A Papisa Joana
Capítulo 5 · — Não, não, não.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
pernas compridas faziam-no andar depressa; a Joana teve de dar uma corrida para o apanhar.
Não falaram durante alguns minutos. Depois, Geraldo disse, de
repente:
— Portaste-te bem lá dentro, com o Odo.
— Acho que ele não gosta de mim.
— Não, não gosta. Odo é muito cioso da sua dignidade, guarda-a
como um homem guarda uma moeda quando já tem poucas.
Joana sorriu para Geraldo, simpatizando com ele. Num impulso,
decidiu que ia confiar nele.
— Aquela era a... mulher do bispo?
Ela tropeçou na palavra, envergonhada. Toda a vida tinha pensado
que o casamento dos seus pais era algo vergonhoso. Era um sentimento pueril, mal formulado e jamais admitido, mas muito profundo. Uma vez, observando que Joana era sensível a esta questão, Asclépios explicou-lhe que aqueles casamentos não eram raros entre o baixo-clero. Mas, um bispo...
— Mulher? Ah, referes-te à Theda. — Geraldo riu-se. — Não, o
senhor meu bispo não é do género de se casar. Theda é uma das suas amantes.
Amantes! O bispo tinha amantes!
— Ficaste chocada. Não fiques. Fulgêncio — o senhor meu bispo
— não é um homem piedoso. Herdou o título do tio, que foi bispo antes dele. Nunca foi ordenado e não tem qualquer pretensão à santidade, como deves ter reparado. Mas, verás que, apesar de tudo, é bom homem. Admira o saber, apesar de não ser instruído. Foi ele que fundou a escola.
Geraldo falava com ela abertamente, não como se ela fosse uma
criança, mas sim como alguém que compreendia. Joana gostou disso. Mas, as suas palavras eram perturbantes. Seria correcto para um bispo, um príncipe da Igreja, viver assim? Ter... amantes? Era tudo tão diferente daquilo que ela esperava.
Chegaram aos portões de entrada do palácio. Pagens vestidos de
seda vermelha abriram os grandes portões de carvalho; a luz das tochas da galeria desapareceu progressivamente na escuridão.
— Anda — disse Geraldo. — Sentir-te-ás melhor depois de uma
noite de sono.
Dirigiu-se apressadamente para os estábulos.
Insegura, Joana seguiu-o na noite fria.
Geraldo apontou para a esquerda e Joana seguiu a direcção do seu
braço. Ao longe, apenas conseguia vislumbrar o vulto escuro de um conjunto de construções recortadas contra o céu banhado de luar.
— Villaris, a minha casa... e, a partir de agora, também a tua. Mesmo às escuras, Villaris era lindíssima. Situada, altivamente, no
cimo de uma colina, aos olhos da Joana, era enorme. Era constituída por quatro possantes torres de madeira, ligadas por uma série de pátios e de esplêndidos pórticos em madeira. Geraldo e Joana passaram pelas robustas paliçadas em madeira que protegiam a entrada principal e por vários edifícios exteriores: uma cozinha, um forno, um estábulo, uma moagem e dois celeiros. Desmontaram do cavalo num pequeno pátio e Geraldo entregou a montada aos cuidados de um criado de estrebaria, que esperava por ele. Tochas de resina, colocadas a intervalos regulares, iluminaram o seu trajecto por um corredor comprido e sem janelas, ao longo de cujas grossas paredes em madeira estavam dispostas armas reluzentes: grandes espadas, lanças, azagaias, bestas e machados, lâminas pequenas, pesadas e de um único fio, como usavam os corajosos homens da infantaria franca. Passaram num segundo grande pátio, rodeado de pórticos cobertos e entraram na grande sala, propriamente dita, um espaço vasto, decorado com ricas tapeçarias. No centro da sala estava a mulher mais bela que Joana já tinha visto, além da sua própria mãe. Mas, enquanto Gudrun era alta e loura, esta mulher era baixa e franzina, com cabelo cor de ébano e uns grandes olhos escuros e altivos. Esses olhos encararam friamente a Joana, examinando-a com uma expressão que a inquietou.
— O que é isto? — perguntou ela abruptamente, quando se
aproximaram.
Ignorando a sua rudeza, Geraldo respondeu:
— Joana, esta é a minha esposa, Richild, a senhora desta casa.
Richild, apresento-te a Joana de Ingelheim, que chegou hoje para estudar na escola.
Joana fez uma vénia desajeitada, enquanto Richild a olhava com
desprezo, antes de se dirigir a Geraldo.
— Na escola? É alguma brincadeira?
— Fulgêncio admitiu-a e ela vai ficar a residir aqui em Villaris
durante os seus estudos.
— Aqui?
— Pode partilhar a cama com Gisla, que terá uma companhia
sensata, para variar.
As sobrancelhas graciosas de Richild ergueram-se altivamente. — Parece uma escrava.
Joana corou com o insulto.
— Enganas-te, Richild — repreendeu-a Geraldo, severamente — a
Joana é uma convidada nesta casa.
Richild suspirou:
— Bem — tocou na túnica nova da Joana, em linho verde — pelo
menos, parece estar asseada.
Fez um sinal a uma das criadas.
— Mostra-lhe o caminho para o quarto.
Sem dizer palavra, saiu da sala.
Mais tarde, deitada no colchão de palha macia, no andar de cima
do dormitório, ao lado de Gisla, que ressonava (e que nem sequer acordou quando Joana se deitou ao lado dela), Joana pensou no irmão. Ao lado de quem estaria ele a dormir agora... se é que conseguia dormir? Ela não conseguia; a sua mente estava povoada de pensamentos e emoções perturbantes. Tinha saudades do ambiente da sua casa, especialmente, da sua mãe.
Queria que ela voltasse a abraçá-la, a acarinhá-la e a chamar-lhe
passarinho. Não devia ter partido assim — em silêncio e zangada, sem uma palavra de despedida. Gudrun tinha-a traído diante do emissário do bispo, era verdade, mas a Joana sabia que ela o tinha feito por causa de a amar muito, porque não podia suportar ver a sua filha partir. Agora, talvez a Joana não voltasse a ver a sua mãe. Tinha aproveitado a oportunidade para fugir, sem pensar nas consequências. Não podia voltar para casa, era certo. O pai matá-la-ia por desobediência. Agora, o seu lugar era aqui, nesta terra estranha e inóspita e era aqui que ela ficaria, a bem ou a mal.
