros a enfrentar o inimigo diante do imperador.
Geraldo olhava, desgostoso. Se continuassem assim, chegariam ao
regato demasiado cedo e seriam apanhados dentro de água, enquanto o inimigo os combateria a partir da margem.
Ébrios de vinho e de juventude, os cavaleiros de Lothar
avançaram direitos ao rio e colidiram com o inimigo, provocando um estrondo tão ensurdecedor como o de dois ossos gigantescos a partirem. Lutaram corajosamente, em grande desvantagem porque tinham de atacar a partir de uma posição inferior, enquanto o inimigo se encontrava na margem, falhando o alvo quando os cavalos tropeçavam, para se conseguirem equilibrar nas pedras escorregadias. Os que eram atingidos, caíam na água onde atolados em lama e lutando para se levantar contra o peso das suas cotas, eram pisados pelos seus próprios cavalos, em pânico.
Os homens das fileiras anteriores viram o que se passava à frente,
mas aproximavam-se a uma velocidade tal que não podiam parar sem serem atropelados violentamente pelos que vinham atrás deles. Também eles eram forçados a entrar nas águas barrentas, que corriam, agora, umas vezes brancas, outras, vermelhas de sangue, levando involuntariamente os sobreviventes da primeira carga ao encontro das espadas do inimigo.
A cavalaria, que incluía Lothar, conseguiu-se aperceber a tempo,
rodaram os seus cavalos e recuaram, cavalgando pelo campo, de uma forma desordenada, que fez com que chocassem de frente com as filas de homens apeados que seguiam atrás deles.
Estes entraram numa confusão frenética, tentando libertar-se das
suas armas e escapar pelos lados, para evitar a investida precipitada.
Era uma confusão. A única esperança estava nos flancos,
comandados por Pepino e por Geraldo. Na posição em que se encontravam, podiam irromper pelo campo por trás do ribeiro e atacar directamente o rei Luís, no centro. Olhando para a encosta em frente, Geraldo viu que Pepino e os seus aquitanos se tinham virado, lutando de costas para o campo. O rei Carlos devia ter dado a volta, atacando-os pelas costas.
Não havia nada a fazer.
Geraldo voltou a olhar para o campo de batalha. A maior parte dos
homens de Luís tinham atravessado o ribeiro, perseguindo Lothar, em retirada, enfraquecendo involuntariamente as suas fileiras e deixando, assim, o rei momentaneamente indefeso. Era uma hipótese em mil, mas uma hipótese desesperada era melhor do que nenhuma hipótese.
Geraldo pôs-se de pé nos seus estribos, erguendo a sua lança. — Avançar! — gritou ele — Em nome do Imperador! — Em nome do Imperador!
O grito ergueu-se como o ladrar de uma matilha de cães e ficou a
ecoar atrás deles, enquanto eles desciam a colina, como se fossem uma grande cunha em voo, dirigida para o local onde o estandarte escarlate e azul de Luís adejava à luz do sol de Verão.
O pequeno bando de homens que tinham ficado com o rei lutava
para cerrar fileiras diante dele. Geraldo e os seus homens desceram ao seu encontro, abrindo caminho pelo meio das fileiras.
Geraldo atingiu o primeiro homem com uma lança, que lhe
trespassou o peito e se partiu com o impacto do golpe. O homem saltou da sela, levando a lança espetada consigo. Armado apenas com a sua espada, Geraldo avançou com uma determinação selvagem, desferindo golpes à esquerda e à direita para abrir caminho, persistentemente, através da turba, na direcção do estandarte flutuante. Os seus homens entraram pelos lados e por trás, alargando o caminho que ele tinha aberto.
Jarda a jarda, palmo a palmo, a guarda de Luís cedia à investida.
Então, de repente, o caminho ficou livre. Mesmo à frente de Geraldo, ergueu-se o estandarte real, um grifo vermelho sobre um fundo azul. Diante dele, montado num cavalo branco, estava o próprio rei Luís.
— Rendei-vos — gritou Geraldo a plenos pulmões para se fazer
ouvir no meio do barulho. — Rendei-vos e sereis poupado!
Em resposta, Luís desfechou um golpe de espada sobre Geraldo,
partindo-lhe a espada. Lutaram corpo a corpo num combate igual em força e habilidade, até que um cavalo que se encontrava perto desfechou um coice, ao ser atingido por uma seta, fazendo com que a montada de Geraldo se empinasse e caísse violentamente. Luís aproveitou-se da situação de vantagem em que tinha ficado momentaneamente, desferindo um golpe oportuno no pescoço de Geraldo. Geraldo desviou-se e descaiu para o lado de dentro, por baixo do braço com o qual o rei empunhava a espada, espetando a sua própria lâmina entre as costelas do rei.
Luís tossiu e veio-lhe à boca uma golfada de sangue; o seu corpo
torceu-se lentamente e escorregou da sela, batendo no chão pisado.
— O rei morreu! — gritaram os homens de Geraldo, exultantes. — Luís foi derrotado!
O grito fez-se ouvir, ecoando no meio das hostes. O corpo de Luís estava pendurado na sela, com um pé preso nos
arreios. O seu cavalo empinou-se, dando patadas no ar e arrastando o corpo do rei pela terra revolvida. O elmo cónico com a placa protectora do nariz soltou-se e caiu, mostrando um rosto morto, com um nariz largo, completamente desconhecido.
Geraldo praguejou. Era um truque de um cobarde, indigno de um
rei. Aquele não era Luís, mas sim um sósia, vestido como o rei para os enganar.
Não havia tempo para lamentos porque foram imediatamente
rodeados pelas tropas de Luís. Guardando os flancos uns dos outros, Geraldo e os seus homens procuravam escapar da cilada do inimigo, lutando com determinação para saírem do perímetro do círculo.
