Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 23 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Capítulo III

Aquelles todos comprehenderam tão bem o catholicismo, como a heroina de Feuillet comprehendeu o alcance moral, pequeno ou grande, que pode extrair-se da doutrina darwiniana.

Já se vê que o que pode concluir-se do livro de Octave Feuillet é realmente desconsolador até á desolação mais intima e mais profunda.

A piedosa e doce mulher christã, collocada em plena sociedade elegante do seculo XIX, tem que fugir, por que principia a perder pé, e tem medo de naufragar. Entre ella e seu marido nunca chega a realisar-se a união intellectual, a invejavel identificação de duas almas, sem a qual o casamento é apenas a attracção dos dois sexos, legalisada perante Deus e perante o mundo.

A vida intima que todos sonham tão penetrada de luz beatifica, tão unida, tão ardentemente vivida por dois espozos moços, intelligentes, namorados, torna-se para qualquer d'elles um lento e obscuro supplicio que os punge, e que, por mutua caridade, elles tentam disfarçar.

A mulher, desligada do ideal catholico, é o monstro que mata, que atraiçoa, que morde a mão que a alimentou, que precipita na deshonra e na inconsolavel dôr o marido que a estremeceu?... Que ha então a fazer?... Que alvitre proporá o auctor de une morte?... Eu por mim humildemente declaro que não concordo com o que elle

diz, que não acceito, as suas aterradoras conclusões.

 

III

É fóra de duvida que hoje a questão religiosa, existente em toda a parte, aqui revelada, ali occulta, é uma das causas determinantes do horrivel mal-estar que tortura o nosso tempo e principalissimamente a nossa raça, mas não se conclua da enorme importancia d'essa questão que a mulher,—fatalmente educada n'este meio cada vez mais materialista, mais negativo, mais incredulo em tudo que seja sobrenatural e alem do humano,—se transforme no perigoso monstro phantasiado por Feuillet.

Que culpa teem as pobres creaturas, educadas agora, das ideas que pairam sobre todos nós, que nos penetram insensivelmente, que nos roubam ao influxo mystico do catholicismo, que, mau grado nosso, substituem pela duvida dolorosa, pela curiosidade analytica, pela ancia penetrante de saber, os enthusiasmos fervidos, as crenças pueris e simples da nossa mocidade.

Não são os homens que nos teem ensinado a duvidar do que elles duvidam? não são elles que nos teem perturbado, agitado, com a sua duvida e incerteza? e sobretudo desnorteado com a leviandade cynica da sua negação? E terão elles tambem culpa por ventura de que os descobrimentos extraordinarios e imprevistos da sciencia, de que o alargamento continuo e progressivo do pensamento, de que as lições irresistivelmente verdadeiras da natureza, desvendada emfim, depois de tantos seculos de mysterio, lançassem por terra, de envolta com a tradição desmentida, tantos dos alicerces em que elles haviam construido o edificio da sua crença?!

Sim, o catholicismo sendo o codigo mais completo que a humanidade elaborou ainda, tinha soluções para todas as crizes do nosso destino, podia dar-nos a paz, podia satisfazer as mais irrequietas ambições da nossa alma. Mas esse catholicismo, contra o qual o enorme oceano chamado humanidade deixou durante vinte seculos bater a onda tremenda das suas duvidas—foi por ventura a nossa geração que o fez em ruinas?!

Se a tibieza da fé, se a incredulidade no mysterio, se o desdem pelo sobrenatural são factos, dolorozos muito embora, se assim o querem, mas factos positivamente adquiridos, se a ancia da verdade, impondo-se ao homem, lhe deu na duvida a sua gloria maxima e tambem a sua maxima tortura, se a nenhum de nós, filhos d'este seculo, e vergados ao pezo terrivel e tragico d'essa herança titanica de tantos seculos de investigação e de angustia, nos é dado fugir á excruciante agonia da nossa eterna e audaciosa interrogação, se nós fômos os eleitos da Historia para esta tragedia que consiste em agonisar junto ao tumulo d'um Deus, digam-me: não será tempo de fazer uma tentativa suprema, que pacifique emfim a nossa consciencia desnorteada e vacillante?...