Mamã, pensou ela, olhando para a escuridão do quarto
desconhecido, e uma lágrima começou a correr-lhe pela face.
Capítulo 8
A sala de aula, um compartimento pequeno e com as paredes em
madeira ao lado da biblioteca da catedral, era fria e húmida mesmo nas tardes quentes de Outono. Joana adorava a sua frescura e o cheiro a pergaminho que impregnava o ar, um incentivo à exploração da vasta colecção de livros que ficava do outro lado da porta.
Havia uma pintura enorme a cobrir a parede da frente da sala.
Representava uma mulher vestida com as longas vestes dos gregos. Na sua mão esquerda, tinha um par de tesouras, na mão direita, um chicote. A mulher representava a Sabedoria; as suas tesouras serviam para extirpar o erro e os falsos dogmas; o seu chicote, para castigar os estudantes preguiçosos. As sobrancelhas da Sabedoria eram muito juntas e os cantos da sua boca estavam inclinados para baixo, dando-lhe uma expressão severa. Os olhos escuros brilhavam na pintura, parecendo olhar para quem os observava. Era um olhar duro, imperativo. Odo tinha mandado fazer a pintura pouco depois de ter assumido o cargo de mestre de estudos.
— Bos mugit, equus hinnit, asinus rudit, elephans barrit... Do lado esquerdo da sala, os estudantes menos avançados
cantavam monotonamente, praticando formas verbais simples.
— As vacas mugem, os cavalos relincham, os burros zurram, os
elefantes barrem...
Odo regia com a sua mão esquerda, estabelecendo o compasso do
canto. Entretanto, os seus olhos percorriam a sala com uma atenção treinada, vigiando o trabalho dos outros estudantes.
Ludovico e Ebbo estavam ambos debruçados sobre um salmo. Era
suposto estarem a decorá-lo, mas, pela posição das suas cabeças, quase juntas, dava a impressão que já não estavam concentrados no trabalho.
Sem deixar de marcar o ritmo do canto com a outra mão, bateu na
nuca de ambos os rapazes com uma vara de madeira. Eles gritaram e voltaram a debruçar-se sobre as suas tábuas, modelos de concentração.
Perto, o João estava a estudar um capítulo de Donato. Era evidente
que estava com grandes dificuldades. Lia lentamente, soletrando cada vogal e consoante a custo, parando frequentemente para coçar a cabeça, embaraçado por qualquer palavra desconhecida.
Sentada à parte dos outros — porque eles não tinham nada a ver
com ela — Joana dedicava-se à tarefa que Odo lhe tinha dado, preparando uma cópia da vida de Santo António.
Trabalhava depressa: o seu estilete viajava pelo pergaminho com
segurança e precisão. Não levantava os olhos e não se distraía nem por um segundo. A sua concentração era absoluta.
Odo disse pouco depois:
— Já chega por hoje. Este grupo — apontou para os novatos —
está dispensado. O resto fica nos seus lugares até eu ter visto o seu trabalho.
Os novatos levantaram-se excitados, saindo tão depressa quanto o
decoro lhes permitia. Os outros estudantes poisaram os seus estiletes e olharam para Odo, na expectativa, ansiosos por serem dispensados para gozarem a tarde quente.
Joana continuou debruçada sobre o seu trabalho.
Odo franziu o sobrolho. Tinha de admitir que o zelo da rapariga o
tinha surpreendido. A sua mão estava morta por utilizar a vara nela, mas, até aqui, ela ainda não lhe tinha dado oportunidade. Parecia querer realmente aprender.
Odo dirigiu-se para a sua secretária e debruçou-se sobre ela. Ela
parou de trabalhar, surpreendida, senão mesmo - seria possível? desapontada.
— Chamastes-me, senhor? Perdoai; estava concentrada no meu
trabalho e não vos ouvi. — disse a Joana delicadamente.
Desempenha bem o seu papel, pensou Odo. Mas, não me engana. Oh, ela fingia respeito e submissão sempre que ele se lhe dirigia,
mas ele lia a verdade nos olhos dela. Na sua alma, ela troçava dele e desafiava-o. E isso, Odo não o toleraria.
Debruçou-se para examinar o trabalho dela, misturando os
pedaços de pergaminho, em silêncio.
— A mão — disse ele — não é suficientemente perfeita. Aqui e
aqui — apontou para o pergaminho com um longo dedo branco — não fazes as tuas letras suficientemente redondas. Criança, que explicação me dás para um trabalho tão descuidado?
Descuidado! Joana estava indignada. Tinha escrito dez páginas de
glosa — muito mais do que qualquer outro estudante era capaz de fazer no dobro do tempo. O seu raciocínio era exacto e nem mesmo Odo o podia negar. Ela tinha visto os seus olhos a brilharem, ao examinar uma passagem onde ela tinha utilizado elegantemente a forma conjuntiva.
Provocava-a. Queria que ela o desafiasse, que lhe respondesse
como criatura arrogante e híbrida. Ele sabia que ela procurava violar a lei que Deus tinha imprimido no universo, usurpando a justa autoridade dos homens sobre ela.
Vá, incitava-a ele. Diz o que pensas. Se ela o fizesse, ele tinha o
que queria. mas a Joana lutou consigo mesma para controlar as suas emoções. Ela sabia o que Odo estava a tentar fazer. Mas, por muito que a provocasse ela não lhe daria esse prazer. Não lhe daria motivo para a dispensar da escola.
Mantendo a voz baixa, respondeu num tom neutro: — Não tenho desculpa, senhor.
— Muito bem — disse Odo. — Como castigo pela tua indolência
vais copiar vinte e cinco vezes a passagem de Primeira a Timóteo, do capítulo segundo, versículos onze e doze, com uma letra certinha, antes de saíres.
Dentro da Joana fervia um ressentimento sombrio. Homem mau,
de ideias curtas! Se ao menos ela pudesse dizer-lhe o que pensava dele!
— Sim, senhor. — Manteve os olhos baixos para ele não poder ler
os seus pensamentos.
Odo estava desapontado. Mas a rapariga não aguentaria isto para
sempre. Mais tarde ou mais cedo — a ideia fazia-o sorrir — desistiria. E, quando assim fosse, ele estaria à espera.
Deixou-a e foi ver dos outros estudantes.
Joana suspirou e pegou no seu estilete. Primeira a Timóteo,
segundo capítulo, versículos onze e doze. Ela conhecia-o bastante bem; não era a primeira vez que Odo lhe tinha dado aquele castigo. Era uma citação de São Paulo: "Não autorizo que uma mulher ensine, nem domine um homem; ela deve ficar quieta e calada com a submissão que lhe é devida."
