Alguns Homens do Meu Tempo

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 16 de 27

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Alguns Homens do Meu Tempo

Capítulo V

 

É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de Quental.

De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras!

Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente hostis?!

O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como uma maré de perdição...

Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de sentir!...

Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,—que desgraçado não será o que a todos experimente!

Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica:

Ouve tu, meu cançado coração,

O que te diz a voz da Natureza

—«Mais te valera, nú e sem defeza,

Ter nascido em asperrima soidão!

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão

Frio e cruel da mais cruel deveza,

Do que embalar-te a Fada da Belleza

Como embalou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionaria,

Silenciosa e triste, ter passado

Por entre o mundo hostil e a turba varia.

(Sem ver uma só flôr das mil que amaste) Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado

Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...

 

Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar, de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os sectarios do velho Bhuda indico chamaram o nirvana!

O nirvana é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do não-ser.

Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes secular do antigo sabio:

«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é sensivel.»

«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e sem aconselhar aos outros a acção.»

«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por elles temido. Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana,»

Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade.

«O mundo é uma illusão immensa.»

Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos ao que é illusorio e passageiro. Não esperemos, e, n'esse renunciamento absoluto (principio da moral bhudica, e fim da philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento de nós mesmos e da Vida universal.

N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna, acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e de cançasso.

 

Envolve-te em ti mesma, oh alma triste!

Talvez sem esperança haja ventura!

 

E n'outro soneto:

Na floresta dos sonhos, dia a dia,

Se interna meu dorido pensamento,

Nas regiões do vago esquecimento

Me conduz, passo a passo, a phantasia.

Atravesso no escuro a nevoa fria

D'um mundo extranho, que povôa o vento, E meu queixoso e incerto sentimento

Só das visões da noite se confia.

Que mysticos desejos me enlouquecem? Do Nirvana os abysmos apparecem A meus olhos, na muda immensidade.

N'esta viagem pelo ermo espaço

Só busco o teu encontro e o teu abraço,

Morte! irmã do Amor e da Verdade!

 

Ó poeta,—eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração pretende affundar-se!

O bhudismo comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas, e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza, devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos!

Comprehende-se o bhudismo no tempo em que a fatalidade das coisas subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor!

Mas imagine-se por um momento o bhudismo triumphante, alastrando pelo mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e vago!

O que seria hoje o mundo?!...

Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a Natureza hostil e inviolada ainda!

Elle resistiu!

E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre, trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo, immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades libertadoras de amanhã!

E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates!

Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia sagrada de mais direitos!

E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições sublimes: