Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 11 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Ramalho Ortigão

 

III

 

AS FARPAS

 

Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o primeiro volume da nova e augmentadissima edição das Farpas.

Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de estações thermaes ou de pequenas villas provincianas—nenhum dos assumptos das antigas Farpas. Este volume é portanto inteiramente novo para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito d'elle.

Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão, saiba vêr e saiba transladar para a sua prosa o aspecto exterior das cousas.

Para descrever uma paysagem, para pintar uma marinha, para nos dar a impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a sillouette d'um monumento archeologico ou o fouillis encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real das cousas que elle pretende fazer-nos vêr.

Não é um psychologo, não é um devaneador.

É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo humano!

Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do n Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso destino...

Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas ideiaes.

Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista, mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas decorativas e espectaculosas.

Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos aspectos e das suas diversas formas.

A côr e a linha—eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do seu temperamento de artista!

Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e pincel—eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas pedagogicas, sempre contrafeitas.

Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista! Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra se podem escolher!

Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as marinhas, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem, alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador.

E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico. Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus livros descriptivos.

Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das cousas.

A toilette d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas cousas se relacionam.

Pelos puffs exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas.

Pela regularidade fria e systematica d'um interior de burguez, que nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações mais puras da vida moral.

E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os mesmos resultados.

É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente um notavel moralista.

É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que d'elles deriva!

N'uma advertencia muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão diz que as Farpas, são escriptas n'um espirito de dilettantismo emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo, a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique um pouco ao leitor, qual o

 

dilettantismo de que Ramalho Ortigão se diz inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas Farpas.

No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos, cada theoria apresenta tal somma de nuances, que se vae pouco a pouco perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade, obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos modos!

Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes!

Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero!

Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio, surdos ás vozes todas que contradissessem o á priori do seu sonho, existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua sensibilidade!

E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que falla Ramalho Ortigão.

Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino dilletante de quantos se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que definil-a com precisão.

E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos inteiramente a nenhuma d'ellas.»

Dilettantismo e doutrinarismo—eis os dois polos do pensamento do homem!

O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa extranha faculdade—que faz uma especie de Proteo de cada entendimento, e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se desfaz, ora se tece a oiro e perolas,

ora se destrama, phantasticamente, substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos olhos.

Comprehendendo d'esta fórma o dilettantismo acha-se uma faculdade superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém, no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade, eminentemente subjectiva.

O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e mais sonoro, e em quem a visão das cousas é tão violenta e tão intensa que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada lucidez.