Estava a meio da cópia, quando começou a sentir que qualquer
coisa não estava bem. Levantou os olhos. Odo tinha-se ido embora. Os rapazes estavam à porta, a falar uns com os outros.
Era estranho.
Normalmente, apressavam-se a sair, mal as lições terminavam. Olhou para eles, inquieta. João estava à margem do grupinho, a
ouvir.
Os olhos de ambos cruzaram-se e ele sorriu e acenou-lhe. Ela devolveu-lhe o sorriso, depois, recomeçou a escrever. Mas, um arrepiozinho de alarme levantou-lhe os cabelos na nuca.
Será que os rapazes estavam a planear alguma coisa?
Arreliavam-na e atormentavam-na frequentemente — Odo não
fazia nada para o impedir — e apesar de ela suportar tudo em silêncio, tinha um medo terrível das manigâncias deles.
Acabou as últimas linhas à pressa e levantou-se para sair. Os rapazes estavam à porta. Ela sabia que estavam à espera dela.
Levantou o queixo, determinada. O que quer que fosse que tivessem planeado, ela passaria por eles rapidamente e saíria.
O seu casaco estava pendurado num cabide em madeira perto da
porta. Ignorando ostensivamente os rapazes, pegou no casaco, aconchegou-o ao pescoço e levantou o capuz.
Caiu-lhe na cabeça uma coisa pesada e húmida. Ela tirou
imediatamente o capuz, mas não era capaz de retirar o que tinha na cabeça. O líquido pegajoso começou a escorrer. Ela tocou-lhe com os dedos, que ficaram sujos com uma substância espessa e viscosa. Goma arábica.
Um material comum nas salas de aula e nos scriptoria, e que,
misturado com vinagre e carvão, era usado para fazer tinta.
Ela limpou a mão ao casaco, mas a goma arábica estava pegada. Freneticamente, voltou a puxar o capuz e soltou um grito de dor:
os cabelos estavam colados à parte de dentro.
O grito dela provocou uma explosão de hilaridade entre os
rapazes. Ela dirigiu-se apressadamente para a porta. O grupo dividiu-se quando ela se aproximou, formando duas alas.
— Lusus naturae! — gritaram-lhe eles. — Aberração da natureza! A meio da fila, ela viu o João. Estava-se a rir e a gritar insultos
juntamente com os outros. Os seus olhos encontraram-se; ele corou e desviou o olhar.
Ela continuou a andar. Era tarde de mais quando reparou na peça
de roupa azul perto do chão. Tropeçou e caiu desajeitadamente de lado.
O João, pensou ela. Foi ele que me fez tropeçar. Levantou-se, estremecendo com a dor lateral de que foi
acometida. A substância repelente escorria do capuz para a sua cara. Ela agarrou-a, tentando afastá-la dos olhos, mas era escusado. Escorreu gelatinosamente pelas suas sobrancelhas, para as pestanas, colando-lhe as pálpebras e impossibilitando-a de ver bem.
Os rapazes aproximaram-se, empurrando-a de um lado para o
outro a ver se ela voltava a cair. Ela ouviu a voz de João entre eles, insultando-a. Através da espessa película que cobria os seus olhos, ela rodava vertiginosamente em padrões diferentes de luz e não era capaz de chegar até à porta.
Sentiu a picada súbita de uma lágrima.
Oh, não, pensou. É isso que eles querem — fazer-me chorar e
pedir-lhes misericórdia, mostrar-lhes fraqueza para poderem troçar dela, dizendo que ela era uma rapariga cobarde.
Não terão esse prazer. Não lho darei.
Endireitou-se, controlando-se para não chorar. Esta atitude de
controlo ainda os inflamou mais e eles começaram a bater-lhe com força. O aluno mais velho bateu-lhe violentamente na nuca.
O golpe fê-la cambalear e ela teve de se esforçar para se manter de
pé.
Ouviu-se a voz de um homem a gritar à distância. Será que Odo
tinha vindo, finalmente, pôr fim a isto?
— O que se passa aqui?
Desta vez, ela reconheceu a voz. Geraldo. Na voz dele havia um
timbre que ela nunca tinha ouvido. Os rapazes afastaram-se dela tão de repente que ela quase voltou a cair.
Então Geraldo pôs o braço à volta dos seus ombros, amparando-a.
Ela apoiou-se nele, reconhecida.
— Então, Bernardo. — Geraldo dirigiu-se ao rapaz maior, aquele
que lhe tinha batido no pescoço. — Não foi ainda na semana passada que eu te vi na sala de armas, tentando fugir tão desesperadamente à espada do Eric, que não foste sequer capaz de desfechar um único golpe? E agora, vejo que não tens qualquer dificuldade em lutar, quando a tua rival é uma rapariga indefesa.
Bernardo titubeou uma explicação, mas Geraldo interrompeu-o: — Podes dizer isso a Sua Senhoria, o bispo. Ele vai mandar-te
chamar mal saiba disto. O que irá acontecer ainda hoje, acredita.
O silêncio em redor era absoluto. Geraldo pegou na Joana ao colo.
Ela sentiu com alguma surpresa a força dos seus braços e das suas costas. Ele era tão alto e aprumado que ela nunca se tinha apercebido de que era tão forte. Ela afastou a cabeça para que a matéria pegajosa que a cobria não manchasse a sua túnica.
A meio caminho para a sua montada, Geraldo voltou-se para trás: — E mais uma coisa. Pelo que vi, ela é mais valente do que vós.
Sim, e mais esperta, também, apesar de ser uma rapariga.
Joana sentiu que as lágrimas lhe chegavam aos olhos. Nunca
ninguém a tinha defendido assim, a não ser Asclépios.
Geraldo era... diferente.
Um botão de rosa cresce na escuridão. Não conhece o sol, mas
procura vencer a escuridão em que se encontra, até que, um dia, as suas pétalas se abrem, finalmente. Então, a rosa desabrocha, abrindo as suas pétalas à luz.
Amo-o.
O pensamento atingiu-a de uma forma tão súbita que a perturbou.
O que significaria isto? Ela não podia estar apaixonada por Geraldo. Ele era um nobre, um grande senhor e ela não passava da filha de um humilde cónego. Ele era um homem maduro, com vinte e cinco invernos, e a Joana sabia que ele pensava nela como numa criança, apesar de, na realidade, ela ter quase treze anos e, em breve, ser uma mulher crescida.
Além disso, ele tinha mulher.
A cabeça de Joana era um rodopio de emoções confusas. Geraldo colocou-a em cima do cavalo e montou atrás dela. Os
rapazes ficaram à porta, sem se atreverem a falar. Joana encostou-se aos braços de Geraldo, sentindo a sua força, apoiando-se nela.
— Agora — disse Geraldo, pondo o cavalo num galope brando
—, vou levar-te para casa.
Capítulo 9
O conde Geraldo, grafio vir illuster desta região longínqua no
Norte do império, colocou o seu alazão novo a galope ao aproximar-se de suas propriedades. O cavalo correspondeu imediatamente, impaciente por chegar ao estábulo quente e a um fardo de feno fresco. Ao lado, o cavalo que transportava Osdag, servo fiel de Geraldo, também apressou o passo, apesar do peso do veado abatido que transportava sobre o dorso lhe dificultar a marcha.
Tinha sido uma boa caçada. Numa extravagância — porque,
habitualmente, uma caçada consistia num grupo de seis ou mais homens — Geraldo tinha saído apenas na companhia de Osdag e de dois cães de caça. Tinham tido sorte; encontraram logo pegadas de veado, que Osdag assinalou com a sua corneta de caça e examinou com um olhar treinado.
— Um veado — anunciou ele — e grande.
Seguiram-lhe as pegadas durante quase uma hora, até o avistarem
numa pequena clareira. Geraldo levou o seu olifante de marfim aos lábios e soprou vários silvos em surdina. Os cães partiram em perseguição da presa. Não tinha sido fácil apanhar o animal, com dois homens e dois cães, mas acabaram por conseguir encurralá-lo e Geraldo tinha-o abatido com um único golpe de lança. Tal como Osdag tinha dito, era um grande e belo animal; com o Inverno a aproximar-se, traria um bom contributo para as provisões de Villaris.
Ainda a alguma distância, Geraldo viu a Joana sentada na relva.
Mandou Osdag à frente para os estábulos e cavalgou na sua direcção. Tinha-se afeiçoado surpreendentemente à rapariga durante o último ano. Ela era estranha, não havia dúvidas — muito solitária, muito séria para a idade — mas tinha bom coração e uma inteligência que atraía Geraldo.
Aproximando-se do local onde Joana estava sentada, tão quieta
como os relevos do portal de uma catedral, Geraldo desmontou do alazão e mandou-o seguir à frente. Joana estava tão concentrada que só deu pela sua presença já ele estava a umas dez jardas dela. Então, ela levantou-se, corando. Geraldo estava divertido. Ela não era capaz de disfarçar — uma característica que Geraldo achava muito atraente, tão diferente da... daquilo a que ele estava habituado. Não havia qualquer dúvida de que ela estava apaixonada por ele.
— Estás muito pensativa — disse ele.
— Sim. — Ela levantou-se e aproximou-se para admirar o alazão.
— Ele portou-se bem?
— Muito bem. É uma bela montada.
— Oh, sim.
Ela acariciou a crina brilhante do cavalo. Ela sabia apreciar um
bom cavalo, talvez porque tinha crescido num lugar onde não os havia. Tanto quanto Geraldo sabia, a família dela vivia tão pobremente como quaisquer coloni, apesar de o pai ser cónego da Igreja.
O cavalo soprou-lhe ao ouvido e ela riu-se, encantada. Uma
rapariga atraente, pensou Geraldo, apesar de não ser nenhuma beleza, Os seus olhos grandes e inteligentes eram profundos, as suas feições rudes e largas, assim como os seus ombros largos davam-lhe um ar arrapazado, que se acentuava ainda mais graças ao cabelo dourado, agora cortado, que lhe emoldurava o rosto, mal lhe chegando ao cimo das orelhas. Depois daquele episódio na escola, tinhham sido obrigados a cortar-lhe o cabelo curto; não tinha havido outra maneira para tirar a goma arábica que se tinha agarrado a todo o cabelo.
— Em que estás a pensar?
— Oh. Numa coisa que aconteceu hoje na escola. — Conta-me.
Ela olhou para ele.
— É verdade que as crias da loba branca nascem mortas? — O quê?
Geraldo estava acostumado às suas perguntas invulgares, mas esta
era mais estranha do que invulgar.
— O João e os outros rapazes estavam a dizer isso. Vai haver uma
caçada à loba branca, a da floresta de Annapes.
Geraldo abanou a cabeça afirmativamente.
— Sei qual é. Terrível e selvagem — caça sozinha, separada da
matilha, e não tem medo de nada. No último Inverno, atacou um grupo de viajantes e levou uma criança pequena antes que alguém tivesse podido fazer fosse o que fosse.
Dizem que está com uma barriga cheia de crias — penso que estão
a pensar matá-la antes de ela parir?
— Sim. O João e os outros estão entusiasmados porque Ebbo disse
que o seu pai lhe prometeu que o levava na caçada.
— E então?
— Odo opôs-se terminantemente. Ele próprio trataria de
desconvocar a caçada, segundo disse, porque a loba branca é um animal sagrado, uma manifestação viva da ressurreição de Cristo.
As sobrancelhas de Geraldo ergueram-se, cepticamente.
Joana continuou:
— As crias dela nascem mortas — disse Odo — e, então, o pai
delas lambe-as durante três dias e três noites, até elas regressarem à vida. É um milagre tão raro e tão sagrado que nunca ninguém o viu.
— O que pensas tu disso? — perguntou Geraldo. Conhecia-a
suficientemente bem para saber que ela teria alguma coisa a dizer.
— Eu perguntei como se sabe que isso é verdade, se nunca
ninguém o viu.
Geraldo riu-se alto.
— Aposto que o teu mestre não gostou da pergunta! — Não. Disse que era irreverente. E também não era lógica
porque o momento da Ressurreição também nunca foi testemunhado, e, no entanto, ninguém duvida de que seja verdade.
Geraldo pôs a mão em cima do ombro de Joana. — Deixa lá, criança.
Fez-se um silêncio, como se ela hesitasse em prosseguir. De
repente, ela levantou os olhos, com o seu rosto jovem concentrado e muito sério.
— Como podemos ter a certeza de que a Ressurreição é uma
realidade? Se nunca ninguém a testemunhou?
Ele ficou tão perturbado que deu um puxão nas rédeas e a montada
estacou. Geraldo pôs uma mão sobre o seu flanco castanho, acalmando-o.
