Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 24 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Os Irmãos Goncourt

 

I

 

Um dos defeitos, ou, se preferem, uma das virtudes do nosso tempo é a curiosidade.

Somos curiosos de tudo; descemos ás minuciosidades mais microscopicas, e subimos ás mais altas generalisações. Nada eguala o cuidado attento com que reunimos os documentos dispersos, que devem conduzir-nos á acquisição de uma verdade qualquer, senão o poder de synthese com que sabemos, do encadeamento de todos os phenomenos, tirar a lei que os explica, relaciona e domina.

Em cada ramo do pensamento humano se revella, por todos os modos, a nossa insaciavel e inquieta curiosidade.

A litteratura está, como todas as mais manifestações da actividade physica ou mental do homem, subordinada a esta tendencia tão moderna do nosso espirito. Os livros hoje interessam-nos principalmente, por nos revellarem o machinismo interno de quem os escreveu, e atravez d'elle o homem, com as suas contradicções e desordens mentaes, com os seus desequilibrios, fraquezas, vicios e virtudes.

A critica tornou-se uma especie de romance historico, muito mais interessante que os romances da imaginação.

Para conhecermos os homens, e d'entre os homens o escriptor,— quer dizer, aquelle que mais deve ter condensado em si todas as energias intellectuaes do seu seculo—pegamos nos seus livros e analysamos miudamente, scientificamente, anatomicamente essas creações vivas que elle nos legou.

Cada livro é um orgão ainda palpitante do corpo que estamos dissecando.

Não nos contentamos, porém, com o livro, desde logo destinado pelo seu auctor a ser lido e interpretado pelo publico.

Queremos, exigimos, muito mais. As cartas, os diarios posthumos, as confidencias involuntarias, pelas quaes a alma se manifesta irresistivelmente, nas suas particularidades, nas suas idyosincrasias, eis o que hoje nos satisfaz.

É extraordinaria a indiscricção com que temos ido rebuscar todos os documentos do passado, para encontrarmos n'elles a alma occulta, a vida mysteriosa e latente.

N'esse ponto, temos tido como instrumento maravilhoso de investigação e de critica, o nosso proprio scepticismo, o nosso dilletantismo tão moderno, pelo qual nos é facil penetrar em todas as epochas, comprehender todas as civilisações e assimilar todas as idéas, ainda as mais oppostas e as mais extremas.

O passado, porém, já nos não basta. O homem do passado não é o homem d'hoje. O seculo XVII não pensa como o seculo XVIII, do mesmo modo, porque o nosso seculo não pensa como qualquer dos dois.

A alma contemporanea é bem mais complexa. Dizem que o cerebro moderno tem mais circonvoluções. Pudera! Se elle tem por força muitas mais idéas. Tem todas as que tinham os seus antecessores, e mais aquellas de que fez a acquisição por seu esforço proprio.

E depois sabe muito, sabe de mais, este endemoninhado seculo! Não ha coisa que não fôsse desenterrar para sobrecarregar mais e mais a memoria e a consciencia.

Os que estão acima do nivel vulgar, os que por sua desgraça, pensam, julgam e criticam, são todos mais ou menos hystericos. Ha uns requintes doentios, uma etherisação morbida, um excesso de actividade cerebral no homem da nossa geração, que fôram inteiramente desconhecidos n'outras epocas mais equilibradas e mais sadias. O systema nervoso desconjunta-se-lhes á força de o terem em continua e dolorosa vibração. D'aqui as oscillações e os desequilibrios fataes de todo o mechanismo interno.

Penetrarmos o porquê d'essas aberrações, que nos surprehendem e desorientam nos que são grandes pela imaginação e pelo talento, eis um dos nossos eternos e justificaveis apetites.

É esse que nos leva a devorarmos tudo que são autobiographias, memorias, correspondencias, indiscricções litterarias, sejam de que genero fôrem. As cartas de Julio de Goncourt, o Diario dos dois irmãos, ultimamente publicado por Edmond de Goncourt, fôram, portanto, e estão sendo, objecto da maior curiosidade da parte dos gourmets litterarios de toda a Europa, e não sei se da America tambem.

Os dois Goncourt, por muito tempo desconhecidos e negados, são hoje, finalmente, considerados como os continuadores do pensamento de Balzac, sob uma fórma litteraria, mais artistica, mais requintada, mais tourmentée que a do grande romancista da Cousine Bette.

N'este exercito, cujos generaes se chamam Flaubert, Zola, Daudet, —são os Goncourt que vão na vanguarda, desbastando a grande floresta, em que Balzac foi o primeiro a penetrar, com as suas passadas de gigante e a força herculea do seu machado de explorador.

Esta geração começa a perceber quanto deve a Balzac; e é realmente honroso para ella, pagar emfim a divida que os contemporaneos d'esse escriptor assombroso, tão grande como Shakespeare, deixaram de solver!

Se os Goncourt são os precursores da escola chamada naturalista, e cuja paternidade se attribue injustamente a Flaubert, é fóra de duvida que elles, o proprio Flaubert, Zola, Daudet, e alguns discipulos d'estes, são apenas os filhos espirituaes de Balzac.

Elles são incontestaveis e distinctos artistas; elle era o Genio.

Cada um d'elles tem a sua accentuada individualidade propria. Um, a analyse impessoal, outro a amplificação e a força brutal e desregrada; este a sensibilidade feminina quasi doentia; aquelle a fina intuição psychologica, a visão interior n'um grau de lucidez estranho.

Todos, porém, procedem do Mestre.

O seu largo sôpro creador penetra-os e inspira-os a todos. Nenhum d'elles teria a magistral perfeição technica da fórma e a comprehensão ampla do assumpto que tractam, na altura em que a possuem, se o auctor da Eugenie Grandet, do Pêre Goriot, e de tantas obras immortaes lhes não tivesse ensinado o caminho a seguir.

Os Goncourt, todavia, sendo os primeiros que se filiaram, sob uma fórma diversa, na escola iniciada pelo genial creador da Comedia Humana, nem por isso são os mais conhecidos e os mais apreciados. Só uma limitada élite intellectual seguiu com profundo interesse o trabalho d'estes irmãos gemeos em litteratura.

Duas qualidades predominantes os distinguem. A finura subtil e delicada da analyse e a linguagem que á força de trabalhada adquiriu uma fluidez, uma flexibilidade, uma sinuosidade ondeante, uma transparencia crystalina, uns tons, uns cambiantes, umas côres que a tornam apta para notar e traduzir a impressão mais fugitiva, ou mais rara, o traço mais leve, a sensação mais incoercivel, a sombra mais impalpavel do pensamento, ou do sentimento humano.

Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão nunca ser uns escriptor Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão nunca ser uns escriptores populares. Só os delicados se comprazem n'estas subtilezas da idéa e da fórma.

O que n'elles porém avulta a todos os olhos, é este phenomeno raro de identificação, que fez de ambos um só, sem que possa de modo algum descriminar-se a parte em que qualquer d'elles concorreu para o trabalho commum.

Edmond de Goncourt, quando perdeu o irmão mais novo, que estremecia como uma porção da propria vida, como um membro do seu corpo, ou uma parcella indivisivel da sua alma, ficou por largo tempo emmudecido, no lethargo que succede aos grandes abalos da sensibilidade.

Sahiu d'esse estado, porém, e escreveu entre outros livros, muito inferiores em todo o caso aos que tinham sido collaborados por Julio, um estranho livro, que é necessario lêr attentamente, para que se possa penetrar até certo ponto no segredo da maravilhosa união intellectual, que fazia um só escriptor dos dois escriptores mais requintados e mais vibrantes da moderna litteratura franceza.

Chama-se Les frères Zenganno este livro que, á parte a linguagem, não tem a meu vêr outro merito positivo que não seja a revelação ou antes a critica d'esse phenomeno psychico-litterario de que acima fallámos.

Les frères Zenganno são dois clowns, que trabalham sempre juntos, conseguindo, por um milagre de gymnastica, harmonisar e identificar os movimentos communs.

Percebe-se aqui a allusão ao trabalho litterario em que os dois escriptores consumiram a existencia.

Entremeiados, porém, na obra, um pouco extravagante e levemente phantastica, ha capitulos que são uma confidencia completa, e que mais do que tudo que eu podesse dizer, explicam o caso phenomenal que tanto interesse merece aos observadores, aos criticos e mesmo aos simples profanos da arte.