Geraldo viu subitamente um pedaço de verde e respirou uma
lufada de ar fresco e perfumado. Mais alguns metros e estariam livres, com campo aberto e espaço de manobra para retirarem.
Um homem atravessou-se no caminho de Geraldo, plantando-se
como uma árvore. Geraldo tomou nota, rapidamente, da sua altura — era um homem alto, corpulento, com uma grande barriga, braços possantes, brandindo uma maça, uma arma de força, não habilidade. Geraldo desfechou a sua espada à esquerda; quando o homem se voltou para lhe responder, Geraldo recuou rapidamente, desferindo um golpe penetrante no outro braço. O homem praguejou e passou a maça rapidamente para a mão esquerda.
Por trás dele, fez-se ouvir um som sussurrante, como o do bater de
asas de pássaros.
Geraldo sentiu uma dor súbita e atordoante nas costas no momento
em que uma seta lhe trespassou o braço direito.
Indefeso, viu a sua própria espada escorregar-lhe dos seus dedos
subitamente dormentes.
O homenzarrão levantou a sua pesada maça e rodopiou. Geraldo
moveu-se para lhe tentar fugir, sabendo que era tarde de mais.
Pareceu-lhe que algo tinha explodido dentro da sua cabeça quando
o golpe o atingiu, mergulhando-o numa escuridão total.
As estrelas brilhavam com uma beleza imperturbável sobre o
campo, mergulhado na escuridão e pejado de corpos daqueles que tinham caído na batalha. Vinte mil homens tinham acordado naquela manhã e jaziam, agora, mortos ou moribundos na noite escura — nobres, vassalos, camponeses, mercadores, pais, filhos, irmãos — a grandeza passada de um império e a esperança esfumada do seu futuro.
Geraldo mexeu-se e abriu os olhos. Ficou acordado por alguns
momentos, olhando para as estrelas, incapaz de se recordar de onde estava e do que tinha acontecido. Chegou-lhe às narinas um cheiro forte, desagradável e enjoativamente conhecido.
Sangue.
Geraldo sentou-se. O movimento brusco provocou-lhe uma
explosão de dor dentro da cabeça e a dor fez com que ele recuperasse a memória. Tocou no seu ombro direito; a seta que o tinha atingido ainda se encontrava alojada no ombro, trespassando a carne de um lado ao outro, mesmo por cima do seu braço. Tinha de sair, senão a ferida infectava. Apertando o braço contra o corpo, puxou a ponta em aço, depois puxou a mão esquerda e, de um só golpe, puxou a ponta da seta.
Gritou e praguejou por causa da dor aguda, lutando para
permanecer consciente. Depois, a dor começou a abrandar e ele tomou consciência do que se passava à sua volta. O chão estava cheio de espadas abandonadas, de escudos partidos, membros decepados, estandartes esfarrapados, cadáveres rígidos — os despojos sinistros de uma batalha.
Da colina onde Carlos e Luís estavam acampados, subiam sons da
celebração da vitória, gracejos bíbulos e risos roucos, que ecoavam no silêncio profundo do vale. A luz das tochas dos vitoriosos luzia, tremelicante, iluminando o campo com uma luz sombria. Do acampamento do imperador, na colina oposta, não vinha qualquer som, nem havia nenhuma fogueira; a colina estava silenciosa, escura e calma.
Lothar tinha sido derrotado. As suas tropas, ou o que restava delas,
tinha-se refugiado na floresta da cercania, procurando esconder-se como podiam do inimigo.
Geraldo levantou-se, lutando contra as náuseas. Alguns passos
mais adiante, encontrou o seu garanhão baio, horrivelmente ferido, agitando no ar as patas da frente. Tinha sido atingido por trás; as suas entranhas saíam-lhe pela ferida que tinha no ventre. Quando Geraldo se aproximou dele, uma forma pequena e furtiva mexeu-se, alerta: era um cão magro e esfomeado, que vinha para o festim do banquete nocturno.
Geraldo esbracejou ameaçadoramente e o cão fugiu, de lado,
ressentido. Geraldo ajoelhou-se junto ao seu cavalo, afagando-lhe o pescoço, falando-lhe baixinho; em resposta ao toque familiar, as convulsões angustiantes abrandaram, mas os olhos estavam abertos na agonia da dor. Geraldo tirou a sua faca do cinto. Premindo-a com força, para ter a certeza de que atingia a veia, passou o fio pelo pescoço do cavalo. Depois, segurou-o, falando-lhe mansamente ao ouvido, até que as grandes pernas deixaram de tremer e o flanco musculoso relaxou mansamente entre as suas mãos.
De repente, ouviu-se um murmúrio de vozes por trás de Geraldo: — Olha! Aqui está um elmo que vale pelo menos um soldo!
— Deixa-o — disse outra voz, mais grave e autoritária. — Não
vale a pena, está rasgado na parte detrás, não vês? Aqui, rapazes, aqui há coisas melhores para levar!
Larápios. O rescaldo da guerra atraía este tipo de foras-da-lei,
afastando-os das estradas e caminhos, onde assaltavam habitualmente, porque os mortos eram presa mais fácil do que os vivos. Moviam-se furtivamente no escuro, despojando as suas vítimas de roupas, armas, armaduras e anéis — tudo o que valesse alguma coisa.
Soou uma voz perto:
— Este está vivo!
Ouviu-se o som de uma pancada e um grito que cessou
bruscamente.
— Se houver outros — disse outra voz — trata-os da mesma
maneira. Não queremos testemunhas para que ainda nos ponham uma corda ao pescoço.
Dali a pouco, estariam junto dele. Geraldo levantou-se,
cambaleando. Depois, mantendo-se na sombra, esgueirou-se na escuridão dos bosques por trás.