Como a maior parte dos nobres nesta região norte do império,
proprietários ricos que tinham atingido a idade adulta sob o reinado do velho imperador Carlos, Geraldo, que era à moda antiga, era um cristão num sentido bastante vago do termo.
Assistia à missa, dava esmolas e tinha o cuidado de guardar as
festas e as observâncias exteriores. Seguia os ensinamentos da doutrina da igreja que não interferiam com a execução dos seus direitos e deveres senhoriais e ignorava o resto.
Mas, conhecia o mundo e reconhecia perigo quando o via. — Não perguntaste isso ao Odo!
— Porque não?
— Meu Deus!
Isto podia significar sarilho. Geraldo não gostava de Odo, o
homenzinho de ideias mesquinhas e de espírito mais mesquinho ainda. Mas, este era exactamente o tipo de arma de que Odo precisava para embaraçar Fulgêncio e forçar Joana a sair da escola. Ou — nem queria pensar — pior ainda.
— O que disse ele?
— Não respondeu. Ficou muito zangado e... ralhou-me. Ela corou.
Geraldo assobiou baixinho.
— Bom, o que esperavas? Já tens idade para saber que há
perguntas que não se fazem.
— Porquê?
Os grandes olhos verdes-acinzentados, muito mais profundos e
sensatos do que os das outras crianças, fixaram-no atentamente. Olhos pagãos, pensou Geraldo, olhos que nunca baixariam os olhos diante de um homem ou de Deus. Perturbava-o pensar o que eles teriam passado para se tornarem assim.
— Porquê? — voltou ela a perguntar, insistente. — Porque não.
Ele estava irritado com a sua insistência. Às vezes, a inteligência
da rapariga, que excedia em muito o seu crescimento físico, era inquietante.
Algo — seria dor ou fúria? — perpassou brevemente pelos olhos
de Joana e, depois, desapareceu.
— Tenho de voltar para casa. A tapeçaria para a parede está quase
pronta e a vossa esposa pode precisar de ajuda para a terminar.
Virou-se, para se ir embora, de queixo erguido. Geraldo estava divertido. Tanto orgulho ferido numa menina tão
jovem! A ideia de que Richild, a sua esposa, precisasse da ajuda de Joana para a tapeçaria era absurda. Ela já se tinha queixado frequentemente da falta de jeito de Joana para coser; o próprio Geraldo já tinha presenciado os esforços frustrados da rapariga para tentar que os seus dedos obedecessem, e tinha visto os pobres resultados do seu trabalho.
A sua irritação dissipou-se e ele disse:
— Não fiques ofendida. Se queres progredir neste mundo, tens de
ter mais paciência com os teus superiores.
Joana olhou de lado para ele, atentando nas suas palavras, depois,
virou a cabeça para trás e riu-se. O som era maravilhoso, gutural e musical, contagioso. Geraldo estava encantado. A rapariga era teimosa, zangava-se depressa, mas tinha um coração generoso e um raciocínio rápido. segurou-lhe no queixo.
— Não queria ser severo — disse ele. — É que, às vezes, tu
surpreendes-me. És tão sensata nalgumas coisas e tão estúpida noutras.
Ela ia a começar a falar, mas ele colocou um dedo sobre os seus
lábios.
— Não sei a resposta para a tua pergunta. Mas, sei que a própria
pergunta é perigosa. Muitos diriam que uma ideia dessas é heresia. Percebes o que isso significa, Joana?
Ela abanou a cabeça gravemente.
— É uma ofensa a Deus.
— Sim. É isso e muito mais. Colocar uma pergunta dessas pode
significar o fim das tuas esperanças, Joana, do teu futuro. Da... tua própria vida.
Pronto. Tinha-o dito. Os olhos verde-acinzentados olharam-no,
resolutos. Não havia retrocesso. Ele tinha de lhe contar tudo.
— Há quatro invernos atrás, um grupo de viandantes foi
apedrejado até à morte perto daqui, nos campos junto à catedral. Dois homens, uma mulher e um rapaz pouco mais velho do que tu és agora.
Ele era um soldado aposentado, um veterano das campanhas
imperiais contra os bárbaros obodritas.
Ainda lhe subia o sangue ao rosto, só de pensar. A morte, mesmo
nas suas formas mais terríveis, não tinha segredos para ele. Mas, horrorizava-o pensar naquela morte. Os homens estavam desarmados, e os outros dois... tinham demorado muito tempo a morrer. A mulher e a criança eram os que tinham sofrido mais porque os homens tinham tentado protegê-las com os seus corpos.
— Lapidados — os olhos da Joana abriram-se de espanto. — Mas,
porquê?
— Eram arménios, membros de uma seita conhecida como os
paulicianos. Iam a caminho de Aachen e tiveram a pouca sorte de passar por aqui precisamente depois de as vinhas terem sido atingidas por uma tempestade de granizo. Nessas alturas, as pessoas procuram encontrar um motivo para os seus problemas. Quando o procuraram, ali estavam eles — forasteiros e com um tipo de pensamento suspeito.
Tempertaru, foi assim que lhes chamaram, por causa de dizerem
que eles tinham utilizado magia para desencadear uma violenta tempestade. Fulgêncio tentou defendê-los, mas eles foram interrogados e as suas ideias foram consideradas heréticas. Ideias, Joana — ele olhou-a com um olhar aflito — não muito diferentes da pergunta que colocaste hoje a Odo.
Ela ficou calada, olhando para longe. Geraldo não disse nada,
dando-lhe tempo.
— Asclépios disse-me uma vez uma coisa parecida - acabou ela
por dizer. — Algumas ideias são perigosas.
— Ele era um homem sensato.
— Pois era. — Os seus olhos suavizaram-se com a
recordação.Vou ter mais cuidado.
— Está bem.
— Agora — disse ela — conta-me. Como podemos saber que a
história da Ressurreição é verdadeira?
Geraldo riu, desarmado:
— Tu és incorrigível.
Ele despenteou-lhe o cabelo dourado tosquiado. Vendo que ela
continuava à espera de uma resposta, acrescentou:
— Muito bem. Vou dizer-te o que penso.
Os olhos dela brilharam de interesse. Ele voltou a rir-se. — Mas, agora não. Pistis precisa de descansar. Vem ter comigo
antes das vésperas e, então, falaremos.
A admiração da Joana transpareceu-lhe, indisfarçável, nos olhos.
