Alguns Homens do Meu Tempo
Capítulo IV
Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e produzido a grande evolução naturalista agora triumphante.
Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de porta-estandarte de uma Idéa civilisadora e grande!
Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista infatigavel?
A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo.
IV
Para mim—e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que servem de prefacio aos magnificos versos do poeta—para mim o que prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de que os seus ultimos sonetos são a mais completa expressão, foi justamente o excesso do pensamento, o abuso da analyse, a que elle se entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que baste á envergadura das suas ambições.
Pensou de mais, quiz conhecer e sondar e penetrar de mais as theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes, phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia.
São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente.
Mas a nós homens não é dado achar a Verdade!
Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,—elle, o pensador sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista incorrigivel que o mysterioso au delá captiva e chama, apezar da negação feroz
dos racionalistas e da indifferença systematica do positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía, seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de uma especie de bhudismo mental que nos seus versos se reflecte ás vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!...
Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma d'este poeta, que viveu a sua poesia antes de a ter feito!...
Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle aspirava é que não era a de toda a gente, e por isso a procurou de balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas grandes botas de sete leguas á conquista d'esse Velo de ouro, que se chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!...
E é a historia d'essa viagem terrivel que estes sonetos nos contam; por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem!
Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu
estes versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas do livro, por esse espaço fóra...
Porque a noite é a imagem da Verdade
Que está além das coisas transitorias,
Das paixões e das formas illusorias,
Onde sómente ha dôr e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano, Em rede de mil malhas mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição
D'uma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão...
..................................................
..................................................
De que são feitos os mais bellos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? De illusões, de dôres, De miserias, de magoas, e agonias!
O sol, inexoravel semeador.
Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dôr!
Oh! como cresce sob a luz ardente
A seara maldita! Como freme
Sob os ventos da vida, e como geme
N'um sussurro monotono e plangente!
Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!...
Se a vida é isto—e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos Sonetos,—para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo nihilismo em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está claramente indicado...
Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades, toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade, todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação.
Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão vivido nem um estado de alma que a minha alma não comprehenda e não justifique.
E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de emoções cambiantes!
É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas pelos profanos da sciencia, e pelos diletantti do pensamento?...
É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em delicados e artisticos florões.
Mas—e é este o supremo merecimento d'este livro—é tudo isto sinceramente, espontaneamente, sem pose, sem artificio, sem estudo previo!
Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona, é um cerebro que vibra, é um sincero que põe toda a potencia das faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr!
Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final de todo o esforço humano?
Em vão luctamos! Como nevoa baça
A incerteza das cousas nos envolve;
Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve Nas suas proprias rêdes se embaraça.
O pensamento que mil planos traça,
É vapor que se esvae, e se dissolve,
E a vontade ambiciosa que resolve
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um pressentir divino...
Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Echoam nossas vozes que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo!
Contradictorio? sim; mas verdadeiro!
Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem sempre.
Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas sérias e graves que fazem a opinião publica, quer dizer, que criam esse absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua immobilidade estupida e na sua monotonia secular...