Pois se fora do catholicismo não podem subsistir as grandes leis moraes, de cujo austero cumprimento depende a nossa felicidade e a nossa intima paz, assim se lançam ás gemonias tantas almas sinceras, tantas almas inquietas, tantas almas sedentas de verdade e de justiça, que não acharam na Egreja a solução aos graves e complexos problemas da vida?...

Porque, emfim, o catholicismo não é uma convicção raciocinada, é uma fé subjugadora. Ha muitos espiritos, que, achando a organisação catholica a mais elevada expressão de força intelligente, que, achando a disciplina catholica o mais frizante e Porque, emfim, o catholicismo não é uma convicção raciocinada, é uma fé subjugadora. Ha muitos espiritos, que, achando a organisação catholica a mais elevada expressão de força intelligente, que, achando a disciplina catholica o mais frizante exemplo da vontade applicada á moral, sentem com tudo que, para serem catholicos, lhes falta simplesmente... tudo!

Tudo, quer dizer a fé na origem divina d'essa religião que os enthusiasma, que os apaixona, considerada como resultante de uma serie de leis historicas e puramente humanas. A nossa crença, ou a nossa duvida, estão em nós; mas dependem acaso de nós?

Não, mil vezes não!

Os estados da nossa consciencia proveem do ambiente moral que temos respirado desde o berço e de uma serie de causas existentes já antes de nós existirmos, e cujos effeitos herdámos involuntaria, inconscientemente.

Se a nossa vontade entra como elemento importante na obra complexa do nosso destino, ella é apenas um elemento, subordinado a centenas de outros, que nós não podemos sujeitar, nem prever sequer.

Assim como o sangue que nos corre nas veias vem eivado, ou fortalecido já, de maculas ou de qualidades hereditarias, o nosso espirito traz impresso o cunho de mil influencias anteriores á propria formação d'elle. Ninguem se esquiva ás idéas do seu tempo; e tão impossivel seria Voltaire em plena Edade Media, como S. Francisco de Assiz em pleno seculo XIX.

Portanto, tudo o que se diga hoje, para provar que a mulher é absolutamente obrigada a ter a fé de santa Theresa, não passa d'um entretenimento de rhetorica, sem a minima seriedade, e sem o minimo pezo.

Eu, já se vê, que ponho aqui completamente de parte aquella porção distincta e particular da sociedade do meu tempo, para a qual a religião é um luxo, requintado, feito de pequeninos apuros frivolos, um ritual de praticas estereis, sem pensamento, sem alma, sem significação moral, um preceito de alta educação mystico-elegante, um formulario ôcco, uma lampada artisticamente cinzelada, sim, mas já sem oleo perfumado e sem luz fecunda e clara! Mas se, alem d'essas praticantes, que sabem a letra do Evangelho e que não sabem ou não querem saber a preciosa essencia do seu espirito, se alem d'essas zelosas, que contradizem e desmentem a cada passo a doutrina que acceitam, ha ainda hoje creaturas simples, piedosas, absolutamente crentes, que teem a fé do carvoeiro, como guia da propria existencia, que, aquellas que não podem imital-as lançam para ellas um olhar de admiração, de inveja sem fel, e lhes digam ingenua e simplesmente!—Abençoadas sejaes vós, ó doces e queridas irmãs, que nunca tereis de hesitar nos desfiladeiros e nos algares, nas asperas charnecas e nas rudes montanhas d'esta vida! Abençoadas sejaes vós, que pudesteis fechar os ouvidos ao clamor confuzo das gerações atormentadas e não ouvir o que dizia, no murmurio vago das noites mysteriozas, a voz de tantos ardentes corações, pedindo á Natureza um raio de luz, um raio de verdade, a pacificação suprema ás torturas, sempre renascentes, da Duvida! Abençoadas sejaes vós, que para cada pergunta da vossa consciencia, tendes a resposta prompta do vosso codigo divino!

E depois da rapida e ephemera passagem, que é para vós a vida, tendes, para matar todas as sedes, a Eterna fonte sempre limpida; para compensar de todas as abnegações terrestres, a celeste recompensa, sempre renovada; para satisfazer todas as ambições ainda as mais incontentaveis, a ineffavel beatitude sempre luminoza e sempre azul!

São essas as felizes, as privilegiadas, as raras.

Mas não são essas que precisam das lagrimas da minha piedade, nem dos conselhos da minha razão.

As que n'este momento de transição terrivel, eu supponho bem dignas de piedade, aquellas para quem eu desejava ver formulado um codigo de moral positiva, feito de todas as acquisições da experiencia, são as que não teem uma fé solida a dirigil-as na vida.

A moral preciza de tornar-se independente de qualquer religião, para ser, ao lado d'ella ou sem ella, o principio dominante a que sujeitamos todos os arrojos do nosso pensamento, todos os impetos desordenados da nossa paixão. Porque é fatal que o individuo tenha de sacrificar-se pela collectividade, e que a vontade de cada homem se subordine á utilidade e ao bem de todos.

A moral positiva, disem os seus adversarios, funda-se pura e exclusivamente no interesse. É triste eu bem sei, que é triste, esta conclusão humilhante a que temos de chegar; mas qual é a lei que se nos impôe e que nós acceitamos, que não tenha por fundamento mais ou menos disfarçado o nosso proprio interesse? A felicidade no ceu ou a felicidade na terra, eis os unicos motores que dirigem este hybrido ser, meio animal e meio anjo, que se chama homem.

N'este momento, pois, o ponto interessante e capital a discutir vem a ser este: Dos resultados já liquidados de todas as sciencias particulares poderá sommar-se um capital de conhecimentos positivos, capaz só por si de constituir a moral social?

Se a resposta feita pelos observadores, pelos moralistas, pelos philosophos, fôr affirmativa, que elles tratem de formular esse codigo, visto que a humanidade, eterna tutellada, abomina a independencia da sua propria razão, e preciza de ter escripta, e reduzida a preceitos dogmaticos, cada uma das leis a que tem de subordinar o seu destino.

Se a resposta, por emquanto, for negativa, trabalhe-se no sentido de augmentar as riquezas já coordenadas, e tracte-se de chegar cedo á conclusão pacificadora, pela qual todos nós anceiamos.

Acreditemos, para nossa consolação e para nosso descanço, que ha em nós, independentemente de qualquer principio extranho, embora superior, a aspiração permanente ao que é bom, ao que é bello, puro e harmonioso.

Muita vez, é claro, a paixão desvaira a mulher, mas a mulher religiosa nem sempre escapa a esses desvairamentos, visto que a Historia os aponta nos seculos do mais exaltado ascetismo. Não queiramos particularisar tanto o sentimento da moralidade, que esta não possa viver senão ao abrigo de qualquer templo.

É um mau serviço que fazemos, pois que não nos é dado a nós, nem a ninguem, obstar a que o ideal religioso vá pouco a pouco cedendo o passo á invasão triumphante, embora desconsoladora, da sciencia positiva e experimental.

 

Escrevendo o que ahi fica, eu não tomo o partido contra as tendencias da minha epocha, nem a favor d'ellas. Sou o relator imparcial do espectaculo a que assisto. Não ha porém, a meu ver, tragedia mais dolorosa do que esta de que o meu tempo é o theatro.

E sinto no fundo desconsolado e escuro da minha alma de mulher, aquella ineffavel tristeza dilaceradora que Virgilio sentiu, quando, pelas florestas do seu Lacio, ouviu passar a voz lamentosa e inolvidavel, que annunciava ás gentes a morte do velho Pan!

Desgraçadas as gerações que são fatalmente condemnadas a assistirem ao desmoronar de um mundo.