Geraldo acariciou-lhe a face. Ela não passava de uma criança, mas era inegável que o tocava. Bem, o seu leito matrimonial era suficientemente frio, Deus o sabia, para que ele apreciasse o calor de um afecto tão inocente, sem que isso lhe pesasse muito na consciência.
O cavalo voltou a assoprar ao ouvido da Joana. Ela disse: — Tenho uma maçã. Posso dar-lha?
Geraldo acenou afirmativamente.
— Pistis merece uma recompensa. Portou-se bem, hoje; um dia,
há-de ser a melhor montada de caça.
Ela meteu a mão no seu saco e tirou uma maçãzinha verde.
Chegou-a ao focinho do cavalo que a lambeu gentilmente, depois, engoliu-a. Quando ela retirou a mão, Geraldo viu uma mancha vermelha. Ela apercebeu-se de que ele tinha visto e procurou esconder a mão, mas ele apanhou-a e virou-a para a luz. Na palma da mão, havia um corte profundo, um pedaço de carne cortada e sangue seco.
— Odo — disse Geraldo baixinho.
— Sim.
Ela gemeu quando ele tocou cuidadosamente nos limites da ferida.
Era evidente que Odo tinha utilizado a vara mais do que uma vez e com bastante força; a ferida era profunda e precisava de ser tratada imediatamente, para não infectar.
— Temos de tratar disto imediatamente. Vai para casa; vou lá ter
já.
Teve de se esforçar para manter uma voz firme. Ficou
surpreendido com a intensidade das suas próprias emoções. Odo tinha todo o direito de a castigar. Aliás, tinha talvez sido melhor que ele o tivesse feito, porque, tendo vingado a sua cólera desta forma, era menos provável que levasse a questão adiante. Mesmo assim, a visão da ferida provocou em Geraldo uma fúria irracional. Teria desejado esganar Odo.
— Não é tão mau como parece. — Joana olhava-o atentamente
com aqueles olhos inteligentes e profundos.
Geraldo voltou a examinar a ferida. Era funda, precisamente na
parte mais sensível da mão. Qualquer outra criança teria chorado e gritado de dor. Ela não tinha dito uma palavra, nem sequer depois de ter sido interpelada.
No entanto, algumas semanas antes, quando lhe tinham cortado o
cabelo para lhe tirar a goma arábica, tinha gritado e lutado como uma sarracena. Depois, quando Geraldo lhe perguntou porque tinha ela resistido daquela maneira, ela não foi capaz de dar uma explicação melhor do que dizer que o som das tesouras a cortar-lhe o cabelo a tinham assustado.
Uma rapariga estranha, não havia dúvida. Talvez fosse por isso
que ele a achava interessante.
— Pai!
Dhuoda, a filha mais nova de Geraldo, corria pela colina abaixo,
na direcção onde Joana e ele se encontravam, no meio das árvores. Eles esperaram que ela os apanhasse, corada e sem fôlego da corrida.
— Pai!
Dhuoda levantou os braços ansiosa e Geraldo pegou-lhe e
levantou-a no ar, fazendo-a rodopiar, enquanto ela gritava exuberantemente. Quando ele achou que já bastava, poisou-a no chão.
Corada e excitada, Dhuoda puxou-o pelo braço. — Oh, Pai, anda ver! A Lupa pariu cinco cachorros. Posso ficar
com um, Pai? Pode dormir na minha cama?
Geraldo riu-se.
— Veremos. Mas, primeiro... — ele agarrou-a com força porque
ela já se tinha virado para correr de volta a casa, à frente dele —, primeiro, leva a Joana para casa; ela tem a mão ferida e precisa de a tratar.
— A mão? Mostra-me — pediu ela à Joana, que levantou a mão
com um sorriso magoado.
— Ooooooh. — Os olhos de Dhuoda abriram-se de fascínio
horrorizado, ao ver a ferida. — Como foi?
— Ela conta-te no caminho para casa. — interrompeu Geraldo,
impaciente. Ele não estava a gostar do aspecto da ferida; quanto mais cedo fosse tratada, melhor. — Despacha-te e faz como eu te disse.
— Sim, Pai. — Dhuoda disse para a Joana simpaticamente. — Dói
muito?
— Não o suficiente para me impedir de chegar primeiro ao portão!
— respondeu Joana e desatou a correr.
Dhuoda gritou de alegria e correu atrás dela. As duas raparigas
subiram a colina juntas, rindo.
Geraldo ficou a olhar, sorrindo, mas os seus olhos estavam
preocupados.
O Inverno chegou, assinalado indelevelmente na cabeça da Joana
pela sua passagem para a idade adulta. Tinha treze anos e devia estar a contar com isso, mas, mesmo assim, apanhou-a de surpresa — o súbito aparecimento de uma nódoa castanha-escura na sua túnica de linho e uma dor forte na barriga. Apercebeu-se imediatamente do que se tratava — já tinha ouvido a sua mãe e as mulheres da casa de Geraldo a falarem sobre isso muitas vezes e tinha-as visto a lavarem os seus panos todos os meses. Joana falou com uma criada, que se apressou a trazer-lhe um monte de panos limpos, piscando o olho, como quem sabe, quando lhos entregou.
Joana detestava o que se estava a passar. Não só por causa da dor e
do incómodo, mas também por causa do significado que aquilo tinha. Sentia-se traída pelo seu próprio corpo, que parecia estar a ganhar cada dia contornos novos e desconhecidos. Quando os rapazes da escola começaram a fazer reparos trocistas aos seus seios que cresciam, ela atou-os firmemente com pedaços de pano. Doía, mas valia a pena. O seu género tinha sido sempre uma fonte de infelicidade e frustração, desde que ela se lembrava, e ela pretendia lutar tanto quanto possível contra a emergência da prova da sua feminilidade.
* * *
Wintarmanoth trouxe um gelo terrível, que atingiu a terra como
um punho de ferro. O frio era tanto que fazia bater os dentes. Os lobos e os outros predadores da floresta aproximaram-se da cidade mais do que nunca; eram poucos os aldeões que se atreviam a sair sem motivo muito forte.
Geraldo tentou convencer Joana a não ir à escola, mas não a
conseguiu dissuadir. Todas as manhãs, excepto ao sábado, ela vestia um grosso manto de lã, enrolando-o ao corpo, de forma a não entrar o vento; depois, enrijecendo o corpo contra o frio, percorria as duas milhas até à catedral. Quando vieram os ventos serranos e frigidíssimos de Hornung, espalhando o frio pelos caminhos, Geraldo mandou selar um cavalo todos os dias para ele próprio levar e trazer a Joana da escola.
Apesar de a Joana ver o seu irmão na escola todos os dias, ele
nunca mais lhe tinha falado. Continuava a ser tremendamente lento nos estudos, mas a sua arte no uso da espada e da lança tinham-lhe alcançado o respeito da parte dos outros rapazes e ele apreciava visivelmente a sua companhia.
Não desejava perder o seu recém-descoberto sentimento de
pertença pelo facto de reconhecer uma irmã que era um embaraço. Afastava-se sempre que ela se aproximava.
As raparigas da cidade também se afastavam dela. Olhavam para a
Joana com desconfiança, excluindo-a dos seus jogos e mexericos. Ela era uma aberração da natureza — tinha a inteligência de um homem, o corpo de uma mulher, não encaixava em lado nenhum; era como se pertencesse a um terceiro sexo, amorfo.
Ela não tinha companhia. Excepto a de Geraldo, é claro. Mas,
Geraldo bastava. Joana ficava feliz só de estar perto dele, de falar, rir e conversar com ele sobre coisas de que não podia falar com mais ninguém no mundo.
Num dia frio, depois de ambos regressarem da escola, ele fez-lhe
um sinal com a mão.
— Anda cá. — disse ele. — Quero mostrar-te uma coisa. Levou-a através do grande vestíbulo de entrada no solar até ao
pequeno escritório onde guardava os seus papéis. Pegou numa coisa comprida e rectangular e deu-lha.
Um livro! Um tanto velho e gasto, mas intacto. Em belas letras
gravadas a ouro na capa de madeira estava escrito o título: De rerum natura.
De rerum natura. A grande obra de Lucrécio! Asclépios tinha-lhe
falado muitas vezes da sua importância. Só existia uma cópia, segundo se dizia, guardada cuidadosamente na grande biblioteca de Lorsch. Mas, Geraldo estava a oferecer-lho tão naturalmente como se fosse um pedaço de carne.
— Mas, como...? — ela levantou os olhos curiosos para ele. — O que está escrito pode ser copiado — respondeu ele com um
sorriso cúmplice. — Pelo preço que custou, que foi bastante. O abade regateou bastante, dizendo que tinha poucos escribas. E, de facto, levou mais de dez meses a terminá-lo. Mas, aqui está. Não custou nem mais um denário do que vale.
Os olhos de Joana brilharam, quando apalpou a capa do livro. Durante todos os meses em que tinha estudado na escola, nunca
lhe tinha sido permitido trabalhar com textos como aquele. Odo tinha-a proibido terminantemente de ler as grandes obras dos clássicos da biblioteca da catedral, restringindo-a ao estudo dos textos sagrados, que, segundo ele dizia, eram mais adequados à sua mente feminina, fraca e impressionável.
Orgulhosa como era, não tinha deixado que ele visse como isso a
desgostava. Vá, põe grades na tua biblioteca, pensou ela, desafiadora. Não podes pôr grades no meu pensamento. Mesmo assim, tinha ficado com uma fúria, sabendo os tesouros de conhecimento que estavam fora do seu alcance. Geraldo tinha reparado; ele parecia saber sempre o que ela estava a pensar e a sentir. Como poderia ela não o amar?
— Vá, lê-o — disse Geraldo. — E quando tiveres terminado, vem
ter comigo e falaremos sobre o que tu estiveste a ler. O que ele diz vai-te interessar muito.
Os olhos de Joana abriram-se de espanto.
— Então...
— Sim. Já o li. Estás surpreendida?
— Sim. Quer dizer, não... mas...
As bochechas de Joana coraram, enquanto titubeava uma resposta.
Ela não sabia que ele sabia ler em latim. Era raro os nobres e os senhores das terras saberem sequer ler e escrever. Era um intendente, um homem letrado, que geria os seus bens e redigia a correspondência necessária.
Naturalmente, Joana tinha pensado que...
Geraldo riu-se, divertindo-se com o seu embaraço. — Não faz mal. Tu não podias saber. Eu estudei durante alguns
anos na Escola Palatina, quando o velho imperador Carlos Magno ainda era vivo.
— Na Escola Palatina!
O nome era legendário. A escola fundada pelo imperador tinha
algumas das melhores cabeças da época. O grande Alcuíno tinha sido professor naquela escola.
— Sim. O meu pai mandou-me para lá. Queria que eu fosse um
estudioso. O trabalho era interessante e eu gostava bastante, mas era jovem e não tinha temperamento para levar uma vida tão sedentária. Quando o imperador convocou homens para lutarem contra os obodritas, eu fui, apesar de só ter treze anos. Estive ausente durante anos, talvez ainda estivesse, mas, entretanto, morreu o meu irmão mais velho e eu fui chamado a casa para tomar conta da herança que lhe pertencia.
Joana olhou para ele, pensativa. Ele era um estudioso, um homem
de letras! Como era possível que ela não tivesse percebido? Ela devia ter adivinhado pela forma como ele falava com ela acerca dos seus estudos.
— Vá, vai-te embora — enxotou-a Geraldo amigavelmente —, já
sei que não podes esperar. Ainda falta uma hora para a ceia. Mas, está atenta à campainha.
Joana correu pelas escadas acima, a caminho do dormitório que
partilhava com Dhuoda e Gisla. Deitou-se na sua cama e abriu o livro. Leu lentamente, saboreando as palavras, parando ocasionalmente para tomar nota de uma frase ou raciocínio particularmente elegante. Quando a luz do quarto desapareceu, ela acendeu uma vela e continuou a trabalhar.
Continuou a ler, esquecendo-se completamente do tempo e teria
perdido a ceia, se Geraldo não tivesse acabado por mandar uma criada chamá-la.
As semanas passaram depressa, cheias do entusiasmo que Joana e
Geraldo punham no estudo em conjunto. Ao acordar, Joana pensava, impaciente, como haveria de fazer para que o tempo passasse, até ao fim das vésperas, quando, depois da ceia e das devoções devidas, ela e Geraldo podiam retomar a sua leitura de Lucrécio.
De rerum natura era uma revelação — um livro maravilhoso,
cheio de conhecimento e de sabedoria. Lucrécio tinha dito que, para descobrir a verdade, bastava observar o mundo natural.
Era uma ideia que fazia todo o sentido no tempo de Lucrécio, mas
que era extraordinária, senão mesmo revolucionária, no anno domini de 827. Mesmo assim, era uma filosofia que seduzia profundamente o tipo de mentes como a de Joana e de Geraldo.
De facto, foi por causa de Lucrécio que Geraldo capturou a loba
branca.
Um dia, quando Joana regressou da escola, Villaris estava em
alvoroço. Os cães da casa ladravam desesperadamente; os cavalos galopavam como loucos em torno do perímetro dos seus currais; toda a propriedade ecoava com sons ensurdecedores.No meio do pátio, Joana descobriu o motivo de tanta excitação.
Uma grande loba branca lutava, debatia-se e uivava furiosamente
dentro das grades de uma gaiola oblonga. As grades da gaiola, construída em madeira com três polegadas de grossura, rangiam sob as investidas da besta em fúria. Geraldo e os seus homens cercavam a área, com as suas lanças e os seus arcos a postos, não fosse a criatura conseguir libertar-se.
Geraldo fez sinal a Joana para que ela se mantivesse longe. Quando viu os estranhos olhos cor-de-rosa da loba, chispando de
ódio, Joana deu consigo mesma a desejar que as grades resistissem. Depois de algum tempo, a loba cansou-se e ficou parada, com as pernas sólidas e a cabeça baixa, uivando. Geraldo baixou a lança e foi ter com Joana.
— Agora, vamos testar a teoria do Odo!
Durante a noite, ficaram os dois de vigília, determinados a não
perder o momento do parto. Não aconteceu nada. A loba vagueava pela jaula e não mostrava sinais de parto iminente.
Já quase tinham começado a duvidar que a besta estava prenhe,
quando, subitamente, ela entrou em trabalho de parto.
Aconteceu durante o turno de vigia de Joana. A loba levantava-se
e deitava-se no chão, como se não conseguisse sentir-se confortável. Finalmente, começou a roncar e a ter contracções. Joana correu para ir chamar Geraldo e encontrou-o no solar com Richild. Dirigindo-se a eles como um torvelinho, Joana esqueceu-se dos cumprimentos normais.
— Vem depressa! Já começou!
Geraldo levantou-se imediatamente. Richild franziu o sobrolho e
parecia que ia a dizer alguma coisa, mas não havia tempo a perder. Joana virou-lhe as costas e correu pela galeria coberta que dava acesso ao pátio principal. Geraldo, que tinha parado para pegar numa tocha, foi logo atrás dela.
Nenhum deles reparou na expressão de Richild, quando os viu
partir.
Quando chegaram ao pátio, a loba estava em pleno trabalho de
parto. Joana e Geraldo viram aparecer uma patinha, seguida de outra e depois uma cabecinha perfeita. Finalmente, com um último esforço, um corpinho negro escorregou para a palha no chão da jaula.
Joana e Geraldo aproximaram-se para o ver na escuridão da jaula.
O lobinho recém-nascido estava inerte, completamente coberto de
placenta, por isso, eles mal conseguiam distinguir a cabeça da cauda.
A mãe cortou a placenta e comeu-a.
Geraldo levantou a tocha e aproximou-a das grades da jaula para
se ver melhor. O recém-nascido parecia não estar a respirar.
A mãe entrou novamente em trabalho de parto. Já tinham passado
alguns momentos e o recém-nascido continuava a não se mexer ou a dar qualquer sinal de vida.
Joana olhou para Geraldo desanimada. Era assim? Será que ele
jazia ali inerte, à espera que o seu pai lhe instilasse a vida? Será que Odo, afinal, tinha razão?
Se tinha, então, eles tinham-no morto porque o tinham afastado do
pai que lhe daria a vida.
A mãe voltou a uivar; saiu um segundo corpinho, caindo por cima
do outro. O impacto sacudiu o primogénito, que se mexeu e chiou em sinal de protesto.
— Olha! — disseram os dois um para o outro e apontaram ao
mesmo tempo, exultantes. Riram-se, contentes com o resultado da sua experiência.
Os dois cachorrinhos aproximaram-se da mãe para mamarem,
mesmo antes de ela ter terminado de dar à luz o terceiro.
Juntos, Geraldo e Joana viram o nascimento desta nova família.
As suas mãos procuraram-se uma à outra no escuro, encontrando-se e apertando-se em sintonia.
Joana nunca se tinha sentido tão perto de ninguém em toda a sua
vida.
— Sentimos a vossa falta nas vésperas — disse Richild,
acusadoramente, do pórtico. — É a noite de São Norberto, esqueceste-vos? É um fraco exemplo quando o senhor da casa não cumpre as sagradas devoções.
— Tinha mais que fazer — respondeu Geraldo friamente. Richild começou a responder, mas a Joana interrompeu, excitada: — Estivemos a ver a loba a parir as crias! Elas não nascem
mortas, apesar do que as pessoas dizem - disse ela, exultante — Lucrécio tinha razão!
Richild ficou a olhar para ela como se ela fosse maluca. — Tudo o que acontece na natureza tem uma explicação —
continuou Joana —, estais a ver? Os cachorros nasceram vivos, sem qualquer necessidade de sobrenatural, tal como Lucrécio disse!
— Que conversa ímpia é essa? Criança, estás febril? Geraldo meteu-se rapidamente entre elas.
— Vai-te deitar, Joana — disse ele, por cima do ombro dela — já
é tarde.
Levou Richild pelo braço e meteu-a em casa.
Joana ficou onde estava, a ouvir a voz da Richild a ecoar,
estridente, no ar calmo da noite.
— É o que dá educar uma rapariga acima das suas capacidades de
aprender. Geraldo, tens de deixar de a encorajar nestas coisas aberrantes!
A Joana voltou lentamente para o seu quarto de dormir. Depois de a loba ter parido as suas crias, mataram-na. Ela era
perigosa. Já tinha atacado e levado uma criancinha e uma assassina daquelas não podia andar à solta. O último cachorro a nascer era fraco e sobreviveu apenas alguns dias. Mas, os outros dois cresceram, tornando-se cãezinhos robustos e vivos, cujas brincadeiras encantavam Joana e Geraldo. Um deles tinha o pêlo castanho e cinzento, típico dos lobos da floresta nesta parte da terra dos Francos; Geraldo ofereceu-o a Fulgêncio, que teve um prazer especial em o mostrar a Odo. O outro cachorro, o primogénito, tinha o pêlo branco e os olhos opacos e raros da sua mãe; ficaram com ele. Joana e Geraldo puseram-lhe o nome de Luke, em honra de Lucrécio, e o seu afecto pelo cachorro vivaço fortaleceu ainda mais os laços existentes entre eles.