Oiçamos por exemplo este trecho:

«Os dois irmãos não tinham um pelo outro um simples affecto fraternal. Não. Estavam mutuamente ligados por laços mysteriosos, por affinidades psychicas, e isto apesar de serem de idades muito diversas e de caracteres diametralmente oppostos. Os seus primeiros movimentos instinctivos eram identicamente os mesmos. Experimentavam sympathias ou antipathias egualmente subitas, e quando iam a qualquer parte, sahiam do sitio onde haviam estado, tendo a respeito das pessoas que tinham visto uma opinião inteiramente similhante. Não só os individuos mas tambem as cousas, com o porquê irraciocinado do seu encanto ou do seu aspecto desagradavel, lhes fallavam do mesmo modo a ambos. Emfim, as idéas, essas creações do cerebro, cujo nascimento é d'uma phantasia tão livre, e que tanta vez nos espantam pelo «não sei como» do seu apparecimento, as idéas, de ordinario tão pouco simultaneas e tão pouco parallelas nas uniões de coração entre homem e mulher, até as idéas nasciam commum aos dois irmãos, que não raro, depois de uma pausa silenciosa se voltavam um para o outro para se dizerem a mesma coisa, sem que achassem explicação ao singular acaso que fazia encontrar nas suas boccas, duas phrases que formavam apenas uma só. Assim moralmente acolchetados um ao outro, os dois irmãos precisavam de confundir constantemente os seus dias e os seus serões, separavam-se sempre a custo, e cada um d'elles experimentava na ausencia do outro, o sentimento estranho, indefinivel de alguma coisa de incompleto e de mutilado.

«Quando um tinha sahido por algumas horas parecia que o que sahia levava para fóra o poder de attenção do irmão que ficára em casa, e que não podia fazer mais nada senão fumar até á volta do ausente.

«E se a hora annunciada para o regresso passava, o cerebro do que estava á espera, enchia-se de desastres, de catastrophes, de accidentes medonhos, de preoccupações estupidamente sinistras, que o faziam correr continuamente do quarto á porta da rua. De modo que só forçadamente os separavam; que um, nunca acceitava o convite que o outro não devesse partilhar; e que, relembrando todos os annos da sua existencia commum, elles só recordavam terem passado vinte e quatro horas completas, um longe do outro.

«É necessario, porém, accrescentar que, entre os dois irmãos, este estreitamento de fraternidade fôra feito por alguma coisa de mais poderoso ainda que tudo isto. O trabalho de ambos achava-se tanto e tão bem confundido, os seus exercicios de tal modo identificados, e tudo que elles faziam unidos, parecia pertencer tão pouco a qualquer dos dois em particular, que os applausos eram sempre dirigidos á associação e que nunca o par tinha sido separado na censura ou no elogio. Era d'este modo que estes dois seres tinham chegado ao ponto de constituirem um—e caso raro, quasi unico nas amisades humanas—de não terem senão um amor proprio, uma vaidade, um orgulho que o publico feria ou acariciava ao mesmo tempo em ambos.»

Foi trabalhando d'este modo, tão subtilmente descripto pelo ultimo que ficou, ferido e inconsolavel para sempre, que elles, fazendo da physiologia o novo instrumento do romance contemporaneo, e levando para os estudos delicadamente cinzelados da Historia o mesmo escrupulo de analyse e a mesma finura extraordinaria de processo, pintaram, desde Maria Antoinette a adoravel, sympathica, leviana e altiva rainha, até Germinia Lacerteux a pobre e humilde creada, victima inconsciente e fatal de um temperamento de hysterica; desde as deliciosas e corruptas amantes de Luiz XV, até á doce e graciosa Renée Mauperrin; desde as endemoninhadas cortezãs do seculo XVIII, até á austera e pensadora madame Gervaisais; conseguindo, ao par d'isto, pôr tanta da vibrante personalidade de ambos em toda a sua obra, que a gente reconhece-os em Charles Demailly, o homem de lettras, victima da sua propria delicadeza organica, e em dezenas de figuras, eminentemente modernas, que atravessam as suas paginas impressionadoras e tão intensas de vida.